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Full text of "Historia de Portugal ..."

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PORTUGAL 



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BERNARDINO PINHEIRO 

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ILLUSTRAÇÕES 

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36, Rna Nora do Almada, 1.* andar ^■ 

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HISTORIA DE PORTUGAL 



POR 



O xomiL.rro, 



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EMPREZA LrfTERARlA DE LISBOA 



IISTOKIA Dfi rOBTEAI 



SEGUNDO VOLUME 



POR 



BERNARDINO PINHEIRO 



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X^XJCXA.3NrO G03R.ID(®X3B.a 

(ILUSTRAÇÕES 

DE 

MANIISL HE MACEDO 






orriemA nfNMfNícA se j. a. he mttos 

30, RUR Nova do Alraada, :{H 

1877 



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D. DinisE 



CAPITULO I 

O alToreoer d'um grande reinado 

Entrara a naçfto portogueza no ultimo quartel 
dt) século XIII. Exteriormente a sua independência 
estava firmada : as hostes mussulmanas haviam 
sido repellidas pára muito atém das fronteiras, e 
os povos limítrofes de Leão e de Castella reco« 
nheciam e respeitavam a sua jâ incontestável 
autonomia. No interior porém, os três poderes 
qtie entfto verdadeiramente dominavam o estado 
— o rei, o clero ei a nobreza — achavam-se pro* 
fundamentedivididos,eavelhalutadepredominio 
entre os dois primeiros refervia no auge, arras* 
tando em bandos adversos nobres e populares, e 
]>ovoando de iVitrigas, de receios, de violências e 
quiçá deriiinas o pailE inteiro. O pontificado, j4 
decadente mas ainda assas poderoso, fulminara 
sobre A&bnso ni a pena de excommunhfto, e des* 
Kgâra todos os súbditos portuguezes dos deverei 
de obediência e fidelidade para com o rei. 

Rávia onze annos que o velho monarcha, des* 
assombrado inteiramente da guerra estrangeira^ 
proseguia, com tacto e iniciativa, admiráveis para 
a época, a grande obra clvilisadora de organisar 
as finanças, promover o incremento da popula* 
çfto, desenvolver a agricultura e o trabalho nacio* 
nal, levantar as classes inferiores, rebustecendo 
a instituição proficua dos concelhos, e dando-lhei 
voz nas assembléas politicas da naç&o; adminis* 
trava e governava, emfim, na alta significação 
ihis palavras, este liovo e pequeno reiíko, desti* 



nado a alcançar, com a sua futura epopea tnari- 
tima, uma das paginas mais gloríosaft ná historia 
da humanidade. 

Mas as reformas sociaes d'Afronso ni, por pro- 
fundas e attentatorias dos enormes privilégios e 
extraordinários abusos da nobreza e sobre tuAo 
do clero, attrahiram-lhe o ódio do episcopado, 
levantaram-lhe sobre a cabeça o gtadlo pontifi- 
cal, e em tomo lhe acastellaram procella teme- 
rosa. 

Ao iniciar do anuo de 1279, a conservação 
de Afibnso no sólio de Portugal tomara-se im- 
possível para a paz e prosperidade publicas. 
Âchava-se o monarcha em circumstancias quasi 
idênticas âs de seu irmão, Sancho n, quaiido 
elle, simples infante e conde de Bolonha, au- 
xiliado pelos seus inimigos d'agora, facilmerite 
derrubara do throno o valente soldado, e ttie ehi- 
polgâra a coroa. 

D'esta vez porém a natureza foi mais pròiri- 
dente para còm a nação. " ' ' 

O rei estava, se não avançado na idade, alque- 
brado de trabalhos e desgostos, e doente.' Aos 16 
de janeiro julgou sentir approximar-se a sua der- 
radeira hora. Conheceu que para legar o scepiro 
a seu filho era preciso pactuar com òs adversá- 
rios, prometter e jurar, e fazer que Diniz pro- ' 
mettesse e jurasse — tudo quanto elles queriam : 
quasi a abdicação do poder real aos pés do epis- 
copado. Mas o importante era conservar ao her- 
deiro legitimo a coroa e o logar de rei; o mais 
dependia do ftituro; — também elle jurara o pacto 
de Paris, e soubera mais tarde sttbtrahfr-se-Ihe 



/ 



8 



Historia de Portogal 



completamente. Deixava pois ao filho a coroa e 
ama liçfto profunda. 

Se foi este reservado pensamento, próprio do 
mm caracter doble e sagaz, ou o receio das penas 
canónicas e o terror do infeni^ que-Mavejram 



cedeu a sua morte, é assumpto que, além de dif- 
ficil, n&o nos compete a nós averiguar n'este 
logar. 



e defendel-o das pretensões ambiciosas de Cas- 
tella e de Leão ; era o poder ungido e abençoado 
pelo papa ; constituía a unidade da nação, e re- 
presentava-a perante as cortes e os prindpes 
^tnffig^iros. Apesar pois do enfraquecimento in- 



Affonso m á reconciliação com ^clerÒi^e^fir%^ temo é^ pedér real, o rei era uma entidade em 



que o povo d'aquelle tempo, ignaro e semi-bar- 
baro, resumia as suas esperanças, e de que em 
muito dependia o futuro da pátria. 



O facto foi que os dois juraram a ^)e^Í9i^^^s j PaM tt)re8entar por tanto a historia do reino. 



bulias romanas exegida peio pontificado, e que, 
quando, vinte dias depois, o monarcha falleceu, 
— a tranquilidade publica estava restabelecida, 
e a coroa passou ao primogénito, sem contes- 
tações sérias e quasi com unanime assenti- 
mento* 

j!I^\mi^do8 $}f^&S3m degoveroo, l)ipje definit 
dos e vigentes no mundo culto,, governava então 
q^n|ia90 j)ai2.. K^istia, por tácito accordo e direitq 
g^tf^^t})4w9^o, a, iflipnarQbia h^riditjuia, 

W^'iB^ •^'S^ ^W}]^^^^ ^^^ representativas 

Tll^^o^ov^r^a um, caracter mixlQ, em que pre^ 

. 4^|Íl^fYdP9» ^^l^wç^ft çiwdiçrqsos eÍQwenl08. Er^ 

. tbfi9<^tic04p(fqiieMHÍ08 08 poderes» mais ou me- 

nos, estavam subjugados pelo clero nacional Q 

.{^.graxide poderio da santa sé, a que o reino, 

(j^e a fua4a(ã04,«e constituíra censuario, ideiq 

emnoreciídii» mas que. existia ainda, e porque no 

àix^iiçy qmoniço copsistia cm muitos pontos a 

}iffí3ff9^ l^íçl^ção-^D^ vigor; T~P^'^i'b9^a do feuda-i 

lisn)i^ ji;9J9qqa.oç. ricç>s-homeas, as q^thedraes^ 

oa^fQoiaJlt^rps ^ afi orde^is militares, dividiam eni 

tr.Q^^,gi;^de p«H'fe dq reino, e.uas suas terral 

exerciam jurisdição plena, com quasi inteira in-i 

)^Q4j^cÍJ^do po|}pr pentral;— cqmpçjBiya, posto 

que embrionariamente^ a toraar-se popular e de^ 

.,j)ijoçratiçQji jpçla iii][fportancia que, de dia par4 

, dÍAv a4^ii|í;iw ps. jQWÚcipio^ e pelo.poder cres4 

O^iílUL das oõrtes que fruiriam em breve notável 

pr9||PQd,erai^iai — era monarchico e hereditário^ 

ilWHP^ dei^ o con4e.D* Hpcirique^ sepapre. 4 

,,QpjffÇlf^.seuJt^ h^raOjÇa a xmM 

íq^I^^I^, qUfI tpdqs recoi\becifim como cheff 

si)!^;^ judiciário, politico, f 

9^1^ tudo. ip^i,tar.^^'nacão. 

^ ,A. rwlewi ^inha^r pi, ^,tradi(;âo gloriosa d* 



indispensável é monographar o rei. Ambas as 
cousas faremos simultaneamente. 

Nascera D. Diniz em Lisboa aos 9 d'Outubro 
life 1261, e tornou-se depois notável no aflecto 
que sempre dedicou â cidade em que primmro 
viu a luz. Recel^u o noipe de Diniz, que não 
se encontra em monarcha seu antecessor ou pa- 
rentC; por nascer no dia em que a egrejacomme- 
mora S. Diniz, aréopagUay e S. Diniz, apostolo 
das Gallia^i bispo de Paris emartyr. Too^dQeste 
por seu patrono celestial dedlcou-lbe, aiém d^ou* 
trás egr^a^^ o sumptuoso mosteiro d'OdiveUas, 
, qujB, elçgjBV para. jjBuçigQ : j- trfHips oaracteçiptícps 
da época fanática e tão ardeAte aasexterioridfi^ 
des de devoção religiosa. 

£ra ASonso iii príncipe ilhistrado para o sé- 
culo e paiz a que pertencera. Viajara» residira 
largo tempo em França, que partilhava então com 
a Itália os primeiros alvores do renascimento da 
civilisação ; e sentira depois, dirigindo os negó- 
cios públicos do reino, a necessidade que o futuro 
rei teria de cultura espiritual e de sciencia. Por 
tanto esmerott-se quaQto poude na educação du 
seu herdeiro. 

Apçnas attingiu q infante a i^^e fiçffpm^jim' 
lhe por ayo Lourenço Gonçalves Wagrpn eq^irito 
illustrado e probo, que tinha por si a mais gloriosa 
tradicção do cargo, era terceiro neto de Egjm Mo- 
niz» o ayo celebre e legendário d'Affonso Henri- 
ques. 

Exerceu simultaneamente igual missão, ji^nto 
do real pujpillo, Nuno Martins de Chadp, g^tU- 
, homem da primeira nobreza» erudito e pratico 
na sciencia de governar. 

Foram seus professores ailfuns ecdíça^^tíQos 
distinctos nas letras, que Afionso ui mandou vir 



conquistar o territono palmo a palmo aos mfieis, 



^agi dois secu}p^^^^ jVictoriaSf .em que semprt , de França, nomeadamente o português Dpnújjgos 



tlaiído, prtu(}a»f^„da çpl^rg uaiyenji^j^ de Pa- 
ris, do qual adiante fallaremos mais largamente, 






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Tif. nii Ni»i 4< llBiJi. 30. 

D. Diniz e o seu meatre Aymerio d'Ebrard 



^QMrtxwiii ci« FflrtM(P4 



9 



Avmftrií» (1'Rhrard. Batoral d'Aani' 



i áiãaeDsavel.aufi CL£fimero da cultura intellectual 

). É imperterivel dar-Ihes 

ctras, das cousas reaes da 

aes das sciencias, e sobre 

nor da pátria, do progresso 

o emfim iostruil-os, e for- 

hes o caracter. 

i D. Diuiz. Na sua natureza 

semente sã da educação Cru- 

dos annos em que lh'a facul- 

, ocba o podiam permittir. Eis 

ue elle foi um monarcha no* 

iiz. * 

prematuramente, o inicia- 
s. politicas na pratica de go- 

tona do reinado de seu pae, 
(nos que foi em nome de Di- 
) Jberço, que Affonso iiiy para 
lorio, posto que condicional 
. ve, constituiu este reino na 
1 • Castella, com cincoenta lan« 
ra. O infante ficou, n^aquella 
i estados, sujeito & suzerania 
ònso X. 

se tornou exígivel a presta- 
ussulmanos d'Hespanha agi- 
:e)la, e receiou-se seriamente 
giooarlos de África fizessem 
iva, para ossoccorrerem e re- 
I império, aquém do Estreito. 
I ÃObnso X com os seus meios 

-lhe para a guerra santa a de- 
cJesiasticas, não só de Leão e 



mu todavia a Lourenço Gonçal- 

Arega, como consta d'esta rati- 

as a nove de novembro.de mil 

&. seis — Como eu desse a Lou^ 

jmo por criançay Jf por serviço^ 

am a Villa de Arega, J eu revo* 

s, nom foi entam minha entençom, 

ogasse esta doaçom. Tudo merece 

ístre. Esta Villa d'Arega foi po- 

1200 por Pedro Affonso, filho bas- 

ífonso Henriques, & n'este próprio 

..^ Seu irmSo. D* Sancho oprimeiro 



; >, L, 16, c 3. 

TU|$aV^ oas mercês xjj^e iizera.n^ piiQcijHOs ae | * «r. tr^iic. iii<m4<OT--Jíoii»,J^ cit 
VOL. n — 2. 



Tjp. mi Km dt AIbiJi. 31. 

D. Diniz e o seu mestre Aymerlo d'Ebrard 



^^t»rí^ çlQ FPfftiiíspa 



9 



■• •■ _ . 



e Aymeric d^Ebrard,, natural d^Aquitania, pro- 
fundo conhecedor e provavelmente cultor da 
poesia provençal., ^ 

Foram estes os educadores e mestres do prín- 
cipe, que durante quarenta e seis annos, deveria 
jfovernar Portugal, do único rei erudito c amante 
das letras da dymnastia affonsina, do mais illus- 
tre monarçha dos raros que entre nós souberam 
ailiar ao ofiBcio árido e difficil do governo o sen* 
timepto do bello e o culto da poesia. 

Ás vantagens que o monarçha e a pátria colhe- 
ram doesta, relativamente, elevada educaçãu), 
alem de as attestar a historia amplamente, pro- 
vam-nas também a gratidão nacional que con- 
servou na memoria, atravez dos séculos, o nome 
dos perceptoreSy e o reconhecimento que sempre 
por elles mostrou o próprio Diniz, desde que su- 
biu ao throAO. 

AÒ descendente d'Egas Moniz, deu a villa de 
Areça, doação, que mui expressamente confirmou 
depois, ao revogar todas as doações inofficiosas 
dos primeiros annos do seu reinado. ^ A Chacim 
nomeou logo mordomo-mór, o mais alto cargo 
da gerência da casa real e da administração do 
reino, e fel-o mais tarde adiantado, oufronteiro- 
naór das melhores comarcas ou províncias de 
Portugal. 

Com importantes mitras premiou os outros 
dois. Ebfard foi bispo de Coimbra e Domingos 
Jardo de Lisboa. 

A educação dos príncipes deve ser um dos 
mais graves cuidados nas monarchias hereditá- 
rias. Visto o acaso do nascimento lhes conferir a 
elevada missão de dirigir as nações, torna-se in- 

1 D'Ebrard era filho do senhor de Saint Solpróe 
fjqa. Queircy» e pertencia a unui nobre familia de 
Cabors. Amava a sua pátria; e n'iella ediíleou um 
mosteiro no vaUe de Paradis d'Eapagnaç, onde quiz 
ser sepultado. «Ainda hoje, dizia F. Diniz em 1846, 
se vé na egreja do convento ò singelo tumulo do 
perceptor do rei poeta de Portugal, em cujo espirito 
tio pôdérosainehtè influiu.» 

* Àrega, hoje Aregos, é uma pequena viíla do dis- 
irlétò'da Yize^i, quatro léguas ao poente da cidade de 
Lamego, com boas caldas. A respeito d'ella e do caso 
(f^ ^cai^an^ps de referir, diz Fr. F. Brandão o seguinte : 

•iWlliê El-RpijD. JDeuiz esta villa. •. por ser 
^,4ejl,j&jipida íffxe, anno^ ai diaoite fez ^ral re- 
vogação das ínercâs xjjqe fizera nos prÍQcipios de 

voL. n — 2. 



dispensável que o e«nero da cultura intellectual 
lhes facilite o encargo. Ê imperterivel dar-lhes 
o conhecimento das letras, das cousas reaes da 
vida e das noções geraes das sciencias, e sobre 
tudo inspirar-lhes o amor da pátria, do progresso 
e da justiça. É preciso emCm instruil-os, e for- 
mar-lhes, e avigorar-lhes o caracter. 

Nada d^isto faltou a D. Diniz. Na sua natureza 
viva e bem disposta, a semente sã da educação fra- 
ctiScou quanto os rápidos annoa em que lh'a facul- 
taram e arudeza da epocba o podiam permittir. Eis 
a principal razão porque elle foi um monarçha no* 
tavel nos fastos do paiz. ^ 

Cedo, senão talvez prematuramente, o inicia- 
ram as circumstancias. politicas na {Nratica de go- 
vernar. 

Por pertencer á historia do reinado de seu pae, 
só de passagem diremos que foi em nome de Di- 
niz, quando ainda no Jberço, que Affoiíso niypara 
obter a paz e o senhorio, posto que condicional 
e limitado, do Algarve, constituiu este reino na 
obrigação de ajudar Castella, com cincoenta lan- 
ças em caso de guerra. O infwte ficou, n'aquelia 
parte de seus futuros estados, sujeito ã suzeranía 
do avô. materno, Afibnso x. 

Em breves annos se tornou exigível a presta- 
ção do feudo. Os mussulmanos d'Hespanha agi- 
taram-se contra Castella, e receiou-se seriamente 
que os seus correligiooarios de Africa fizessem 
uma suprema tentativa, para ossoccorrerem e re- 
cuperarem o antigo império, aquém do Estreito. 

papa acudiu a AQbnso x com os seus meios 
fáceis : — concedeu-lhe para a guerra santa a de- 
cima das rendas ecclesia^ticas, não s6 de Leão e 

seu reinado, conservou todavia a Lourenço Gonçal- 
ves no senhorio de Arega, ccmio consta d'e6ta rati« 
ficação feita nas Pias a nove de novembro.de mil 
duzentos &. oitenta &. seis -^ Como eu desse a Lou- 
renço Magro meu amo por criança, ff por serviço^ 
que me fez em doaçam a Villa de Arega, J eu rewh 
gasse todalas doações, nom foi entam minha entençom, 
nem he qtie lhe revogasse esta doaçom. Tudo merece 
lim bom aio ít mestre. Esta Villa d' Arega foi po- 
voada no anno de 1200 por Pedro Aifonso, filho bas- 
tardo d'El-rei D. Afibnso Henriques, & n'este próprio 
annp lhe deu foral., Seu irmão, P.Sanç^io oprimeiro 
le.deu aterra.» 

> 

Mon. Lus, vol. 5, L. 16, c 3. 

1 j?r* Franc. VinãJ^o-r^Mon.JÀ»,* cit 



10 



HSmíofrià de P<)t>tiigal 



d« Castella, mas até de Portugal. Para evitar con- 
tendas, livrar o reino da invasão de colleitores 
do imposto pontifício, e talvez para dispor o en- 
sejo dfe «e libertar da suzerania do Algarve, — 
Affonso III enviou Diniz a el-rei de Castella, com 
Dumerosos reforços de mar e terra. 

Contava então o infante quatro para cinco ân- 
uos. Em Sevilha recebeu-o o avô com affecto, e 
posto que se desvanecera já a temerosa tempes- 
tade e se escusasse o auxilio, mostrou taes en- 
cantos a real creança, com tal graça repetiu as 
rogatívas insinuadas, e tão commoventes e a pro- 
pósito foram as suas lagrimas, que o avô dis- 
pensou o neto do feudo das cincoenta lanças, e o 
Algarve, ficou, desde então, plena e exchisiva- 
mente ligado à nação portugueza. * 

Fueril seria attribuir o bom êxito doeste nego- 
cio grave à intelíigencia do infante de tão tenra 
edade ; mas que principiou breve a mostrar apti- 
dão para o governo, parecem mostral-o outros 
factos. 

' Teria pouco mais de dezeseis annos, quando 
seu pae o associou á administração do reino. 
Tudo se fazia em nome do velho monarcha, mas 
era o infante que despachava com os ministros 
as cousas de habitual expediente, e presidia â 
resolução dos negócios. 

■ Para maior esplendor e talvez, como algtins 
suppôcm, para mais livre desenvolvimento da 
sua superior educação, — deu-lhe Affonso ni, em 
20 de junho de 1278, paço especial para habitar; 
constilniu-lhe corte numerosa de dignatarios e 
servidores, escolhidos entre os mais nobres fidal- 
gos do reino; e dotou-o com baixelas e alfaias 
valiosas e uma renda de quarenta mil libras an- 
nuaes; ^ que podemos calcular corresponder na 
mofida de hoje ã somma avultada de dezenas de 
contos 46 réis. 

■ Pbuco depois sahiu o infante de Lisboa, onde 
havia milito residia seu pae, para visitar o reino 
ê se mostrar aos povos. 

' Estes factos, excepcionaes para com o herdeiro 
da coroa, tiveram no espirito ardiloso e profundo 
d'Ãfibn80 ui razão capital. 

' * A. B€tè\xhú(^HisL d^e Port. L. 6.--j|fon. lus, 
vol. 4, Appu Escrit 33 e vol. 5, L. '6, c. 5, App. 
Escrit i. 
2 Fr. Franè. DíáíSíãb ilfcn; Ln$, vbh 55, t. W, c. 



Era ambicioso do poder, não só para si, más 
também para a sua directa posteridade. Alcan- 
çara a coroa a custo, engrandec^a-a com mui- 
tos trabalhos e dissabores, e ao aproximar-se-lhe 
o passamento, sentia-a vacilar na fronte, e co- 
nhecia a possibilidade de a perder também para 
o filho estremecido. Como vimos, o mesmo su* 
pi*emo poder que lh*a outorgara, tentava tirar- 
Íh'a agora. 

Doente, havia annos que jâzia no leito; e, 
por conveniência politica, exagerava o mal, para 
com elle illudir os adversários. 

Manifestava D. Diniz intelíigencia precoce; sa- 
bido apenas da infância, não podia ter malque^ 
renças; e era cortez e affavel. 

Portanto adestral-o a conservar e gerir a glo- 
riosa mas difficil herança que lhe legava; des- 
cançar n'elle parte do pezo do governo com que 
já não podia; e, sobre tudo, acostumar osportu- 
guezes a considerar seu filho primogénito como q 
futuro rei por direito, e acceital-o de facto desde 
já, destruindo assim possíveis reluctancias, e 
suavisando, com a amena innocencia do infante^ 
os ódios e a opposição dos seus adversários pes- 
soaes — tudo foram razões que imperaram no seu 
.coração de pae, e no seu espírito de rei am- 
bicioso e quasi fundador de dynastia collacte* 
ral. * 

Em públicos documentos, Affonso iii declarou 
D. Diniz filho primogénito e herdeiro da coroa, o 
que ainda se não fizera com nenhum outro in- 
fante. 

Para remate do plano, prestaram pae e filho, 
como dissemos, o juramento de obediência às exi- 
gências da egreja, pactuando assim a paz com 
seãB tenazes adversário». 

D'eBt'arte o velho e arteiro roonareha bâlxour 
ao tumulo, conjurando, de sobre a cabeça do snc- 
cessor, o vendaval que, nos últimos tempos, re- 
demoinhara em tomo do seu leito de terríveis 
soffrimentos e d'agonia. 

Falleceu Affonso iii em 1 6 de fevereiro de 1 270. 
N^esse mesmo dia, com as soiemnidade» tradic- 
cionaes do acto, foi D. Dinis, que oompletftnt 

f4 e Í5 e Doe. da G. 13, M. 9 p.» fô e M. 1Í, n>4' 
: do Árch. fíaç. da Torire do Tombo. 

í A. fíerctilano— Jftrf. (fé Púii. L. l6--^tioS)f* 
•féMH«. ifb^Pwrí. l:^; e. l,^í. 



Sitffeoriá do P or tn ga d 



11 



tipenas d^sesete annos e quatro mezee d'edade, 
prochuoiMlo rei de Portugal. ^ 

6ra uma aurora de juventude, levantando a co- 
roa de ferro de Affonso Henriques, e inaugurando 
iOL pátria um largo periodo de paz e civilisação. 

CAPITULO II 

Primeiros aotos do novo governo, 
oasamento de D. Diniz 

Os cuidados que Aflbnso iii tivera para consoli- 
dar oo throno seu filho Diniz foram plenemente 
justificados pelos acontecimentos posteriores. 
Venceu-os, no momento, o velho rei, usando 
dos meios que apontámos, e também por, feliz- 
mente, n§o haver então no reino personagem 
assas poderoso, que se podesse contrapor ao jo- 
yeú monarcha. 

Nos primeiros tempos, a acciamação de D. Di- 
tiiz, se suscitou alguns murmúrios, foram tâo 
pequenos e vagos, que nfto embaraçaram o re- 
gular andamento dos negócios públicos. 

Aventou-seque da coudessa de Bolonha, D. Ma- 
tdiMe, prfttieira esposa de Affonso in, havia um 
mo em Fruiça portaòme Roberto; aflSrmou-se 
i^e efih Portugal exiistift outro chamado Affonso 
Ví1áÊ\ que eram ambos filhos legitimes do falle- 

* 

1 «Chegado o âiitio dê nossa reparação de mil 
chBeatoe e setenta e nove, em uma quinta feira, 
que 98 oOtavaft desaseis do mes de Fevereiro, sendo 
pasaados sete meiseSi e vinte e seis dias, depois que 
se deu casa ao Infante DG Dinis, levou Deos para si a 
el Rei Dõ Afonso Terceiro seu pay. Por morte delle 
íicou logo obedecido o Infante, e jurado em Rey com 
as ceremonias costumadas em actos semelhantes. 

< No cartório da Camará de Lisboa achamos escriptas 
estas palavras, segure fundamento d'esta verdade*: In 
Dei nomine. Snb era mccc x m. feria quinta, de- 
tvHM WártflP die Februarij deeessit Dominas Rex AU 
fmtnu PortmgaHm êt Algarby et incipH Dominm 
Eãx Dionfêiut fUius etue regnare pro eo. Concorda 
oom esta memona outra do livro da Noa de Santa 
Cnu de Coimbra n'estas palavras: xnii Kal. Muriy 
obye D. Alfkonsui tertius iiiclitus Rex Partugalliw 
cuius anima requiescat in pace^ Amen, e. m. ccc. 
X0U et ih ipsa era regnavi D&nus Dionysius filius 
eiuê pro eo, 

«Tradusida em Português esta memoria, diz assi : 

«Na era mil eÍMilà^%À^iààA^lix[ik6tie àas I 



eido rei, — mais velhos que o infante elevado ao 
throno, — e que por tanto a qualquer d'elle8, e 
não a este, pertencia a coroa. 

Com o tempo e o estudo da questão, dissipa- 
ram-se estas duvidas. O conde Roberto, que 
succedera no estado de Bolonha, era Qlho d uma 
tia de Mathilde, e assim primo d*esla, e nTio 
seu filho; por os náo ter a esposa de Affonso iii, 
6 que Roberto recebera o condado em successão 
collateral. Affonso Diniz era filho natural c não 
legitimo do fallecido rei; elle próprio acceitava 
a sua posição inferior, c conservou-se sempre 
em amisade submissa com o imperante, seu 
irmão. * 

Opposição mais seria, e que no capitulo se- 
guinte exporemos, seria porém a que mais tarde 
faria o infante D. Affonso, segundo filho varão 
da rainha D. Beatriz. 

Mas este tinha então apenas 16 annos, pão 
o adornavam, como ao primogénito, prematuros 
dotes d*intelligencia ; e os seus pretendidos di- 
reitos â coroa não acharam echo no paiz nos 
primeiros dias do novo reinado. 

Parece que ainda assim se tomou a precaução 
de confirmar, por consultas de jurisconsulto^ e 
canonistas propícios, o bom direito de successão 
de D. Diniz. Innutilidade porém. Tinha a seu 
favor a suprema rasão politica de todos os tem- 

* • 

Kalendas de Março morreo o Ínclito Rey de Portu- 
gal e Algarve D. Afonso Terceiro cuja alma descansa 
em paz, Amen. E na própria era entrou a reynar em 
seu lugar Dom Dinis seu filho.» A outra da Camará 
de Lisboa diz d'esta maneira : «Em nome de Deos. 
Na era mil trezentos e desasete, quinta feira desaseis 
dias de Fevereiro morreu o senhor Rey de Portu» 
gal, e Algarve Dõ Afonso e começa a reynar o se- 
nhor Rey Dom Dinis seu filho em Portugal e 
Algarve.» Ambas estas memorias estilo conformes 
ainda que variem no computo dos dias e ajnbas 
concordáo em que começou a reynar o nosso Dom 
Dinis de desaseis de Fevereiro do anno de Chrísto 
mil duzentos e setenta e nove adiante, que a este 
numero de annos e dias vem a responder as me- 
morias ambas. Com ellas conoorda outra do livro 
primeiro dos padroados, declarando ser a m(»ie 
del-Rey, Ante galli cantum. 

(Fr. Franc. Brandílo. Mqn. Ln$. . T. 5, L. jj6, 

» 'Fr. f^tiô. Brandão — -iTon. tm.t, S, LJC, 
c i8 e 19. 



líi 



Histutift do Povtacnl 



pos: a posse, com o assentimento geral; a von- 
tade tacita, mas quasi unanime da nação; — 
doesta arte poude o novo rei, desde logo, entrar 
desassombrado, no exercício do poder real e na 
administração do reino. 

Eram então os negócios graves do estado de- 
cididos na cúria, ou junta de ministros, prela- 
dos e ricos homens, residentes na corte, e 
costumavam todos assignar os mais importantes 
diplomas. 

D. Diniz, tomando na dextra juvenil as ré- 
deas do governo, acceitou, com levíssimas mo- 
dificações, os ministros e dígnataríos da corte 
do rei seu pae. Conservou a bístoría os nomes 
dos primeiros; eram o bispo d'Evora, D. Durão 
Pães, que fora prebendado da sé de Sevilha, illus- 
trára-se em Castella e servira largo tempo, como 
clérigo d'Affonso in, no despacho dos negócios 
públicos;— D. João d'Aboim, grande privado do 
defunto rei, um dos mais opulentos fidalgos do 
reino, fundador da villa de Portel e muito esti- 
mado na corte como trovador e poeta; — e Fr. Af- 
fonso Pires Farinha, prior dos hospitaleiros, que 
muito viajara no estrangeiro, e era iãssaz versado 
na sciencia de governar. 

Tios primeiros tempos, por ser el-rei extre- 
mamente moço, pouco pratico nos negócios, e 
talvez também, como dizem os chronistas, por 
dado em demasia â liberalidade, sua mãe, a rai- 
nha 0. Beatriz, assistia, por ^i ou.por seu logar 
tenente, Ruy Gomes, aos conselhos do governo. ^ 
£m seu nome e no de el-rei, se expediam as 
ordenanças, e assignavam ambos os actos pú- 
blicos. 

Exercia a rainha uma espécie de tutoria para 
com seu filho, ou pelo menos uma parceria no 
governo, aliás mui justificada pela pouca edade 
do monarcha. 

Não a sofl^rcu porém, por muito tempo o jo- 
ven rei, ou por ciúme e impaciência degover- 
narsó; ou porque o animo da rainha começasse 
a inclinar-se demasiadamente, em prejuizo do 
reino, â politica de seu pae, Affonso de Castella; 
em breves mezes se libertou da espécie de coo- 
regência de D. Beatriz, aproveitando o primeiro 



* Duarte Nunes Leão, Chronica d' El-rei H, Di- 
itíx. 6, 1— Fr. Fr^ne. Brandão, Jfo». Im. T. £S, L. i6, 
G. 28. 



pretexto que se lhe offereceu.paira jBB^aCaçtar da 
rainha, e partiu com os miniatrop para as provia.^ 
cias do reino a administrar justiça, 46ÍxaQ^^<>- 
siuha em Lisboa sua mãe. De facto já a 25 do aiesp 
d'Abrii do mesmo anno em quesubiraao thromO) 
o encontramos em Évora, occupando-se, sem 
D. Beatriz, nas cousas do governo. 

Verdadeira e natural nos parece a asserção de 
muitos escriplores de que se offendeu e maguou 
com a exclusão a viuva de Aflbnso iii; mas é 
duvidoso o que alguns dizem de ter o rei de 
Castella tentado a reconciliação da filha com o 
príncipe seu neto. . 

Affirma-o Duarte Nunes de Leão, escrevendo 
que veio o castelhano a Badajoz e rogara a Diais 
que fosse a Elvas para se avistarem na fronteira; 
acrescenta que accedera o monarcha português 
ã primeira parte do pedido; em Elvaa recebera 
os infantes de Castella, Manoel irmão do rei» 
Sancho herdeiro da coroa, e seus irmãos Pe- 
dro e Jayme; retivera D. Diniz comsigo os tio9 
três dias e depois os despedira, dizendo-lbes^e 
breve se fa apoz ellesa verorei. Alvoroçado «s|^ 
rava o velho Afionso o neto, quando soube qji^p se 
partira d'Elvas para o interior do reiao, ach«Bd# 
menor aggravo o evitar a confereQCÍa ào.ígm 
recusar o pedido a seu avô. Não teífuou o oastO" 
lhano, vendo Diniz em tão deliberado propo«ítO| 
e descontente e sentido se tornou a Sevilha. ^ 

Ruy de Pina omitte todo o incidente da adja- 
toria da rainha no governo do reino; Fr. FrMi* 
cisco Brandão, admittindo, senão eonirmando a 
primeira parte, põe em duvida a segunda da 
interferência d'el-rei de Castella, allega porém 
factos que não a refutam completamente. 

Não podemos, agora, evidenciar o succedido; 
mas sendo certa, como os documentos o compro- 
vam, a parceria da rainha na gerência publica, 
provável é que para a sua continuação o rei de Gas» 
tella fizesse as possíveis diligencias. — Estas in^ 
tervenções dos estados, nos negócios exclusiv^is 
uns dos outros, eram a praxe internacicMial da 
epocha; — ao predomínio d' Affonso x, recotihecido 
em toda a península desde muito, deveria desagra 
dar profundamente o espirilo d'isenção rude, mas 
arteiramente manifestado por uma creança que 
acabava apenas de subir ao throno; — além disso 



1 Duarte Nunes de Lefto» Ipc^câjU 



»;' » 






19 



^»TÍBbft ao rei d^ Cflíslolla, como em breve 06 
factos o iam provar, ter em Portugal seguro au* 
xiUoipbra a* saa politica, e deste só lhe podia 
ser peAfa&r o «Sécto filial de Beatriz de Guilheo, 
qãed'um berço bastardo elevara ao throno. Mui 
pio^Vavei DOS parece, pois, que empregasse es- 
forços para obter vautageos que forçosamente 
Ibedevitim estar no intuito; — é certo, porém, que 
sMiiAaoonseguia, e quea raiobaD. Beatriz, ainda 
quetBò mais tarde se recolhesse a Castella, 8cou 
en^ Portugal completamente afastada da gover- 
nação do estado. 

Pelizmenie, estas desintelligencias entre a mãe 
e o Hho coQservaram-se sempre em prudente 
reserva, sem perturbação publica, nem que- 
bra das exterioridades aíTectuosas, preMando 
Diais á rainha as homenagens fíliaes que lhe 
devift, e obsequiando-lhe os protegidos com 
nMcds^ valiosas. Ainda em 5 d'outiU>ro doeste 
aooo. de 1279» fazia el»rei doação do padroado 
da egreja de Auk^a ã sé de Tuy, de que 
ei» t>ÍBpo 1). Fernando Arcas, pi'otegido darai-^ 
irihi$>4aQéo por fundamento os serviços que o 
prelado prestara a elle e a sua mãe: Pro m%dto 
ãermoio^ qw)d mihi, et D. Beatrici mairimeoe 
impeneUt, ^ 

A exclusão de D. Beatriz da administração das 
coosft» publicas e do conselho do rei não cortou, 
porém,' no novo reinado ai9 boas tradicções e o 
providente-iafluxo do sábio governo d^Affooso m. 
A parte a. politica externa em que D. Diniz seguiu 
caminho diverso do de seu pae, sendo muito 
mais prudente, elevado e feliz do que elle, em 
tddo que respeitava á administração interior do 
reino, o filho trilhou áempre, quasi fielmente, as 
pisadas do progenitor; as dififerenças, que as ha 
ainda assim grandes enlre os dois reinados, pro- 
vém principalmente da diversidade dos tempos, 
da maior, cultura iuteilectual do paiz e sobre tudo 
dO' rei, e não de mudança de princípios funda^^ 
mcntaes na politica e direcção da cousa publica. 
Gdtes coQservaram-se quasi os mesmos ainda por 
mtfi largos annos. 

■ 

' Alem doesta egreja teve a Sé de Tuy grandes 
jurisdições e rendiíaentos em Portugal. Todos lhe 
foiam porém coitados em tempo de D. João i, por 
occasião das guerras com Castella. Vide Fr. Franp. 
Brandão. Mon Lus, loc. cit« 



Conciorreu para isto muito aereoi |>i«ciaea4f 
rainha viuva os três núnistras índioadMjiisj^ 
rão Paes, João d'Aboiffl e o prior do Haapítal; 
haverem sido fervorosos coUaboradores da^ ^kf^ 
d'Afifon8o lii, e conservaraai-se texiaifis aecMitti 
do seu systema de politica e de governo.. . 

Assim os primeiros aotoa de D. {HQVB:difí|h 
rám-se a contiaoar a pacificação coib: a deto» 
que Affonso iniciara. 

A longa lucta entre o estado e a e^rajay travada 
desde os primeiros dias da monarchia, que tanl* 
inquietara o pais, afligira tod^ os monAVQbaS) 
derrubara do throno Sanoboiíe powára d'iman 
gura os últimos annos d'Affonso iii, ia a etíbtm 
em nova phase, com um oaracter comptalamente 
diverso. Começando pelo (riumplio obrante dt 
egreja, terminaria pela vietoria decisiVA<lo fo4er 
civil nas leis da deaamorlisaçãOt q/m 9ò DÍMp 
poude tornar realidade e com ophce^ n§i0 eala» 
belecido por Pedro; o justioeírQ. 

Nos prioaeiros momentoa, trateiiraedd dar cvflftr 
prim^to ás builaa da euria, cuja obedíoMÍa ttga 
jurada, — duaiiar ao reinos praladoa portam 
zes foragidos em Roma, •-* oooteDtaF as catltf* 
draes e os mosteiros com meiwéaeprineipalaaaola 
com promessas,— e eocarr^ar os altos dignatlk? 
rios eoclesiasticos de estadarsaQ^ OMnas p^ 
presentantes do estado, o lado maístadqMÉl 
para se realisar o aecordo, tão naeassarioasipMI 
e que, n'aquelle momento, lodos patecÉM^ese» 
jar de boa fé. i . 

Depois attendeu-se áf administração geral do 
reino, que nos últimos annos, por causa das per- 
turbações ecciesiasticas, se havia descorado um 
pouco. 

Não era pratica dos primeiros mooarchas pQ^« 
tuguezes-fixarem, como depois se fez» a residen«r 
cia n'uma cidade importants, e d'abi govenw 
o paiz. Costumavam, ao contrario, vagar 4e.pf^ 
voaçãoem povoação, administraido pesso aia i sate 
a justiça aos povos, conhecendo de p^to ím m^ 
les públicos e applicando-lhes directamente o re- 
médio. 

Destinado a este, na verdade, relevante ser- 
viço, havia tanto em Portugal como em toda a 
Hespanha, um tributo especial, pago pelas terra^, 
em género ou em dinheiro, para a sustentação 
do monaocha e de seu sequjio; deoomioAva-s^ 
j(mtar4'ei^ei\f,^ BFa.#, oltiitoictei qMM pmMr 



H 



■MMtiLdè FOKtagÉl 



féÉ- «e iti|)ffii89rai!ii, nas* duas prodigiu doagCes 

'9l'^gff«Ette8 e dignstarios. ^ 

' Mrott estecryBtema dMmini8tpação até qae os 

«aoili^cadoB negodos das navegações e con- 

^fulslasiillranarlnas , o enervamento dos costumes 

cortezâos, e o habito das commodidades mate- 

lilMldvarttm os priaoipes a estabelecerem a sede 

do govenao em UAoa, e a náo sahirem d'ahi 

sen&o por excepção. 

» €oiia dissemos, AAonso ni, nos seas últimos 

itmoB,'pos«iti de parte a pratica antiga e salutar, 

e permanecera largo tempo em Lisboa, indo 

a^asuma vex a Santarém para uma reunião 

teí corte». 

' >D. Dinis, porém, logo que partilhou com o 

^e' à admiiiistniçáo do reino, começou as suas 

peirlgpnações pelas províncias, e renoTOu*as 

i|«a8i «mcaimente, oom singular assiduidade, 

«lftá4Mni«x(Mma. 

Percorrera, no aimo anterior, o norte dopais, 
tfQ«, por maôi poputoso e rko, se prestava melhor 
mm mtÊÍikm da polkica paterna. Depois de acla- 
fUâífVái apaias^ossemou nos campos o primeiro 
fluHrda^ primavera, partiu para o Âlemtejo, pro- 
tiiiêlBqve aetoraono predilecto (rf>jectivo da sua 
(pNnde aetívidide. Visilou quast todas as povoa- 
ffB^s^A^aipMUa vasta leomarca, residindo semanas 
i ÉWha a naa mais importantes, acolhendo beni^ 
gtMDMiiteospovoB, decidindo, com seusministros 
6 «ouMUveitoa, os plehos em ultima instancia, 
liberalisando mercês e adquirindo noções praticas 



. A «Quando oa Reys assi faziam as taes jornadas, 
se lhe dava em cada villa o gasto para a sustenta- 
ção da gente que o acompanhava: era porém Í8to 
quatido elles como supremos ministros da justiça a 
Mam administrar, que só n^este caso selhe contri- 
fcma, e a esta conlríbuiçáo chamavão, o jantar (Td- 
JlÉ^. Na terre do Tombo ha hum livro em que estão 
tnados os jaataras de todas as Cidades, Villas, Mo»- 
Umvh Cabidos, e Ordens militares. Que se pagassem 
na oceasiâo en que el*Rei hia iaser justiça, declarou 
o nosso Rey Dõ Dinis em hum dos manifestos que 
publicou contra o Infante D. Afonso seu filho, quando 
se levantou contra elle & lhe usurpava esta colheita. 
Ifão sendo (diz el-Rey) se não para jantar dos íleys, 
quando f)ão peitas terras fazer justiça, 
' «tlk^via ser costume este geral então dos Reys 
de Espanha e assi o Vejo praticado em Castelta na 
oMMim; lèma^ fit^MJ). áfoftso SaMD^no imit^ mil 



e positivas para a lai^a adniimBtnQlO'q«e 
inaij^rando. 

Como primeiro resultado de seus trafaidho&, 
confirmou em 25 d^Abril aos moradores da villa 
d^Alcaçovas o foral que em 1259 dera aos povoa^^ 
dores o bispo d'Evora, D. Martinho e o cabido 
da cathedral; e continuando a predileoçSo de seu 
pae por esta povoação saudável e fértil e eiqo 
senhorio o arteiro monarcha, par senlença arbi- 
tral, havia adquirido para a coroa, detineoa 
mural-a e levantar um paço real dentro do sen 
antigo castello. ^ 

No meado do verào, deixou D. Diniz o Alem- 
tejo e passou às Beiras, onde se demorou meses» 
imprimindo por toda a parte vestígios da soa 
desvelada attenção aos negócios, dasuabenevo- 
lencia e justiça, aforando a agricultores, todas aa 
vezes que podia, as terras incultas da coroa»' 
confirmando os foros e privilégios dos cenoeikoa» 
e provendo ao reparo dos seus muros e caatelloa. 

Sahiu de Coimbra em princípios de noveBd)fo; 
demorou-se alguns dias em Leiria, com a rainha 
sua mae; passou em Santarém o natal, e sòde* 
pois regressou a Li^oa. 

Apenas começou o verio do anno «egimite d§ 
1280, o seu génio infatigável levou-oaorestoáo 
paiz , que ainda nao visttóra depois de rri. No nor- 
te, foi aindaD. Diniz mais sollicito, liberalepron* 
dente do que ohavia sido no sol; a pratica ia*lhe vo» 
buBteeendo e aprimorando as facoModea de go* 
vernante. Âhi se demorou até fins dooiHonmo. ^ 



duzentos e oitenta e três deu á nossa Rainha Dona 
Brites sua filha as villas de Serpa, Moura, Noudar e 
Mourão, e reservou para sy o jantar delias. Em pri- 
vilegio á cidade de Segóvia, que Diogo de Colme- 
nares tresladou na historia d'esta Cidade, quitou o 
mesmo Rey D. Afonso muitas imp08iç(5es e reservou 
o jantar que lhe davam. Ao Infante Dom João seu 
filho estranharão muito os de Falência, quando pre- 
tendia a successão do Reyno, mandar pedir mil ma* 
ravedis de jautar, sendo que nas Cortes de Yalladc^d 
estavam taxados só trinta a el-Rei; assi que o jantar 
era entre nos certa imposição de mantimento para 
a casa, & pessoa d'el-Rei, quando hia fazer justiça 
pelo Reino». 

(Fr . Franc. Brandão, M(m, Lus, T. 5, L. 1 6, o. 37)i 
1 Pr. Franc. Brandão. Mon. Las. T. 5, L. 16, 
e-a?. 



2 Idem. G. 29. 



\\ 



RidtQrla; ãe PòrCtí^^ 



Í6 



Quando terminou esta yi^itaçãp gerai do reino, 
havia o novo monarcha captado as sympathias 
quasi unanimes da nação. Os nobres e os clérigos 
louvavam-lhe a cortezia, a instrucção e a libe- 
ralidade; e o povo a prudência, a justiça e o des- 
velo pelaa cousas publicas. 

Começou então a popularidade que o acom- 
panhou em quanto viveu, e a boa e affectuosa 
fama que entre o povo ha conservado o seu nome, 
atravez dos séculos. 

Juntamente, porem, com estas excellentes 
disposições de imperante, tão permaturamente re- 
veladas, começavam-se a notar em Diniz qua- 
lidades naturaes, que preoccupavam sua mãe» os 
ministros e privados, e que, na verdade, foram 
mais tarde causa de perturbações profundas, que 
flilaoeraram o reino, e povoaram de pungentes 
desgostos 08 últimos annos da vida do monarcha. 

Era Diniz dotado d'um caracter vivo e ar- 
dente,, que, se lhe inspirava o gosto da poesia e 
do bello, o impellia também a deixar-se dominar 
pek) arrebatamento das paixões amorosas e pelo 
gosto demasiado dos prazeres sensuaes. Enten- 
deu-se, pois, que para evitar desmandos que o 
deslustrassem, e assegurar à coroa successor di- 
recto, era conveniente casal-o o mais cedo possí- 
vel. Assim a rainha D. Beatriz, ^ os ministros, 
os prelados e ricos-homens principaes requere- 
ram-lhe que tomasse esposa. 

Entre as princezas que adornavam as diver- 
sas eòrtes da Europa, distinguia-se, pela belleza, 
proverbial modéstia e virtude, D. Isabel, filha es- 
tremecida de Pedro ni, reid'Aragão, e de D. Cons- 
tança de Nápoles, filha de Manfredo, rei das duas 
Sicilias e neta de Frederico ii, imperador d 'Alle- 
manha. 

Alem das virtudes e nobreza da infanta, tam- 
bém a politica a indigitava como a mais apro- 
priada esposa dp jovQi rei. Se estreitos laços de 
sangue uniam a familia real portugueza â de Gas- 
tey^ mm por isso esta nação deixava ^e ser um 
vifipbõ. p$Mra $ujo p^tícedimeiítOi n'aqueUes tem- 
pos tão belicosos e revoltos, ccMivioba sesapre 
attender» reforçando os elementos nacionaes de 
defesa com allianças no estrangeiro, que lhe at- 
tfòuasBem e contrabalançassem o poderio. O 
ifilfaô 'JTAragáo, eomo não era um grande es* 

1 Rvy de Pma. Qmmka ÍglP.Miil 1 1 



tado, fazia parte da península hispaaica e liml- . 
tava com Castella, tinha n*este ponto interesses 
idênticos aos de Portugal, e convinha-lhe igual* 
mente esta alliança. Taes razões, que n'aquelles 
séculos eram constantes, e sempre mais ou me- 
nos foram ponderadas por todos os governos, 
tomavam, no momento, caracter mais imperipflOy 
pelas divisões que se davam em Castella entre 
Affonso X e seu filho Sancho, que ameaç^ivaiu 
envolver por todos os modos os outros estudos 
da península; e pelos secretos desígnios que 
occupavam o espirito do monarcha aragonês. . 

Foi portanto D. Isabel a esposa escolhida pm 
Diniz; é ainda no anno de 1280 a corte ppitu^ 
gueza enviou a Aragão três fidalgos principaes 
para requestarem a mão da infanta, e tratarem 
do futuro enlace; 

Dizem os antigos escriptores, unanimes pane- 
giristas d*esta princeza, que, alem d*outros per" 
tensores, já repellidos pelo pae, que não queria, 
separar-se das suas graças e virtudes, solicita- 
vam, n'essa conjunctura, a sua mão os herdei* 
ros das coroas de França e dlnglaterra, e que 
Constantino, imperador do Oriente, n^indaraj 
posto que já tarde, um embaixador a Aragão á 
pedil-a para seu filho primogénito. . 

O certo, porem, é que o aragõnez,.á parte as 
lagrimas e a dor. do apartamento, cedeu focil* 
mente a filha a D. Diniz. Era o genro príncipe 
já reinante, iniciara com felicidade o seu go- 
verno, e achava-se á frente d'uma nação ciya 
alliança muito lhe interessava. Espirito pru- 
dente, audacioso e perspicaz, Pedro, o grande 
já aspirava ardentemente á coroa da Sicília, 
que depois com tanta felicidade conquistou; 
era-lhe portanto indispensável, para essa arris* 
cada e, então, longínqua aventura, a amisade 
de todos 08 monarchas das Hespanhas que aví^ 
sinhavam do Aragão; alem d'isso, não ^ndo, 
pelo contracto matrimonial, obrigado a.dotac 
a filha, via-a receber do esposo opulentíssimas 
arras. 

Diz Fr. Francisco Brandão ^ que, nos doeu* 
mentos relativos a este casamento, não achou 
clausula que ennuncíasse dote, dado á cainha 
D. Isabel; e averiguou-se que o não trouxe, 
em tempo de Affonso jv, quando se. tratou o casa*. 



tjàm:íiíi,tir,út^^^ 



• » % ♦ 



» 






vam\o da infanta D. Leonor, sua filha, com orei 
de Aragão, D. Pedro. 

Às arraa porem são provadas por documentos 
auihenticos. Transcreveremos na integra o pri- 
Eièirb, que nos dá clara ideia das doações regias, 
t&ó frequentes n^aquelie século: 

«Seja notório a todos, que nós Dinis pela graça 
de fleos Rey de Portugal e Algarve doamos & 
consignamos, propter nuptias, a vos Dona Isa- 
b4, filba do iílustre Rey Dom Pedro, por graça 
de Deos Rcy de Aragão, & da Rainha D. Cons- 
tança, a qual recebemos por molher, conforme a 
ley de Kossó Senhor Jesu Christo as nossas Vii- 
las. conyem a saber, Óbidos, Abrantes, & Porto 
de moz as quaesVillas queremos, & concedemos 
que vós tèníiaes, & possuaés cõ todas suas ren- 
das,' £ proy\âio8 (jae pôr qualquer causa a nos 
pertencem, ouilevem pertencer; & isto para dis- 
pòrdes delias a vosso gosto em toda vossa vida, 
assi em companhia nossa, como fora delia, avendo 
fflbos dentre ambos, ou não os avendo. E em 
seguro da posse das yillas sobreditas, com todos 
seus direitos, vos entregámos a presente carta, 
& confessamos possuilas desde agora em vosso 
nome, & queremos que todos os frutos delias 
aésie dia por diante pertenção a vos & se res- 
ponda plenariámente com elles a vos ou a quem 
vos quiserdes. E prometemos a boa fee,.& jura- 
mos pelos Santos quatro Evangelhos fazermos 
esta doação livremcqte & que tem valor, & po- 
der como acima he declarado. Reservamos con- 
tudóa apresentação dos juizes, & dasegrajas; & 
vos concedemos que ponhaes nos Almoxarifes, 
Procuradores, & ofiBciaes conforme os logares 
pedem A segundo o costume do nosso Reyno. 
Mas para maior segurança & firmeza do sobre- 
dito ássignamos por arras a vos Dona Isabel nossa 
móíher doze Castellos, segundo costume de Por- 
átegora observado. São os nomes delles, 
viçosa, Monforte, Sintra, Ourem, Feira, 
Gaya, Lamòsis, Anofrica, Santo Estevão de Cha- 
ves', Monforte do rio livre, Portel, & Monte-ale- 
gre. ^ 08 que tiverem os Castellos apartados 
fâção omenágem a nos, & a vos, para que se- 
gundo o costume de Portugal vos obedcção.na 
defensão vossa & de vosso direito, como se cos- 
túinòií fazer eni Portugal nos Castellos obrigados 
ás arras. Em testemunho do qual esta carta a 
vos eoacedida fizemos^ seljar^di) qpssQ^sello 4e 




chumbo. Dada em Vide vinte e quatro de Abrf 
por mandado d'eI-Rei. Era mil e trezentos e de- 
zanove. » 

Parecendo a el-rei ainda limitada esta impor- 
tante doação por se restringir ã vida da rainha, 
concedeu-lhe no mesmo dia, com a faculdade de 
testar, dez mil libras, cobráveis depois da sua 
morte, das rendas das villas doadas. 

Contrahiu-se em Barcelona, a 11 de fevereiro 
de 1282, por procuração, o casamento. AraÍQJ|ia 
foi trazida pelos seus, com grande solemnidade, 
a Bragança, na raia de Portugal, onde a esperava 
D. Afifonso, irmão d*el-rei, com muitos fidalgos 
e prelados; e d'ahi a conduziram a Trancozq. 

Vendo-a, D. Diniz deu mais â sua joven esposa 
a mesma villa de Trancozo cõ todas suas aldeãs^ 
termos & pertenças y & com todas as rendas, saí- 
das, fructos, aproveitas. . . Tem o diploma d'esta 
doação a data de 26 de junho da era mggg^x. ^ 

Celebraram-se as bodas, e receberam os esposos 
a benção matrimonial em agosto de 1282, n'aquel- 
las mesmas veigas feracissimas, entre sumptuosas, 
festas e as mais vivas demonstrações d^alegría* 

Tudo quanto havia de nobre e opulento no rejnp 
ahi concorreu, e, era torno dos muros circulares 
da villa, foram tantas as barracas e tendas que se 
armaram, para alojar a multidão, que parecia ter- 
se de súbito, levantado ao redor de Tranco.zq, 
uma populosa cidade, da mais variagada e singu- 
lar prespectiva. 

Merecia particular menção este casamento, por- 
que a diplomacia do tempo tinha os enlaces ma- 
trimoniaes dos príncipes como principal meio de 
acção; e este consorcio foi considerado politica- 
mente vantajoso, por trazer a Portugal umarainha, 
que, teve, por vezes, a dita d^evitar que, em pu- 
gnas civis, corresse a jorros o sangue portiiguèz. 

CAPITULO Ml 

Primeiras pertorbaç^ies do irmSo B. Dixtfz^ 
- — relações de Portageã. ooih Gãstella ém' 
tempo d'AlRm8o z. ' 

N'estes séculos rudes, d'ambiçõe^ yíqleptas,^ 
cararteristicos nas classes elevadas pelo e^â^Çrp 
das individualidades e egoísmo profundo,— He^am 



1 JíonplM.cit.c..33. 



' \» . »■.>!' 



, r .<. 



OíL 



Ml 



teme Jn» áÀ iraAiÉ e 4 ciibíç« os la^w loais 
iiitiiBOB do saagoe e os affeetos mais suaves da 
fanulia. 

Nas casas reinantes príncipaloteate, as conten- 
ite^ntre paes^ filhos e irmãos tornaram-segeraes, 
qtMidiuns, intermina¥6is. Expulsos os mouros, 
oQiiqiBstada a preza, o dispulal-auns aos oulros, 
e o dilaceraL^a. foi a preocupação quasi e:^ clusiva 
doa srindpes e dos ireis, k narração d! estas lutas 
intestinas e de familia constitue a historia política 
dos.osUdos obristãos, até ao fim do século xiv, 
60 taáa a.pffliinsnla. 

iHste fM:to,repagDaajte.e sanguinário, deurse 
eu Portuga, como no resto das He^iaidias, e 
forma a parte sombria do cdnado, aliáa esplen- 
didO) de D. Diai2. 

Os acontecimentos, posto que singelos, com 
que vaínos altfir o presente. ct^ntulo, teem im- 
porlauda fw serem os preluídiQsdlessa luta in- 
giona e fratricida, que^ durante annos, se, pelejou 
eatae os doia filhos mais. velhos do conde de Bo- 
lonha. 

Bm 1261 o. infante D. Âffonso attingira os de- 
zoito annos. Seu pae, muito antes de fallecer» 
€01: 1270,. dotara*o largamente com as villas de 
de fcwtalfgre,. Marvto, Arronches e Vide; eram 
as três primeiras mui importantes pelo nu- 
m«!o de habitantes» ríqueaa.agrjjcola e fortifica- 
ções. Cas4ra o infante aos quaiome annos com 
D. Violante» filha deO. Manuel, irmdod^AjCfonso x, 
rei de Leão e Castella; estava portanto ligado às 
casas maia poderosas e nobres, dos vísinhos rei- 
nos; e começava a manifestar-se-lbe o caracter 
orgulhoso e inquieto. ^ 

Estas circumstancias bastariam a tornal-o sú- 
bdito inoommodativo para qualquer monarcha; 
aggraffavam-nas porém as suas pretensões à co- 
rte» ciyo supposto direito enunciava» por toda a 
parte,. sem rebuço. 

Nascera D.. Diniz da segunda esposa de Âf- 
íqiiso m, quando ainda, vivia D,. Mathilde^ sua pri- 
mara, mulher, e as.ultims^ núpcias não esta^an^ 
legitimadas pelo. pod^r pontiScio. Q infante 0. 
AlfoiMo. v«ara ao mundo posteriormente á moi?te 
dft/çoAdessa de Bolonha, e dias depois de ter 
chagado a Pcortugal a bulia da legUima^. 



.í. 



1 Fr. Fránc BrandSo. Mim. Im. T. 5» L. IA» Si 
31eki7o.3&. 
n TOL.— 3. 



Fundaado^se^n'este8 l^^áos» D^ABS^nso ajfipi^ 
mava o rei seu irmão de filho. adulterinojjinhar 
bil para succeder na coi^a, e dizia que esta \béò 
pertencia a elle, infante, por , ser dos filhos legín 
timos o primogénito. ... Wi 

Objectavam-lhe que a bulia do paya, eaEpr^e^iiah 
mente, legitimara a todos os filhos de A£^Q^fi|a{IIl 
e de Beatriz de Guilhen, e por. tanto a D. Dims^;> 
e que. se a legitimação só se devesse cQqttsirdfl^ 
data da hulla, elle mewoi era illegitimo, por.qi)^ 
fora concebido antes da o^ti^^ga d'Q8se diptoma^; 

Apesar doestes argumentos, coucMvientes.^m: 
jurisprudência canónica que era a que.ent{iA;re-i 
gia o. assumpto, insistia o infaute eait afirmar 
alto .os seus pretepdidos direitos» , . u> 

Para um rei d'aqueUes ten4)OP».jovenje:ai^ 
dente como era Diniz, não se ci^^ecia d'oat0ir 
causa para actos de poder e de foi^ ; .oemtudl>r 
em cpianto as cousas não pagaram de^palavu^Ki 
soube-s^ reprimir o succosaonr-de èSfífsm m\ . f 

Nos ultimps dias do iny^aio.de 128|, oh^ou^ 
lhe» porto, a noticia que seu irmão estava e^ir 
vertendo em praça de gu^ra, abrindo-lhe fossQS 
e cercando^a de muralhas, Vide, povoação naj^^ 
trema do Alemtejo, então pertencente ao terma 
de Marvão, é até ahi logar aberto e só defendido» 
por pequena torre. 

Sobresaltou-se Diniz e encheu-se de ira; n'esto 
acto, talvez indifferente do infante e de pura, 
administração das suas terras, viu» ou simulou 
ver, a prova de verdadeira rebeldia, . 

Convocou à pressa os sem vassallos» as ordena 
militares, os ricos homens, os contingentes que 
para a guerra eram obrigados a dar as cidades 
e villas, sendo Lisboa que forneceu o maior nu* 
mero; e, nos primeiros dias d'abril, partiu de 
Santarém, com avultadas forças, resolvido a re- 
duzir pelas armas seu irmão à obediência. 

Este porém, melhor aconselhado, retirou>-sp 
de Portugal a Sevilha, deixando livre o desabafo 
á cólera d'el-rei,^ não lhe impedindo o. caminhqf, 
e franqueando-lhe inteiramente a entrada em 
Vide. 

Não houve portanto eSusão de «pigue» mas sf 
di|9cordia entope os dois irmãos estava declarada* 
..Foi por este tempo quçi chegaram, felizmente, 
a Portugal os dois embaixadores de Pedrd m djs 
Aragão, para ratificar o tractaído de casamrato 
de D. Dini;B^ Eram pessoas {Krincipaes; um di- 



y 



ÍB 



Wtitmh& âe BtosMgíI 



gnfttario da Bé de Tanragoiia^ ootro «Imlraate, 
pai-ente darainha^ D. Constança e vaHdo do 
monarcha aragonez. Representaram ambos a 
el*rei sobre a inconveniência de ostentar hosti* 
lidades contra um irmão, cuja desobediência 
nfto estaTa proyada, na momento em que se 
ajustavam allianças, e se tratava d'um enlace 
ttkatrimonial de que todos deviam ' desejar a 
jNrodperidade. Parece que Sancho de Gasteila, 
fitlio d'Âffonso, o sab^f intercedeu também pelo 
iaílitite^ Ck)m tâo infi«ientes mediadores, ajus- 
tíMhse em breve composiç&o entre os dois filhos 
dobolonhez. 

Obrigou^se o infante a derrubar dentro de 
determinado prazo, o que de novo se construirá 
na torre e muros de Vide, e a ser armado ea- 
vallêiro por D. Diniz, censtitiilndo-se seu vas- 
saHd para toda a vida, salvo o caso de alcançar 
r^no ou. condado no esb^angeiro, para cujft ac* 
ceitaçfto ainda assim precisaria de beneplácito ré- 
gio. Em compensação augmentou-lhe Diniz os 
hiBiveres, com trinta e cinco tnil libras cada anno, 
pagas uma parte em dinheiro^ outra em rendi- 
mento de terras, outra em pannos. E estabele- 
CêU-sè a multa de cincoenla mil para aquelle 
dos outhoi^antes que violasse o accòrdo. 

Foi celebrado em Estremoz a 1 1 de fevereiro 
de 1282. 

Estes factos, omittidos por Duarte Nunes de 
Ltík) e Ruy de Pina, são relatados por Fr. Fran- 
cisco Brandão, fundado nos documentos que 
aponta. Entre elles yé-se a seguinte carta, que 
o infonte D. Afcnso mandou ao rei, seu irmão, 
tíes dias antes de assignar o contracto. 
"• «Conheção todos os que esta carta virem, 
que' eu o Infante D. Afonso senhor de Marvão, 
de PoWalegre, & de Aronches, prometo a boa 
fee a vos mui nobre senhor D. Diniz pela graça 
de Deos Rey de Portugal, & do Algarve derribar 
desde dia de Paschoa até dia de Pentecoste este 
primeiro que vem, todo aquello que de novo 
t6í! feito' na torre dé Vide, & no muro desse lu- 
gar. Em testemunho da qual cousa dou a vos 
esta minha carta aberta, 'sellada de meu selo. 
Dada em Aronches viy diíis de Fevereiro. O In- 
fGmte o mandoti. Domitígò^ Barreiik)S a fez. 

k.íí.bcc.lx.»» 

• > 

» JWbw. Lm. cit. c 31. 



As8tmi.terfltiiiaram as piim^ira^ dísoordiutii*' 
tre os dois filhos- lídimos de Affimsoni, para re» 
bentarem mais tarde violentas e selladas peio 
sangue dos poptuguezes. 

N 'aquelle momento porém mostrou«>8e oohh 
pleta a harmonia ; o infante tomou o seu lagar 
na corte; e poucos mezes depois, sQgttido de 
muitas pesaoaa priacipaes, foi, como vimos, a 
Bragança esperar a joven rainha, e aoompanhou^a 
a Trancoso. 

Parece todavia que ás fealaa doB^ deapoaoríoB 
faltou uma das pessoas mais importantes áa fa»* 
milia, foi a raiãha D. Beatriz; negodo mui 
(Uvierso das bodas do llho lhe aperiaia o cor 
ração e sttscitava os cuidados. 

Seu pae, Affonso x de Castella, acbayft^spna 
transe mais diffioil e doloroso^ Potentado, que 
largos annos conciliara a amisade, e a^alguns 
pontos a admimção até dos prindpaB ««opeaS) 
vía-se agora de toáos abandonado e olhada 
com indifferença; rei de estados vasto» e nu** 
merosos, estava reduzido quasi só à província 
d^Andaluzia, aenão á cidade apcna» de Sevi- 
lha; progenitor de munereaa > prole, ledos os 
filhos varões contemplava em 'rebeldia, árank 
da, expulsando^) do throno- e extonqvmdoJhe 
o reino. 

Era a justa punição da prefereiídar e deahi»- 
manidade com. que a um,— aquelle próprio q«e, 
na presente oonjunctura, mais o guerreava, — 
sacrificara o dirette* e a vida d'outros prindpes 
seus parentes. D. Fernando de la Qerda, o pri- 
mogénito, morreis, deixando dois filhos varOes 
ainda no berço, sendo o inaie velho o "herdeiro 
da coroa. Affonso porém, querendo acceder ás 
instancias de eeu Àho Sancho, que peiaaoiíví- 
dade e bravura muito se distinguira, duniile es' 
guerras contra os infiéis, o fizera, naft oóries de- 
Segóvia de 1276, reconhecer e jvrar per êue-i 
cessor e herdeiro do tfarono. Ck^mo os de^oja- 
dos infantes seus netos enoontraeee» prolee^ftO' 
Ra avó, que com elles^, temendo alguma vieleiK 
eia, se acolhera a Aragão, o monardia euppez 
que esta fuga, que tanto lhe podk eoatraiter oa 
designioB, Tora protegida por seu irttOe^l). Fri*> 
dique e Síihãe Rviz, senhor doe Gateeroa, e wn^ 
dou a Sancho que os prendesse a ambos e os 
fliaMÉse^ t ' .-1 . * .. . 

Apreesou-se o futuro rei a exeéikat a opâeiD; 



IWMft ^ Bwptagil 



19 



fsMiéO) tiMi'pMO06flo, afogar «eu tio «n TreTÍâo 
e <px«ii&af Siáfiíto^Rmz em^ijogroôe. < 

 éMes adòs craeris, que deixaram longa e 
saogHinolenta memoria, jvntou mais tarde o mo- 
narcba, denominado o sábio, nma serie de des- 
ftc^frtos, <)ue Ibe aJienaram: a bòa vontade do 
poYO, dos nobres e dos próprios fflhos, de tal 
modf^, ^e, quando do anno anterior de 1281, 
pretendeu, nas cortes de Sevilha, indemnlsar 
seus netos, dando ao primogénito o reino de Jaen, 
— Sancho ponde contrarial-o rudemente, conci- 
tou contra elle quasi toda a naçfto, e fez com 
que, no anuo seguinte, por sentença de D. Ma- 
noel, ifmfio do velho Affonso, confirmada peias 
cortes, que reuniu em Valladoiid; fosse privado 
seu pae da aathoridade real, deposto do throno, 
e o governo entregfue a elle, mfante, eom o ti^ 
tolo de rei. * 

Ao tnesmo tempo, Sancho confederou-se com 
o rei mouro de Gfatiada; propôs a seu tio, D. 
PMra d'Aragào, que se abstivesse da contenda, 
o que fogo conseguiu, porque, j4 o dissemos, 
o aragonês desejava a todo o custo aliiados na 
Basponte, e sempre fora aflécto ao sobrinho; 
e iigdli-id llcflmeBte còm D. Dinis, porque âo 
poMeoprineipe portuguez, di^íem as chro&icas, 
pareceu mais proveitoso acoordar«>6e com o tio, 
que, eendo mo$o, rivsria mais annos, do que 
coâi o av6, que por velho já pouco duraria. 

Nflò àasenllu porém a este alvitre o affecto fi- 
Tid da rainha, D. Beatriz. Vendo que nfto podia 
demover o filho a soecorrer seu pae, determi*- 
mm auxiitet^ eila oom seus haveres e vassalios, 
e ir pessoalmente partilhar das desventuras pa* 
tMias. 

Na sua politica, um taiito doble, não pensou 
D . fiink em a oontr^triar :— a guerra é incerta, 
não lhe convinha indispôr-se inteiramente com 
nenhum dos contendores. 

Âputra a rainha o dinheiro que poude, ven^ 
dcMo alé algumas das suas jóias; congregou o$ 
ftteigòe seus parciaes-e dependentes ^ e os que 



..* D* Modesto i^ÍM^nU — Historia Geneiial de 
ap(dl9, P, 2, L. 3. c. 2. .. ' 

VPor um resto de modéstia (diz Lafuente, logar 
citado) se negou lancho a usar do titulo de rei em 
vida de seu pae, conientando-se com o de Ipian^íi 



heilleiro -e regente do reino. 



estavam malquistados oem el-rei ; levantou 1n>- 
pas nas villas de que ènt senhora, confimando*' 
lhes, para as dispor a seu favor, untigos fón» e 
privilégios e dando^lbes outros novos. 

Reuniu assim, algumas centenas de boas lan- 
ças e a gente de pé correspondente. À frente 
doestes contingentes, dístinguia-se D. VasooMar- 
tfns Pimentel, fidalgo esforçado, ex-mehíobo de 
todo o reino, que só por si levou á sua custa 
duzentos e cincoenta de cavalto, e que morreu 
pelejando n 'estas lutas inglórias de GasteUa; è 
illustrou^-se depois nmito Hartim Vasques da 
Cunha, o aventuroso alcaide-mõr do castetlo de 
Gelorfco de Basto. > 

' ' ' • . 

1 «Era este fidalgo Alcaide uiòr do Casteilo so- 
bredito, que lhe entregarão por ser das arras da 
Rainha D. Brites, may dei Bíey Dom Dinis; dese- 
java aliviarse da tenencia delle, & por vezes rèquá- 
reo a el Bey D. Dinis, que o desobrigasse' daiqUella 
Alcaidaria, éc desse o Oastelto a' oUtro càtaleiro. 
Gomo a Rainha D. Brites se- amdavapreparàmio 
n'eslepropio tempo para passar a Andalusia a so- 
corro dei Rey Dó Afonso Sábio seu pay, & levou 
doeste Reyno muita gente, todos os cavaleiros que 
lhe erSo obrigados a acompanharSo, Martim Yas» 
quês da Cunha era hum dos mais conífidentes da 
Rainha pela confiança que d'eUe se fez em o cons- 
titúirem assegurador de suas arras, devia de querer 
ir com eila a Sevilha,' por sér a jornada de b9ra, 
eiSí socorro de hum Rey tSo grande. Como el A^y 
Dom Dinis seguia a parte do Infante Dô Saneho^Ã 
conhecia o valor de Martim Yasques, nflo Ihediffi^ 
rio, nem quiz aceitar a deixação que fazia daAleai* 
daria, pelo ter obrigado a ficar no Rsyno, k nâa 
passar ao socorro contra Dom Sancho. 

Martim Vasques contudo senão aquietou, antes 
persistindo em largar o Casteilo se ausentou do 
Reyno, & passou às Cortes de Alemanha, França, 
Lombardia, Inglaterra, Sisilia, Navarra, Leão, dt 
Castella. E em todas estas partes consultou os Prín- 
cipes, & senhores de conta sobre o modo que teria 
pára largar o casteHo de Celorico a el Rey seu se-» 
nhor, sem prejuizo da sua fidelidade. Todos fofão 
de parecer, que pois el Rey Dom Dinis estava 
em paz, & o Casteilo não necessitava de defensão, 
o podia largar sem descrédito, guardando, a fó/mft 
seguinte. 

' Que entrasse n^elíe ^* lhe deixasse parte 'de tdab 
6 necesstiHo pai^a lastimenU), è[ algiiãà peÚòaiS, dè 
armas, ff fechando as portas do Casteilo wr 4M- 
tro, se lançaisé ÍMj0t m1má'/fi )fii^1m^ 



90 



JBaii&tlÈ, ÚB Bmtmgm 



- ik porque jenun grudes as ãifficuldades em 
•que se Tia* o yelho monarcha de Castella) já 
para disfarçar o.nrido da expedição, contraria 
ao procedimenta official do rei, — parece que 
•D.. Beatriz enviou estás forças a Sevilhaá pro- 
«porção que se iamorganisaodo. 

Em novembro de 1283 já ahi se achavam 
algimias das pessoas principaes da sua casa. 
jEDcentram-se-lhes as assignaturas D'um acto 
jeelefarado por Affcxiso x, em opposiçâo à sen- 
ieDca,.proaimciada contra elle em VaUadolid. ^ 

Ajuntou o velho rei em logar publico o conse- 
lho real, a oórte e o povo de Sevilha, e, sobre 
um estrado, construído para esse fim, publicou 
a sentença, em que declarava Sancho desher- 
dado da successio da coroa, expondo os funda- 
mentos da resolução e invocando sobre o filho a 
•maldição de Deus, por impio, parricida, rebelde 
iecontumaz. ^ . . . 
r Bediu Affonso auxilio ao papa Martinho iv; 
este expediu logo um breve, ordenando aos 
prelados, barões e concelhos do reino que se 
«mbmettessem ao velho rei, e requerendo aos 



.a lançar dentro^ por não ficar via por onde subir 

tí elle; que deiakuee fogo aceso em hm das casas, e 

cangando em hum tavaío viesse correndo pelo dis- 

^Pricto de três freguesias, Sf gritando em voz alia: 

Acudi aO' Casteilò dei- Rey que se perde. De tudo o 

-sobredito troune Martim Yasques instrumentos au- 

:^ptioQS. feitos por notários públicos doa Reys, e 

.Qnnoipes,,oõ que se" aoonsdlhou, & todos elles dir 

aifio;.que aeeitarifto desfio dos que quisessem con- 

«tra^ii^ei:, que. deixando Martim Yasques o Casteilò 
nesta forma, nSo satisfaria com as obrigações de 

cavaleiro. Elíe executou pontualmente tudo o que 

lhe aconselharão, de assi ficou livre da guarda do 

Castelk) de Celorico, & de sua alcaidaria.» 

(Fr. Frano. Brandáo— Mm. Lus, T. 5, L. 16, 
c, 28). 

1 Este acto é assignado pelos seguintes portu- 
g\xezes: Soeiro Pires de Barbpza^ D. João d'Aboim 
e ifionçalo Fernandes, embaixadores de D. Diniz, o 
que prova que este nâio rompera com o avó, e tão 
somente se escusou a auxilial*o; e D. Uartim Gil, 
talvez o de Savorosa que se expatriara com o rei 
D. Sancho n, Domingos Pires, chanceler da rainha 
B. Beatriz; João Raymundo, seu mordomo e Fer- 
não Martins de Curetello.— Jícrn. Lus. T. 5, L. i6 , 

>.Zurita. Mio, X4rttii. y iiuil. Ub. 4. 






mlDnaitfaas de jDglatfMt e iSíMça.iflieri» 
liassem. Mas as^ ordens, as reigalífiu e.oa;«m- 
themas pontífidos oenlram efinlo pro^oziíam. 
Sancho decretoQ a pena i% morte eontra.os por- 
tadores das cartas poBtjfiotaa, e apellou pai^ 
Deus, para o futuro papa e )^a o primeiro ooii- 
cilio que se celebrasse. . . 

Estava D. AiObnso reduxido á ultina extre- 
midade, rareavannlbe os sequases, e via<^se 
compiettflráite exhanslo de dinheiro, Debalde 
implorara o auxilio, de todos os pnQcipes^cbds- 
tãos ; nem um só lhe estendera mão protectfffa. 
Recorreu então a um mdo singular e estranho , 
enviou a sua ooròa ao Imperador de Fez e de 
Marrocos, para que sobre eUa lhe emprestasse 
os indispen0aveis recursos. Foi generosa o n^- 
sulmano; mandou^he sessenta núl dobras de 
ouro, e offereceu-se a ir pessoalm^teau^ialro 
a recuperar o reino. Acceite a pfierta, um exer- 
cito de mouros atravessou em breve o estreito. 
E os dois príncipes cbristãos, pae e filho, liga- 
dos cada um d^elles a seu monarcha infiel, pro- 
segmram na campanha um contra o outro. 

Devemos, porém, disel-o, n^esta guerfa pairi- 
cida e impia, Sancho não desenvolveu «^amaeos^ 
tumada actividade, e evitou sempre achar»N em 
campo aberto eòtttra seu pae. 

Tal systema, ennnêiado mais olarâmente -do 
que a poKtica esdgia, o 'i»p$ffdendo,' levando a 
Ã^iesai senão o desanimov aos seõs partidários. 

Foi talvez por este tempo,' princípios de 1283, 
que entrou em Sevilha D. Beatris, oom escolta 
numerosa e levando oooisigo, isegundo/parece, 
sua filha a infanta D. Branca, que fôraemíorr 
tugal, além de donatária de varias terras, se^ 
nhora do convento de Lorvão, e o seria depois, 
em Hespanha, do sumptuoso mosteiro de Ãaeli- 
gas de Burgos. 

Se o soccorro material e directo, prestMlo^fa 
seu pae por D. Beatriz, que tãorenoareíudo é 
pelos escriptores portugueses e tão omesqui» 
ahado pelos, hespanfaoes,-^ não^ra-na rediílade 
grande em relação ás forças dos quatro monar- 
chas belligerantes,-r-o apparecimento em Sevi- 
lha, ao lado do attribulado e perseguido Aff^nsO; 
de sua filha, a rainha de Portt^, foi dêetfremá 
consolação para o velho monarcha, e tomon-se 
salutar exemplo para iipuitoç dos revoltoaos de 
Cafltffilla e de Leão. • l \r 






SX^ 



- ' ^âi ft i i r i É>*B O <logo 08CBflWl08*.d'a8te^faato líbta- 
' vetv< aaxíUaiadflkazaieDte pelft ioesperaá» toit- 
isitto- de Saúdio oai guerra, pela t^ecordafão das 
soas- cioeldade» e erroa govsroatiTos^ peb re- 
flexão dos espíritos jostos e prudentes e também 
pela generosa gratidão do v^bo AfFonso para com 
o soccorro da filha. 

' R. "^Pedro, D. Jayme e D. João desampararam 
o rèbeIdè'pcndáo de seu irmão, e submetteram- 
se, humildes, á obediência do rei. O procedimento 
dos in&ntes foi, em breve, seguido por muitos ri- 
c<«-hiOffiens e não poucas oidadés e villas. & ape- 
gar do exercito mttssttimano, auxiliar de Afifonso, 
'de baver retirado à África, desgostoso da cam^ 
paoha, a causa do velho monarcha tomou tão 
-grande alentOj fue Sancho, não obstante a opi- 
p^içiada seusaequases, aos quaes não conidnba 
afPeeoiiciUaçãOidõs pvinoipes^ accordou que sua 
OMittidr.D. Ibna de Molina e a raiiiha.D. fieã^ 
tf iz. ajustassem entre si m termos em que. a 
e0iiq)O0Íção se pedia f^ter^ Os dois contendo* 
Fis affastaFam-se do theatro da luta. ^ 

SaccftBdo natural, mas quasi sempre- inaspe- 
rftdo,tVeiu dar> diversa direcção ás ooUsa^s polir 
tiçaSideiAlspBnhai i ^ 

- ' inkea.d^iflsa. penem, premiara ASonso os ser- 
viçQAda filha«j faapeliiaK) temo recotibeeimento 
4q( affedo pàtenial a auxilio tão proficuo e a que 
a ; apertado • daa 'oircumstancias exagúrávai a. im^ 
porlan6ift;*instigav^o.promvehnente também a 
idjto .da .i)iie(> a laigueza, com que recompen* 
'«asse este &To^servis8e^oomo se^viu^ a animar 
e incitar filhos e súbditos a prestarem-lhe.our 
ttOêi Assim D. ÀffDnso mostrou-se generoso, 
pro^goatépaira^coma rainha de Portugal. . 
- ^Searlhe doação. em 4 de maíço.de: 1283 das 
víUas.de fttpura; Serpa^ Noudar e Mourão; €i»m 
seus castel]o9t termos, rendas e direito^,' para 
aaservip d'eUaS'etnquant^. vivesse; ficando, de- 
poÍ8í>da sMíiinioirte âqueUe que herdasse «o vremo 
de.SiMStoa.! • 

. latas viUai!, outr'ora portuguezas, pertenciam 
6BUu>«ã,Qionar€faia oaatelhana, e só annòs diais 
taidoToltaram», mençis Noudar,. para. o reino de 
£9itU0pd)cejiiOí!adiaaiileT viemos. Por este mor 



* • i;/ 



* D. Modesto Lafuente — Historia (T Espanha T. 6, 
F. %,iu.-^,-t^% p. IQi ;-T-Fr, Praiift Brandão Mm. 



-tivo, e para* prova da atribtdáçiolde' espiMb a 
que chegara o rei de Castdh,* eis at pvinUiptf 
parte da doação: * - • T 

- «Porque, segnn dize el^ Sabiò, la amiziad ysír 
-dadera 'mas cumjplidambntè se prúéva eu el 
tiempo da la coitei, que eu" othasasdn y aquel es 
verdadero amigo, que ama em todo tiempo. "Be* 
pan quantos este privilegio vieren, y oierem, 
como nos Rey Don Alfonso por la gracia de Diios 
regnante en Gastilla, en Leon, en Toledo^ ehi 
Gaiicia, en Sevilla, en Córdova, en Hurcia, eb 
laca, é en el Algarbe. Gatando el grande aúáor, 
é verdadeiro que failámos en nuestra fija la mi^ 
•cho honrada Dirna Beatris, por essa misina gfl»> 
cia Reyna de Portugal; ydel Âigari)e, y la leahad 
que> síempre mostro contra nós,' y de eooiQ nos 
íué obediente, y mandada en 'todas oosaa ooibo 
buena fija, é ieal dev» ser a padre ; y seãàlada*- 
mente pon|ue a la sazon que loa otroa nuoslnv 
fijoa, y la. maior parte de^os hoihto'de nuestrã 
tierra se alçáron contra nós por cosas (fiie If 
diaceroD, y les fizieron entender comoiDOieilan, 
el.qual atevaotafnieBtotttecoBtreDíos, y cbiitra 
deceeho, y contrarazon, e «ôBtra fuerc^, yoòB^ 
tra sefiorio natuind; y viendoella esto, y caoó^ 
ciondo !Ío que eUos deeoonocieron; deseQifaiA 
fijos, y herdamientos, y tddás las'otràs OMik 
que avia, y vino a padecer aquelio que iios^a* 
deeemos, para vi vir/ y morir con nosco. I oomo 
quier çuc' ella merece todo aquèl bièb queiilos 
foserte. pudiessemoa pêro porqiie kego tau cisn^ 
plidameifte no lo podeínoe fazércomo nosiciliBf 
piemos, daquello que nos^cò, y téneokba «n 
nuestrO' poder, damos lé porherdad IsegDper 
en todois lo3 dias de !su vida lás'iiuè8tras''iit«> 
las, Mora, y Sièrpa y Nodar,'y Horonicos sitt 
Gastiilos, y con todos ^los otros lugares; queaân 
sus términos, aãssi como ksnos agora- aveoMi 
que loa aya alia cofi' todas las rètntas, y lo»de* 
reçhos para servirse dello 6n toda 1à su viday y 
despues dé su muerte qtle finque- a aquel^ qiÉi 
nos heFedenú>s en él Reynò de Sevilla;* y Tét»- 
nemos para. nos moneda, y justiça, è jantar 
e mineras, si las M ha, o faisoviere daqiti ade» 
lante. . .» * . ♦., • 

Como as villas doadas pertenoessem' áoa ca^ 

, 1 Fr. Fraae. Bhinéão^ ilíom áUí. T. 5, &. 49, 
c 38. .' .*> 



BpBMCtt (U BDKtMl0U 



irallêuioi do Hospital) Albimo eompenaoii-OB, dan- 
tto-ilhes ovtras terras e rendas. 

Por carta da mesma data e oom eguaes con- 
^íCOes, doou mais à filha o reino de Nid[>ia, com 
as soas vilias de Gibraleon, Haeha, Saltes, Aia- 
iBÒnte, Alfaiar de Pena e Alfaiar de Lete. 

Tão ampla generosidade que favoreceu, como 
dissemos, a causa de Affonso, ligou de novo, 
peiD primeiro diploma, o seu nome à historia 
Ãe Portugal, a que jâ o enlaçara a doação do 
Algam. 

Mas, quebrantado pelas amarguras e trabalhos 
da agitada existência , não logrou o veHio rei , ape- 
sar da foToravel senda em que ultimamente entra- 
ivítt òs seus negócios, ver reduzido á obediência 
o filho e os- estados. Pouco mais d'um anuo de- 
pm de ter feito a Beatriz as doações indica- 
das!, falteoeu nos seus braços, nomeando-a, com 
outros, sua teslamenleira, e declarando perdoar a 
iigrata rebeldia d« Sancho e de todos os seus 
ffeurtidarios. 

Foi era abril de i 294 que expirou este mo* 
nandia; tão desventurado no governo, quanto 
o^brado por legidador e cultor das sciendas e 
das letras, em toda a península no século xm. 
fkMM Iri^ teve, no nosso reino e em toda a 
&MpaBfa8, larj^ influencia. 

Estabeleceu nos seus* vastos estados, quanto 
a epoéba o permittia, a unidade de direito, com 
oíuero Reálde Bspaôa, inCeressuite (M)Uec^ 
legislativii d'applicação immediata; terminou e 
poblieou o celebre código das Sete Partidas^ 
que -D. Duiiz mandou verter em portuguez, e 
que é, na jurisprudência, o mais grandioso mo- 
numento da idade media. Philosopho, atribue-se- 
ibe o livro El TVsoro, notável para o tempo. 
Historiador, escreveu a Crónica general de Es-' 
p$(^Êíi que os hespanhoes considerara uma das 
sBas glorias litterarías. Mathematico, mandou 
compor as Taboas Astronómicas^ intituladas Af- 
fm^nas ^ em que elle próprio colaborou. Fi- 
nalmente poeta, foi um dos mais eruditos e 
aprimorados trovadores do século, escrevendo 
«a Camtigas e as Querellas, ^ 

Pranteou-o toda a corte em Lisboa, onde el-rei 
Uie celebrou pomposas exéquias. 

1 Lafuente. Hètorta general i'E8paãa P. 2, L. 3, 
c 2» 



A sua morte terminou o prioieiroMladBagaer- 
las de òuccessão que dilaceraram Caiitdla» dmale 
o reinado de D. Diniz,, e «m que Portugal ,'úúrtiD 
veremos, mais ou menos sem^e se envolveu. 

9 
» 

CAPITULO IV 

Novas perturbações do imulo de D. IHfiz* 
— Belações de Portugal oom Oastslla np 
reinado de Sanoho <o bravo». 

A morte de Aflbnso x devia povoar de preo- 
cupações e cuidados -o espirito do monareAia 
portuguez. Poucos meses antes de fallecer, o ve- 
lho rei declarara herdeiros da coroa de Casleila 
e de Leão a seus netos, os infantes de la Cerda, 
e deixara os reinos de Sevilha e Badajoz a seu 
filho D. João e o de Hui^ a D. Jaime, «k^ 
duindo por esta iónmsL do throno a D. Sauehd^. 
Este, porém, é quem de facto governava. Foi ett 
breve solenmemente recmhecido e jurado rei 
em Toledo; e não só os seus sequazes, cowo ss 
mais importantes e leaes partídarioa de sen^paé^ 
se apressaram a saudal«o por legitimo sobe- 
rano K Gomtúdo o fomeoto da desordem e di 
guerra civil existia no testamento d'Aflbnsd, ò 
sábio j nos direitos que cada prelenéor se attri- 
huia, e sobre tudo no caracter dos principea e 
barões do tempo. Além d'is8o Siancho iV era a»*- 
daz, turbulento, ambicioso, pouco sabia conter 
os excessos dos seus validos e menos os da 
própria Índole. Tal visinho pois devia èet para 
Portugal débil segurança de tranquHlidade e de 
paz. 

Diniz, porém, seguiu a sua politica sagaz e do- 
ble. Bnviou embaixadores a Sevilha a dar os 
pezames à rainha sua mãe, e memdou otftros a 
Toledo comprimentar o novo rei, seu tio, é rati- 
ficar-lhe a antiga amisade e alliança. 

Não correspondeu, Sancho devidamente a esta 
cortezia e aos passados favores. Puudando-se 
no senhorio que seu pae havia tido no Algarve, 
do qual, apesar da doação que fizera ao neto 
D. Diniz, conservara o titulo honorifico de rei, 
— > Sancho, não só se appellidou da m^sma 
forma, mas até mandou pòr o nome,de D. Bar* 
tholomeu, bispo de Silves, que não estava em 

- < Lafoente. BisSoriãffeHmxd ^'Wãpaêa T. 4» K 1 






GaiMa, entre 09 preladm confirautites nos géus 
régios diplomas, com o aoico fim de sigoificar 
que. lhe era sujeita e dependente a diocese do 
reina do Algarve. 

Durante os primeiros séculos das modernas mo- 
oarchias christãs das Hespanhas, nos documen- 
tos authenticos dos actos goveroativos de maior 
monta, como tratados de paz, escripturas ea- 
ponsalicias, cartas regias de doação, outborga 
de foraes e outros, não havia só, como hoje, a 
assignatura do imperante e dos ministros ras- 
pectitos, assignavam também os infantes, os 
prelados de todas as cathegorías, os membros 
do conselho, os ricos homens e até os cavallei- 
ros, que se achavam na corte. 

Ibiitas vezes n'e8se8 diplomas ínscreviam-se 
igualmente os. nomes dos i^ncipaes magnates 
do reíao, ainda mesmo que não estivessem pre* 
sentes. 

Estas assigaatnras doe mais importantes se- 
nhores do paiSy eeclesiaslieos ou dvis, davam ao 
acto governativo maior solemnidade; eram como. 
penhor de que todos osnígnatarios o haviam pon- 
derado e approvado, e augmentava^^lhe portanto 
as probabilidades da acquiescencia da nação. 

Oe.coBfirmantee recebiam uma honra, pondo 
& sua aasignatura junto da do monarefaa: n'este 
intuito assignavam tamb^n os estrangeiros ii*^ 
lustres presentes ao acto ; mas tal facto signifi- 
cava pa» 08 nacíonaes ausentes que o território 
da sua jurisdieção pertencia ao reino do monar- 
cha de quem era o diploma, e que lhe estavam 
sujeitos 06 nomeados. 

Eis por que Sancho mandava inscrever, como 
confirmante nas suas cartas regias, o nome do 
Impo de Algarve. 

Inquietou-«e Diniz com esta demasia, além de 
ingrata, injusta do novo rei^ e apressou-^se a 
tilar dos cartórios públicos traslados dos docu- 
moMos comprovativos, jã da obediência e reco- 
ehecímento prestados pelo prelado e cabido de 
Sihres a Affonso ui, declarando nullos os títulos 
que lhe outhorgára o lallecido monarcha de Cas- 
tflUa; }ã de todos^os diplomas que aíBmwvam o 
MBhorio a posse da corda portugueza no reino 
te Algar?e. ^ 

• 



Esta cGHitenda, felimeoíe, Biot^yefniilakr$e^ 
guimento. 

Sancho, apesar da maioria dos ricos homflns 
e cidades o terem aicdamado ret, faligad^ dl» 
guerra civil por que acabavam de passar, ^*-'eoa 
obrigado a percorrer o reino, para anijâlar oa 
barões e os povos que hesitavam, em o acoekar, 
contra a determinação expressa do teslasieni» 
de Affonso x, e.aos quaes desgastava o sen UQdfi 
e desleal systema de governo: -^ um dos príuim^ 
ros actos do novo rei fára annullar os privil^oa 
ecartas que dera a muiiaa povoações, qm o ha- 
viam auxiliado, ainda infante, a oonquiatàr a 
coroa. Pouco a ponoo, todavia, restabeleceu^ ap^ 
parentemoite, a ordem, casti^^ando os dsieoDtei«( 
tes a. uns com a morte, a.outres com o desDerro 
e o sequestro dos bens K 

Conhecendo que o verdadeiro meio de pacifi- 
car e chamar a si a turbulenta nobresaAos seus 
estados,, era leval-a á guenra contra oe macros, 
põz em pratica este pensamento, daraato quasi^ 
todo o anno seguinte.de 128Õ. 

Appossãra^se, porém, do aeu espirito, ntaobs- 
tante a natural braveza, Lopo de Saro, «ellhbr 
da Bjscaya. Obtivera este do rei atitolo de ooade, 
com todas as funcções e privilégios antigo»; oa 
logares de mordomo-mõr e aiferesHnõr, aasegm» 
rados pela posse de todas as fortaleia8)de*GÍBia». 
tella, e uma chave na ohancellaria real; além de 
tudo isto era sogro do infante D. Joio, e sea ir^ 
mão, Diogo, tinha o governo hereditário da finun 
teira. Lopo de Haro, possuindo pois com os sm8 
as mais altas posições no governa militar e civíi 
do reino, dominou em breve tudo na corte, a£Gpo»« * 
tando com seu orgulho toda a noboeza do treino; 
e procurou aié annullar o casamento d*el«irei oam 
a rainha, apesar de ser sua cunhada, para o diesM 
posar com uma sobrinha, nais obediente a seua 
mandados. 

Tomou D. Maria de Molina por este motivo 
em ódio o vallido; grande numero de idati 
gos o olhavam invejoeosj c começaram por toda 
a parte a ievantar^se contra eile e contra San* 
cho, ajudados pelos povos, despojado» de seus 
fon».' 

Chegaram estas* contendas até á iaia áatSot^ 
Ittgal, e, sem n^ellaa ^istBnsi^wwailii se endatr 



. i 



,, .1 :• 



i Lftteenie loc (»t 



BlIitMtei ^ Bèitasil 



D. DiiiiSy lonitDs portogosEes brandiram as ai^ 
nas pugnas de Castella. 

.•Badajoz e Albuquerque, povoações visinbas 
do.Boeao AleiBtejo, armaram^se em bandos e 
guerrearam-se duramenie largo tempo. Erase^* 
fihor-4a (ladtinia D., ioão Âffonso d^AJbuquerque, 
nela de D. Thereza Sancbes, filha do rei portu- 
gtttô-Saacho i, e tão ^luerído de D. Diniz, que, 
ititts «tarde, O' fez 0(xid6.de Baroellos, mor*- 
doffio iDór, e casou seU' filho bastardo, Âffonso 
Sanches-, com afilhatherdeira d'aquelle fidalgo. 
- leTsntara-fle o senhor d'Albuq[uerque contra 
o râ deCasteUa, e sob o seu pendão militavam 
Buiitos porfeDgaezes* rNfta écrifçl que, attentas 
aa relações d'affectp, existentes entre D. Diniz 
e estte diefe, elles estivessem alli contra vontade 
do rei.de Portugal. 

Por^fim Jé&o. Âffonso^ aeoçado pelas forças do 
monaidia. castelhano, te^e de* fugir para Galliza; 
-àià foi . preso â.traiçftOi por cnrdem- do rei,, e teda 
sida degolado, se ti»e.nAo valesse a intercessão 
darainba D. MaiiadeMolina. 

Obrigado por estas jconlendasy acolben-se em 
1386, a Portugal, um emigrado iilustre, D. Ál- 
varo Nuaes Lara, cujo pae, doisannos aptes, «e- 
goiodo. o partido d'Affpnso x, havia sido cercado 
pOT; Sancho, na cidade de Alborafim, e fora ven- 
•ddo e despojado do seu domínio. 

.'Eia^D. Álvaro aventuroso e guerreiro, e à 
frente de numerosos parciaes, castelhanos e 
portuguezes, operou pelas terras de Riba de Côa, 
teipientes excursões, levando aos estados do 
vencedor de seu pae a guerra, a assolação e a 
nona. 

. Tinha então a tenencia ou governo da co- 
jaarca^da Guarda o ixtfante D. Âffonso; irmão de 
D; Diniz. 6anhouH>'aamisade de liara; engrossou* 
lhe as fileiras com gente dos seus domínios, e 
&cilitou-lhe a acção com os favores de gover- 
nante da localidade. Affluiram âquelle> ponto 
.Mpas d'el-reide Gastella; e peleijacam-se recon- 
tros .ocphidos e sanguinolentos,. que custaram a 
vida- a bons cavalleiros portuguezes da casa do 
infante; a tradição, atravez de séculos, conservou 
estes feitos na memoria popular. Por fim, emye^^ 
nhou^^e .Ãffi>nso>por^laà forma na. contenda, que 
pniâfloa o excesso d^obrigaros habitantes da 
cidade e comarca da Guarda a tomar as armas, 
para entrar em campanha cojilraCIaaleUa. 



&a tamanho o.esea]iéilo4|^eDifiixjBlto.}mide 
deixar de accndir ao mal, que já lavrava àavia 
muitos mezes. Foi á Guarda no Terão de .1287, 
com grande acompanhamento de .prelados,. €or- 
tezãos e'homen6.<l'arma8, e pretendeu aquietar 
suavemente.o irmão e Álvaro de Lara. Destitoijtt 
ASbnso do governo d'aqueUa comarca, mas oofflr 
pensou<^ com a tenencia de Lamego, Vizeu e 
Traz-^os-Montes. 

. Lara porém, continuou emfareveas suas per^ 
turbações. .Realísou diversas ^entradas nos reinos 
de Galliza e de Leíia,,e, reunido ao infante por- 
tuguez, que se recolhera ãs suas villas do Aiem^ 
tejo, estabeleceu <;ontinua8 (correrias, pelas tecraB 
de Castella, i • 

Não poude . Sancho,, o bravoi soffrer por. mais 
tempoutaes excessos. Às^meosugcns, que sobre o 
assumpto dirigira a D. Diniz, juntou iònaal de- 
claração de que lhe pedia licença para. vjr a 
Portugal pessoalmente caatigar seus íaâinig08;.e, 
semaguardar a resposta, aproximou«f e4auoeaa 
fronteira* 

- Dkiiz viu-entio que era ch^gvdOiO HM>mflttto, 
a não querer envolver^se n'uma. guerra aberta 
contra CasteUa, de reprimir de vez as âemar 
sias 4o irmão e de Aivaro de Laia, aa quaes 
até certo ponto, havia mezes, authoôsaffa, não 
lhes pondo mais obstaenlo> do que palavras e 
branduras, como antes tinha permettido senão 
animado' o auxilio da gente portugueza ai Ioão 
Âffonso d'Albuquerque. Vimos no {Nrindpio do 
capitulo a razão doeste procedimento do príncipe 
portuguez: — convinha-lhe entreter e enfraque- 
cer, com lutas intestinas, um visinho perigoso. 

Mas, na presente conjunctura, repetonos, e 
em face da attitude de Sancho, este aystema 
de politica tomava-se arriscado ; além d^issp Âf- 
fonso continuava a declarar-se o bueiro ligi* 
timo da coroa; simultaneamente, pretendia, com 
demasiado empenho, que Diniz lhe legitimasse 
os filhos para herdarem os seus importantes, 
dominios, o que encontrava .serias e justas re- 
ludancías; e finalmente, a casa do infante lomã- 
ra-ise centro. dos desoontêntes aventurosos , de 
Portugal e CasteUa, cujo numero angmé&taT»» 
de dia para dia, e começava a inspirtr aerioa 
receios. 

,>j[>^ |>Íniz<cbmoR«ll^ tadA^ mlite* 

rea do paiz» aahiu da Guarda em setembro^ 9 






!^ 



ilMense^lIbe péte eattinAo « geMe qire con- 

Boi' %4b -MveÀfeRKy, aoompttihâ^ de graade 
«raltfdfto, «fCioè AivoQU^be», (mdé se acbaya D. 
Mbns»; e GciHoeDU fot^sis d^^bsenaçio, ante as 
f^raçâs dè Hartfto e Pdifalegre, qve perteh^ 
dam também, como Alssemo», ao iireqnietb 
infante. 

Km bi«¥e ae Ibe pettsiti 0fel de Cntéffii com 
as-jfefiíteB tef kiò e^ de Odfiifl,-^o mestre d'AI*- 
«antoMí/ 0. Femfta Perea, porttigues, e os ca- 
talleiMB da erAem,^^o preponderante ralido^, 
Lopo die ' Hara, -^ e, provaTelmente, a ndiAa 
9. Ilttfte *i# IfoMaiÉ, ^êcostmnatu aoompmfaar 
0mÊifHè em'lodis a* campanhas. 

ArtWpAeá, {MMiti, era uma pnçá, nriDtar^ 
aaeaife, bem ritcmda, defendida por eastrilo, 
imm>9 e battaeàa», e ânatentada, n'aqiieHa oé^ 
«arflM^ pela tatíhot g^te do infante e porntih 
mavoBOflf e valencee cavaUeiroa de fftmi toda a 
petâflstthik 

Resistiu às ptfmeSm^ibvestidas' dos éffiantes; 
e>, - dihranfte aemanas, pele}áram-«e envolta de 
i«w«ittN»S', eoãi' brilbantes ^stMá •d^armafrpara 
lAft e ^iltM} hàíif, numerosas esedramuças Mh 
earaeieit dedsiNro . 

fim* todavia elaro^ qnse a praça nfto podia 
itAntei^ae por muito têMipo", ante o poder col- 
ligado dos dois monarchas de Castella e For* 
tugali . 

fiomo se tratava d^^una itila de farailia e e^ 
M vtMoê, accudifttm por fim as senkcf as da 
hmflia. 

 mAe tK0 Dinis e ASònéO', qife estatA em 
BargoS) v0itf com a inhnta D. Branc» a Ba^ 
dajoz, — Giqiiarendas seu pae, Aflbnsox, fhe 
értxirft <m teanamento, ^e d'Bli!l intercedeu 
pdo iifee sitiado. AuKitlarmn^lhe o» rogos sua 
Mah^ 9i MariA deUolina e a rai^a-D.' bridei 
éePortugil. 

ItoiÉMv foféfm, mais pósitl^^ Teiodetermi»' 
laro moofáo. btfaKte, siri^údo dè titida a 
Badajoz de sua m&e e irmft, e podendo^ 4flltes 
eiiv iò artiiila ^4bs ' priacesas qoe estavam no 
acmnpHmeiíto^ ímadl^ a» vedetau reaes; siMu ée 
Arronches, e acolheu-se â protecção de D. Bea- 
tm».f8«giÁMe ,lfl9»tamfep0Éalo<»èd* amas; e 
tractoihse de pactuar as^yaseti !Moa:>^oaifriÉ»^ 
n voL.— 4. 



fi«8 se rémifáié éiff lkitlaj6z/ e-âsi^^ailinl-nas 
em 13 de dezembro, no meio^ da alegria' 'è 
accIàmaçOes do povo, (pie via n'eHas otèirmo 
d'uma guerra entre indSos, inglória, Ihiprodu^ 
ctiva; e que o dilacerava. 

ABbnso entregou Arronches a el^rei, e rece^ 
bett em troca Armamai*, na comarca de La- 
mego. Mais titfde, cedetí todas as pra);^ qttè 
possnia na fronteira por outras situadasr nè 
interior do reino, d'onde não podesse-, faDòiV- 
mente, perturbar a fratiquiUidade de Castella^ 
nem siát* tão perigoso a Portugal. Por entSO', 
porém. Manto e Portalegre foram entt^gues*, 
em fidelidade, a cavalleiros do inbnte, dé leaf- 
dade ao reino reconhecida, qte prestaram, ua 
pvesehsa d'Aft)iiso, homenagem a D. Dmiz. 
Bste angmentou , pefai segunda vez"; ás rendias dó 
frmao. : j 1 

Dmtmte, porém, o tempo em ((ticos mboatichaâ 
de Castelh e Portugal estiveram judtos, outrôè 
acccrdos, posto que secretos, se trataram entre 
òs don, mais importantes "hIo* quis os ptablieos e 
dê mais ruidosas conse^ineiícfas. 

Diniz era sagaz, persuasivo, eloquente ; -toflaíè 
estas quáhdades empregou para resolver, nlim 
ponto diffidl, o espirito, até riii indeciso, do sók 
berano deCastella. «' 

DeUgenciava^-se, a pedido de D. Máriardè IToH^ 
na, contrariar os intentos de Lopo de Haro, «Obre 
a aouullação do casamento do i^i, e eomba*^ 
ter 3 preponderância do valido, no anfmó d^ 
Sancho. 

O ÍHbo de Affonso irr ttfumphou; nSò sO au- 
gmentou no oonceito do tio as virtudes, aliás 
verdadeiras, da rahiha, e firmou na sua curta ra« 
são a vallidade do matrímomo, cousas que não 
eramdMHceis, pois Sancho amava a esposa; mas, 
o que è mais, arruinou de todo a privan$a, 
apenas vacilante, de D. Lopo, fasendo vAr áo 
rei castelhano quanto era perigoso estaf sob' o 
jugo de om vaasaHo^ que juntava ao demasiado 
poderio^ a trodacia d'iiiteiltar destituir a rainha, e 
regtthr a seugràde a suceessão da eoróa. Gà^ 
bo««lhe além disso hiiàt a ndMaa dó nè^ 
cimento, a etevaçio ^'espirito e a numèréiiat 
parcialidade de D. Álvaro Nunes^ de Laráj^dizen- 
do»lhe que só este bastava, para contrabalançar 
^nililo, e^ue» flíduBlIldo à tat lininde^ o lil^- 
sava por leal servidor. - . .-» ,^ívS 



tv 



26 



^^■•Tr^f^^^^l, '(^^ ^7 ^"''''IB^^ 



. Empenhou-se o rei de Portugal sobre modo 
ju> caso, porque, além de ser de justiça, os de 
Haro vi^m mal os portuguezep, desde que Af- 
fonso, o bolonbez, despojando Sancho u do 
throno, lhe contrariara o casamento com D. Me* 
cia de Haro. 

Seguiu o monarcha de Castella as insinuações 
de D. Diniz, e admittiu Lara, desde logo, a in- 
^tifaa amisade, despertando em Lopo o ciúme e 
o^oAio. 

. a Com isto^ — diz o erudito chrooista d'Alco- 
baça,— não fez el-rei D. Diniz mais que trocar 
a el-rei D. Sancho um levantado por outro, dei- 
xando obrigados e em seu favor a rainha de 
.Castella e o novo privado K» 

Álvaro de Lara viveu pouco, e nio teve 4empo 
de adquirir, a preponderada: de Lopo^ esto in- 
fluía tanto que, inimigo, chegou a inspirar ao 
jponarcha sérios & justificados receios. Resolven- 
do Sancho desfazer-se d'elle, teve de dissimu- 
lar, dispensandp-lhe, ainda duiiante mezes, as 
antigas demonstrações de distincção e apreço, 
até achar occasião opportuna para seu in- 
tento. 

. :Sobre a conveniência para Castella da alliança 
traoceza ou aragoueza, levaataram-se,- ao princi- 
pio do anno seguinte de 1288, grandes oopten- 
das entre el-r^i e os de Haro, que tomaram 
attitude quasi d'aberta hostilidade, optando pela 
ultima, contra o parecer da rainha e do arcebispo 
de Toledo, que aconselhavam a prí^leira, á qual 
Sancho se inclinava. 

. .. Ajustou-se que, em Alfaro, se reunirem cor- 
tes a que todos oimcorreriam, para decidir o 
pleito, hmm se effectuou. Estando a assembléa 
a debater o assumpto, Sancho sahiu, pretex- 
tando urgência e declarando que voltaria em 
breve a saber a resolução. Viu o rei que era 
mienor do que a sua a guarda que, ^ port^ do 
edificio, acompanhara os. de Haro. Regressou 
immediatamente â sala, e, dirigindo-se a l^o 
e ao genro, o infante D. João,— disserlbjBS que 
08 retinha alli até lhe entregarem os casteUos e 
governos qua possuíam. Ouvindo ta), o sobepbo 
fidalgo clamou pelos seus, eavapçouparaçl-rei, 
com um grande cutello, levantado na dextra. 

t Fr. Piiane. BrandSo^ JMm. Im. !T. ^5, P. 1% 

L. !6, c. . • I 



Com as espadas, dois cavalMroB de Sancbo Jhe 
deparam o braço, e em seguida o mataram» 
Ao mesmo tempo, o rei acutilava, repetidas ve- 
z^s, o irmão» Dicigo Lopez, deôando-o por morto. 
A mesma sorte teria o infante D. João, que, de 
ferre em punho, defendia os de Haro, se a rai- 
nha D« Maria deMolina, intervindo, não.salvasse 
a vida do cunhado; limitouHie el-rei, p<H* então, 
a encerral-o n'um cárcere. * 

A esta scena, sanguinolenta e barbara, seguiu- 
se, em toda. a Hespanba j violenta guerra civil. 

A familia de Haro, instigada pela condessa 
D. Joanaa de Molina, viuva do assassinado, o 
visconde de Beame, toda a Biscaya e parte de 
CasiteUa a velb^, 4'acGordo cov o monarcha de 
Aragão, proclamaram rei a ASqq» de la Gerda^ 
e levaptaram^e ^a guecra oontra D. Saaoho. 

Posto que este desenvolvesse conjtra elles toda 
a sua actividade e valor, e fosse cercando e to- 
numdo muitos dos caatellos ininúgos, comtudo 
a insurreição crescia, e o pyroprio rei d'Aragãe 
declarou-se abertamente contra Castella, e jun- 
tou o seu execdto aos reiKdtOioa. 

Chan^ou então D. Sancho Iodas as forças 
das ord^is militares, ricos homens e povoações 
qmd se lhe conservavam fieis; a pediu bxxxm 
lio a D. Diniz de Portugal, para esta perigosa 
guerra, -^ consequência em parte dos conselhos 
í)ue lhe dera, em Arronches, .o saceeaaor-d'Af- 

fOQSO III. 

Não lhe negou soccorro o monarcha pmtu- 
guez, ant^slhe iuaadQU)Q& prima vera de 1289, 
a mell^KT gente que poude reuair das communas 
e guarnição das fortalezas, com os chefes mais 
distinetos e es mais audaaes fidllgos. Com es- 
tas, forças e.o esereitó de Castella, poude Sa»* 
cho conter em r^peito o rei d'Aragão. 

MaSt n^outfos pontos, os seus capitães eram 
desbaratados e mortos; Badajoz, a capital da 
E;iuUreinadupa, em •cooseqpieocia d-ttma pequena 
questão local entre os dois bandos (pie a divi* 
diam de,be;ii»W0aeportugaleaes, levantou lam- 
bem a bandeira 4a insurveiçfto por Affonso.de la 
Gerda. , 

Bnvioui Sanfibo x)0|itra ella os mestres de K^ 
das as ordens . mililwes. ProaMteram aos su- 

I GimL de don-temho el Bravo, e. Ifti^Laftieniei 






«7 



Mevados que o rei lhes perdoaria: — ii'e8ta fê 
sabmetteram-se. O monarcha porém falseou a 
promessa dos seus delegados, e mandou matar 
mais de quatro mil cidadãos, pertencentes bo 
bando insurrecto dos bejaranos. ^ 

Crueldades similbantes exercia em Toledo, 
Talayera, Ayila e em muitos outros pontos. Por 
esta arte, semeando as ruinas, o terror e a 
morte, é que o filho d^Âffonso, o sabiOy pacifi- 
cou a sua vasta monarchia. 

Foi este monstro coroado, que D. Diniz, em 
hostilidade a seu cunhado Affonso iii, rei de 
Aragfto, auxiliou com o sangue de milhares de 
portugueses, prodigamente derramado em innu- 
meros recontros obscuros e inglórios, durante 
dois amios d'incessante lucta. 

Não consta haver dado a Portugal vantagem 
alguma esta intervenção, que tanto nos deve ter 
custado. 

Mo se pôde suppOr como tal o contracto 
de casamento ajustado, na fronteira portugue- 
sa, pelos dois monarchas, em 1294, do infante 
D. Fernando, successor da coroa de Castella, 
que contava seis annos, com a infanta D. Cons- 
tança, filha de D. Diniz, que nascera poucos me- 
ses antes. A realisação doeste enlace, efectuado 
muito depois, ainda assim sem proveito real 
para o paiz, teve por causas determinantes suc- 
eessos mui diversos e o esparzimento de novo 
sangue. 

Um outro casamento, contractado n'este mesmo 
anuo, precedido da morte de ASbnso iii de Ara- 
gão, é que de facto terminou a guerra: — foi o da 
filha mais velha de Sancho iv com o novo rei 
aragonês, D. Jaime ii, irmão do fallecido. O pre- 
tensor, Affonso de la Cerda e os outros seus con- 
federados, faltando-lhes aquelle poderoso appoio, 
foram obrigados a contentar-se com pouco; e 
por intermédio, parece, de D. Diniz, obteve a 
liberdade e as boas graças do irmão, o infante 
D. João, que, desde Alfaro, jasia preso. 

Era porem este príncipe, dotado, como San- 
cho, d'um caracter inquieto, feroz e desleal. 

Castella sustentou, durante dois annos, uma 
gneira gloriosa e felix contra os musvdmaoos, 
tamando-lhes. Tarifa, em cujo eerco o rei e o 
mftiite 86 áiatíngttiram, combatendo }un408>. Os 



dois porem desavieram-se; D. João rebelou-se, 
mas perseguido, refugiou-se em Portugal. D'a- 
qui, junto a João Affonso d'Alboquerque e a 
outros emigrados, fez a Castella quanto damno 
poude. Mandou Sancho ao in,ante, como parla- 
mentario, João Nunes de Lara, irmão de D. Ál- 
varo, já então fallecido. D. João prendeu-o, e só 
o soltou a pedido de D. Diniz ^ 

Por fim, a formal requisição do monarcha cas- 
telhano, baseada nos tratados, celebrados entre 
os dois paizes, o infante foi obrigado a sair de 
Portugal, e passou a Tanger. 

Como mais tarde Diniz se ligou a este 
príncipe, na única expedição militar que pes- 
soalmente emprehendeu fora do reino, mencio- 
naremos um acto de D. João, que causou pro- 
fundo escândalo em toda a cbrístandade. 

Offereceu-se em Africa o infante ao rei Yussuf 
de Marrocos para lhe reconquistar Tarifa, que 
no anno anterior ajudara a tomar. Deu-lhe o 
mouro um exercito; e o castelhano póz em 
breve cerco apertado á praça. Defendia-a um 
bravo cavalleiro, Affonso Perez de Gusmão, de- 
pois, pelo rasgo que vamos contar, intitulado o 
bom; inutilisou largo tempo, com suaintelligen- 
cia e valor, os esforços desesperados do infante 
e dos capitães infiéis. Reconhecendo D. João a 
impossibilidade de cumprir, por modo leal, a 
promessa que fizera ao emir musulmano, — recor- 
reu a um meio nefando. 

Tinha comsigo um menino, filho do gover- 
nador de Tarifa, e que Fr. Francisco Brandão 
suppõe haver o infante, — sob pretexto de o en- 
tregar ao pae, para com a sua protecção valiosa, 
melhor se congraçar com el-rei de Castella, — 
levado do paço de D. Diniz, onde se creavam os 
filhos, ou parentes, como este era, dos mais 
nobres fidalgos do reino. Conduziu D. João a 
creança ante as muralhas, e declarou a Affonso 
de Gusmão que lhe mataria o filho^ se não en- 
tregasse a praça. Ao próprio sangue e ao amor 
paternal soube o cavalleiro brioso antepor o de- 
ver do cidadão e a honra, do soldado. Arrancou a 
adaga da cintura, e arrojou-a ao campo, dizendo 
que podiam assaasiDar seu filho, mas que não se 
renderia. 



í Fr. Franc. Brandão— ilfon. Lus, T. 5, P« 2 



98 



SUlltMiftr d^ EtefeBMift 



A, egta ic^po9ta heróica^ o.iniiazite loi tão tíI ^ 
(eraz, que. mandou tomar a acma» e fel-a cravar 
no cor^gão da creança, ^ levantando em seguida 
o cerco de Tarifa. Estava-9e em 1294. 

Com taes caracteres, os príncipes de- CasLella 
durayam pouco. Em abril do anno seguinte, 
falleceu D. Sancho o pravo y contando apenas 
trinta e cinco annos de idade^ e deixando ainda 
na infância, o successor da coroa, seu filho 
Fernando iv, futuro marido da infanta porta- 
gueza, D. Constança. 

CAPITULO V 

IHuiTQlaçõefl entre a egrejA e o poder civil; 
. .prime^r» e «egujida concordatas. 

Anteí de proseguirmos na historia politica 
é militar do paiz, convém examinar allenla- 
mcQ^e, os acontecimento? anteriores, e estu- 
(]armos, sob seus diversos aspectos, a larga 
evoluçip por gue ia passando a sociedade portu- 
ÇÚeza, ... 

\}í^ doa principaes, atjuelle que primeiro se 
nos .offer.ece, na ordem cbronologica^ é a luctn 
entre o sacerdócio e o império, entre a egreja e 
o poijcr civil, — (piestáQ velha,, tão antiga como 
a moparchia, mas que, n*este reínado>. redobra 
d'interesse, pela nova feição gue, apresenta. 

Dissemos como ÀÍStonsp m, nos seus últimos 
momentos, promettera com Diniz inteira obe- 
diência aos decretos de Gregório %., e conjo o 
novo rei, subindo ao throno, procurara o meio 
mais adequado, para chegar a um accordo com 
o clero. 

ÍTcstc intuito, enviaram ambas as partes con- 
tendoras procuradores a Roma, para tratar do 
pleito. Mas, em 22 d^agosto de 1280, falleceu Ni- 
coiau III, e deixou pendente a negociação. 

Então, os prelados Fr. Telio, arcebispo de 

* Lafiiente. Gist, gen. íVEsp, loc. cit — Pr Franc. 
firatidão ibid. 

'Este nosso erudito historiador acrescenta: 
' iBra o infante D. JoSo costumado a render castcff- 
los tom ameaça de morte dosr filhos dos que os' giiâr- 
davâo» No anno de mil dpzentos & oitenta A dons, 
seguindo, contra o pay as partes de seu irmão D. San- 
;ChO| andando-lhe sugoitandoo Reyno de Leão^^oube 
qdè estaca no caslello de Çaaiora a mijUter díS|Gi^ 



Braga,^yicente, bisf^ do P(Hlo>-"AyiMrie, de 
CoúnhFai— Fr. João, da Guarda,— DurÂp.éeJBte^ 
ra,— £ Fernando, de Tity reneifiuiHse, aa cidade 
da Guarda, com algans rícoa homena e pesaeaa 
principaes, por parte d'el-reí. AU, ayfBseotadoí 
08 artigos sobre que Âffooso uriftra admoestado 
pelos poniiGces, discntiiaawios, calerosaoeiíU^ 
durante três semanas. . 

Accordaram por fim que ei-rei cumpriria oa 
capitules, contidos na boUa de fireferie x; obii^ 
garia os seua súbditos a goardalrog. fielmente; e 
que esta concordata seria enviada ao fafSí$ sok- 
liçitand(>-se-lhe a confirmação. GoyemavaeiítãoA 
egreja Martinho iv, que subira ao aoliopoatifieio 
em 22 de fevereiro de 1281. 

Previamente, porém, predsavar^e o (leasoal e 
directo assentimento do monarcba» Para o obter 
partiram os prelados da Guarda, e dirigiran-ae 
ao sul do reino a encontrar-se com el-rei^ 

Estava D. Diniz no Algarve, mas-:- tendo noti- 
cia da resolução e vinda dos altos dignatariosda 
cjgreja, para oiais lhes ca|itivar o aoimo, poopan* 
do-lbes, delicadamente o trabalho, entdo i^ada 
pequenos,.de parte do caminho, — veiu, preasilOOp 
sãmente, a Évora, e i^hi m recebeu aSactjioso^ 
Foi tal a estima que d'e8te paaao fiaerana^^^ 
clesiasticos que^ reconhecidos^ orelalarav», d^poia 
para Biuoa ao fiontifice» jcomo prií^or da- cortei 
real. 

De novo se conferiu a matéria da negociafião* 
sendo em s^aida remettidoa para a ciicia.ps-ar- 
tigos da concordata. Ambaa 9S parLes coptendo- 
ras enviaram ã Itália os ?eus prcK^uradofeSo, e 
escreveram ao papa^ Martinho ivi 

Expuoham-lhe os males caj^aados, nareino, 
pelo interdicto de Grogorio k oputra Affooao m, 
privando os povos de todos os gaarameutos e 
consolações da egre]a« o que» n^aquielieia tempos 
de fanatismo a de predominio quasi completo 
das idéas ecclesiasticas e do direito canonioa^ 

tere Peres, Meirinho mór de Galiza, que na ausên- 
cia do marido o sustentava.. Parira ella hum íilho 
avia oito dias & críava-se em hua aldeã vezinha, 
mandoiú-o buscar o Infante, &' <!tissc á máe que o ma- 
taria se nSõ entregasse o casleHo. A honra/hi matrona, 
que alé aqueMe ieiipo»este?e eonitânte, oom'9 t^íMft 
do jilbo «e rendoiL Custfto ás mftyt Milhos aMiiS/á 
assa os amão mais. Na Ghronica dei Rey Dom Afcmso 



IWHirtw r 4» Pwtmil 



iMjavav o fm^ n'um estado migeraiidQ e íb^ 
piofiioda perturbagão^ Uato aa <>rdem religiosa 
CQQO na civil;— faziam-lbe saber os bons desejos 
em cpie todos estavam de co&cordia e de paz; 
— retatavam os esforços empregados paraas reali^ 
8ar;-^-^ajpreseiiJtaYam-lhe acoacordata que haviam 
aÍttaUdo,--e pediam para elia a saocgão apostó- 
lica» em testemunho de perpetua segurança. ^ 

D.. Diniz, porém, na sua carta, posto que sub- 
missa e delicadamente, dava a conhecer que- não 
tomava, o pontífice como juiz supremo do pleito, 
e apenas o acceitava por avindor, ou mediador 
da contenda. «Porque na terra, dizia el-rei, ten- 
des plenariamente as vezes d^aquelle que he paz 
nossa, íázendo de ambas as republicas do ceu & 
terra huma, o medianeiro entre Deus & homens, 
Christo Jesu. ^ 

A isempçâo do procedimento de D. Diniat e do 
clero portuguez.nào agradou a Roma, costumada 
a avocar a si inteiramente estes pleitos, e a de- 
cidil-os a seu bello prazer. 

Não alcançou portanto a concordata as boas 
graças da cúria; Martinho iv declarou que só a 
confirmaria, com alterações importantes, que pro- 
pôz a el-rei, para que as acpeitasse em cortes. 
O bispo de Leão, o deão e o arcediago de Le- 
desma Salamantinense foram os eleitos do papa^ 
para seus commissarios n'este negocio. ^ 

As propostas do successor de S. Pedro con- 
trariavam, porém, os direitos do poder civil; re- 
cusou acçeital-as D. Diniz, e qufiixou-se para 
Roma. 

■ 

Três annos se passaram n'estas infructiferas 
negociações. Quando os procuradores de el-rei 
levaram a ultima carta jà era papa Honório iv, 
eleito em 2 d'abril de 1285. 

A este pontífice dirigiram-se também Fr. TeJlo, 
arcebispo de Braga, --Aymeric, bispo de Coim- 
bra,— João, bispo da GutU*da,— e Vicente, bispo 
do Porto. Na sua missiva, os prelados relatavam 
terem avisado o rei de Portugal, para, em 
determinado logar c dia, juntar os do conselho, 
08 barões, religiosos, cavalleiros e procuradores 

' Ardiito Nac. da Torre do Tombo. L. I de 
Boafõeg dtí D. Diniz, F. 5i c 51 v. 

* Traducçío de Fr. Franc. Brandâto— JMòn. Lus, 
T. 5, L. 16, c. 36. ' • M I 

^..A Ih^.c^ jB3.-^B«lla8.de JS da mmo, l 4'^il e 
IS de maio de 128^ i. . , '^ . ,-.» •. , •. 



dos povo», afim de oiivifes lér o íbimiAiIo <lte 
Martinho iv, de que haviam sido encarregados «i 
conHulssarie^ pontificios;-*q«iíe reunidas aSisAtes 
em Lisboa, e acbando-se- na cidade os prela489 
e núncios apostólicos, ei-rd, na ausência. d'eU(ki 
e sem 08 pervenir, mandara lòrumacópiaquBol^ 
tivera dos artigos, da» respostas reformadas peit 
pontifice e de todo o processo d'este Mlgpei^ 
rogando ás cortes que o aconselhassem aalular- 
mente;«-que el-rei se escusara seq^preaou^ÍJ? ii) 
escripto apostólico^ trazido pelos nimcios,. sob 
pretexto de -que tinha co[âa, que já se lera 
às cortes; e afirmava que todos os mambrof 
da assembléa lho haviam dito, que os onn- 
cios não podiam usar da autoridade do . maik 
dato que lhes fora commettido, por tor fo^ 
dado com a morte do mandante; o q^e tod9# 
nas cortes o dissuadiam de «jpprovar de fétcm 
alguma os artigos, pois, se os acceitasae, a^sor 
róa de Portugal ficava por tai ^lodo- escravisadai 
que eiie ^em uma hora poderia yiver. »eia if^ 
morsos de consciência^ fpt ter consentido U^ 
manho pr^uizo e offensa de seua dúroitos e dQ9 
privilégios da nobreza e dos icoocelbos. Os |^ 
lados terminavam, soUicitando de Koi^qcío iv i^Ot 
vas inslrucções ^ 

Encommendoii o papa o negocio a a^^toj» <(ar- 
deaes; mas morreu antes de o <:oiidvir« Suceer 
deu-lbe Nicolau iv, que prestou aa a^sumpt^ 
a mais desvelada attenç^o. 

Os bispos portugueses, signatarioa da cart^ 
passaram a Roma« oom pxocAuração de toda §, 
clerezia do reino, a o novo papa, no priím^iro^^iioo 
dn seu pontificado, em 1 dá^ fpvere^ira de 1^^ 
recebeu-os e confirmou*lb«s os podero^» pa^ 
tratarem da contenda* 

Entendaram-se ejles com os dois pr9cuj:^do- 
res d'el-rei, Martim Pires, chaatro d'£vQra ^ 
João Martins, cónego de Coimbra; e junto» ii^ 
cutiram os quarenta artigos da.concordaMiu Coor 
cluiram o debate em principios de marçOvi s\Q 
dia 7, O chantre d'Evora, sòsinbo, porque o 0)jr 
tro procurador real estava enfermo, jurott« .em 
nome de D. Diniz, em consistório pqblica, ^iQtç 
o papa, que el-rei de Portugal e seus successo- 

.1 Vatioanoi Imtrum HiscelL Aii. 4a IM5^5 
dos idos de junhos n.«95. Copia an)haalic»<-H2M' 
dro Elementar das relações politiím ^ 4fcp(iWrttr<l| 
4eBortU9al^4^^,.^9§.^9L •, - 



9Ò 



9w l'WIHgKi 



res goavdaríam o aceordc, e o fariam guardar 
fielmente pfor todos os súbditos. 

Não se contentou o pontífice; para maior se- 
gurança, nomeou quatro commissarios em Por- 
tugal, a fim de que, na presença de toda a corte, 
recebessem d'el-reí D. Diniz, directamente, a 
solemne promessa do inteiro cumprimento do 
accordado. 

Realisada, em Lisboa, esta formalidade, os 
quatro commissarios e os prelados portuguezes 
requereram ao papa, para que levantasse as cen- 
suras einterdicto, que ainda pesavam sobre D. Di- 
niz e o reino. 

Nicolau iT assim o outhorgou, com a condição 
qtte, se el-rei, dentro em quatro mezes, não exe- 
cutasse todo o promettido, ficaria por esse facto 
sujeito ás mesmas penas a que até ahi o estava, 
com interdicto, nfto geral, como anteriormente, 
para não molestar os povos, mas de ambulató- 
rio, isto é ò capella real e a qualquer outro 
logar onde el-rei fosse e emquanto n'elle per- 
manecesse; e chegou o papa até a ameaçal-o 
que, se prolongasse a resistência á concordata, 
desligaria os portuguezes do vinculo de sugeíção 
6 de fidelidade que lhe deviam, e o privaria de 
exercer os direitos do padroado ^ 

Chegadas a Portugal as ultimas bulias, el- 
rei, para satisfazer aos desejos do papa e levar 
á conclusão este antiquíssimo negocio, reuniu, 
ainda no anno de 1289, cortes em Lisboa, e, n'el- 
ias, declarou, por escripto, perante o prior de 
S. Domingos e o guardião de S. Francisco da 
cidade, como commissarios da santa sé, que — 
ratificava a petição de absolviçáOy feita pelos 
sáu procuradores ao pcntifice, e o juramento 
por um d^elles dado á composição ^ e se obrigava 
a que tudo que nas respostas aos artigos se 
continha, se guardasse, inviolavelmente, para 
sempre, (Msim por elle, como por seus successo- 
res, ministros e por todos os barões e mais 
naturaes do reino, sujeitando-se ás penas im- 
postas pelas bulias pontificias \ 

Com este solemne e pleno assentimento do 
poder civil ás exigências do clero nacional e da 

1 BuBas de Nicolau iv de 7, 16, 2i, 23 de março 
e 7 de maio de 1289. Arch. Nac. da Torre do Tombo. 
GoffecçSo de Bulias. 

' Jfon. ÍAêê. T. 5, P. li L, 16>.C 63. 



cúria romana, «se conseguiu, — dizem os cfarò- 
niftas ecclesiasticos,— um estado pacifico, e fi- 
cou todo o reino mui contente, livre já dos 
grandes trabalhos que lhe tinha causado esta 
demanda.» ^ 

Antes, porém, de mostrarmos o apregoado pra- 
zer que a todos causou a concordata, devemos di- 
zer em que ella consistia, quaes os pontos sobre 
que versava uma contenda, que agitava Portugal 
havia tantos annos. 

Vejamos, pois, summariamente os 40 ar%05, 
inseridos na bulia de 7 de março de 1?88, sé- 
culos depois Iranscriptos nas Ordenações A/fon- 
sinas, livro 2."" titulo 1; e, muito antes, tomados 
leis do paiz nas cortes de Lisboa de 1289. * 

1 .• — Que el-rei coagia os prelados a renuncia- 
rem as igrejas, principalmente aquelles sobre 
que invocava direitos de padroado. Disseram os 
procuradores de D. Diniz, que nunca tal fizera, 
e promettcram que nunca o faria. 

2.''— Que expulsava os bispos e reitores das 
egrejas, e lhes occupava os bens, quando excom- 
mungavam os parochianos por não pagarem os 
dízimos e outros direitos devidos. Disseram os 
procuradores que tal nunca praticara, e promet- 
teram que nunca o praticaria, obrigando-se a 
emendar os abusos que n'este ponto se desco- 
brissem. 

3.** — Que não permittia que os bispos, ou ou- 
tros ecciesiasticos se reunissem, ou que chamas- 
sem, por authoridade das lettras apostólicas, os 
abbades, abbadessas, priores, e outras pessoas 
do clero. Disseram os procuradores, que isto 
nunca se vira, e asseguraram que não existia tal 
prohibição, podendo livremente usar-se das let- 
tras do papa. 

i.*»— Que, pronunciada sentença definitiva fa- 
vorável ao author de qualquer causa, el-rei não 
permittia, que elle entrasse na posse da cousa 
julgada, tomando-a para si. Disseram os procu- 
radores que nunca tal fizera, e prometteram que 
nunca o faria, e deixaria que as sentenças tives- 
sem a sua legal execução. 

5.**— Que por meio de ameaças e terrores, 
coagia o arcebispo, bispos e vigários a le- 

1 Ibid. 

* Bulia e Orden. citadas;— V. de Santarém Qua- 
dro Elementar vol. 9^ pag. 241. 



Bte^orip. de Ppttng^ 



'^V^ 



vanUrem o interdicto, que tinham justameate 
lançado sobre algum logar, ou coairaos homens 
de el-rei, processando-os, prendendo-os, e des- 
pojando os que coaununicavam com elles. Dis- 
seram 08 procuradores que isto não era certo, e 
que o principe se obrigaria a emendar quaesquer 
violências praticadas por seus súbditos. 

6.° — Que se os juizes ecclesiaslicos julgavam 
a favor dos clérigos contra os do conselho, e ful- 
minavam sentença de excommunhão sobre o rei, 
ou sobre pessoas do conselho, o monarcha, os 
seus officíaes, ou o mesmo conselho prohibiam 
todo o tracto com esses clérigos, apregoando pe- 
nas contra os que os recebessem em casa ou lhes 
dessem fogo e agua, o que era proclamado pu- 
blicamente, pelos pregoeiros, sendo alem disto 
08 clérigos declarados traidores e despojados de 
seus bens, ecclesiasticos ou paternos. Disseram 
os procuradores, que tal coisa não se observara, 
e protestaram que el-rei nãò só reprimiria os 
abusos, . como havia de proceder segundo fosse 
de justiça contra quem os praticasse. 

T.'» — Que se algum logar, ou egreja era de- 
clarado em interdictOy ou se era excommungado 
algmu juiz ou avençai d'el-rei ou qualquer mo- 
rador, os do povo logo ajustavam entre si, com'* 
munalmente, que ninguém pagasse decimas, ou 
deixasse em testamento a menor cousa ã egreja 
ou lhe desQe alguma offerta. Responderam os 
procuradores, que el-rei o havia de prohibir, 
castigando os criminosos, e compensando os dam- 
nos.e injurias. 

8.° — Que el-rei, e os concelhos não consen- 
tiam, que os bispos procedessem á circumscrípção 
das parochias de suas dioceses. Responderam os 
procuradores, que el-rei queria que a circums- 
cripção fosse feita pelos prelados igual e justa- 
mentci, o^vidos os interessados por meio deedi» 
ctos públicos, lidos nas egrejas, ã hora da missa, 
em três domingos sucessivos, nas parochias que 
se tratasse de limitar. 

9.P—- Que el-rei e os concelhos usurpavam, em 
alguns bispados, as terças das decimas ordenadas 
para a fabrica das egrejas., e com ellas construíam , 
ou reedificava^ os muros, ou pagavam as solda- 
das. Responderam os procuradores, que el-rei 
consentia, que isto se fizess^^ nas egrejas, em que 
di^e a.aqa fimdag^ oa prelados o. linham am- 
ando «xpiewuQOiitei eqaauaa ollt|raa#e|pMí^ 



dava o direito commum, promettendo em nome 
do monarcha guardal-o rigorosamente de fiHprQi 

10."— Que el-rei usurpava a administração dos 
hospitaes e albergarias, instituídas pvsaaiivio 409 
pobres, a qual pertencia aos bispos, e tamb^D 
se lhes apossava dos bens. Responderam os prç^ 
curadores, que a este respeito se guardaria o div 
reito commum e os bons costumes, o que el-r^ 
assegurava para sempre^ 1 

1 1 .''—Que o principe compeUia não só por sii 
mas por via dos concelhos, os clérigos e pessem 
eccleâiasticas a contribuírem para a c^nstruoç^ 
e reedificação dos muros das cidades e logarea 
juntamente com os leigo^, o que era contra ta li* 
herdade ecclesiastica, e oontra as Ijbís deseu:pai« 
Responderam os procuradores, que não ^ufl^ 
o facto, protestando que.se procederia por. meio 
da justiça contra os offensores« 

12.''— Que obrigava os colonos das egccyas % 
mosteiros a empregarem-se na constmcçtP) *^ 
reedificação dos muros, pelo que desasaf^aravaiii 
as herdades, padecendo estaei grande ruÍBe.Re(h 
ponderam os procuradores, que, n'esle ponto, eii 
rei faria observar o que fosse de direito coanAOm-, 
salvas graças, privilégios e composições, que 
houvesse de guardar. ..^ 

13.**— Que o monarcha e os seus maad^vaM^ 
arrancar das egrejas ás vezes pen mouros ou ju^ 
deus, as pessoas que se acolhiam a ellaB,:eaft 
retinham ahi prezas, obrigando-as muitas veae» 
pela fome a sair d'ellas. Responderam osprocax 
radores, que el-rei o não fazia senão aos tiaaos 
permittidos por direito. ■■>■.-' 

14.*' — Que.o soberano, e seus meirinhos e jui- 
zes prendiam os seus presbyteres e dengosa sen 
annuencia dos bispos, e não só os não qiicriál» 
entregar, como os enforcavam, ou deixavam-Bor*i 
rer de fome, ou de outro modo^ e se alguns 8ol« 
tavam a pedido dos parochianos, era com » 
obrigação de celebrarem os officios divinos, e, 
logo depois de acabados osofficios, os recolhia» 
ã prisão. Responderam os procuradores quetiUBCã 
taes cousas se praticaram em tempo de el-pèi> a. 
prometteram que nunca elle o faria, e quaseal*^ 
gum religioso fosse preso, mesmo com juslacáiH 
sa, seria entregue à requisição do seu prelado, 
e se fosse preso iujuriosameate se prõoederia^ 
com a justiça necessária, dando aooffttididiísaw 
^tisfiçSo pleoadas iiQiHm . 



4DMovia Aè lM)i^ti|(id 



' ^:W.^^Qtté'BiMlMí veiMsÉaaieaçân de morte o 
iMéMfipo 6 os bispos, iiMnidaTaM)8 prender nss 
«l^ejM p09 judeus e sarracenos; chamava os seus 
ieibims e ilaeÍFinhos, fáz^a cortar as orelhas aos 
9 êÊ% m dos pt^lados na presença d'elles, e até a 
tÊgÊÈÊ Matava. Disseram os procuradores que, 
«N^èi tMMi tal 'fizera, e prometteram que se nfto 

Hffl». 

le.""— Que mandava ^iKMr dentro de algtins 
lêgUtras os bispos pelos seus tassallos e dirigia- 
■m pidftikaHieme priavras afrontosas, o que 
MMA^kti practievratt ocr s^eus licos-bomens e 
faiaillOft RMpdddmtnyosproctiradores, que el« 
t^ fMHiNi shlfidlhiiBtes erros acictorísára, assegti- 
flÊád» e«l seU' neaiè que poairia os que deiiiH 
flBMtoQk- 

' tV.^^^Qilê loiíCdel^éi <M)1B0 os riotHhhottiens 
e outras pessoas deshonra^am vilmente por obras 
• pahMas és eleffgos e eoiHFersos, e ás veses 
itó natt ái i wtt dtofrir aigons nn sua presença. 
| ftiflpflii <É i i am os procnuadorea, que el*rei nunca 
flMP» Ml, pMeeCando qw nao o faria, e seria 
pMÊSffò^tat ca0ti^ 08 c«^ados. 

4S/*^QQe lAria inqíHriçdes por todo o rehio, 
Mircap 4(» bens. das egrejas, em prejuito geral 
dodero, sem convocar os senhores, nem os pa^- 
4M«litar^f sa«cbava pela inquirição, desconmnal 
e« otá, qoa o padroado de alguma egreja, ou a 
posao ée alguMM propriedade lhe pertencia, a oc- 
«ap«t8^ Idgo^ posto fpe seus donos estivessem 
ranuilieoidaB^ desde tempos immemoriaes. Re&> 
pOMtena os procuradores, que elH*ei nunca o 
fizera e prometteram quenunea o faria. 

i|3>.<>.M^)iie el*»rei occupava as egrejas dos bis- 
pas^ e OBtras, possuídas havia multo tempo p»- 
ciAsamoda e os oompellia a admittirem os 
saocidoleB^pniapresentavon^eUas; e,quandonão 
qnsriam^ mandava^s guardar por homens seus 
#aiMoadsva osfimolos e as rendas. Responderam 
00 pioonradores^ qaò el^rei nunca o fizera e pro- 
■BttMon que nuaca o faria. 
. SOi*'*«f*Qae el^rei nio ooncedia o auxilio devido 
aos» biâp08> qsando existia conflicto entre os pa<- 
éttaema- e contva o eecleaiagtico instituído pelo 
putatAo-, S0 oppimbft outro padre, impedindo o 
nomaaé^ de tomar posse, e o que era peior ainda, 
fBo nfea^B^» B&o dava ajuda» mas ate favorecia o 
•fnioru fleipadMm.es pncuradoreg, que a 
abuso nunca se pratisÉns* e ptoteataram ^ 



nunca se dáriá, libemlisa^do el-ftí, qttàíidòfor 
chamado, todo o anxiKo conforme dlreftò. 

2 1 .°— Que, sob prolexlo de administrar justiça, 
os meirinhos de el-rei commettiam cdtítnt âs 
egrejas as maiores exacç6es, e com gfande se- 
qnito vinham alojar-se n*eHas, e nos mosteifidg, 
capella8,-e propriedades dos bispos, assim como 
nas casas dos templários e hospitalarios, e em 
otftros iogares de stías ferras, apoderando-se d^ 
tudo o que Ibres efa necessário; o que tambetn 
pratTcavam os ricos-bomens, jnites, e ottcisres 
de el^rei. Responderam os pmcuradores qtid a 
acensaç&o não era verdadeh^, é pi^metteram 
qtre seriam castigados os qtie tai praticassem. 

2Í/— Que, nas egrejas ettr que exercia o d?- 
r^ito de padroado, exigia proètíi^çôesinimodera'- 
das, e serviços onerosos, e qtie os reitcnres Ibé 
dessem bestas de carga se ás tinham, ott quattdo 
nfto que as comprassem para lfa'as daf. Respon- 
deram os procuradores, que el-i^ n&o o mandará 
nnnca, e em seu nome asseveraram, que pedhía 
as procurações, que lhe fossem devidas, e essas 
com moderaç&o. 

23.o^Que, se os poderosos dbamavám ao jtlhM 
da terra, para lhe estorquir dinheiro, alganíif var- 
sailo, ou homem do bispo, nâo lhe conseatlaitr 
advogado, nem o juiz se atrevia a nomear-)!r'ó^, 
segraido era costumre, nem qualquer advogado 
vindo de outro logar ousava defendel-o, receando 
a violência dos contrários. Responderam os pro^ 
curadores, que el^ei tinha na sua corte advo^- 
dos aos quaes pagava para defenderem o povo e o 
clero, mesmo contra elle, se necessário fosse; 
pelo que suppnnham que este abuso nfto tinlia 
chegado ao sen conhecimento, porque se o soo** 
besse mandaria emendai*^, e pvometteran qtie 
em sua terra cada um podesse ter advogadoí, o 
que os advogados podessem prestaf acHtameirte 
o seu patroeinio a quem d'eHe precisasse, se^ 
gundo lhes competia, e que o juiz nomfeasse 
defensores áquelles, que os nfto tivessem. Asse*^ 
guraram igualmente que el^^^ei faria jttirtiça aos 
queixosos. 

24.*''-^ne os barões e oavalleims qne tlofautt 
caslellos em teoenda do rei, sob falsos prete^etoo' 
de guerra, levavam para deniro d'eUes inoeas; 
porcos, e quanto gado aebavam, queflioS'fiMSse 
canta, perlmioeiítes áa Qgre;iafi dos bispos, e^y 
ooM» egnm» M a aeiia hoaMnOj e ffÊerbm^ 



ITtplirtflr Hà SbKtJI^KHl 



88 



¥6086 goem, quer nSo, niuíea mais o reAtitiuan, 
e obrigavam os homens^ clérigos dós bispoB^das 
cathedraes^ t das egrejaa e mosteiros a servir, o 
que el^ei sabia, e em vez de defender os of^pjri- 
midoB, cooseBfcia que os rediuissem a tão dura 
80rvidão^ RespoBderam os proemradores, que de 
nada d'i8lo tivera noticia et-reí, e que sealgaem 
se lhe qoeixasse faria justiça; que se os ricee^boe 
mens apanhassem as reses nos legares líndtKh 
phea, em que era costam^ pastarem, eUe as 
mandaria pagar no caso de haver gttenra, e nte 
a havendo, e tendo sido colhidas malieiosamente, 
alem de muidar indemnisar o;pirejnizo, castiga^ 
ria oft culpados, nfto consentindo iqueobrigassem 
06 homeo» das egrt jas e os clérigos, sobre que 
nfio tinham direito, a servimos kgares fortifica^ 
dos. ) , 

25.* — Que obrigava os bispos, abbadeseprio*> 
res 8 terem portems s^vea pagarem- por isso 
ao porleiro mór certa somma em (Unheiro, ao 
passo qptie deviam dardes salarío; Responderam 
06 procuradores que, no tempo do Úsavó, do 
av6 e do pae de el-rei, os porteiros eram nomea* 
dos por elles para esses togares, mas que D. Di- 
nis, attendendo ás suf^Ucas dos prelados, lhes 
concedera, que nfto fossem compellidos a cen- 
serval-os e a pagar-lhes salário, a nfto ser quando 
06 quisessem: ter por soa livre vontade, ou lhes 
tossem necessários para si , ou para suas egrejas, 
e que o porteiro mór, quando outorgasse portei- 
ros menores aos prelados e pessoas ecdesiasticas , 
recdbesse um salário moderado. 

26.*'-'Que impedia os escaimbos que qualquer 
egreja preteodia faser com outra, aolhorísada pelo 
diocesano, ou os de bispo com outro bispo. Res« 
ponderam os procuradores, que el-rei n&o o fi- 
zera, e prometteram que nunca o faria. 

27.''-^Que preferia para os oBkios públicos os 
judeus aos christfios, contra o estatuto geral do 
concilio e as leis de seu pae, e nfto os olmgava 
nem a traaer signaes para se distinguirem dos 
christftos, nem a pagaras decimas devidas. Res- 
ponderam. 06 (Nfoeuradores negativamente a todo 
o artigo. 

26!.''^*42lw, «oTagavam algumaa^grejascathe- 
Aiea, intentada eWrei dal?as a ekrigos seus fa^ 
mitiaras, oa a outros menos dignos^ os quaes 
eagraudaeia por seiem dMdientes4 sua vontade, 
e nfto defeaderem asegr^^nlra as injurias 
vui.— 5, 



e violências d'éllé; que escrevia aos cabidos; ickn 
geral e especiahiieDteaoada cónego, rogando»* 
lhes com ameaças que nfto elegessem, senfto oe 
que em suas cartas lhes insinuava^ ou lhes )pA^ 
punha por via de seusenviados. Que istOimesno 
praticji^a nas egrejas nienores» que doviiEun^ser 
providas peles prelados, ou reíloies* Respondof- 
ram os procuradores, que se el^Dèiesfmvéra-ao^* 
cabidos fora a fav(Nr de homens dignos e mmea 
empregando ameaças, e promettenmuquesempre 
procederia do mesmo modo. . : j* 

29/ — Que pretendia avoQaraòsseuatvtbauues 
as teslamefttariss O' outrao cansas ecdesiaBtteas^' 
usurptfid» os legados dos d^rigos<defimtos: itesi- 
pandMm os procuradores, promellendo)giardar 
u'eafee poutoto diríBttto commum. ' . , 

. Os artigos; seguintes sfto os das lettn» de^ 
GregiMio X, dos quaea os^pnbdos, jmtamcute 
com 06 artigos aiiteeedeutea,' apDSMatodosá>&ie^ 
m&aXe iv, se queixaram>«Bi Roma. * 

30i^*-Que ooei^Mura e ooen^Ta os f^dimoK' 
tos das egrejas; de Braga, CoBubra, Viseu -eL»' 
mego, e nomeava alcaide na icidado'^de BraglH 
cqja propiedade e domimo eram do aroehii^i ; 
Responderam os proouradims, que ètrei nlo 
confiscara ese^ rendimentos, antes mandátm 
reetítmr oe que seu pae tínhui toduido; -qur 
entregaria tudo o que faltasse, e que o mesoM» 
disiam da egreja de Silves.* Quaato^a^estabele* 
cer alcaide na cidade de Braga respomferam^ 
que nunca el-rei o practicára, e asseguraram ipie 
nâoQ faria. 

dl.^^^-iQue injuriava e molestava osfaispos^e 
prdados das egrejas, os derigos e pessoas n&* 
giosas, e taadi)em os concelhos e; oonununidades 
e os homens das cidades, villas e legares, eu* 
quecendo, e transgredindo o juramento^Hrestado 
de conservar a liberdade eoclesíastíca e observas 
as provisões do pq[>a. Responderam, os proontat 
dores, que el-rei o nfto pratioftra, antes peio eon* 
trario principiara a emendar os aggnvresv que 
existiam no tempo de seu pae, em obediência ft 
auaultima vontade, e â sua promoíisa de corri- 
gir 06 males, que ainda ostíYessem:por«Qirigiij 
e que guardaria ás pessoas ecdesiasticas eseen^ 
lares os seus forois e bons ooatumea^ eu lodos 
faria inteira justiça^ mantendo principfthBHM^ii 
liberdade da egrqa» < -,■' .; ^.. ; 



i'í- 



&3w^«««>0«e oogSÊfèam aigumaa-egrijas 



84 




diiaeB, e usurpara n-eUas o direito de padroado, 
«poderando-ae também daa caaaa, akiéas, proprie- 
dades, direitos e rendimentos do bispo edaegreja 
•da Guarda, e dera a tarios elerigos e seculares 
dlgamas d*ealas egrejas e aMeas, ou proprieda- 
des* Besponderam os procuradores, qoe ei'<rei 
aada disto praticara, antes emendaTa o (iuen'esta 
fiarle seu pae kam feitOi e premetteram que tite 
eoirigiffia o que ainda restasse por attender. 
• ãS."" — Que ÂffoDs&ra, teoáo ooMtiluido senhor 
e herdeiro dos logares de Portalegre e Mar?fto 
a seu filho D. AJEdbso, logares que pertenciam 
ao Uqiado da Guarda, o iniánie, com ottterga* 
ttflito patemot desppíini também o prelado e a 
■Bua egreja dae deonnas, rendimentos e direitos 
das suas terras e tennos, e retÍTera oebeos usnr- 
pados; e qoe mandara apnsguar paUicamente, 
s'caaaa leiraa, «am* aaseaga de certas penas, a 
prohifaiçle fenal/ tanto aos elerigos, ocmdo aos 
seculares, de- rsorfbarem o bispe> em suas casas 
ou nas egrejas, quando astidlasse eamo meiro- 
folita, e de lhe aftadaram, ou ¥eQderera. cousa 
aigmtia. Qoe o bispo se queixam a efareí, mas 
que ú soberano nfto provera remédio; e q«e, oe- 
capandoí igualmente os rendimentos e deciams 
ée outras ealhedraes^ oaumarcha sem escrúpulo 
flio besitira em alienar umas, e eonceder as 
oalrM a secolare» e eavalteiros. Responderam 
es procuradores, que el*rei no que se affirmara 
nio tinha culpa, promettendo aos queixosos in- 
teira justiça. 

34.*"— Que, pretendendo extorquir aos prela- 
dos, capitules e conventos o direito que tinham 
nas aktôas, egrejas, e propriedades dos mos* 
tetros, o qual possuíam, havia muito, pacifica- 
mente, os obrigava a obedecerem ás decisões de 
ariíitros.e se acaso se negavam, mandava metter 
de posse das egrejas, propriedades e ridéas os 
inlfuios por auchoridade do sobre-juis da corte. 
Aesponderam os proGumdores, que el^rei nfto 
obrigaiva masguem a acoeitar oempromissos íor- 
çadoS) eo a sujeitar-se a decMiOes de arhitros, 
e que, se per ventura seu pae algwMa cousa 
ooevpara, obnria avesse psnt» como (bsse dl 
jflstíça. 

35."*— Oue 00 ivdadoe, cabidos, conventos, e 
pessoas da egraga, «n causas a ella relativas, 
quando n&o queriam comparecer perante os tri* 
Inaia^ 4e el«rei, wm preaença do sobre-juii, o 



monarcha, usut^nndo a jivÍBdi(&o ecckeíastíoa, 
conhecia e julgava os pleitos, que somente ao 
fópo privilegiado competiam; e que se os clé- 
rigos appeUavam para a santa sé, o sobre jm, 
dmprerada a appdiação, os reputava contuma- 
ses, e nfto duvidava metttr de posse dos bens os 
queixosos. Que et-rri também obrigava os deri- 
gOB e pessoas ecciesiasticas a responder na sua 
presença ou na de seus jnisee. Obaervaram os 
procuradores, que el*rel nfto queria citar, ou jul- 
gar algum inspo, ou derigo em cousas tocantes 
á egrcja, dirdtes, e assumptos eodesiastioos, 
nem sobre o .titulo e di8posi$&o, cada da com- 
petência doe juixes ecdesiastiGOS. Qoe acerca 
das causas imentadas aoa.clerigos» que trariam 
de renda propriedades fisoaes e feudaauias, ae 
ajustara composição especial entre elles e el-ref , 
por seus procuraderes. 

SB.^^—Que se alguns judeus ou mouros livres 
recebiam o baptismo, logo eUrei lhes confiscava 
os bens, e oa reduria á escravidAo; e que se ai- 
guns sarracenos, servos de judeus, se fásiam 
chrisclos, os reduria também tmmediatameme 
à antiga servidão, iiesponderam os procuradores 
que el>reí nunca tal prauticára, e prometteram 
que nfto o consentiria, mandando emendar qnaes- 
quer abusos, que descobrisse n^eeta parte. 

37.*— Que se alguns judeus, ou mouros ad- 
quiriam propriedades de chistaos, n&o permittia 
el-rei que pagassem dos fructos d'eltas ás egr^as 
(cujas parocbiascomprehendiam propriedades na 
sua circumscripçào) as decimas e premissas de- 
vidas. Responderam os procuradores, que el-rei 
nfto o ordenara, e asseveraram que nunca o aa- 
thorísaria, acrescentando, que se acaso houvesse 
algum edicto que tal determinasse, o refogaria. 

SS."" — Que molestava os ministros da egreja, e 
n'este procedimento violento o imitavam os súb- 
ditos. Responderam os procuradores, que el-rei 
não pretendia infringir a liberdade ecclesiastica 
nem a iuMngira nunca, e prometteram que nio 
o faria de futuro, e que se alguma coisa usar- 
pAra a restituiría, castigando os súbditos contra 
os quaes achasse queixas por similhante causa. 

$9.*"— Que el*ref restituísse e mandasse resti- 
tuir 08 bens dos prdades, egrejas, e mosteimr, 
e os de todas as pesaaaa ecderiastieas, ttMrp»^ 
dos, occupados, e oonsumidoa, doados ou atte- 
aadoB por eile, por seu ma&dadOí o« petos seua 



BipinÉft éè 




86 



ríooa homaBft» eaY«ll6iro8 e officiaee, e lhes desse 
ou fiifease dar plena reparação dos prejuízos. 
Responderam os procuradores > que el-rei não o 
tinha feito, nem faria de futuro, e que emendaria 
o que achasse praticado em contrario d 'esta pro- 
messa, ou por seus predecessores, ou por seus 
barões e mais pessoas, ouvindo e attendendo os 
queixosos. 

40. "^ — Que não observasse, nem deixasse ob- 
servar as constituições e costumes introduzidos 
contra a liberdade ecciesiastica e estado pacifico 
do reino, antes conservasse em plena liberdade 
as pessoas empregadas no serviço da egreja. Res- 
ponderam os procuradores, que era a vontade de 
el-rei, que acabassem os máos costumes, e se 
coBserf assem os bons, os quaes sempre tinha 
feito observar, e oontènuaria a manter, consen* 
tindo os prelados que se conserve o que fôr or- 
denado, com anauencia d^elles para o recto e 
ajustado regímen do reino, sendo canonieo e 
fundado em «azfio e costume, e não indo oontfa 
a liberdade da egreja. ^ 

Esta longa serie de praposições lança unataiz 
sinistra sobre a epocha. 

moBarcha por seus procuradores negw ter 
praticado os actos que lhe imfHitavam. Mas nãé é 
crivai que os prelados» alguiis dos quaes erasi 
pessoalmente affectos a D. Diniz, fossem a Roma 
apreseiáar ao pontífice, chefe supremo, espiritual 
« quasi temporal de toda a christandade, um es** 
tendal de oahimnias atrozes contra o rei da sua 
pátria, para onde quafiam voltar, e com o qual 
diligenciavam compòr*se. Ê também estranho 
que um soberano, tão directa e insistentemente, 
desmentisse a verdade de actos recentes e que 
deviam ter, em geral, numerosas testemunhas 
occulares. O que devemos crer é que muitas ex- 
torsões, violências e até assassinatos, de que os 
padres se lastimavam, eram praticados, sem re« 
pressão do rei, pelos nobres e agentes do poder 
real,— já por ser esse então o modo commum de 
proceder dos poderosos, para com todas as clas^ 
ses da sociedade, — já porque o clero, com as 
saas pretensões a liberdades e privilégios impôs- 
siveísy e pelo' abuso que fazia das penas e comi* 
nações ecclesiaèticas, provocava dos adversários 
essas terriveís represálias. 

1 Qííáêi^ BlêMéHíaf. V. 9. pog. *2è# è seg:— in*' 



Bgualmente, não podenws sappór que fosse 
sincera a submissão do rei, como rispresentante 
do poder civil, ás audaciosas exigências eccle- 
siasticas que acabamos de ouvir. Dar aos prela- 
dos a circumscripção das parochias, — isemptar 
de contribuir para as fortificações das terras, tão 
indispensáveis n'aquella epocha, não sõ os bens 
opulentíssimos das egrejas, ttias até os lavradores 
ou colonos das cathedraes e mosteiros, — perder 
o direito real de eleger os bispos, — ver restricto 
o de insinuação, nas eleições dos cabidos,—^ 
eram cousas que um monarcha, pundonoroso das 
immunidades regias, jamais poderia consentir de 
bom grado; e, sendo, comof<kaD. Diniz, coagido 
pelas dreumstancias a acceital-as, desde logo 
pensaria no meio de se eximir a tão veicatorias 
extorções. 

Do mesmo modo, o elero, ufano com a v4eteria, 
não 86 procuraria mante^se no gozb dos findos 
immediatos que d'ella colhera'; mastenlariâ; f9t 
todas as maneiras, augmental-os, com os mais 
phantasiosos e alifsiindo^.flif^lli^os. 

Alem d'Í8so, o artigo 40 era, tanto na exhorta- 
ção dos pr<yWCM(^ como m retpost»d*'elriei, um 
ensejo permanente, pata sa manifestarem as am- 
bições e continuar a discórdia. 

Assim ^ccadeu na vefdade. Levantaimi^se 
novas desavenças entre o poder dvil e a egreja. 
Trocarennse sobre o assumpto novas cartas entre 
a còrle portuguesa e a coria ronana. Parece ai6 
que, Mtando etrei ao promeUido^ ae censuras 
e inlerdictoe pontiflcios contínuanun; ^ por fim 
para se realisar a composição foi preiciso nma 
segunda concordata com mais onze artigos. 

Os mesmos prehtdos e os mesmos procurado-' 
rea d'el-rei os assignaram em Roma, no anno dè 
1290; D. Diniz os confirmou depoi», e os tomoií 
lei; sendo mais l»rde inseridos, como os)BÉt^ce- 
dentes, nas Ordenações Afftnsinas, L. 2. fit. 2. 

N'elt0S novos aVtigos, os prelados accueavam 
principalmente el-rei de se negar a pagar os dí- 
zimos, devidos á egreja e de instigar os concelhos 
a que também os aio pagassem; — de eúibara- 
çar aos ecclesiasticOB a acquisf^o de bens de 
raiz; — de m lhes apoderar, cem' seus bin^s e 
i^g^tes, dos bens melvels, ou de* os otíer&ff, eoái 
aesniadM impeeti»») ár os quéHán» reniover Ao 



1 Mon. £iM. P. 2. T. o. L 16. c. 53. 



( 1 



86 






itaMM 



fQiQO; -*- de yeKar os derigos e Bens colonos, 
Gom^^sentadorias, jogadas e tríblitos de toda 
a espedé; — de avocar a si os, processos què 
pertenciam ao foro ecclesiastico e de os decidir 
6 executar indevidamente. 

Às respostas, apresentadas pelos procuradores 
reaes a estes artigos, divergem, porém, profun- 
damente, das que haviam dado aos primeiros 
quarenta. Teem ainda o tom conciliador d'om 
accordo, mas j& são levantadas e dignas: invo* 
cam a favor da coroa as leis e usos do paiz; fii^ 
mam o. direito do poder civil de impor tributos, 
com equidade e legalidade; e estabelecem o justo 
lioúte ás pretensões audaciosas, do clero. 
. Foi, pois, sem aviltamento de nenhum dos 
QontQndores, que o accordo se terminou. 

Só então de facto, se levantou, no ultimo dia 
4e jonbo de 1290, o ioierdicto que peiava sobre 
o jewo, e cujo termo havia Mita decretado por 
baUas anteriores. ^ 

CAPITULO VI 

.. • • 

lustme^^ pilbliea.— Tnndaçio 
da. 1hiiT«r«l|daae 

Quando de tq^ havia terminado o primeiro 
pleito entre o podôr civil e a egr^^ ainda no 
anno de 1290,^ o pppa Nicolau iv liouve por 
h»m deferir a maa. antiga supplica do áfifo por- 
tuguês, e em que muito se empenhava^ como tudo 
QOII leva a crer» o próprio rei D» Dinii. A iaier'^ 
{^vwâa pouteflciai^ n^esie negocio, é um acto 
característico da epoeha, impossível hoje para a 
egreja nacional e para a corte; mas que, então, 
uma e outra sQllieitardm, com instancia e como 
valioso fovor. Referimo-oos á bulia Confirmatoria 
do Mtuda geral, ou da universidade. 
. ' A^Des» porém, de relatarmos o modo como se 
fundou este estabelecimento, vejamos qual era o 
estado da instrucção no pait, 
; Qfps primeiros tempos da monarchia, a pouca 
iihiatração que havia era qoasi exdusivamente 
pesaqida pela ordem ecdesiastica, e n'esta mes- 
ma, frequentemente, se encontravam presbyteros, 
jã.postorea&do igrejas, jã fruindo conesias, sem 
saberem eBcreTer< lÍ[a8oalrasdasfle8soGÍBe8,até 



ifiôd. 



..* »«j 



nas mais elevadas, era raríssima a menor outtora 
inteilectual. Os espíritos esclarecidos, que havia, 
eram quasi todos, ou estrangeiros, ou portugue- 
ses que tinham ido educar-se âsescholasd^Italia 
e principalmente de França. 

Comtudo em Portugal, posto que raros e ooal 
organisados, alguns estabelecimentos havia de 
instrucção, e predominava aqui, como em toda m 
Europa culta, durante a edade media, o estudo do 
latim, da theologia, do direito canónico e da phi- 
losophia scholastica. 

Dominou em Portugal, este systema de philo- 
sophia até quasi aos fins do século xvm, só se 
extinguiu com a expulsão dos jesuitas e a refor^ 
ma da universidade e em geral dos estudos, etfe- 
Gtuada pelo grande estadista, marques de Pombal ; 
convém pois conhecer a sua historia e a sua Ín- 
dole. 

A pfailasopbia scholastica, tida, hoje, como ob- 
soleta, senãodesf^ezivél, foi, aindak^isnm, para a 
phiksophía moderoa, o que para os tempos mo- 
dernos foi a idade media, ^ o seu berço, a sua 
origem, o Icmgo e obsçurp periodo da sua forma- 
ção. 

Uma ideia superior, fundamental, dmmnava 
a idade media,— eraatheoeraeia, o predomínio 
do poder ecdesiaalioo sobre todos os outroe po- 
deres sociaes. 

Bstè principio influiu em Prnlogal maia do que 
na maior parte dos paiiea da Europa. Alfimso 
Henriques para assegurar a independência das 
terras que herdara de seus pães e das que coo- 
quistãra aos mouros, ameaçado pelas ambições 
doe soberanos de GasteUa e de Leão, fuserao seu 
novo reino feudatario, eu seosítico da santa sé; 
por este facto, os pontifbes romanos arrogaram- 
se para comnosço direitos, que, ou não exerce- 
ram nunca sobre outros paizes, ou sustentaram, 
aqui, por mais tempo do que em parte alguma. 

A theocracia, na idade media, tomou pois, co- 
mo instrumentos seus todos os oonhecimentos 
humanos, todos os poderes e instituições civis. 
A scholastica não foi mais do que a philosopbia 
ao serviço do catholicismo, d'essa theocrada, 
absoluta e arrogante, que imperava no mundo 
christão. 

Nasceu quando a idade media tomou fâção 
especial, e (fú a. sua expressão e ^ sua thec^a 
sdentifica. Apenas. iGarloa^Miígiio, .a graadB per- 



d» Portngai 



^ 



sonaliflação doeste cyclo, asseguroa a Europa das 
invasões do norte e do sul, dos bárbaros septem» 
trionaes e dos árabes do meio dia, tendo con* 
qaiatado a ordem material, — procuroa fundar 
a sociedade, e recorreu para isso á egreja, como 
aunicaauthoridade moral existente; comointuito 
de enraizar o império, no espírito das multidões, 
eleyou á omnipotência a supermacia do pontefi^^ 
cado romano, e fez com que o papa o coroasse 
imperador do occidente. Com o mesmo fim, foi 
Carios Magno o primeiro a abrir escholas publi- 
cas, e chamou para elias os homens mais sabe- 
dores que havia na Europa. Por ser oriunda das 
escholas, que eram na ordem intellectual a maior 
novidade do século, chamou-se scholcística á 
8ciencia, á philosophia n'ellas professionada. 

As escholas estabeleceram-se, em França, nas 
Hespanhas, em Portugal e por todos os paizes, 
Bos legares onde havia tranquíllidade, ordem, 
repouso, o que só se encontrava nas cathedraes 
ei nos grandes mosteiros; esta circumstancia deu 
áphiloaophia de taes institutos um caracter, quasi 
eichiaivamente, clerical e catholico. A scholastica 
Bio foi por assim dizer mais do que a forma da 
theologia, que era o fundo. 

A theologia, uma vez acceitas as suas bases, 
anti-scientificas, a fé e a tradicgào; possuindo o 
VMo e o Novo Testamento, o longo e glorioso 
mairtjiologio dos seus primeiros prosélitos e os 
livras dos santos padres, principalmente de Santo 
Agostinho, constituía, para o tempo, um systema 
de doutrina completo e grandioso. A philosophia, 
porém, tinha por quasi único pecúlio o Orgarium 
de Aristóteles. É por isso que o fundo era gran- 
de, e a forma pobre e incompleta. 

Todavia, com o correr dos séculos e ã propor- 
t^ào que a egreja ia perdendo o seu predomínio 
sotA^ a sociedade civil e abrandando a compres* 
são do espirito humano, a philosophia foi con- 
quistando o seu logar, ganhando a sua elevada 
posição de sciencia primaria, chegando por fim 
a assentar os seus princípios fundamentaes do 
Hvre exame e da liberdade de pensamento. Esta 
longa evolução levou, na Europa central, desde 
Akuim, o mestre e amigo de Carlos Magno, no 
século vnj, até Descartes e Bacon, os philosophos 
revolnccionarios e modernos do século xvii; e em 
Portugal, como dissemos, até á reforma pomba-. 
liuiyOttu^ttuiM depois. ... 



Também entre nós a apparição das escholas e 
da scholastica é alguns séculos posterior a esse 
acontecimento em França. Data dos fins do século 
XI a fundação da primeira eschola de que ha me- 
moria em Portugal. Foi estabelecida, depois de 
1082, em Coimbra, pelo bispo D. Paterno, junU> 
à cathedral, com assentimento do conde impe- 
rante D. Sesnando. Compunha-se deumoollegio 
ou seminário contíguo á egreja, com bens pró- 
prios, onde os coUegiaes viviam em communi* 
dade, sob a regra de Santo Agostinho, e onde 
aprendiam a grammatíca, o latim e a theologia, 
habilitando-se para a recepção das ordens sacras 
e para o exercício dos canonicatos da sé epis- 
copal. 

Com tal organisação continuou este estabele- 
cimento até 1 130, em que 08 cónegos deixaram 
a vida em commum, com excepção de três que 
perseveraram no instituto, e fiandaram, n^esse 
anno, o celebre mosteiro de Santa Crus, dando 
começo á ordem dos cónegos regrantes de SaJato 
Agostinho. / 

N'e8te convento, muito protegido sempre pelo 
poder real, houve desde o principio, como em 
continuação do collegío de D. Paterno, escholas 
celebres para o estudo dos p(mcoB oonhedmeu- 
tos humanos, officíahnente acceites. E cedo se 
estabeleceu n'elle a pratica salutar, de enviar a 
França os indivíduos mais intelligentes, para ahi 
estudarem as lettras e as sci^acias. 

Já em 14 de setembro de 1192, Sancho i 
doava ao mosteiro de Santa Cruz quatroceotoe 
morabitinos, para sustentação em França dos có- 
negos que lã se ínstitruissem. ^ 

Portugal começava a engrandecer, a opuleutar- 
se, a ter províncias inteiras a coberto das cor- 
rerias dos sarracenos; os poderes do estado, 
portanto, podiam occupar-se, na pai^ da adminis- 
tração do paiz e da ínstrucção publica. Enviar ás 



1 «Em nome de Ghrísto: Saibam todos os que esta 
carta de doação ouvirem ler, que Eu, D. Sancho, Rei 
de Portugal e do Algarve, de minha proibia vontade, 
dou e concedo ao mosteiro de Santa Cruz quatrocen- 
tos morabitinos de minha lusenda, p%ra sustentação 
dos cónegos do dito mosteiro que estudam em as par- 
tes de França {qui tn partihi»GfiUiwsHÊÍiorwmeaM» 
commoranifÊrs ete.) Feita em Coimbra aos 14 ^ se- 
tembro de ii92.>— D. Nicolau de Santa Maria.— 
Ckromea éos Omegoè B0ffnmtê$,P^ S«L.* 7. e. Í&' 



Watmik^ 



SÍ^'4-1 



nesõest onde as letras. já começavam a florescer, 
ÍBdÍTÍdii06 que viessem depois leccionar no rei* 
no, ou servir os maiores cargos da republica, era 
o melhor, senão o único expediente a adoptar. 

Foi por este tempo que estudou, em Paris, 
táeologia e medicina D. Mendo Dias, que, mais 
tarde, se illustrou em Coimbra, ensinando, no 
Bi08teiro.de Santa Cruz, esta ultima sciencia a 
muitos discípulos, e entre elles ao celebre e len- 
dario, 8. Fr. Gil. 

Per esta epooha, em harmonia com os prccei* 
tos de Innocencio iii, os arcebispos de Braga fun- 
daram aulas na sua egreja metropolitana, para a 
instruoção necessária aos ecclesiasticos.^ Depois, 
em outras cathedraes, collegiadas insignes e 
masteiros solícitos, seguiram^se, parece, estes 
pnyveitosos exemplos, fundandò<se pequenas li- 
Tngrías e abríndo-se estudos públicos. Â antiga 
dignidade, de mestre-esohola dos cabidos ó uma 
prora da existência d'estes institutos. 

No tempo de Sancho ii, pediu-se ao papa a 
primeira prebenda na collegiada de (iuimarães 
que vagpase, para um padre encarregado de lec- 
cionar gramniatica. Porem, de existência averi- 
guada, alem daa que mencionámos, sò temos as 
escbolasde theología dos conventos das ordens de 
S« Domingos e S. Francisco, em grande reputação 
na segunda metade do seci^lo xin; e, em 1269, 
|à m(k reinado de Affinso ni, no opulento mosteiro 
da Congregação de Santa Maria d'Âlcobaça, os 
estudos públicos de grammatica, lógica e iheo- 
la§ia. 

Cem a fwz que o bol&nhex poude estabelecer 
quasi completamente em Portugal; com a iilus- 
traç&o qu^ elle e alguns indivíduos do seu séquito 
tinham. aderido, na longa residência em fran- 
ça; a bem assim com os conhecimentos trazidos 
por muitos cruzías e outros ecclesiasticos, que 
baviara .estudado em Paris ou permanecido em 
Roma,-^é que a instrucçáo começou a tomar in- 
cremento notável e a sahir das fachas infantis, 
em que se havia conservado, desde o instituto de 
D. Paterno, anterior á fundação da monarcbia. 
Principiou então a desenvolver- se o gosto {)o]o 
estudo das lettras e sciencias e a apparecerem 
tbeplogo^^ médicos, juristas e poetas distinctos. 

Lançiido, porABbnso nj, a um solo quasi vir- 



gem, mas activo e ardente, este poderoso ^atmaii 
de civiiisação, desabrochou no reinado de qae 
tratamos, abrindo uui cyclo brilhante de trabalho 
inteliectual, que ó uma verdadeira gloria portu- 
guesa, e que hoje está suscitando o interesse, 
senãu a admiração da Eui'opa culta. 

Dois grandes eãtabelecimentoslitterario64aiam 
d'esta epocha. 

Ura dos perceplores e mestres de D* Diniz» 
D. Domingos Annes Jardo, poucos annos depois 
da elevação ao throno do novo rei, fundou, na 
parochia de S. Bartbolomeu da cidade de Lisboa, 
o collegio ou estudaria dos Santos Paulo, Eloy e 
Clemente, para dez capellães, vinte merceeiros, 
e seis escbolaresde latim, theologia, cânones e, 
alguns aâirmam que também, de medicina e 
grego. 

Domingos Jardo, então. bispo de Évora» era 
varão piedoso, honrado, instruído e anante dai 
gloria. Fdra muito favorecido deAffonso ju.eda 
seu tiiho, que o fizera chanceller mér alho deu 
depois a mitra episcopal de Lisboa. Desi^ando 
instituir perenue suGfragio pelas almas doa dois 
monarcbas e pela sua, e deixar testemunho per- 
petuo de seus caridosos e elevados pensanneiiloay 
fundou, com o nome de hospital ou hospício, este 
collegio, n'umas casas de que era propnetario. 

Os sacerdotes deviam, quotidianamento, ceie* 
brar os suflVagios que indicou, e os escholares 
entregar- se ao estudo, protegidos pelo repouso 
do novo e apropriado claustro. 

Com o &m de dotar esta instituição, obteve de 
D. Diniz, em 27 de agosto de. 1284, aneceasanar 
licença para a compra de bens de raiz, jã então 
vedada aos clérigos; e mais tarde, o illuetre prem- 
iado enriqueceu a sua obra, e aperfeiçoou^a, dan- 
do*lhe estatutos (1291) e privilegiando os sacerdo- 
tes e os escholares n'ella educados, (1293).^ 

i Mon Lm. P. 2. vol. S. tit. 16. cap. 39. 

A carta regia de licença dizia: 

«Faço saber que Domingos Joanne Bispo d'£vora 
c meu Chançarel fizesse n'esla cidade de Lisboa hu 
liospital a sorvií-o de Deos, & por alma de meu pa- 
dre. & pela minha, & pela sua dei» 

D. Domingos Jardo dedicou o altar mór da egreja 
de S. Bartholomeu a S. Paulo, com 12 capellSes; ou- 
tro a Santo Eloy com 1 4 merceeiros pobres; e' outro 
da parte da epistola a S« Clemente, com seis «ètu- 
dantes pobres, quatro de gramipatiea e^^^iiloMphttv 



flmtMSi «b Wfjtmiíái 



<M 



O^Btitlieit) de ■ éBludantes augmerttou muUo, 
-e a casa floresceu, durante séculos, tornando- se 
depoiB convento dos bons homens de Villar. 

Pôi este coltegio protegido por a mais pode- 
rosa e rica ordem monachal do paiz, peiosmon- 
•ges dl^lcobaça, — aos quaes o instituidor legou 
a Ma administração, o cfue, apezar de longa- 
mente contestado pelo reitor e negado por Cle- 
mente V, sempre mais ou menos foi acceile 
pelos cbilegiaee; — gozava a estudaria de boas 
)'€nâas;— lÉas era um instituto especial, cjuasi 
'meramente destinado á vida religiosa, e não sa- 
tisfaria a necessidade, de dia para dia, mais 
instante, d'utD grande estabelecimento d'in8truc- 
çSU> pnbMca e geral, fftra dos recinctos daustraes, 
em qtiè o estado fôo raras vezes podia influir; e 
Unde, quasi perennemente, se tramara contra a 
BCdedade civil. 

Go^o amor pelo estudodas lettras e sciencias, 
que se accendera em toda a Europa, ao começar 
do ultimo quartel em que estamos do século xiii, 
a fundação das universidades estava em grande 
Toga, e era uma das principaes preocnipaçôes de 
todos ds espirites cultos. 

Bm França havia a dè Paris, fundada definiti- 
vanente etto 1200; a de Tolosa em 1229; e tra- 
tava-se de estabelecer a de Montpellier, que se 
ereotl em 1289. A Itália tinha a de Salerne, desde 
úé fins do século xi; a de Bolonha de 11 58; a de 
Nápoles, de 1224, a de Pádua de 1228 e a de 
Roma de 1245. A Inglaterra já possuía as cele- 
bres universidades de Oxford e Cambridge, a pri- 
Aeíra de i 206 e a segunda de 1 220 . Em Hespanha 
Gnalmente, creara-se; em 1209, a de Valença; 
e, em 1239, a de Salamanca. 

Todas estas quatro regiões estavam estreita- 
xfteiit?e Hgadas com Portugal: a França pela ins- 
tPtó^; a Itália pelo pontificado e a marinha; 
a Inglaterra pelo commercio; pela politica e 

nmde theôktgia» outro de cânones. — Silvestre Ri- 
bfifo — tíkioria d<í9 Eskiò^eatmentos ScimiHficos qíc. 
yci. i. nota* pag. 17. 

.. Fr. Fpaciseq Br^^ndão no logar citadQ dá. outra 
qrdem ao destino dos escliolares; diz: «dois juristas 
bú theologos seriâo de porção a íjO libras por anno, 
it aos quatro ouvintes de gramniatica, lógica e nietli- 
ciífòse darião somente a 2õ livras. . . » E acrescenta: 
«N*estas porções queria (o instituidor) se preferissem 
parentes seus, quaoíttò os Jfduvés^.^JIMB orèínarva 



próxima visiabança as varias nàçdes de fi^^Mr 
nba. Na imaginação de um rei mogo^ aoiftDte das 
lettras e da fama litCeraria, e no sentir de tloiioB 
espirites activos^ uns dlractatt^nte educadosn^ea- 
ses grandes estabeleoimentos e8trang<HM> ov.- 
tros creados na sua tradicção, — não podia ^fuir 
de existir o desejo ardente de fundar em Portiigftl 
uma universidade, á similbançadas qnte haviam 
frequentado, ou de que tanto ouviaoi kUar/e (fpe 
lao úteis consideravam aoe paixes onde existiam. 

A obra de DomingOA Jardo, cujos fn)etei.€l>- 
meçavam a desabrochar, devia também eonooN 
rer, como próximo incentivo, para-a.f6ali0ftçiio 
d 'essa ideia. 

Effeetirvamente, poucos anno» de^is» . ^m 
1288, deu*se<um passo decisivo paifa a sua exe- 
cução; não seria por oerto o primeiro, otas^lai 
o mais importatite, porque, alem de 'fonMíftr 
positivamente o intento, creou, desde aqoeUe 
momento, as rendas necessárias parada nova fiiQ<- 
dação. 

Impellidos, já pelos próprios des^s, jã pela 
ideia de serem agradáveis a D. Diniz, e provável* 
mente porelleinstigados, reuoiram^secom outn» 
eccieâasticos e seculares, emMoiiterMôrH)-!No¥0, 
pelo mez de novembro, oabbade de Âioebaça, B. 
Domingos, — D. Lourenço Pires, deciml^ prior de 
Santa Ouz de Coimbra, — o prior de S; Vicente 
de Lisboa— e vinte e um reitores e piares di- 
versos; discutiram largamente o assumpto, e, no 
dia 12, assignaram uma supplica ao papa, pert 
que confirmasse a applicação de parte das readae 
que de seus conventos e egrejas, com asseoli- 
mento de el-rei, como padroeiro, cediam para 
sustentação dos lentes e fundação de una estude 
0eral no reino. 

Os mais ricos bens territoriaes do pais estavam 
no poder do clero; para dotar o novo instituto 
era necessário recorrer a elle; dado que, de bom 

que houvesse n'aquelle hospital alguns Religiosos que 
estudassem Cânones ou Theologia para poderem pre* 
gar. . . E não ha duvida que os principaes talentos 
que teve Portugal em letras n'aquelle tempo se de- 
vem a este gasalhado do bispo'D. Domingos.» 

Veja-se também Cuidados litterarios do prelado 
de Beja. . . 179L pag. 30.— Fr. Fortunatode S: Boa:- 
ventura. Memoria do começo ete, da Uttercãura ^ê§a 
em PorfugcU—D. Rodrigo da Cimlia. Rimrégíigeclé^ 
mtgfiêada egteja ée EAskim. ,^ . • 



40 



Rlifeorte ÚB PnrtagMl 



m» 



gi$èò, 06 prestasse a subTencionar as escbo- 
lis, essa subvenção, para se tornar effectiva e 
legal, deTia ser amhorieada pelo pootiQce ro- 
mano: — eram as ideias do tempo e os preceitos 
dò* direito canónico predominante. Alem d^isso, 
iMd>ifitar a nova fmidaç&o com a sancç&o do papa, 
por mn lado, captava-lbe a boa vontade do clero, 
e por outro, era o modo de a enriquecer de pri- 
tilegioe e elevar no conceito publico. 

O facto é que se fez a representação; foi en- 
viada para Roma, e ccmstitue hoje o primeiro 
documento, conhecido do estabelecimento da 
nossa oniverridade. 

Pela sua importância histórica, nSo podemos 
deixar de a transcrever em vulgar. Eil-a: 

a Ao Santíssimo Padre, & senhor, pela divina 
piovidenda Summo Pontífice da Sackt)sancta 
Igreja de Roma: nos devotos filhos vossos, o Ab- 
bide de Alcobaça, o Prior de Santa Cruz de Goim- 
bm, o Prior de Sfto Vicente de Lisboa, o Prior 
de Santa Maria de Guimarães secular, & p Prior 
de Santa Maria de Alcáçova de Santarém, & os 
Reitores das igrejas de Sáo Leonardo da Atou- 
gaiai, de SSo Julifto, & Sfto Niculau, & Santa 
Esfria, à Santo Estevfto de Santarém, de Sfto Cle- 
mente de Loulé, de Santa Maria de Faro, de S. 
Miguel, à Santa Maria de Sintra, de Santo Este- 
vfto de Atemquer, de Santa Maria, Sfto Pedro, & 
Sfto Miguel de Torres Vedras^ de Santa Maria de 
Oaya, da Lourinha, de Viila Viçosa, da Azam- 
buja, de Sfto de Estremoz, de Beja, de 
MÚhi, & do Mogadouro, beijamos devotamente 
vossos pés bemáventurados. Gomo a Real Alteza 
importa ser nfto só ornada com as armas, se nfto 
também armada co'a8 leis, para que a Republica 
possa ser bem governada no tempo da guerra, à 
paz: porque o mundo se alumea pela sciencia, & 
a vMa dos Sfttos mais cabalmente se informa para 
obedecer a Deus, à a seus Mestres, & Ministros, 
a Fé se fortalece, a Igreja se exalta, & defende 
cOtra a herética pravidade por me^o dos varões 
Ecdesiasticos. Por todos estes respeitos: Nos os 
adma nomeados, em companhia de pessoas re- 
ligiosas, Prelados, & outros, assi clérigos, como 
seoulares dos Reynos de Portugal, & Algarve, 
ávida plenária deliberação no caso, intervindo a 
tes^rtsfto ^Uhrina, ft movead<Mios a particulares 
à comÉiui ttilidide; eoDtidaraiQOs ser mui con- 
veniente aos Reynos^ sobreditos, & a seus mo- 



radores ter hum estudo geral de sdencias por 
vermos que á falta d'elle muitos desejosos de es- 
tudar, & entrar no estado clerical, atalhados cott 
a falta de despesas, & descomedes dos caminhos 
largos, & ainda dos perigos da vida, nfto ouzfto, 
& temem ir estudar a outras partes remotas, r^ 
ceando estas incomodidades, de que resutta apar^ 
tar-se de seu bom propósito, à ficar no eslato 
secular contra vontade. Por estas causas poLs, 
& muitas outras úteis, & necessárias, que seria 
dilatado relatar por meudo, praticamos todo & 
muito mais ao excdlentissimo Dom Dinis nosae 
Rey à senhor, rogandolhe encarecidamente, se 
dignasse de fazer, & ordenar hum geral estudo 
na sua noblissima Cidade de Lisboa para aervigo 
de Deus, & honra do beatíssimo MarCyr Sfto Vi*- 
cente, na qual Cidade escolheo Nosso Senhor Jem 
Christo sepultura a seu corpo. Ouvida por este 
Rey, à admittida a nossa petíçfto benignamente 
comconsentimentod'elie, queheo verdadeiro pa» 
droeiro dos Mosteiros & Igrejas sobreditas, se 
ass^tou entre nós, que o salário dos Mestres, 
& Doutores se pagasse das rendas dos mesmos 
Mosteiros, & Igrejas, taxando logo o que cada 
uma avia de contribuir, reservando a coogma 
sustentaçfto. Pdo que Padre Santíssimo recorre- 
mos em final aos pés de vossa Santidade, pe» 
dindolhe humildemente queira omfirmar oom i 
costumada benignidade huma obra tftopia, e loa- 
vavel intentada para serviço de Deus, honra da 
pátria, & proveito geral, & particular de todos. 
Dada em Monte mór o novo a dous dos Idus de 
Novembro, da Era mil & trezentos & vinte & 
seis.» ^ 

Corresponde^ no computo vulgar, ao dia que 
indicámos de 12 de Novembro de 1288. 

Parece que depois os superiores de outras m*- 
dens monásticas, nomeadamente de S. Bento, 
adheriram também a esta supplica. 

Deviam estar então em Roma os principaes 
bispos do Reino; andavam com o poder real na 
contenda de que nos occupamos, no antecedente 
capitulo; foi talvez por esses motivos que nfto as- 
signaram a representaçfto ao pontífice, nem to- 
maram parte directa, até hoje comprovada, na 
fimdaçfto da universidade; nfto consta também 
que em Roma promovessem o deferimento da pe- 

1 JMba. I4M. T. 5. L. !«. c 67. 



^^gtorift 49 l^ort^gfl 



41 



ti0o, que se demorou largo tempo; talvez o alto 
dero se retraísse, n'Qste negocio, — prevendo que 
o novo instituto seria um foco de luz, que obscu- 
reéiria o ténue reflexo, esparzido das sombrias 
escholas das suas cathedraes. 

Instou Diniz, em Roma, por seus procurado- 
res» pelo bom despacho da supplica; mas, ou por- 
que o esperasse como certo, ou porque o nEo jul- 
gasse necessário, como de facto não era, para a 
exeeusão da obra, deu-lhe cometo, ante^ de 
receber a authorisagâo pontificia. 

Escolheu-se, no bairro da Alfama da cidade de 
Usboa, junto ao local onde depois, no reinado 
^ D... Fernando, foi construída suporta da ÇruZt 
qm campp intitulado da Pedr^(^f e alú.se pco- 
cedlçu áa construcções necessárias, para. o esta- 
bjBitociQiento das novas escholas.^ 

Elegeram-se os melhores mestres», abriram-se 
»dasâQgrampia,tica, loçica^ (eis (direito romapo) , 
oanoBies Ê.medicina;,e dead^lctf o afluíram Qs dis-^ 
cipnlos a Lisboa das diverss^ partea do^reino.. 

Em 13 de agosto de 1290, quando o papa Mi-; 
<;<\Iaii jy.^eç^pediQ a bim4, ,d^feJçi)l^: a. represen- 
tação do fjlero, jà; se dirigitt â Uf^va^^sidade 4p^ 
V^tref e esfmiftntes /k Lisboa. . . . .,/ 

Vejan^^ea^ dâçumputOiíflKpwiantíssimo pq 
a»«umpta: 

«Nícolao Bispo, servo dos seryos deQeos* Aos 
lanados filhos» e Universidade dos Mestres, e es- 
tudantes de Lisboa, saúde, &. Apostólica benção. 
Do. estado do R^yuo de Portugal ». tanto mais iiugi- 
lante cuidado temos, quanto mayor he em Nós o de« 
sejo, de fue, no mesmo Reyno» apartados alguns 
impedimentos» cobre vigor e observância do di- 
^uo culto, se attenda ás obras da salvação, e que 
a pureaa da fé Gatholica se esforce» para louvor 
dq nome de Deos, e salvação doa Fieis,- que n'eUe 
vivem. 

fim verdade ã nossa noticia chegou, que pro- 



^ O campo da Pedreira era propriedade do cabido 
da sé episcopal de Lisboa; para a edificação das es- 
cholas foi necessário expropríal-o. £is a carta regia 
de indemnisaçâo, que, muitos annos depois, se expe- 
' dStt para este fim: 

«D. Diniz, por graça de Deus Rey de Portu^ 

gal k do Algarve, at vós Dottingos Duraens, Almol 

sarifei e « vós mais Esorivaens de lisboa, sandes 

Hsodo^voi^ que filbedes buma das Minhas casas» 

♦ voi*,— 6. 



curando-o o charíssimo em Christo filho nosso 
Dionysio, illustre Rey de Portugal, não sem muita 
e louvável providencia, estão de novo plantados 
na cidade de Lisboa Estudos de cada huma das 
licitas faculdades; e aos Mestres d'ellas, para que 
mais desembaraçadamente se occupem no estudo 
e ensino, dizem estar taixado, e promettido certo 
salário por alguns Prelados Abbades da Ordem de 
Cister, ePriores de Santo Agostinho, e de S« Bento, 
e Reytores de algumas Igrejaa seculares dos Rey- 
nos de Portugal, e Algarve. 

Nós porém attentando, que por meyo d'estes 
Bsytudos, cooperando aquelle, de que todos os 
bens procedem» o culto divino se augmentarã 
nps mesmos Reynos, a deyoção-H^rescerá, e os 
Professores da Fé Gatholica serão bem. inatruidps 
e informados, e ornados com insígnias das virtu- 
des^ e alcançaram os thesouros da sabedoria, i^^r 
e^ta causa attendeudo solicitamente á firmeza^, e 
augmento dos taes estudos, e desejando que cop 
o auxilio do favor Apostólico, os mesmos Estji- 
dos eom firmes raízes se fortifiquem: declaramos 
e havemos por valioso, e agradável a Nóp, biido 
o qu^ sobre esta ;naleria esta feito, rogando, e 
admoe^staado instantemente a El-Rey sobreditp, 
, obrigue com seu VqUeip Real.ao8 Cidadões de.JL^- 
^os^,.que aluguem ,ao^ £lst)f dantes as Casas, que 
tiverem, em preço copipetente, o qual será ta- 
xado por dous clérigos, e dous. leigos prudentes 
Catholicos, e ajuramentados, escolhidos por vós 
Estudantes, e pebs Gidadões mesmos, e que faça 
prometter com juramento, segurança, eimmuni- 
dade a todos os balios, Ministros. eOfficiaes seus 
da mesma cidade, para as pessoa^, bens, emeu< 
sageiros dos Estudantes. . 

Ordenamos além d 'isto, que todos os mestrps 
que actualmente ensinão ,ua dita Cidade, possfio 
ter e receber os rendimentos de seus beneficioSi 
e prebendas, ainda que s^am Dignidades, ou Vi- 



ou huma das minhas tendas de essa villa^ mie 
valha cada anno trinta e cinco livras de alquier, 
e entregadea ao cabido de Lisboa, ou a quem vos 
elle mandar, pelo campo da Pedren'a, que lhes mialn- 
dey filhar, em que mandey fazer as casas para- o 
E^ndo. Dada ein Lisboa 4 dias de SetenAio, Bra 
1338 (anno de Christo dSOaXi^aitodiigo da Qu^ 
nha, Biêtoria Eccle$iastica de IMoa, ?• 2. c^ 74r 
n.*2fl,íl3. 



^^ 



fiKHtdku ^ POl!Í!ft^pU 



galrarias Parochiaes, excepto as distribuições 
quotidianas consignadas àquelies, que assistem 
aos officios divinos. 

Mandamos mais, que ncntium dos Mestres, 
Estudantes, ou criados seus, dado o caso, o que 
Deus ti5o permitta, que os comprebcndão em al- 
*gum malericio, sejam julgados, ou castigados por 
fll^tim leigo, se náo fôr, que condemnados no 
> jnizo ecclesiastico, Ot remeíHko ao secular. 
. E pelo mesmo modo mandamos, que os BstUr 
dantes, Artistas, Ganonistas, legistas e Médicos,* 
que os Mestres reputarem tdoheos, possão tQce-, 
' '1>€^ grúb dê Mcenceadòs nas sobreditas escolael 
pelo Dispo, que pre (empore fôr de Lisboa ODJ 
•j)áo Vlgairorqúe serfe vacatUe fôr pelo Cabidoj 
<n i/nW/ttià/tówí eleitc. 

B que qualquer H^tre pelos sobreditos ffispò J 
òtiVigaiFoexaiDinado, e approvado em qualqueh 
Más Pacbídades, excepto 'Fheologta, sem outro 
'ex'atne,'ténlia livrè poder' pafa ensinar emqiial-i 
''tpiér parte. Dada em Urbieta á cinco dos Idus dei 
' Agosto, anuo S.* db nosso Pontificado. (t«9D dei 
' íatóio de Chrísto íS de Agosto): «^ * : 

N&o tréou esta bulfít a Universidade ; já éMaVai 
tí^dda; mascònfirtiíiou e tornou valido ludo 
• ^i^àe 'sòbir^e a nJatériWse achava feito; — pediua 
"^dcrcivihque o nHttgnerdaá caáaè aos ^ludan-j 
'teflf fosse regulamentado, para nla serem explo-« 
rados pela cubica dos proprietários ; — permittiu 
'^ue ò6 prelados e priores, que para iãso sehaviaml 
' ofTerecido, destinassem parte das suas rendas ál 
~ èUslentaçí^o dos 'mestres, e que estes podessem,! 
sèm exercer as funcçôes sacerdoCaes, receber o^ 
' rendimentos dos seus cargos e prebendas,-^ ou-f 
torgou aos professores, esdiohireseseuscreadod 
o privilegio do foro ecclesiastico ; — deterrtlnou 
qúe bs gráos de lícenceado fossem dados pelo 
i'preÍado diocesano de Lisboa ;--e que os mestres^ 
'^'por elle approvados 4»odessem ensinar em qual- 
quer parte. 

Sollicitada e subvencionada pelo clero, conBr«i 
Irtlada óor bulia pontiOcia, com o foro privilegiado 
da egreja, e sugcita nos exames e graus á au- 
. t^oridáde episcopal, a. Universidade tomou un| 
, caracter prqnuuciadamente cccleçiaatícq, que, 
. lAurauate sepulpa». conservou, atrQpbiaodo^L no 
. seu defl^Dvolvimeoto' a benéficos effeitos. 

1 Jlon. 1m. 5 T., L. 16, 0. 7!l. 



A theologia foi excluída, primitivamente, dás 
aulas universitárias, não porque se julgasse tal 
disciplina indigna dos Estudos geraes, mas por- 
que, ao contrario, era conisiderada tâo elevada 
e divina, que, por entdo, conservou-sè encerrada 
nas cathedraes e claustros, sobfe túdb íias es- 
cholas celebres das duas ordens, então moder- 
nas emforiugai e muito consideradas, deS. Prdú- 
cisco e S. Domingos. 

Apezar porém da mesquinhez dó orgáâismo, 
do numero exíguo das eadeirás, e dtts reiítricções 
tiom que a rudéka do tempo e espirito clerical 
a envdtviam, a tídva in^itUDÍsAb toi, a ti)- 
dòs 08 respdtos, um jgrande progresso e' uJA dos 
acto6 máiB gloriosos dòpi^esente reinado ; ^ erar a 
base da iustruccaio Bciéntifl(â naóibóti,^ era 'o 
gérmen; no fiitttro, Èé desenvolveria, e sé Ifare cb- 
Iheriám os fmclos. .. - . . i 

Parece ter tido D. Didlz u còusdeiíòít jpfena 
dn elevada faliporfancla da sua obrA. 'Krova-o 
o desvelo para com ella dos deus actoa ádinidis- 
tratvvoe.' ' • 

Se, ao'iulòiiBtr do itistitútò,' a ^cç&or>eiiMtpe- 
naa se déduz^d^í radiolé do rtà e de ^^ráses; Ittn 
tanto vagas, dos: áòlÉ dòcttmeàW'^raute'riptiis ; 
depoh as pfòtiéekidas goreruinU^ fitiltn^ ft* Uni- 
versidade são importantes e numerosíssimas. " 

Mas amuKvpliêidadede estudantes, etn Lisboa, 
deu em breve azo a rixas e desordens, entre d- 
lea e os cidadftos, que tomaram etidente— não ser 
uma cidade popfuloêa e commerciai, como ji en- 
tão eata era, a mais apropriada para Mr estabe- 
lecimento povoado.de mocidade ardente, com 
privilégios e isempções de toda a ordem, oodefo 
espirito de classe, á simílbança do qiíe-fiuccedla 
nas outraa uuiversidades estrangeiras, se deèén- 
Tolveu desde os primeiros dias. Alem dláso, o 
porto de mar, a vida activa e os divertimentos' de 
Lisboa erom perenne quebra, no reeoHrimeAto e 
estudo, necessários ás escbolas. 

Para 3vitar estes inconvenientes, resolveu-se 
transferir a Universidade para Coimbra. EÍra um 
ponto mais central para todo o reino, dotado áe 
bons e saudáveis ares, abundante demantimen- 
tos, rico de vegetaçfto, ameníssimo e já eptio 
pioetisa^o pqr gioijosi^ trad|c{ões hisiUHric«& 

SoUicitôa Dinii do papa Clemmite 5.'' outhp- 
riaaçfta paira a tranaferenda ; mas aaiim oOIno a 

Universidade se faudou, antes do deferinaelílo 

ff 






« 



. ^. 



pontificio, tambeqi j^ t^^ik^I^aslo estava feita, 
muito antes que de Roma viesôeinas bulias para 
cila. Foram duas, ambas datadas de Poitiers, 
aos 26 de fevereiro de 1308; e é certo que a Uoi- 
v.ei^iíadejá se aebava em Coimbra» em 27 de 
janeiro de 1307, pois n^esse dia conGrmou ei-rei, 
por carta regia, as constituições do Estudo de 
Coimbra, podendo-se crer que a mudança se 
r^alisâra, no anno antecedente. 

A primeira bulia encarregava o arcebispo de 
Braga e o bispo de Coimbra de transferirem para 
esta ultima cidade, se lhes parecesse conveniente, 
o Estuiç Geral de. Lisboa, como sollicitára el-rei 
D. Dini7, c confirmava os privilégios que às es- 
cbolas concedera Nicolau iv. 

A segunda, endereçada ao monarcba, permit- 
tia-lhe, que, para as despezas da Universidade^ 
lhe annexasse seis egrejas do padroado real. 

«É de crer, di2 fr. Francisco Braud&o, que, com 
a trausferencia para Coimbra, os abbades e reito; 
res que, em 1288« haviam promettido, em Monte- 
mór-o-NoYO, dar parte das suas rendas, para a 
SHsieDtaçãp da Universidade de Lisboa, se ]ul- 
ga03çn^ deaosen^os da proo^essa, e que, por este 
^otivo,, fosse preciso crear outros meios de re- 
cjeil».;^ , 

, Sabe-ei0 que as duas rçndosas egrejas de Pom- 
bal e Soure, que D. Diniz possuia depois de ex- 
tÍACtQS 08, Templários, foram annexadas à Uni- 
versidade, e que a esta nunca faltaram as rendas 
Qecessarias para o seu custeio. 

. Às cpi}Stituiçòe$, aprovadas pela carta regia de 
27 de janeiro de 1307, eram apenas um pequeno 
rcigolamjenU) policial, fiscal e económico, feito 
pela própria Universidade. 

Mas^ dois annos depois, em 15 de fevereiro de 
1309, a munificência real foi completa. D. Diniz, 
^'ul^ documento, escripto em latim, cujo pream- 
bulo, para o tempp, era elevado no eatylo e no 
pei|taaB^nto,r concedeu á, Universidade uma serie 
íle privilégios e immunidades, que a tornaram 
uma das corporações mais isemptas, senão das 
paia poderosas do paâs. 
, Die^brou fundado, írradtcat;e/nie>92/e, em Coin|- 
bra„ Q.JEstudo geral, cpm ensino do direito cano- 
niçQi. — ^0 civil, ou cesareç, — da jipedicina, -i- 
,(}ji ^^Içf^ca.-T e d^^mn^atlca. Tomou os 09- 
ffjiA^ea„aMa9r;amiIía3 e ben8.sqb a, regia pr9. 



do reino que os defendessem 4e todo, e vexapie. 
Deurlbes por uaicos juizes, no ciyel e çrime^ o. 
bispo, o seu vigário, ou o mestre escbola, Con^ 
feriu aos estudantes o direito de elegerem os, 
reitores, conselheiros, bedel c outros officiaes ; 
e de, por si ou por outrem, fazerem os seus. esta- 
tutos. Concedeu á Universidade arca commum e 
sello. Mandou que, annualmente, se elegessem 
dois cidadãos principaes edois estudantes, a fim 
de taxarem o aluguer das casas paraos eschola- 
res. quando estes se não accordassem com os 
senhorios ; e não permitiiu que, em quanto as 
pagassem, fossem sugeitos a despejo, excepto s<) 
os donos quizessem morar nas casas, vendel-as 
ou dal* as, em casamento, a filhos ou descendeu-' 
tes. Eximiu de toda a despeza, na chancellariíi^ 
real, os privilégios e liberdades da Universidade. 
Probibiu, com rigor, a cortezãos, soldados e jo- 
graes alojarem-se em casa dos estudantes, pedi- 
rem^hes, ou extorquirem-lhes alguma cousa. 
Libertou de direitos de transito, em todo o reino» 
08 escholares, seus creados, cavalgaduras, livros 
e alfaias, quando fossem parft o Estudo ou d'eUe 
regressassem. Permittiu-lhes que de todos os 
logares do paiz podessem, livremente, levar para 
Coimbra mantimentos, não obstante qualquer 
costume ou estatuto local que houvesse era con- 
trario. Estabeleceu, finalmente, que dois homens 
bons da cidade exercessem o cargo de conser^ 
vadoreSf a fim de manterem illesos todos os pri- 
vilégios universitários, zellarem a honra e os 
interesses das escholas e estudantes, e avisam 
el-rei do que lhes parecesse conveniente á insti- 
tuição. ^ 

Estes privilégios foram depois confirmados, 
radicados e ampliados, por uma serie de provi- 
dencias governativas, que rivalisavam entre si 
de dedicação e desvelo para com a Universidade. 

Tanto as escholas, como as habitações dos es- 
tudantes, eram, em Coimbra, da porta de Alme- 
dina para cima. Leram-se, primeiro, as lições em 
diversas casas particulares; não era difficil, pois 
de cada faculdade havia apenas uma cadeira. Mas, 
pouco a pouco, foram-se juntando as aulas, n'uip 
ediflcio pontiguo aos jpaçosreaes, no local onde, 
no século XVI, se edific(;iy o collegiode,^. Paulo. 

-Praças da Htst. <r^«*afafl«cj^,i^^, ,,, ^^.:..^ 



a^i 



44 



BEtetofii^ dd Portogftl 



Depois de 1309; instituiu-se, na Universidade, 
a anla de musica :— o espirito religioso e poético 
do século não podia prescindir do ensino e cul- 
tura d'essa arte divina. 

Um documento importante, talvez, sobre o as- 
sumpto, o ultimo do presente reinado, datado de 
18 de janeiro de 1323, esclarece a questão das ren- 
das universitárias. A pedido do mestre da nova ca- 
tallaria de Christo, cedeu el-rei á ordem as duas 
égrejas de Soure e Pombal, com a condicção que 
dos rendimentos d^ellas satisfizesse aos encargos 
do Estudo yeáessey cada anno, ^omestre dasLeys 
600 libras ; ao das decretaes (cânones) 500 ; ao 
de pbisica, ou medicina 200 ; ao de grammatica 
200; ao de lógica 100 libras; ao de musica 
65 ; e 40 a cada um dos conservadores ; — de- 
vendo estes dinheiros ser pagos pelo Natal e S. 
João. 

Não se pode dizer ao que na realidade corres- 
pondem, no valor da moeda d'hoje, estes ordena- 
dos. Âs 600 libras do mestre de direito romano, 
que era o melhor pago, calculadas em réis são 
apenas 21]Sí600. ^ Mas o dinheiro, agora, vale 
dez ou quinze vezes menos do que no século xnr, 
e o viver era então, incomparavelmente, mais 
frugal, mais parcimonioso. 

systema de ensino foi, na nossa Universidade, 
como em todas as suas predecessoras, baseado 
nos princípios acanhados da philosophia scho- 
lastica, a que já nos referimos; dominou aqui 
porém a eschola averroista, a mais intolerante 
de todas. Eis a principal causa, porque, ape- 
zar dos seus recursos e privilégios, a nossa Uni- 
versidade prosperou tão pouco. Alem disso cahiu 
também no culto exagerado do direito romano 
imperial, o que, terrivelmente, concorreu, para a 
annuUação dps concelhos e para o incremento do 
poder real absoli^to. 

A Universidade conservou-se em Coimbra até 
ao reinado seguinte. 

Foi o primeiro e, por muito tempo, o único es- 
tabelecimento de instrucção superior secular de 
Portugal; e, não obstante todos os graves deffei- 
tos primitivos que apontamos, é o maior legado, 
o mais duradouro e beúefico monumento, que ás 
idades futuras deixou D. Diniz. 

1 Nét. ChraiL num. 286 e WQ.—BUt, do$ ettabe» 



CAPITULO VII 
Litteratura 

Acabamos de ver a cultura intellectual que o 
estado ofiTerecia â nação, vejamos agora a que a 
nação possuía, proveniente d^essa mesma cultura, 
do sentimento nacional, das suas tradições e do 
contacto mercantil, miMtar, politico e titterario 
com os outros povos. 

Sò a podemos apreciar pelos monumentos es- 
criptos que possuímos d'esses remotos séculos. 
Mas, hoje, é tão opulento e vasto o pecúlio, re- 
centemente, recolhido da tradicção oral, e descu- 
berto nos archivos peninsulares e romanos, que 
este capitulo apenas pode dar do assumpto uma 
leve e summarissima idéa. 

A poesia é uma das primeiras manifestações 
da alma humana. Paliar e cantar são (acuidades 
haturaes, manifestações do pensar e do sentir, 
das idéas que se concebem no espirito e das im- 
pressões que se recebem do mundo exterior. 

Qualquer povo, apenas se constitua, inicia, 
logo, a sua poesia, ou própria, ou imitada, quasí 
sempre uma e outra cousa. Própria, quando 
oriunda da sua originalidade, da sua individua- 
lidade e força; imitada, quando o paiz está em 
relações com algum povo mais culto, e o admira, 
estuda, e procura egualar nas suas producções 
poéticas. 

Ambas estas litteraturas temos em Portugal, 
e a ambas devemos attender, no período em que 
estamos. 

Antes de se constituir a nacionalidade portugue- 
za, a Galliza pertencia á nova monarchia de Leão, 
e estendia-se, do norte a sul, pela maior parte do 
território que, mais tarde, se denominou Por- 
tugal, formando uma vasta região, em que se 
fallava uu^a única lingua, a gallega. Depois que 
D. Henrique recebeu, com a mão deD. Thereza, 
o governo da parte d'esta província, que medeava 
entre o Minho e o Tejo, e lançou os primeiros 
fundamentos da monarchia, que seu filho txms- 
tituiu definitivamente, — o gaJlego transformou- 
se, pouco a pouco, na língua portugueza, 
desenvolvendo-se com o incremento e vida po- 
litica do novo estado independente; em quanto 
o gallego da Galliza, propriamente dita, se con- 
servou estadonario, não*pa88ando'de umdihtocto 



BMoria 4é Fortogal 



45 



intermédio entre o hespanhol e o portognez; tal 
como a GaUicaj qne por or^em e Índole é nma 
parte de Portugal, e politicamente pertence á 
Hespanha. 

Duas classes, ambas oriundas da raça wisigo- 
da, comptaeram a nossa nacionalidade. 
' A classe passtya, numerosa e dedicada aos 
trabalho» prodoetivos, que occupava o solo antes 
da conquista, por haver acceitado paciente o do- 
mínio tolerante dos árabes, e, durante eUe, se 
identiftcara com a sua civilísaçfto ; — e a raça 
guerreira, conquistadora, yictoriosa dos fidalgos 
e soMados au8turo*4eonexes, que, desde o Gua- 
dalete, resistira aos sarracenos; se refugiara no 
norte da península; viera, depois, reconquistando, 
pahno a palmo, aHespanha; seguira, mais tdtde, 
o esposo de D< Thereza, e o ajudara e a D. Âffonso 
à expulsar os mussulmanos. Â primeira é a que 
denominamos mosarabe^ e qne ent&o constituiu 
a massa geral do povo ; -<-* a segunda formou a 
nobreza. 

Os mosarabes, que já, antes da invasão mu»- 
sulmana, pertenciam, em geral, ás classes infe* 
riores da sociedade, e que menos em contacto 
estavam com as antigas authoridades romanas e 
a sua velha civilisaç&o latina, — conservaram por 
mais tempo as ideias supersticiosas, as tradlc- 
COés, 08 costuaotts jurídicos e domésticos e so- 
bre tudo a poesia do primitivo viver germânico, 
posto que bastante se modificaram, ao contacto 
dfr dvilisação esplendida dos árabes. 

A nobreza wísigoda conservou , por toda a idade 
media, o individualismo germânico, que produ- 
siu o feudalismo; mas desnaturou-se, em quâsi 
tudo mais, com a imitaç&o latina e o influxo 
asphixiante do catbolícismo; perdendo, primeiro, 
na litteratura e na poesia, depois, na jurispru- 
dência e costumes, a originalidade, o vigor e o 
caracter, cahindo no chato servilismo dos cotte- 
zSaa, para com o absolutismo, monarchieoe by- 
saatím, dos séculos xvi a xvin, até desaparecer 
no actual, absorvida pelo povo, e ante as succes- 
sítas conquistas da moderna democracia. 

À enérgica raça wisígoda portugueza, reani- 
mada, n'uma classe, pela guerra incessante de 
muitas gerações de heroes, n^outra pelo tra- 
balho qlil epeb cultura intellectual e liberdade 
cMI, OQtorgtNias pelos árabes, -— faltava porém 
om fundo assaz potente de tradisòes próprias. 



que lhe elevasse o espirito, e lhe desse um ca- 
nieter original e typico» Reduziam-se ás tradi- 
(ões primitivas da Germânia, empaledecidas pe» 
los séculos e assimilações árabes, e que, ainda 
assim, formavam o fundo da primitiva poesia 
gallega e portugueza , — ás guerreiras dos fidalgos, 
que respeitavam á recente conquiiBta, e que, só 
em pequena parte, eram nàcionaes — ^e ás ideias 
e lendas chriatãs do vasto poema da Bíblia, mais 
orientaes do que peninsulares. 

Ao constituir-se o novo estado, todas as raças 
do norte, estabelecidas no velho império romã» 
no, haviam já formado, na corrup^ do latim, 
as línguas românicas, dado-Htes a forma escri- 
pta, e redegido n'ellas os longos cantos carlo- 
vingianos, as lendas cathoticas e às leis locaes. 
Odialecto gallego, ouoporttaguez primitivo, com- 
pdz-se, pois, rapidamente; como* a ultima língua, 
n'ordem ehronologica, do latim, do hespanhol, 
do franko e do dialecto mosarabe* 

O gattego, posto haver^se conservado es- 
tacionário, teve, ainda assim, importância lil* 
teraria na península; n'élle se compozeram os 
primeiros poemas populares, que, no território 
protuguez, transmittídos, orahheiite, de geraçio 
em geraçfte, se acomodaram depois com a nova 
Imguá;— e n'elie se escreveram as primeiras 
imitações provençaes, cònsérvando-se aquelle 
dialecto por esta arte até ao século xni, nas di- 
versas cortes d'aquem dos Pi?rynéos, como lin- 
guagem artificial, más estimada, da poesia lyrica 
e sentimental de trovadores de toda a Hespa- 
ttha. 

A nossa língua principiou, porém, como disse- 
mos, desde a vinda do conde de Borgonha, a 
tomar uma feiçfto dístincta do dialecto gallego. 

No território, onde O conde se estabeleceu, 
fixaram-se com elle muitos guerreiros e eccio- 
siasticos franceses, que o haviam acompanhado, 
e que receberam, no noto estado, terras e go- 
vernos importantes. Vieram também copistas par 
ra trasladarem os Evangelhos á lettra francesa, 
ém cumprimento do que decretara, em 1090, o 
CMicilio de Lefto. E logo começaram, como já 
referimos, a ir a França a instruír-se, nas letras 
e sciencias, os inanòebos pòrtuguezes* que se- 
guiam a vida ecciesiastica e mais provas dar 
vam de intelKgencia. Todos estes individuos, 
«habituados ao uso do franoei, introduziram no 



4» 



BjpflÉM <É> mt tWDil 



dfatetttx) gailégo grande número de tentos d 'essa 
Imguâ niais polida e adiantada, e deram a mui- 
tas psrlavras extensas a sua fornia mais rápida e 
ifiietiòs abertiii 

n Égtainrtuenclaaugmentou ainda, comôestabe- 
Jeciraenfodêcoloniasfpancezas, oqoe principiou, 
HD tetttpod'Affon90 Henricpies; — com as visitas, 
ffõf vdzes demoradas, dos cruzados francezes , que 
éiitmvam nos nossos portos,*em viagiem para a 
Palestina; — e com agrande emigração denobrese 
(íerfgos portognêzes, que, no reinado de San- 
cho n, se refugiaram em França, e de lá regres- 
ntmím vlcloriosos, com Affonso in. 

• ' 'tetos casamentos dos reis de Portugal com prin- 
'*t?í;as'c&taiãas e italianas, e pela residência, em 
lloma, dé muitob prefados porfuguezes, nas suas 
hlfòscom o poder real, —lambem a nossa lingua 
se^enriquecéu, com palavras enérgicas da Catalu- 
iskfé-t termos mavíosoe da Itàliá. 

Quando Dini? subiu ao tbronò, a lioguá porlu* 
gtí^zaf, locupletada eomtâb opulento respigar nos 
diyiedtos èstranfaoff, tomira«>9e inteiramente dis-^ 
tíliofaf de^gallego, que )à se não laUava em Portu* 
gid', o eta que- só <w eruditos escreviam, por 
t^rhl^dade, algmyms poesias. 
^ ftifloS|Mra no reinado anterror b nossa lingua 
&• sèr escripta, e, como era geral succede, foram 
bk yerftos a sua primeira manifestaçfto. 
- ' ' 'Mis- auted d*esta poesia , formulada nos câracte- 
Ttôs ctíligrapbicos dd França, e que foi igualmente 
taftíi^o estrangeira, bavia, como era natural, 
tWlra''irigeniía do pai2, nacional, e<iue, durante 
séculos, leve por guarda única a tradicçâo oral 
tte povõ.-^Era a poesia popular, especialmeíite, 
ft nliíratítadâ' classe mosarabe. 
^ 'As^tradicçôes cehicas e sobretudo germânicas*, 
^tn qúaên'nada esmorecidas, com ò contacto dos 
fomatios,' que pouco chegava âs camadas inferio- 
rífr'Aa* Mciedade, pòderarn expandir-se, sob a 
t^t^nefá dod conquistadores nmssulmanos; e 
iWíítadas pela metlreficaçào', a musica, o canto e a 
^fátiça, de que os árabes faziam uso constante 
'fe geral; e avígdradas com a itídependencia da 
4ioV^ nacionalidade e a progressivia organisação 
lWs'niunicfT}ios,— produziram pequenos poemas 
•áhiotíymos, rapeodfas peninsalares, que foram, 
-êÒKvrMumfàHíè das romarias e das festas da vida 
á^hl, á* primitiva poesia do povo português. 
'>n Biia^èreveô- poemetos tiverem,* primdro, o 



nome de €fravia$, pofrqtie eFMl árabes a-ssa fona» 
exterior, a musica que os aoompanhava eo^stylo 
em que se entoavam. Mas, no fundo i manlinhaia, 
puras a índole céltica e wisigoda, fundida na 
cadilho ardente do seotimeniâliamo expansivo da 
peninsula. N*ellcs se reeonbeoe m veatigioa doa 
mythos e crenças primitivas daâ raçiis iodo ger- 
mânica, e os symbolos, os usos, a jyriaprudencia 
penal Mristgoda, que a mesma dasae moearabe 
inseria nos foraes. 

Foram as duas Beiras e o Algarve a parte de 
Portugal, onde principalmente se conceatron a 
população mosarabe, e é abi onée, aiaáa boje, 
se encontram, na tradicçâo, mais puros ecomple» 
tos estes poemas primitivos. ' 

N'elles perdominou, durante secutoa, e atem 
do periodo de que nos occupamos, a reàoa-r 
dilba menor, ou versos de cinoo ayllabas, que 
muito se prestava á musica e ao canto^ DMMMiida 
a voga doestes, por serem probibidoa na lytur» 
gia, as aravias adqueriram, pouco a> pouco» 
a forma da redondiUia maior,, em verbos de 
sete syllabas, a metrefioaçâo maia naturalt mais 
adquada á nossa lingua e a mtíé hanooiuoaa 
na recitação. 

Também, pouco a pouco» essas jirodQCSõeat 
aliás admiráveis, compostas na linguagem incidte 
das classes inferiores, equecoaserTavam, através 
das gerações, os seus archaissaos etradeaas,'^ 
perderamo nomedearam^is, eforan appellidadas 
romances pelos nobres e eruditos, por que nh 
mance se chamou, geralmente, atéaoseeuioxv, 
a lingua vulgar a que pertenciam. Parece que, 86 
n'este século, adoptou o povo essa debomina^ 
para os seus poemas ; e foi também noseouloxv 
que adqueriram, o maior deseUvoWimontOs sBui- 
quecidos com as tradicções aacionaes da gaemi 
da independência e das nossas descobertas e con- 
quistas. 

Os romanceiros, <ou coilecções d'esses poe- 
mas,--'reGiolhidoB da tradieç&o orai, o puUieados 
recentementef^ofiferecem^^nos opalenU^naBaor 
ciai de tradições, de sma popular, de originali- 

* A Madeiraj e principalmente, os Açores sâo, depois 
das Beiras e Algarve, as terras mais ricas Í*e8ta8 
poesias, para ahi levadas pelos portugnezes (Jub^fW- 
meiro oceuparam esses territórios. Nós AçcfébSf i t lâ ê k 
conservaín o nome ie afttnUu^ iqaehaimiílè pside- 
ram no Gontineaie^ - - ' 



i»-- I. 



ntllf 



fijaturia 4e fiortal^l 



dõgf 



éMÍ% 6 de Tendadeira poesia, ipie nos admira e; 
coiqafttay e qot são Terdadeiros menumentos lit- 
Icrariose iiigtoricos dos primeiroa séculos da; 
sociedade portuguesa. 

Di|9 prodttcções, porem, que hoje conhecemos, 
rarissioias conservam a genuidade, a puresa, ou 
a forfloa^Aft primeiras ^irat>ía5; s&o, quasi todas, 
recoiupofições, umas eruditas^ outras populares, 
doB piniilivos poemas, feitas depois da ultimai 
melíde do século, xiv, mudando. a linguagem, 6 
metro c o ueine dos personagens, e onde se man-; 
tJOMJd tão Minente, a ideia fundamental da lenda.' 
U^s atrarez mesmo d 'esta elaboração muito 
posterior, e por oiilros factos indubitáveis, tae^ 
copnoi-Ma existência dosjograes mouros e chris-* 
.táotfidaas .cartes dos reis e entte 9 povo, ood^ 

-ic^ntairám àa. som da guitarra, do adufe e dd 
aiahlKle,.<t*-.Q8.eBclareeiflientos que esses poema^ 
ftinteoeram aÂHioso^ o sa^tO) para a sua Chronicâ 

~ get^ de Beàpanka^ a outros chronistas e até ao 

^frai|de.iiiatoctador> poeta e philosopbo, Femfto 

o LifeSye^oOBheed*af indubitavelmente a exisJ 

' tendia d^eaàa poesia, tmbriooaria primeiro, ^ 

i.ifBejMloi.airigQrEiiAo oom a iuiç(L0,.até se expan- 
{dir fioititei&Basonados frucios, no secttlo xv, tor- 

i;aaiidò-se, em nossos tempos,. a origem, naciona 
do romance histórico e da moderna escbola ro-^ 

':iiÉtBiica. . 

Ko reinado de Diniz, ainda que debiimente; 
sente-ae jà na poesia erudita o effeito benéfico 
das ararias; e os outros cantos, festivos ou senti- 
mentaes, da poesia popular, como as serrani^ 
Ihas^ etc. chegam a occupar logar proeminente^ 
noa C4»ioioneiros arisV)cratico8 da corte do rei 
poeta. 
É que este período^ posto ser, na ordem cbro« 

. Dologica, o primeiro conhecido da nossa historia 
Jitleraria, é um dos mais ricos, e portanto um 
doa mais merecedores d'attencâo e estudo. 
' Todavia, aqui, apenas podemos esboçar o as^ 

• aiimpto;< vejamos, pois, agora, a poesia aristocra- 

' tíea e erudita. 

N'e8ta, foi a epocha fecundíssima. Ha pouòo, 
um italiano — para vergonha de nós todos, por* 
U^gnezes,—' publicou a mais vasta oollecçâo de 
canções que se conhecia, dé que todos fallavam, 

. e joti raros tinduim visto: 11 Canzoniere.Por* 
íêffidUà. delia Biblioteca Yaiicanay dado á ès* 

; tanpB.em 1475 por. Ernesto Monad, qud oootem 



i205 producções de mais de cem poetestdQ.QÍdo 
dionisiano! . , ..1 

Quando, já no segundo quafitel d'eate.aecuk) 
se soube da existência d'este tbesouro,..e.8e co- 
meçaram, pouco a pouco, arevekc.as.suftaini- 
quezas, é que ti vemos, conheci mesto^ depai^,4e 
centenas d^annos d'umsiagular.olj^idò, dagranfile 
efervescência poética, qpe, nosâeculoaKiiiexAr, 
animara Portugal. A recente publittaç^.de^MQAI^i 
do código da Vuticana, na sua integra^ xoia,^- 
íim, Jançar inteira luz sobre um períodO) icon- 
siderado, hoje tão brilhante àfi noasa. hi^tQcía 
iiUeraría, quanto noa era obiCUCO>iaÍAdathftpQ|i- 
cosannos. r. -* 

Nào foi, como se pensara, só>ocei, porÍQ\f)Mteo 
de seus me^es, ou paraseguiir seu av&ÃOíinso, 
osâ^ia, que.«á imitação dos paeltas,praveA(aãB, 
metreficou em rimaa^i K . . . ^., 

F0i^ por assf m di2er, umanHçl^ inteira,. tQQUlda 
de enthusiasmo pqr .uma moda ealtrang^iia W- 
cantadora, impellida pelo monarcba e.foe^oida 
pelaseLva pofMjdar.e nacioobl,,rT-^qtte.8eia|[içauna 
poesia, para eUamoderQa,d9.Prov.e^, atOífO^» 
sentimeatal, relati vãmente .tãojQuJll^.pi^lP.i^pfi- 
morado da linguagem, pela.metn^caç^ QPâla 
rima, , ::i .,. ,^ 

Rei, infantes, grandes dignatarios do rpbv), 
cavalleiros, ecclesiasticos, jograes, populares, 
todos emfim que se acercavam da côrte^ dps 
solares dos ricos homens, das escholas ecc^- 
siasticas ou seculares, se tornaram poetas, C091- 
pozeram versos; e estes, recolhidos no precioso 
thesouri) da Valicana, fazem boje reviver Q3 aju- 
ihores, nos seus mais íntimos sentimenlpp, coçifa- 
mes, linguagem e paixões. 

À poezia provençal começou entre jiós,Jogo 
depois de 1245, quando o infante, coAde de JKo- 
lonba voltou de Franga, à frente dos prelados e 
fidalgos emigrados e acompanhado de alguns ei:u- 
ditos ecclesiasticos francezes. Entre este séquito 
numeroso, cheio de audácia e em breve trium- 
pbante, vinham espíritos, nacionaçis e cstrip- 
gciros, apaixonados pela poezia, que do sul da 
França chegara até Paris, e transmittiran^-o^ a 
Portugal; — veio também um pouco das i^ossas 
relações com a Gallíza, que, peia yízinhapçá, 
a recebera da Aquitania, como, por varips modos 

y BaibMa.--*£íi. ÍAtè, i. 697^ 



V 



48 



Historia de FortngAl 






e rapidamente, se propagara, em todos os poTOs 
latinos do occidente da Europa, e até chegara â 
Allemanha e â Inglaterra. 

Quando nós, porém, recebemos esta poesia, já 
contava mais de um século de existência, no seu 
berfo, — a zona mais amena e fértil da França, 
que yae do norte do Loire ao lago de Geoora, 
orauprehendendo a Âquitania, o Âuvergne, Ro- 
des, Tolosa, ProTeoça, e Yienna, e onde se fal- 
tava a Ungua de oc. 

Tinham-se, ahi, conservado mais puras e vivas 
as tradicçGes gaidezas e com eUas as canções 
populares; mas a nobreza e o clero, conside- 
ravam-as desprezíveis, e tiveram-n^as como que 
attbjugadas, durante séculos na idade media. 

Todavia as cruzadas, que>prmcípiaram nos'Ul- 
timoe anooB do século xi, aUiviaram oméiodja 
da França, em grande parte, d^essas duas clames 
dominadoras; padres e fidalgos partiram fiara a 
Ásia, tomados da toueura piedosa da conquista 
de Jerusalém. 

O elemento popular, sentindo diminuirá pezo 
do jugo, fd levantuido a cerviz; ganliou pode- 
roso incremento a organisaçáo munidpai; o oom- 
mercio, a industria, a agricmkura, as artes, todas 
as manifestações do povo, e portanto a poesia, 
adquiriram, com a liberdade, estrariío vigor; e 
as velhas canções gaulezas, até ahi incultas, des- 
prezadas e perseguidas, tomaram a forma escri- 
pta, aperfeiçoaram-se, invadiram os solares que 
só as damas habitavam, introduziram-se nas cor- 
tes dos pequenos príncipes d^aquella região, e 
tomaram-se em breve uma litteratura fecunda e 
brilhante, que, por fim, avassalou os espíritos 
cultos e as classes elevadas. 

Bin todo o meio dia da França, o numero 
dos trovadores era infinito; os seus cantos, 
ainda que tinham por principal objecto o amor, e 
às vezes se perdiam nas abstracções d'um sen- 
timentalismo exagerado, enraizaram no espirito 
publico a independência dos munioipios, e eleva- 
ram a dignidade e a consciência do homem do 
povo, fazendo-lhe sentir que podia amar a mu- 
lher da mais alta gerarchia eser por ella amado, 
se lhe óaptivacise o coração pela lealdade, pelo 
i^r e pelo talento. 

Qmmdo a fdrte organisaçãó mumcipal, a quasi 
democracia do meio dia da França foi esmagada 
pdo feudalismo dos frankoi, com o fmatíeo pre* 



texto de estirpar a heresia dos Albigenses, a poe- 
sia provençal esmoreceu muito; e cahiu, depois, 
em completa mina, quando as cruzadas acabaram, 
em 1291 , e a clerezia e os nobres, permanecendo 
no paiz, readquiriram em parte o antigo predo- 
mínio. 

6s trovadores dispersaram^se então peia Boro- 
pa, principalmente pelas cidades pepublicaBaa 
da Itália, e foram poderoso elemento, tmm o 
haviam sido na sua pátria, para a elevação das 
ciasses populares e da vida municipal. 

Em Portugal, aliiteratQraproveDçaleaoaadqiiire 
vigor, e attinge o seu periodo brilba&te, quando 
já começava a decahir na Provença. 

Vendo-ae Affonso m firme no throno, e:po8- 
sukior d^ prole que lhe assegurava adetoeti- 
dencia, pensou em educar o seu hendeiro pri- 
mogemto, de modo q/nt fosse digao4a.coi)6aiqae 
lhe legava, edeurlhe, como vimôs^:os meihaies 
mestres,— entre elles, Aymeric d^Bbradj^ne ora 
da Âquitania, amante e talvez cultor. da ipMtta 
da sua terra; foi também pcnr este ierapo^ qpnr o 
estado valetudinário em que D. AffMMO oaUn e 
a soa arteira poiiitica o cMgaram a uma vida 
sedentária, fixando a residência da eéfte,.eoon* 
servando-se, annos inteiros, jazendo no leito en 
eneerrado na camâra. 

Para entreter o espirito activo do rei, nas 'lon- 
gas horas de tão estirado recolhimoito, os fidal- 
gos cultivaram a poesia, cujo gosto os principaes 
e mais validoshaviam adquirido, comodisseaios, 
na emigração. D. Diniz creou-sen'esteambi«ite 
e com mestres decididamente dedicados .avessa 
litteratura. Quando seu pai lhe pôz casa, alguns 
fidalgos que lhe deu para seu serviço eram* tro- 
vadores, e, com esses e outroe, se adestrou, 
desde creança, a justar nas cortes d' amor ^ e a 
entrar nos frequentes combates epigramáticos, 
muito da moda, em todas as nações latinas. 

Elevado ao throno»^ não obstante os cuidados 
do seu governo, agitado e laborioso, Diniz, não 
só continuou assiduo cultor da poesia, mas che- 
gou a ser o primeiro poeta do seu tempo, e a 
fazel-a amar de todas as classes cultas do 
paiz. Em tomo de el-rei constituiu-sej logo> a 
plêiade brilhante de trovadores, que fulgura, nas 
trevas quasi dispersas da idade media, itravez 
das paginas do cancioneiro da Vaúcana. Algons 
dosseiM filhos bastardes (oram poeta»! etaMo 



Tjf. na hn It llsida. H. 



Corte poética de D. Diniz 



I 



7 : f t- 



''Ol^, 



-^^cZkll 






HiBtoclâ ée Poetue»! 



49 



BMtt» Ibe capkiyavaiii o aCCacto^ quanto mais se 
distiogaiaiD, eatro os versejadores do-te^po. - 

A peesia provençal, portam, era Je^traageira; 
tinha poff.baaeitradi^QOes^estninlíias; por coqs- 
tante objecto o amor diSicíl, vedado pelas des- 
igualdades sooiaes e pelo mysterioso. Nadad'i6to 
podia crear raizes em Portngál, por não ser pró- 
prio da nossa t^rra» e havoodo» de mais a mais, 
o gostb doesta Mtteraiora- ^«minado s^bre tudo 
nas classes elevadas, onde 09 amores eram fá- 
ceis, já. peb soltura e rudeea dps costumes, já 
pela igualdade,, sen&o superioridade herarcbica 
do trovador para com a mulher amada. 

Viveu, porém; muitos f^noo^ joiais do que era 
dt esperar, ç toosou um vigor e uma certa origi- 
nalidade portuguesa, que a dUtinguiu da poesia 
provençal das outras nações latinas. Deveu es- 
tes singulares effeitos a ter-se retemperado, como 
era natural e quasi inevitaY^l, na poesia narra- 
tiva, popular e antiga da nação. 

Nos auctores do CmtcioneiPOi e sobretudo em 
D. Diniz, que, se não* foi um grande poeta de 
sentimento e alma, teve conftudo em summo 
grau, para o seu tempo, o gosto dobello e a in- 
tuição da esthetica, predominam duas tendên- 
cias distinctas:— primeira,' a knita^ão exclusiva 
da poesia provençal, vaga, abstracta, fatigante, 
quasi ininteliigivel;'-^ segunda, a harmonia e 
aprimorado d*aquella e o seu sentimentalismo, 
tomando uma vida real, portugueza, popular; — 
a primeira são as caT!çÔes"gm maneira de pro- 
vençal, ---^ segunda, os cantares de amigo, no 
gosto das canções do Gesta do norte da França e 
das aramas e seiranilhas porlugue^sas; — aquella 
é contrafeita, falsa, morredoura; — esta é bella, 
original, eterna.' 

 primeira, porém V concorreu para asegunda, e 
ambas aperfeiçoaram a lingua, elevaram o espirito 
publico, e constituiriam a mais antiga e não a me- 
nos brilhante phasc da litteratura portugueza. ^ 

1 Para que o leitor possa fazer ideia aproximada 
do eslylo, lyrisraa e perfeição a que chegou a poe- 
sia n'este tempo, transcreveremo!! para aqui do 
Cancioneiro da Vaticana aifromas estrophes das ce- 
lebres e já, hoje, bem coahspida^ : 

CAtlsns d*aixii0i> qp^e.o amy rpbre 
IDem deni0^ re^ de portiieal fíh 

486 Ben entendi, meu arpigo, 
Que mui gnm pesar ouveates, 
n VOL.— 7. 



Esta poesia durou pouco alem do reinado de 
D. Diniz. O sticcessor odiou-a, por ter sido uma 
das causas da predilecção de seu pai por seu 
irmão e emulo, A Sonso Sanches, o que o leva- 
ria, comoveremos, a causar tantas perturbações, 
no reino, e tantos desgostos a seu velho progeni- 
tor, povoando-lhe por certo o espirito de remor- 
sos. Alem d'Í9to, as successivas guerras civis, — o 
espirito asphixiante da egreja,— as proscripções 
terminantes de Pedro i contra os versos e a mu- 
sica, por ternos e amolecedoros,—ofuodo falto de 
verdade d'esta poesia, — e a nova evolução natural 
que fez predominar outros géneros de littera- 
tura, deram-lhe completo fim, muito antes de 
terminar o século xiv. 

Com o enthusiastico e quasi geral cultivo da 
verseficação, adquiriu a lingua portugueza, rápida 
mente, uma grande perfeição relativa, e come- 
çou a ser empregada nos actos governativos e 
escriptos forenses, até ahi redigidos n'um latim 
bárbaro e incorrectíssimo. Já do reinado de Àf- 
fonso III, se encontram documentos em porlu- 
guez, D. Diniz, logo nos primeiros annos de 
governo, em 1 d^agoisto de 1281, publicou, em 
vulgar, uma lei importante, sobre a rectidão 
e brevidade na administração da justiça; de 
dia para dia, a lingua portugueza foi adque- 
rindo foros de official, por fim determinou-se que 
todos os documentos públicos fossem n*clla re- 
digidos. 

D. Diqiz, obdecendo ao influxo geral que as 
letras recebiam, então, em toda a Europa, — pois 
esta foi a epocha da primeira renascença, — fez 
empregar também a linguagem vulgar na traduc- 
ção de algumas obras afamadas, o que muito 
concorreu para firmar a grammatica e naciona- 
lisar conhecimentos úteis. Mandou traduzir do 
hespanhol a Chroniça geral de Hespanlia e as 
Leis das Partidas y que adoptou para Portugal ; 
do árabe, por 6il Pires, o livro de Moo Rasis, 

Quando falar non podestes 
Vós n'outro dia comigo, 
Mays certo seed' amigo 
Que non fuy o vosso pesar, 
Que sao meu podess' iguar. 



IM Nan chegou, xnadr' o meu amigo 



60 



SOfftorift «fe PortBiíil 



cbronista de Córdova, e do lalim diversos escrU 
ptos religiosos. 

Finalmeoie, escrcvcram-sc em pittoresca prosa 
porlugueza aiguns foraes, o Livro velho das Li- 

£ oj' est o prazo saydo; 
Av ! madre, movro d'ainor. 

Nnn chegou, mndr* o meu niuado 
E oj' est o prazo passado; 
Ay ! madre, moyro d'«amor. 

E oj" est o prazo saydo, 

Por que mentiu o desmentido, 

Ay! madre, moyro d'isunor. 

E oj' est o prazo passado, 
Por que mentiu o peijurado, 
Ay I madre, moyro d'amor. 

E proque mentiu o desmentido 
Pesa mi, poys per si é falido, 
Ay ! madre, moyro d'amor. 

Porque mentio o perjurado 

Pesa mi, poys mentio por seu grado, 

Ay ! madre, moyro d 'a mor. 

De que morredes, filha a do corpo valido? 170 
Madre, moyro d^amores, que me deu meu amigo 

Alva e Wíy liero» 

De que morredeâ, íilha a do corpo louçano? 
Madre, moyro d'amores que mo deu meu amado 

Alva e vay liero. 

Madre, moyro d'amores que me deu meu amigo 
Quando vej' esta cinta que por seu amor cingo 

Alva e vav liero. 

Madre, moyro d'amores que mi deu meu amado 
Quando vej' esta cinta que por seu amor trago 

Alva e vay liero. 

Quando vej' esta cmta que por sou amor cingo 
E me nenbra fremosa como falou comigo 

Alva é vay liero. 

Quando vej' esta cinta que por seu amor trago 
E me nenbra fremòsa como falou ambos 

Alva e vay liera 

471 Ay flores! ay flores do verde pyno. 
Se sabedes novas do meu amigo ! 
Ay d.eos! e hu é? 

Ay flores! ay flores do verde ramo, 
Se sabedes novas do meu amado ! 
Ay deosi e hu é? 

Sf sabedes novas do meu amigvi, 



nhagenSy o N0b%liario do eonáe 2). Pedro^ e m^ 
poe atgúns que se traçoti o pfiifiitiro esboço Âi 
primeira iK)vella <em prosa, o ÁtMdh det Gaula^ 
depois tiacdebrada, em todo ò mundo. 

Aquel que mettiio do que mba juridol 
Ay dfioal e hu ó? 

Se sabedes novas áo meu amado, 
Aquel que mentio 'do iqne pes comigol 

Ay deosI e hu é1 

Vós me perguntades pelo voss* amado? 
E eu ben vos digo que é vivo e sano, 
Ay deosl ehn é? 

E eu ben vos digo que é vivo e sano? 
E seera vosco anfo prazo saydo. 
Ay deos! e ha é? 

E eu ben vós digo que é vivo e sano 
E serea vosc' anfo prtizo passado. 
Ay déos! e hu é?' * 

17Í Levantou 6'a velida 
Levantou s'4lva^ 
£ va^ lavar camis^ . 
£n o alto. 
Vay las lavar, alva. 

Levantou 8'a loo^^ana 
Levaulou s' alva 
E vay lavar delgadis. 
En o aito. 
Vay las lavar, alva. 

Vay lavar camisas 
Levantou s' alva, 
O vento lhas desvia 
En o alto. 
Vay las lavar, alva. 

E vay lavar delgadas 
Levantou s*alya, 
O vento lhas levava 
En o alto. 
Vay las lavar, alva. 

O vento lhas desvia 
Levantou s'alva» 
Meteu s^alva en hira 
Eu o alto. 
Vay las lavar, alva. 

O vento lhas levaví^. 

Levantou s^alva 

Meteu s'alva eií sanha 

Enoalto. 

Vay las lavar àWíi» • 



li&f^M^M F9ft«0al 



51 



T=" 



A nação liUeraria acbaya-fie coDBtituida : os 
sequazes d'Affonso m foram os iniciadores ; D. Di- 
nis, porém, completou o trabalho da orgaoisagão; 
tomou-se, entre numerosa picide de trovadores, 
o maior poeta da epocba, e teve a felicidade his- 
tórica de dar o seu nome a este cyclo glorioso. ^ 



177 



Amiga, eslad' ora calada 

Hun pouco, e leixad' a mi dizer : 

Per quant' eu sey certo e poss' entender 

Nunca no mundo foy molher amada, 

Como vós de voss' amigo, e assy 

Se el tarda sol oon é culpad' y, 

Senon^n quer en ficar por culpada. 



180 Dizede por deos, amigo, 
Tamanho bea me queredes 
Como vós a mim dizedes? 
Sy, senhor, e mays vos digo, 
Nan cuydo que oj' omem quer, 
Tam gram ben no nrand' á molher. 



^ O vasto assumpto d'este capitulo pode ser estu* 
dado» entre outras» nas obras seguintes: 

Fr. Joaquim de Santa Rosa de Viterbo.— E/uci- 
dario. 

Joáo Pedro Ribeiro. — Dissertações Chrotiologicas. 

Raynouard. — Choix des pohiesdes troitbadours, 

Diet.-^Poesie des troiibadours. 

FoíiTte\.^^Rist, de la poesie prorenrale. 

Almeida Garrett. — Romaneeírv. 

Canéiotèêitki de el-tti D. DiniZj som prefacio de 
Caetano Lopes, de Moura. 

Caneioneirinka de trova» antigas coUígidas de »m 
grande cancioneiro da Bibliotheea /do Vaticano. 

Francisco Ad. Varnhagem. — Trovas e Contares. 

Theophilo Braga. — Historia da Litteratura Por- 
tugueza. — Manual da Hist. da Lit. Poi't. 

Ernesto Monaci. — Canti antichi portoghesi tratti 
dei eodite tátieano. — Cantos de ladino Iratti dei 
grande eansoniete portughese- dèfla Bibhotèca Vati- 
cana. — R Canzoniere Portoghêse delia Bibliotheea 
Vatioona. • *. ■ . 

Ferdijiand Wolí.— S/udim jii<r Gfn^hiehle der 
panischen und portngiesischen Naiionalliterattn:, 



CAPITULO VIU 

Relaç5es entre o estado e a egreja: — as 
duas oltimas concordatas — desamorti- 
sacão. 

Haviam passado apenas dois annos, depois da 
segunda concordata, celebrada entre o poder ci- 
vil e a egreja, quando novas queixas dos prela- 
dos e particularmente de D. Vicente, bispo do 
Porto, vieram outra vez perturbar o animo de 
D. Diniz. 

Antes que a desavença sahisse do reino e se 
robustecesse em Roma, onde o pleito levaria an- 
nos a compor e custaria grossas sommas, pas- 
sou o monarcba ao Porto, e, em 23 de Agosto 
de 1292, depois de discutida a matéria, assigpou 
terceiro accordo com o dero, representado pelos 
bispos d'aquella cidade, da Guarda e de Viseu. 

Livre, porém, do poder pontificio, o desassom- 
bro d^elrei tomouse maior, e resolveu a con- 
tenda, com mais vantagem própria do que o 
haviam sido as duas primeiras, sem comtudo as 
regalias da egreja deixarem ainda de ser enor- 
mes. 

Eslabeleceu-se que não fosse chamado á cdrte, 
perante juizes leigos, nenhum bispo ou clérigo, 
salvo nas demandas relativas ás hatlades reaes, 
ou foreiras á coroa;— e que os tribunaes secu- 
lares não interviessem nas causas ecclesiasticas. 

Prohibiu-se a todos tomar a defeza de quem 
se negasse a pagar disimos. 

Permittiu-seaos que fossem a Roma, ou estudas^ 
sem, em qualquer universidade estrangeira, fazer 
sahir ouro e prata do reino, sem pagar decima. 

Mantiveram-se as immunidades d'asylò das 
egrejas, não se podendo arrancar d'ellaa os cri> 
minosos, senão nos casos e com as formalida- 
des prescripias nas leis. 

Prohibiu-se, porém, terminantemente aos ta- 
belliães lavrarem titulo de compra de bens im- 
moveisafavorde frades, freiras ou alguma ordem 
religiosa, e sancionaram-se as penas contra os 
que transgredissem o preceito; 

Qom estas regras e algumas outras de menos 
importância, tornadas leis geraeS do reino, ' 
apaziguou a contenda ^ mas para isto teve el 

■ 

t Ord. Af[. L. 2. tit. 3— ifow. Lus. P. o 
P, 16— Qitíulro Ulmentar, T. 9, pag* 288. 



-rei 



^f /7 



6Ô 



Hiilòfiá d0>FO>«ilg«l 



de fazer, no mesmo dia, composições particulares 
com cada um dos bispos outorgantes e seus ca- 
bidos, concedendo-lhes egrejas e direitos reaes, 
situados nas respectivas dioceses, e promeltendo 
favorecer, directamente, a família do poderoso 
prelado portuense, como fez no mez seguinte, 
legitimando-lhe uma ftlba do irmão, apesar de 
freire de S. João do Hospital. * 

A divergência, porém, estava composta: o po- 
der civil no fundo concfuistára amplo terreno. 
As leis de desarmorisação até então publicadas 
recebiam uma nova e importante attirmativai e 
a concordata com o clero nacional efFecluára-se 
sem intervenção ponlificia. 

Doesta vez o accordo foi mais duradouro; só 
etn 1309, desésete annos depois, se renovaram 
as queixas dos prelados, a ponto de ser neces- 
sária a interferência do rei. 

Para a decisão do pleito, seguiu-se o processo 
adoptado, desde o começo do reinado. Ó alto clero 
reuoiU'Se em assembléa com os nobft^, os mi- 
nistros e 08 jurisconsultos por j^aite do estado. 
Redigiram os prelados as suas reclamações em 
vinte e dois artigos, e o monarcha respondeu a 
cada um especialmente, como se fiiEe^a nas trts 
anteriores concordatas. Mas n'esta, assim como 
succedera na antecedente, também o papa não 
interveio. 

Posto que fossem ruidosos os queixumes dò 
clero, não se referiam a' matéria nova. Diziam 
apenas respeito a pontos já debatidos e decidi- 
dos nos aecordos anteriores. íi de suppór qtte 
algumas reincidências das authoridades civis 
dessem causa aos clamores dos clérigos, sempre 
excessivos em pugnar pelas chamadas immuni- 
dades ou liberdades da egreja e pelos interes- 
ses temporaes de toda a espécie. 

As respostas também aos novos artigos não 
foram mais do que réfereiícias, iúterpretações e 
ampliamentos dos diversos pontos, estipulados 
em Roma e no Porto; mas com isempção cres- 
cente do poder real, repellindo as pretensões 
desarrasoaveis da ampliação do foro ecciesias- 
tico e dos privilégios clerícaes. ConfOrmou el-rei 
o direito de exigir dos cterigios que concorres- 
sem, como 08 seculares, para as despezas das 
obras de proveito commum, excepto para as forti- 

''■ Mon, hin^ loc. cH, ' ' 



flcações, porque d'essas esfavam, expressamente, 
isemptos pela primeira y^oncordata. ò monarcha 
illudiu à tolerância e favor que ptodigaNiara 
aos judeus e mouros, negando qUeihes^^désse 
officlos públicos e sustentando que os tratavsi, 
conforme o direito estabelecido. Ecònfitmoit, de 
novo, as leis prohibitivas d^aquisição de bens im- 
moveis aos corpos de mão morta; Queixavam-se 
os bispos d'esta prohibição d*el-rei, e sobre tudo 
.de lhes tomar as propríedades já compradas. 
' O monarcha respondeu que observava è observa- 
ria o ajustado, no Porto, e ordenou qu^ se 
inquirisse do que tivesse sido comprado,^ de- 
pois d'esse tempo, e que os ben&,, em cujo con- 
tracto se houvesse tran^redido o aocoi*do, fi- 
cassem para a coroa. 

Foi esta concordata assignada em 26 de julho 
de 1309 >, e a paz entre os dois poderes não 
mais se quebrou, durante o longo reinado de 
D. Diniz, nem por alguns séculos se renovaram, 
com a antiga irritação e violência, as dissea- 
ções clericaes, tão frequentes nos primeiros teai- 
pos da monarcbia. 

Este resukado importante tonre diver^ns cau- 
sas; mas as mais cfficazes foram, sem duvida, 
a9 seguinteç:— a ampliação da instrucção, que da 
classe ecclesiastica, a que até ahi quasi exclusi- 
vamente sèUmítani) passou para melasses se- 
culares, principalmente, da fk>breira e da te^ 
gistratura, cultivando a primeira com paixão as 
bellas letras, e a segunda o direito romano, que 
acabava de resurgir e começava a dominar; — 
a decadência, já pronunciada em toda a Eurppa, 
idainHuencia do papado, sobi^e o governo dos es- 
tados; — e o caracter enérgica eeaflarecidQ de 
D. Diniz e de seus ministros^ que aoufaeraoi apro- 
veitar as GÍrcurnstanobs,: Ccd€fndd a tonpoy nas 
cousas somenos ou impossíveis 'dei veineei*, ela • 
sistindo, com hábil tenacidade, nos pontos mais 
importantes para a sociedade civil e direitos 
magestaticos. 

As contendas eplre p estando, e a egreja come- 
çaram, como vimos,^ a contento dos dois pode^ 
res, a ser decididas no reino, s^m intervenção 
da euria romana; esta rductou, recusando largo 
■ ' ' • ■ . ■.•■■' 

1 Arch, Nac. da Torre do Tombo. Lie, dag Left 
e fmtnras ant^fa»^ fl. f 88^-M?«ff<ítv fevém. vol. 9, 



BlBtoria de PortagU 



6â 



tempo a confirmação òs concordatas nacionacs; 
mas por fim cedeu, encontrando no rei Drmeza 
e illifstpação desujadas em monarchas, e faUan- 
do*lhe a antiga submissSo do clero porluguez, 
cojo animo se inclinava a D. Diniz, pela affabi- 
lidade e justiça^ que n'eJle encontrava, c so- 
bremdo pela generosidade para os seas mais 
imoiediatos interesses. Assim esmoreceu, era 
Porlogal, o primitivo uftramontanismo da nossa 
egreju, começando a tomar preponderância o 
direito ecciesiaslico portuguez,— e iniciando-se, 
com o appoio do rei e em detrimento da cúria, 
a autonomia do episcopado nacional. 

Hegulou-sc a competência do foro cccfesias- 
tico, dando força de lei ás chamadas liberdades 
e immwiidades da egreja, que o uso radicara 
por tal modo, que era impossivel destruir; mas 
limitou-se a determinados casoS; cortando-se, de 
veZj com o intolerável abtiso de chamar aos tri- 
bunaea ecclesiasticos acções meramente civis, e 
acabando com as arbitrarias e absurdas invasões 
de jwisdição, a que se atreviam os bispos c os 
prelados das ordens mais poderosas. 

Mas a princjpai reforma, no assumpto, reali- 
«ado, durante este reinado, foi a desamortisaçúo 
dos bens da egreja, a que já por vezes alfudimos. 

O cteno assumira o auge do poderio; e náo 
eram tanto os privilégios, as isempções, a pre- 
pondei^ncia do direito canónico, as idéas faná- 
ticas da século, como a enorme massa de bens 
têititoriaes de que se tornara possuidor, que Ih o 
haviam alcançado e ih'p maniinham. 

A« doaçOes <*m bens immoveis dos primeiros 
príncipes a favor da egreja tinham sido, não 
só generosas, roas prodigas aié á imprudência. 
ABonso Henriques dotara mais de cento e cin- 
coenta egreja« e convenfos; D. Sancho i quási 
excedeu seu pae no piedoso fervor de enriquecer 
o altar; o os sncccssores nao se aflastaram muito 
doesta mal avisada praiica. 

íJeg^iram os súbditos o exemplo dos sobcra- 
1108. Todor o individuo abastado, nobre ou ple- 
beu, se julgou, mortilmente, obrigado, a partilhar 
cofli o^deró a sua fortuna, senáo a legar-lh'a na 
integra, como faseiam muitos. 

Ob jierigos aventurosos da guerra, a victoria 
oblidacontrtios ifíimfgos da fe, a boá reálisaç5o 
á'9m ne^ro ou d^bm desejo ardente, as doen- 
ças, 0$ riscos profírios cdU9pessou5qu<*ridas, ê, 



principalmente, a remissão dos peccados, a sal- 
vação fulura das almas, todos estes factos e sen- 
timentos,— que dominavam a existência inteira, 
material c inlelleclual dos indivíduos,— estavam, 
I segundo a crença Orme do século, dependentes da 
vontade arbitraria e absoluta de Deus; — doeste 



j os representantes na terra, os seus directos in- 
termediários eram os padres, era a egreja : insi^ 
nuar-sc por tanto na boa vontade do clero, para 
alcançar a boa vontade de Deus, era a lógica de 
todos os espirites, inscientes c rudes do tempo, 
e a pratica geral, em todas as nações calholicas. 
A fim de obter o que desejavam, compravam o 
padre, para lhes captar Deus. Davam aos have- 
res o cffoilo da virtude. Era a simonia arvorada 
em preceito, em dogma religioso c social, acre- 
ditado com fanatismo, praticado com fervor. 

O clero, com todos os seus arlificios, díffun- 
dia, sustentava e avigorava esta cegueira dos reiâ 
e dos poderosos, que lhe favorecia a cubica. 

Além das acquisiçõcs por titulo gratuito, a 
egreja augmentava os seus domínios territoriaes 
por compras, arrendamentos, alcavalas de toda 
a espécie, usurpações c fraudes. 

Em breves annos, os resultados doeste systema 
adqulsiiivo foram taes, que se receou vir a egreja 
a apossar-se da naçSo inteira; aggravava-o ainda 
a clrcumstancia de que os bens ecclesiasticos cà* 
tavam, como vimos, isemptos do pagamento de 
certos tributos imporlantes, cuja effectividade se 
tornava indispensável á existência da sociedade 
civil. Insinuava O clero que tal isempçáo era de 
direito divino, independente do poder real, e que 
seria impiedade locar-lhe. O incremento dos 
bens temporaes da egreja correspondia ao pro- 
porcional detrimento dos reddilos minguados do 

estado. 

Além d'i?so os bens ecclesiasticos tornavam-se 
de mao morta, isto «5, ficavam fora do commerçio, 
e de toda a transmissão,— o que diminuía o nu- 
mero dos proprietários c augmentava o. proleta- 
riado c a miséria nacional. 

A todos os espirites,, pois, que tomavam parte 
na governação do paiz, tornou -se, desde logo, evi- 
dente a urgência de pôr um dique a este poder 
absorvente, e at« enfão irl^sistivol. 

D. Affenso II iniciou a primeira tentativa. Nas 
cortes de 1^ 11 , ao mesmo tempo quç confirmou 
á r.wja a isempçâo em que eslava de certos 



04 



Historia de Partngitl 



impostos, publicou uma lei, vcdaado-lbc a com- 
pra de bcDS de raiz. 

«... Porque poderia acaeccr— dizia ellc,— que 
08 mosteyros e as outras ordyns de nosso rcyoo po« 
deriam conprar tantas possíssGes, que se tornaria 
em grande dano nosso e do rcyno, c pcra esta 
tal convcrria que fezessemos demandas, e esto 
tornarssehia em grande dano das egrcias, e 
em nosso prejuiso e agravamento; porem pa- 
rando nos mentes no que podia acaecer, stabe* 
ieçemos que d'aqui adeante neobua cassa de 
religiõ nõ couprc nebua possissom tirado pêra 
universsayro de nosso padre, ou nosso. E damos 
a elles Iccença davercm possissOes, ou outras 
cousas pêra outra maneira aguisada. Poro non- 
tolbemos a nenhun r4lerigo poder de comprar 
possissOes, e de fazerem d*cllas o que quize- 
reiífk. E se per vcntuyra alguém contra esta nossa 
cõstetigõ, quizcr bir, perca quanto der pela pos- 
sisson por pOa ^ » 

A primeira proposição preceptiva da lei atacava 
o mal peia raiz, quanto ás adquisiçues por compra; 
mas as rcstricções que se Ibe seguiam, atle- 
nuavam-lhe os bcneGcos efTeitos, já pelas exce* 
pçOes que facultava, já pelos pretextos que dava 
a infracções e burlas. Além disso, o poder civil 
era fraco, e quasi inteiramente impotente ante o 
enorme poderio material que então tinha a egreja; 
a legislação canónica imperava; a obscuridade en- 
volvia 08 direitos polilicos da coroa; e o espirito 
publico das massas, inscientes e fanatisadas, não 
comprehendia o alcance social da providencia de- 
cretada. A lei, pois, nunca se executou; em breve 
cabiu em completo desuso; e foi mais uma causa 
d*incentivo, para as graves discórdias, que se le- 
vantaram entre o arcebispo de Braga e AOonso ii. 
e que só terminaram com a morte d'este -. 

Nos reinados de seus GUios, Sancho e Af- 
fonso, nenhum remédio se applicou ao mal; ^ 

' Litro das í^eh antigas no Arcli. Xac. fl. % 
col. 2 — Francisco Manuel Trigoso d'Arag.1oMoralo, 
Dissni. app. 5V, impressa no T. 7 da HisL e Mem. 
da Acad.—Mon. Lm, P. 4, L. 13, c. 21. 

2 V. !.• vol. d 'esta obra. 

5 Veja-se a cit. Me^mria de Trigozo em que se 
pretende mostrar :, que até ao tempo d'El-rei D. Di- 
ntz; não exiUio Lei alguma em Portugal^ que piv- 
hihisse gei^almefite ás Igrejas e Mosteiros a aquisi' 
rão de bens de raiz. 



e as victorias successivas, que, durante esse 
tempo, alcançou a egreja, fizeraffl-n'o crescer 
e aggravar, por tal arte, que a necessidade 
de lhe pôr cobro, quando D. Diniz subiu ao 
ihrono, era reconhecida de todos os espíritos 
cultos. 

Náo se atreveu, porém, a isso, nos primeiros 
annos de governo, o joven rei. Com a egreja, o 
seu principal empenho foi, já o dissemos, pacifi* 
car o reino das graves perturbações, em que o 
haviam lançado os interdictos de Gregório x, nas 
desavenças com seu pae. 

Mas quando pela concordata, ajustada na 
Guarda, o throoo se reconciliou com o clero 
nacional, e tão somente a confirmação ficou 
dependente da resolução pontificia, o filho d'Âf* 
fonso III altendeu ao mal, e pensou im)6 meios 
de o attenuar. Instavam também, por uma pro«. 
vidência que resolvesse a questão, muitos juris- 
consultos que a consideravam peio lado juridíco 
e do poder real, e os fidalgos e concelhos que, 
de dia para dia, sentiam diminuir os limites 
dos solares e os termos dos municipios, e en- 
grandecer, em seu detrimento, aa possessões das 
catbedraes, das parochias e sobre tudo das or- 
dens ecclesiasticas e de cavallaria, impossibili- 
tando os assim de concorrerem para as despesas 
do estado. 

Tomando por pretexto os queixumes das com- 
munas, D. Diriz publicou, em 10 de julho de 
1286, uma carta regia que, não só punha em 
execução a lei d'A(ronso ii, que prohihia á 
egreja a compra de bens de raiz, mas até lhe 
mandava vender, dentro de pouco mais de um 
anno, todos aquelles que tivesse comprado, desde 
que elle fora proclamado rei. 

Vejamos, no seu contexto integral, esta lei im- 
portante e audaz: 

nUom Donis per graça de Deos Rey de Puriu- 
gal, e do Algarve. A todolosAlquaides, Meirinhos, 
Corregedores, Juizes^ Alguazis, Justiças, Almuxa- 
rifes, e Taballiaães dos meus Regnos, saúde. 
Sabede que os Reyx, que ante mim forom, defen- 
deerom, que Hordeens, nem Clérigos nom com- 
prassem nenhuns herdamentos em seu Regjíio, e 
outro sy o defendo eu : e ora alguns Concelhos 
se me envieram queixar que alguus Clérigos, e 
Hordeens faziam mui grandes compras; em mjaha 
terra, e que esto era meu exerdamonto,- e mui 



* fiistoria de Portugal 



55 



gram ^pno delies de guisa, que quando os eil, 
e os Caralleiros da minha terra, e es Concelhos 
Oftvessem mester pêra meu serviço» que menom 
poderiam servir, assy como deviam ; e eu assy 
o entendo; e som tam maravilhado, como som 
tam ousados de comprar os ditos herdamentos 
contra o meu defendimento. 

«E Porem mando, e defendo que os Clérigos, 
nem Hordeens nom comprem herdamentos, e 
aquelles herdamentos, que comprarom, ou feze- 
roffi comprar ataaqui pêra sy, des que eu Tui Rey , 
dou-lhes prazo, que os vendam desta Santa Ma- 
ria d^Agosto ataa huu anno ; e se os nõ vende- 
rem ataa este prazo, percam-nos. E esto catade 
ora vos que úom prenda eu hy engano, nem as 
façam vcndidíças, e fiquem elles com ellas, e em 
outra guisa vos mo lazararedes. E v6s, Tabal- 
lia&es, se eu per vós desraganado nom for de 
todo, e per vós nom souber os que ficam, que os 
nom vendam des que aqucUe prazo passar, mor- 
reredes por ende. Esta Carta registade-a em vos- 
sos livros. Dante em Lixboa a dez dias de Julho. 
EiRey o mandou. Manoel Eannes a fez era de mii 
e trezentos e vinte e quatro annos. » ^ 

Outro documento régio do mesmo anno fir- 
mou a doutrina, e tornou mais obrigatória a sua 
eitecução. ^ 

Todavia D. Diniz n&o parou aqui. Prohibir á 
egreja a compra de bens de raiz era muito, mas 
estava longe de resolver a questão; as acquisi- 
ções por titulo gratuito, legados, doações e suc- 
cess&o,— ^eram pelo menos três vezes mais do 
que aquellas, cuja forma se vedava. 

Esta deficiência da lei, desde logo reconhe- 
cida, pois f^ria os espíritos, só foi, porém, re- 
mediada, quando as duas primeiras concordatas 
com o clero e a sua confirmação pontificia col- 
locaram o poder civil na posição de realisar 
a reforma completa. Era, nas temporalidades da 
egreja, a mais audiu^iosa que se tentava, desde 
o começo da monarchia. 

No seu constante vaguear pelo reino, D. Diniz 
acbava<se em Coimbra, ao terminar do mvemo 
de 1291. Tudo se preparara para a solução de 

1 Ordenações Affoniiiias, L. 2." llt. 14. fj 1 
e-1 

2 Carta d*el*rei a Vasco Peres, e ao Juiz e Ta* 
belliSo éé ArlMica.^lVigosò, Mm> cU. pag. 33. 



um negocio da gravidade doestes, em que se ia 
ferir no coração a instituição mais poderosa do 
paiz. Numerosas representações foram endercs- 
sadas ao rei, pelo infante D. Affonso, por muitos 
ricos homens e cavalieiros da corte e por diver- 
sos concelhos; instavam para que, com urgência, 
se pozesse cobro ã crescente amortisação da pro- 
priedade immovel do reino, adquirida, sem ces- 
sar, pela egreja, não obstante a lei de 10 de 
julho de 12t^; relatavam os peticionários os 
prejuizos, que aos povos, ã nobreza e ao estado 
resultava d*aquelle mal, que enfraquecia, não 
só os redditos públicos, mas até as forças mi- 
litares do paiz. 

O assumpto foi entregue aos mais distinctos 
jurisconsultos e conselheiros reaes, e, depois de 
largamente ponderado, todos opinaram na in- 
dispensabilidade da reforma. 

Enlãp, no dia 21 de março, publicou-se a lei, 
que radicalmente resolveu o ponto. 

É a seguinte: 

«Dom Donis pela gi^aça de Deos Rey de Portugal, 
e do Algarve. A quantos esta Carta virem faço sa- 
ber, que na Cidade de Coimbra vinte e um dias 
andados do mez do Março da era de mil e tre- 
zentos e vinte e nove aonòs, ò Ifante Dom Affonso 
meu Irmaão, e Dom Nuno Gonçalves, e Riquos- 
homeens, e Filhos d'algo, e outras gentes do meu 
Regno xe me queixarom dizendo, que esses Fi- 
lhos d'algo, e outras gentes do meu Regno som 
muito mingadas, e pobres, e exerdadas daspos- 
sissoões, c das heranças desuas avoengas, enom 
podem viver em meu Regno, nem s(^vir hl mim 
tão bem, nem tão honradamente, como serviram 
03 Filhos d'algo, e outras gentes, que forom ante 
elles, aos outros Reyx, que forom ante mim, por 
razom que dizem que quando seus filhos e filhas 
entram nas Hordeens, ehy morrem professas, que 
as Ordens vêem aas boas, e heranças pér soces- 
som de seus Padres, e de suas Madres, e por 
essa razom saaem das aVoengas, e das linhas, 
donde decendem, e enalheam-se pêra todo sem- 
pre : e pediron>*me por mercee, que eu sobre 
tal cousa, honde se tanto perigo poderia 'seguir, 
que o Regno nom averia lidemos defensores, 
quando lhe mester foissem, com miogua d'aver, 
que eu posesse tal Postura, e tal Ley, qual se usa 
em muitas terras, a saber, que as Hordeens 
aa içorte de sous professos nom vêem aos bece^ 



56 



Historia de Portug&l 



Bem aa herança de seus professos quando mor- 
rem. 

«R eu sobre esta cousa com outorgamenlo dos 
Riquos*home€QS, e d^outros muitos bomeensboõs 
•de minha terra, avudo Conselho com Dom Mar- 
tinho meu Airercs, e com minha Corte, e com 
outros muitos homccs boõs, achei que me pediam 
cousa aguisada, sabendo por verdade, que as 
Hordeens aviam a maior parte do meu Regno; e 
porem consirando prol dos meus Filhos d'algo, 
e das outras minhas gentes, que ham de defen- 
der o Uegno, e consirando ainda como o Regno 
pudesse seer mllhor defeso, e milhor emparado, 
se pela ventura bi aqueecesse guerra de Mouros, 
ou doutras gentes; e consirando que as Hordeens 
do meu Regno som muito ricas, e muito avon- 
dadas assy em herdamentos, e cm possissões, 
como em outros averes de guisa, que podem mui 
bem viver, e servir a Deos. | 

«Porem ponho por Ley, e faço tal Constitui- 
çom em meu Regno pêra todo sempre, que se 
Flhoa d*algo, ou outras gentes quer homceas, quer 
molheres, que eai meu Regno entrem em Hor- 
deens, que aa morte deiles as Qorde:^ns nom ve- 
nham as suas socessoões, quanto he nos herda- 
mentos, enas possissoôes; nem os possam vender, 
ne dar, nem enaihear, nem em outra maneira 
fazer deiles cousa algua, em que se faça engano, 
per que os ajam as Hordeens: mais se alguns 
destes algua cousa quiserem dar por sua alma, 
vendam o terço de seus herdamratos, e possis- 
sões, e as duas partes fiquam a seus hereeos; e 
. vendam o terço a taaes pessoas, que nunca se 
possam tomar aa Hordem, mas esses herdamen- 
tos, e poJBsissoões fiquem sempre a taaes pessoas, 
que nom sejam Fraires, nem Freiras, nem Donas 
d'0rden8 ; e os que nom houverem herdeiros li- 
demos, hordenem, e façam d^esses herdamentos 
€ profissões aquello, que por bem teverem em 
tal gmsa, e em tal maneira, que depois nom 
fiquem esses herdamentos aas Hordeens. 

«Porém mando a todalas justiças do meu 
Regno, que façam esta minha Ley, e Constitui- 
çom teér, comprb e guardar. E Mando, e de- 
fendo que nenhun homem, nem molher nom 
,sega ousado.de vir contra esta minha Ley, e 
Constítuiçom,: ea aquello a que o provasse, faria 
eu contra elle, como manda o Direito que Rey, e 
Senhor deve faier contra aquelle, que vai oon* 



tra sua Ley, e sua Constítuiçom, e sen Mandado, 
e contra honra, e prol da Cumuntdade do seu 
Regno4 B mando a todolos Taballiaftes do meu 
Regno, que eada huo registe esta minha Carta 
em seus livros. Dante em Coimbra a vinte e bunn 
dias de Março. Bl-Key o mandou per sa Cone. 
Lourence Esteves a fez era de mil e irozentos e 
vinte e nove aanos ^» * 

O assumpto era dificii; prejudicava grandes 
interesses; contrariava usos de ha muHo arrei- 
gados; e os poderes públicos apertavam cen o 
rigoroso cumprimento da lei:— sobrevieram por- 
tanto, com o correr do tempo, duvidas que se 
tomou indispensável esclarecer. 

N'esse intuito publicou D. Diniz, em 1 do ja- 
nho de 1809, a seguinte ordenaçSo: 

• Veendo como sobre esta minha Leysereore- 
cem muitas duvidas, dizendo os Sagraaes qve se 
devia entender d'hua guisa, e dizendo os que eri- 
tram na Hordem, que se devia a entender d'outrd; 
e porque os Papas, eosBmpcpadores, eosReyx, 
que fazem as Leyx, devom declarar qual foi o 
entendimento, que ouverom as Lcyx, que feze- 
rom ; por esto querendo eu tolher estas duvidas, 
que nacem sobre a Ley sobredita, outorgo, e de- 
claro que tal foi o meu entendimento, e fae em 
razom dessa Ley, que as Donas, ou asmolheree, 
ou os homens, que já erom em Hordeens quando 
aquella minha Jx;y foi feita, se aviam alguns her- 
damentos ante dessa l^ey, que os Mocsteiros, em 
que entraram, hajam esses herdamentos, ou fa- 
çam deites como lhes mandar sua Abadessa, ou 
qualquer que for seu maior no Moesteiro. 

«E quanto he dós herdamentos, qoeevferom 
despois desta Ley, ou entenderemaver per razom 
de seus Padres, ou de suas Madres, ou de seus 
parentes, ou gaanharem, ou poderem gasubar 
dalhur honde quer, porque se esses herdamen- 
tos ficassem aos Moesteiros, tornar*sia em meu 
prejuizo, e desserviço, e em gram dtpno dèmeus 
Regnos, per razom que os que lograssem esses 
herdamentos noi|i hiriam em oste, nem fariam 
a mim aquelles serviços, que a mim devem fo-> 
zer pêra defendimento da minha terra; e oulro 
sy porque, louvado o Senhor DEOS, os Moestei* 
; ros, que ora há em minha terra, som ricos d'her- 
damentos, e possissoôes de guisa, que podem 

t Cit. OrdtnaçÔêB.L % tàt IS, Í| 1 a 4* 



Historia de Portogal 



h7 



bem gaarecer : Digo, e declaro que roeu enten- 
dimento foi, e he que essas Donas, e molheres, 
e Cavalleiros, e outros homens nom hajam os 
herdamentos, e possissoões sobreditas, nem os 
Moesteiros, em que os de suso ditos entrarem, 
senom em sua vida ; e se os dar, ou vender qui- 
serem em sua vida a pessoas leiguas, possam-no 
fazer, mas nom òs possam dar, nem doar, nem 
escaimbar, nem enalhear per ncnhua maneira 
a Moesteiro, nem a Bordem, nem a outra pessoa, 
senom sagra}^: e esto fazer-se sem engano; e 
86 se d'oQtra guisa fezer, devem-nos de perder 
aquelies, a qUe os derem, e tomarem-se a seus 
hereeos despois da dita Ley feita. 

Mais por averem os Mosteiros, e Igrejas, e 
Herdeens algua prol pêra sua manteença desses 
herdamentos, e possissões, que ganharom, ou 
gaanharem esses de suso ditos, ou os Moestei- 
ros, vendam esses herdamentos, ou possissOes 
de suso ditas, ou os dem a pessoa, ou pessoas 
sagraaes, e leigas, quaes teverem por bem, do 
dia que morrerem as ditas Donas, ou Frades, 
ou Cavalleiros d'Ordees ataa hun anno: e esto 
se fazer sem outra burla, e sem outro engano; e 
dos dinheiros, porque os venderem, façam sua 
prol como por bem teverem. 

B mando a cada huu de vos Juizes em vos- 
sos Julgados, que vejades esta minha Carta de 
minha Ley, e da declaraçom, que lhes eu sobre 
esto dou, e fazede-a comprir, como em ella he 
contheudo, e nom sofrades a nenhun, que lhes 
vaa contra ella; e se algua cousa hl ha feita, 
que seja contra a dita Ley, e contra a dita de- 
daraçom, mando-vos, cpe a façaes correger, 
aasy como em ella he contheudo: unde ai nom 
façades, se nom peitar-medes quinhentos sol- 
dos. E se 08 ditos Moesteiros nõ quiserem ven- 
der, nem dar os ditos herdamentos, e possissoões 
ataa o dito anno, como de suso dito he, per- 
cam-nos, e tornem-se aos seus parentes, ou pa- 
rentas mais chegados que houverem, que sejam 
sagraaes leigos. E em testemunho desto mandei 
ende faser esta Carta. Dante em Lixboa primeiro 
dia de junho. El-Rey o mandou per sua Corte. 
Vasco Esteves a fez era de mil trezentos e qua- 
renta e sete annos ^». 

Estas duas ultimas leis tiravam à egreja, prin- 

1 Cit. Ord. 158 a « 
n voL.— 8. 



cipalmente, às communidades religiosas, cleri- 
caes ou militares, o direito de successão, e 
prohibiam-lhes, com a primeira de 1286, a 
acquisição ou retcnsão por qualquer titulo, one- 
roso ou gratuito, de bens de raiz, obrigando-as a 
vender, dentro d*um anno , os que lhes adviessem , 
depois da publicação da lei. Foi esta doutrina, á 
proporção que a iam decretando as respectivas 
cartas regias, sustentada, com firmeza, nas três 
ultimas concordatas, — e muitos documentos ir- 
recusáveis do tempo provam a sua execução cons- 
tante, até ao fim do presente reinado '. 

Ficou, plenamente, formulada a theoria jurí- 
dica, politica, económica e social da desamorti- 
saçâo. Tudo quanto, sobre o assumpto, depois 
se fez, no sentido do progresso e da liberdade, 
— afora a grande providencia da extincção das 
ordens religiosas, — não foi mais do que con- 
firmar ou regulamentar as leis decretadas por 
D. Diniz, e que, durante a regência do infante 
D. Pedro, se inseriram, integralmente, nas Or- 
denações Affonsinas. 

De tão grande reforma cabe inteira a gloria a 
este período, por tantos ti tulos brilhante, da his- 
toria pátria. 

Apesar de affectar, profundamente, os interes- 
ses da egreja, executou-se a nova legislação, 
graças á prudência e tenecídade do rei e ás apro- 
priadas circumstancias do tempo, sem grandes at- 
tritos, nem sombra sequer das terriveis iras, que, 
nos reinados anteriores, suscitaram, na clerezia, 
providencias de muito menor alcance do poder 
real. 

É que as grandes reformas realisam-se facil- 
mente, quando as idéas que as ditam se acham 
amadurecidas no espirito publico: a sua neces- 
sidade, tomada instante para o maior numero, faz 
estimar os seus benéficos e£feitos, e estes criam 
novos interesses, materiaes ou moraes, que as 
asseguram e radicam. 

Nobres e plebeus haviam instado pela reforma, 
vendo o empobrecimento em que os ia lançando 
o exagero, sempre crescente, das acquisições 
clericaes. 

O direito romano, que era quasi o nacional, e 
a legislação dos paizes, com os quaes Portugal 

^ Mem. cit. e seus app. — Mon, Lm. P. 5, L. i1, 
c. 7 e 8^ 



58 



Historia de Portmgal 



estava mais em contacto, consignavam a dou- 
trina. Pralicava-sc, mais ou menos strictamente, 
cm Castclla, Aragão, Inglaterra, França c Flan- 
dres. E, em alguns â'estes estados, pagava-se 
forte imposto, para obter dos reis carta de 
privilegio que a dispensasse, — o que entre nós 
foi sempre, facilmente, concedido. — No pream- 
bulo dalei de 1291 , diz-se, que as representações, 
dirigidas t coroa sobre o assumpto, alludiam a 
essa legislação dos paizes estrangeiros. Por isso, 
.alóm da razão social, a grande authoridade, no 
tempo, do direito cscripto, tanto cesáreo, como 
das nações mais cultas, protegia a reforma. 

Mas outros motivos mais poximos lhe quebra- 
ram os attritos, que por ventura a classe eccle- 
siastica lhe quizesBe pôr. Foram a justiça com 
;que, em geral, o rei procedia, e a protecção 
que, individualmente, dispensava aos prelados, 
ãs egrejas c mosteiros. Quasi todo o alto clero 
Ibe cra.aCTecto; desde que assumira as rédeas do 
governo, procurara sempre as melhores mitras e 
as mais rendosas prebendas para os seus mes- 
tres, conselheiros e clérigos. E mostrou toda a 
soHicitude a fim de remediar, quanto os costumes 
do século o permiltiam, um mal que vexava e 
defraudava, então, terrivelmente, os mosteiros. 

Ás fundações das casas religiosas tinham por 
. causas principaes: primeiro, como dissemos, a fa- 
nática piedade dos espirites, c, mais tarde, tam- 
bém, a exagerada ambição de celebridade e fama 
no futuro. No intuito de satisfazer a estes dois 
ardentes sentimentos, todo o abastado, repeti- 
mos, dispensava, largamente, os seus bens, e 
chegava ató a reduzir-se a completa pol)reza, para 
fundar um mosteiro, uma egreja qualquer. De- 
pois, com o fim de assegurar a subsistência fu- 
tura da faniilia, e ligar mais estreilatamentc a 
,piedosa instituição ao seu nome c a. seus her- 
.dciros, o fundador impunba-|he a rigorosa obrir 
gação de satisfazer a estes diversos encargos. Os 
(Jcscendente.s do padroeiro chamavam-se her- 
deiros ou naíuraes; e as obrigações do donatário 
.para com clles tomaram, entre outras denomi- 
nações, as de comedorias ou alimentos; pousa- 
dias ou hospedagem; casamento, ajuda de custo 
para dote ou auxilio de matrimonio, pago ás her^ 
deiras pelo casamento; e cavallaria, tributo aos 
varões, qjuando se armavam cavalleiros. ^ 

1 Elucid. V. Casamento, o nota de J. P. Oib^ro^ 



Taes encargos, no principio moderados, pelo 
pequeno numero dos herdeiros^ c acceitaveis 
pelo affectp que ligava estes aos donatários, tor- 
naram-se, com o tempo, insupportaveis. Os reddi- 
tos dos mosteiros não augmentaram na proporção 
da quantidade dos naturaes, que se multiplica- 
ram a ponto de haver convento, su^to a duas e 
três centenas d'eUes. E a exigência do en- 
cargo fazia-se algumas vezes çom fraude, fre- 
quentemente com exagero, quasi sempre com 
violência. 

À egreja havia, primeiro, expoliado a nobreza, 
com o fanatismo; a nobreza expoliava-a, agora, 
com a brutalidade e a força. 

As extor3ões chegaram a tornarem-se ioopos- 
siveis de satisfazer para alguns mosteiros, que, 
não tendo com que alimentar os próprios frades, 
se extinguiram. 

O clero recorreu ao poder real, com apertadas 
instancias, e os monarchas, reconhecendo ^ jus- 
tiça do aggravo, tentaram remedeal-o. 

Em 1261, Afifonso m decretou, com as cor- 
tes de Guimarães, algumas providencias n'esse 
intuito, fixando a taxa dos encargos e limitando 
a qualidade dos herdeiros. Mas os nobres conti- 
nuaram em suas demasias; alijaram duvidas 
sobre a interpretação do decretado, e cahiram 
em excessos de toda a espécie. O mal attingiu 
o seu auge^ e os mosteiros, sobre tudo, d'entre 
Douro e Minho, sollicitaram protecção a D« Diniz. 

Attendcu este ã supplica, como justiceiro e 
prudente; e, aos 4 d'agosto dq 1307, cm Lisboa, 
ordenou que fossem postas em vigor as leis de 
seu pae sobre o assumpto, esclarecendo os pon- 
tos duvidosos e fixando, do novo o quantitativo 
das prestações, devidas pelos mosteiros. 

O, remédio, porém, não destruiu o mal; prose- 
guiram os excessos e, com elles, os clamores. 

Em 1315» D. Dinie, conhecendo ^ impossibi- 
lidade de abolir, completamente, esta singular 
instituição, tão radicada estava nos costumes pú- 
blicos e tão vinculada á^exlstcncia da classe nobre, 
—fez, ainda assim, contfa ella quanto poude, e 
reduziu a metade a importância dos encargos. 

O vexame dps conventos continuou por mais 
d*utn século, não bastando para o destruir Q9 
esforços de successivos monarchas, nem as índ- 
ias pontificias d'excommunhão e interdicto, que 
08 mosteiros chegaram a impetrar, 4<^ JElgipa. 



âiJitorlà de Portugal 



59Í 



Sra escalracho de fàadas raízes: totalmente, 
8ó o poude arrancar do solo portugucz a mão 
ensanguentada de Joio n, ao destruir os pri- 
vilégios da nobreza feudal. Mas a egreja le- 
vou em conta a D. Diniz os seus exforços, no 
assumpto, e os benefícios, relativamente, gran- 
des, que d'elles lhe' resultaram. * 

Além disso, o rei, todas as vezes que uma 
egreja tinha pendente demanda, cuja prompta de- 
cisão lhe era útil , expedia ordem ao juizo respecti- 
vo, recommendando a brevidade do julgamento. 
Quando um mosteiro se queixava, que algum po- 
deroso o opprimia, com violências, ou lhe preten- 
dia extorquir qualquer propriedade, acendia pelo 
mosteiro, e castigava ou reprimia o delinquente. 
Sc a alguma casa religiosa d*importancia esca- 
ceavam os meios, annexava-lhe egrejas, com 
cujo rendimento lhe augmentasse a fazenda. 
Além d'isso fundou, elle próprio, conventos e 
templos numerosos. 

D'esta arte, D. Diniz, captivando a boa vontade 
do clero nacional, libertando-o da pressão ponti- 
fícia, e aproveitando a relativa illustração da 
época, poude realisar as reformas importantes 
que temoB visto, — as primeiras que emancipa- 
ram a sociedade civil da velha e pesada tutella 
theocratica. 

CAPITULO IX 

Relações de Portugal com Oastellá, durante 
a menoridade de Fernando IV 

Voltaaido á politica externa, reatemos a nar- 
rativa, que deixámos no capitulo iv. 

Estava D. Diniz em Lisboa, quando, no meado 
d'abril de 1295, recebeu a noticia de que o rei 
de Gastella se achava em perigo de morte. 

Conhecendo assaz o estado das cousas e dos 
espiriios na vlsinha monarchia, viu logo, que o 
fallecimento de Sancho, a realisar-se, abriria, 
com a menoridade do successor, um largo pe- 
ríodo de perturbações e enfraquecimenta, a 

í Vide sobre os encargos impostos pelos padroei- 
ros : António Caetano do Amaral, Memoria para a 
historia, legislação e costumes de Portugal, c. 3 e suas 
notas, — na Historia e Mem. da Acad. t. 6;— itfcm. 
Lu8. t. 6. c. 29;— e Schoefifer, Hist. de Port. i.' 
poça, L. 2, c. 1 § 4 A. ' 



que lhe era indispensável attender, e que talvez 
conviesse aproveitar. 

Portugal gosava, no interior, da paz mais com- 
pleta, que, n'aquellcs séculos da força e violên- 
cia, se podia esperar. A população augmcnlava: 
uma nobreza numerosa, creada nas bellicas tra- 
dições dos reinados anteriores, aspirava com 
ardor pelas aventuras gloriosas da guerra; os 
concelhos possuiam mocidade audaz, elevada 
pelas recentes franquias populares, e desejosa 
de illustrar-se. O trabalho productivo, em todas 
as suas manifestações, enraizava-se, desenvol- 
via-se, prosperava. O thesouro real era, relati- 
vamente, mais opulento que o de nenhuma outra 
monarchia da península. 

Tendo, no paiz, todas estas condições de po- 
der e de força, e pouco escrupuloso nos meios 
de realisar os intentos, o filho de Affonso iii 
entendeu ter chegado o momento, por que ha- 
via tanto anciava, de engrandecer os seus es- 
tados. 

Para mais de perto observar o que ia pas-' 
sar-se, em Gastella, e estar mais prompto a tomar 
qualquer resolução, D. Diniz sahiu de Lisboa; 
dirigiu-se a Coimbra, em seguida a Vizeo, La- 
mego, Trancozo, e, a 27 de junho, assentou re- 
sidência na Guarda, a cidade de Portugal mais 
próxima da fronteira, na linha, então, principal 
de communicações com o visinho reino. * 

No caminho devia o monarcha portuguez re- 
ceber a noticia da morte de Sancho e da accla- 
maçâo, em Toledo, no dia 26 d'abril, do filho, 
Fernando iv, de nove annos e quatro mezes d'i- 
dade; — estando-se ainda na incerteza de quem 
seria seu tutor e regeria Gastella. 

As previsões, aliás fáceis, de D. Diniz tiveram, 
em breve, a realisação mais completa. 

Logo após o juramento de obediência, pres- 
tado ao novo rei, surgiram, por toda a parte, os 
pretensores ã coroa, posta na fronte d'uma débil 
creança, e os cubiçosos do poder, que anelavam 
empolgal-o, a titulo de tutoria. AUiados uns ao^ 
outros, entre rede interminável e confusa do 
deslealdades e intrigas, magnetes poderosos, or- 
dens inteiras de cavallaria, cidades importantefl 
e por fim todas as nações visinhas iriam dilace- 
rar a vasta monarchia castelhana, tomando-a 

t Mnn. Lns. T. 5, L. i7, c. 26.. 



eo 



Historia dd Portagal 



para campo de. suas mutuas hostilidades e, prin- 
cipalmente, de suas rapinas. 

A todos estes males, aggravados, por fim, com 
a fome e a peste, — dois remédios apenas poudc 
CastcIIa oppôr: um amor de mãe e o patrio- 
tismo do povo; mas esses bastaram para a sal- 
var. 

A rainha, D. Maria de Molina, mãe de Fer- 
nando, serena, dedicada, forte e heróica, abo- 
lindo o recente e vexatório imposto da siza & 
concedendo alguns privilégios locaes aos povos, 
poude, com os elementos poderosos e vivazes 
(}as communas, sustentar, no throno, a seu filho, 
e obstar a que o reino fosse, inteiramente, reta- 
lhado e subdividido, pelos rebeldes e estrangei- 
ros. 

primeiro, que contra o rei se levantou, foi 
seu tio, o infante D. João, salvo pela rainha em 
Alfaro^ e que assassinara, no anno anterior, 
ante as muralhas de Tarifa, o filho de ABbnso 
Peres de Gusmão. Residindo em Granada, d'ac- 
cordo com os sarracenos, o infante fez-se, ahi 
mesmo, proclamar rei de Leão e de Castella, e, 
em breve, invadiu a Andaluzia, auxiliado por 
um exercito de mouros ^ 

Ao mesmo tempo, Diogo de Haro, irmão de 
Lopo, o assassinado d'Alfaro, volta de Ara- 
gão, onde be refugiara; apodera-se daByscaia, 
senhorio da família, e devasta as povoações vi- 
sinhas de Castelia, com continuas correrias. Os 
Laras, a cuja lealdade, nos derradeiros momen- 
tos, Sancho confiara o filho, e mais tarde o mes- 
tre de Galalrava c outros nobres, enviados pela 
rainha para combaterem Diogo, ligam-sc com 
elle; appoiam as suas orgulhosas pretensões; e 
obrigam o novo governo a dar-lhe aByscaia, re- 
conhecendo a sua quasi completa independên- 
cia. 

Antes d'isso, um outro infante de Castella, 
D. Henrique, tio de Sancho, obravoy eque, me- 
zes antes, regressara á pátria, depois de jazer 
vinte e seis annos captivo, por haver sido apri- 
sionado por Carlos de Anjou, nas guerras da Sí- 
cilia, dedarou-se, apparentemente, protector do 
novo rei; mas, tanto intrigou com os povos, 
tanto os assustou, attribuindo a D. Maria as vc- 

1 Lafuente, UisL gm, d*Esp. P. 2, L. 3, c. 8.— 
Mon, Lu8. ibid. 



xatorias intenções de os espoliar, com os mais 
pesados impostos, que, nas cortes de Valladolid, 
alcançou ser nomeado tutor de D. Fernando e 
defensor do reino, partilhando o governo com 
a rainha, e conservando ella, exclusivamente, 
a creação e educação do filho. 

Tendo saqueado as terras visinhas da Andalu- 
zia, voltaram a Granada os mouros, abando- 
nando o infante D. João. Com poucos sequazes» 
apresentou-se este inquieto e desacreditado prín- 
cipe, ante algumas cidades. Alcântara e Coria 
entregaram-se-lhe ; mas fechou-lhe as portas 
Sevilha, e repelliu-o Badajoz. Resolveu, então, 
pedir auxilio a seu sobrinho, D. Diniz. Veiu 
á Guarda; e foi recebido, com demonstrações de 
affecto, pelo monarcha portuguez. Falto comple- 
tamente de meios, o infante alcançou-os, ven- 
dendo ao filho d'Affonso m o castello e a cidade 
de Coria, por 315:000 maravedis leoneses. 

Expóz também D. João os seus pretendidos 
direitos ao throno de Castella. 

Pela morte de Sancho, filho segundo de 
Aflònso X, não podia— sustentava elle— re- 
verter a coroa aos antigos preteosores, os infan- 
tes La Cerdas, filhos do primogénito, por terem 
sido excluídos pelas cortes, que haviam decla- 
rado successor do throno o faUecido rei. Sancho 
não deixara descendência legitima, visto os 
papas não terem dado dispensa para o seu casa- 
mento com D. Maria de Molina, de quem era pa- 
rente em terceiro grau de consanguinidade; e 
assim, seus filhos, por illigitimos, deviam ser 
considerados inhabeis para herdar a coroa. Com- 
petia esta, por tanto, a elle D. João, porque, 
sendo irmão, imediato do defunto rei, era o seu 
parente legitimo mais propinquo. ^ 

Contra a supposta illegitimidade do casamento 
de Sancho,— principal base da argumentação do 
infante, — pugnara, como dissemos, D. Diniz no 
espirito do rei de Castella, quando o tivera por 
alliado, no cerco d'Arronches; além d'isso, o 
novo monarcha era seu promettido genro, ainda, 
no testamento, Sancho confirmara essa promes- 
sa; finalmente, deviam prender o rei.de Portugal 
â. amisade ao filho, a fé e lealdade dos tratados 
que celebrara com o pae, cujos direitos ã coroa 
fora dos primeiros príncipes a reconhecer. 

1 Mm. Lvs, T. S, L. i7, c. 25 e 26. 



HUtorla de Portogal 



ei 



O suceeâsor do conde de Bolonha, yisava, po- 
rém, a uffl fim, e caminhava para elie, sem es- 
cnipolísar nos meios; impeiliam-no a ambição c o 
interesse, qae, em muitos espirites, destroem 
as rasões da lógica e da justiça. 

Reuniu D. Diniz o conselho, composto dos mi- 
nistros, prelados principaes e ricos homens do 
reino, e propôz-lhe a questlio da legitimidade do 
infante á coroa de Leão e Gastella. Sem se atten- 
der à incompetência manifesta do tribunal, tomou 

conselho conhecimento do pleito, c decidiu-o. 
Julgou, pelos fundamentos apontados, que a D. 
Jo&o, que já, por vezes, invadira em guerra a 
sua pátria, à frente d'exercitos musulmanos, ca- 
bia, por direito de succcssdo, a herança da visi- 
nha monarchia. 

Esta singular sentença mandou-a D. Diniz 
intimar aos povos limítrofes de Leão. exhor- 
tandoos a que recebessem por seu rei o infante, 
promettendo-lhes que o auxiliaria, com todas as 
suas forças ^ 

Como sequencia doeste procedimento, no dia 

1 d'ago8to de 1295, ordenou D. Diniz que se 
pregoasse guerra a Castella, e fez chamamento 
geral das forças militares do reino, constituídas, 
então, com pequenas excepções, de toda a gente 
valida do paiz. 

Remiram-se alguns da obrigação de concor- 
rer, pagando quantias avultadas de dinheiro. A 
muitos dos que foram concedeu-lhes depois o 
rei valiosos privilégios, nomeadamente, a sus- 
pensão de execuções, por dividas anteriores. 

Reunido o exercito, mandou D. Diniz, como 
era de uso geral e cavalheiresco do tempo, um 
cartel de desafio ao moço monarcha de Gastella, 
a seus prelados, ricos homens, ordens militares 
e povos. 

Foram portadores d'e6ta mensagem pundono- 
rosa Joanne Annes Redondo e Mem Rodrigues 
Rebotim. 

O ensejo não podia ser mais propício aos in- 
tuitos do monarcha porluguez. 

Os seus mensageiros foram recebidos, cora des- 
animo e temor, nas cortes de Valladolid. Castella 
debatia-se, entre a guerra civil da Byscaia, as mil 
divisões dos magnates c as intrigas insidiosas de 
D. Henrique com os procuradores dos concelhos. 

^ Mon, Luè, tbtd. cap. !26. 



Reconheceram todos ser, no momento, impossível 
ofTerecer a necessária resistência ao rei de Por« 
tugaí, colligado com o infante D. João. 

Despediram os embaixadores, sem resposta; 
mas, apoz. elles, enviaram á Guarda, para tratar 
com D. Dinif, o próprio infante D. Henrique, a 
quem as cortes acabavam d'inveslir das funcçues 
governativas que indicámos. 

Recebeu-o o filho d^Aflonso iii, com a habitual 
affabilídade ecortezia. Entraram, facilmente, em 
accordo: ambos o desejavam com empenho. 
D. Diniz era instigado pela ambição, mas rc- 
freava-o a prudência e o espirito de plausibili- 
dade, que sempre dominaram o seu caracter. 
D. Henrique era obrigado pela necessidade e 
aperto em que se achava Gastella; além d'isso, 
como o não prendia o patiúotismo, nem a ele- 
vação da índole, dava, facilmente, o que não era 
seu. 

D'esta arte, a seis do setembro, jã D. Henri' 
que firmava as obrigações, que, no ajustajjo con- 
vénio, cabiam a Gastella. 

Até dez d^oulubro as víllas de Moura e Ser* 
pa, com seus termos e caslellos, seriam entre- 
gues a D. Diniz; e Aroche e Aracena sel-o-hiam 
de S. Miguel a dezoito mczes. Além d'isso 
compromellia-se o governo de Castella, em 
determinado prazo, a ajustar, com delegados 
portuguezes, as demarcações dos dois reinos, 
n'aquelles pontos em que D. Diniz se julgava le- 
sado, e sobre que reclamara, sem obter repara- 
ção, em tempo de D. Sancho. * 

Por sua parle, o rei de Portugal obriga- 
va-se a ser amigo e alliado do joven Fernando iv. 

Não eram pequenas as concessões que obli- 
nhamos; mas, podemos afirmal-o, tinham por 
fundamento a justiça. Sobre as quatro víllas in- 
dicadas havia antigos direitos: conquistadas, pe- 
los portuguezes, aos mouros, as primeiras no 
tempo de Sancho, o capellOy e as segundas no do 
Bolonhez, apossàra-se d*ellas Affonso x de Gas- 
tella, abusando do seu poder, e aproveitando, 
provavelmente, as divisões civis e clericaes, 
que haviam enfraquecido Portugal. Assim, D. Di- 
niz seguia apenas, e com mais rasão, o exemplo 
que lhe dera seu avô: aproveitava, habilmente, 
o ensejo, para recuperar do primo, o que aqucUCj 

* Mon, Lns. ibid. c. Í7. 



Bit 



BiBtófiA de Portugal 



em igual conjunclura, extorquira a seu pac. A 
politica externa do tempo, quasi que se resumia, 
entre os príncipes, a uma serie continuada de 
casamentos, de deslealdades c de roubos. 

Tão pródigo nos accordos, lambem, facilmente, 
se ajustou D. Henrique com o infante D. João, 
promettendo repôl-o, nos seus senhorios leone- 
zes, submeUendo-se elle ao joven rei. ^ 

No mez seguinte, D. Diniz, acompanhado da 
rainha, sua esposa, de toda a corte e de grande 
copia de gente de guerra, foi a Giudad Rodrigo, 
aonde o esperava D. Maria de Molina, Fer- 
nando IV, D. Henrique e os ministros de^Cas- 
tella; e todos ratificaram, nos dias 4 e 20 
d'oulobro, o accordo celebrado na Guarda. De- 
sistiu Fernando da posse e senhorio das qua- 
tro villas; confessou andarem alheadas da coroa 
portugueza, desde o reinado de seu avô; e ex- 
pediu, logo, as ordens necessárias, para a en- 
trega de Moura e Serpa, que se efifectuou, no 
praso ajustado. ^ 

De Giudad Rodrigo veiu Diniz ao Alemtejo 
tomar posse das duas villas, e já a 9 de dezem- 
bro lhes dava, assim como a Noudar, logar acas- 
tellado de termo de Moura, o mesmo foral da 
cidade de Évora. 

Foi por este tempo, que, em pleno desaccordo 
com o governo de Gastella, se declarou vassallo 
de D. Diniz e passou ao seu serviço, D. João Af- 
fonso, senhor de Albuquerque, que, em breve, 
seria principal medeador, entre as duas nações, 
e o monarcha portuguez elevaria aos primeiros 
logares do reino. 

Apenas el-rei, nos últimos dias do anno, che- 
gou a Lisboa, nomeou os delegados, para proce- 
derem, com os de Gastella, ás demarcações da 
fronteira, como fora combinado, sendo uns para 
a parle da Beira, que vae desde o Tejo até á 
foz do Goa; outros, desde aqui até Gaminha, com- 
prehendendo a raia das duas provindas de Traz 
dos Montes e Entre Douro e Minho. 

No dia fixado, 20 de janeiro de 1296, reu- 
niram-se os commissarios portuguezes, uns em 
Pinhel, outros em Monforte de Riba Goa, aguar- 
dando os delegados castelhanos. Estes, porem, 
náo compareceram. Lavraram os nossos os com- 

1 Lafuente, ihid. c. 8. 

2 Man, Lut» ibid. e cap. 38. 



petentes protestos, e foram a Lisboa dar ccmtaa 
el-rei do malogro da commissão. 

Affrontado com a falta e sem lhe averiguar a 
causa, resolveu D. Diniz aproveitar o ens^o, que 
lhe olTereciam novas e maiorçs perturbações, 
levantadas, ultimamente, em Gastella, para a 
obrigar, pelas armas, á inteira execução do 
compromisso. 

Ghegára-se ao período mais tormentoso c ar- 
riscado para o throno vacilante do filho de San- 
cho, o bravo. 

Rebelara-se de novo seu preverso tio, D. João; 
por baixos manejos e intrigas, e aproveitando, 
habilmente, as diversas circumstancias dos sobe- 
ranos visinhos, conseguira o infante formar uma 
coUigação poderosíssima, em appoio dos seus 
intuitos. 

Jayme ii de Aragão, que C(mtrahira esponsaes 
com a tenra irmã de Fernando iv, sob pretexto 
de nHo poder obter a dispensa poniificia de paren- 
tesco, e desejoso de contrahir outro casamento, 
a que o interesse politico o impellia, devolveu 
a infanta a sua mãe, a rainha D. Maria, e tor- 
nou*8e o principal elemento da liga contra Gas- 
tella, a que logo adfaeriram os reis de França, 
Navarra e Granada. Colorindo, com apparenciaa 
de justiça e legitimidade, as próprias ambi» 
ções, ligaram-se estes príncipes aos dois pre- 
tensores castelhanos, Affonso de La Cerda e 
João. 

Na villa de Ariza, combinaram todos dividir en- 
tre si a vasta monarchia de A£fonso x. Gastella, 
Toledo e Andaluzia ficariam a Affonso de La Cerda; 
pertenceria a D. João Leão, Galliza e Astúrias. 
Em compensação das despezas da guerra, D. Af- 
fonso cederia Murcia ao monarcha aragoncz; e 
ao irmão d'este, o infante D. Pedro, que com- 
mandaria o exercito invasor, daria as villas de 
Alarcon, Moya e Ganete ^ 

Sabendo d'esta conflagração e tendo pretexto 
na infracção de Gastella, para romper os trata- 
dos do anno anterior, — apressou-se Diniz a 11- 
gar-se aos confederados, obrigando^se a tomar 
parte na guerra e sendo-lhe promettidas nume- 
rosas praças na fronteira. 

exercito aragonez, engrossado com as for- 
ças rebeldes dos infantes, partiu d^Ariza, em 9 

1 Lafuente, ibid.— Jfon. Lu*, ihid. c. 30. 



Sist(Hia de í*ortiigal 



6Ô 



d'abrí]; invadiu a Castella; e occupou a cidade 
de Leão, onde, proclamou D. João rei de Leão, 
Galiza e Sevilha. Avançando, tomou Sabagun, e, 
abi) jurou rei de Castella, Jaen, Córdova e To- 
ledo a D. Afonso de La Cerda. Dirigiu-se depois 
t viUa de Mayorga, a cinco léguas de distancia, 
e pds-lhe apertado cerco, por encontrar resis- 
tência pertinaz. Ao mesmo tempo, tropas ara- 
gonezas apossavam-se de Alicante e Murcia; os 
francezes e navarros de Nájera, e os sarracenos 

invadiam a Andaluzia. Castella acbava-se na 
maior extremidade. 

D. Diniz proseguia os seus preparativos, para 
invadir também o visinho reino. 

Como, pelos tratados do anno anterior, se 
afastara a idéa da guerra, os contingentes 
dos ricos bomtíns c concelbos baviam regres- 
sado ás respectivas localidades, e a gente que 
restava reunida, na Guarda, não bastava para 
o intento. Foi preciso levantar novas levas, e 
dispor as cousas necessárias para o municia- 
mento, sempre difiQcil, d'um exercito em paiz 
inimigo. 

Ou pela grandeza dos preparativos, ou porque 
o rei, besitando na empreza, os não activasse 
muito, — só depois de 15 de setembro é que 
D. Diniz, ã frente das bostesportuguezas,trans- 
pôz a fronteira e entrou por Ciudad-Rodrigo. 

Cbegando a Saldanba, recebeu a noticia da 
morte, succedida em 30 d'agosto, do infante 
D. Pedro d'Aragão, e da luctuosa retirada do 
exercito que sitiava Mayorga. 

Era um grande desastre, para as forças coUi- 
ga,das. 

Castella bavia tido a felicidade de se salvar 
da procella temerosa que a ameaçara. D. Maria 
de Molina^ vendo o paiz invadido por todos os 
pontos, invocara o patriotismo e a lealdade dos 
concelhos, cujos representantes reunira nas cor- 
tes de Segóvia; e, sem lhe fallecer o, corajoso 
animo, dispôz todas as forças, que Ibe restavam 
fieis, de modo que pôde oppôr aos invasores 
uma resistência passiva, mas terrível. 

Evitou as batalhas campaes, e engrossou a 
guarniçQo das povoações fortificadas, de tal arte, 
c[Ue« geralmente,, cerraram as portas ás legiões 
inimigas. 

O infante D. Henrique,— seguindo sjstema op^- 
posto na. defeza dçt Andaluzia, contra o emir de 



Granada,— foi desbaratado n'um recontro, e teria 
perdido todo aquelle reino, se o não salvam a in- 
trepidez e intelligencia de Affonso Perez de Gus- 
mão. 

Mayorga, para onde a rainha enviara alguns 
dos seus mais leaes cavalleiros , correspondeu , he- 
roicamente, ao elevado espirito da mulher forte. 
Durante quatro mezes, resistiu a todos os es- 
forços dos inimigos, que, não podendo tomar 
a praça, devastavam, sem cessar, as terras dos 
arredores. Uma terrível epidemia contaminou, 
porém, o exercito sitiante; reduziu-o a extrema 
exiguidade e miséria; e cortou, por fim, a vida 
ao chefe, o infante D. Pedro. Â pressa, levan- 
taram os aragonezes o cerco, e retiraram-se, 
não como um exercito beliigerante, mas qual 
numeroso sahimento funerário, levando, em 
extensa procissão, centenares d'esquifes, encer- 
rando mortos Ulustres, cobertos com pannos lu- 
ctuosos, que a rainha D. Maria, condoida, lhes 
offereccu. ^ 

Apesar da noticia doestes acontecimentos de- 
ploráveis para os seus novos alijados, continuou 
D. Diniz a avançar por Castella, em direcção de 
Salamanca. 

A posição do governo adverso era ainda muito 
difQcil: achava-se sem meios para a sustentação 
da guerra; os concelhos exigiam-lhe novos pri- 
vilégios; o tutor D. Henrique e os nobres prin- 
cipaes continuavam as suas incessantes intrigas e 
os importunos pedidos de dinheiros e de terras. 

Em Salamanca, reuniu-se ã hoste portugueza 
D. Affonso de La Cerda, ã frente dos castelha- 
nos que seguiam a sua bandeira e D. Pedro 
Cornei, o único fidalgo de Aragão que permane- 
cera a seu lado. 

Celebrou-se conselho, e resolveu-se marchar 
direito a Valladolid, onde estava a corte, cercar 
a cidade e aprisionar a rainha e o moço rei , D. Fer^ 
nando, concluindo a^sim a guerra, com este golpe 
audacioso. 

Proseguindo a marcha, atravessou o exercito, 
sem opposição, o Douro, junto a Tordosillas, e 
chegou ã villa de Simancas, a duas léguas de 
VaUadolid. 

Na corte castelhana^ aconselhavaiQ todos á r^; 
nha, que retirasse da cidade, para não se expor 

. 1 Lafuente, ijúd. . > 



64 



Historia de Portugal 



com o rei aos apertos do cerco e eventualidades 
da guerra. D . Maria de Molina, porem , obstinou-sc 
a ficar, e diz a velha chronica de Castella, que 
até regeitou uma proposta de cx)mposição, que lhe 
enviou D. Diniz. 

Cremos que a repulsa, se a houve, foi ape- 
nas apparente, c que, em segredo, os dois impe- 
rantes prometteram um ao outro celebrar accordo, 
que pozesse termo á guerra. Aflirmam a existên- 
cia d'estes concertos preliminares os dois antigos 
chronislas portuguezes; e, sempre, a viuva de 
Sancho se mostrou fácil e propensa á alliança 
com D. Diniz, com cuja descendência pensou, 
constantemente, em ligar seus filhos:— lembra- 
va-se, por certo, que o monarcha parluguez de- 
fendera, em Arronches, o seu casamento, contra 
as intrigas de Lopo de Haro. 

Em Simancas, soube D. Diniz que o inconstante 
e inquieto infante D. João acabava de reconhe- 
cer, por legitimo rei de Castella, seu sobrinho D. 
Fernando, * e que alguns ricos homens, perten- 
centes á coUigação, recusavam ir cercar a rainha 
e seu filho. Attenta a nova disposição dos ânimos; 
vendo entrar o inverno, o que dificultava a pas- 
sagem do Douro, que lhe podia ser cortada com 
pequenas forças, — nâo quiz el-rei expor, por mais 
tempo, o exercito, no meio d'um paiz inimigo, 
com retirada incerta, falto d*alliados e de man- 
timentos. Resolveu pois recolher-se a Portugal, 
torneando por Medina dei Campo. Retirou-se a 
Aragão D. Affonso de La Cerda. 

Pelo caminho, veio o exercito portuguez sa- 
queando e devastando quanto encontrava; era o 
costume do tempo, e carregava agora a mão, 
para se vingar das correrias que os castelhanos 
faziam, no entanto, em Portugal, por alguns pon- 
tos da raia, as quaes se tomaram, tristemente, ce- 
lebres, pelas muitas crueldades, perpetradas nos 
prisioneiros, e pelos roubos e profanações de 
toda a espécie dos invasores. ^ 

Apezar de ver os soldados carregados de des- 
pojos, e deencontrar o caminho desembaraçado de 
inimigos, devia D. Diniz vir pouco satisfeito com 
a expedição. Entrara quarenta léguas por Cas- 
tella dentro, mas não tivera ensejo, com a táctica 
retrahida qtte seguira o governo da rainha, de 

i Lafuente, ibid» 

t Ruy de Pina, Chronica de D, Diniz, Cap. 7 e 8. I 



pelejar batalha, do que resultasse gloria, nem 
tomara povoação importante, com que ampliasse 
os estados. Alem d'isso, fora trabido por alguns 
dos confederados: espinho que punge, sempre, no 
fundo do coração. 

N'esta agre disposição d 'espírito, e meditando, 
provavelmente, no modo de entrar, em Portugal, 
com mais renome e proveito do que alcançara 
até alli, aproxímava-se D. Diniz das terras da 
pátria. Estava na provinda da Extremadura do 
reino de Leão, e restavam-lhe apenas três on 
quatro léguas, no solo inimigo, para transpor a 
fronteira portugueza. Foi então que, ao seu génio 
politico e acquisitivo, se deparou o ensejo de 
tornar memorável esta empreza milkar, até ahi 
mediocrc, sob todos os seus aspectos, e de en- 
grandecer a nação, a cujos destinos presidia. 

Ante a hoste de D. Diniz, ao longo da fron- 
teira portugueza, estendi a-se um tracto de terra, 
de quinze léguas de comprimento e trcs a quatro 
de largo. Pelo norte separava-o de Portugal a forte 
corrente do Douro, ao sul e poente o rio Coa; 
mas reintrava no nosso paiz, como excrescência 
ou ampliação injusta do visinho reino. Agora 
pertencia a Leão e era dependência da coroa de 
Castella; nos primeiros tempos, porem, damonar- 
chia d^AGTonso Henriques, por vezes, a bandeira 
das quinas se alternara com o pendão leonez a 
substituir a meia lua mussulmana, nas ameias das 
suas mais importantes povoações. 

Era uma comarca semeada de aldeias e ca- 
saes, e, n'ella, assentavam seus fundamentos 
sete villas, assaz populosas e fortificadas: Sa- 
bugal, coUocada como no vértice septemtrional 
e a leste do parallellogramo. Alfaiates, Villar 
Maior, fundada pelo ultimo rei de Leão, Cas- 
telbom, Almeida, Castello-Rodrigo e Casteilo- 
melhor. 

A feracidade do terreno tomava-se notável. 
Posto que montanhoso, e em alguns pontos, sa- 
bre tudo ao norte, estéril, descuidado e inculto; 
na sua maioria, porem, era opulento de aguas e 
vegetação. Pequenos pinhaes, soutos de casta- 
nheiros, frondosos carvalhos, olivaes, amendoei- 
ras e amoreiras encasavam-se com magnificou 
vinhedos e infindas cearas de milho e sobre tudo 
de cereaes de pragana, principalmente, ò trigo e ô 
centeio. Assim, os seus habitantes, ricos com 08 
productos do solo, não necessitavam importar áoé 



História de Portugid 



65 



povos TÍsiAfaos gcnero algum agrícola iodispen- 
savd â vida. * 

Alem dos respectivos concelhos, havia, ii*esta 
comarca, diversos senhorios importantes. Â or« 
dem de cavallarla d'Alcantara, a que se en- 
corporára a do Pereiro, no principio do século, 
possuía alli comméndas valiosas. Almendra per^ 
tenda, por antiga doaç&o d'Affonso, o stJiòio, ao 
Conde D. Martfm 6i!, aIfereffm6rd'el-reiD.0iniz. 
O mosteiro de Santa Maria d'Aguiar, da ordem 
cistersiense, único da comarca^ e situado ao nas- 
cente de Castello-Rodrigò, era senhor de parte 
das aldeias do termo d'esta villa: fundara-o 
AfTonsoJIenri^aes, e coutãra-Ihe os domínios, 
quatro annòs depois, por carta lavrada em Coim- 
bra, em IIT^Í. 6 maior donatário, porém, de Riba 
de Coa, que possuia as melhores villas e aldeias 
dã comarca, en D. Sancho de Ledesma, primo 
co-rrmâo dos reis de Porfugale Gastella, ainda 
no verdor dos annos e parece até que sob tutela 
de sua mã?, D. Margarida de Narboiia. ^ 

A (firmam as duas velhas Chronicas portugue- 
sas, que o senhor de Ledesma, no principio da 
campanha, sé apresentara a D. Diniz, se decla- 
rara seu Taásãllo, recebendo por isso grossas 
quantias de assentamento; que depois se tornara 
ao serviço de Femaíido iv, e, com o dinheiro re- 
cebido, guerreara os portuguezes; que, para se 
vingar da traição e se compensar do despendio, 
se apoderara D. Diniz, na volta de Castella, dás 
terras de Riba de Coa, que, pela maior parte, per- 
tenciam a D. Sancho ^. A antiga Chronica cas- 
telhana attribue a culpa a D. Margarida, que 
entrara em praticas e accordos com o rei portu- 
guez e, por deiscuidosa, não soubera defender a 
herança do filho, ainda na infância. 

Ambas as hypotheses, alem de plausíveis, es- 
tam perfeitamente, no caracter da epocha. Posto 
que o contesta Fr. Francisco Brandão, temos por 
certo que, entre a casa de Ledesma c D. Diniz^, 
houve accordos, que deram pretexto á conquista 
ou a facilitaram, — sendo d:'elle8 innocente o moço 
D. Sancho, ou remindo-fie da culpa por actos poa- 

* ÈeUstario acerca dà arborísação geral do paiz. 
pag. M7. 

^ Fr. Franc. Brandád. Mon, Lúè. P. 5, L. 17, cap. 

3a. 

* Ruy de Pina e Duarte Nunes de Lefio— CAro- 
ntfOit d^d^ei D. DMz. 

n VOL.— 9, 



teriores, pois que mais tardo Castella o indemnr 
sou, com largueza, do que perdeu, cm RibadeCoaé 

Mas a verdadeira razão da conquista dedaz^se, 
claramente, da successão dos factos e da historia 
anterior dos dois reinos. 

O filho d'Atfònso iii, ao regressar a Portugal , vhi 
aqueila fita de terreno, que, em parte, jáperten^ 
cera á coroa de seus maiores, e sobre que tinha 
mais ou menos direitos, como depois os adversa-» 
rios confessaram; podia-lhe servir de compensa- 
ção ou de penhor seguro da entrega d'outraB 
praças , que pretendia, e que o governo de Castella, 
havia muito, lhe recusava; estava a terra falha 
de defeza, c, nas rebeldias e divisOes em que se 
retalhava o reino de Fernando iv, travara Diniz 
mais ou menos accordos com alguns dos donata^ 
rios da comarca ^ sendo-lhe assim fácil o apode- 
rar-se d'ella; a sua posse, emfim, eraindemnisa^ 
ção, material e moral, para o paiz do despendio 
de vidas e dinheiro, a que o obrigara uma guerra, 
em nação estranha, sem necessidade ou rasão 
justificativa, e que só se desculparia aos olhos do 
povo, com as vantagens obtidas. 

Ponderados por certo estes e talvez ainda outros 
motivos, e dispondo d*um exercito importante, 
não podia D. Diniz, no seu animo, ambicioso e 
inquieto, hesitar um momento. Invadiu toda a 
comarca até ao Coa, desde a ribeira de Turôes e 
o rio Águeda, que ficaram sendo os limites da 
fronteira portugneza. 

As fortificações das praças eram pouco impor^ 
tantes, e as guarnições em extremo diminutas, 
para resistir a todo o nosso exercito. Umas ren- 
deram-se por composição, outras foram tomadaà 
em rápidos combales. O governo, por tantas ra* 
soes fraco, do moço Fernando, abandonara, por 
impòssivel de defender, esta parte minima da 
sua vasta monarchia. 

D. Diniz demorâra-se, em Castella, até quasi 
ao fim do mez de outubro; e esta fácil, mas im- 
portante conquista, deve ter-se realisado, nos 
últimos dias d'aquelle mez e primeiros de no- 
vembro de 1296. , 

Diniz, que era, para o seu tempo, um verda- 
deiro estadista e. consumado politico, feita a 
aprdiensão material de Riba de Goa, procurou 
assegural-a, captando o espirito dos povos elaih< 



JfoM. £u«. ibid. cap. 33« 



'1 



66 



Historia de I^rtvgal 



çámlo, por todos os modos, seguras raízes, no 
seu novo dómÍDio. 

Augmentou muito as fortificações existentes e 
levantou outras de novo; pôz fortes guarnições 
portuguezas, em todas as praças, c dcu-lbes, por 
aicaides-raóres, os mais leucs e valentes cavaU 
leiros. Demonstrou, com bom arrazoado, os di- 
reitos de Portugal á conquista^ para convencer 
os novos súbditos da sua legitimidade. Deu aos 
cooeeilios regalias c privilégios, c confirmou* 
liies, cm 8 de oovpmbro, ps foraes de Gastello 
Uodrigo, Caslello-Bom e Almeida; em 10, o do 
Sabugal; c em 27, estando já em Coimbra, o 
de Viilar-Uaior K 

Por este mesmo tempo, cm 19 de novembro, 
o infante D. João de Castella ratificou a venda 
(la cidade e castello de Coria, que, fizera, como 
vimos, no anno antecedente. 

liiis o documento da ratificação : . 

«Saibam quantos esta caria virem como nós, 
D. Juão pela graça de Deus rei de Leon, de 
Galizq e de Sovilba, reconhecemos c outorga* 
mos, que nós recebemos do mui nobre D. Di- 
niz, pela graça de Dtus rei de Portugal e do 
Algarve, Iresentos e quinze veses mil maravc* 
dis leonczes, por rasão da venda que fizemos a 
ello da cidade e do castejlo de Goria, a$sim 
como se conit^m em uma nossa carta que essç 
rei d'essa venda tem. E, se, por algum embargp 
ou por alguma maneira, accpntecesse que se esso 
casteUo e a cidade de Coria perdesse, tomando-o 
alguém, ou por outra guiza qualquer, nós fica^ 
mos obrigados a dar esses dinheiros a el-rci de 

l^orlugai cm paz e em salvo e obrigamo- 

nas e todos nossos bena a fazer embolsar esse 
rei (Ui Portugal dos ditos dinheiros; e promelte- 
mos á boa fé de cumpi^il-^o assim, li por que 
isto seja firme e não venha em duvida, mandei 
sellar esta carta com o meu sello de cera colga- 
do; Dada em Castro- Verde, 19 dias de novembro 
K. de 1324. Ku Justo Perez a fiz escrever por 
mandado d*El-reí. Domingo Abbat ^.» 

^ Mon. Lus. ibid. Ctip. 3i. 

2 O texto é traducçao do mamiscripto ori j^inal cas- 
telhano que existe no Arch. Nacional da Torre do 
Tombo, G. 14. maç. 1, n.'' 40, copiado no L. 2 dos 
•DireHoi reaes^ foi. 460. 

Este documento é um pequeno pergaminho, forte 
t em muito bom estado, do tamanho de pouco mais 



Emquanto o exercito real operava, em Cas- 
tella, pelo modo que havemos referido, os frontei- 
ros d'ambos os reinos faziam reciprocas entradas 
por todos os pontos da raia, levando «ts povoações 
limítrofes a assolação e a morte, e captlvando a 
gente pacífica dos campos, contra a qual ei^erciam 
toda a sorte de crueldades, e que, depoid, ven- 
diam, por vil preço, no interior dos dois paizes* 

N'estas incessantes correrias, iravaram^se pu- 
gnas sanguinolentas, com alternado effeíto, para 
um o outro lado. 

Os nossos dois velhos cbronistas affirmam 
que foram, por grande copia de gente d'Anda- 
luzia, desbaratados o mestre e a cavallaria d'A- 
viz, junto ao Guadiana; mas o erudito Francisco 
Braod&o põe o facto em duvida, auúiorísado em 
boas rasões* ' 

Não estiava a Andaluzia, D'eesax|cca«ião, habi- 
litada a reunir e destacar, contra Portugal, forças 
sufficientes para tal fim. Ãchava-se invadida pelos 
mouros e cm tanto aperto, que Affonso Perez 
de Gusnião, o bom, seu governador, havendo 
sodrido grande revçz, mandava pedir auxilio ao 
rei d'Aragão, inimigo, mas christão e hespa- 
nhol, pa^a poder defender aquella parle da pe- 
nínsula das armas mussulmanas, victoríosas e 
auxiliadas pelos manejos deslçaes do infante 
D. Henrique.— Com iguaes fundamentos, refuta 
Brandão a noticia, que os dois referidos cbro- 
nistas dão da grande batalha naval, ganha pelo 
almirante portuguez, contra a irota de Sevilha, 
que dizem ter vindo ao Tejo reptar-nos e fazer 
algumas prezas. Não menciona, com rasão, es- 
tes accontecimentos o historiador hespanhol La- 
fuente, c, de todo^o ponto, os temos por duvidosos. 

É certo, porém, que os communaes do conce- 
lho d'Elvas, cançados da má visinhança da guar- 
nição castelhaiui de Campo-Maior, sairam com 
sua bandeira, assaltaram e tomaram aq^uella pra- 
ça, e o mesmo fizeranq ao castello de Alvalade, 
que lhe não ficava longe. 

Em premio d 'estes feitos patrióticos e va- 

de metade d'uriia pagina doeste Ií^to. 'Os carnctereA 
são gotbicos e qhil legíveis. O sello do infante IX João 
ainda está pendento,mas apresenta apenas uma massa 
informe de cera endurecida e negra, tem sigiial algum 
distingui vel. 

1 Ruy do Pina, Cbtymica del-rei />. Dmiz c, 7— 
Duarte Nunes de liOâo, ibid. — Man. fji$, ibid. 



OltlbMJft CLé PorUigal 



67 



loTosos do povo, 00 tdtimo d{a do anno, deu j 
D. Dioiz por termo ao concelho d^Elvas os dois 
casteilos conquistados. ^ 
' Bstas praças, as vrllas de Moura, Serpa e 
Mourão, o casteiio de Noudar e a ferlil e popu- 
losa comarca de Biba de Goa eram a ampla co- 
lheita, que proviera a D. Diniz dos seus dois 
rompimentos contra Gastella. 

Cumpria agora, e era talvez o mais difficii, 
irustentar, se não ampliar, o resultado, na ver- 
dade grande, de dezesseis mezes continues de 
profunda astúcia politica e d'uma invasSio, sem- 
pre arriscada, em paiz inimigo. 

N^esta grave preocupação, se findou, para 
Portugal, o anno de 1296. 

CAPITULO X 

I^egitimaQao dos fUhos do infante D. Affonso 
— Tratado d'Alcanises — Relações com Gas- 
tella e Aragão. 

O anno de 1297, um dos mais Mizes do rei- 
nado de 0. Diniz, Iniciott-sc grave e sombrio, 
Unio em rdaç&o aos n^odos externos, como 
*iiiter&O0 de Portugal.. 

1 Nto era provável que a vasta monarchia de 
«Lete e Gaslella, aiiesar de enfraquecida pelas 
cerras '6. ^ívnfies, deixasse, sem tentativa ao 
meDOB daideaafroDla, alHenar de si tantas villas 
e casteiloa, como os que perdera, no anno an- 
terior. B também não çra d'esperar qtie Di- 
iniz, potitico ambicioso, auimado pelo resultado 
•ooMeguido, não eonthniasse as aventuras guer- 
reúraa, para aogmentar, ou consolidar, com a 
^pada, as conquistas obtidas. 
• Effectivaoaente, o governo passou o mez de ja- 
neiro a reparar as praças e a dispor tudo, para o 
proaeguimento da campa&ha. 

Mas Bm negodo grave o antigo veio, ao mesmo 
tompo^fMrooeupar, seriamente, D. Diniz. 

Seu irmão D. ASonso pareceu resolvido a nc- 
VBS agitações. 

Doara o conde de Bolonha ao filho segundo, 
como (assemos, viJIaa, aldeãs e herdades, com 
a faculdade de n^eltas succeder a sua descendeu- 
Ota legitima; mas, nfto a havendo, todos os bens 
reverteriam para a coroa. 

< Jíon. Lu8, ibid. 



Tinha o inrante quatro filhos de sua parenta , 
D. Violante de Gastella, com quem se desposara 
em tenra idade; o matrimonio porem nfto fára 
ainda legitimado, porque a cúria romana, para 
nfto reconhecer o casanoento de Sancho, o bravoy 
nfto dava, entfto, dispensa de próximos parentes- 
cos colktteraes; — d'está arte, os filhos do infante 
eram considerados iilegitimos e inbabeis, para 
herdarem os bens de seu pae. Com o fim de evi- 
tar esta consequência legal da primitiva doaçfto, 
pretendia AfTonso, que el-rci os legitimasse, de« 
cIarando-09 herdeiros dos bens paternos. 

Esta pretensfto, prejudicial ã coroa e ao reino, 
era apoiada no poderio da casa do infante, di- 
gno de receiar-se, na especial coojunctura em 
que se achava a península. 

D. Afifonso, senhor de praças importantes, si- 
tuadas na fronteira, poderia, facilmente^ ligar-se 
a Fernando rv, introduzir n'eilas tropas caste- 
lhanas e guerrear Portugal, no interior do reino. 

D. Diniz protelava, havia muito, o deferimento 
é pretensão; mas o infante, conhecendo o aperto 
em que podia pôr el-rei, fez espalhar o boato das 
suas intenções e do modo como as faria valor, e 
renovou o pedido. 

El-rei hesitava. Entfto, o infante, que teipi- 
dava em recorrer a meios extremos, pediu, com 
instancia, á rainha D. Isabel, que demovesse 
D. Diniz ao deferimento. Looge porém de se em- 
penhar pela supplica, a filhado Pedro, o grande, 
de Aragão opp6z-se-lbe, radicalmente; e man*- 
dou lavrar um proteslOy publico e solemne, con- 
tra as pretensões do infante. 

Este documento é, historicameute» imporlau- 
tissimo. Esclarece em muito a forma de governo 
do tempo; lança grande loz sobre o assumpto a 
que respeita, e^ó um traço, em extremo singular 
e digno de estudar-se, do caracter da princesa, 
que, mais tarde, a egreja canonisou. Na integra' 
pois, o transcrevemos aqui: 

«Saibão quantos este estromento virem, como 
dante o mui alto, & mui noble senhor Dom Di- 
nis pela graça de Deos Uey de Portugal, & do 
Algarve, & presentes Dom Joanne Bispo de Lis- 
boa, & as testemunhas adiftte escritas, com 
•presença de mi Gil Vicente publico tabaiiõ de 
Coind)ra, a mui Alta senhora Dona Isabel pela 
graça de Deos Rainha de Portugal, à do Algarve 
di 8U protestado dante o sobredito Rey que o In- 



68 



MM^mii^ 49 tnrt^QCPíi 



«p 



fanto Dom Afonso inn&o dei Rey rogara a ol la, 
que Ihi prougesflo de rogar a cl Rcy, que lhe 
legitimaâse a seus filhos que avia de Dona Vio- 
lante para herdarem em todolos seus bens, & 
que ella nunca hy quizera consentir, dizendo 
que el Rey sabia bem quanta perda, & quanto 
dano veera ja ao seu Reyno da doação, que 
fezera el Rey Dom Afonso seu padre ao dito 
Dom Afonso dos Castellos de Marvão, de Porta- 
legre, e do Arronches; & que o Dom Afonso per* 
dera o direito que em elles avia movendo tal 
guerra contra el Rey, como a ol fez por vezes; 
& dizendo, & protestfmdo que el Rey sabia 
bem, que na doa^o que cI-Rey Dom Afonso seu 
padre fizera ao Infaatc Dom Afonso era con- 
teúdo, & mandava, que depôs morte do su Dom 
Afonso, que so tornasse todo adonadio aa Co- 
roa do Reyno, se dom Afonso não ouvesse filho 
Jedemo, & que d Rei sabia bcia que os oom 
aviaf & dizendo essa Rainha que ayra dezer, 
que o dito Rey queria ledimar os filhos do dito 
Infante Dom Atonso, & Infimte Dona Violante» 
que nom quizesse ir contra a doação, que cl 
Rey Dom Afonso fezei^ cã ora iUheamento & 
perda do Reyno, & que o nom podia fazer di- < 
reito. Mayormente que direito, & costume era 
do Reyno de nom poder alhear castello nenhum 
de «y, que tal cousa nom podia fazer sem os ; 
Prelados, & Ricos homes, & os outros bornes 
bons, o Reyoo desby que o nom podia fazer sem 
ootorgameato seu delia, & de seus filhos; di- 
zendo, & protestando por si & por seus filhos, 
ít por todo o. Reyno, que o contradizia; & po- 
diiidolbe por mercê, que se o quizesse fazer, 
que ouvesae byante Conselho com sã Corte; & 
com os do seu Reyno, & rogou a davan dito 
Bispo, que tal cousa como esto, & tão danosa ao 
Aeyno que a fezesse saber aos outros Prelados 
do Reyno, & que o estrovassem, & que puzessc 
seu sello em esta prostação que ella fazia, & 
come a dezia: a. cl Rey disse, nom era seu en- 
tendimento dei todimar os filhos do Infante seu 
irmão para serem herdeiros em nos davam ditos 
Castellos, cã nom podia de dereito nam valeria, 
inda que lho fizesse, mais porque a Raynha sai- 
bia mui bem. e & todo los outros do Reyno o 
sabíão qual guerra, & quam perigoso el avia 
com o senhorio de GasteHa & de lioon, & que 
por razan dessa guerra, & porque era certo 



que o dito Dopi AConsp seu irmãp andava levaa- 
tado contra d, por razam que lhe nom quizera 
fazer esta ledimação, & que lhe queria porém 
fazer guerra, que el por isso, & por que avia 
medo de lhe vir dano dos Castalhanos que Dom 
Afonso avia em o acu senhorio, querendolbe 
meter hy outro senhorio ao tempo da guerra em 
que estava, que lhe queria ledimar os filhos, 
por nom vir ende este mal ao Reyno por razauí 
doa ditos Castellos, & que por tal ledimaçom 
qual lhes el queria dar nom eram elles herda- 
dos, & no donadio que Dom Afonso seu padre 
dellcs avia, & esse Rey disse ã Rainha sobredita 
que nom leixasse a consentir com esta ledima- 
çom, com que elie queria fazer a filhos de Dom 
Afonso. 

E a Rainha diése^ que inda por esto nam con- 
senliriar hy a nenhuma guiza, & se hy consen- 
tisse, que o faria com medo dei Rey, & por 
sâ prema, & outro sy com medo da guerra do 
dito Dom Afonso; & que porém dezia, & protes- 
tava, que nom valesse seu consentimento, se 
ella hy consaitisse, ^ deata protestaíçom como 
a devandita senhora Rainha fazia, pedio a mi 
dito Tabelion hun testemunho, & eu dovandito 
Tabelion do madado da dita senhora Rainha a 
esta protestaçom presente fui a eate estromenlo 
ea efeito com minha mão escrevi, &.C8le meu 
sinal em el pugi em testemunho desta causa. E 
«sto foi feito em Coimbra na Alcáçova, seis dias 
-andados de Fevereiro, da era de mil trezentos m. 
trinta & sinco annos, & presentes foram Dom 
João Simon, Frei Afonso Rodrigues da Ordem 
dos Frades Meores, Pedro Salgado Thesouretro, 
Ayres Martins escrivão do dito senhor elRey, & 
o davandito senhor Bispo de Lisboa, que pre- 
sente sya a petição da dita senhora Rainha fez 
scllar este instrumento de seu scilo pendente.» ' 

Apezar do protesto da esposa e das razões 
de interesse publioo em que se fundamentava, 
outra foi, por enião, arescdnção de D. Diniz. 
Superior a todas as considerações da rainlia 
estava a saitação publica, senão a da própria 
coroa. L^mbaraçar a guerra contra Castdla, lâo 
felizmente iniciada» com uma pugna dvii, fra- 
tricida e no interior do paiz, seria não só per- 
der, inteiramente, a esperança de novas conquis- 

1 Mon. L««. P. 5, L. 17, c. 35- 



J 



Blitortft d« Ponagil 



eo 



até pòt em risco a sua permaoencia no 
IhroQo. D. Dioiz não se abalançou a tal. Resolveu 
cootentar o iriB^, deferiado-lhe asupplica, ao 
ptroposíto, iadubitavelmeule, traiçoeiro e feio, de 
mais tarde retrahír a promessa. Para aplacar 
a rainha e os seus mais privados coaselheiros, 
diase-lhes logo: que, no futuro, nâo cumpriria o 
despacho; que o dera coagido pelo receio do in- 
fante se ligar a Castelia, na próxima guerra, e 
dos graves males que d'ahi poderiam vir ao reino; 
mas que essa mesma coação da sua vontade o 
lomava nuIio« Assim o afirmou, anoos depois, 
contra aa sobrinhas, quando lhe requereram a 
realidade da concessão. 

O infante, porem, lendo acarta do deferimento, 
floii«aen*eUa, c ficou, não só accordc, mas pcnbo* 
rado com el-rci, por ter vencido, a seu favor, 
a opposição da rainha e da maior parle dos 
cortesãos; as pbrases do diploma, ainda que ge- 
néricas, não podiam, na verdade, ser mais ca- 
thogorícas e formaes. 

Para apreciar bem este negocio c os caracte* 
res do tempo, vejamos o documento; consta de 
poucas linhas: 

«Saibam quantos esta carta virem, que eu Dom 
Diais pela graça de Deos Rey de Portugal , & do 
Algarve, querendo fazer graça, & bem, & mercê 
a meus sobrinhos, filhos & filhas do Infante Dom 
Afonso meu irmão, & de Dona Violante, dispenso 
cô eiles, & faço*os lidimos, qae sem nenhum 
embargo possão aver, & herdar todos os bens, & 
heranças, & honras, & senhorios de seu padre, 
& os que hora elie trage a sá mão, assi como 
boõs filhos lídimos herdão: cm testemunho d'csla 
cousa mandei fazer esta carta, & seelar de meu 
seelo do chumbo, que tcnbão filhos, & filhas delie 
Afonso. Dat. em Coimbra oito dias de Fevereiro. 
El-rei o mandou. Fernão Peres a Fez. Era de mil 
trezentos e trinta e cincoi. ^ Corresponde, na 
chronologia vulgar, ao anno de 1297. 

Composta esta perlurbaçâo c despreocupado 
o governo dos embaraços que lhe podia trazer, 
occopoa-scD. Dinie, cxclusivamcnle, em activar 
os preparativos, para a continuação da guerra. 
Aproxima va-se a primavera, c era necessário es- 
tar tudo disposto, para entrar em campanha. 
O seu voto secreto era, porem, oulru, coniple- 

^ i/(//i, Lu8, ibid. c. 36. 



támente diverso; e as circumstancías politicas de 
Gastella, que continuavam embaraçosas, favore- 
ceram-lhe os intentos. 

D. João ACfonso, que, já, ao serviço de Portu- 
gal, tomara parte na campanha do anno anterior» 
achando-se n*csta occasião, na villa d^Albuquer^- 
que, limites de Castella, foi o encarregado da 
delicada missão. — Procurava-se evitar a conti- 
nuação da guerra entre as duas nações, por um 
tratado de paz, que legitimasse os factos consu- 
mados e os sellassc, com os casamentos da nossa 
infanta, D. Constança com o joven monarcha de 
Castella, e da irmã d'este9 D. Ikatriz, com o her- 
deiro da coroa portugueza. 

João AfTonso era intellígenle e sagaz, tinha 
parentesco com D. Maria de Molina 'e possuia 
a estima de D. João Fernandes de Lima,— filho 
do deão, depois arcebispo de Santiago,— e grande 
valido na corte de Castella; alem d^isso, encon- 
trou auxilio em D. João Fernandes de Souto 
Maior, bispo de Tuy, chanceller-môr da rainha 
o poi*luguez por parte de sua mãe ; sobre tudo 
favoreceu-o o aperto em que se via o governo do 
vislnho reino: — levou, portanto, o negocio a boa 
e rápida conclusão. 

Antes de finda a primavera, já como nego- 
ciador de Castella, D. João Femandoit, com pré- 
vio assentimento da rainha, D. Maria e das ccM^tcs 
de Çamora, firmava, n*uma ultima conferencia, 
em Abuquerque, as condicções dos casamentos e 
tratado de paz. A noticia d'esle accordo era feS" 
lejada pelos dois paizes, e nomeadamente, peio 
hcroe da Andaluzia, D. AfTonso Perez de Gusmão, 
ainda parente de D. Diniz. 

Em premio da negociação, foi João AfTonso 
d'AIbuquerque nomeado mordomormór, e, mais 
tarde, elevado a conde deBarcdlos. 

O tratado, porem, entre as duas monarchias, só 
se concluiu, no mez de setembro. Combinou-se 
que 08 soberanos se juntassem, com as suas nu- 
merosas cortes, na villa dWIcaniscs, na fronteira 
do reino de Leão, a pouca disíancia, ao norte, da 
povoação portugueza de Miranda, na província 
de Traz-oS'Montes; ahí se celebrassem osdespo- 
sorios dos infantes, e assignassem as escripturas 
esponsalicias o os diplomas necessários para a 
paz c alliança entro os dois reinos. 

Disipoz tudo D. Diniz, com o maior esplendor, 
para esta conferencia. Foi de Coimbra a Tranco- 



70 



Hiatorlft 4» Portugtl 



SO) ODde deixou o infante D. AiTcmso, herdeiro da 
coroa; eegutu para Miranda e depois para Alca- 
nises, acompanhado da rainha D. Isabel, de sua 
filha D. ÍSoQstança, de seu irmílo D. Affonso e 
d*uffl séquito numerosíssimo de prelados, ricos- 
bomens, pessoas da corte e gente d'armas. 

Quando os portuguezcs chegaram, já os espe* 
ravam a rainha D. Maria de Molina, o moço rei 
Fernando iv, o seu tutor o infante D. Henrique, a 
infanta D. Beatriz e toda a numerosa corte de 
Castella. 

Os dois reaes cortejos, ao atravessar os res- 
pectivos paizes, haviam sido saudados pelas po* 
pulaçõcs, com a mais sincera e enthusia&tica 
fiilegi^ia. O povo aspirava, ardentemente, pela 
pQz, eonlb remate ás mil devastações e traba* 
lhos, que havia, soffrido no anno anterior. 

E^ta aspiração foi, plenamente, satisfeita no 
accordo d'Alcaniscs. É o acontecimento mais no- 
tável da diplomacia portugueza, nas Hespanhas» 
durante o extenso reinado de D. Diniz. 

Estipularam-se, 'definitivamente, os dois* de- 
fiejados matrimónios dos infantes; e, apesar da 
tenra idade dos contrabentes, foi para Castella a 
noiva de Fernando, e veio para Portugal a des- 
posada do futuro A Sonso iv. 

Dos quatro noivos o mais velho era o rei 
de Castella, contava onze annos e nove mezes. 
A sua desposada D. Constança ainda não com- 
pletara oito annos. O irmáo doesta, D. Afiònso 
de Portugal, náo fizera ainda sete. A sua noiva 
. D. Beatriz náo chegara aos quatro. 

A politica do tempo tinha d'e&tas illegaitdai- 
dcs immoraes. Como os consórcios dos príncipes 
eram a principal base dos tratados, entre as na- 
ções, casavam, ainda no berço, os filhos dos 
reis. A diplomacia dispunha, caprichosamente, 
do coração e do futuro das creanças reaes. 

Á tenra esposa de seu filho deu D. Diniz, de 
arras, Bvora, Villa Viçosa, Villa-Reai, Gouveia e 
Viila Nova. 

A cai-ta regia foi lavrada, no mez seguinte, 6 
de outubro de 1797, estando D. Diniz na villa 
do Sabugal. A força da doação consta das se- 
guintes phrases: 

« . . .dou a vos à Infanta Dona Brites por arras 
por cada anno seis mil libras da moeda velha de 
Portugal; & ponho volas em esta guisa.. Douvos 
Évora por três mil libras & Villa Viçosa por três 



mil libras, & Viila Real por mil ft trez«ita0^ A 
cincoenta, & Gaya com Villa Nova, polo ai que 
fica do comprimento de seis mil. £ estas Villas 
sobreditas vos dou com todos seus direitos, A 
com o senhorio delias, que o ajades bem, m. com- 
pridamente, guardando todavia o men senhorio. 
E sobre esto mando por e£ta minha carta aos 
conselhos destas Villas sobre ditas, & aos Juizes, 
& aos Alcaides, à aos Jurados, & aos outros Oven* 
çaes delias recudão a vos, ou a quem lhe vos 
mandardes por vossas cartas com todos os direi- 
tos d'es3as Villas como dito he, em guisa qae 
vos nom ninguém ende em nenhuma cousa & qae 
vos recebam por senhora & vos conheção senh0«> 
rio daqui adiante, & que recebSo os officiaes, 
que lhe vos derdes, segundo seu foro, como os 
eu avia de poer. . .» * 

Tomando por fundamento o duplo enlace das 
duas famílias reinantes, o tratado, iatitalado . 
d'AlcaBÍses, foi amplo e sem restricç^es. O go- 
verno castelhano não só reconheceu a Portugal 
a legitimidade de todas as conquistas, aUiana- 
mente, effecluadas; mas ainda nos cedeu Oli- 
vença, Ouguella e S. Felizes dos GaUegos, a 
troco dos nossos duvidosos direitos, sobre Arron- 
ches, Aracena, Valença, Ferreira, Esparregai e 
a Aymonle, cuja conquista seria mais duvidosa 
ainda. 

Os infantes e princípaes seofaores de Castella 
ratificaram, conto era de uso, o tractado de paz, 
e prestaram preito e menagem a D. Dinis de 
o ajudar, contra o seu rei, se este não cumprisse 
o prometlido. * 

Na historia portugueza, 6 |X)r tal forma impor- 
tante o tratado d'Alcanizes, que não nos podemos 
eximir á sua transcrípção. Servimo-iios da tm- 
ducção, que, do original castelhano, existente na 
Torro do Tombo, fez o iilustre guarda-mór d'a- 
quelle archivo, Kuy de Pina, para a sua Chrofika 
d^el-rei D, Diniz. ^ 

Eis o tratado: 

•Em nome de Deus amem, Saybam quantos 
esta carta virem, e leer ouvirem que como fosse 

í Mon. Ia(s. P. 5. L.° 17. c. 41. 

' Arch. Ueal da Torre do Tombo Gav. i8. riiaç. 4 
n. 8 e niaç. 10. n. 9. 

3 Ruy de Pina, Chron. c. 10. — Arch. Nac. da 
Tone do Tombo L." 3 dos Direitos Reaes foi. 150.— 
Gav. 18. m. 9. o." l'ò—Mon. Lus, vd. 5, P. 5. o. 39. 



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Historia da Portugal 



71 



contenda sobre Vitlas, tormoa, c partimentos, 
posturas, e preytos antrc nós D. Fernando pela 
graça do Deos Rey de GasLella, e de Liam, e de 
Toledo, e Dalgezira, Sevilha, e Córdova, e de 
Morcia, e Jaein, e do Âlguarve, e senhor de Mo- 
lina do hutha parte, e D. Diniz pela mesma graça 
de Deos Rey de Portugal, e do Alguarve, da ou« 
tra, por razão destas contendas sobre ditas nacem 
antrc nòs muitas guerras, eomciios, c excessos 
era tal maneyra que de nossas terras damhos fo- 
ram muitas roubadas, queymad&s, e estraguadas 
em que se feez hy muito pezar ha Deos nosso 
Senhor por morte de rauytos homens, vendo, e 
guardando que se aho diante fossem destas guer* 
ras, e discórdias que estavam nossas terras dam- 
hos em tempo, e ponto de se perder por nossoà 
peccados, e de vir ás maãos dos imiguos da 
nossa fée, e em fim por apartar tam grande dcs^ 
serviço de Deos, e da Santa Egreja de Roma, 
nossa madre, e tào grandes damnos, e perdas 
nossas, e da Qbristandade, por ajuntar paaz; 
amor, e grande serviço de Deos, e da Egreja de 
Roma ho sobre dito Rey D. Fernando com Gon- 
celhO) e outorguamento, e por autoridade da 
Rainha Dona Maria minha madre, e do Ifantc 
D. Anrique meu Tio, e meu Tutor, e guarda dos 
meus Eegnos,. e dos Infantes D. Pedro, e D. Fe** 
lippe meus irmãos, e de D. Dioguo de Faram 
Senhor de Biscaya, e de D. Sancho filho do In* 
fante D. Pedro, e D. Joham Bispo de Tuy, e D, 
Joham Fernandes Adiantado moor do Galiza e 
D. Fernam Fernandes de Molina, e D. Pedro 
Poncc, e D. Giiarcia Fernandes de Villa mayor, 
e D. Affonso Peres do Gusmam, e D. Fernam 
Pires Mestre Dalcanlra, e D. Estevão Pires, e 
D. Telo Justiça moor da minha Gaza, e doutros 
Ricos homens boons de meus Regnos, c da Ir*' 
mãdado de Gastella, e de Liam, e dos Gonceihos 
destes. Regnos, e de minha Corte. 

E eo El'Rey D. Diniz suso com cõcelhOi o on* 
t<H*gua da Rainha Dona Isabel, minha molber, e 
do Ifante D. Affonso meu irmâao, e D. Martinho 
Arcebispo de Braga, eD. Joham Bispo de Lixboa» 
e D. Sancho Bispo do Porto, e D. Vasco Bispo de 
Lameguo, e do Mestre do Templo Davis, e de 
D. Affonso meu mordomo mòor, senhor Dalbu- 
querque, e de D. Martim Gil meu Alferes moor, e 
de D. Jobam Rodrigues de Briteyros; ede D. Pe* 
dro Ano«B Porld, e de Loarengo Soares Vaiada* 



res, c de Martim Affõso, e de Jobam Fem&des 
de Lima, e de Joham Mendes, e de Fernam Pi-^ 
res de Barboza meus Ricos homens, e de Joham 
Simam meyríobo moor, de minha caza e dos 
Concelhos de meus Regnos, c de minha Corte 
ouvemos acordo de nos avirmos, e fazecmos 
avenças antrc nós nesta maneyra que se segue^ 
a saber, que eu Rey D. Fernando sobredito m* 
tendendo, e conhecendo que os Gastellos, eViN 
las da terra Darronhes, e Darecena com todos 
setis termos, direitos, e pertenças que eram de 
direito do Regno de Portugal, e de seu Senhorio 
que os ouve El Rey D. AÍTonso meu avoo dei Rey 
D. Affonso vosso padre contra sua vontade, sendo 
estes Luguares dei Rey D. AÍTonsQf, e que outro 
si os tiveram Ei Rey D. Sancho meu Padre, e eu, 
e por csso pus com vosquo em Cidade RodrfguO) 
que vos desse, e entregasse has ditas Viilas, e 
Gastellos, ou escoybos por elles apaar dos VO0* 
SOS Regnos de que vós, vos paguasseis, de dia 
de Sam Miguel que passou da era de mil tre* 
zentos trinta e quatro annos aló seis meses^ e 
porque volo assi nom comprio douvos por essas 
Villas e Gastellos, e pellos seus termos, e peljk)« 
frutos daquelies que ahi ouvemos meu avoo El 
Rey D. Affonso, e meu pedre El^Sey D. Sancho, 
e eu outro si at^ ho dia hoje, Olivença, e Campo 
mayor, que sam apaar de Badajos, e Sam Fe^ 
lizes dos Gualeguos com todolos seus termos^ 
e direylos, e pertenças e com todo seaborio e 
jurdiçam Real, que ajades vós, e vossos sooes-» 
sores por. erdamento pcra seoipreassl ha posses^ 
sam, como ha propriedade, e tiro de mim e do 
Senhorio de meus Regnos de Gastella, o de Liam 
hos ditos Luguares, e todo direyto que eu ha hy 
bey de hos aver, e douvolo, e ponho»o em v6s; 
e vossos sucessores, e no Senhorio de Portugal, 
pêra sempre. 

Outro si meto no vosso Senhorio, e vossos 
socessorea do Regtio do Portugal para sempre 
ho Luguar que dizem Ouguela, que hee junto 
de Campo mayor acima dito, com todos seus 
termos direytos, e pertenças, e dou ha vós» e 
ha todos vossos socessores do Senhorio de Por-» 
tugal toda jurdiçam direyto, e Senhorio Real 
que eu tenho, e devo ter de direyto no dito Lu« 
guar Douguela, e tiro de my e do Senhorio de 
Gastella, c de Liam, e ponho em vós e em todos 
vossos socessores, e no Ssiriíorio do Regnç àA 



7S 



Historia do Fortni^al 



PorUigal para sempre salvo ho Senhorio, dírey- 
tos, e herdades, e Egrejas deste Luguar Dou- 
guelia, que hos aja ho Bispo, e Egroja de 
Badajoz atee que com elle faça que volas solte 
assi como deve* Todas estas couzas de suso dit* 
tas vos faço porqne nos quiteis dos ditos Gastei* 
los, e Villas Darronches, e Daracena e de seus 
tennos, e dos fruytos quo daby ouvemos Cl Rey 
D. Àffonso meu avoo, e El Rey D. Sancho meu 
padre, e eu. 

Outro si eu El Rey D. Fernando entendendo, 
e conhecendo que vós tendes direyto em alguns 
Luguares dos Gastellos, e Villas do Sabuguai, e 
Alfáyates, e de Gastel-Rodriguo c Villar mayor, 
e de Gastei bom e Dalmeyda, c de Gastei mi- 
ihor, e Monforte, e doutros Luguares de riba de 
Goa hos quaaes vos Rey D. Diniz tendes aguora 
era vossa maão e porque vós vos partis, e ti- 
raaes do direyto que tínheis cm Valença, e em 
Ferreyra, e no Esparragual que ag(H*a tem ha 
Ordem Dalcantra em sua maão, c do dircylo 
que aviades em Aya monte, e em outros Lugua- 
res que aviades em Liam, e em Gualiza, c assi 
porque \(>s vos partis, e tiraaes das demandas 
que me vós fazieis por rezão dos termos que 
sam autre ho meu Senhorio, e ho vosso, por 
easo eu me parto, e tivo dos ditos Gastellos, e 
Villas, é Luguares de Sabogual e Alfayates, e de 
Gastei Rodriguo, e de Villar mayor e de Gastei 
bom, e Dalmeyda, e de Gastei milhor, e de Mon- 
forte, o dos outros Luguares de Riba de Goa, que 
aguora vós tendes em vossa maSlo, com todos 
seus termos e pertenças, e partome de toda ha 
demanda que eu tenho ou poderia ter contra vós, 
ou contra vpssos soccssores por rezam destes 
Luguares s(^reditos de Riba de Goa e cada huu 
delles e outro si me parto de todo direyto, ou jur- 
diçam, ao Senhorio Real também na possessam 
como na propriedade como em outra maneyra 
qualquer que ho eu aby tenha, e ho tiro de my 
todo, e de meus senhorios c de meus sucessores, 
e dos Senhorios dos Regnos de Gastella, e de 
Liam, e ponho em vós, e em vossos socessores, 
e no Senhorio do Regno de Portugal pêra sem- 
pre, e mando, e outorguo que se por ventura aa 
alguns privilégios ou cartas ou estromentos pa- 
recerem, que forem feytos anlre hos Rcx de Gas- 
teHa, e de Liam , e hos Rex de Portugal sobre estes 
Luguares sobro ditos davenças, ou do posturas, 



demaicaçoens, e em outra qualquer maneyra so- 
bre estes loguares que sejam contra vós, ouooa- 
tra vossos socussores, ou cm vosso datio, ou em 
dano do Senhorio de Portugal, que daqui em 
diante nom valham nem tenham ha menagem, 
e flrmeza nem se possam ajudar delias eu, nem 
meus socessores, has quaaes todas revogo pêra 
sempre. 

E eu El Rey D. Dinis asima dito por Olivença, 
e por Gampo mayor e por Sam Felizes dos fíiia- 
legos que me vós dais, e por Ouguela, que melo 
em meu Senhorio segundo acima he dito, ea 
me parto e tiro dos Gastellos, e Villas Darron* 
ches e' Darecena, e de todos seus termos, e di« 
reytos c de todas suas pertenças, e de toda ha 
demanda que eu tenho, ou poderia ter conira 
vós, ou contra vossos socessores por rasam 
destes Lugares sobreditos, e de cada bua delles 
que El-Rey D. A£fonso vosso avoo, e El Rey 
D. Sancho vosso padre, e vós ouvestes, e rece- 
bestes, e destes Luguares dou ha vós, e ha 
vossos soessores todo direyto, e jurdiç&o» e 
Senhorio Real, que eu ey, c de direyto poderia 
aver n^esses Gastellos, e Villas Darronches, e 
Darecena, por qualquer maneyra que ho eu aliy 
ouvesse, e ho tiro do meu, e de meus sucesso- 
res, e do Senhorio do Regno de Portugal, e ho 
ponho em vós c em vossos socessores e no Se* 
nborio do Regno de Gastella, e de Liam, peni 
sempre, outro si eu El Rey D. Diniz, porque 
vós, vos tiraaes dos Gastellos, e Villas do Sabu- 
guai, e Dalfaptes, e de Gastei Rodriguo, e de 
Villar mayor, e de Gastei bom e Dalmeyda, e de 
Gastei milhor, e de Monforte; e doutros Lugua* 
res de Riba de Goa, com seus termos que eu 
aguora tenho em minha maâo assi como asaima 
hee dito, eu também me tiro, e aparto de todo 
direyto, que eu ey em Valença e em Ferreyra, 
e no Esparragual, e em Ayamonte, outro ai me 
parto de todalas demandas que tenho, e poderia 
tecr contra vós, em todolos outros Luguares de 
todos vossos Regnos, e Senhorios em qualquer 
maneyra, outro si me parto de todalas deman- 
das que eu tinha contra vós por rasam dòs ter* 
mos que sam antre ho meu Senhorio, e ho vosso 
sobre que era contenda. 

Eu El Rey D. Fernando de suso dito per my, 
e por todos meus socessores com ooncelbo, e 
outorguameuto, e auloridade âa Rainha miiíha 



ia de Port^^al 



73 



madre, e do Ifante D. Anrique, meu tio, e meu 
Tutor, e guarda de meus Regoos prometo ha 
boa fee, e juizo sobre estas cousas asima ditas, 
e cada huuma delias pêra sempre nunqua vir 
contra ellas por my, nem por outrem defeyto, 
nem de direyto nem concelho, e se assi nom fi- 
zer que fique por perjuro, e por tredor como 
quem mata seu senhor, outra, e Castello, e nos 
Rainha, e ho Infante D. Anrique asima dito ou- 
torguamos todas estas cousas, ou cada humma 
delias, e damos poder, e autoridade ha El-Rey 
D. Fernando pêra fazellas, e prometemos por 
booa fee, por nós, e por o dito Rey D. Fer- 
nando, e juramos sobre os santos Evangelhos, 
sobre hos quaes pozemos nossas mãaos, e faze- 
mos menagem a vós Rey D. Diniz, que El Rey 
D. Fernando, e nós tenhamos, e cumpramos, e 
guardemos, e façamos teer cumprir, e guardar 
todalas couzas sobre ditas, e cada huúa delias 
pêra sempre, e de nunqua virmos contra ellas 
por nós, nem por outrem defeyto, nem de di- 
reyto, nem concelho, e se assi ho nom fizermos 
fiquemos perjuros, e tredores como quem mata 
senhor, ou trae Castello. 

E eu El Rey D. Diniz, por my, e por ha Rai- 
nha Dona Isabel minha molher, e polo Infante 
D. Àffonso meu filho erdeyro, e por todolos 
meus vassalos, e scoessores, prometo aa booa 
fee, e juro sobre hos Santos Evangelhos sobre 
que ponho minhas maãos, e faço menagem ha 
voos Rey D. Fernando por voos e por vossos 
socessores, e aa voos Rainha Dona Maria, e ha 
voos Infante D. Anrique de teer, e guardar, e 
cumprir todas estas cousas acima dietas, e cada 
huãa delias pêra sempre, e nunqua vir contra 
ellas por my, nem por outrem defeyto, nem di- 
reyto, nem concelho, e se assi nom fizer que 
fique por perjuro e tredor como quem mata se- 
nhor, ou Irae Castello. E porque todas estas cou- 
zas sejam mais firmes, e mais certas, e nom 
possam vir em duvida, fazemos desto fazer duas 
cartas em huô teor, que hee huôa como outra 
seladas com nossos sellos de chumbo de noos 
ambos os Rex, e dos selos das Rainhas sobredi- 
ctas, e do Infante D. Anrique, e em testemunho 
de verdade; das quaes cartas cada hun de noos 
hos Rex hade teer senhas: feita em Alcanizes 
quinta feyra doze dias do mez de Setembro da 
era de mil duzentos noventa e sete annos, 
n voL,— 10. 



Para que se visse, em Castella, qúe doeste tra- 
tado não havia só utilidade para Portugal, e sob 
pretexto de favorecer D. Fernando contra as re- 
beldias de seu tio, o infante D. João, — enviou 
D. Diniz, d'Alcanizes, com o moço rei, trezentos 
cavalleiros portuguezes, commandados por João 
Aífonso d'Albuqucrque. Uniram-se-lhes, com al- 
gumas tropas, AfTonso Peres de Gusmão e João 
Fernandes. Invadiram as terras que se haviam 
levantado pelo infante; e foram doestal-o até ãs 
portas de Leão, onde se encerrara. * D 'esta arte, 
continuaram os nossos, por algum tempo, ao ser- 
viço da coroa de Castella. 

No entanto, D. Diniz voltara a Portugal. Rece- 
beram-n'o, com grandes demonstrações d'alegria, 
as principaes cidades . E o pervidentc monarcha 
reassumiu, com vigor, a administração do reino. 

Encorporou no senhorio da coroa o castello e 
villa d'Almada, tão valiosos para a defeza do 
Tejo, compensando os cavalleiros de Santiago, 
seus donatários, com diversos logares de menos 
importância; e, em 7 de dezembro, confirmou aos 
almadenses o privilegio de visinhos de Lisboa. ^ 

Com este acto, cerrou o anno de 1297; ini- 
ciou o seguinte, outorgando, em 4 de janeiro, o 
foral d'Elvas a Olivença, e o d'Evora a Ouguella, 
no dia 5. 

N'estes trabalhos de paz, foi porém, de novo, 
perturbado D. Diniz. 

Entrava-se apenas na primavera e achava-se 
a corte em Santarém, quando dois embaixadores 
castelhanos vieram da parte da rainha D. Maria 
de Molina, das cortes reunidas em Valladolid e 
dos jovens desposados, genro e filha de D. Di- 
niz, pedir novo e mais efficaz soccorro, contra 
as tribulações, em que, no momento, se via a 
monarchia de Castella. ' 

A antiga liga dos pertensores infantes de La 
Cerda e D. João, João Nunes de Lara e rei d*A- 
ragão reatava-se outra vez; e, engrossada por 
grande numero de descontentes, reacendia, com 
mais vivaz furor, o facho da guerra civil, le- 
vando a assolação a todos os pontos da Hespa-* 
nha, leaes a Fernando iv. 

A prudência e felicidade de D. Diniz, como 

t Mon. Lu8. P. 5. L. 17. c. 42« 

2 Ibid. 

3 Ibid. c. 43. 



74 



Historia de Portugal 



general e politico, eram reconhecidas, om toda a 
peninsula; — os parciaes de D. Maria de Molinae 
do joven rei, vendo agora o raonarcha portuguez 
alliado a Castella, e interessado pelo casamento 
da filha, reccorrerara a elle, conao seu único va- 
ledor. Os embaixadores traziam recommendações 
apertadas, para o instarem, não só a enviar 
tropas portuguezas; mas, sobre tudo, a ir, pes- 
soalmente, soccorrel-os. 

A mensagem, que as cortes leonezas de Valla- 
dolid lhe dirigiram, é significativa. Vamos tran- 
$crevel-a, para se poder apreciar a importância 
que tinham, nas llespanhas, durante o século xiii, 
estas assembléas nacionaes de fidalgos, clerezia 
e populares, que não só votavam os impostos e as 
forças com que para a guerra devia concorrer 
cada concelho, mas que decidiam da legitimidade 
dos pretensores á coroa, faziam as leis, intervi- 
nham cm todas as matérias do governo e chega- 
vam até a tratar, directamente, com os raonarchas 
estrangeiros. Esta ultima e extraordinária facul- 
dade prova-o o documento que segue: 

«Al mui noble, y mui alto senorDon Dinis por 
la gracia de Dios Rey de Portugal, y dei Algarve. 
Nós los cavalleiros, y los homes buenos perso- 
neros de la hermandad de las villas dei Regno 
de Lion besamos nuestras manos, ôencomenda- 
monos en vuestra gracia, assi como de senhor, 
para quien desçamos mucha vida com salud, y 
con honra. Seãor, fazemosvos saber, que em es- 
tas cortes que nuestro sefior el-Rei Don Fernando 
figo agora em Valladolid a que venimosnos, & 
nos ajuntamos por su mandado acordamos de 
vos fazer saber lo que fue hy puesto, é ordenado 
de fazenda a el-Rey nuestro senhor, ydel estado 
de la tierra a servicio de Dios, è fuyo, è a ende- 
reçamento de su senhorio, é de sus Reynos, é 
esto porque somos ciertos, que por el grande 
amor que con el avedes e con la Reyna su madre, 
por los grandes duedos y buenos que en uno 
avedes tenedes la su fazienda por vuestra, y so- 
mos seguros que avedes a coraçon de guardar, é 
levar adelante la su honra, assi como la vuestra 
misma; é seilor sobre esta razon mandamos allá 
a vos a Alfonso Michel despensero del-Rey nues- 
tro senor, que vos muestre estas cosas de nuestra 
parte mas complidamente, que nos lo podíamos 
embiar a dezir por carta, è que vos pida meroed 
de nuestra parte, que teDgadcsporbiendeveQir 



por vuestro cuerpo aiudar a nuestro sefior El-Rey, 
Câ senor por como agora se endereça fazienda dei 
Rey, y loado a Dios a los sus enemigos va cada 
dia peor, fiamos en la merced de Dios, que vos 
veniendo en su ayuda personalmente con el 
vuestro bue entendimento, y la vuestra buena 
ventura mucho aina se desembargará la su tierra 
destas guerras, y destos males bolicios que an- 
dan hy, é tornarân en assosiego, y en buen es- 
tado. E senor en este fazedes cosa que todos los 
dei mundo vos loarán, é será siempre a mui 
grande vuestra honra, y de los que de vos venie- 
ren, é nos tenervoloemos en merced. E porque 
disto seades cierto, imbiamo-vos esta carta seel- 
lada con el seello colgado de la hermandad. Fe- 
cha en Valladolid doze de Março Era de 1330 
aíios» — o que corresponde ao de 1298. * 

Accedeu D. Diniz aos pedidos, e prometteu 
estar, em Castella, no S. João. 

Para maior premio dos serviços prestados, e do 
intuito de captivar, pela generosidade, o anirao 
dos fidalgos do visinho reino, onde ia militar, 
foi então que Diniz elevou a conde o castelhano 
D. João AíTonso, dando-Ihe para condado a im- 
portante villa de Barcellos-. Depois organisou, tão 
rapidamente, um exercito, que, no dia 25 de 
junho, já se achava na Guarda. 

Avançou até Giudad Rodrigo; receberam-no 
a rainha, Fernando iv e D. Constança. 

Deteve-se, n'este ponto, D. Diniz, aguardando 
parte da hoste, que ficara em Portugal, e que 
se lhe juntou, pouco a pouco. 

Como a rainha D. Isabel acompanhara o esposo 
á fronteira, e parara no Sabugal, activando a 
expedição das tropas, D. Maria de Molina ap- 
proximou-se da raia, até Fonte Ginaldo, e ahi 
se avistaram as rainhas. 

Durou três dias esta conferencia feminina, que 
os chronistas encarecem, dizendo que concor- 
reu muita gente de Portugal e Castella, para 
admirar tão augustas princezas: D. Isabel, cele- 
bre pela paciência, modéstia e santidade; a cas- 
telhana, notável pela prudência, fortaleza d'animo 
e talento de governar, e D. Constança, em cujo 
rosto, o verdor dos annos já deixava antever que 
seria digna continuadora das virtudes da mãe e 
das elevadas qualidades da sogra. ^ 

1 Ibid.-t Ibii c. 44. 



Historia de Portugal 



75 



Depois d'oito dias de demora, em Giudad Ro- 
drigo, D. Diniz, que, desde que entrara emCas- 
telia, perdera a pressa da jornada, pôz-se por 
fíai a eamiubo, instado pelos rogos de D. Maria 
de MoUna, e dirigiu-se a Salamanca, Yagarosa- 
mente. Áhi, se deteve de novo outra semana, 
aguardando o infante D. Henrique, tutord'el-rei. 
É que D. Diniz cogitava mais no modo de nego- 
ciar com os seus alliados d'oulr'ora, do que em 
cooibatel-os com as armas. 

O rebelde infante D. João facilitou-lhe o inten- 
to. Reconhecendo ser impossível aos confedera- 
dos vencerem Fernando, auxiliado peio exercito 
de D. Diniz, enviou a este, por seu parlamenta- 
rio, um cavalleiro de confiança. 

Estava o infante na posse do reino da Galliza 
e da cidade de Leão; para conservar estes domí- 
nios tudo promcttia: casaria seu filho herdeiro 
com uma das filhas de D. ÂHonso, irmão do 
soberano portuguez, assim uma sobrinha d'cste 
partilharia o throno do novo estado; depois, 
propôz ceder a D. Diniz todos os seus direitos so- 
bre as províncias que mantinha, reconhecendo-o 
por seu rei, comtanto que lh'o3 deixasse fruir, 
como donatário, em quanto vivo. 

Estas transacções chegaram a discutir-se, no 
conselho do monarcha portuguez; muitos applau- 
diam-nas, pela supposta vantagem, de que, di- 
minuindo o poder de Fernando iv, enfraqueciam 
Castella, que suppunham quasi o único inimigo 
possível de Portugal. 

Este argumento tdtnou indeciso o espirito do 
filho d*Affonso iii, fazendo-o dilatar as negocia- 
ções e por tanto as operações militares, com 
profundo desgosto dos castelhanos. Obrigado a 
decidir-se, Diniz, pareceu, por fim, seguir o 
único alvitre recto e digno: — viera em auxilio 
da filha e do genro, e declarou perseverar em 
socorrel-os; mas, no espirito, conservou o pro- 
pósito firme de não apertar muito como infante. 
Avançou até á cidade de Touro. Sendo ins- 
tado por D. Maria de Molina, para correr a 
terra dos inimigos, recusou-se com vários pre- 
textos; apenas se oílereccu para cercar o castello 
da Matla, que tinha voz por D. João, indo com 
elle a família real castelhana. Acceitou a rainha 
a proposta, para tirar a Diniz as rasões d^escusa. 
Este dispôz frouxamente o cerco, e continuou 
as negociações, descurando os assaltos, A final^ 



declarou-se com a rainha, inculcando -lhe a con- 
veniência de manter, na Galiza, D. João, e jun- 
tarem-se com elle, para debelarem os outros 
inimigos de Fernando iv. 

N'esta extremidadQ, Maria de Molina soccor- 
reu-se do povo, o alliado mais fiel que encontrou, 
durante o seu longo governo. Disse que, visto Ira- 
tar-se d*uma mudança d'imperante, o pleito per- 
tencia aos concelhos, e elles que o decidissem pe- 
los seus procuradores, que estavam presentes, no 
acampamento. Reuniram-se estes, n*uma tenda, e 
D. Diniz expôz-lhes a transação que desejava, e 
fundamentou-a com largo arrazoado. Os homens 
bons da Galiza e de Leão não se deixaram ven- 
cer pela eloquência do rei poeta; insinuados pela 
rainha, e talvez porque lhes repugnasse ter por 
senhor o príncipe mais perverso, que havia então 
na península, porfiaram na obediência a Fernan- 
do IV, e repelliram, com firmeza, o nome de João 
e a separação dos reinos, que lhes propunham. 

Despeitado por este revez, D. Diniz despediu-se 
da rainha, dizendo-lhe que não podia guerrear 
a quem desejara favorecer; levantou o cerco; e 
voltou para Portugal, onde deve ter chegado, na 
primeira quinzena de setembro, tendo gasto mais 
de dois niezes, n'esle passeio militar e diplomá- 
tico deplorável. ^ 

Maior desgosto porém o esperava na pátria. 

Seu irmão, o infante D. Affonso, sempre in- 
vejoso e irrequieto, ou porque Diniz não pro- 
movesse, com a ellicacia que elle desejava, a 
independência da Galiza, cuja coroa aspirava 
para uma das suas filhas; ou por qualquer outro 
motivo, hoje desconhecido, — desaveio-se, mais 
uma vez, com el-rei; e, vendo-o desprotegido 
de allianças exteriores, praticou taes excessos, 
nos seus domínios do Alemtejo, que o monarcha 
viu-sc obrigado a reccorrer ás armas, e resolveu 
ir cercal-o, em Portalegre. 

Partiu para Santarém, ao terminar do inverno 
do anno seguinte de 1299, afim de preparar tudo 
para a campanha, e tanto o preoccupou este lance 
da sua vida, que, antes de passar ao Alemtejo, 
em 8 e 17 de abril, fez testamento, dispondo-se 
para todas as eventualidades. • 

É notável o documento, por algumas das suas 
determinações. 

1. Mon. LViS, ibíd, c, 44 a 46. 



76 



Historia de Portugal 



Mandava dar, para salvação de sua alma, alem 
de grandes legados a numerosas egrejas, mil li- 
bras a um cavalleiro, que fosse por elle à cru- 
zada, que acabava de se publicar, e servisse a 
Deus na Terra Santa, durante dois annos; e mil 
libras a um bomem que visitasse as estações 
de Roma, e lá se detivesse duas quarentenas. 

A piedade, porem, não Ibe obscureceu as fa- 
culdades de governante e politico. 

Ordenava que D. Izabel, sua mulher, fosse 
tutora, não só de Affonso, o herdeiro da coroa, 
mas até da infanta D. Constança, já então rai- 
nha de Gastella, como desposada de Fernando iv, 
porem, que, por não estar consumado o matri- 
monio o não haver grande harmonia, entre os 
dois paizes, podia ser reenviada para Portugal. 

Encarregava, igualmente, a esposa do governo 
do reino, durante a menoridade do infante; de- 
8ignava-lhe para conselheiros o arcebispo de 
Braga, os bispos de Lisboa e Coimbra, o abbade 
de Alcobaça, o confessor e o meirinho mór de 
sua casa; e determinava, — o que é muito para 
notar, — que os concelhos d 'entre o Tejo e o 
Guadiana, Moura e Serpa, escolhessem um ho- 
mem bom da cidade d'Evora, os da Estrema- 
dura, um de Lisboa e outro de Santarém, os de 
entre Douro e Mondego, um de Coimbra e outro 
da Guarda, e os d'entre Douro e Minho um de 
Guimarães, e que estes eleitos do povo fizessem 
parte do conselho da regência e tratassem de to- 
dos os negócios do estado, recebendo condignos 
cargos, na casa do infante, para que, com abas- 
tança eauthorisados, podessem residir na corte. ^ 

A ideia de introduzir, na alta governação do 
reino, um forte elemento popular, largamente 
dotado do conhecimento das necessidades e inte- 
resses municipaes, gerúra-se, talvez, no espirito 
d*el-rei, por ter visto o grande appoio que os 
procuradores dos povos de Leão e de Castella 
prestavam a D. Maria de Molina. Merece Diniz 
louvor por haver deixado cscripto o pensamento; 
foi realisado, depois, n'uma das epochas mais 
gloriosas de Portugal, no período cm que o po- 
vo, ligado ao mestre d'Aviz e conlrapondo-se á 
nobreza desleal, salvou a pátria das garras do 
estrangeiro. ' 

1 Mon- Lu8, ibid. c. 50 e 51. 

2 Fernão Lopes— C/ironica á'eí-rei D, João !.• 



Concluídos os preparativos da campanha, pas- 
sou D. Diniz, no mez de maio, ao Alemtejo, onde 
já ardia a guerra civil; e, no dia 15, cercou 
Portalegre. Ahi se encerrara D. £fonso com as 
suas melhores tropas, provavelmente reforçadas 
por bons cavalleiros de Castella e Leão, rei- 
nos em que o infante casou, nas famílias mais 
poderosas, duas das suas Gibas. 

Ignoram-se as peripécias sanguinárias dVste 
drama fratricida ; sabe-se apenas que, apezar do 
exercito real apertar o assedio, a villa de Portale- 
gre resistiu largos mezes. 

Durante elles, o génio de administrador e po- 
litico de D. Diniz, não podendo, na sua grande 
actividade, salisfazer-se com as bellicas, mas 
monótonas, aventuras do cerco, assignalou-se, 
por numerosos actos governativos, que honram 
a sua memoria. 

É do arreai sobre Portalegre datada a carta 
de povoador da mata de Urqueira, no termo de 
Ourem, que outorgou a um seu vassalo; foi do 
mesmo acampamento que fez povoar Villa Nova 
de Foz-Côa, e lhe concedeu foral. 

cerco de Portalegre durou ató meado de ou- 
tubro, cinco mezes completos; o governo de Cas- 
tella, escandalisado do procedimento de D. Diniz, 
dislrahia-lhe as forças, inquietando o reino, com 
repetidas correrias, por diversos pontos da fron- 
teira. Apezar d'isso, depois de porfiada resis- 
tência, veio o infante a um accordo, * e entregou 
Portalegre a seu irmão. O contracto, ou tractado 
de paz entre os dois, só porém se concluiu e 
assignou, em Lisboa, no dia 3 de julho do anno 
seguinte de 1300. 

Cedeu o infante as villas de Marvão e Porta- 
legre, e recebeu, em compensação, as de Ourem 
e Cintra, que rendiam mais do dobro; mas que, 
distantes da fronteira de Castella, eram menos do 
receiar do que aquellas, no poder do irrequieto 
príncipe. 

D'esta vez, manteve-se a concórdia, »entre os 
dois irmãos. Afibnso não mais tomou as armas 
contra Diniz. Annos depois, cm 1304, acompa- 
nhando el-rei a Aragão, deixou a pátria, e passou 
ao serviço de Fernando iv. Por fim, regressou a 
Portugal, e falleceu, em Lisboa, em 1312. * 

1 Mon. Lus. ibid. c. S5. 

2 Mon. Lus, L. 18 c. 41. 



?isto(ria de Portugal 



7? 



CoDcluido o cerco de Portalegre e restabelecida 
a harmonia com o infante, tratou D. Diniz de se 
compor também com o governo de Casteila. Não 
lhe custou a conseguir o intento, pois o mesmo 
desejo animava D. Maria de Molina. Gessaram 
as hostilidades, entre os dois reinos. O infante 
D. Joio, reconhecendo que o rei de Casteila o 
podia, agora, guerrear, mais dcsafrontadamente, 
submetteu-se, logo, a Fernando iv, reunindo-se 
à sua corte. 

Tranquillisada Casteila por este lado, pensaram 
D. Maria de Molina e D. Diniz em aquietar também 
D. Jayme ii, que, appoiando com as armas as 
pretenções de D. Affonso de La Cerda, conti- 
nuava a guerra, contra o Olho de Sancho, o bravo. 
N'aquelle intuito, mandaram embaixadores a Ara- 
gão, para tratarem da paz. Os embaraços porém 
surgiram por todos os lados, provenientes dos 
enredos e ódios dos próprios magnates dos dois 
paizes; e as negociações addiaram-se, ou rom- 
peram-se, por então. 

A este tempo, um facto importantíssimo, para 
a épocha, veio estreitar de todo as relações de 
parentesco, entre as famílias reaes de Portugal 
e Casteila, e dar uma grande vicioria moral a 
D. Maria de Molina e aos direitos, até ahí, tão 
duvidosos, de Fernando iv ao throno de seu avô. 

pontificado romano, representado pelo papa 
Bonifácio viu, legitimou os filhos de Sancho, e 
deu a dispensa de parentesco, necessária, para 
os casamentos de Fernando com a nossa infanta 
D. Constança, e de Affonso, filho de D. Diniz, 
com D. Beatriz de Casteila. i 

Pouco depois de recebida de Roma tão desejada 
noticia, D. Diniz mandou á corte castelhana o 
conde de Barcellos, João Alfonso de Albuquerque, 
para instar pela conclusão do casamento de sua 
filha, que completara doze annos, com Fernando, 
que attingira os quinze. 

Instigado pelo infante D. João e João Nunes de 
Lara, que se haviam apoderado do seu apoucado 
espirito, o moço rei assumira o governo do reino, 
c deixava os validos afrontarem sua heróica mãe, 
que, por tantos annos, lhe defendera o throno. 

Não eram todavia os dois privados desaffectos 
a D. Diniz; e o nosso embaixador serviu-se d'eU 
les, para vencer as reluctancias que ainda houve, 

1 Bulias de ib d'agosto e 8 de setembro de 1301. 



peias multas praças, cedidas a Portugal, no trar 
tado d*Alcanizes, em que se ajustara o casa- 
mento. Desejavam alguns, entre elles D. Maria 
de Molina, que fossem restituídas, como dote da 
nova rainha. Mas o infante D. João e o de Lara, 
jã para obsequiarem D. Diniz, jà porque o aperto 
das circumstancias de Casteila exigia a alliança 
portugueza, resolveram o joven rei a celebrar 
o casamento, — que effecti vãmente serealisou, 
no inverno de 1302. * 

Accordou-se logo, que, na primavera do anuo 
seguinte, os dois monarchas se avistassem, em 
Badajoz. O infante D. Henrique, os de Haro e 
outros nobres, ciosos do predomínio dos dois va- 
lidos, haviam-sc juntado ao pretensor D. Affonso 
de La Cerda, e, auxiliados pelos reis de França 
e Aragão, ameaçavam, ainda uma vez, o throno 
de Fernando iv. 

Estava este falto de meios; e, na conferencia 
de Badajoz, foi esse o embaraço que se resol- 
veu. D. Diniz deu-lhe um milhão de maravedis 
leoneze3,--o que correspondeu, no século xv, a 
cincoenta e cinco mil cruzados d'ouro, ^ e hoje 
equivale, approximadamentc, a duzentos contos 
de réis; além d'isto, o rei de Portugal prometteu 
auxiliar o de Casteila, contra seus contrários. 

Deve este facto ter-se dado na primavera de 
1303. 

Tinham, então, o rei aragoneze o seu alliado 
Affonso de La Cerda embaixadores, na corte por- 
tugueza; D. Diniz activou com elles os tratos para 
a paz, e assentou tréguas, que deveriam começar, 
no dia de S. João Baptista doeste anno, e termi- 
nar em igual dia do anuo seguinte. ^ 

Quando a noticia d'este pacto chegou ao rei 
d' Aragão, acabava elle de concluir um tratado 
de mais intima alliança com D. Affonso e os 
fidalgos de Casteila, descontentes do governo 
de Fernando iv. A deslealdade era a politica da 
península: o que se contractava, hoje, rescin- 
dia-se, amanhã, e reatava-se, no dia seguinte. 
Assim succedeu, agora. Jayme ii, vendo Diniz 
alliado ao genro e que lhe era mais diíficil com- 
bater o castelhano, entendeu prudente acceitar 
as tréguas ajustadas pelo seus agentes, e es- 

1 Mon. Lus, T. 5 L. 18 c. 63. 

2 Mm, Lm. T. .6 L. 18 c. 2. 

3 ibid., c. 3. 



78 



Historia de Portugal 



tendel-as a Castella, como alliada de Portugal. 
N'este propósito, aventou a idéa de que fossem 
decididas, por árbitros, as contendas que se de- 
batiam. 

Um outro facto veio auxiliar, poderosamente, 
as tendências, para a paz, que principiavam a 
generalisar-se: — foi a morte do infante D. Hen- 
rique, o antigo tutor de Fernando iv e um dos 
maiores instigadores dos ódios e discórdias, que 
dilaceravam a peninsula. 

Vendo-se privados d'cste irrequieto cbefe e 
conhecendo as novas idéas do aragonez, muitos 
dos revoltosos se submetteram ao joven rei; e, 
em breve, se assentou, definitivamente, que a 
arbitragem decidisse as questões, que, ha tanto, 
se pleiteavam pelas armas. 

Na contenda entre Aragão e Castella, Fernando 
IV nomeou para seu arbitro o infante D. João; 
Jayme ii escolheu o bispo de Saragoça; e ambos 
concordaram em D. Diniz para desempate. No 
velho pleito do pretendente Aífonso de La Cerda 
contra o filho de Sancho, o bravo , o primeiro in- 
dicou o monarcha aragonez, o segundo elegeu 
el-rei D. Diniz. 

Deviam as sentenças ser dadas no reino d'Ara- 
gão, e o filho de Afibnso m, investido da alta 
missão de pacificador e juiz arbitro, entre tão 
poderosos monarchas, dispôz-se para a jornada, 
levando comsigo sua esposa, irmã de D. Jayme, 
e o mais luzido e numeroso acompanhamento. 

N'esta hora, porém, cm que Diniz tocava o 
apogeu da sua gloria de politico e diplomata, 
faltou-lhe o principal agente, que, nos últimos 
annos, empregara, sempre com tanta felicidade, 
nas negociações com Castella. Estando a corte 
em Lisboa, foi accommettido de grave enfer- 
midade o conde de Barcellos, D. João Âffouso 
d'Albuquerque, e em breve falleccu. Instituiu a 
el-rei por seu testamenteiro, e deixou como her- 
deira uma filha, Thereza Martins, que se crcava- 
no paço, conforme o uso do tempo. Eslava-se, cm 
principies de maio de 1304. 

Devia ser grande o sentimento de D. Diniz. 
Pela muita experiência, provada perspicácia, ri- 
queza, valor e relações de parentesco camisade, 
em Portugal e Castella, João AíTonso não era fácil 
de substituir. Para honrar a memoria do conde, 
el-rei casou Thereza Martins com Affonso San- 
ches, seu filho bastardo, que estremecia, e a 



quem deu o cargo de mordomo-mór, que o fidalgo 
castelhano possuirá. ^ 

Em 24dejulho, jãD. Diniz e a rainha D. Isabel 
se achavam na Guarda, caminho d'Aragão, acom- 
panhados de mil fidalgos dos mais distinctos do 
reino, dos prelados mais notáveis, dos ministros 
c de grande numero de creados e gente darmas. 

Parece que á cidade da Guarda veio Diogo Garcia 
de Toledo, chanceller de Fernando iv, apresentar 
a D. Diniz as chaves de todas as villas e castellos, 
por onde havia de passar, na sua jornada; e ofle- 
reccr-lhe, no tranzito, hospedagem real. 

Diniz, investido da alta magistratura de julga- 
dor, recusou tudo; e na sua marcha, aflfastou-se 
das grandes povoações, sustentando a numerosa 
escolta, com as abundantes provisões de que se 
munira, e com as que os povos lhe vendiam, no 
caminho, as quaes mandava pagar, por generoso 
•preço. - 

A familia real de Castella esperou os reis porlu- 
guezes, era Medina dei Campo, e acompanhou-os 
até Soria, d'onde partiram para Aragão. 

Primeiro em Campillo, depois em Torrijos, 
logares da raia, se reuniram os árbitros; e, reali- 
sadas as necessárias conferencias, foram pronun- 
ciadas as sentenças, a um sabbado, 8 d'agosto 
de 1304. 

Ganhou D. Jayme ii d'Aragão : adjudicaram- 
lhe Alicante e muitas outras praças, ao norte 
do Jucar. Os iafaUes de La Cerda foram obriga- 
dos a entregar as terras de que estavam senho- 
res, a reconhecer por seu rei a Fernando iv e a 
prestarem-lhc juramento de fidelidade; em troca 
d'esta submissão e renuncia de seus direitos ao 
throno de Castella, consignaram ao primogé- 
nito, D. Aífonso, a renda de quatrocentos mil ma- 
ravedis, imposta em varias povoações, é a seu 
irmão D. Fernando a dotação de infante de Cas- 
tella. ^ O primeiro, que, desde então, se appeli- 
àonodeslierdado, retirou-se, logo, para França, e 
lá morreu, quasi obscuramente. O segundo acom- 
panhou a Portugal D. Diniz, e fez-se, por algum 
tempo, seuvassallo. 

No dia seguinte, 9, os três soberanos de Cas- 
tella, Aragão e Portugal e o infante D. João, no 

1 Mon. Lus. ibid c. 8. 

2 Ruy de Pina, chronica d'el-rei D. Diniz. — Mon, 
Lm, ibid. c. il. 

3 Lafuenle, Hist, Gen. d' Espana, t. 2.®, 1. 3, c. 8. 



Historia de Portugal 



79 



logar de Agreda, assignaram um tratado de paz 
e alliança offensiva e deffensiva, que pôz termo á 
guerra entre as trez nações, e deu a Portugal 
a vantagem, de ver, mais uma vez, confirma- 
das, posto que indirectamente, as acquisições 
obtidas, contra as quaes, como dissemos, ainda 
havia repugnancias, na corte de Fernando iv. 
Eis o theor doeste contraio de alliança: 
«En el nombre de Dios Âmen. A quantos esta 
carta virem; nos D. Fernando por la gracia de 
Dios Rey de Gastilla, D. Jgimes por la misma 
gracia Rey de Aragon, D. Diais por essa misma 
gracia Rey de Portugal, y el Infante D. Joan, fa- 
zemos saber, que como gran desavenencia, dis- 
córdia, y guerra mui afincada, y mui danosa 
fuesse pieça, ha entre nós dittos Reyes de Gas- 
tilla, y de Aragon, & desta guerra y discórdia 
nos dittos Reyes de Gastilla, y de Aragon venies- 
semos a paz, &' avenencia por la obra de los dit- 
tos Rey de Portugal, & Infante D. Joan, que en 
feito desta paz y desta avenencia trabalharon a 
gran serviço de Dios, a gran pro nostra, y de los 
nostros senhorios, y como árbitros ellos, y D. Xi- 
meno O bispo de Çaragoça pusieronlo en assos- 
siego dando hi sentencias, assi como es contenudo 
en las cartas de las dittas sentencias. Y por goar- 
darse verdadeiro amor entre nos Reyes de Gas- 
tilla, e de Aragon, y porque se guarda melhor 
lo que es feito & ordenado, y firmado entrenós, 
tenemos por bien, y por nostra pro de meter en 
este feito con los dittos Reyes de Portugal y el 
Infante D. Joan por ser mas en sembra nos, y 
nostros successores de uq amor y de un acuerdo, 
y que seamos amigos de amigos, y enemigos de 
enemigos; & para poder esto fazer el dito Rey de 
Portugal sin quebrantamento ninguno de los plei- 
tos, de los omenages, de las juras, y de las fíelda- 
des que fueron feitas entre nos Rey de Gastilla, y 
el, y pieca ha por avenir mas a buena paz, y a 
bueno amor, quitamos las por vos, y por nuestros 
successores, quanto en esta razon , y en este fecho. 
E non queremos nos Rey de Gastilla, nen es nos- 
tro entendimento que por esto se quebrante nin- 
guna de las otras cosas que estan feitas, & firma- 
das entre nos, y el, mas queremos que se guardem 
para sempre las donacíones, escambios, diffini- 
ciones, y avenencias que fiziemos como es con- 
tenudo en las cartas que feitas son entre nos, y 
el. B otro si porque el Infante es nostro vassallo, 



y noslro natural quintamos lo quáto en esta ra- 
zon de vassalagem, y naturalcsa, y de todo ome- 
nagc, cura, pleito que nos fiziesse. Y queremos 
que sea guardador d'e8te pleita, y desta avenen- 
cia, assi como en esta carta es contenudo, y que 
no le pucdanozer en esto vassalage, ni naturaleza 
que con nos ha, ni pleito, ni jura, ni omenage 
que nos fiziesse, y que pueda ser contra nos con 
los dittos Reyes, y sus successores, y cada uno 
dello fazendo nos, & nostros|successore8 contra las 
cosas que aqui son contenudas. Nos todos quatro 
por nos, e por nostros successores fazemos nostra 
avenencia desta maneira. 

«Primeiramente, nos y cada uno de nos pro- 
mettemos a buena fé por nos, y por nostros 
successores, y todos quatrofazemos pleito, y ome- 
nage, promettemos, y juramos sobre a Grux de 
nostro Senhor, y los santos Evangelhos delate nos 
pucstos corporalmente tainudos, que seamos lea- 
les y verdadeiros amigos entre nos e que nos 
amemos bien, y lealmeate sin níngun engano, 
y se por aventura alguno de nós, o de nostros 
successores, sea contra qualquer de nos todos 
quatro, o de nossos successores, que los otros 
Reyes, y sus successores sean contra el para fa- 
zerle guerra e para buscarle mal en todas las 
maneiras que pudieren y para faserle tener, y 
goardar las conveniências, y los pleitos que entro 
aqui son feitos que tangan a nos, o a qualquer 
de nos, o los nostros successores. Y para fazer, 
tener y guardar todas las cosas, y cada una del- 
ias que en esta carta, y en las otras cartas que 
entre nos son feitas, son contenidas y aqui son 
puestas, y feitas; y ningun de nos acuelga ni 
reciba, ni consienta en su tierra ningum Rico 
hombre, ni Gavalleiro de logo que guerra faga a 
aquelle Rey de cuio senhorio es. Aun queremos 
que aqueslas posturas que son entre nos feitas, 
sean confirmadas por el Âpostoligo de Roma, y 
sentencia de excomungamíento dada por el contra 
aquel, o aquellos que contra las dittas posturas o 
algumas daquella veniesse o fisiesse. E da questo 
que sea feito Procurador por nos todos ademan* 
dar e ganar la ditta confirmacion. Y aun quiere* 
mos que qualquer de nos Ia pueda demandar, y 
impetrar si quisiere, sin procuracion de los otros; 
em testimonio de la qual cosa, nos sobreditos 
Reyes & Infante D. Joan faziemos en fazer quatro 
semelhantes selladas de nostros sellos de las qu 



80 



Historia de PoUugal 



les cada uno de nos Reyes, & Infante tome en 
sendas. Dada em Agreda nueve de Agosto afio 
de N. Senhor mil tresientos y quatro. 

Presentes los honrados Padres em Jesu Christo 
D. Juan Bispo de Lisboa, D. Remon Bispo de Va- 
lença, D. Geral Bispo do Porto, Francisco Gomes 
Chanceller del-Rey de Castilla, Juan Simon Consel- 
lero del-Rey de Portugal, Diogo Garcia Cancellcr 
dei siello de la puridad del-Rey de Castilla, y D. 
Gonçalo Garcia Consellero del-Rey de Aragon. » ^ 

Celebrados os tratados, os três monarchas, 
acompanhados das rainhas e das suas nume- 
rosas cortes, dirigiram-se a Tarragona, onde o 
aragonez deu a todos a mais sumptuosa hospe- 
dagem, festejando-os pop .-alguns dias, com ban- 
quetes, torneios e saraus. 

Em toda esta jornada, se portou D. Diniz, con- 
forme asseveram seus chronistas, com grande 
generosidade, presenteando, largamente, os fi- 
dalgos estrangeiros. Conta-se que, vindo já de 
volta, e estando a comer, lhe dissera, gra- 
cejando, um cavalleiro de Castella, que de lodos 
se lembrara menos d'elle; el-rei, com semblante 
alegre, lhe mandou dar a meza, que tinha diante, 
que era de fina prata. ^ 

Diniz regressou ao reino, no mez de setembro. 

As pugnas, entre os diversos estados cbristãos 
da península, terminaram, com a sua arbitragem; 
as civis de Castella esmoreceram, f or então, de 
lodo ; quando depois a continua turbulência dos 
fidalgos as ia renovar, Fernando iv declarou 
guerra aos mouros, e todos se lhe reuniram, 
para a campanha santa. 

D. Diniz, concorrendo, por esta arte, para a 
pacificação das Hespanhas, ganhou grande autho- 
ridade, entre os monarchas do seu tempo, e deu 
notável lustre á pequena nação, a cujos destinos 
presidia. 

CAPITULO XI 

A nobreza 

Apenas D. Diniz regressou a Portugal, voltou 
aapplicar-se, com desvelado cuidado, á adminis- 
tração do reino. 

1 Arh. Nac. da Torre do Tombo, L. 5. d^el-rei D. 
Diniz, foi. !.— JWbn. Lus, ibid. c. 13. 

2 Mon, Lu9, ibid. c. 14. 



Um assumpto importante, que, desde que 
bira ao throno lhe merecera attenção e lhe 
ditara diversas providencias, apresenta-va-se, 
agora, sob um aspecto assas perturbador: — 
eram os privilégios e isempções da nobreza, que 
tomavam tão excessiva amplitude, que começa- 
vam a affectar, não só o equilíbrio das herar- 
chias sociaes estabelecidas, mas até o systema 
financeiro dos concelhos e do estado. 
' A dignidade de cavalleiro, além dasupermada 
qne Ihe^ era inhereqle, isemptava os que a pos- 
suíam de pagar as collectas impostas para as des- 
pezas dos municípios, e os tributos reaes para os 
encargos geraes do reino. Era portanto sollici- 
tada, com instancia, não só perante o rei, mas 
até junto dos ricos homens e altos dignatarios. 
Arrogavam-se elles o direito de a conferir, e 
usavam-no, tão frequentemente, que defrauda- 
vam, por modo sensível, o thesouro real, e sobre- 
carregavam os visinhos dos concelhos, a que os 
novos agraciados pertenciam, com as fintas de 
que estes se libertavam. Além d'isso, eram ele- 
vados a cavalleiros, indivíduos indignos de tal 
honra. 

Para obviar o mal, Diniz, em 4 de maio de 
1305, publicou em, Santarém, uma lei que de- 
clarava nullos e sem e£feito algum os graus 
de cavallaria, outhorgados por qualquer pessoa, 
que não fosse o rei. 

«E ora dizem a mim, — afirma a carta re- 
gia,— que alguns se trabalhão para serem caval- 
leiros, & nom por mim, roas por outrem que os 
não podem fazer Cavaleiros, nem quitâlos de di- 
reito, que a mim devem fazer, & do que peor be 
que cuidão por hi aver honra de Cavaleiros, & 
serem quites de exceiçoens & de direitos que 
devem a fazer com seu Conselho & dos direitos 
que devem a fazer a mim. E eu vendo que o di- 
reito manda que nenhum Cidadão, nem nenhum 
homem dos Conselhos de inha terra nom podem 
ser Cavaleiros se nom por mim ou por meu man- 
dado, & querendo em mim tal cousa guardar, o 
meu direiro, a vós o vosso, entendendo que vos 
poderia vir dano de taes Cavaleiros, & que se 
chamarião por esta razão por quites, & por isen- 
tos dos direitos que com vosco devem aver, 
mando & defendo, que nenhuns que por esta ma- 
neira forem Cavaleiros e o forem d*aqui em 
diante por outrem quem quer, & n&o por mim, 



Historia de Portugal 



81 



^e nom ajam a boora de Cavaleiros, nemsejâo 
escusados elles, nem seus filhos, nem aqudles 
que delles vierem dos direitos que devem faser 
a mini , & dos que en dever faser oom vosoo . . . » ^ 
Mas o facto a que obviou esta lei é apenas um 
ponto 4iMDÍmo, na historia da nobreza, doraote o 
Tasto è fecundo reinado de D. Diniz. 

Exige o dever d'historiador, que dediquemos 
ao estado d'esta classe, que t&o proeminente lo- 
gar occupou, na vida milit^, politica e social do 
paiz, algumas paginas do nosso livro. Uas, como 
sempre, procuraremos ser concisos. 

 nobreza militar e territorial portngueza, que 
formou o segundo braço do estado, era a mani- 
festação nacional, a descendente directa do feu- 
dalismo, que dominou, em quasi toda a Europa, 
desde o século ix até ao século xni. 

Na época em que nos achamos, a evolução 
natural e progressiva da humanidade principiara 
jâ, por toda a parte, a extincção d'esta fôrmá so* 
ciai. 

Combatido pela realeza e pelo povo, porque 
era rival da primeira e opressor do s^undo, o 
feudalismo sentia^se acossado, por todos os pon- 
tos; via queimados os seus castellos; cerceados 
os seus privilégios e isempçôes; demarcados e 
e restringidos os seus domínios; e enriquecidos 
e tornados livres pelo trabalho, ou levantados 
como inimigos, os colonos ou servos, que, du- 
rante séculos, lhe haviam pertencido, tão abso- 
lutamente, como as terras, os cavallos ou as ar* 
mas, que constituiam a sua fortuna. 

O feudalismo tivera, porém, no começo, razão 
lógica e impreterivel de existência; fora o unieo 
meio de sahir da barbaria e entrar na sociedade 
organisada, n'uma certa ordem relativa, que 
coostitue^ em grande parte, os melhores tempos 
da idade media, onde foi iniciada a civOisação 
moderna. 

Prova-o a universalidade, com que foi recebidq, 
não só de logar como de elementos que o adopta- 
ram. A egreja, os velhos municípios romanos, a 
própria realeza, tudo, mais ou menos, entrou na 
&rma feudal , tudo , por um momento histórico , foi 
reduzido a este fraccionamento social, a este sys* 
tema molecular politico, ligado por ténue laço 
federativo^ mal defenido, sem leis que o fortifi* 

t mn. Lm. R 6* L. IB e. 90. 

II VOL. — 11. 



J cassem e só mantido pelo interesse pessoal e 



pelo de casta* 

Não perscindiram a realeza da authocracia, a 
egreja do systema theocratioo, as communas da 
democracia; eram seus princípios fundamentaes, 
viviam por elles e para elles; mas adoptaram, na 
occasião, com os numerosos chefes dos conquis- 
tadores, o parcellamento feudal. 

A parte dominante da sociedade similhou a um 
grande exercito, que, pertendendooccupar intei- 
ramente um vasto paiz, que os inimigos podiam 
invadir, não se sabendo por que ponto, nem em 
que momento, nem com que forças, e que, cm vez 
de se concentrar n'uma posição, o que lhe tor- 
naria impossível o municiamento e a vida, — se 
divide em pequenos destacamentos de mais ou 
menos importância, occupa todos os logares de« 
fensaveis, fortifica- se n^elles, estabelece em torno 
a indispensável industria, — formando cadagrupo, 
com o correr dos tempos , uma sociedade distincta, 
mais ou menos importante, que perde, a pouco 
e pouco, a disciplina e obediência que anterior^ 
mente ligavam todo o exercito ao respectivo gene- 
ral, limitando-se â vida da localidade e vindo 
esta a prevalecer de tal modo, que cada parcella 
isto é, o solar feudal propriamente dito, o grande 
mosteiro, o municipio, tomam-se quasi indepeU'* 
dentes entre si, e chegam a ter uns para com 
os outros, posto que indefinidos e indistinctos, 
quasi os mesmos direitos e os mesmos deveres, 
que uma pequena nação independente tem para 
com as outras nações. 

Esta formula teve logo grandes vantagens 
sobre as sociedades agglomeradas da antigui^ 
dade e sobre a vida errante em grandes massas 
dos dominadores bárbaros; difundiu por toda a 
parte a população; deu às províncias, aos conce- 
lhos , aos burgos feudaes e monásticos a preponde* 
rancia politica, até ahi^ concentrada, nas cidades 
mais populosas, nas capitães dos reinos e dos 
impérios, ou nos grandes acampamentos milita- 
res. D'aqni resultou, o derramamento da vida, 
do trabalho e portanto da civilisação, por toa- 
dos 08 pontos; e proveio, ao mesmo tempo^ 
um systema geral de fortificações, de resisten* 
cia organisada, por toda a parte, que póz barreira 
invencível às invasões do norte e do meio dia da 
Europa, dificultando as conquistas, tomandchas 
impossíveis. 



82 



Historia de Portugal 



Eis o feudalismo, nas suas relações geraes ex- 
ternas; nas internas, tem também a sua luz, mas 
Dão tal que possa fazer obliterar os lados tene- 
brosos que o perderam. 

Do modo como nasceu, se deduz a sua exis- 
tência iatima. 

Conquistado, definitivamente, o império ro- 
mano pelos bárbaros do norte, os últimos invaso- 
res trataram de assegurar e gosar a preza, divi- 
dindo- a entre si. Desde os maiores até aos mais 
Ínfimos chefes, todos procuraram adquirir terras, 
onde se estabelecessem com as suas familias c 
os seus companheiros d'armas subalternos. 

A divisão, a sorte, a occupação, a delegação 
do chefe supremo, foram os principaes meios 
d'adquirir possessões, para os primeiros feudaes. 
Os domínios eram ás vezes uma província inteira, 
outras uma cidade, uma villa, ou simplesmente 
uma porção maicur oú menor de terreno, em que 
edificavam uma casa fortificada ou castello, junto 
ao qual se estabeleciam, em pobres choupanas, 
os colonos ou servos, que alli ficavam adstrictos. 

O senhor adquiriu, desde logo, sobre elles toda 
a jurisdicção, legislativa, administrativa, civil e 
penal, todos os direitos de soberano, dispondo da 
honra, haveres e vida dos colonos, absoluta e 
caprichosamente. D 'este systema resultou, em 
geral, um despotismo tão excesssivo em cada 
feudo, que a raça dos servos, isto é, dos que não 
eram guerreiros ou ecclesiasticos, a dos agricul- 
tores, commerciantes, industriaes, emfim o povo 
votou um tal ódio ao feudalismo, que se tomou a 
formula politica mais odiada e execrada de quan- 
tas são conhecidas na historia. 

D'e8te rancor profundo e hereditário na base 
veio mais tarde a fácil destruição da cúpula.- 

Mas, no meio de uma sociedade comprimida, 
composta de homens, sem a menor sombra de 
direitos políticos nem civis, o senhor foi obri- 
gado a viver concentrado no castello, com os 
seus soldados, reconhecendo-se superior a to- 
dos, irresponsável, sem authoridade que se lhe 
impozesse, porque o suzerano, se o tinha, era 
pouco mais do que um egual, um irmão mais 
velho, que estava longe, e nada governava, 
dentro dos seus dominíos. 

D'este estado tão excepcional do senhor do 
feudo devia, forçosamente, provir ao seu espirito 
um exagerado sontimonlo de superioridade, um 



orgulho desmedido e insolente, que, se por um 
lado o tomava intolerável e o veio a perder no 
futuro, por outro serviu ao moral da sociedade, 
para, do meio do geral abatimento das mas* 
sas, formar caracteres, com a dignidade própria 
do homem livre, com a independência, a cora- 
gem e a força necessárias aos rivaes dos reis, e 
que, n'esse sentido, podessem servir de exemplo 
aos cidadãos das nascentes democracias commu- 
oaes. 

A família também adquiriu, n'e8te systema 
politico, condicções de elevação, que serviram, 
por modo proficuo, á civilisação geral da hu- 
manidade. A vida reclusa e em communidade 
quotidiana do pae com os filhos e esposa, iso- 
lados, no meio de população inferior e hostil, 
deu á mulher uma nova e subida importância, 
cercando-a diurna espécie de culto cavalheiresco 
e puro; tornou mais íntimos e perduráveis os af- 
fectos vinculados pelo sangue, chegando n^este 
ponto a levar ao exagero o amor pela heredíta» 
riedade, realmente necessária para a defesa, 
manutenção e perpetuidade do fendo e da família. 

No castello feudal, desenvolveu-se, com a vida 
sedentária e o repouso, certa civilisação rela- 
tiva, impossível de se crear, eútre a miséria e 
penúria dos mdes trabalhos materiaes, ou nos 
acampamentos das tribus nómadas, ou dos exér- 
citos em guerra, como foi a cultura das letras, da 
poesia e das bellas artes, de que a edade media 
nos legou alguns preciosos monumentos. 

Grearam-se emfim, com o regimen feudal, já 
DO interior dos castellos, já pelas nmtuas re- 
lações dos senhores e familias nobres, senti- 
mentos elevados e generosos, como a abnegação, 
a lealdade, o heroísmo, que mil factos compro- 
vam na hísioría, e que produziram uma outra 
instituição, mais benéfica e mais pura do que o 
feudalismo, mas sua filha legitima, a cavallaria, 
que adiante apreciaremos. 

Todas estas vantagens, porém, não compen- 
sam largos séculos de desordem e profunda anar- 
chia de todos os elementos sociaes entre si, e da 
terrível pressão sobre o povo d'uma inextrmca- 
vel rede de tyrannos absolutos, resedindo, de 
mais a mais, nas próprias localidades, tendo por 
léí o arbítrio e o capricho, e sendo, pela maior 
parte, brulaes e sanguinários. 

Na sua origem histórica, os feudos, que não 



Historia de Portugal 



83 



deixavam de estar nos costumes primitivos dos 
povos germaaicos, estabeleceram-se, como vi- 
mos, já para a defesa dos paizes conquistados, já 
para premio dos chefes conquistadores. Tiveram 
por tanto, em geral, a natureza de vitalícios, 
amovíveis e revocaveis. 

Desde o século v até ao ix, os senhores feu- 
daes diligenciaram torual-os hereditários, conse- 
guindo, depois de grandes luctas, que, em 877, o 
rei de França, Carlos, o calvo, reconhecesse, so- 
lemne e publicamente, a hereditariedade, náo só 
dos pequenos feudos, que eram propriedade par- 
ticular, mas até dos governos e posse de provín- 
cias ou grandes circumscripções, como ducados, 
condados, baronias e outros, que não passavam 
de magistraturas individuaes, ou commandos po- 
líticos, e que foram, por aquelle acto, convertidos 
em pequenas soberanias, quasi independentes, 
pertencendo, em perpetuidade, a famílias deter- 
minadas. 

Data d'este facto, importante e singular, o esta- 
belecimento definitivo do feudalismo, na Europa 
central, e egualmente da nobreza hereditária, 
instituições que então se identificaram, e a que 
a arte heráldica, estudada e desenvolvida até á 
paixão, deu formulas e symbolos determinados 
e methodicos, e dotou com terminologia e ritual 
especíaes. 

Dominaram, então, a Europa a riqueza terri- 
torial e a força, reunidas nas mãos da casta 
militar, constituindo uma vasta herarchía de pro- 
priedades de raiz, d'importancíá diversa, confe- 
deradas entre si por différentes graus, e possuídas 
por verdadeiros soberanos, mais ou menos po- 
derosos, desde o simples cavalleíro, dono de pe- 
queno solar forteficado, até ao rei, senhor de 
cidades, víllas e castellos, do território, relati- 
vamente vasto, do feudo real. 

Havia senhores feudaes, completamente, isen- 
tos de qualquer obrigação collectiva; outros es- 
tavam sugeitos a suzerano, e tinham, por dever, 
— auxilíal-o na guerra, acompanhando-o pes- 
soalmente e com determinado numero de ho- 
mens d'armas, — e pagar-)he pequenos tributos 
de dinheiro, géneros ou hospedagem. O vas- 
sallo, ao receber o domínio, pela investidura 
ou pela herança, prestava homenagem e jurava 
fé ao suzerano de o auxiliar contra tudo e con- 
tra todos. 



Mas estas obrigações eram exteriores ao feudo, 
nada tinham com os servos de cada domínio; 
sobre estes gosava o senhor de direito absoluto 
e eram para elle corbeabks et taillables á merci, 
de la tèíejusqu'a\AX pieds. 

Contra este despotismo houve, durante o século 
XII, constantes insurreições dos colonos campezi- 
nos. Estavam desunidos, mal armados, ignora- 
vam o manejo das armas, não tinham fortalezas 
a que se abrigassem , nos revezes e contra numero 
superior de inimigos, foram portanto vencidos e 
esmagados. 

Mas as cidades feudatarias levantaram-se tam- 
bém, por sua vez. Aqui as massas populares eram 
maiores; se, n'uma occasião de surpreza, podiam 
do alcácer expulsar o senhor, cerravam as portas 
das muralhaã e defendíam-se, facilmente, ao 
abrigo das torres e dos muros; alem disso, nas po- 
voações importantes, a industria, o commercío, 
a riqueza nasceram e avigoraram-se, com o tra- 
balho e o tempo; a instrucção conseguira baixar 
ás classes inferiores: o povo, portanto, poude ar- 
mar-se melhor e alcançar maior educação militar. 

Assim, entre as cidades e o feudalismo, a 
luta adquiriu terrível gravidade; prolongou-se, 
com sorte varia, por largo tempo, tomando fei- 
ções diversas e diversos pretextos. As cidades 
foram-se a pouco e pouco libertando, constíluín- 
do-se em communas, com seus códigos iocaes 
e especialíssimos, e, ligadas por fim a um au- 
xiliar poderoso, a monarchia, venceram o feu- 
dalismo. Este, tendo por base o isolamento entre 
si e não podendo jamais estabecer a perfeita uni- 
dade de acção, não dispunha de meios para se 
oppor, com vantagem, á realeza, que centralísava 
as forças das communas, já enriquecidas e ins- 
truídas. Alem disso, alistados nas cruzadas, os 
nobres principaes partiram para a Palestina, per- 
dendo, com a ausência e as dividas da guerra, 
grande numero de solares. 

Dois outros poderosos inimigos combateram 
também o feudalismo e concorreram para o seu 
anníquilamento moral e legal: — foram a egroja 
e os jurisconsultos, o direito canónico e o direito 
romano, que, desde o século xii, alcançaram, ra- 
pidamente, grande preponderância. A egreja em- 
pregou contra elle todas as suas armas; o direito 
romano revindicou para a coroa toda a soberania 
diffundida pelos senhores feudaes. 



84 



Historia de Portagal 



Oâ reis, authorisados com a legislação cesá- 
rea, e tendo jâ chamado a si as forças geraes dos 
respectivos paizes, inquiriram das terras e ju- 
risdicção dos senhores, reduzindo-as aos justos 
limites, mandando arrazar numerosos castellos, 
revogando grande numero de doações e prohi- 
blndo aos nobres mais poderosos o direito de 
conferir graus de cavallaria, como vimos, no 
principio d'e8te capitulo, fazer a D. Diniz, com 
a lei de 4 de maio de 1305. 

Mas o feudalismo vivera séculos e tinha raí- 
zes, simultaneamente, alastradas e profundas. 
Havendo perdido o vigor dos seus melhores dias, 
obrigado a reconhecer no rei, não já um igual, 
mas um senhor, entrando com as suas proprie- 
dades nas novas nacionalidades definidas, sugeito 
às leis geraes, vergando sob o absolutismo mo- 
narchico da primeira e segunda renascença, — 
dentro dos seus domínios, opprimia e quasi es- 
cravisava ainda o povo, e, de quando em quando, 
em repto aos reis, erguia altiva a cerviz dos sé- 
culos medievos. Então, a monarchia decepava- 
lh'a, não como outr'ora, com a própria espada, 
nos campos de batalha, ou nos assaltos aos castel- 
los senhoriaes; mas sobre aparatosos e fúnebres 
cadafalsos, com o frio e covarde cutello do algoz. 

Foram, porem, as gloriosas revoluções liberaes 
dos fins do século passado e já do actual, como 
entre nós, que conseguiram arrancar inteira- 
mente do solo das nações cultas as raízes d'e5ta 
instituição, que se tornara exacranda; foram el- 
las que deram a liberdade civil e politica a mi- 
lhões de homens, que ainda viviam nos restos da 
servidão do velho feudalismo; foram ellas emfim 
que de todo o anníquilaram. 

Eis, em rápidos traços, a ideia synthetica da 
philosophia e da historia do feudalismo, nos pon- 
tos principaes da Europa, onde se estabeleceu. 

É perfeitamente applícavel a Portugal, tendo 
em attenção o tempo, o logar e o modo da fun- 
dação da monarchia. 

Quando Henrique recebeu d'Aflbnso vi a mão 
de D. Thereza, o titulo de conde e o governo de 
Portugal, este facto não foi mais do que a inves- 
tidura d'um grande feudo, tornado, em breve, 
hereditário, e que só reconheceu a soberania da 
coroa de Gastella e Leão, emquanto as círcums- 
tancias da península e a debelidade das pró- 
prias forças a isso o obrigaram. 



Logo, poretii, que o poude conseguir, gover- 
nou-se independentemente, e formou um reino 
sobre -si. Ainda assim, foi procurar na santa b6 
uma suzerania,-^que, por distante e espiritual, 
não era tOo onerosa e humilhante, — que tinha 
a força suíficiente para o proteger contra o antigo 
senhor, — e de cuja preponderância, não obstante, 
se libertou, egualmente, apenas poude. 

No próprio território do novo condado, encon- 
trou D. Henrique alguns nobres estabelecidos ou 
em castellos, levantatlos no meio de propriedades 
ruraes próprias, com pequenos grupos de colonos, 
—o que era raro, pela proximidade dos sarrace- 
nos e frequência das suas correrias; ou em vilias 
e cidades, que haviam recebido por doação, e 
que, posto sugeitas ã coroa de Gastella directa ou 
indirectamente, governavam com a jnrisdicção de 
senhores e soberanos. 

Alguns doestes nobres pertenciam á raça mosa- 
rabe, que, pela riqueza própria, ou por terem coad- 
juvado os conquistadores das Astúrias a expulsar 
08 mouros, haviam sido elevados a esta saprema- 
cia ; os mais d'elles, porem, eram os chefes dos 
soldados asturianos, que, tendo libertado com a 
espada o território dos dominadores árabes, ha- 
viam dividido entre si a presa, ou por acto pró- 
prio, ou dos monarchas a cujo sceptro obedeciam. 
Tal qual, como succedera no resto da Hespanha, e 
sobre tudo nas Gallias c na Germânia, os dois pai- 
zes onde, mais vigoroso existiu o feudalismo. 

Os nossos primeiros monarchas, continuando 
a guerra contra os sarracenos e dilatando o ter- 
ritório, seguiram o mesmo systema, que, como 
vimos, era o melhor, senão o único possível, para 
obstar a novas invasões e defender, com vigor e 
em todos os pontos, os paizes adquiridos. 

Ha, porem, differença grande, entre o feuda- 
lismo portuguez e o da Gallia ou da Germânia. 

Este estabeleceu-se, logo depois da conquista 
dos bárbaros; porem levou a avigorar e a robus- 
tecer, desde o século v até ao ix; conservou-se 
ainda no apogeu até ao século xiii, mas já cm 
luta; depois decahiu rapidamente, substiluindo- 
se-lhe a unidade monarchica. 

O feudalismo portuguez começou, á propor- 
ção que o território ia sendo revindicado aos 
sarracenos; teve até ao século xm, até a Af- 
fònso III, o inimigo sempre em frente, sempre 
ameaçador, podando, de um momento para o ou- 



Bâitmia' cto- FvitQigttl 



86 



tro, apparecer em numero írresístivel, com os 
soccorros da Africa, como ainda succedeu para a 
visinha Castella, no século seguinte, em tempo 
do nosso AfTonso iv, apavorando toda a península. 
D'este perigo, imminente e grande, Tinha a indis- 
pensabilidade da unidade militar, da concentra- 
ção nas m&os dos monarchas, — que, para o serem , 
foram sempre batalhadores e valorosos, — das 
forças guerreiras da recente monarchia, vinha era*- 
fim a necessidade do direito, que, n'este paiz, foi 
constantemente reconhecido aos reis, de chamar 
a todos para a defesa da pátria e de commandar a 
todos, durante a guerra; — d'ahi proveio aos mo- 
narchas portuguezes uma suzerania geral e per- 
manente sobre todos os feudos, suzerania que, 
durante séculos, não tiveram completa os reis 
de França, nem os imperadores da Allemanha. 

Quando em Portugal terminou a guerra con- 
tra 08 sarracenos, e os nobres poderiam, auxi* 
liados pela paz, augmentar a soberania própria, 
obliterando a real,— já se eslava nos fins do século 
xiii; as idéas haviam realisado uma larga evo- 
lução; o feudalismo decahia em toda a Europa; 
as communas robusteciam-se por toda a parte; o 
direito romano cesáreo começava a predominar 
fortemente, díffundido pelas novas universidades, 
e procedia, na legislação de todos os paizes, à re- 
volução monarchica. Estava-se, strictamente, no 
pequeno período communal: o feudalismo agoni- 
sava no passado,— o burgucz do municipio en- 
saiava, mas ignorante e por isso fraco e próximo 
a ser esmagado, a forma perfeita do municipa- 
lismo e da democracia, no terceiro estado; — a 
realeza, coadjuvada pela força insciente doeste 
e sendo jâ vencedora da nobreza feudal, levan- 
tava-se robusta, para dominar absoluta, n'um 
futuro próximo. 

O feudalismo portuguez devia portanto resen- 
tir-se da mina geral da instituição, da hora e 
meio histórico em que apparccia, dos elementos 
fortes e antagónicos que o rodeavam. Quando 
pretendeu levantar a fronte do feudalismo germâ- 
nico e franko, sentiu* se abafar entre a multidão 
dos populares que o cercava^ e esmagar pelas 
pezadas manopolas dos reis, que sustentavam 
n'uma a clava vencedora do guerreiro, e na ou- 
tra a legislação unitária dos imperadores roma- 
nos, tornada vigente e indiscutível. 

Os nobres portuguez^ tiveram, porem, do 



feudalismo a feição mais caracterfstict. Dentro 
dos seus feudos ou domínios, possuíram, qaasl 
todos elies e por muito tempo, jurisdicção abso-* 
luta sobre os seus colonos. Por iseo, affirmamos 
que o feudalismo existiu verdadeiramente entre 
nós, nas relações dos senhores para com o povo; 
mas aquelles nunca tiveram a independência ou 
quasi independência para com o rei dos grandes 
feudaes fraokos e germânicos, durante o auge do 
feudalismo, — porque, como dissemos, sempre os 
nobres portuguezes foram obrigados, pela força 
das circunstancias, a reconhecer a supremacia 
militar e politica do monarcha, cuja eficácia de 
acção, alem de tudo, era, poderosamente, auxi- 
liada pelos estreitos limites de Portugal. 

Também, aqui, foi um pouco diversa a termi- 
nologia do feudalismo e da nobreza. 

Da sua riqueza territorial, da sua preponderan^ 
cia social e politica os nobres, que eram senhores 
de terras importantes e de povoações sobre af 
quaes tioham jurisdicçâo, denominaram-se rn 
cos-homensy durante os primeiros séculos dá 

monarchia. 

«Ricos ornes, segund coslumbre de Rspanha, 
son Uamados los que en las otras tierras dizen 
condes, o baronos. » Definem as Âlfensinas P. 4; 
tit. 25. leg. X. 

Deviam ser dignos da pátria, e aptos para 
partilharem da governação publica; e asèaz ricos 
e opulentos, para, á sua custa, manterem gente 
armada com que a defendessem. 

É originário dos godos o termo rico-homem; 
foi empregado, na significação de que tratamos, 
logo que principiou a dilatar^se a heróica mo- 
narchia Asturiana. Durou, em Portugal, até D. 
Manuel, sendo então substituído de todo pelos 
actuaes lilulos nobiliarchicos, que, havia muito, 
existiam simultaneamente. 

Suas mulheres chamavam-se ricas-donas, e 
tinham direito ás maiores honrarias. ^ 

Os rkos-homens eram, apoz o rei, os primeiros 
dignatarios seculares do reino. Em compensação 
do isolamento independente e autónomo do se- 
nhor feudal franco, o rico-homem portuguez fazia 
parte, permanentemente, do conselho real, econ- 
firmava, como vimos, os documentos régios; 

1 Santa Rosa de Viterbo— J?/tictd. verb: rico ho- 
mem. 



86 



Hsfttoria de Perti^ral 



eonstítaía nas còrles, o estado oú braço separado 
da nobreza; exercia os grandes cargos militares 
e politioos do paiz; tinha a faculdade de conceder 
graus de cavalieiria; só elle podia levantar tro- 
pas e conserral-as, usando, por distinctivo doeste 
direito, a insígnia nobilíssima do pendão e da 
caldeira. 

Os filhos dos ricos-homens tinham o nome 
genérico dinfanções. 

É Taga e ainda incompleta a signifiação d'esta 
palavra. 

Geralmente, reppelle-se, por errónea, a defi- 
nição que do termo dá uma sentença decretada 
em 3 de julho de 1 486, no reinado de D. Manuel, 
que diz que os infançòes «eram sobrinhos do rei, 
ou que foi, ou que era, ou que havia de ser.» 
Innumeros documentos provam contra tal asser- 
ção. 

Menos fora da plausibilidade histórica parece 
o 8upp6r-se que foram chamados infançòes todos 
08 soldados que se reuniram ao infante Pelagio, 
na Cantábria, para a guerra contra os árabes, e 
que o titulo continuou, como distincçio nobi- 
liarchica, nos descendentes d^esses heroes e 
nos d'aquelles que, depois, se tornaram illustres 
pelos seus feitos marciaes, mas que não subi- 
ram á cathegoria de magnate, ou rico-homem; 
dando-se emfim ao termo significado igual ao 
que depois se ligou á palavra fidalgo. 

Outros porem, derivam infançâo da voz goda 
fante, julgando-a também origem da palavra in- 
fanteria, com que se designam as tropas de pé; e 
que anteriormente á inva8do dos sarracenos jà 
nas liespanhas havia infançòes^ com o nome de 
Gillonarios que, entre nós, tiveram, mais tarde, 
a denominação de donzeis. 

Mas qualquer que fosse a origem da palavra, 
é indubitável que a legislação de toda a Penín- 
sula a toma na significação que lhe damos. Âs 
Leis das Partidas áizem que infançòes «são fidal- 
gos, mas não tidos em conta de grandes, posto 
que procedentes de antiga linhagem, e não po- 
dendo usar d*outro senhorio, que lhes não fosse 
outhorgado pelos reis ou imperadores. » 

Nos foraes de algumas povoações nossas, vô-se 
que os infançòes eram inferiores aos ricos ho- 
mens, mas tinham um foro de fidalguia dístíncto. 
Quando esses códigos pretendiam elevar, nas ca- 
ihegorias sociaes e privilégios que lhes eram 



inhwentes, os seus moradores e drfensores, esta- 
beleciam que os indivíduos que formavam a 
peonagem, ou infanteria do concelho fossem tão 
considerados e isentos, como os cavalleiros vii- 
lões d outras terras, e que os cavalleiros villõea 
tivessem o foro dHnfançâo. 

De tudo isto se deve concluir que os infançòes 
eram filhos, ou descendentes directos ios ricos- 
homens. Apenas sabidos da infância, entra- 
vam no serviço militar dos grandes castellos 
senhoriaes, do alcácer régio, ou dos campos de 
batalha, como pagens e escudeiros, aspirando 
pela sua lealdade, valor e intelligencia ao grau 
de cavallaria, e sendo, frequentemente, empre- 
gados em commissões difficeis, tanto militares 
como politicas. ^ 

O grau ou honra de cavalleiro, tão estimado en- 
tre a antiga nobreza, e que, durante toda a idade 
media, foi a preocupação de heróicas gerações 
de batalhadores, havia sido, pelos godos e mais 
raças do norte, adoptado da velha civilisação ro- 
mana. 

Desde o século vi da fundação de Rómulo, os 
cavalleiros constituíram uma classe numerosa 
e importante, intermédia entre o patriciado e a 
plebe. Só podiam ser cavalleiros, no império, 
aquelles que possuíssem pelo menos 400:000 
sesterces. Ck)mo, em Roma, o estado era tudo, 
o cavalieiro romano gozava o direito de ter um 
cavallo sustentado pelo thesouro publico; ao 
contrario, na sociedade medieva, para se ser 
cavalieiro, ainda que villão, era necessário man- 
ter, á própria custa, o cavallo com que se ser- 
visse na guerra. 

Os cavalleiros romanos usavam de anel de 
ouro; tinham, nos jogos públicos, os quatorze 
primeiros logares. Nas guerras, occupavam os 
postos mais elevados, depois dos patrícios; na 
paz, estava a seu cargo a administração dos 
bens da nação e dos rendimentos do fisco. 

Deu-lbes Graccho a administração da justiça; 
retirou-lh'a Syila; restituiu-lh'a Pompeu, juntan- 
do-lhes os senadores e os tribunos do thesouro. 

Depois da occupação do vasto império romano 
pelos bárbaros, estes — apenas se estabeleceram 
definitivamente nos paizes conquistados, e attin- 
giram certo grau de cultura intellectual e moral, 

1 Elncid- cU. verb. infançom. 



Historia 4« Portagal 



8? 



— empenharam-se, mais individual do que col- 
lectivamente, em defender esses paizes eem as- 
segurar, no meio da geral conrusão em que a 
Europa havia cabido, uma sombra ao menos 
dos principios eternos da justiça, de protecção 
aos orpbãos e ás viuvas, de respeito para com as 
mulheres e de obediência aos chefes e aos reis; 
e crearam o grau de cavalleiro, para honrar todos 
aquelles que, em empenho tão santo, dessem 
provas dignas de distíncção. 

Os filhos dos mais nobres heroes, dos cavai- 
leiros mais notáveis, dos senhores feudaes mais 
poderosos no centro da Europa, dos ricos homens 
mais preponderantes nas Hespanhas, os filhos 
emfim dos próprios reis aspiravam a essa hon- 
ra, indispensável a todo o gentil-homem, ao sa- 
hir da juventude. 

Gosavam os cavalleiros, geralmente, de gran- 
des privilégios. Só elles podiam, na guerra, tra- 
zer bandeira, — e coUocal-a, nas torres das suas 
habitações ou castellos, — vestir armadura dou- 
rada, — pendurar ao pescoço collar de ouro, — 
usar de emblemas, nas couraças e escudos, — e 
tomar parte noa torneios, concorrendo aos seus 
prémios. 

Ao receber o grau de cavalleiro, o agraciado 
prestava juramento de combater, por toda a parte, 
a injustiça; defender as donzellas, as viuvas e 
as pessoas miseráveis; de ser leal ao rei ou se- 
nhor cujo era vasaallo, e fiel â dama eleita pelo seu 
coração. O grau era-lhe conferido com numerosas 
soiemnidades tradiccionaes ^; frequentemente, no 
campo de batalha, apoz um feito de valor distin- 
cto, ou ao receber o encargo d'uma commissão 
perigosa; era também outhorgado a titulo de ga- 
lardoar grandes serviços políticos e merecimentos 
próprios, ou de antepassados iUustres. 

A distincção de cavalleiro er^, verdadeira- 
mente, o grau genérico de nobreza mais subido: 
o rica-homem e o próprio rei não eram mais do 
que cavalleiros. 

Na singular jurisprudência penal medieva, em 
que, frequentemente, as penas se calculavam a 
dinheiro, o homicídio no cavalleiro era taxado 
em grande preço. Vingava 500 so(do$, era a 
phrase legal, para designar que quem o matasse 
era obrigado a pagar 500 soldos. Augmeatav^. a 

t Ord. Afí. L. i. Tit. 6a 



pena, chegando a 1:000 soldos, quando o caval- 
leiro assassinado era rico-homem da primeira 
grandeza do reino, como conde, ou outro ele- 
vado dignatario. 

Inferiores aos ricos^homens e cavalleiros ha- 
via ainda os escudeiros e os pagens; eram in* 
fançõeSj jovens fidalgos, filhos de ricos-homens^ 
ou de cavalleiros, mas de linhagem. Os dois 
titulos designavam as diversas graduações d'a- 
prendizagem, d'iniciação no serviço militar, ou 
politico, para chegar a receber o grau de ca- 
valleiro. Os pagens nobres eram quasi creanças, 
e estavam muitas vezes ao serviço das ricasr 
donas e princezas. Os escudeiros eram, em regra, 
verdadeiros soldados, usavam escudos brancos 
e sem emprega. Seguiam, como escolta espe- 
cial, durante a guerra, o rei, o rico-homem, 
ou algum cavalleiro illustre. Durante a paz, es- 
cudeiros e pagens residiam nas moradas dos 
seus chefes militares ; recebiam ahi a educação 
da época, e formavam o séquito, a córte do alto 
dignatario,. á qual muitas vezes pertenciam tam- 
bém distinctos cavalleiros. 

Ghamavam-se vassallos todos estes persona- 
gens subalternos, que se ligavam aos reis e 
ricos-homens principaes. 

Ser vassallo dCeUrei tornou-se, nos primeiros 
séculos da monarchía, um titulo de verdadeira 
distincção, só concedido a fidalgos de linhagem. 
Eram vassallos d^el-rei não só escudeiros e ca- 
valleiros, mas também poderosos ricos homens, 
condes, magnates e, por vezes, infantes estrau- 
geiros, como temos visto no decurso d'este Li- 
vro. A qualidade de vassallo del-rH não inhibia 
ter vassallos próprios, isto é, que o vassallo do 
monarcha fosse senhor, ou dominus par§ com 
outros indivíduos. 

O vassallo del-rei recebia do paço designada 
contia, que lambem se denominou inaravedis,^ 
para sustentação própria e dos homens d'armas 
que tinha a seu soldo e que era obrigado a apre** 
sentar para a guerra. As contias chegaram a ser 
tão numerosas e avultadas que, mais tarde, em 
tempo de D. Fernando, foi preciso limital-as aò 
filho primogénito de cada fidalgo e fixar a sua 
importância. ^ 

^ A. G. do Amar^ Memoria 5.* para hi$t. da leg. 
e costumes dê Portugal. 



1^ 



Historia de Portugal 



' Os vassallos militares tiveram, primeiro, a 
designação de miles ou milites, termos que, in- 
distinctamente, se empregavam, para indicar 
também os cavallciros e escudeiros nobres. 

Note-sc, que, n^este capitulo, só falíamos da 
TSobreza propriamente dita, dos fidalgos, palavra 
•que se principiou a usar, no reinado anterior 
d^Affonso III, e que, litteralmente, queria dixcr 
filho áalguem, mas no sentido d'esse alguém 
ser distincto, notável, graduado por seus feitos 
ou stirpe. 

Da nobreza cominunal, popular ou villan já se 
tratou, n'e8ta obra no logar próprio. ^ 

Continuemos pois o assumpto. 

De todas as faculdades que os nobres portu- 
guezes gozavam, a mais importante e a mais 
fundamental do seu poderio era, como nos ou- 
tros paizes da Europa, a de fundar^ ou adquirir, 
por herança, ou doação regia, dominios em que 
tivessem jurisdicção e soberania, isto é possuir 
feudos. Estes chamaram-se, em Portugal, soiflfus, 
coutos e hoitraSj termos, que, posto na singni- 
ficaçâo geral se confundam um pouco, estão 
longe de ser synonimos. 
' Solar, no sentido restricto á nobreza, era a 
residência senhorial do nobre; nSo a casa, o pa- 
lácio ou caslello simplesmente, mas a edificação 
em que morava, com as quintas, herdades e ca- 
saes que lhe pertenciam e cultivava. Recebiam o 
nome de solarengos, solar egos y solanagos, ou so- 
lúriengos, os indivíduos, soldados, trabalhadores, 
creados, colonos ou servos, que no solar serviam 
o senhor, quer nos affazeres militares e domes- 
'ticos, quer na lavoura dás suas terras. * 

Durante a laboriosa e eiteosa pugna contra 
'òs sarracenos, qualquer cavalleiro que, por al- 
gum titulo, fora das villas e- cidades, adquiria 
terras, e queria n'ellas estabelecer residência, 
cercava-a de fortificações, mais ou menos in> 
portantes, segundo as suas posses. 

D'aqui a rasão, portugueza, por que os primi- 
tivos soterres eram geralmente acasteilados; os 
proprietários haviatn herdado o uso de seus avós 

1 Hist. de Port. vol. !.• do sr. António Ennes, 
pag. 126. 

* Cit. Eluc, V. «o/ar.— Mem. S.» át—Foraes de 
'Aguiar da Beira, KlasteHo Branco, Porto de Moz, 
Évora. etc. 



da Germânia; em toda a Europa se propagara a 
tradicção; mas, para âquem dos Pyríneos, o mo- 
tivo era mais instante. Tomada aos árabes qual- 
quer posição, para a sustentar com probabilidades 
de segurança, era uecessario rodeal-a de fossos 
c muros, que a pòzessem a coberto das correrias 
e surprezas. Os mesmos sarracenos tinham le- 
vantado, sobretudo junto das povoações, muitos 
doestes castellos, que, depois, se tornaram se- 
nhoriaes. 

Expulsos, porém, os mouros e estabelecida a 
paz, tornaram-se desnecessárias tantas fortifica- 
ções; e bem depressa serviram aos fidalgos, 
seus proprietários, para os animarem á discór- 
dia com 06 visinhos e emulos, e para, peor do 
que isso, os abrigarem, quaes ninhos d'aguia8 
malfazejas, nas devastações e rapinas, que fa- 
ziam aos transeuntes e aos lavradores dos arre- 
dores. 

Assim, quando a expulsão dos mahometános 
se concluiu, os reis limitaram a faculdade de le- 
vantar fortificações nos solares aos nobres mais 
illustres, pelo sangue e serviços; mais tarde a 
concessão tornou-se pessoal e por mui raro pri- 
vilegio. 

Foi a estas restrictas condicções, que a redu- 
ziu- D. Diniz. Já o vimos uma vez, â frente de 
hostes numerosas, combater seu irmão D. Af- 
fonso, por que, na viila de Vide, p^rtendia 
erguer muralhas e tornai-a praça forte. E vel-o- 
hemos ainda, em 20 d'outubro de 1322, conce- 
der a Hem Rodrigues de Vasconcellos licença 
para levantar uma casa forte, no couto de Pe- 
nagate, perto de Braga, para se defender e a 
seus filhos € mulher. 

Tendo este fidalgo seguido o partido de el*rei 
contra a rebeldia do fítho D. Âffonso, fechara ao 
infante as portas de Guimarães, de que era alcai- 
de-mór, e resistira denodado, malquistando-se, 
por este feito, com muitos nobres d^aquella pro- 
víncia, que proseguiram, depois, nas assuadas e 
afrontas, contra os partidários leaesaovelhorei. ^ 

A coiioessão era tão excepcional já a ette 
tempo, que, posto satisfazer a uma necessidade 
imposta pelas pugnas civis qoe perturbavam o 
reino, foi authorgada em premio da defesa de 
Guimarães, cuja importância, convinha a D. Di- 

1 ilíon. Las. P. 6 L. 19 o. 97. 



Historia de Porti^^ 



S9 



níz encarecer, não tanto pelo effeito militar, 
como pelo boip e salutar exemplo de lealdade ao 
rei, qae dera Hem Rodrigues. 

Com o tempo, tornaram-se ainda mais raras 
taes concessões; amiudaram-se, porem, no rei- 
nado de D. Fernando, em que a fraqueza do mo- 
narcha deu ensejo aos nobres, para recuperarem 
privilégios já obsoletos e, voltarem ás suas ante- 
riores demasias. 

Mas Diniz não se limitou a prohibir novas 
edificações, ordenou até que fossem arrazados 
muitos dos castellos existentes. Estas providen- 
cias, que coincidem com outras de que adiante 
trataremos, estavam nos intuitos do monarcha, 
aconselhava-as o espirito do direito romano, que 
pricipiava a dominar, mas foram também provo- 
cadas pelos factos, nasceram das circumstancias 
do tempo, dos erros commettidos pela classe con- 
tra a qual eram ditadas, como succede sempre 
com as grandes reformas sociaes, com a substi- 
tuição de instituições já anachronicas por outras 
aperfeiçoadas e modernas, vindo a ruina d'aquel- 
las mais dos vicios ingenitos, e erros dos partidá- 
rios, do que dos esforços adversos. 

Posto que a politica, relativamente iUustrada, 
do governo de Àffonso iii auxiliava os conce- 
lhos a augmentarem, de dia para dia, as suas re- 
galias e authonomia local, e ao mesmo tempo 
reprimia, com certo vigor, os excessos de toda a 
ordem dos ricos homens e cavalleiros; — as dis- 
senções violentas entre o estado e a egreja, e o 
longo encerramento do imperante, no estreito re- 
duto do paço, não podiam deixar de enfraquecer 
o poder real e dar apropriada occasião ás turbu- 
lências dos nobres, que, afifeitos á guerra, desde 
o berço, não sabiam que fazer, durante a paz, das 
armas que tinham nas mãos, e por isso as vol- 
tavam contra naturaes e parentes. 

Quando Diniz subiu ao throno, a concórdia com 
a egreja, as esperanças de um novo reinado que 
BB iniciava, as repetidas visitas do monarcha ás 
provindas, e até mesmo a sua mocidade e modos 
affaveis aquietaram, por um momento, todas as 
perturbações; as malquerenças, os ódios e as vin- 
ganças, entre as famílias nobres, como que cele- 
braram tréguas, para darem logar a uma especta- 
tiva cheia de confiança pelo futuro governo do 
joven rei. 

Para que esta tranquilidade durasse» se não 
n voL.— 12. 



desvanecessem em breve tão geraes esperanças, 
se angariassem partidários e captivassem os âni- 
mos, e talvez também impellido pela generosi- 
dade própria dos verdes annos, inaugurou Diniz 
a sua administração, com numerosas doações aos 
nobres de terras e governos. 

Mas, como, na falta de inimigo estrangeiro que 
obrigasse á união, as discórdias intestinas eram 
consequência necessária da organisação feudal, 
em poucos annos renasceram as antigas dissen- 
ções, e em diversos pontos do paiz recomeçaram « 
a apparecer bandos armados, capitaneados por 
fidalgos, que se gladiavam entre si, atacando os 
solares um dos outros, perturbando a tranquilei- 
dade da nação e causando grandes perdas de vi- 
das e fazenda. 

Estas discórdias eram porém o estado normal 
da sociedade, não só na península, mas em toda 
a Europa; duraram até ao estabelecimento defini- 
tivo do absolutismo monarchico e dos exércitos 
permanentes, factos importantes e, relativamente, 
modernos. 

Mas, durante este longo reinado, além das ver- 
dadeiras guerras intestinas, que D. Diniz foi obri- 
gado a sustentar contra seu irmão e filho, e que 
tinham no fundo a mesma causa, — as discórdias 
entre os nobres chegaram, por vezes, a provocar 
taes escândalos e damores, que o monarcha 
viu-se coagido a intervir n'ellas directamente. 

Logo em 1283, tornou-se indispensável atten- 
der ás graves desordens que se deram entre 
Vasco Pires Farinha e seus sobrinhos Vasco, 
Esteves e Lourenço Esteves, sobre o senhorio 
da villa de Góes, que aquelie possuia, e de que 
estes pretendiam esbulhal-o. 

Levantaram-sebandos d'uma e outra parcialida- 
de: devastavam a comarca; e feriam combates en- 
carniçados de que resultavam muitas mortes. Isto 
durou largo tempo, sem resultado algum deffiniti- 
vo , affligindo , por todos os m odos , os povos circum- 
visinbos, que reclamaram a protecção d'el-rei. 

Passou D. Diniz a Coimbra, no melado do in- 
verno; chamou os chefes dos bandos revoltos, e 
levou-os a nomearem árbitros que, amigavel- 
mente, decidissem a contenda. 

Publicou-se a sentença, em 6 de janeiro de 
1284, na sala do capitulo do convento de S. 
Domingos d'aquella cidade. Vasco Pires foi con-* 
demnado a entregar a seus contendores 4:500 U- 



90 



Historia de Portugal 



bras de moeda velha portugueza e varias herda- 
des que possuía fora do termo de Góes, e a 
mandar dizer setecentas missas por alma dos 
infelizes que, em tão mesquinhas pugnas, ha- 
viam morrido, do bando contrario; seus sobri- 
nhos foram obrigados a ccderem-lhe todos os 
bens e direitos que tivessem na viila de Góes e 
seu termo, para clle e seus herdeiros, e a faze- 
rem cantar trezentas missas, de suffragio pelos 
que tinham sucumbido no bando de Vasco Pires. 

Da parte piedosa da sentença, v<i-se que não 
deviam ser poucos os mortos, que resultaram da 
luta; e também que os frades, em cuja casa se 
julgara o pleito, não esqueceram o pé d*allar. 

Foi a decisão conQrmada por D. Diniz, em 12 
do mesmo mez, e depois a ractificou AfFonso iv. 

Apezar d'este facto provar, com evidencia, a 
facilidade de se decidirem taes questões, pelo jul- 
gamento pacifico de juizes imparciaes, quando 
tão espinhosas eram de resolver pelo processo 
tumultuoso e sanguinário das armas, as dissen- 
ções não só não díminuiram, mas augmentaram 
por tal modo, que provocaram do governo pro- 
videncias coercitivas c rigorosas. 

Em 1301, Lopo Gonçalves d'Abreu, ã frente 
de muitos parentes e partidários, travou contenda 
com Fernão Affonso de Quintella, que se ligara 
aos Novaes, a Gonçalo Pires Cabelos e a ou- 
tros, e, constituídos em bandos adversos, per- 
turbaram e assolaram o paiz. 

Depois de muitos esforços, conseguiu el-rei 
que os principaes chefes viessem a Lisboa, c 
jurassem paz e amisade, sendo ordenado a Gon- 
çalo Cabelos que arrazasse uma casa forte, que 
levantara na aldeia de Parada. Foi então que se 
mandaram derrubar muitos castellos particula- 
res c se prohibiu a edificação de novos. 

1). Diniz porem não era homem que permít- 
tisse, facilmente, taes desmandos e rebeldias; 
fez executar, com rigor, as leis promulgadas so- 
bre o assumpto; mas o mal era da epocha, nas- 
cia das próprias instituições, e se, por algum 
tempo, adormecia, despertava cm breve, e ás 
vezes com mais fúria. 

Achava-se em Coimbra, nos primeiros dias de 
janeiro de 1314, quando teve noticia d'um facto, 
que escandalisava o reino inteiro e o lançava 
em receios de novas e maiores perturbações, por 
parlo dos fidalgos. Ruy do Couto, AiTonso do 



Couto e João Fernandes acabavam de jurar mutua 
alliança, para guerrearem quem aggravasse qual- 
quer d'elles; isto é, faziam renascer o velho 
uso dos pactos, entre as famílias nobres de toda 
a Europa, que, durante séculos, alimentou a 
serie interminável de contendas intestinas, em 
que viveu o feudalismo. 

Como este porem decahia por toda a parte, 
o bárbaro costume ia geralmente- esmore- 
cendo, com applauso das novas gerações; o 
acto de Ruy do Couio, revestido com as tra- 
diccionaes solemnidades, causou pois extranheza 
o irritação profunda. 

D. Diniz, como bom politico, aproveitou a cor- 
rente benéfica da opinião, para cortar, de golpe, 
a usança perniciosa, e prevenir os damnos que 
d'esta liga e outras similhantes resultariam ao 
paiz;— promulgou, no dia 11 de janeiro, uma lei, 
declarando nuUa a alliança contrahída, e im- 
pondo a pena de morte aos que n'ella insistis- 
sem ou celebrassem outras de novo. ^ 

Esta lei, rigorosa, mas necessária, afastou o 
mal por muito tempo, durante o reinado de D. 
Diniz; por fim, seufilho D. Afifonso, levantando-se 
em aberta rebelião contra o pai, com os mais 
irrequietos barões do tempo, arrastou o reino 
à guerra civil, fazendo renascer todos os maus 
percedentes e antigas turbulências da nobreza, 
que, por tantos annos, o bom monarcha con- 
seguira dominar. 

Affonso IV, subindo depois ao throno, procu- 
rou, todavia, seguir no assumpto as normas de 
seu pai, e alcançou mais do que, na verdade, lhe 
permiltia o ruim exemplo que dera pessoalmente. 
O mal, porem continuou, com variadas alternati- 
vas, até que conseguiram extinguil-o a maior 
suavidade de costumes, e o maior poder que 
foram tendo os reis, que, nacionalisando a legis- 
lação romana, avocaram aos tribunaes regulares 
as contendas, que os nobres, antes, decidiam pc* 
las armas. 

CAPITULO XII 

 nobreza 

(GontinuBçSo) 

Aos solares nobres não estava só inberente 
a faculdade de ter fortificações, armas e solda- 

> Lib. 3 de D. Diniz, foi. 84.— Ifon. Lut, P. 5. 
L. 16. o. 35. 



Historia . de Portugal 



91 



dos, — havia também, como dissemos, o direito 
de soberania, o que não era menos importante 
para os seus possuidores. 

A soberania feudal apresentaya-se sob duas 
naturezas diversas: a que respeitava às isem- 
pções, pela maior parte físcaes, que os senhores 
possuiam para com o poder central^ e que trans- 
mittiam, por vezes, a seus vassallose colonos; — 
e a da jurlsdicção civil, criminal e militar que 
aquelles tinham para com estes. 

Assim como impeilidos pelas crenças piedosas 
da fé, os primeiros reis foram pródigos para com 
a egreja em concessões de toda a espécie; assim 
também, levados peias circumstancias, viram-se 
obrigados a premiar, com generosidade eguai, 
os capitães mais distinctos que os ajudavam a 
vencer, beneficiando-os com doações importan- 
tes de terrenos e privilégios. 

Feitos em occasiões idênticas, tiveram idêntica 
natureza os bónus ao clero e aos nobres: davam 
os reis as terras, frequentemente acabadas de 
conquistar, e coutavam-nas, ou hom^avamnas, 

• Coutar uma terra, — explicava D. Diniz, n'u- 
ma carta regia, — é escusar os seus moradores 
de hostCy e de fossado^ e de forOj e de toda a 
peita,» * Ficavam por tanto isentos da obrigação 
de satisfazer os direitos pessoaes e reaes, as 
pensões, as mil differentes imposições, a que 
geralmente os povos estavam sugeitos; e, como 
natural consequência d 'este privilegio, não admit- 
tiam que o mordomo d'el-rei, o cobrador dos im- 
postos, os ofQciaes da justiça real entrassem no 
couto. 

Tinha este também a regalia de servir de 
refugio aos delinquentes, eralogar d^asylo, — ou 
porque o donatário, quer ecciesiastico, quer ci- 
vil, merecera esse favor á munificência regia, 
— ou porque, sendo, primitivamente, sitio despo- 
voado, inculto, collocado em ponto mais exposto 
ás invasões do inimigo, lhe fora dado o privile- 
gio, para allrahir a gente que a justiça perse- 
guia, n'outras localidades. 

De tão valiosas isempções lhe provinha o nome. 
Couto vem de coutar, defender, proteger, e quer 
dizer: logar defeso, protegido, immune. 

1 Arch. Nac. da T. do T. Livro 3.° de D. Diniz, 
foi. 72 v. carta contando a Affonso Diniz a Povoa 
de Salvador Ayres* 



Havia coutos vastos, que comprehendiam mui- 
tas aldeias e até povoações importantes. Ahi, 
os juizes, os magistrados locaes, os tabelliães 
eram, frequentemente, ou nomeados pelos se- 
nhores, ou eleitos pelos povos, e confirmados por 
aquelles. ^ 

A designação de couto era mais genérica do 
que a de honra; aquelle possuia mais privilégios 
com relação ãs terras e aos povos do que esta; 
e podia pertencer tanto a dominios dos ricos- 
bomens, como de grandes concelhos e cidades, 
de ordens militares, de cathedraes ou mosteiros; 
taes eram os vastos coutos d' Alcobaça. 

A honra era mais pessoal, mais restricta aos 
fidalgos, mais transmissível por elles. 

O couto nascera muitas vezes das circumstan- 
cias locaes: a honra provinha quasi sempre, na 
sua origem, da liberalidade regia, ou da ele- 
vada posição nobliarchica do fundador. 

Em regra, a honra não implicava tanto a ju- 
rlsdicção, como o jus de auferir tributos, foros, 
homenagens, serviços, rendas que os morado- 
res d'um logar, que por vezes tinha também a 
natureza de couto ^ deviam ao senhor, pela de- 
feza, amparo e privilégios que d*elle, se suppu- 
nha, recebiam. ^ 

As honras costumavam designar-se por mar- 
cos ou balisas, pela carta d'oulhorga, ou por 
pendão real, que n'ellas se arvorava, quando se 
dava a posse. ^ 

O solar do rico homem, ou do cavalleiro fi- 
dalgo era sempre honrado, sempre constituia 
honra. O nobre de primeira gerarchia tinha a 
faculdade de honrar os dominios em que resi- 
dia. D'esse privilegio, como veremos, resultaram 
os mais profundos abusos. 

Alem dos solares, dos coutos e das honras, 
havia, sob o dominio da nobreza, uma outra es- 
pécie de terras previligiadas: eram as behetrias, 
que também se escreve beetrias, beatrias ou 
byatrias. 

* José Anastácio de Figueiredo, Memoria para 
dar uma idéa justa do que eram as Behetrias, e 
em que deferiam dos coutoSs e honras; no vol. i,^ 
pag. 98 das Memorias de Litteraiura Portugueza, 
publicadas pela Academia Real das Sciencias de Lis- 
boa, 1792. 

* J. A. de Figueiredo. Mem, cit. 
' Mon. Lus. P. 5. L. 16* c. 69. 



\ 



02 



ia de Portugal 



Pela origem democrática que n'estas povoações 
tinha o poder, deter-nos-bemos um momento, 
ante a singularidade das behetrias, 

É obscura a etymologia da palavra; ^ e an- 
tiga, em toda a península, a instituição que de- 
signa. 

Na monarchia ausluriana, apenas constituída 
com alguma amplitude, assim como houve, 
90 lado do municipio romano, transformado na 
communa ou concelho da idade media, os feu- 
dos pertencentes aos nobres, â egreja ou ao rei, 
e que tomaram, depois, em Portugal as denomi- 
nações que havemos apontado, feudos que tinham 
determinado senhor, — também se estabeleceram 
povoações, que, ou por uso e tradicção, ou acto 
de heroicidade militar, ou estimulo a uma cultura 
difiicil e necessária, ou por qualquer outra cousa, 

1 <A respeito da Etymologia da palavra Behetria 
ou Beetria, que vale tanto como heredamiento, quees 
fuyo quito de aquel que vive en él, e puede recebir 
por senor a quen quisiére^ que mejor le faga^ como 
se explica a lei 3. tit. 25. da Partida 4.^ ou como 
AÍTonso Dias Montalvo, á mesma lei, dicitur heredita- 
gium^ seu solum ubi vassalli possunt quem voluerint 
recipere in dominum; e povo que pode escolher para 
senhor a quem, e cada vez que quizer: huns (com 
Ambrósio de Moral es em o fim da parte 3." da sua 
chronica em o discurso da familia de S. Domingos 
de Gusmão) querem que ella se derive e seja cor- 
rupção da palavra latina Bene factor ia, e das caste- 
lhanas Bienfetria, Bien te havia, ou Benefactria, 
e da portugueza Bemfeitoria; sendo certo, que o 
privilegio que tinham as terras, a que competia si- 
mclhante nome, e a eleição arbitraria dos senhores 
que os Povos em consequência d'elle faziam, e po- 
diam fazer, como e quando quizessem, era um bem, 
que elles faziam a si, e ao senhor que escolhiam, fa- 
zendo ao mesmo tempo a sua própria vontade, e 
dando á pessoa eleita, que mais bem lhes fazia, o 
senhorio das mesmas terras, de que mais verdadei- 
ramente eram e vinham a ser os originários senho- 
res, sendo sobre si. E a preeminência das bahetrias 
era mudar de senhor só por sua vontade, e dizendo: 
Con quien bien me hiziere co aquel me iré; do que 
se tomou o nome. Outros (o padre Marianna liv. 16 
cap. 17) querem que venha da palavra grega Hetoe- 
ria ou eraipia, que vale o mesmo que societas, soda- 
litaSj e companhia, e que d'ahi se disse, Bahetria. 
Outros (com o padre Guadix) assentam, que é voz 
Arábiga, e que significa sem nobreza, ou fidalguia, 
qualificando, ou apoiando este sentimento o costu- 



pertenceram aos próprios moradores, como her» 
damento seu, isentas dos tributos gecaes e da 
jurisdicção regia, e que possuíam o privilegio 
de eleger senhor livremente, e depol-o, e esco- 
lher outro,— podendo, como dizem alguns, pro- 
ceder a essa operação sete vezes em um dia, 
contanto que os senhores eleitos fossem naluraes 
d'Hespanha. Eram as behetrias de direito mais 
amplo. 

Havia-as com mais restricções : umas só po- 
diam escolher por senhor individuo da sua 
comarca ou província, outras da sua própria 
terra, outras de determinadas famílias. 

Polularam estas instituições na Hespanha 
christã, desde o século xi. Mas a variedade da 
elegibilidade e a faculdade de annuUar a elei- 
ção, apenas verificada, trouxeram, como era Da- 

me moderno, porque em Castella depois que el-rei 
D. Pedro extinguiu uma similhante espécie de go- 
verno, origem de desordens e confusão, ha algumas 
villas e lugares, que se ficaram chamando Beetrias 
em outro sentido, em quanto não admittem, nem 
consentem fidalgos nem nobres em sua vizinhança, 
com insençáo de corpos, ou tributos, ou para servir 
officios públicos. Outros (com Larramendi, Diccio- 
nario da língua vasconça lembrado por Moraes no 
Diccionario da língua portugueza, tom. l.*> pag. 176) 
derivam esta palavra das Vasconças beret-iriac, que 
significam povos livres, nâo vassallos. Outros final- 
mente (com D. Sebastião de Cobarruvias Orozco 
no tbesouro da lingua castelhana foi. 128 vers. e 
1 29, que nos testemunha o mais) querem que se de- 
rive de hetria, que na antiga lingua castelhana signi- 
fica mescla, e enredo ou confusão, por ser a behetria 
mescla, e confusion de gentes sin cabeza ni veiada- 
devo senor, tendo-o como precário e eleito a seu 
arbítrio; e confusão e desordens, sem se poder mui- 
tas vezes assentar, ou distinguir, qual era ou havia 
de ser o eleito para senhor, eram os frutos da tal 
liberdade dos povos nas suas Behetrias: o que deu 
motivo ao provérbio Castelhano, que chama qualquer 
cousa desordenada c confusa, cosa de behetréa. Que- 
rendo outros também, que venha do verbo grego Atar 
com a letra Aiin, que em a conjugação biphil quer 
dizer mnltiplicare verba; porque em a Behetria, como 
não tem cabeça a quem respeitar, todos faliam con- 
fusa e indistinctamente. 

E estas etymologias ambas dão occasião ao outro 
rifão do commendador grego: Con villano de behe- 
tria no te tomes a porfia,* 

( Vide J. A. de Figueiredo, cit. Memoria § iv.) 



HlBtòrift de Portugial 



93 



tiiral, algumas perturbações. No principio do 
século XIV, Àffoaso xi, com esse pretexto, come- . 
çou a obra da sua extiocção; concluiu-a em 1 350, 
seu filho Pedro i, intitulado o cruely pelo sangui- 
nolento rastro que deixou do seu governo. O 
poder real ia crescendo: a destruição das behe- 
trias era menos uma limitação ás prorogativas 
da coroa. 

Em Portugal, esta instituição não tomou fei- 
ções tão caracteristicas como em Hespanha; o 
direito eleitoral estava sugeito a maiores res- 
tricções, o que Ibe deu uma vida mais tran- 
quilla e prolongada, mas também mais obscura 
e dependente. 

As nossas behetrias tinham em geral a natu- 
reza de hanray couto ou concelho, porem às 
regalias e privilégios que lhes eram próprios, 
juntavam a faculdade, como as d'Hespanha, de 
elegerem o seu senhor. Os juizes, vereadores, 
procuradores, ofQciaes, homens bons e mora- 
dores da behetriay convocados por pregoeiro e 
juntos em assembléa ou concelho^ quando o 
logar de senhor estava vago, para o prover, 
elegiam, ã pluralidade de votos, um grande 
do reino, commumente dos mais chegados ao 
rei, quasi sempre no sangue, ãs vezes no vali- 
mento, de modo que, quer na guerra, quer na 
paz, os podesse proteger, manter-lhes senão 
augmentar-lhes seus foros e privilégios, c exer- 
cer os direitos de soberania que elles lhe po- 
diam delegar, ou elle alcançava do rei, por graça 
especial. O eleito recebia os tributos, as pensões, 
as honras e homenagens que lhe eram devidas, 
e linha o uso-fructo c a administração das pro- 
priedades senhoriaes, ficando-lhe todos na be- 
hetria sujeitos como bons e leaes vassallos, e 
pertencendo, com seus corpos, vidas e fazendas 
e de seus filhos e successores. 

Esta eleição, para ter vallidadc, além da accei- 
tação do eleito, precisava que el-rei confirmasse 
o senhor, o desse ã behetria e lh'o mandasse 
reconhecer. 

 eleição, com as solemnidades que a seguiam, 
tomava o caracter d'um verdadeiro contracto; 
era quasi sempre formulado por escripto e com 
as obrigações dos outhorgantes, ás vezes tácitas, 
outras mui expressamente designadas. Vé-se, 
já nos instrumentos da eleição, lavrados pelo 
tabellião on ofBcial da localidade, já nos actos 



de acceitação dos senhores, já sobre tudo nas 
cartas regias de confirmação, onde, frequente- 
mente, se acham trasladados os dois primeiros 

documentos. 

Alem dos deveres mencionados, o senhor não 
podia empenhar ou alienar o senhorio, e só au- 
gmentaria os impostos ou foros, ou alteraria o 
valor da moeda, com expresso consentimento 
dos moradores da behetria. Era também obri- 
gado a conservar-se no reino, vassallo d'el-rei e 
na sua graça: o logar vagava, tanto por morte 
do senhor, como se fosse condemnado por trai- 
ção. 

A estas obrigações genéricas acresciam outras 
especiaes; variavam conforme as localidades e 
os compromissos; e diziam principalmente res- 
peito ao modo como o senhor usaria do di- 
reito de nomeação dos funccionarios, taes como 
ouvidores, meirinhos, tabelliãcs, e como os obri- 
garia ao cumprimento das suas attribuições. Às 
vezes, porem, a administração da justiça, em 
todo ou em parte, pertencia ao rei, e era por 
tanto regia a nomeação dos julgadores. 

Quando o senhor faltava a alguma das suas 
obrigações, expirava o contracto, e a behetria 
podia escolher outro senhor, sem crime, nem 
caso de traição. 

Em 1401, governando D. João r, succedeu 
que a pequena behetria, constituída pela honra 
de Ovelha d'apar do julgado de Géstaço, decla- 
rou deposto seu seiíhor, Martim Afibnsode Sousa, 
e elegeu para lhe succeder D. ACfonso, filho 
bastardo d'el-rei, e depois primeiro duque de 
Bragança. Os moradores d'Ovelha allegaram, no 
pedido para a regia confirmação, que Martim 
Âffonso, devendo defendel-os e manter-lhes seus 
foros e privilégios, os maltratara e aggravarasem 
rasão, e por fim contractara a venda do cargo com 
Martim Lourenço Corvo, pacto para o qual o não 
haviam auctorisado, e que não acceitavam por 
modo algum. Foi a deposição tida por legal, e 
confirmado o novo eleito. Ser este filho do rei 
facilitaria o succedido; mas não era João i ho- 
mem que ractificasse, por carta sua, acto que a 
lei não auctorisasse, ou o direito consuetudi- 
nário, que, então, valia tanto como a lei. 

Mas, em quanto o senhor cumpria os deveres 
do cargo, a behetria não o podia depor, nem es- 
colher outro para o substituir.— Esta era a diffe- 



94 



Historia de Portugal 



rcDça profunda entre a instituição portugueza e 
a hespanhola, diferença que affástou das nossas 
behetrias as perturbações que agitaram as de Hes- 
panha. 

Algumas vezes, para mais reciproca segurança 
e evitar extremos, nos instrumentos das eleições 
e cartas de acceitação e confirmação regia, es- 
tabeleciam-se certas penas ou multas, que de- 
viam ser pagas pela parte infractora ao outro 
outhorgante. 

Em geral, porem, as condicções do contracto, 
—direitos, obrigações e penas,— eram tácitas, es- 
tavam radicadas nos usos e costumes, subenten- 
diam-se, como sendo da essência da instituição. 

São as behetrias anteriores ã fundação da mo- 
narchia portugueza, n'aquella8 partes que para 
ella se desmembraram do reino de Leão; e con- 
tinuaram a estabelecel-as os nossos primeiros 
reis, como era de uso em toda a peninsula, e as 
çircurostancias do tempo o exigiam. 

Em 1110, o conde D. Henrique fez doação de 
cinco cazaes em Villa Boa de Satan a Bernardo 
Franco; coutou-lhos, com as clausulas do costu- 
me; e outhorgou-Jhe, para elle e seus successo- 
res, o privilegio de não terem senão o senhor 
que quizessem; dizendo: Et íu, aut quicumque 
istam hereditatem hubuerit, sitis vassalli cvjus- 
cumque voluerilis. Ha documentos de que este 
direito foi exercido, em abril de 1203 e em feve- 
reiro de 1234. 

Affonso Henriques, que confirmou o foral da 
. beheíria de Satan, deu igual privilegio a Moz, 
Freixo (da serra) de Linhares, Urros, Trancoso, 
Celorico da Beira, Moreira, Marialva e Aguiar da 
Beira, Sancho i creou também, por cartas de fo- 
ral, as behetrias de Gouvea da Beira, Felgosinho, 
Penedono, Gastreiça, Guarda e Villa Franca das 
Neves. AlTonso ii declarou beheíria a Contrasta, 
ou Valença do Minho. Sancho ii deu o mesmo 
privilegio aos povoadores de Santa Cruz ou La- 
mas d'Orelhão, de Idenha a velha, c de Salvaterra 
do Estremo. Affonso iii concedeu-o aos de Vienna 
do Minho, do Prado, e de Caminha. E Diniz 
confirmou este, e outhorgou o de Vilja Nova de 
Cerveira. 

Cita-se também, como um dos mais antigos 
vestigios das behetrias, o direito da escolha do 
senhor j que se encontra exercido pela abbadessa 
e conv uio de Lorvão, cm remota data. Havendo 



este mosteiro sido reformado pela infanta D . The- 
reza, filha de Sancho i e rainha de Leão, parece 
que as freiras a tomaram iporsenhora, permane- 
cendo largo tempo sob seu dominio e guarda. De- 
pois escolheram, para lhe succeder no cargo, a 
infanta D. Branca, filha de Affonso iii, a mesma 
que foi em Gastella senhora do mosteiro deHuel- 
gas, e em quem, por vezes temos fallado. Esta 
eleição, feita provavelmente por insinuação real, 
verificou-se em Lorvão, aos 28 de dezembro de 
1277, ficando o convento e todas as terras, io- 
gares e alfaias que lhe pertenciam, no poder e 
guarda da joven se^ihora, como o haviam estado 
no poder de sua tia. 

Lorvão, porem , era um convento de freiras; não 
tinha verdadeiramente a natureza de behetria; 
os factos apontados não são maia do que vesti- 
gios do direito popular, que só realmente podia 
ser exercido por cidadãos d'uma terra, grupo de 
terras, concelho, couto ou honra , livres ao menos 
no suffragio, acto que se revestia com as solem- 
nidades apontadas, e do qual se deduziam os di- 
reitos e obrigações prescriptas para os eleitores 
e para o eleito. 

Deve ter havido muitas behetrias ^ mas são 
principalmente conhecidas, alem das mencio- 
nadas que remontam aos primeiros tempos da 
monarchia, aquellas a que se refere um pleito ce- 
lebre, que, no século xvi, correu, perante o juizo 
da coroa, em que ellas revindicavam o direito 
de eleger o senhor^ de que o poder real as es- 
bulhara; são: Amarante, Meijam-Frio, Britiamde, 
Villa Marim, Cidadelha, Canavezes, Paços de Ga- 
jollo, Louredo, Gallegos, Santo Isidro, Várzea da 
Serra, Campo-bem-feito, couto de Botige, Omi- 
sinde e couto de Tuyães. 

O privilegio das behetrias foi esmorecendo, á 
proporção que a realeza absorvia em si as sobe- 
ranias locaes. Desapareceu de todo, quando os 
legares que o possuíam se encorporaram na co- 
roa, por sequestro ordenado por João iir, sus- 
tando-se depois o processo a que nos referimos, 
e que fora o ultimo arranco d^essa singular insti- 
tuição dos tempos medievos na peninsula. 

Já muito antes, porém, *no reinado de Af- 
fonso V, grande parte das behetrias haviam per- 
dido um dos pontos mais característicos do seu 
antigo direito. O cargo de senhor, até então 
vitalício, torncu-se hereditário: quando se effe- 



Historia de Portugal 



95 



ctuava a eleição, o povo, escolhendo o senhor, 
tomava seus descendentes e herdeiros, para lhe 
Buccederem, seguindo-se o systema de proge- 
nitura, sem excepção das mulheres. Também 
as behetrias, nos dois últimos séculos da sua 
existência, elegiam sempre para senhores pa- 
rentes do rei, tâo próximos e Íntimos, que a 
coroa foi, de longa data, considerando taes do- 
minios, como apanágio próprio, ou dos mem- 
bros da familia real. 

Assim se haviam extenuado, a pouco c pouco, 
até ao golpe mortal de D. João in, estas peque- 
nas sociedades politicas, cujos cidadãos tinham, 
ao menos uma vez, de geração em geração, o 
exercício do direito de eleger o seu immediato 
imperante. Pelos attributos doeste, pertenciam â 
nobreza, e quasi que viviam sob o áspero regi- 
mem feudal; pelo direito e soberania do suffragio, 
constituíam porem verdadeiras democracias. É 
por isso, que convém ás edades modernas conhe- 
cer estas deminutas e vagas manifestações, em 
tempos quasi bárbaros, do grande principio, hoje, 
geralmente, perdominante, em todo o mundo 
culto, da soberania do povo. Âs grandes idéas 
são eternamente resplandecentes; mesmo atravez 
da maior obscuridade fazem transparecer mais 
ou menos a sua luz. ^ 

Senhores dos vastos dominios pri viligiados que 
temos visto, coutos y honras e bebetrias, os nobres 
não se souberam manter dentro dos limites que 
as leis e os costumes, razoavelmente interpreta- 
dos, lhes prescreviam; cedo, cahiram, em ex- 
cessos, já apoderando-se de terrenos que não 
lhes pertenciam, já dando a natureza de priviJi- 
gíadas e isentas a propriedades que o não eram, 
jà augmentando, sem prudência, a sua jurisdic- 
ção e soberania. 

Este procedimento, lesivo para o flsco e atten- 
torio do poder supremo a que os reis aspiravam, 
suscitou, desde o principio, os ciúmes da coroa. 
Apenas os nossos primeiros monarchas poderam 
deixar, ainda que por momentos, os campos de 
batalha, um tanto mais desassombrados dos sar- 
racenos e das tentativas absorventes de Leão e 

^ Sobre as behetrias veja-se principalmente a ci- 
tada Memoria de J. A. de Figueiredo; — Si Nova His- 
teria de UàUa do mesmo author, e a cit. Memoria 5.<> 
c. 4.« de A. G. do Amaral. 



Castella, para se entregarem á administração do 
reino,— pensaram logo no modo de combater o 
audacioso orgulho dos donatários portuguezes, 
tanto para evitarem os males que o feudalismo 
causara no centro da Europa, como para segui- 
rem a politica, então em voga e triumphante, que 
por toda a parte o combatia, como dissemos. 

Sem fatiarmos da tentativa, em 1127, de 
D. Thereza, a viuva do conde D. Henrique, nem 
mesmo das providencias notáveis de Sancho i, 
que se referiam a factos especiaes, — logo em 
1220, Àfifonso II ousou atacar, de frente, as de- 
masias da nobreza, oráen^nio inquirições geraes 
sobre os coutos e as honras, procurando exami- 
nar os titiilos das instituições, e devassando, 
isto é, sujeitando ao fisco real e ás leis geraes, 
as propriedades, cujos privilégios não estavam 
legalmente fundamentados. 

Não nos demoraremos no assumpto, apezar de 
importante, nem descreveremos os malogrados 
esforços de Sancho ii, nem as repetidas inqui- 
rições de AlTonso m, dirigidas com tanta pru- 
dência e vigor, porque todos esses factos estão 
relatados e apreciados, excellentemente, no 1.** 
volume d'esta obra. 

Trataremos, por tanto, apenas das inquirições 
a que se procedeu, no reinado de D. Diniz. 

Conservando os ministros de seu pae, é se- 
guindo, systematicamente, a sua politica, em 
muitos dos mais graves pontos da governação, 
— com o espirito inclinado, pela evolução do 
tempo e litteratura que professava, contra os pri- 
vilégios excessivos da nobreza, — conhecendo^se 
auxiliado pelo terceiro estado, que odiava d'alma 
os nobres, e, de dia para dia, augmentava eiti 
força e riqueza, — D. Diniz, n^este assumpto, não 
só continuou, mas foi muito além do procedi- 
mento de Affonso lu. 

É verdade, que, nos primeiros dias do seu 
reinado, fez largas doações para captar partidá- 
rios e se firmar no throno; mudou porem de 
systema, apenas se julgou seguro; e desde en- 
tão proseguiu, com firmeza, na conducta dos 
seus antecessores, ordenando novas inquirições, 
que eram, evidentemente, dentro da lei e da 
ordem, o meio mais enérgico e éfficaz, para 
combater as demasias e invasões dos donalarioe 
seculares e ccclesiasticos. 

Questionaram os eniditosv se D. Diniz só de- 



96 



Historia de Portugal 



cretara as primeiras inquirições em 1290, mas 
esse poDto está hoje esclarecido. 

Consta que sobre los dereytos dei Rei tâbeni 
alheados come conheçudos, que havia em cada 
localidade, foram tiradas inquirições em diver- 
sos julgados da província do Minho, na era de 
1322, anno de 1284. Existem as actas lançadas 
no livro 2.° de Inquirições de D. Affonso iii, desde 
o principio até foi. 90 v. por Estevaiii Lourenço, 
clérigo procurador do rei. Foram inquiridos pri- 
meiro o juiz do julgado, depois os moradores 
que melhor podiam responder. Estas inquirições 
principiaram' pelos direitos que el-rei tinha no 
juzgado de fermedOy no primeyro dia do mes 
dagosto da E.* M.» CGC XX ij.* 

Âs segundas começaram, com mais regula- 
ridade e vigor, no julgado de Melgaço, em 4 de 
agosto da era 1326, anno de 1288, pelos inqui- 
ridores dominous Petrus martini Prior MoU de 
Costa^ por parte das ordens monásticas, Gunsa- 
luus roderici moreyra, pelos fidalgos, e Domi- 
nicuspelagyde CriançondniRegis, pelopovo,co- 
mo se vé d'um instrumento no livro 4.° de Inquiri- 
ções de cl-rei D. Diniz, a foi. 64, sob o titulo De 
Judicatu de Melgaço, Àhi se diz, que os referidos 
inquiridores iam per Mandatum llltistrissimus 
dfij Dionisij Regis Port & Algarbie; e fizeram ler, 
pelo tabelliâo de Guimarães Paio Esteves, uma 
carta regia, aberta, datada de Guimarães a 13 
de julho do mesmo anno,' que lhes era dirigida, 
e onde el-rei declarava — «que quando fizera 
suas cortes em Lisboa lhe representarão o Infante 
D. Afifonso seu irmão, o arcebispo de Braga, os 
Bispos, os Ricos homens, e outros muitos de sua 
terra, e dos fidalgos, e concelhos do seu reino, 
que havia necessidade de fazer inquirições, e 
devassas sobre as Honras^ e de lhes correger o 
de que se lhe queixarem sobre a entrada de seus 
PorteyroSf e d'aquelles que d'elle tinham as 
Terras, aonde nunca fora costumado de tempo 
antigo: assim como, que elle Senhor Rei outro- 
sim se queixara de que se tinham feito muitas 
honras, como não devia ser, desde o tempo do 
senhor rei D. Affonso seu avô por diante; com o 
que perdia muito dos seus direitos. E que lhe pe- 
diram mandasse assim inquirir todas as honras, 
que foram feitas no dito tempo, & des ento aca^ 
e as desffezesse, salvo aquellas que foro onrror 
daé pelos Reys m que Uen nas cartas; mas não 



deixasse entrar seus porteyros nem officiaes nas 
que fossem anteriores ao principio do reinado 
de seu avó. Pelo que lhes diz que os metteu 
n'isso, e os fez jurar treze dias de julho em Gui- 
marães sobre os santos Evangelhos nas mãos do 
arcebispo,» etc. Em obdiencia á mesma carta, 
os inquiridores chamarão os juizes e o tabelião 
de Melgaço, para lhes dizerem a quaes erâasonr- 
ras desse couto, ou dos outros legares, que ahi 
sabiam se honrassem. 

Continuaram estas inquirições, não só n'eslc 
anno e no saguinte, mas até provavelmente em 
1290, posto que não se encontram completas nas 
actas que existem no Archivo Nacional, no livro 
4.'» das Inquirições de D. Diniz, e em parte do 
livro 1.° 

Na era de 1339, anno de 1301, João César, 
vassallo de el-rei^ foi encarregado de proceder a 
novas inquirições, sahindo de Lisboa para esse 
serviço, no dia 23 de maio. 

Acham-se as actas no livro de Inquirições de 
Alemdêuro. 

Em 8 de janeiro de 1304, era de 1342, come- 
çaram em Ponte de Lima outras inquirições, 
sendo encarregado d'ellas João Domingues, da 
criaçõ d el-rei, como se vô do Livro das Ifiquiri- 
ções da Beira e d'Alemdouro, e ahi foi, segundo 
parece, o trabalho mui productivoparao thesouro 
real, pois nos legares reguengos e foreiros ã 
coroa se haviam, contra direito, constituído mui- 
tas honras, que se furtavam ao fisco individa- 
mente. 

Não bastaram porem tantas diligencias; em 
1307, era de 1345, foram ainda ordenadas novas 
inquirições, a que procedeu Aparício Gonçalves, 
também da criação d'el-rei. Prolongaram-se até 
15 de junho de 1311, com variadas peripécias, 
devidas aos queixumes e reluctancias que os in- 
teresses offendidospela devassa, levantavam con- 
tra ella, e que obrigaram o commissionado a ir 
por vezes, dar contas a D. Diniz de seus traba- 
lhos. Todos os obstáculos porem foram vencidos, 
pela grande prudência e tenacidade d'el-rei e do 
seu governo. 

Ha um documento que resume as inquirições 

1 Sobre as varias inquirições do reinado d,el-reí D. 
Diniz, veja-se a cit. Mem. 5." de Â. C. d'Amaral, nas 
copiosas notas a pag. 132 e segg. 



Historia de Portugal 



97 



geraes realisadas n este reinado, a oposição que 
08 priviligiados lhes fizeram, os meios que 
se empregaram para a superar, e sobre tudo os 
abusos que os donatários perpetravam, — e tanto 
fundamentavam então estas enérgicas providen- 
cias,— é a Ordenação Affonsina, liv. 2.*' tit. 65, 
onde, séculos depois, os legisladores compendia- 
ram as principaes cartas regias de D. Diniz sobre 
o assumpto, dando*lhes, novamente, força de lei. 
Não permittc a lógica d'este escripto, que prive- 
mos os leitores do exame doestes importantes di- 
plomas. 

Eil-os: 

•Dom Dinis pela graça de Deos Rey de Portu- 
gal, e do Algarve. A quantos esta Carta virem 
faço saber, que como a mim fossem feitos mui- 
tos queixumes per muitas vezes, e per muitas, 
e desvairadas razoões, queixando-se dos Filbos- 
dalgo, e doutros da minba terra, que faziam hon- 
ras como nom deviam; e eu sobre esto fiz fazer 
inquiriçom de prazer dos Filhos-dalgo, e do Ar- 
cebispo, e dos Bispos, e dos Abbades, e Priores 
da minha terra; a saber, per Gonçalo Moreira, 
que foi pelos Filbos-dalgo; e pelo Priol da Costa, 
que foi polas Ordeens; e per Domingos Paaes de 
Bragaa, que foi polo povoo; a qual inquiriçom 
foi feita na era de mil e trezentos e vinte e 
oito annos, (1290) peia qual inquiriçom forom 
deitados muitos Lugares em devasso per afei- 
çom. 

l.^^-^E soffèndo-me eu daquello, que fora dei- 
tado em devasso, em quanto fosse minha mer- 
cee, a rogo dos Filhos-dalgo, como d'outro8, 
nom leixavam de fazer honras novas, e acres- 
centar nas antiguas, cada hum como mais podia. 
E eu avúdo conselho com os da minba Corte, 
enviei la Jobam César, e despois Joham Domin- 
gues dos Contos, que deitassem em devasso as 
honras, que achassem, que se fízerom nova- 
mente, eque acrescentarom aas velbas, e Lugares 
e honras, como nom deviam : e elles, feitas as 
Inquirições deitarem em devasso as honras, que 
acharom feitas de novo, e acrecentadas as velbas 
e Lugares, que acharom estar honrados, como 
nom devião, e per taaes que nom devião. 

2.^— E eu teendo que nom biriam contra esto, 

que 08 meos Enqueredores faziam, sem meu 

mandado, segundo o que me aviam permetido, 

achei, que como quer que os meus Enqueredo- 

n voL.— 13. 



res deitassem em devasso as cousas, que acba- 
arom, que se deviam de devassar, segundo que 
no mandado, e cartas, que levavom, era con- 
theudo, que nom leixavam porem Filhos-dalgo, 
nem Ordees, nem Igrejas, e outros homens hon- 
rar todos esses Lugares, que pelos ditos Joham 
César, e Joham Domingues meus Enqueredores 
forom deitados em devasso, e que honra vaõ ainda 
mais cada dia. 

3.* — E eu, avendo sobre este Conselho com 
os da minba Corte, e com os Filhos-dalgo, e com 
08 Prelados de minha terra, estranhando taaes 
cousas, de seu Conselho de todos, enviei-lhes 
Apariço Gonçalves meu de criaçom por Enque-» 
redor sobre esto das honras, que fezerom de 
novo, ou acrecentaarom nas velhas des a Inqui- 
riçom, que fezera o Priol da Costa, e Gonçalo 
Moreira, e Domingos Paaes, e sobre feito dos 
outros Lugares, que algus honrados traziam, 
como não deviam, e outro sy sobre feito dos 
meus Reguengos; e elle veeo a mim com essas 
Inquiriçoões a Coimbra, e vio-as a minha Corte 
com muitos Filhos-dalgo, que hi syam; a saber, 
o Conde Dom Martim Gil, e Dom Pedre Anes 
Portel, e Affonso Sanches, e Dom Joham Rodri- 
gues, e Dom Fernam Peres, e Aflbnso Donis, e 
Rodrigo Anes Redondo, e Martim Vaasques Pei- 
xoto, que eram poios Filhos-dalgo; e com muitos 
Prelados, que hi sy^ da minba terra, derom 
hi Sentenças, segundo he contheudo em bua mi- 
nha Carta, da qual o theor tal he. 

4.**-— Dom Donis pela graça de Deos Rey de 
Portugal, é do Algarve. A quantos esta Carta vi- 
rem faço saber, que como peça ha a mim fossem 
feitos queixumes per muitas, e desvairadas ra- 
zoões, e pessoas queixando-se dos Filhos-dalgo, 
e do Arcebispo, c dos Bispos, e das Sees, e dos 
Abbades, e Priores, e d'outros muitos da minha 
terra, porque faziam honras em muitas manei- 
ras como nom deviam, de guisa, que muitos 
bomees boos, e afinadamente os Lavradores, 
erao por hi apremados, querendo-se delles ser^ 
vir dos corpos, e dos averes per prema contra 
direito, e pousando com elles, e contra suas 
vontades hu nom aviaõ morada d'antigo, nem 
aviam herdade: per que se seguiam muitos omi- 
zios, e muitos eicessos antre os Filhos-dalgo, e 
08 outros nas terras, hu se esto fazia, filhando 
per lai maneira, e prema a mim dos meus direi- 



98 



Historia de Portugal 



tos muitos, e emalheando-me muitos dos meus 
Reguengos. 

ò."" — B vindo a mim muitas querelas sobre 
esto muitas vezes em Guimaraães, e em Coim- 
bra; e fazendo eu sobre esto minbas Cortes 
aacima, per conselho do Arcebispo, e Bispos, e 
Ricos homees, e dos Fidalgos, e dos Prelados da 
minha terra, estranhando de se fazerem taaes 
cousas, per seu consentimento, e per seu prazer 
delles, dei por Inquiridores sobre todalas cousas 
8US0 ditas Gonçalo Moreira pelos Filhos-dalgo, e 
o Prioi da Costa polas Hordees, e Domingos Paaes 
de Bragaa polo Povoo. E feita a Inquiriçom per 
elles, e publicada geeralmente em minha Corte, 
forom deitados muitos Lugares em devasso per 
Sentença. 

G."* — E despois os Bicos homees, e os Fidal- 
gos de minha terra pedirom-me por mercee, que 
como quer que eu perdesse per hi muitos dos 
meus direitos, que me sofifresse em quanto a 
mim aprouvesse daquello, que fora julgado, e 
que dalli a diante naõ fariam honras, nem ac- 
crescentariam nas antiguas: e eu querendo-lhes 
fazer mercê, outorguei-lho em quanto a mim 
aprouguesse, a tanto que elles nom fizessem 
honras, nem acrecentassem nas antiguas. 

7.^ — E ora despois foi a mim dito, que des- 
pois que lhes eu esta mercee fizera, que entom 
andava a Era em mil e ti;pzentos e vinte e oito 
annos, que alguns fezerom ora novamente hon- 
ras, e acrecentarom nas antiguas contra a mercê, 
que lhes eu fizera, e contra a postura, que lhes 
ja fora posta, e per elles outhorgada. E a ma- 
neira, em que me dizem, que as fazem, som mui- 
tas, segundo como se segue; e as maneiras das 
honras, e das outras cousas, que se adiante s^ 
guem, vio-as a minha Corte, conhecendo delias 
com muitos Prelados, que hi forom, e com Ricos 
homees, e com os Filhos-dalgo, ederomhi Sen- 
tenças sobre cada huã das cousas ,|que se seguem . 

8." — Primeiramente foi achado, que alguns 
metem nas honras seus achegados, e seus Ouvi- 
dores, e defendem, que nom entre hi o meu Por- 
teito, nem venha estar a direito perante o Juiz 
da terra, assi como era usado, e custumado. 

A minha Corte julgou, e mandou que tal cousa 
non fosse, nem se fezesse, e que entre hi o meu 
Porteiro, assi como antes foya, e que vaa estar 
a direito perante o .luiz da Terra. 



Q."" — O segundo artigo he tal: que alguns fa- 
zem hoora do lugar, honde lhes pagã algua rem 
por encenssoria, quer em dinheiros, quer em ai, 
e som as herdades, honde elles fazem as en- 
censsorias, dos Lavradores. 

E a minha Corte julgando mandou, que nom 
sejam honrados por tal razom. 

10.** — O terceiro artigo he tal: que algus fa- 
zem honras ali, hu criam os Filhos-dalgo, e em 
esta guisa empara o amo, em quanto he vivo, e 
desque os amos som mortos, emparam o lugar, 
poendo-lhe nome P aramo, e em muitos lugares 
nom solamente ao que mora naqueste lugar, mais 
a quantos moram arredor deUe, e per ali fica 
honrado para sempre. 

A minha Corte julgando mandou, que esto se 
nom fizesse, e que se algun Filho-dalgo for criado 
no devasso, que eu nom perca porem nenhua 
cousa do meu direito: c quanto he no meu her- 
damento Regueengo, que nom se crie hi nenhuu 
Filho-dalgo, nem se defenda nenhuu per tal cria- 
çom feita em tal herdamento. 

11-" — O quarto artigo he tal: que alguus com- 
pram, e gaançam os meus herdamentos Regueen- 
gos, e fazem ende honras, e non dam a mim os 
meus foros, que ende hei d'aver. 

A minha Corte julgando mandou, que esto se 
nom faça, e que se alguma compra, ou gaança 
for feita em taaes herdamentos que nom valha. 

12.*» — O quinto artigo he tal, que alguus teem 
honrados os casaaes, que teem em prestemos 
dos Moesteiros, e Igrejas, como se fossem seus. 

A minha Corte julgando mandou, que os que 
teverem comprados em sua vida dos Filhos-dalgo, 
que sejam honrados em sua vida, e mais nom, 
e nom os outros. 

13.*— O sexto artigo he tal: que alguus fazem 
honras dos herdamentos dos Lavradores, porque 
os servem de pam, e carnes, como se vivessem 
em suas herdades, e levam hende as luitosas, 
que som minhas de direito, e de custume, e di- 
zem, que por aquelle serviço perco eu delles a 
voz, e a cuynha, e achaque, e ajuda d^homees, 
e a vindima, e que nom devem hir comigo em 
hoste. 

A minha Corte julgando mãdou, que honde a 
mim fazem, e devem fazer as sobreditas cousas, 
que por serviço, que façam ao Filho-dalgo, que 
eu nom perca por hi os meus direitos. 



Historia de Portugal 



99 



lé.""— O sétimo artigo he tal: que se alguus 
metem os seus filhos nas casas dos Lavradores, 
e os hl teem oito, ou quinze dias, honram per 
hi o Lavrador, e dizem que per hi fica o lugar 
honrado, e por sua honra. 

A minha Corte julgando mandou, que esto 
nom valha, nem se faça, ca he engano. 

15.® — O oitavo artigo he tal: que alguns Moes- 
teiros, e Igrejas, e alguus outros, que trazem 
casaaes, e herdameotos, que forom de Filhos- 
dalgo, e que som de fora das honras, e dos cou- 
tos em lugares devassos, e trazem-nos honrados 
como quando eraõ dos Filhos-dalgo. 

A minha Corte julgando mandou, que esto 
nom valha, nem se faça, ca he torto conhecido, 
pois nom jaz em honra, nem em couto. 

16." — O nono artigo he tal: que alguus Lavra- 
dores se querem honrar, e honraõ, porque di- 
zem, que vêem de Filhos-dalgo, pêro que nom 
fazem vida de Filhos-dalgo em nenhuã guisa. 

A minha Corte julgando mandou, que estes 
taaes nom ajam honra de Filhos-dalgo, em men- 
tre que nom fezerem vida de Filhos-dalgo, fi- 
lhando mester de ferreiro, ou de çapateiro, ou 
d'alfaiate, ou de cirieiro, ou d'outro mester se- 
melhável a estes per que careça, ou lavrando 
por seu preço em outro herdamento alheo em 
quanto tal vida fezerem; mais lavrando elles em 
seu herdamento por proveza, que ajam, nom 
percam honra de Filho-dalgo, se assy usarom 
com os outros Reyx dante. 

17.** — O decimo artigo he tal: que alguus, por- 
que sam vizinhos, e moradores d^alguãs Villas 
de foro, tem honrados todolos seus casaaes, e 
herdamentos, que haõ nos outros Lugares, e Jul- 
gados per razom daquelle foro, honde som vi- 
zinhos. 

A minha Corte julgando mandou, que per 
razom desse foro nom se defenda o que houver 
alhur ganhado, ou comprado, salvo se for tal 
pessoa, que per razom de sy deva seer honrado 
seu herdamento. 

18.°— O onze artigo he tal: que alguus fazem 
casas de morada ora de novo hu as nunca ouve- 
rom, e fazem-nas nos meus herdamentos forei- 
ros, e fazem ende honras, perque os d'arredor 
delles som destroidos. 

A minha Corte julgando mandou, que esto se- 
nom faça, e que as casas, que se fezerom, e as 



honras despois do tempo da Era de mil e trezen- 
tos e vinte e oito annos dôs a dita Inquiriçom, 
que se desfaçam, pois que as casas som feitas 
nos meus herdamentos Reguengos . 

19."* — Outro sy a minha Corte julgando man- 
dou que todalas honras, que forom feitas de novo, 
ou acrecentadas as velhas, que nom valham, e 
que sejam todas em devasso des o tempo da dita 
Era de mil e trezentos e vinte e oito annos des 
a dita Inquiriçom, assy como de suso dito he. 

20.°— E outro sy a dita minha Corte julgando 
mandou, que nenhuu nom fosse ousado de vir 
contra nenhuã das cousas, que em esta Carta 
som contheudas, nem que embargue o meu Por- 
teiro, nem o meu Moordomo, que nom entre 
naquelles Lugares, hu ouverem d'entrar: e man* 
dou ainda que se alguu per seu ousamento louco 
quizesse, ou quizer vir contra estas cousas, ou 
contra cada huã delias, que se fosse homem Fi- 
lho-dalgo, que lhe deitassem em devasso quanto 
fosse aquello, que elle contra esto quizesse hon- 
rar; e que se for Prelado, ou Abbade, ou Priol, 
ou outro homem qualquer, que fossem deitados 
em Reguengos aquelles herdamentos, de que 
quiserem fazer honras. 

2I.° — E ora Eu sobre esto envio alia Apariço 
Gonçalves meu de criaçom, que faça comprir, e 
guardar todalas cousas, e cada huã delias, que 
em esta minha Carta som contheudas, segundo 
minha Corte julgou; e aquellas, que o assy feze- 
rem. Eu lhes farei porem bem, e mercê; e os 
que o assy nam fizerem os seus corpos, e os seus 
averes o lazerarom, e eu lhes farei assy como 
aaquelles, que nom comprem, nem guardam 
Carta, nem mandado de seu Rey, e Senhor. E 
em testemunho desto dou ende esta minha Carta 
ao dito Apariço Gonçalves. Dante em Coimbra a 
a vinte dias de Outubro. ElRey o mandou per 
sua Corte. Afonso Reymondo a fez. Era de mil 
e trezentos e quarenta e seis annos (1308). 

22.° — E eu enviei alia entom Apariço Gonçal» 
ves com esta minha Carta das Sentenças pêra 
fazer comprir, e guardar as ditas Sentenças em 
cada huu Lugar, hu achasse, que se as ditas cou- 
sas faziaõ, segundo a minha Corte julgou: eesse 
Apariço Gonçalves andando alia, fezerom-me al- 
guus queixumes, que se estendia mais do que 
lhe eu mandava, e que deitava em devasso as 
honras, que eram de vedro dos Filhosdalgo, e 



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100 



Historia de Portugal 



que passava as Cartas das Sentenças, qne de 
mim trazia. E eu por veer se era assy, e se pas- 
sava eile o meu mandado, e as Sentenças, que 
eraõ contheudas em minha Carta, fiz o dito Âpa- 
riço Gonçalves perante mim vir, e as laquiri- 
çooes, que elle sobre esto das ditas honras fezera, 
e os Lugares, que devassara: pela qual razam 
fiz jurar aos Santos Avangeihos em maaõs do 
Arcebispo de Braga o Custodio, e o Dayom de 
Braga, e Pere Esteves, e Ruy Nunes, que eu dey 
por Veedores deste feito, que elles com o Arce- 
bispo vissem todas essas Inquiriçooes, e de- 
vassaçoòes, e todalas outras cousas, que o dito 
Apariço Gonçalves sobre esto fezera; e que se 
achassem que fezera alguã cousa como nom 
devia, que o corregessem, e fezesspm em tal 
maneira, que eu ouvesse o meu direito, e os 
Filhos-dalgo o seu, e o Povoo o seu. E iodos 
acordadamente diíTerom, que virom todalas In- 
quiriçooes, e devassaçoões, que o dito Apariço 
Gonçalves fezera, e o que sobre esto mandara 
fazer; e disserom, que em todo lhes parecia, que 
o fezera bem, e com direito, e que em nehuã 
maneira nom eram per aquello, que elle fezera, 
agravados os Filhos-dalgo, nem as Hordens; e 
mandarom a toda a Corte, que assy se fezesse 
nos outros Lugares, a que avia d^hir. 

23. ""--E despois desto a quinze dias de Junho 
de mil e trezentos e quarenta e nove annos 
(1311) o dito Apariço Gonçalves veeo a mim a 
Coimbra com outras muitas cousas, que fezera, 
e enquerera também sobre os ditos artigos, como 
sobre os meus Reguengos, que lhe eu mandara 
enquerer per Conselho da minha Corte. E como 
mandara da primeira sobre o dito inquirimento, 
que o dito Apariço Gonçalves trouxera, ao Arce- 
bispo de Braga, c ao Custodio, e ao Dayom de 
Braga, e a Pere Esteves, e a Ruy Nunes, que 
vissem o dito inquirimento, porque nom era hy 
o Arcebispo, e alguns outros, que entom virom 
a dita inquiriçom, eu mandei ao Bispo do Porto, 
c a Rodrigo Annes Redondo, e-a Pere Esteves, 
e a Vicente Annes César, e a Ruy Nunes per Con- 
selho da minha Corte; a saber. Dom Frei Este- 
vom Bispo do Porto, e Rodrigo Annes Redondo, 
e Joham Simom, e Pere Esteves, e Pêro Affbnso 
Ribeiro, e Meestre Johane, e Joham Lourenço 
Vogado em minha Corte, e Vicente Annes César, 
e Joham Martins Chantre d'Evora, e Ruy Gomes, 



que vissem essas inquiriçooes, e devassaçoões, 
e essas cousas, que o dito Apariço Gonçalves en- 
querera, e fezera depois; e se achassem, que ai* 
guà rem fezera, como nom devia, que a fezessem 
correger, como achassem que era direito: e elles 
virom essas inquiriçooes, e devassaçoões, e cou- 
sas que o dito Apariço Gonçalves enquerera, e 
fezera despois, e todos acordadamente disserom, 
que lhes parecia, que fezera bem, e direito. 

24.''<»Pero porque alguns se aqueixarom da 
entrada do Moordomo, que lhes fazia que per 
força se aviessem por cousa assígnada cad'ano; 
porque Ibes semelhava, que era feito como nom 
devia, teverom por bem, que se nom faça daqui 
en diante; e mandaarom, que o que se fez ata- 
aqui per força sobre esto, que nom valha ne mi- 
galha, mais que se algum se quizer avir de seu 
grado com o Moordomo, que se avenha; e que 
per razom da dita aveença nom se entenda, que 
he per hi a herdade Reguenga, nem perca eu 
per razom delia o meu direito, que me deve a 
fazer, e deve haver o Moordomado, por que se 
elle avem. 

S5.°-— E mandaarom ainda mais sobre as cou* 
sas de suso ditas, que se alguns se teverem por 
aggravados em alguãs das ditas cousas, que ve- 
nham perante aquelles Ouvidores, que eu hi 
der, e eu farei que lhes guardem todo seu direito, 
pêra se correger o que se deve a corroer com 
direito. Praz-me, que todos aquelles, que se 
sentirem por aggravados d^alguãs destas cousas, 
que des dia de Sam Joham Bautista este primeiro, 
que ora vem, que eu mando pubricar esta Carla, 
ataa huu anno comprido, venham perante mim, 
e eu lhes farei comprimento do direito: e os que 
quiserem vir venham outro sy, e farei-lbes di- 
reito ataa o dito tempo. E em testemunho d'esto 
Ibes dou esta minha Carta. Dante em Coimbra a 
quinze dias de Junho. ElRey o mandou per sua 
Corte. AfTonso Reimondo a fez Era de mil e tre- 
zentos e quarenta e nove annos (1311'}. 

26.* — A qual Ley vista por nos, ávemos por 
boa, e a aprovamos, e louvamos.» 

Estas leis põem bem a claro, como acabamos 
de ver, os abusos que as motivaram. 

Alem da isempção dos impostos nas terras pri- 
viligiadas, propriamente ditas, os donatários es- 
tendiam a immunidade, com grave detrimento 
do fisco, aos logares que lhes pagavam qualquer 



Historia de Foiinigal 



lól 



censo. — Dayam*Da também áquelles, ondeman* 
davam crear os filhos, não só iegitimos, mas até 
naturaes; frequentemente, os propios moradores 
pediam-lhes as creanças, para obter o privilegio; 
tomavam essas localidades os Qomes de amadigos 
ou paramos; e pertendiam alguns nobres que á 
isempção passasse aos descendentes dos agracia- 
dos. Foi este abuso que D. Diniz cortou em 1290, 
probibindo que os filhos dos fidalgos fossem area- 
dos, nas terras reguengas, e retirando o privile- 
gio aos legares devassos ^ ou de direito commum, 
onde se amamentassem. ^ 

Os nobres, quando adquiriam alguma proprie- 
dade, particular, ecclesiastica ou real, tentavam 
logo dar-lhe a natureza de honra para se liber- 
tarem dos tributos régios. Chegaram a pagar a 
hospedagem que por dias recebiam, elles ou seus 
filhos, em um logar qualquer, outhorgando-lhe 
o privilegio. R, imitando os nobres, havia quem, 
vivendo do rude trabalho dos campos ou de offi< 
cios mecânicos e na pobreza, allegasse paren- 
tesco remoto- com grades fidalgos, para se arro- 
gar a isempção. 

D. Diniz, com as inquirições, reduziu a pro- 
porções diminutas estas invasões audaciosas; e, 
como se vô pelo § IQ."" da Ordenação transcripta, 
aboliu e restringiu, em 2 d'outubro de 1307, to- 
das as honras y fundadas ou ampliadas desde 1 290. 

Os impostos ou direitos, a que em geral di- 
ziam respeito as isempções, e que os povos dei- 
xavam de pagar ao governo central, para os 
Batisfazer aos respectivos donatários, mais ou 
menos alterados, nem sempre para maior suavi- 
dade, — eram em dinheiro, géneros ou serviços 
pessoaes. 

Âttingiam numero incrível, e tomavam as mais 
variadas denominações. 

Apontaremos apenas algumas; por exemplo: 
censo, dadivas, decima saladeira, dizima, açoa- 
gagem, alça vala, braguadiga, aposentadoria, 
arabiado, castellatico, chavadego, fartas, ga- 
linha do açor, galinha do couteiro, marceiras, 
marrãa, primariça, jugada, leitosa, maladia, 
almeitiga, colheita, dinheiro de S. Pedro, por- 
tadigo, sesmaria, talha, testamento, foro caba- 
neiro, enxeco, fogaça, omizio, usagem, eira- 

< Ribeiro Disserta t. 3. p. 166. — Amaral, Mem, cit 
p. i38, n.(a) 



daga, resgate dos altares, nabulo, talha, etc. 
etc. 1 

Quasi todos os direitos reaes recahiam sobre 
a cultura da terra e a creação dos gados, então, 
fontes principaes da riqueza nacional, attento 
o débil estado em que ainda se encontravam a 
industria e o commercio. 

Estes recursos, até ahi, profusa e abusiva- 
mente, divididos peias duas classes priviligia- 
das, sendo pelo monarcha avocados para o 
poder contrai, foram augmentar-lhe a auctori- 
dade e a força. 

Eis, n*esta parte, a obra de D. Diniz; susten- 
tou, desde 1284 até 1311, vinte e sete longos 
annos de luta com o clero e os nobres. Foi mais 
feliz no empenho do que nenhum dos seus an- 
tecessores: estes haviam-lhe preparado o terreno 
e enfraquecido os adversários; mas elle era mais 
tenaz, mais intellegente e hábil, do que seu pai e 
avós; alem d 'isso tornara-se maior o conheci- 
mento geral do direito cesáreo, que tanta força 
dava aos reis; a paz dispensava em grande parte 
os serviços dos fidalgos; o poder sempre crescente 
e já grande do braço popular contrabalançava o 
poderio das classes privilegiadas. Auxiliado por 
todas estas circumstancias, é que D. Diniz poude 
adiantar, largamente, a reforma social e profunda 
da extincção do feudalismo e dos grandes e ve- 
xatórios privilégios das classes elevadas. 

A velha instituição porem estava ainda longe 
do anniquillamento. Diniz atacou a soberania 
feudal quasi só na sua primeira natureza, nas 
isempções fiscaes; — a jurisdicção criminal e ci- 
vil dos senhores para com os colonos, ficou 
ainda de pé, tamanho era o poder da egroja 
e dos nobres, e tão arreigado estava nos cos- 
tumes públicos. Foi seu filho e successor, Af- 
fonso IV, que, por esse lado, primeiro investiu o 
feudalismo, com resultado mencionavel. É na his- 
toria do próximo reinado que se deve tratar o 
assumpto. 

Compriu Diniz todavia a missão, que lhe 
coubera na evolução social; — e merece a gra- 
tidão da posteridade. 

i Amaral, cit. Mem, pa g. 442, n. (a)— Todas as pa- 
lavras mencionadas podem ver-se definidas no Eluci' 
daiHos onde se encontram perto de duzentos termos, 
designando impostos;- alguns porem são synonimos. 



102 



Historia de Portugal 



CAPITULO XIII 

As ordens de oavallarla: — ^Templários, 
Ohristo, S. Thiago 

Já o dissemos. ^ Apenas, por toda a Earopa, 
se tornou de6nitívo o estabelecimento dos bár- 
baros do norte, os seus generosos sentimentos, 
aprimorados pela civilisaçâo relativa da vida feu- 
dal e a necessidade imperterivel de iniciar a or- 
dem e a protecção aos desvalidos, no meio da 
geral confusão da sociedade, — fizeram apparecer 
individuos, cujo valor guerreiro e hombridade 
de caracter os levaram a tomar sobre si esse 
elevado empenho; recebiam, depois de determi- 
nadas provas, a denominação e o grau de ca- 
valleiros; pertenciam á classe distincta dos no- 
bres; viviam porem isolados, obdecendo â sua 
fantesia, e completamente livres, dentro da es- 
phera de ideias singulares, que crearam no espi- 
rito. 

Era seu ideíal a celebridade pelo valor; e a 
causa perdominante, no seu caracter, a exalta- 



Bstes dois princípios impelliam-nos âs maiores 
temeridades, abalançando^se, frequentemente, a 
empresas defficeis, e até impossíveis e absurdas. 
Não era raro encontrar um cavalleiro empenhado 
em vedar a passagem d 'uma estrada ou d*uma 
ponte aos homens de guerra que pretendessem 
transpol-a; e viam-se, por toda a parte, estes 
soldados heróicos, vagando, de povoação em po- 
voação, e de reino em reino, à procura de com* 
bates e d'aventuras. 

A generosidade, levada à exhaitação, ins- 
pirou-lhes delicadeza cortez, compaixão pun- 
donorosa, amizade até para com os próprios 
inimigos. Estes sentimentos tiraram á guerra a 
feroz brutalidade do vencedor para com o ven- 
cido, usada, constantemente, na edade antiga. 

A exhaitação da vaidade, da ostentação e do 
luxo, impelliu-08, por vezes, a despendios não 
só pródigos, mas até loucos. 

que porem os tomou sobre tudo singulares, 
na historia psychologica e social da humanidade, 
foi a sua exhaitação no amor. Dominava-lhes, 

1 Cap. 11 doeste Livro, pag. 82, col. 2.* e pag. 86, 
col. 8.« e segg. 






por tal modo, o espirito, que chegou a ser o 
móbil de todas as suas acções, e dos seus fei- 
tos mais heróicos. Este affecto era quasi sempre 
desinteressado, puro, espiritual: depois d'uma 
vida de dedicações extraordinárias e admiráveis, 
julgava-se plenamente pago, com um simples 
beijo, um doce sorriso, uma banda bordada pe- 
las mãos, tantos annos estremecidas e anciadas. 

O valor militar, o amor, a generosidade, le- 
vados até ao extremo, tornaram a cavallaria 
uma instituição romanesca, quasi maravilhosa, 
donde proveio aos séculos medievos a poesia ori- 
ginal, entre o heróico, o trágico, o idyliano e o 
cómico, que constituiu a litteratura romântica, 
na sua verdadeira pureza e sublimidade. 

Perdominou a cavallaria, nos paizes onde mais 
pervaleceu o feudalismo culto, na França, sobre 
tudo ao sul, na AUemanha, na Itália e principal- 
mente na Hespanha. Teve, primeiro, por feição 
typica a herocidade militar; depois o amor e a 
poesia. 

Era a ffor do feudalismo, a sua filha dilecta; 
a pouco e pouco, porem, os vicios d'aquelle con- 
taminaram-n'a; e a cede de ganho e a cubica 
substituiram, em grande parte, os sentimentos 
generosos e elevados. Viu-se então, numerosos 
cavalleiros deixarem de ser o amparo e os pro- 
tectores das damas, dos desvalidos e da pátria, 
para se tomarem chefes de bandos, em rebeldia 
contra as leis e os costumes, ora procurando 
exercer terríveis vindictas particulares, ora per- 
petrando rapinas e attentados de toda a espécie. 

A cavallaria decahiu então rapidamente, com- 
batida, como o feudalismo, pelos reis, a egreja 
e os povos. Destmio-a, mais tarde, de todo 
a creação dos exércitos permanentes e o uso das 
armas de fogo, especialmente da artilheria, que 
annuliou muito o valor individual dos cavalleiros, 
principal base da sua anterior perponderancia. 

Antes porem d'este anniquillamento, nos fins 
do século XI, quando a corrapção da cavallaria 
jã estava assaz pronunciada, iniciaram-se as 
cruzadas, e a população irrequieta da Europa 
lançou-se no oriente, para resgatar o sepulchro 
de Christo, e combater, na Ásia, os inimigos da 
cruz. Gomo era natural, a primitiva exaltação 
dos cavalleiros despertou-se, ante o novo hori- 
sonte; e na segunda expedição, unidos ás mas- 
sas populares, milhares d'elles dirigiram-se à 



Historia de Porti^al 



103 



Palestina, e entraram em Jerusalém com Godo- 
fredo (1099). 

Mas 08 experientes nas cousas militares viram 
logo, que da empreza restava o mais difficil, que 
o mais árduo não fora a conquista da cidade bí- 
blica, mas seria o sustental-a, sob o dominio 
christão, entre as multidões innumeraveis d'in- 
fieis que de toda a Ásia e Africa refluiriam para 
alli; — e conheceram que a cavallaria isolada, an- 
dante, individual, que tantos serviços prestara 
na Europa, era nulla e impossível, no meio das 
bordes aguerridas e infinitas dos mahometanos. 

Com o propósito pois de defender o sepulcbro do 
Nazareno, sustentar Jerusalém, proteger e receber 
08 peregrinos de toda a christandade e conser- 
var as communicações com as praias do Medi- 
terrâneo, — 08 cavalleiros, que até ahi viviam 
separados, e, de lança em punho, percorriam, 
aventurosamente, a Europa, sosinhos ou acom- 
panhados apenas de escudeiro, pagem e um ou 
dois creados, congregaram-se em numerosos gru- 
pos, e fundaram na Palestina, à semelhança das 
communidades ecclesiasticas, dezenas de ordens 
militares. Constituíram assim grandes corpos de 
cavallaria, ligando-se por estreitos laços de rigo- 
rosa disciplina marcial e por votos religiosos , como 
lhes ditavam o espirito dominante do século, 
do logar e ambiante em que se achavam e a 
influencia theocratica a que na recente con- 
quista, obdeciam. Taes foram as ordens, simulta- 
neamente guerreiras e monachaes, dos hospita- 
leiros de S. João de Jerusalém, dos cavalleiros 
do Santo Sepulcbro, de S. Lazaro, dos Templá- 
rios, ele. 

Os enormes serviços, piedosos e militares, 
que estas corporações prestaram, desde logo, 
nas guerras do oriente, fizeram com que, em 
todos os paizes da Europa, fossem recebidas com 
enthusiasmo, sendo largamente dotadas as prin- 
dpaes, e creando-se outras, em diversos esta- 
dos, para as crusadas nacionaes, contra herejes 
e mnssuhnanos. 

Vimos, no i volume d'esta obra, ^ como o facto 
se realisou, em Portugal, desde os primeiros dias 
da monarchia; os grandes serviços que contra os 
mouros nos prestaram os cavalleiros tio Templo 
e do Hospital; e a largueza com que os primeiros 

1 L. 2»« cap. 1, pag. 72 e seguinteSi 



monarchas os recompensaram, concedendo-lhes 
avultadas riquezas e grandes privilégios; ahi se 
indicaram também as ordens que Affonso Hen- 
riques instituiu de novo e admittiu de Gastella, 
para occorrer âs necessidades da conquista, no- 
meadamente as d'Avis e S. Thiago, que, de 
idade em idade, se foram tornando, militar- 
mente, mais estimadas e beneméritas. 

Tinha porem esta milicia monacbal um gravís- 
simo deSeito; em regra, sobre tudo as ordens 
principaes, reconheciam por chefe supremo, não 
os monarchas dos respectivos paizes, mas o 
papa; a sua nacionalidade não era a pátria, mas 
sim Roma. Constituíam um exercito ponteficio, 
aguerrido, numeroso, rico, que estava, por toda 
a christandade, ao serviço da cúria, defendendo 
os seus interesses e as suas ideias de perdomi- 
nio theocratico. 

Em quanto duraram as cruzadas, o mal pouco 
se sentiu, antes serviu para conter um pouco 
as rivalidades das diversas corporações, e para 
dar a indispensável unidade aos esforços de 
todas ellas, nas guerras demoradas e fataes do 
oriente. Porem, apenas estas cessaram, no fim 
do século XIII, e as ordens recolheram á Euro- 
pa, com toda a sua opulência, poder e tradic- 
ções brilhantes, o mal tornou-se insuportável 
aos monarchas, jã então, poderosos e concen- 
trando em si as forças principaes dos respecti- 
vos estados. 

De todas as ordens, porem, a do Templo, 
cujos Sliados eram nobres, é a que mais alto 
levara o heroísmo, a magnificência e a perpon- 
derancia social e politica; personalisava, por assim 
dizer, o vasto monachismo militar, todas as vir- 
tudes, toda a gloria e toda a mystica e heroiòa 
poesia da cavallaria religiosa das cruzadas, — 
derradeira manifestação brilhante do feudalismo, 
nos longos e obscuros séculos da idade media. 

Com os cavalleiros do Hospital, durante largos 
annos, os templários haviam soffrido o embate 
constante das multidões asiáticas. 

No ultimo quartel do século xii, porem, qttando' 
a fé catholica esmorecia na Europa e o grande 
enthusiasmo das cruzadas passara, as dtras or- 
dens não poderam manter-se por thals tempo, 
dentro dos muros, meios derrocados e desertos, 
de Jerusalém; e retiraram da cidade santa (1 187) . 
Estabeleceram-se os templários em S. João d'A^ 



104 



Historia de Portugal 



cre; mas d'ahi foram também obrigados a sa- 
bir, em 1291. Depois de dois séculos de luta, o 
Islamismo triumpbava, no oriente, e tornara-o 
seu. Outro género dlnteresses e de ideias do- 
minava na Europa: — os mahometanos, posto 
que inimigos de Ghristo, começavam a ser con- 
siderados por ella como um grande povo, com o 
qual podia commerciar, tranzacionar, viver. 

Às ordens militares, nomeadamente a do Tem- 
plo, no meio doesta sociedade de tendências posi- 
tivas, crenças duvidosas, aspirando mais ao bem 
estar material e terreno, do que â gloria celeste, 
•^tomadas pelo seu lado grandioso, espiritual e 
symbolico, eram um anachronismo que as novas 
gerações já nâo comprehendiam; — consideradas 
pela perponderancia que das riquezas e gloria 
militar lhes advinha, incitavam a inveja e o ciúme 
dos reis, dos nobres e do clero; — mas sobre tudo, 
pelos privilégios, com que os monarchas e princi- 
palmente os papas as haviam dotado, dando- 
Ihes uma vida d'excepção, acentuada e pe- 
rígosa, pois a sustentava a espada adextrada 
e valorosa de muitos milhares de guerreiros, 
tornavam-se incompatíveis para com os gover- 
nos regulares das nações. 

Os privilégios dos templários chegavam a ser 
extraordinários. 

Eleito em 1185, Urbano iii, apesar de morrer 
em 1 187, teve tempo de lhes permittir que edifi- 
cassem egrejas, dedicadas à santa sé, nas ter- 
ras que conquistassem aos mussulmanos. 

lonocencio iii, que governou de 1198 a 1216, 
isentou-08 de pagar qualquer imposto pelos vive- 
res que comprassem ou conduzissem d'um logar 
para outro; — e mais tarde Clemente iv prohibiu, 
terminantemente, aos templários, sugeitarem-se a 
tributo algum, sem consentimento e ordem ex- 
pressa da santa sé. 

Innocencio iii, também tirou aos bispos o di- 
reito de excommungarem qualquer filiado do 
Templo e de porem interdicto nas suas egrejas; 
e declarou que os templários não eram obrigados 
a obdecer a ordenanças contrarias aos seus pri- 
vilégios. 

Honório iii, eleito em 1 216, fallecido dez annos 
depois, tendo tentado em vão restaurar as cruza- 
das, ordenou aos prelados que excommungassem 
quem roubasse ou maltratasse um templário, e 
que, no segundo caso, a pena só fosse suspensa, 



quando o offensor desse ao aggredido plena sa- 
tisfação, e fosse a Roma em penitencia. 

Governando de 1254 a 1261, Alexandre iv, 
tão pródigo das graças ecclesiasticas, obrigou 
os bispos a acceitar os clérigos, que o Templo 
apresentasse nas egrejas da ordem, retirando- 
Ihes a faculdade de se engerirem na dotação, 
que esta estabelecesse. Fez mais: isentou os tem- 
plários de pagar dizimos das terras que culti- 
vassem, não só próprias, mas ainda arrendadas, 
A sua cultura era, em todos os paizes, grande 
e excellente; terra, cujo amanho dirigissem, ad- 
quiria, em breve tempo, fertilidade e riqueza 
excepcionaes. 

Clemente iv, — que occupou a cadeira de Pedro 
de 1265 a 1268, suave, modesto, desinteressado, 
mas que conhecia, pela ter exercido, a ardaa 
carreira das armas, — ordenou aos prelados dioce- 
sanos que procedessem, judicialmente, contra 
todos aquelles que praticassem violências, nas 
propriedades dos templários, que se oppozessem 
á recepção dos legados com que fossem con- 
templados, que offendessem os seus privilégios, 
ou lhes exigissem dizimos. Authorisou os caval- 
leiros a nomearem clérigos para as suas egre- 
jas, e a prestarem testemunho nas próprias cau- 
sas, sem que para isso podeesem, por modo algum, 
ser violentados. 

Gregório x, cujo pontificado durou apenas de 
1271 a 1276, isentou a ordem de pagar os subsí- 
dios, lançados sobre as rendas ecclesiasticas, 
para a libertação do santo sepulchro. 

E Benedicto xi, que foi canonisado, go- 
vernando de 1303 a 1304, confirmou todos 
os privilégios concedidos aos templários, pelos 
papas, seus antecessores e pelos reis. ^ 

A estas excepcionaes regalias juntava-a a 
ordem, como dissemos, a maior opulência de 
bens materiaes. 

Quando os cavalleiros deixaram a Syria, os 
que se recolheram a Paris, onde era a sede de 
toda a corporação, levavam comsigo, diz-se, 

1 Summarium privilegiorum quo pontífices summi 
militibus Templi concessere; ex manuscripto libro 
Lusitanise desumptum: in quo eadem privilegia in- 
tegra sunt descripta in Henriquez, Regula Comi, 
ordinis Gistert, pag. 479, 481.— H. Schoeffer, HUt, 
de Pofi. L. 2.« cap. 1. § 4. B. 



Historia de Portugal 



105 



cento e cincoenta mil florins de ouro, e dez mua- 
res carregados de objectos de prata. 

As propriedades territoriaesda grande associa- 
ção eram innumerayeis. Os chronistas do tempo 
afirmam, que possuía, espalhados por toda a 
christandade, perto de dez mil e quinhentos do- 
mínios de diversa extensão e importância; só 
n'nm pequeno estado da Hespanha, no reino 
de Valença, era donatária de dezessete praças 
de guerra. 

A ordem dividia-se em nove províncias: Fran- 
ça, Portugal, Castella e Leão, Aragão, Malhorca, 
AUemanha, Itália, Apúlia e Sicília, Inglaterra e Ir- 
landa. Em todos estes paizes e em todas as clases, 
tinha numerosos filiados. Para o serem, bastava 
pagarem ao Templo uma pequena pensão annual 
de dois ou três dinheiros, com a promessa de lhe 
deixarem, na hora extrema, todos ou parte de 
seus bens. Grandes senhores se tinham ligado, 
por es^ forma, doando-lhe os seus haveres. 
O rei d'Aragão, Affonso, o batalhador^ legou o 
reino inteiro; não passou para as mãos dos 
templários, por que os aragonezes se oppoze- 
ram, com firmeza, à doação. 

Ostentavm os cavalleiros, por toda a parte, 
esta opulência; vestiam o trajo simples e o manto 
branco da ordem; mas montavam em bellos 
cavallos árabes, as suas armas resplandeciam 
de ouro e pedrarias, e seguia a cada freire um 
séquito numeroso, composto de pagens, escu- 
deiros, serventes d'armas e escravos árabes. 

Tantos privilégios e riquezas provocaram, por 
modo fatal, o ciúme e a cubica do rei de França, 
Filippe IV, príncipe zeloso das prorogatívas da 
coroa, ambicioso, tenaz, sem escrúpulos, des- 
leal, heshumano, na occasião completamente 
exausto de meios, e receiando ver a cada mo- 
mento surgir uma revolta popular, ã menor taxa 
com que de novo onerasse os súbditos. 

Pretendeu ser iniciado na ordem, provavel- 
mente no intuito de se fazer eleger grão-mestre, 
e de se apoderar dos seus enormes haveres. Os 
freires regeitaram-n'o. Mais tarde, em 1306, per- 
seguido pelo povo de Paris amotinado, refugiou-se 
no Templo, vasta manção claustral, que os caval- 
leiros habitavam na cidade, e onde guardavam 
as riquezas» Cônscios e vaidosos da sua força, 
por tanto imprudentes, supp5e-se que os tem- 
plários mostraram ao real foragido os seus ex- 

n vQii,— U. 



traordínarios thesouros, incitando ainda mais a 
famélica avidez do rei. 

Apenas sahiu do mosteiro e recuperou o go- 
verno, Filippe uão pensou senão em extinguir 
a poderosa ordem, e em roubar e anm'quilar os 
homens que o haviam protegido. 

De todos os meios lançou mão, para realísar 
o seu politico, mas ingrato e deshumano intento. 
Governava então a egreja Clemente v, eleito 
em 1305 por directa influencia de Fiííppe; esta- 
belecera o pontificado em Poitiers, para fugir ás 
dissenções da Itália, mas vivia como prisioneiro 
e mandatário do rei de Fran^ja. 

Pedíu-lhe este, com vivo empenho, a disso- 
lução dos templários. Parece, — afirma a tra- 
dicção, — que o deferimento fora uma das três 
condicções com que o monarcha francez lh« al- 
cançara a thiara. 

O papa comtudo hesitou. ReaUsar tal pedido 
seria destruir directamente um exercito, com- 
posto então de quinze mil valentes cavalleiros, 
que, não obstante algumas pequenas desobediên- 
cias, eram soldados jurados e fieis da santa sé; se- 
ria a extincção de todas as ordens militares como 
milícia pontificia, — o que daria morte completa à 
theocracia, á grande aspiração dos papas, durante 
toda a idade media, e que por vezes haviam rea- 
iísado. 

Clemente v, apesar da baixeza do seu espi- 
rito, teve a intuição doeste suicídio, e recuou 
ante a idéa do o commetter. Com fúteis evasivas, 
illudiu o pedido de Filippe, protrahindo o defe- 
rimento da supplica; e fazendo-lhe, ao mesmo 
tempo, uma infinidade de outros favores. 

O rei de França porem não desistiu do intento^ 
O amigo do regalista Nogaret era lógico com os 
seus percedentes: na pessoa de Bonifácio viii, fe- 
rira na face o papado; agora arrancava-lhe o 
gladio, com que ainda mantinha o antigo perdo- 
minio. Alem disso, Filippe vía-se pobre, e preci- 
sava ouro . 

Ajudado pelos jurisconsultos romanistas, pelos 
cavalleiros do Hospital e pelos frades de S. Do- 
mingos, a cuja ordem pertencia o seu confessor, 
e que eram, por inveja, figadaes inimigos dos 
templários, começou contra estes uma guerra ter* 
rivel, calumniando-08, ante a opinião publica da 
França e da christandade. 

Tudo se disse a seu respeito; primeiro como 



106 



Historia de Portugal 



rumor yago de suspeita popular; depois apon- 
tando testemunhos d'um oú outro templário im- 
prudente, e defíiiados indiscretos; por fim como 
cousa official, provada judicialmente, e publicada 
em documentos authenticos e régios. 

Apezar dos cavalleiros do Templo darem mais 
esmolas do que neúhuma outra ordem, afirma- 
Ya*se que a sua caridade não estava na propor- 
ção das riguezas que possuíam; e que eram usu- 
rários com os povos e os governos. 

Provavam, com factos, que os templários nem 
sempre tinham empregado a espada e os ha- 
veres no serviço exclusivo da religião. Muitas 
vezes, no oriente, haviam pactuado com os 
infiéis, e entremettido-se, não poucas, na poli- 
tica interna dos estados; — tinham despojado 
da coroa a Henrique ii, rei de Jerusalém, e 
ao duque de Croácia, — combatido os soberanos 
da Âutiochia e de Chipre, — avisado os infiéis da 
vinda de Frederico ii, — recebido com pompa um 
príncipe mussulmano no seu mosteiro, — nega- 
do-se a concorrer para o resgate de S. Luiz, — 
mantido constante luta com os freires do Hospi- 
tal, chegando até a disparar settas contra elles 
no Santo Sepulchro. Agora, na Europa, conti- 
nuavam estas perniciosas demasias: haviam-se 
declarado pela dymnastia d'Aragão contra os 
príncipes d'Anjou; — na Inglaterra, tinham amea- 
çado Henrique ni de o desthronar, se deixasse 
de ser justo; — na França, muitos só tinham 
assignado o acto régio de Fellippe contra Bo- 
nifácio VIII com reserva, Síib protestationibus. 
— O seu poder, emfim, era perenne receio 
dos monarchas mais poderosos e escândalo vivo 
de todas as religiões. 

Estes actos, que a voz publica exagerava e 
adulterava, tinham pela maior parte as suas at- 
tenuantes, e alguns até haviam sido ditados 
pela boa razão e a justiça; outros porem eram, 
efectivamente, verdadeiros maleficios, e os ini- 
migos da ordem aproveita vam-nos, pintando-os 
com as mais negras cores, para denegrir aos 
templários as tradicções gloriosas, e apresentar 
aos olhos do povo como perneciosos os seus 
intentos. 

Outra accusação feria porem mais o espirito 
do vulgo, e levantava contra elles a ammadver- 
são geral. 

Afirmava-se que aâ inlciaçOesi tinham um ca* 



racter, por tal modo secreto e extraordmario, 
que a morte seria inevitável ao profano que 
as prescnceasse ; — que n'ellas o neophito era 
obrigado a renegar a fé de Ghristo, a profe- 
rir blasphemias contra o Omnipotente e a Vir- 
gem, a pizar aos pés um crucifixo e a cuspir 
três vezes sobre elle. 

As iniciações eram na verdade assim, não por 
impiedade, mas por um symbolo, que fora 
outr'ora, na tradicção evangélica, claro e elo- 
quente. 

Pedro, três vezes, renegara Chrislo, e o seu 
arrependimento chegara depois a ser tão pro- 
fundo e a sua conversão tão convicta, que Jesus o 
declarara pedra fundamental da egreja, e o ele- 
vara ao pontificado. O noviço simulava renegar 
a fé e cahir no mais fundo abysmo da impiedade, 
para a ordem parecer que d'ahi o elevava â 
perfeição christã e â subida gloria de dedicar 
uma vida de heroísmos ao serviço de Jesus. 

Este symbolo, no estado em que os espiri- 
tes se achavam no século xiv, começando a 
alhear-se dos sentimentos religiosos e do poético 
mysticismo bíblico, jã não era comprehendido 
do vulgo; e envenena vam-n'o, com o sentido 
material, os partidários do rei e os chefes, 
sem elevação e invejosos, da clerezia regular e 
secular. 

Esta accusação, confessada depois geralmente 
pelos freires francezes e inglezes, e que elles 
próprios nem sempre sabiam explicar, — foi a 
qiíe principalmente serviu á perdição da ordem 
do Templo, primeiro no espirito publico, e mais 
tarde no grande processo que se lhe instaurou. 

Mas havia uma outra, — cuja falsidade é hoje 
por todos reconhecida, posto que as averiguações 
históricas ainda não poderam demonstrai-a ca- 
balmente, — que, ao propagar-se, encheu d'hor- 
ror o espirito timorato e ignaro das multidões. 
Os templários, — diziam, — não professavam o 
verdadeiro catholecismo: na missa omittiam as 
palavras da consagração; e adoravam, no recon* 
dito dos mosteiros, um idolo mysteríoso, sobre 
cujas formas variavam as opiniões. Uns afirma* 
vam que era uma cabeça, com três faces;-^ 
outros um rosto de velho, com longas barbas 
brancas, cabello encrespado e olhos rutillantes, 
e que n'elle tocavam os cavalleiros as fachas 
com que se cingiam, e o rodeavam de genuHç* 



HiatoriA de Portugal 



107 



xões e de preces; — outros diziam ser o idolo um 
animal, sustentando alguns que era um gato. 

Alem d'estas demasias de força, doestas pra- 
ticas Ímpias e criminosas, doestas idolatrias he- 
réticas, 08 templários viviam, — segredava-se, — 
na mais abominável devassidão. Lançados no 
orgulho e egoismo profundos da ordem, abs- 
trahiam das relações externas, desprezavam a 
mulher, para se amarem mutuamente com las- 
cívia. O Templo resuscitava as immundas im- 
pudicicias de Sodoma. 

Tudo isto se sabia^— sustentavam os mais 
auctorisados, — porque dois templários, um ita- 
liano, outro gascão, presos por diversos delictos, 
o haviam revelado aos juizes. 

Tendo vivido, durante dois séculos, no meio 
dos soltos costumes e da escravidão do orien- 
te, opulentos, luxuosos, fortes, mas vencidos, — 
não obstante as constantes e sempre desmenti- 
das promessas de victoria dos papas e da fé, — 
08 templários d'alguns paizes haviam efiTectiva- 
mente afrouxado nos rigores de disciplina, na 
austeridade de vida, que lhes fora prescripta pela 
imaginação poética e ardente de S. Bernardo; 
todavia os seus erros, vicios e crimes estavam 
muito àquem das calumnias que lhes assacavam, 
e eram largamente compensados pelo muito san- 
gue derramado na Syria e na Europa contra os 
infiéis, pelos seus brilhantes feitos militares a 
pró do christianismo. 

O povo francez porem, illudido pelos parti- 
dários do rei e inimigos da ordem, acreditou 
as calumnias propagadas em toda a sua enormi- 
dade e absurdo; e antes que a egreja, o papa, 
natural juiz dos templários, os condemnasse, es- 
tavam, n'aquella nação, irremediavelmente per- 
didos no conceito publico. 

Destruídos d'esta arte os alicerces, fácil era 
derrubar o edificio; como Clemente v conti- 
nuava a resistir, Filippe resolveu proceder, di- 
rectamente, assumindo toda a responsabilidade 
do acto. 

Com o fim de illudir os cavalleiros sobre a sua 
má vontade, de que por certo estavam preve- 
nidos, d rei de França convidou o grão mestre da 
ordem, Jacques Molay para padrinho d'um dos 
seus filhos; e a 12 de outubro de 1307 desi- 
gnou-lhe logar dos mais honrosos no enterro 
d'umá sua cunhada.— 'No dia seguinte, 13, 



procedeu, inopinadamente, á prisão do iUustre 
velho e de mais 140 templários que estavam em 
Paris; á mesma hora, eram presos, nos mais di- 
versos pontos do reino, todos os freires que se 
encontravam em França. 

Immediatamente, Fillippe, que o povo appel- 
lidava o formoso e o moedeiro- falso, occupou 
o Templo, com grande séquito de homens d'ar- 
mas, juizes, escrivães e meirinhos; — instaurou, 
com o seu confessor, que era também inqui- 
sidor-mór, e outros prelados de confiança, o 
processo da ordem, — e apoderou-se-lhe dos the- 
souros. 

No entanto, a população de Paris, por fregue- 
zias e irmandades, era convocada para os jardins 
do rei, na Cité,e numerosos frades, em púlpitos 
improvisados, pregavam calorosamente contra os 
templários por Ímpios e heréticos, louvando o 
procedimento do rei, como d'um campeão da 
fé; — Em toda a França, publicava-se uma carta 
regia violenta contra a ordem, expondo, com 
as mais horrendas cores, os pontos da accu- 
sação. 

Tomado de pasmo, soube Clemente v o succe- 
dido: o rei christianissimo invadia a jurisdicção 
da santa sé, procedendo, criminalmente, n'um 
negocio da exclusiva competência do papa. Ape- 
zar do seu habitual servilismo, o pontífice irri- 
tou-se, reprehendeu severamente o monarcha, 
e suspendeu os poderes do inquisidor e pre- 
lados que o haviam auxiliado. 

Esta energia porem durou pouco; Clemente v 
atemorisou-se, primeiro com a áspera resposta 
de Fellippe, depois com a sua presença em 
Poitiers; cedeu, logo que o rei lhe enviou se- 
tenta e dois templários para inquirir e mostrou 
concordar com a resolução pontificia de ficar 
á sé apostólica o julgamento dos chefes da ordem. 
Em breve, o papa levantou a suspensão que 
decretara; e, em 1 d^agosto de 1308, man- 
dou processar os templários pelo direito escripto, 
phrase ambigua, que se referiria ã legislação 
canónica, mas que podia ser indicativa da ju- 
risprudência cesárea, ou dos regulamentos in- 
quisitoriaes, e que entregava, d'esta arte, os des- 
graçados freires â merco do rei. 

Continuava este, com feroz tenacidade, o seu 
tenebroso plano; cento e quarenta templários 
foram entregues ã tortura mais horrenda, e obri- 



108 



Hidtoria de Portugal 



gados, pelas excruciantes dores do ferro e do 
fogo, a confessar quantas infâmias os agentes 
do rei lhes ditavam, — comprovando-se, por es- 
tes depoimentos mais que suspeitos, as accusa- 
£ões feitas â ordem. 

Para augmentar o escândalo, as declarações 
dos réus foram logo divulgadas. Depois envia- 
ram-nas a Clemente v. Este mandou perguntar 
aos depoentes, se eram verdadeiras. 

Gonfirmaram-nas, por conselho dos delegados 
pontifícios, na esperança d^absplvição; o papa 
concedeu-lh'a, recommendando-os, inutilmente, 
á clemência real. 

Feliippe IV proseguia: impellia no eztrangeiro 
contra os templários os governos da Europa; 
levantava, no interior da França, os nobres, 
o clero e o povo a pró do seu ódio, — levando 
08 estados geraes a pedirem-lhe, clamorosos^ a 
perseguição, e a requererem judicialmente con- 
tra a ordem, perante o rei e o pontífice. Por 
fim, prometteu a este, para o captar, entregar- 
Ihe os haveres, aprehendidos aos cavalleiiros. ^ 

Cedeu então o papa inteiramente, e publicou 
a bulia de 12 d^agosto de 1308, Regnans in cx- 
lis^ que dirigiu a todos os monarchas, em cujos 
estados existia a ordem. 

N'este celebre documento, expoz o pontífice, a 
seu modo, o negocio dos templários. Disse que, 
antes e depois de ser coroado, tivera secretas 
insinuações de que, tanto na Europa como nas re- 
giões ultramarinas, onde haviam sido encarre- 
gados da defeza do património de Christo, os 
freires incorriam nos crimes d'apostasia,' idola- 
tria e sodomia. Que mais tarde, o rei de França 
lhe enviara, por mensageiros e cartas, iguaes e 
mais largas informações; e, ante a cúria, um tem- 
plário graduado as confirmara, sob juramento. 
Finalmente, mais apertadas instancias do rei,— 
requerimentos dos duques, condes, barões, clero 
e povo de França, fundados nos depoimentos de 
mestres, perceptores e freires da ordem, obtidos 
pelos prelados e inquisidores francezes, — e as 
respostas de setenta cavalleiros, que interro- 
gara, lhe deram pleno conhecimento da veraci- 
dade dos crimes imputados. Mas que, desejando 
certeficar-se ainda mais da verdade, mandara 
inquirir todos os presos, novamente pelos car- 

* Michelet, Histoire àe France 1. 5.« c. 3 e 4. 



deães Berengario, Estevão e Landolfo ; os frei- 
res ratificaram o deposto quanto ás heresias; e 
confessaram que negavam a Christo e yitupera- 
vam a cruz, no acto da recepção na ordem, e 
que praticavam cousas horríveis e deshonestas; 
mostrando-se arrependidos e pedindo absolvição, 
que lhes fora concedida. 

Que tão grandes attentados não podiam porem 
ficar impunes, e por tanto mandava proceder a 
inquirições, pelos ordinários dos logares e outros 
varões doutos e fieis, contra os freires do Templo 
e a ordem em geral;— que o resultado d'esses pro- 
cessos seria apreciado por um concilio oBcume- 
nico, que, por esta bulia, convocava, para d'ahi a 
dois annos, na cidade imperial de Vienna, — n'elle 
se trataria de remediar os abusos apontados, re- 
formar a cavallaría do Templo, legislar sobre as 
liberdades ecclesiasticas e prover aos meios de 
recuperar a Terra Santa,— thema obrigado para 
todos os concílios, mas em cuja realisação jã 
governo algum pensava. 

Eram convidados para a «issemblea de Vienoa, 
os monarchas, arcebispos, bispos e prelados dos 
respectivos paizes. ' 

Estava D. Diniz prevenido no assumpto, quando 
esta bulia lhe chegou â mão. 

No anno antecedente, logo depois da primeira 
prisão dos templários, Filippe, o formoso, havia 
escripto aos reis d'Âragão e de Castella, expon- 
do-lhes o succedido, e instando-os para que o 
imitassem : ^ é provável que igual missiva fosse 
também dirigida a D. Diniz. Parece até que, 
por ordem da cúria e insinuações do governo 
francez, já se reunira em Salamanca um concilio 
particular, em 1306 a 1307, a que assistira o 
bispo de Lisboa, D. João de Suilhães, para inquirir 
do procedimento dos templários na península, e 
que se encerrara, sem achar nos cavalleiros mo- 
tivo para culpa. ' Mas alem d'estes factos offi- 
ciaes, havia o rumor publico, o grande escândalo 



1 Esta bulia, datada de Poitiers, aos 2 dos idos de 
agosto do anno 3."" do pontificado de Clemente v, 
encontra-se no Arch, Nac. da Tbrre do Tombo, G. 7. 
m. 5. n. 5, e vem extractada no Quadro Elementar , 
vol. 9. pag. 295. 

2 La Fuente.— Htsí. d'Esp. p. 2.* 1. 3.» c. 9. 

3 Mon. Lu8. p. 6. 1. 18. c. 24, citando Sandoval 
nos Bispos de Tuy, foi. 161. 



Historia de Portc^al 



109 



qae produzira o processo, instaurado um anno 
antes, com tão ruidosa yiolencia, pelo rei de 
Franga. Era assumpto que, por diversíssimas 
causas, preocupava e sobresaltava os espíritos 
em toda a christandade, e principalmente nas 
Hespanhas. 

D. Diniz, o seu governo e os freires portu- 
guezes, vendo a tormenta que ao longe envolvia 
a ordem e ameaçava aniquilal-a, deviam pois 
ter, largamente^ pensado no assumpto. 

Ponderando-o, com madureza, conhecia-se 
que em Portugal, assim como em toda a pe- 
nínsula, as circumstancias da ordem do Templo 
eram mui diversas das condicções em que se 
achava em França, Allemanha, Itália e Ingla- 
terra; para estes povos as guerras com os infiéis 
haviam cessado, e os templários tinham-se tor- 
nado, alem d'inuteis, perigosos, pelo seu des- 
marcado poder, tâo priviligiado e quasi iúdepen- 
dente da coroa. 

Nâo se davam estas particularidades, aquém 
dos Perineus. Á guerra com os árabes continuava: 
Castella tinha-a na fronteira; Portugal e Aragão 
nos mares, onde precisavam navegar, e que os 
mussulmanos infestavam. Alem d'isso, a exis- 
tência politica dos templários, entre nós, não 
offendia tanto, como nos outros paizes, as pre- 
rogativas reaes. 

Tinham, por expresso dever, fundamentado nos 
títulos das numerosas doações que haviam rece- 
bido, tanto dos reis como de particulares, servir 
ã sua custa, com armas e cavallos, nas guerras 
contra os mouros; — e constantemente, desde a 
fundação da monarchia, haviam cumprido esta 
obrigação, com dedicação e valor inexcediveis. 
Davam aposentadoria aos reis, príncipes e ricos 
homens i quando passavam em seus domínios; e 
sempre, em geral, foram generosos e bizarros 
na hospitalidade. Sem regia auclorisaçâo, não 
podiam enviar ao grão-mestre da ordem, no 
estrangeiro, parte alguma dos muitos rendimen- 
tos que recebiam no reino. Dos bens de raiz, 
tinham apenas o usofructo e administração, não 
os aliíenavam, nem os recusavam à coroa quando 
lh'os exigia. Nas vlllas e castellos, pouco mais 
eram do que meros delegados do rei, que lhes 
retirava as tenencias ou governos, quando lhe 
aprazia. A eleição do mestre, para a província 
de Portugal, quer fosse feita pelos freires na- 



cionaes, quer na Palestina pelo geral da ordem, 
só era vallida depois de aprovada pelo monarcha; 
e, sem auctorisação expressa d'este, não podia 
aquelle sahir do reino por motivo algum; con- 
cedida a ausência, o soberano tinha o direito de 
insinuação, para a nomeação de quem o substi- 
tuísse. O eleito, para entrar em funções, prestava 
juramento e homenagem ao rei e ao infante her- 
deiro da coroa. Na ordem em Portugal, só podiam 
ser admittidos cavalleiros portuguezes. Deviam 
celebrar-se os capítulos nos locaes designados 
pelo rei, e perante um seu representante se- 
cular, t 

Estes e outros direitos magestaticos, especiaes 
da coroa portugueza para com a ordem do Tem- 
plo, foram constantemente mantidos em exerci- 
do. Usavam-nos os reis com frequência, jã por 
zelo do seu poder e no intuito de cortar ensejos 
de abusos e invasões, já porque algumas vezes 
a isso os obrigaram as occurrencias publicas; 
— em geral, como vimos, os donatários, eccle- 
siasticos ou nobres, nunca tiveram em Portugal 
tanta independência do rei, como nos estados 
do verdadeiro feudalismo. A firme pratica does- 
tes direitos reaes manteve os templários portu- 
guezes nos justos limites da sua regra austera, 
alheios ás turbulências politicas em que n'outros 
paizes se envolveram, fieis aos monarchas, úteis 
ao reino e estimados de todos. 

Causou portanto geral desgosto, em Portugal, 
a bulia Regnans in coelis de Clemente y . Comtudo 
a perponderancia pontlficla ainda era grande, 
principalmente em negócios como este, da ex- 
clusiva competência do papa. Assim ninguém 
pensou em resistir, directamente, á ordem da cú- 
ria, quanto ao processo de inquirição que instau- 
rava aos templários; resolveu-se porem proceder 
em tudo, prudentemente, e do modo mais bené- 
volo para com os freires. 

bispo de Lisboa e outros prelados foram, pelo 
papa, encarregados da devassa; mas só mui va- 
garosamente a iniciaram e proseguiram, vendo 
a fríeza do rei e da nação para com o processo. 

De dia para dia, porem, tornavam-se mald 
aterradoras para os templários as noticias vin- 

1 Inquirições de 1314 na Nova Malta Port. P. 1.* 
— ilíon. Ittô.P. 6. 1. 18. c. 50.— Shseffer, Hwí, de 
Port. loc. cit. 



\ 



uo 



Historia de Portugal 



das de França; e sabia-se que tanto de Paris, 
como da cúria, não só Fílippe iv e o papa, mas 
também os dominicos, os cavalleiros do Hospi- 
tal e outros inimigos do Templo apertavam com 
D. Diniz e os prelados portuguezes, para os per- 
seguirem. Por estes motivos, e talvez por insi- 
nuação do rei, que desejava protegel-os, sem em 
demasia se comprometter com a santa sé, os ca- 
valleiros e seu mestre, D. Fr. Vasco Fernandes 
ausentaram-se de Portugal, ou esconderam-se 
pelo reino. 

Foi acto de boa prudência. Quando D. Diniz 
recebeu a bulia CaUidis serpentis vigU. de 30 
de dezembro de 1308, que lhe pedia a prisão 
dos templários portuguezes, já se não encontrou 
em quem a executar. 

O auctor da Parte vi idiMonarchia Lusitana^ — 
irmão espiritual dos templários, porque, monge 
d'Âlcobaça, era como elles filho de S. Bernardo, 
— insinua a idéa de que os freires portuguezes, se 
ausentariam «para recorrer á cúria a justifícar-se 
diante do pontífice, a abonar sua innocencia, e 
que lâ os declarariam por sem culpa. » ^ 

Esta asserção é puramante hypothetica, nada 
a comprova, antes a historia do que succedeu 
aos cavalleiros, que, voluntariamente^ se apre- 
sentaram ao papa, em Avinhão, e depois, du- 
rante o concilio, em Vienna, nos mostra a 
imprudência de tal passo; os poucos freires que 
o deram foram, geralmente, presos e processa- 
dos pela cúria. 

Não precisavam os templários portuguezes 
ir buscar, tão longe e com tanto risco, decla- 
ração da innocencia; — por juizes competentes, 
ser-lhes-hia, em breve, proclamada em toda a 
Hespanha. 

Antes pQrem, como haviam abandonado os 
seus castellos e perceptorias, e o processo peo- 
rava em Paris e na sé apostólica, — el-rei D. Diniz 
tomou posse dos bens da ordem, e propoz 
acção civil, para serem declarados pertença da 
coroa. Intervieram, como juizes no feito, D. Mar- 
tinho, arcebispo de Braga, D. João bispo de 
Lisboa, Fr. Estevão Custodio da ordem de S. 
Francisco, Mestre João das Leis e Ruy Nunes. 
Por sentença de 27 de novembro de 1309, foram 
julgadas para a fazenda real, contra a ordem do 

i Mon, Lu$, P. 6 liv. 18 c. 25 e 26. 



Templo, as villas de Pombal, Soure, Ega e Redi- 
nha; e, no anno seguinte, as villas e castellos de 
Idenha a velha e Salvaterra do Estremo, com as 
povoações dos seus termos. Rosmaninhal, Segura 
e Proença. 

Ao mesmo tempo, D. Diniz, sob pretexto de 
que não podiam ser condemnados ã revelia o 
mestre e freires do Templo, mandava suspender 
os processos que algumas cathedraes e mostei- 
ros, nomeadamente a sé da Guarda e o con- 
vento de S. Cruz de Coimbra, intentavam, para 
se apossarem dos haveres da ordem perseguida, 
ficando porem esses bens em sequestro, até que 
o pontifico decidisse, em ultima estancia, o pleito 
dos templários. ^ 

Estes actos régios eram, aparentemente, coq- 
tradictorios, e fundados n'uma jurisprudência 
dupla que decidia, à revelia dos réus ausen- 
tes, as demandas propostas pela coroa, e so- 
brestava os processos requeridos por terceiros, 
por que a parte contraria não estava em juizo. 
Mas, afora este subterfúgio, que a epocha exegia' 
para afastar as pertensões daricaes, — o proce- 
dimento de D. Diniz, apossando-se dos bens dos 
freires ausentes e de facto dissolvidos, não era se- 
não o corolário lógico do principio geral do direito 
civil portuguez,— já velho então e vigente ainda 
hoje, — de que os bens das corporações ecclesias- 
ticas, como os dos municípios, dos estabeleci- 
mentos debenificencia ou instrucção publica, per- 
tencem á nação, e devem, pela extincção d'essas 
entidades, ser encorporados na fazenda nacional, 
representada pelo estado, e por tanto pela coroa, 
nos séculos em que esta resumia em si todos os 
poderes politicos e todas as faculdades do go- 
verno. 

As providencias do filho d'Affon80 ni, ado- 
ptadas de prompto e proseguidas com a prudên- 
cia e as indespensaveis formalidades jurídicas, 
n'um século de grande predomínio ainda da 
egreja, foram o único meio possível de prot^er 
das extorsões pontificias e da cubica do clero por- 
tuguez uma grande massa de bens nacionaes, 
que os monarchas haviam confiado â ordem do 
Templo, para os defender com a espada valorosa 
e servirem ã sustentação d'uma milícia, neces- 
sária ã defeza é* engrandecimento da pátria, e 

i Mon. Lus, cit. c. 25 e 27. 



Historia de Portugal 



m 



digaa da gratidão publica, pelos seus proficuos 
e gloriosos trabalhos. 

Todavia, apezar do seu bom direito e das so- 
lemnidades com que lhe revestira o exercício, Di- 
niz conheceu que, para resistir, com vantagem, âs 
pertenções que, inevitavelmente, a cúria apre- 
sentaria sobre os bens do Templo, eraindespen- 
savel procurar auxiliares poderosos; tratou pois 
de colligar-se com os soberanos de Castella e 
Aragão, em cujos estados se davam com os tem- 
plários circunstancias semelhantes ás de Por- 
tugal. 

O castelhano Fernando iv, obedecera ás bul- 
ias pontificias, metendo os freires em custodia, 
mas com a brandura e suavidade de quem lhes 
não desejava mal; o aragonez Jayme ii, comba- 
tia-os pelas armas, porque os cavalleiros, recio- 
sos, haviam-se forteficado e encerrado em seus 
castellos; porem, apenas os vencia, tratava-os 
como soldados que estimara, e dos quaes, no 
futuro, ainda se desejava servir. Ambos os 
soberanos tinham porem tomado posse dos bens 
da ordem, e não queriam cedel-os para servirem 
interesses estrangeiros. 

Fernando iv era o tenro e estremecido filho 
de D. Maria de Molina, que, pelo tratado d'Âlca- 
nizes, desposara a filha infantil de D. Diniz. 
Mantinha-se com o sogro em boas relações de 
amisade; n'este negocio o interesse claro dos 
dois princepes era egual: facilmente, pois, se 
entenderam no assumpto. 

Em 21 de Janeiro de 1310, estando o monar- 
cha de GasteUa, contra os mouros, no cerco 
d'Âlgecira, assignou uma carta, ou tratado em 
que se obrigava com D. Diniz, no caso da or- 
dem do Templo vir a ser extinta, e o papa per- 
tender tirar os seus bens, moveis ou de raiz, 
do senhorio e jurisdicção dos dois soberanos, 
que se amparariam mutuamente, se defende- 
riam contra todos que lhos demandassem, e 
Dão tomariam com o pontifico ou pessoa alguma 
accordo sobre tal objecto, sem annnencia d'am- 
bos. 

À razão, claramente expressa, que se lé no 
régio documento para esta resolução, é a já 
enunciada : — que os bens haviam sido dados á 
ordem pelos reis anteriores, ou por cidadãos dos 
seus reinos, pafa serviço de Deus e dos res- 
pectivos thronosi por tanto, desde que aquella 



corporação deixava de existir, esses bens de- 
viam reverter á nação donde tmham sido con- 
cedidos. * 

Na alliaoça, entrou, em breve, D. Jayme, 
e quando os três monarcbas enviaram os seus 
representantes a Âvinhão, para onde o papa, re- 
tirando de Poitiers, se fora estabelecer, e depois 
a Vienna, deram a todos ordem de se entende- 
rem reciprocamente, e de declararem ao pon- 
tifico e ao concilio, que, no tocante aos bens 
dos templários nas Hespanhas, podiam consi- 
derar os três soberanos como unidos n'uma só 
vontade, e como se fossem um. ^ 

Este tratado teve, como veremos, proficuos 
resultados. 

Antes porém, quasi pelo mesmo tçmpo que 
se assignava a carta de Algecira, o papa, vendo 
que não podia, n'esse anno de 1310, celebrar 
o concilio geral que convocara, mandou proceder 
em differentes paizes a concilies especiaes, para 
apreciarem as inquirições, tomadas sobre a vida 
e costumes dos templários, e para os julgarem. 

Com relação aos cavalleiros de Leão, Castella 
e Portugal reuniu-se um em Salamanca. Assisti- 
ram o inquisidor apostólico Aymeric, os arce- 
bispos de Toledo, Sevilha e Santiago e os bispos, 
seus sufTreganeos, de Lisboa, Guarda, Zamora, 
Ávila, Ciudad-Rodrigo, Mondonedo, Lugo, Tuy, 
Plasencia e Astorga. 

Em 15 dé abril, o prelado de Toledo D. 
Gonçalo, citou os freires para comparecerem. 
Correu o processo com a maior regularidade, 
prehenchendo-se todas as formalidades da juris- 
prudência do tempo, e durando largos mezes. 

Na Itália, AUemanha e Inglaterra, reuDÍam-se 
também concilies nacionaes, para o mesmo fim; 
e em todos elles, como no de Salamanca, as 
provas que se iam deduzindo eram favoráveis 
aos templários, tendendo a mostrar, claramente, 
a sua innocencia. 

Has estes pronuncies de victoria para a or- 
dem, em partes tão diversas da Europa, não lhe 
evitaram a catástrofe, que a indole avara e dcs- 

1 Na Mon. Lm. p. 6. 1. 18. c. 26 vem esta carta 
em hespanhol na sua integra. 

2 Carta iíeUrei Jayme a Pemanda, rei de CoitUla. 
Barcellona 17 agosto de 1311 tu Viagem Litter* t« 
d. pag. 206. 



lis 



Historia de Portugal 



humana do rei de França lhe perparava em 
Paris. Talvez^ pelo contrario a percepitassem. 
Felippe, receiando o resultado dos processos 
extrangeiros, pelo que sabia dos trabalhos das 
inquirições realisadas, pensou em terminar, o 
pleito, no seu reino, audaciosamente e de golpe, 
para lhe não escaparam das guarras os thesou- 
ros que empolgara e os membros, jâ meios 
despedaçados pelos tratos, de centenas de des- 
graçados freires. 

Para esta decisão haviam ainda outros mo- 
tivos, não menos ponderosos. A commissão apos- 
tólica de França, instaurada pelo papa em 1308, 
ao mesmo tempo que as dos outros paizes, 
começava, como estas, depois de muitos me- 
zes de inércia, a obter provas evidentes da 
innocencia dos templários, e até dos ruins pro- 
pósitos de cubica e ódio, que haviam movido 
Filippe a perseguil-os. A publicidade que as au- 
diências da commissão haviam dado ás torturas 
e sofirimentos que a malvadez do soberano e dos 
seus agentes infligira, no fundo dos cárceres, aos 
miseros cavalleiros, tinha, por toda a parte, le- 
vantado manifesta reacção contra o monarcha 
e a favor da ordem. O rei pensou pois que ia 
perder as enormes riquezas obtidas do Templo 
e a sua perponderancia na Earopa, já deminuida 
por outras cousas, se não decidisse o processo, 
por modo que, com o terror, imposesse silen- 
cio a todos os reparos e clamores. 

Gomo o obstáculo maior ãs suas acções era 
a opposição do papa, compôz-sc com elle, nos 
principios de 1310, abandonando ao seu arbítrio 
o julgamento do defunto pontífice Bonifácio vni. 
Até então, o rei de França pretendera, obstina- 
damente, que Bonifácio fosse excommungado e 
declarado herético e illegitimo. Oppunba-se-lhe 
toda a cúria. Alem do enorme escândalo que ao 
orbe catholico d'alli resultaria, tal sentença era a 
morte moral do pontificado, e a deposição jurí- 
dica do próprio Clemente v. 

A maioria do conclave que o elegera fora no- 
meada para o cardinalato por Bonifácio; sendo 
este illegitimo papa, tal maioria seria illègitima, 
^e por tanto nulla a sua eleição. 

Cedendo o rei n^este árduo negocio, cedeu o 
pontífice no dos templários. Em abril, nomeou 
arcebispo de Sens o irmão do valido omnipotente 
de Fellippe. O novo prelado, escolhido adrede, 



authorisado com .a bulia pontificia que levan- 
tara a suspensão do inquisidor e prelados ordi- 
nários, reuniu concilio provincial em Paris, a 1 
de maio, com os bispos francezes mais affectos 
ao rei. N'esse dia, um domingo, fez comparecer, 
perante a assembléa, os templários presos; e, no 
immediato, julgou-os e sentenciou-os. 

Foram absolvidos os que confessaram; — con- 
demnados a cárcere perpetuo os que negaram 
sempre; — e cincoenta e quatro, que se desdis- 
seram, em sessão, dos crimes de que, no hor- 
ror dos tratos, se haviam declarado réus, con- 
demnou-os o concilio como relapsos. 

Requereram os templários, perante a com- 
missão apostólica e o concilio, appellação para 
Roma; — não os attenderam. 

N'esse mesmo dia, segunda feira, desauthora- 
ram os relapsos e relaxaram-nos ao braço secular. 

No seguinte, terça, 12 de maio, os cincoenta e 
quatro desgraçados foram amarrados a postes, 
plantados â porta de Santo António, em Paris, e 
queimados vivos. 

Por entre o crepitar das chammas, ouviam-se 
os brados dos infelizes cavalleiros, clamando que 
eram bons catholicos, e morriam innocentes. 

O povo, em massas innumeraveis, assistia 
mudo e estupefacto a este horrendo espectá- 
culo. 

Outros concilies semelhantes se reuniam em 
diversos pontos da França, e procediam contra 
a ordem com igual ferocidade. Em Senlis, foram 
queimados mais nove cavalleiros. 

Eram os dias de terror — da monarchia e da 
egreja. 

A noticia doestas hecatombes difundida, rapi- 
damente, pela Europa, causou uma sensação 
profunda, levando ao auge a reacção a favor 
dos templários, que, desde o eomeço do anno, se 
estava dando, como dissemos, contra a política 
franceza. N'este sentido, diversos concílios na- 
cionaes apressaram os seus trabalhos. 

Na ItaUa, logo a 17 de junho, os prelados 
reunidos em Ravenna absolveram e justíficaram 
08 cavalleiros do Templo. 

Na Allemanha, admittiu-se-lhes o summario e 
symbolico processo dos juizes-francos de West- 
phalia. Apresentaram-se armados^ perante os ar- 
cebispos de Mayence e de Treves; afirmaram a 
sua innocencia, e retiraram-se:— no piimeiro 



Historia dô Portugal 



113 



de julho do mesmo anoo, eram, em concilio, 
declarados innocentes e absolvidos. 

Na Inglaterra, que foi, depois da Fraoça, o 
paiz que os tratou com mais rigor, só os percc* 
ptores da ordem, que se obstinavam a negar 
tudo, foram condemnados a conservarem-se pre- 
sos, nos seus próprios mosteiros. ' 

Pronunciou-se também o concilio de Sala- 
manca. Em 21 de outubro sentenceou, por 
unanimidade, que «não havia achado contra os 
freires do Templo causa para os poder accusar 
em juizo, senão de louvável conversação e exem- 
plo, e que assim o dava por jurado e assignado 
com o nome de todos os presentes. » ^ 

Ficou esta decisão ainda sujeita à aprovação 
da santa sé, e por isso alguns dos chefes caste- 
lhanos foram retidos em custodia; mas a opinião 
do concilio hespanhol estava declarada. 

Todas estas sentenças absolutórias produziram 
na christandade manifesto e geral sentimento 
de reprovação contra o proceder do rei e clero 
francezes. Porem o papa, já intimamente ligado á 
feroz politica de Filíppe, reprehendeu a brandura 
dos monarchas de Inglaterra, Gastella, Portugal e 
Aragão, e teve -o malévolo cynismo de os censu- 
rar, por não empregarem a tortura na inquirição 
dos templários. 

Jayme ii porem, desafecto â França, que ha- 
Tia muito a casa enérgica de Aragão combatia 
nas Duas Sicilias, proseguiu no seu systema de 
prudência e tolerância para com os templários. 

Apenas tomou o celebre casteJlo de Monçon, 
onde 08 cavalleiros resistiram com o maior va- 
lor, e de todo os subjugou, reuniu para os julgar 
um concilio provincial na egreja de Corpus- 
Chrísti de Tarragona. Compunham-n'o o arce- 
bispo com grande numero de prelados. Inquiridas 
as testemunhas e prehenchidas todas as for- 
malidades jurídicas, o tribunal pronunciou sen- 
tença deãnitiva, em 4 de novembro de 1312: 
«todos e cada um dos freires foram absolvi- 
dos dos delictos, erros e imposturas de que 
eram accusados, e ordenou-se que ninguém se 
atrevesse a infamal-os, por quanto, nas averi- 

^ Michelet. — Hiité de France, loc, cit. 

2 Rodrigues Gampomanes, Dissertaciones kisL dei 
orden y cavallaría de loê templários^ pag. 107. — ^La* 
faente» HisU d*E9p. loc. cit 

n voL.— 15. 



guações a que o concilio procedera, foram acha- 
dos livres de toda a má suspeita. » ^ 

Mas estes rasgos de clemência, boa politica c 
justiça eram apenas scenas dispersas, posto que 
luminosas, da longa e tenebrosa tragedia da ex- 
tincção dos templários. 

Faltava ainda, alem do sinistro epilogo, o acto, 
esse um tanto cómico, do tão annunciado concilio 
oBCumenico. 

Rcuniu-se em Vienna, no dia 16 de outu- 
bro de 1312. A primeira sessão nenhum dos 
principaes soberanos compareceu, estavam to- 
davia presentes os seus embaixadores; e mais 
de trezentos bispos sentavam-se em tomo do 
papa. 

Como os objectos a tratar eram muitos, s6 se 
fallou dos templários em novembro. Nove caval- 
leiros entraram denodadamente na assembléa, 
offereceram-se para deffender a ordem, e decla- 
raram que perto de dois mil freires estavam, em 
Leão e nas visinhas montanhas, promptos a se- 
cundal-os. Assustado com a noticia, Clemente v 
mandou prender os nove, e, durante o inverno, 
não reuniu mais o concilio. 

Voltou-se ao assumpto na primavera. A grande 
maioria dos prelados presentes, contando-se 
n'esse numero até alguns bispos de França, affir- 
mou que não podia julgar sem ouvir a defeza. 
Esta, se a tentassem, seria interminável. Havia 
centenares de testemunhas a inquirir; e era ne- 
cessário apreciar inúmeros documentos, e julga- 
mentos diversos de vários concílios nacionaes. 

No entanto, Filippe iv apoderara-se de Leão, 
cidade até ahi federada no império, um tanto 
livre, e asylo dos templários, e dos herejes e 
Ímpios de todos os paizes. Depois o rei de França 
foi a Vienna, acompanhado de seus filhos, nume- 
rosos fidalgos e grande copia de gente de guerra. 

Animado com este decisivo auxilio, Clemente v 
reuniu em consistório particular alguns cardeaes 
e bispos, cujo voto era seguro; e, ouvido o seu 
parecer, por authoridade própria, decretou a ex«- 
tincção da ordem do Templo. 

papa não confirmava, nem expunha sequer, 
no assento ou acta do consistório, nem na bulia 
explicativa, as accusações feitas aos cavalleiros; 

1 Agnírre, CoUet. úmoil flwp. tom. 3.« — Lac 
fuenle, loe, ct(. 



114 



Historia de Portugal 



dizia apenas que a ordem se tornara em dema- 
sia suspeita. 

Publicada esta resolução, no dia 3 de abril de 
1312, em pleno concilio, estando o rei de França 
sentado ao lado do papa, todos os prelados a 
ouviram em silencio, sem que um só ousasse 
reclamar. 

Qualquer protesto seria elfecli vãmente arris- 
cado e sem utilidade: o acto tinha por si a força 
e a razão. A força era a espada presenle de Fc- 
lippe iv; a razão estava na necessidade politica, 
imperterivel, d'extinguir uma ordem, cujo pro- 
cesso acabava de causar tão enorme escândalo 
em toda a cbristandade, e que se tornara geral- 
mente inútil c perigosa. Aos poucos paizes,oi)de 
os freires seriam ainda proveitosos, ficava livre 
o direito de os congregarem sob nova regra, 
como succedcu. 

Devendo ser empregados na remissão da Pa- 
lestina, os bens dos templários foram doados 
aos seus emulos c inimigos, os cavalleiros do 
Hospital de S. João de Jerusalém, depois deno- 
minados de Malta; mas esta determinação não se 
cumpriu geralmente; os reis applicaram os ha- 
veres sequestrados a diversos fins. 

Em França, ainda Felippe, o foi^moso, se apos- 
sou de varias propriedades dos hospitaleiros, a ti- 
tulo de indemnisação, pelas despezas feitas com o 
processo e prisão dos cavalleiros do Templo. 

Na península ibérica, a prevenção, que os três 
monarcbas haviam tido de se ligarem para de- 
fenderem os bens da ordem, obstou a muitas 
contendas com a cúria; em vista doesse accordo, 
o papa excluiu toda a Hespanha da doação aos 
hospitaleiros; mas reservou-se o direito d'inter- 
vir, com os soberanos, na futura applicaçãod'es* 
ses bens. 

N'e8te intuito. Clemente v nomeou adminis- 
trador de todos os haveres dos templários em 
Portugal o bispo do Porto, D. Estevão. 

Devia este clérigo a elevação a D. Diniz: de po- 
ère mendicante fizera-o el-rei seu esmoler; dera- 
Ihe depois a mitra portuense; e, entregando-lhe 
avultadas sommas, encarregara-o de, na cú- 
ria 6 no Concilio de Víenna, tratar dos negócios 
que respeitavam à ordem do Templo, em har- 
monia com as ideias humanitárias, tolerantes, 
j^egalistas e patrióticas, que o nosso governo ti- 
nha no assumpto. 



D. Estevão porem, apenas se aproximou da só 
apostólica, esqueceu a gratidão que devia ao reioo 
e ao rei; contrariou as instrucções que d'este 
recebera quanto aos templários; c aproveitou as 
sommas que lhe haviam sido confiadas, para 
agenciar do papa a cadeira episcopal lisbonense. 
Obteve-a, efectivamente, levando o pontífice a 
nomear para a sé de Braga, vaga por aquelle 
tempo, o perlado que Diniz elegera para Lisboa. ' 

Os enredos, delapidações e traição do seu antigo 
esmoler indignaram, summamente, o brioso prin- 
cipe; D. Diniz regeitou por tanto, com energia, 
o administrador aos bens dos templários que 
o papa escolhera: — não reconhecia no pontífice 
o direito da nomeação, e repugnava*lhe em ex- 
tremo o nomeado. 

Vendo a firmesa do rei. Clemente v não in- 
sistiu, e os bens continuaram na posse e admi- 
nistracção da coroa, protrahindo-se na cúria as 
negociações a seu respeito, sem maior detrimenlo 
do reino. 

Para Portugal, Aragão e todos os estados em 
que os templários foram tidos como innocentes, 
depois de extincla a ordem, determinara-se que 
os freires vivessem sob a obdiencia dos prelados 
ordinários da diocese, onde residissem, rece- 
bendo dos seus antigos rendimentos côngrua 
sustentação. 

Aproveitaram os cavalleiros portuguezcs o 
decretado; a pouco e pouco, foram appare- 
cendo, uns regressando do extran^eiro; outros 
sahindo dos logares onde no reino se tínham 
occultado. Encontravam no monarcha e no povo 
bom acolhimento e a consideração própria do 
muito que tinham sido; ^ tranquiliamente, pois, 
se foram estabelecendo no paiz. 

No meiado porem da primavera de 1 314, uma 
terrível noticia, chegada de França, lhes enlu- 
tou profundamente o coração, maguando em go<^ 
ral a todos os espirites. 

1 Espana Satfr. c. 2i, pag. 121 e seg» 

2 O crudicto A. da P. 6. da Mon, Lu$. 1. 18. c, 
26, dopeis de afirmar este facto, diz: tEm escritu- 
ras de alguns annos despois da Ordem extincla acho 
noticia delles, como de homens só conhecidos pelo 
que foruo. Em duas do anno de 1318 ratificando 
Dom Fr. Vasco mercês que lhe foríto feitas sendo 
Mestre, firma elie, òt outros Freires seus nesta for- 
ma: ProBsentibus nobilibus viris Velasco Femandi 



Historia á,e Portugal 



115 



O já tristemente celebre arcebispo de Sens, 
por ordem do papa, representado peio bispo d'Al- 
bano e dois cardeaes legados, reunira, no dia 
18 de março, esses e outros perlados com mui- 
tos doutores em direito ecclesiastico e canónico, 
no adro da egreja de Nossa Senhora de Paris; 

e fizera comparecer, perante esta asseroLléa, o 
grão mestre da ordem do Templo, o mestre da 

Normandia e dois cavalieiros principaes; o julga- 
mento definitivo doestes quatro réus rcservara-o 
o pontífice para si. 

Confundidos pela facciosa e enredada casuís- 
tica dos theologos, os freires, que muitos annos 
de cárcere, privações e sevícias tinham enfra- 
quecido, pareceram primeiro confirmar os pri- 
mitivos depoimentos, arrancados pela tortura, 
em que se haviam confessado culpados de todas 
as accusações; e o concilio condemnou-os a se- 
rem perpetuamente emparedados. 

Mas, quando os perlados julgavam ter con- 
cluído a tarefa, levantaram-se, inopinadamente, 
o grão-meslre, Jacques Molay e o mestre da Nor- 
mandia, c, com a maior vehemencia e tenacida^ 
de, desmentiram quanto haviam dito nos tratos, 
e protestaram pela innocencia de toda a ordem. 

O grão-mestre, jà em 1310, perante a commis- 
são apostólica, abandonando em geral aiiefeza do 
pleito, limitara-se a enunciar três proposições: 
1." que não havia egrejas onde o santo oíficio 
da missa fosse celebrado com mais solemnidade 
do que nas dos templários; 2." que não existia 
religião que fizesse muis esmolas do que a do 
Templo, onde se davam, três vezes por semana, 
a quantos appareciam; 3.'' que não conhecia 
gente que tivesse derramado mais sangue pela fé 
chrislãa, nem fosse mais temida pelos infiéis. 

z\nte o novo tribunal, repetiu Jacques Molay 
estas asserções, e com o seu nobre companheiro, 
emquanto lho permetliram, afirmou serem fal- 
sas todas as accusações feitas aos templários. 

olim Magistro in Regno PorUigallicEs ét Gunsalvo 
Fenmndi fratre suo^ & Laurcntio Stpphani fra- 
tribus qíiondam Ordinis Templi Hyerosolimitani in 
dicto Rpgno, Presentes os nobres varões, Vasco Fer- 
nâdcs, & Gonçalvo Fernãdes seu irmáo, & Lou- 
renço Slevens, elle Mestre era outro tempo no Reyno 
de Portugal, & ciles Freires também em outro 
tempo da Ordem do Templo de Jerusalém no dito 
Reyno.» 



 assemblea, admirada e irresoluta, mandou 
cumprir o julgado quanto aos dois réus confes- 
sos; e entregou ao preboste de Paris, que estava 
presente, Jacques Molay e o mestre da Norman- 
dia, para os guardar até ao dia seguinte, em 
que, mais maduramente, os sentenceasse. 

Mas as enérgicas negativas dos dois cavaliei- 
ros foram levadas, logo, ao conhecimento de 
Filippe IV. Não esperou o monarcha a decisão 
dos juizes, e resolveu o caso, ouvindo apenas 
os seus cortezãos mais privados, 

Pela tarde d'essc mesmo dia, n'uma ilha do 
Sena, que ficava entro os jardins reaes n'uma 
das margens e o convento dos Ermitas de Santo 
Agostinho da outra,— mandou queimar, n'uma 
mesma fogueira, os dois nobres templários. ^ 

Os corajosos martyres, até ao derradeiro sus- 
piro, protestaram pela innocencia da communi- 
dade; e emprazaram, — diz a tradicçáo, — o papa 
covarde que os vendera, e o perverso rei que 
os assassinava, a comparecerem, perante o tri- 
bunal de Deus, antes do fim do anuo. 

 firmeza e convicção das suas palavras e a 
sua heroicidade, durante o horrendo supplicio, 
envolveram, para sempre, no mysterio e na du- 
vida, o tenebroso processo; e acabaram de con- 
quistar para a ordem a admiração e a sympatia 
do seu século e da posteridade. 

Morreram efectivamente, antes de terminar 
o anno de 1314, o papa Clemente v e o rei Fi- 
lippe IV, os dois authores d'esta fúnebre trage- 
dia, — deixando apoz si a lampejar, na historia, 
o clarão sinistro das fogueiras dos templários. 

O p-ipado suicidára-se: a egreja decretara a 
morto da egreja, e teve, em França, por car- 
rasco a realeza. 

Mas, n^outros paizcs, a reacção contra a poli- 
tica de França continuou, sendo, quasi por toda 
a parte, os templários tratados com a maior sua- 
vidade. 

Jayme ii, ojusto^ foi mais longe ainda. Com 
os freires aragonezes e os bens que haviam 
possuído, fundou, em 1317, a ordem de S. Sal- 
vador de Montesa, burgo e castello do reino de 
Valença. 

Seguiu D. Diniz o seu exemplo. 

^ Continuação de G. de Nangis, p. 67.— Michelct, 
ibid. 



116 



Historia de Portugal 



Precisava terminar de vez com as perten- 
. BÔes da cúria aos bens da ordem cxtincta. O 
successor de Clemente y, o pontífice João xxii, 
n'este mesmo aono da fundação da cavalla- 
ria de Montesa, fizera uma tentativa para se 
apossar de parte d'elles, denunciando clara- 
mente os seus intuitos. Doou ao cardeal Ber- 
trand, seu privado, a viila e castello de Thomar, 
uma das principaes perceptorias dos templários. 
Foi tão manifesta a repugnância que a bulia 
da concessão encontrou no rei, infante herdeiro, 
nobres, e em geral no reino, que o agraciado e o 
papa não ousaram pôl-a em execução. ^ Mas, 
Dão obstante esta fácil victoria, Diniz conheceu 
que era indispensável resolver o assumpto. 

Adoptou por tanto o alvitre de seu cunhado, 
D. Jajme, e enviou, em 14 d'agosto de 1318, 
procuradores á cúria, para impetrar da sé apos- 
tólica a necessária aulborisação. Eram João Lou- 
renço deMonsarás, cavalleiro d'el-rei, c o cónego 
, da sé de Coimbra, Pedro Pires, pessoas autho- 
risadas e da plena confiança do monarcha. 

Protrahiram-se as negociações por alguns 
mezes. Afinal, o pontífice, ouvido o consistório, 
deferiu aos desejos do soberano, conhecendo que 
as suas idéas do benevolência para com os tem- 
plários eram a vontade da quasi unanimidade 
de Portugal, e que este precisava das espadas 
valorosas dos antigos cavalleiros. 

Em 14 de março de 1319, publicou a bulia, 
Ad ca ex quibus, estabelecendo a ordem militar 
portugucza da cavallaria de Jesu Christo. 

N*esle documento, que o futuro glorioso da 
nova milícia tornaria calebre, o papa começa 
por se declarar^ plena e paternalmente, cuidadoso 
e sollicito para tudo que augmcnte o culto di- 
vino, sirva à quietação dos fieis e seja obstáculo 
ás invasões dos inimigos da fé. Diz que no mes- 
mo intuito o seu perdecessor, Clemente v, de 
feliz recordação^ extinguira a ordem do Templo, 
c doara todos os seus bens aos freires do Hospi- 
tal de S. João de Jerusalém, por serem vigilan- 
tes cultores e valorosos defensores da religião 
christã, principalmente nas partes ultramarinas, 
onde afFronlavam grandes perigos para manter a 
fé e reconquistar a Terra Santa; que d'esta doação 
só haviam sido exceptuados os bens que os lempla- 

1 M(m. Lus. P. 7 liv. 4 c. 3 n. 3. 



rios possuiamnos reinos de Castella, Aragão, Por- 
tugal e Maiorca, pelos motivos que haviam apoa- 
tado os respectivos soberanos, e para cuja detida 
exposição, por procuradores bastantes, lhes ha- 
via a santa sé fixado um prazo; que este preceito 
fora cumprido pelo rei de Portugal, apresentando, 
como principal fundamento da excepção, as as- 
solações e ruínas causadas pelos sarracenos nas 
terras d'este reino, que lhes ficavam mais visi- 
nhas, o que só se poderia evitar, collocandouma 
nova milícia religiosa, dotada com os haveres da 
ordem extincta, em logar forte da fronteira mais 
ameaçada dos infiéis; que na diocese de Silves, 
reino do Algarve, havia a villa de Castro Marim 
com seu castello, quasi inexpugnável, que, pre- 
sidiado pelos novos cavalleiros e tornado cabeça 
da ordem, podia obviar eficazmente, ás excur- 
sões dos mouros; que para este fim propozera 
D. Diniz fazer doação perpetua á futura communi- 
dade do dito logar, com toda a sua jurisdicção, 
mero e mixto império; e lhe pedira a alie papa 
que condescendesse com o seu piedoso volo, e 
instituísse cm Castro Marim uma nova milícia 
de cavalleiros de Cbristo. 

Apoz esta exposição, o pontífice declara que, — 
considerando as razões apresentadas, com o con- 
selho dos cardcaes seus irmãos, — por poder da sé 
apostólica, — e invocado o divino auxílio, — deter- 
mina, para honra de Deus, exaltação da fé ca- 
tholíca e abatimento dos infiéis sarracenos, — que 
se estabeleça, em Castro Marim, um convento 
para uma nova milícia, — que se intitule, por todos 
03 séculos futuros. Ordem da cavallaria de Jesu 
Christo, — que o referido convento seja cabeça da 
corporação, — ahi professem os cavalleiros, se- 
gundo as instituições e regra de Calatrava — e 
celebrem seus capítulos, — e lhes concede para os 
offlcios do culto divino a cgreja de Santa Maria 
da mesma villa, com todos os seus direitos e de- 
pendências, — concessão que se não realisou, por 
pertencer esta egreja á ordem de S. Thiago, o 
que só constou depois. 

Nomeia para prelado e mestre da ordem, Gil 
Martins, que já o era da cavallaria d'Aviz, «de 
cuja pureza de vida, zelo da religião, madureza 
de costumes, boa disposição de pessoa e outros 
méritos de sua natural bondade» tinha segura 
informação. 

Prohibe á nova communidade a allienação dos 



i 



Historia de Portugal 



U? 



bens de. raiz, a n&o ser nos casos permcttidos 
por direito. 

Concede-lbe todas as i^empções, liberdades e 
indulgências outorgadas á ordem de Gaiatrava. 

Doa e applica â cavallaria de Ghrísto Castello- 
Branco, Longroiva, Thomar, Âlmourol e todos 
os mais castcllos, fortalezas, bens moveis e im* 
moveis, ecclesiasticos ou temporaes, títulos, ac- 
ções, jurisdicções, mero c mixto império, bonras, 
bomens e quaesquer vassallos, egrejas, capellas 
e oratórios, com seus diíeitos, termos e perten- 
ças, que a ordem, em outro tempo cbamada do 
Templo, possuíra ou devia possuir, nos reinos de 
Portugal e Algarve. 

Diz que os embaixadores d'el-reí, pelos po- 
deres especiaes da sua procuração, doavam 
Castro Marim aos cavalleiros de Cbristo, com 
todos os direitos reaes, que, n*esta villa e nos 
bens que tinham sido dos templários, perten* 
ciam á coroa, e que todos esses baveres se- 
riam, integeralmente, por D. Diniz entregues á 
nova ordem. 

Nomeia, para todo o sempre, o abbade do mos* 
teiro d'Alcobaça visitador e corrector da futura 
cavallaria, e dá-lbe o poder de receber, em nome 
do pontiSce, e da egreja romana o juramento de 
fidelidade que Ibes deviam prestar o novo mestre 
e seus successores; devendo ser logo o auto re- 
meltido para a cúria. 

Ordena que, para segurança do rei e do reino, 
os mestres da ordem de Cbristo, ou os cavallei- 
ros que, na sua ausência, exercerem o logar, ape- 
nas eleitos, se apresentem perante o soberano, 
ou náo o ba vendo, ante o governador do reino, 
c lhe prestem homenagem e juramento de fideli- 
dade; — que, no caso d*el-rei ou seu represen- 
tante se recusar, no praso de dez dias depois 
da eleição, a acceitar o juramento, poderia o 
novo mestre exercitar livremente o seu magis- 
tério. O mesmo se observaria com relação aos 
3ommendadore3 da ordem, nas terras das suas 
commendas. 

Handa que todos os dignatarios da nova ca- 
vallaria Tão ás cortes geraes, se forem chamados; 
— e sirvam o monarcha c seus successores, pelo 
modo e nas cousas em que costumava fazcNo a 
ordem do Hospital, ficando aos reis os direitos 
que tinham sobre esta ampliados para com a 
nova milicia de Cbristo. 



Rstatue, finalmente, que, vagando o logar de 
mestre, os freires elejam o successor, conforme 
a regra de Calatrava, d'entre os cavalleiros pro- 
fessos na sua ordem. 

Para maior autbenticidade, vêem enseridas na 
bulia a copia da procuração de D. Diniz aos dois 
embaixadores, com poderesMe tranzacionar com 
o papa sobre os bens dos templários; — e a for- 
mula dos juramentos a que os mestres eram 
obrigados. ^ 

A bulia é datada de Avinhão, aos 2 dos idos de 
março do anno 3.° do pontificado de João xxii. ^ 

Foi recebida por D. Diniz, em Santarém, o 
lida, na sua presença e de muitos ricos homens 
e prelados, por notários públicos, no dia 5 de 
maio do mesmo anno de 1319. 

1 É em extremo curioso o juramento de obdien* 
cia á santa sé; mostra quanto dissemos do perdomi- 
nio que as antigas ordens militares deviam dar ao 
pontificado. Lede: 

«Eu o mestre da casa da Ordem da Cavallaria de 
Jesu Christo d'esta hora em diante serei fiel, & obe- 
diente ao bemaventurado S. Pedro, á Santa Apostó- 
lica Igreja Romana, òt a meu Senhor o Papa, & seus 
successores canonicamente entrantcs; nam serei em 
conselho, ou consentimento, ou feito, de que resulte 
perderem a vida, ou membro algum; ou que sejam 
prezos de prizão injusta; segredo que de mim fia- 
rem por si, ou por suas c<trtas, & mensageiros não 
descubrirei a pessoa alguma em seu damno. Serei 
em ajuda de lhe defender, & conservar o Pontificado 
de Roma, & os bens de S. Pedro, a elles annexos 
contra todo o homem, salvo o estado de minha or- 
dem. Tratarei honrademente ao Legado Apostólico 
assí à vinda, como a ida, & o ajudarei em suas ne- 
cessidades. Sendo chamado ao Synodo, nilo estando 
canonicamente impedido, virei pessoalmente. De três 
em três annos visitarei as Igrejas, ou limina Apos- 
tolorum de S. Pedro, ót S. Paulo de Roma, se n'esta 
parte não tiver absolvição Apostólica. Todas as he- 
rãças perteucentes a mim, & a minha Ordem, nSo 
venderei, doarei, ou empenharei, nem de novo darei 
em feudo, ou alhearei em forma aigua sem consul- 
tar o Pontífice Romano, assi Deos me ajude, & estes 
santos Evangelhos sobre os quais faço juramento.» 

(Traducção de Fr. F. Brandáo, Mon. Ltu. P. 6.* 
1. 19. c. 2.<» e Appendice pag. 573.) 

2 Arch. Nat. da Torre de Tombo G. 7 M. 5 n. ?, 
e M. 8. n.»* 1, 5 e 8, e Livro dos Mestrados, fl. 120 v. 
— Mon. Ltts. loc. cit. — Provas da Hist, GeneoL T. 1. 
pag. 80 — Quadro ElemaUar, vol. 9. pag. 317, cm 
extracto. 



118 



Historia dB 



Fif^v: 



' Mas a sua acceitaç&o solemne e começo de 
t*xecuç&o, pela investidura no mestrado a D. 
Marlim Gil, só se effectuou a 18 de novem- 
bro. Foi na capelia do paço real da mesma 
Villa. Assistiram D. Diniz, á sua numerosa corte, 
08 bispos de Évora, Guarda, Vizeu e Lamego, 
o prior d'Alcobaça que então regia o mosteiro 
por estar vago o logar d'abbadg, e todos os 
Cavaileiros da religião d'Aviz, que acompanha- 
vam saudosos o mestre que os governara trez 
annos, sendo modelo de sabedoria e prudên- 
cia, e que n'aquelle acto iam entregar á nova 
ordem de Christo. Estava o templo ornado com 
sumptuosidade. Âpoz as cerimonias religiosas 
do estylo, celebradas com a maior pompa, — 
o prelado de Cister tirou o habito avisense ao 
mestre, e vestiu-lhe, depois de o benzer, o es- 
capulário branco com capelo da nova ordem, e 
entregou-lhe o estoque, o sello, a bandeira, com 
a cruz de Christo, já esquartellada, alva e ver- 
melha, e que tão celebre se tornaria, na historia 
dos gloriosos descobrimentos porluguezes. 

Mezes antes, em 24 de junho, assignara D. Di- 
niz, em Lisboa, carta regia, dando á nova cor- 
poração todos os bens que haviam sido dos tem- 
plários, guardando porem, nas villas e logares^ 
os direitos e conhecimento do senhorio que n'el- 
les sempre havia tido a coroa; e declarando que, 
em verdadeira consciência entendia que não ti- 
nha jus a ficar com esses bens, pois se apode- 
rara d'elles, antes da antiga ordem ser extincta, 
c que se deviam tornar — á que se agora fazia 
em reforma da outra que fora do Templo; con- 
Grmando em seu decreto os bons principios da 
jurisprudência civil. * 

Em sequencia d'esta carta regia, poucos dias 
depois da investidura do novo mestre, a 26 do 
mesmo mez de novembro, publicou el-rei uma 
provisão, ordenando que não só lhe fossem en- 
tregues todos os referidos bens, mas até os readi- 
mentos, que os almoxarifes reaes haviam d'elles 
recebido, desde que a ordem do Templo fora 
extincta, redditos que, por seu mandado, se 
conservavam depositados. ^ 

Pelos dois diplomas, provou, claramente, Diniz 
que não fora a cubica que o movera n^cste nc- 

1 Mon, Lus. P. 6. 1. i9. c* 3. 

2 Ibid. c. 4. 



gocio, e tão somente tomara, como rei e defen* 
sor da nação, as necessárias providencias, para 
que os grandes haveres nacionaes da ordem do 
Templo não fossem destrahidos da sua applicaçuo 
legal, e não cahissem no poder dos exaclores 
pontifícios e estrangeiros, — tornando, d'estaarte, 
evidente no assumpto a sua firme e elevada 
prudência de governante, e, ao mesmo tempo, 
a sua probidade e abnegação pessoaes. 

Conforme a doação, feita pelos embaixadores, 
junto da sé apostólica, entregou também D. Diniz 
á nova communidade a villa e castello de Castro 
Marim, e n'este logar se estabeleceu convento, 
onde logo se crearam noviços e tomaram habito 
os primeiros cavaileiros. Eram todos templários, 
— consta dos registos da corporação, encontrados 
no cartório de Thomar. 

Vieram os antigos freires, pela maior parte, 
fíliar-se voluntariamente. O novo instituto resor- 
gia a velha ordem:— tinha o mesmo fim, os mes- 
mos haveres, os mesmos direitos, e em parte o 
mesmo nome: chamava-se outr'ora cavallaria de 
Jesu-Christo e cavallaria do Templo de Jerusa- 
lém; perdera a segunda denominação, mas con- 
servava a primeira, que não era menos santa, 
e que podia, no futuro torna r-se, tão gloriosa, 
como a outra. 

Aos templários; que se demoraram a ir alis- 
tar-se sob a nova bandeira, coagiram-nos a to- 
mar, dentro de três mezes, o habito em religião 
aprovada. A alguns até, que, por verem a sua 
ordem extincta, se tinham julgado desobrigados 
dos votos e haviam casado, foram pelo papa an- 
nuUados os matrimónios, e elles compellidos a 
reentrar no celibato. ^ Afirma-o Fr. Francisco 
Brandão, e podemos crel-o, por que era a atho- 
mosphera da época. A liberdade individual re- 
duzia-se então a uma idéa vaga e mal distincta, 
agonisante entre os senhores e ricos homens, e 
começando apenas a esboçar-se para o povo, 
dentro dos muros apertados dos municípios bur- 
guezes. 

Também professou, na ordem de Christo, o 
antigo mestre da cavallaria do Templo, D. Fr. 
Vasco Fernandes, onde consta que falleceu, em 
1323, commendador de MonfAlvão. 

Apenas realisadas as primeiras iniciações, oc- 

1 Ibid. c. 10. 



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tl8 Historia de Pórta^ 

' Mas a Bua acceitaçdo solemne e começo de t gocio, e tão somente tomara, como rei e delen* 




hf, ru irn it ll«ih. M. 

Investidiira do primeiro mestre da ordem de Cbrlíito 



Hi0toi4a de Portugal 



119 



cupou-se o mestre D. Gil Martins em tomar posse 
dos bens da ordem, visital-os por todo o reino e 
proyel-os de administradores; depois organisou 
os regulamentos necessários, para applicar, em 
Portuga], os estatutos de Galatrava, e robustecer 
a nova communidade. 

N'este intuito, em 11 de junho de 1321, con- 
gregou capitulo de toda a ordem, no convento 
que os templários tinham possuido em Lisboa. 

Resolveu-se, n'esta assemblea, que, attentos 
os rendimentos, houvesse na corporação, pelo 
menos, 84 freires, sendo 69 militares e 15 cléri- 
gos; e alem d'estes mais 10 freires cavalleiros, 
para acompanharem constantemente o mestre, 
e por isso isentos do exercido de todas as di- 
gnidades. Seriam estes sustentados pelos ren- 
dimentos destinados ã meza mestral, que se 
compunham dos redditos dos opulentos bens da 
ordem, nos termos de Lisboa, Álemquer e San- 
tarém, excepto as commendas do Pinheiro e de 

Gascvel. 
Também foi largamente dotado o convento 

de Lisboa, com dez mil e oitocentas libras, e 
estatuiu*se que tivesse um commendador-mór, 
dez freires cavalleiros, oito clérigos, seis serven- 
tes e os seculares necessários ao serviço do mos- 
teiro. ^ 

Tomou esta casa, desde logo, grande per- 
ponderancia na communidade, tornando-se de 
facto a sede do seu governo, até que foi tranfe- 
rido, ainda no século xiv, para Thomar, — villa 
outr'ora cabeça da ordem do Templo, situada 
no coração do reino, donde facilmente se podia 
prover a todas as perceptorias, com amenos ar- 
redores, e em que possuíam os freires vastos e 
sumptuosos edificios. ^ 

Apresentou o mestre a D. Diniz as resolu- 
ções do capitulo, e el-rei as confirmou solemne- 
mente, pondo remate á obra, que tantos annos e 
cuidados lhe consumira. 

Poucos mezes depois, a 13 de novembro de 
1321, falleceu Martim Gil, deixando a ordem 
já florescente e poderosa; para isto concorre- 
ram os esforços do zelosa mestre, dirigidos com 
prudência e virtude; mas de tudo era causa prin- 
cipal a politica illustrada e generosa d'el-rei. 

1 Mm. Lu9. P. 6 1. 19 c. 2o. 

2 Ibid. c. 11. 



Instigado pela fé, pelo interesse publico, e 
pelo sentimento da justiça, D. Diniz acabava 
de crear a instituição que mais longe levaria o 
nome portuguez . 

Seria a ordem de Ghristo, que, tendo por 
governador e administrador o mais tenaz e 
meditativo dos filhos illustres de D. João i, forr 
neceria os cabedaes avultados e os homens es- 
clarecidos e audaciosos necessários para realísar, 
atravez do oceano ignoto, a nossa epopea ma- 
rítima dos séculos xv e xvi, que tamanho im- 
pulso deu á civilisação do mundo, e que abriu 
a Portugal uma das paginas mais gloriosas da 
historia da humanidade. 

Eis por que dêmos á creação da cavallaria 
de Ghristo e ã extincção da do Templo, sua 
predecessora, maior desenvolvimento na nossa 
narrativa, do que a outros assumptos, aliás tam- 
bém importantes. Exigia-o a lógica da historia 
geral do- reino: — ^a grande gloria que a ordem de- 
pois adquiriu na verilidade, obrigava-nos a mais 
largamente lhe investigar o berço. Relevem-nos 
os leitores esta sollicitude d'amor ás nossas gran- 
dezas pátrias. 

Gonstituiam as ordens militares parte impor- 
tante da força publica, já pelas praças de guerra 
que mantinham sob sua guarda; já por que 
apresentavam em campo corpos respeitáveis, 
pelo valor distincto dos freires cavalleiros e nu^ 
meroso séquito de gente de pé e de cavalio; já, 
principalmente, peia lealdade à coroa, firmeza 
e disciplina que as distinguia. 

D. Diniz, no seu longo e previdente reinado, 
não podia deixar de as ter em vista, e de pro- 
mover, por todos os modos, o seu desenvolvi- 
mento, como o exigia a defeza do reino, em 
epocha tão dada ás turbulências e á guerra. 

Alem pois de fundar a ordem de Ghristo, e 
de beneficiar, largamente, as d'Avis e Hospital, 
effectuou na de S. Thiago uma reforma digna 
de mencionar-se. 

Re&idia o grão-mestre doesta cavallaria, no 
convento d'Uclé3 em Gastella. Gom o geral cos- 
tume, na idade media, dos cavalleiros servirem, 
indistinctamente, em todos os paízes, tendo em 
pequena conta as fronteiras da pátria, costumo 
que ainda mais se afervorou com as guerras 
contra os infiéis, que deram, na occasião, prOf 
fundo caracter de nacionalidade a tod^ o muQdo 



120 



Historia de Pôrtttgsíl 



catbolico, — os cavalleiros leonezcs e castelhanos 
da regra de S. Tbiago vieram ajudar os primei- 
ros reis portuguezes na expulsão dos árabes, e fo- 
ram d'ellcs recebendo, em recompensa, bens de 
toda a espécie, nomeadamente villas e castellos, 
alguns, militarmente da maior importância, por 
serem colocados nas extremas do reino. 

Possuiam, alem das doações d'ÂíTonso Henri- 
ques e outras, as praças de Alcácer, Palmella, Ar- 
ruda e Almada, que lhes doara Sancho i, e muitos 
Jogares do Algarve cedidos por Sancho ii ; eram 
senhores de Mertola, e haviam tornado dos mais 
opulentos de Lisboa o mosteiro de Santos-o- 
Veibo, largo tempo cabeça da ordem, e onde se 
recolhiam, durante a guerra, as esposas e filhas 
dos commendadores e dignataríos. 

Nas próprias communidades clericaes, foi sem- 
pre má a obdiencia ao geral de nação extranha; 
mas não tinha os inconvenientes graves e cons- 
tantes de tal circumstancia n^uma ordem militar, 
que podia, por vezes, estar sob o governo d*um 
superior residente em paiz inimigo, e ao serviço 
de príncipe adverso. 

Assim succedeu, nas primeiras guerras que 
Portugal teve com Leão e Castella, conhecen- 
do-se, logo, todo o perigo d 'uma tão inconve- 
niente organisação, que punha contra o reino 
os recursos nacionaes, pecuniários e guerreiros, 
cedidos aos freires de S. Thiago, que aliás os 
haviam ganho, pelos seus relevantes serviços, na 
grande lula da expulsão dos árabes. 

Delígenciaram pois os mooarchas remediar o 
mal. lilás dependia o negocio da santa sé; era 
ahi contrariado, poderosamente, pelos sobera- 
nos de Castella e grão-mestre da ordem; e nada 
até D. Diniz tinham obtido os reis portuguezes. 

Apenas este príncipe subiu ao throno, procu- 
rou, como vimos, compor as desintelligencias 
profundas que existiam entre o estado e a 
cgreja, e tanto que na cúria conseguiu ver entrar 
este grave assumpto em bom caminho, ordenou 
aos seus embaixadores que apresentassem a 
Nicolau IV, que então cingia a thiara, o nego- 
cio da cavallaria de S Tbiago, em que tão ma- 
nifesta era a justiça a seu favor. 

Fizeram-no elles, por forma, que, cm 17 de 
setembro de 1288, o papa outorgou uma bulia, 
ordenando aos commendores e cavalleiros de 
Portugal 6 Algarve que elegessem por mestre 



provincial um freire idonèo, priocipalmeatepor- 
tuguez, que administraria livremente as pessoas 
e bens da ordem n'este reino, ficando apenas 
reservadas ao grão-mestre de Castella a visita- 
ção e correcção supremas. ^ 

Levantaram-se porem dificuldades no assum- 
pto, sendo preciso que, èm 15 de maio de 1290, 
o pontífice publicasse outra bulia do mesmo 
theor, confirmando a primeira. Procederam en- 
tão os treze cavalleiros, que em Portugal tinham 
voto, â eleição do mestre provincial; nomearam, 
unanimente, D. João Fernandes, que foi por todos 
bem acceite, e proveu logo ao abandono em q«e 
os mestres de Castella deixavam em Portugal os 
bens da ordem. 

Por bulias de 17 de setembro c 22 de novem- 
Imx) de 1294, confirmou Celestino v a resolução 
do seu antecessor; mas foram tantas as intrigas 
que o grão mestre de Castella moveu na cúria, e 
tal o empenho com que as apadrinhou o seu 
respectivo governo, que o mesmo papa, re- 
signando a thiaria, com oito mczes apenas de 
pontificado, teve, para manter seus decretos, de 
publicar uma bulia, declarando sem effeito quacs 
quer letras que annullassem a eleição do mestre 
provincial portuguez e restabelecessem a ante- 
rior sujeição ao superior estrangeiro, que, por 
astúcia, importunação ou audácia, houvessem 
emanado da sé apostólica. 

Bonifácio yin, porem, ligado em demasia á 
politica de Castella, revogou, pela bulia Áb an- 
tiquis retro de 20 de julho de 1295, as resolu- 
ções dos seus dois perdecessores, e restituiu a 
ordem ao seu permitivo estado, com grande des- 
gosto de D. Diniz e dos freires portuguezes. 

Durante o pontificado de Clemente v, que 
succedeu a Bonifácio, a cúria preocupada com 
os processos celebres de que falíamos, n&o 
tratou do assumpto; por tanto, pervaleceu 
em Portugal a resolução do inimigo de Filip- 
pe, o formosOf chegando a ser pelo próprio rei 
acceite o grão-mestre de Uclés, D. João Osores. 
Prova-o ter D. Diniz, em 4 de dezembro de 1297, 
— no mesmo anno da alliança d'Alcanise8,<'^cele- 
brado com elle o escatnbo, a que já nos referi- 

1 Arch. Nac. da Torre do Tombo collec. esp. c. 4 
n.«* 19 e 20.— Mon. Lus. P. 8 1. i6 c. tSd.—Quadro 
elementar vol. 9. pag. 257. 



Hiftoxia úB Portugal 



121 



mos, das viUas de Alaiod(wer, Ooriquet caatel- 
)08 d€ Moncfaii|tte e Aljasnr e os padroado» de 
S. Clefneoie de Loulé o Santa Maria do Outeiro 
de Lisboa, peki viila d'Âlmada, que, por sua 
Tísínliança da capital e império sobre o Tejo, ooa* 
fifiba ao estado possuir nos domiaios da eorôa. 

Apenas porem eoustou, em Portugal, o falkci- 
mento de Clemente y, es freires de S. Thiago 
requereram & cúria, para serem restituídos na 
posse do. direito de eleger mestre provincial, 
que Nicolau iv lhes eonferirai Durou a vacância 
do sólio ponti6oÍQ dois aonos e ires meses; os 
cavalleiros aproveitarata^na para realisar o que 
pediaoi, n&o obstante a falta de despacho. Gon- 
gregaraoh«e os eleitores da ordem, e elegeram 
meàtre o oommendador Lourenço Annes, por es- 
tar destituído, ou provavelmente por baver falle- 
eido, D. Jo6o Fernandes. ^ 

Era o novo eleito dotado de qualidades supe- 
riores e apropriado à luta para que fora esco- 
Ihido. Não obstante as intrigas dos castelhanos e 
ordens da. cúria, Lourenço Anões manteve-se 
no governo, através dos ânuos e da variedade 
doB^successos. 

Quando Jofto xxu occupou a cadeira de Pe- 
dro, o grio mestrado d'Uclés alcançou um breve, 
datado de 17 d'abril de 1317, ordenando que 
se cuospriase a resolução de Bonifácio yiii, e 
annuUando a eleiç&o de. Lourenço Annes. Mas 
esle e todos os freires portugueses protestaram 
perante a sé apostólica, não dando execução ao 
decreto; e seguiram, com mais ardor, a sua ve- 
lha depiandii. 

AuxÂliou-os éUei quanto • poude, por seus 
embaixadores, que eram então o celebre almi- 
rante Manuel Pezagoo, de quem adiante falta- 
remos, e um ecclesiaslico notável. Os aponta- 
mentos, que estes, sobre o assumpto, oflerece- 
ram ao papa, resumem lucidaniente a questão. 

Começam, alludindo à introdução no reino dos 
fireires de S. Tbiago, aos seus serviços contra os 
Bouroe e às recompensas que receberam dos 
soberanos, até de fortes castallos, situados na 
fronteira castelhana, e leoneza; n 'essas doeções 
ioqmnhftHie aos cavaUeiros a expressa obrigação 
de defenderem o rdno de quantos o accommetr 
tessem, serem fieis á coroa, darem hospitalidade 

1 Mon. Luê. P. 5. 1. 16. c. 60 e 1. 17. c. 42. 
n voL, — 16, 



aos caminfaantes;e praticarem outras obras fieào* 



Alem dos numerosos bens que a ordem tinha 
em Portugal, possuia outros muitos dispersos por 
Castella e LtòOy grandes e vastos, e, para os 
governar e defender, carecia o grão-mestre de 
os visitar pessoalmente, e cuidar d'elles com 
diligencia. Era por tanto impossível ao chefe 
dTolés, sobrecarregado em Castella d^pcenpa* 
ções, tratar, como devia, dos legares e fortar 
lesas da ordem, em Portugal e Algarve. A 
ausência do superior fazia com que os freires 
portugueses se relaxassem nos costumes e 
deveres temporaes e espirituaes da regra: ti- 
nham as propriedades mal amanhadas e os cas- 
tellos em ruioaô e desguarnecidos ; •*- faltavam 
ao culto divino, e ás obras pias da institui- 
ção; — resultando de tudo gravíssimo escân- 
dalo. Alem disso os grão-mestres de CasteJla 
mandavam para fóra do reino os livros^ cálices, 
cruzes, ornamentos do culto e o dinheiro rece- 
bido dos rendimentos dos bens portugu^es. 
Diz-se até, n 'outros documentos, que se apodera- 
vam das armas, cavailose mais haveres dos frei- 
res quando (alle-ciam. Nas dissensões entre Pontu* 
gal e Castella, servia o grão-mestre, em regrai 
contra nsóe, com os dinheiros e genie tiradoi 
dos logares portuguezes. Por estes, quando si- 
tuados na fronteira, não estando guardados por 
homens fieis, podia, faeilmente, dar entrada no 
reino às tropas castelhanas. Era pois de grande 
perigo, para Portugal, a continuação de tão anor- 
mal estado. 

Estes rasões, que haviam motivado a bulia 
de Nicolau iv,--*exi8tiaro ainda do mesmo modo, 
senão mais aggravadas. 

Portugal sustentara sempre com grande des- 
pesa guerra contra os infiéis; este continuo 
pdejar pela fé tornavaro digno do favor i^ 
sé apostólica. 

Os freires da ordem, nos reinos da Sicilia e 
Aragão, recebiam integralmente os redditos dos 
seus bens, sem dependência do grão-mestre, — 
e era isso o que se pedia. 

Finalmente, citavam os exemplos das ordens 
d'Aviz em Portugal e Montesa no Aragão, que 

1 Arch. Nae. 6. 5. M. 4. n.« 11— -Quod. elem.cit. 
p. 311. 



122 



Historia do Portiigal 



tinbam mestres proTinciaes, e estacam sugeitos 
ao superior geral de Calatrava em Castelia, para 
a TÍeita e correicçào, facto qoe se daf a sem per- 
turbação e que destruía o principal «irgumento 
do grfto mestrado d'Uclés, de que não podia ba-> 
ver republica com duas cabeças. 

ApoQtava-se também um facto, sucoedido no 
anterior reinado, e que só por si bastara para 
fundamentar os desejos de Portugal, compro» 
Tando por modo sensível o allegado. Quando 
Affonso IH conquistara o Algarve, doara á ordem 
duas povoações, na fronteira da Andaluzia, Al- 
fejar de Pena e Ayatíionte; o grfto-mestre cas* 
telhano, sem authorisaçôa do rei de Portugal, 
cedeu^as a Affonso, o saèio, em troca de Estepa 
e Castro de la Reyna, no interior de Castelia, 
defraudando assim a nagão portuguesa. ^ 

Qualquer espirito esclarecido e justo tinha, 
necessariamente, de attender a estas pondera- 
ções, comprovadas pelos factos. Efectivamente, 
João xxii, apertado pelas instancias de D. Dinis, 
publicou uma bulia, em 1 de julho de 1319, sus- 
p^ndrado n execução do seu breve de 1317, 
e commettendo aos arcebispos de Compostella 
e Braga, ou ás pessoas idóneas que elles no-* 
meassem, o exame do assumpto, devendo in- 
formar a santa sé. ^ Escusou-se do encargo o 
prelado bracarense e foi substituído pelo bispo 
de Silves. 

' No entanto o pleito debatia-se, com variadas 
peripécias, entre os freires portugueses e caste- 
lhanos, chegando o grfto-mestre d'Uelés a publicar 
excommunhão contra Lourenço Annes e seus ca- 
vriMros, se não se lhe submettessem. A tudo po- 
rem resistiu, largo tempo, o mestre provincial, 
sustentando-se até á morte na posse do mes- 
trado. Pára o substituir, elegeram D. Pedro Es- 
cacho, ca rarter enérgico e de elevado nascimento. 
Apresentou no pontífice novo memorial da sua 
justiça, que foi corroborado pelos prelados infor- 
madores e sobretudo por el*rei. Keconheceu-a 
afinal João xxn. Em bulia do quarto anno do seu 
pontificado, 1320, confirmou a eleição de Pedro 
Escacho, e ordenou que os freires portuguezes, 
nem no temporal nem no espiritual, estivessem 
sugeitos ao grão-mestre de Castelia. ^ 

í Mon. Lus. P. o. 1. 18. c. 54. 
2 Quadro elem, cit. p. 395. 
9 M(m, Lm. P. 6. 1. i9. c. 20. 



Os murmúrios e pertensões d'Uclás ainda con- 
tinuaram por séculos, e só delaítivamenie ces- 
saram com a bulia de Eugénio iv, pabiieada a 
pedido de Affoaso^ o a/Hcano,- confirmando to- 
talmente a separação, e rnsodaudo pôr nleucio 
no longo pleito; «-^mas, em verdade, a comenda 
terminara pelos esforços de D. Diniz, com o ul- 
timo decreto de João xxii. 

Para completar a reforma que o bom rei ini- 
ciara, foi Pedro Escacho um enérgico auxiliar. 

Apenas seguro no governo da ordem, procu- 
rou, por todos modos, eleval-a do abatimento 
em que jasia e tornai respeitada. 

Reivindicou os bens alheados indevidamente, 
obteve para a corporação novos privilégios, re- 
busteceu a disciplina, mudou o convento de Mer- 
tola para Alcácer do Sal, e abi celebrou capitulo, 
em 1322, onde se adoptaram proveitosos estatu- 
tos, e se deu á sociedade uma orgonisação mais 
vasta e forte, lostituiram-seeessentacommendas, 
estabeleceram-se as rendas da meza mesirai, 
proveu-se á reparação dos castellos, fortalezas e 
edificios da communidade, e confirmaram-se as 
insígnias, sellos e bandeiras, que se haviam de- 
cretado, no capitulo em que se elegera o primeiro 
mestre provincial. > Por estas adquadas provi- 
dencias, a cavallaria de S. Thiago tornou-se, em 
breve, florescente e apta a concorrer, em pari*' 
dade, com os freires do Hospital, Aviz e Chrísto, 
para a segurança e engrandecimento da pátria. 

Diniz pois, repetimos, reformando, oom asol- 
licitude que acabamos de ver, as ordens mUi- 
tares, nervo dos exércitos do seu tempo, legou 
ás gerações vindouras mais este melo, para os 
grandes feitos que Portugal depois realisou. 

CAPITULO XIV 

Administração: — população — agrlonltnra — 
minas— oommerdo— industria — marinha. 

Quasi pelo mesmo tempo que D. Diniz levava 
à realisação, nas ordens militares, as reformas 
que relatámos, effectuava outra não menos im- 
portante na marinha nacronal, que seria, oosio 
aquellas, uma das causas prfncipaes da nossa 
grandeza Altura. 

i Ibid. • 



" 1 



Historia da Portugal 



123 



j^ 



Este nova pYOVidetioia prende-se porem a uma 
ordem 'ée factos eepeciaes, á adm»DÍf tracto ge* 
ral do reino, em relaçfto, principalmente, ao sen 
progresso material, nma das mais caracteristícas 
feições da politica -de D. Dinis, e que, atrares 
dos seenloe, lhe gravou o nome na memoria afie- 
ctuosa do poTo. 

É um Tasto assumpto, próprio de quadro 
grandioso; — «m dia, se podermos, desenbal-o- 
hemos largamente, como o exige a soa impor- 
tância;— «hoje apresentaremos apenas um leve 
eslx>ço, por mais nos nfto permittir a estreiteiá 
do tempo edos limites doesta publicaçfto. 

Não se tem encontrado documentos que nos 
dêem ideia exacta da popula^ geral do paix, 
por esta epocha. Sabe*se apeoas d*am que se 
refere a pequena parte do reino, â o rol doe 
besteiros do conto que deviam ter algumas das 
primeiras terra» da Bxtremadura e da fieira Alta. 

Vw o julgarmos em extremo precioso, oopián 
molK), na integra, do Archivo Nacional, e para 
aqui o transcrevemos: 

— «Edles son os Beesteiros, que deven hyr a 
serviço é*Bt»Rey assí como disseron os Anadares 
de Santarém, e de Auvrantes, primeiramente de 
Auvrantes 32 Beesteiros, e- estes devem avir a 
serviço d*Bl*Rey. 

De Tliomar 3^ Beesteiros, e estes devem ahir 
a serviço d'El-Rei per sá custa da Hordim, e 
develhis a dar a flordim entre quatro Beesteiros 
bttma Besta para levar seu Arnet. 

De Pombal 21 Beesteiros, e estes devem ahir 
a serviço d'EI-Rei a acusCa da Hordim. 

De Soure 12 Beesteiros, e devem a hir a ser* 
viço d'El*Rey per sá custa da Hordim. 

De Torres Novas 21 Beesteiros. 

De Ourem 21 Beesteiros. 

De Porto de Mooe 10 Beesteiros. 

De Leirea 10 Beesteiros. 

De Penela 6 Beesteiros. 

De Miranda 4 Beesteiros. 

De Arouei 12 Beesteiros. 

De Coimbra 31 Beesteiros. 

De Monte mór o Veliio defve aaver 21 Bees- 
teiros. 

De Alcanidí 15 Beesteiros. 

De Santarém soyam cerca 60 Beesteiros, e 
estes devem fazer serviço cum seos Concelhos, 
c 8c perventura os mandar El-Hey para< seu 



serviço, íaser-ihes El-Rey porem bem, e mer^ 
oee.t » 

Este documento, escripto em belios caracteres 
gotbicos, n'nm pequeno caderno de pergami-» 
nho, onde se lêem outros de diversas datas, 
tinta e letra, não tem indicaç&o do dia ou anuo 
em que foi feito; mas, pelas regras diplomáti- 
cas, parece aos paleographos pertencer & ultima 
metade do seeulo' xiii, aos derradeiros aiuioe 
do reiaado d'Affonso ui, ou primeiros de Di 
Diniz. 

A estatística dos besteiros, espécie de milicia 
popular e obrigatória, é de summa importanciav 
para calcular a população das terras a que dia 
respeito. 

«Paredes os besteiros do ccmto, diz a Orde^ 
nação Affmsma, ^ dos homens de mester j a sa- 
ber: çapateiros, alfayates, ferreiros, pedreiros^ 
carpinteiros, almocreves, tanoeiro», regataaense 
outros quaesquertnesteiraes, com tanto queae^ 
jam casados, e n&o sejam lavradores, que cou^ 
tinoadamente lavrem com junta de bois, nâo 
embarguaodo que alguns doestes alleguem que 
são criados d'a]guns nossos capitães e vassalioSr 
ou serviram com elles na guerra. » 

Tomando esta base, bons auctores. Soares do 
Barroe, Balbi, Rebello da Silva, ' calculam que 
um besteiro correspondia a 213 pessoas, enh 
trando n'este numero os homens de todas aa 
classes, as mulheres e as creanças, poia que 
não deviam ser numerosos aquelles cidadftos sol- 
dados, sabidos exclusivamente dos grémios in- 
dustriaes e do pequeno commercio, n'um tempa 
om que este e a industria começavam apenas a/ 
niciar-se, e eram pela maior parte exercidos 
por mouros e judeus. 

Do arrolamento dos besteiros dedue-se, accei^ 
tafido a indicada proporçfto, que Santarém tinha^ 
3:195 fogos de quatro pessoas cada um, ou' 
12:780 habitantes; Coimbra 1:650 fogos e 6:600- 
almas. Abrantes e Thomar eram de população^ 

1 Arch. Nac. G. 9, M. 10, ii.» 27. 

2 Ord, Aff. L. L tit 68, n.» lo. 

3 Soares de Barros^ Memarias iobre as camas da 
differente população em diversos tempos de Portugal, 
no vol. 1 das Memorias Económicas dA Academia 
Real das Seiencias. — Balbi, Varietis politico-itatis- 
tit/Ue, pag. 104. — Rebello da Siíva, Memoria sobre 
a popHiarão e agrictdtnra de Fortngal, pag. W a fil.- 



l»^ 



HiAtoria 4e Portugal 



qmnÁ igud) Bondo de 6:800 individsoç. Pombal 
tioha 4:470; igual numero possuíam Torres No- 
vas, Ourem e Moute-mòr-o-Velbo; Leiria encer- 
Páva..2;i30 moradores, Soure 2:550, Porto de 
Vm 2:130, Arouca 2:550, Penela 1:270 e Mi- 
randa 850. 

- Comparando este arrolamento, infelizmente 
parcial», com outros posteriores mais completos, 
]MND«adamente com os de 1417 e 1422, que 
Y4iem tran&críptoSi este na referida Ordenação, 
e aquelle na Memoria de Soares de Barros, e 
que provavelmente são um só, podemos concluir, 
çom certa segurajiça,— *que Portugali em. tempo 
de D. Díoii, Qootava menos de 900:000 habitan- 
tes. Era Lisboa a cidade mais populosa do reino, 
contendo algumas dezenas de milhares de mo- 
radoreS) pois possuia 15:000, quando Affonso 
9em'iquea a opoquistara, e jã tinha 63:750 no 
Ijempo de D. Jo&a i. Apoz Lisboa, apontavam-se 
Guimarães ; ei Santarém i Silves /6ra a maior po- 
voação do Algur^e, mas declinara, de dia para 
dia, depois da quedi^ do domioio árabe. O Por- 
to,, que .tão opuleotp e poderoso seria no futu- 
ro, era ainda, então um burgo pouco habitado, 
tanto que, quasii um século depois da morte de 
D. Dinis,. Qão contava mais de 8:500 viainhos. 
Nas ifoi ex^tamente, na epoetia gloriosa do 
Mestre d'Avis, qoe ;a irainba do Douro começou 
a ter verdadeira importância, politica, militar e 
eomméroialmente. 

' . Não se podem, oonsiderai; como seguros os nu- 
iQeroe apQutadosi não significam mais do que 
aproximações, tiradas |)or ioducção; dão com* 
tudo uma ideia acceitavei da população do paiz. 

Tinha esta por base 04 elementos. indígenas, 
poderosamente auxiliados com as constantes 
migrações d'estrangeiro6, francezea, iuglezes c 
alemães, promovidas pQlos primeiros monar- 
chas; kitara todavia, sempre, com terríveis cau- 
sais de destruigãpy a guerra constante, as pestes, 
aa fomes e os terreniptos, flagellos muito mais 
frequentes n'equelles séculos do que hoje, e que 
^ não deixavam tomar grande incremento. 

O reino estava dividido em cinco vastas pro- 
víncias, então denominadas comarcas: Alem- 
tejo e Algarve,— Extremadura,— Beira,— Entre 
Douro e Minho — e Traz os Montes, divisão per- 
feitamente lógica para o tempo, e que satisfazia 
ós necessidades administrativas do estado. Eram 



cidades priocipaes, smião ca^taea d'6Bt€8 dis' 
triçtos, Évora, Liaboa, Coimbra, Cuimartes e 
Bragança. 

D. Diniz, assumindo o governo^ seguia, como 
lemos dito, a politica de seu pae» promovendo, 
por todos os modos, e em todos 4vs sentidos, o 
progresso interno da nação. 

Logo em 1286, procurando. augmentar a po- 
voação das. costas do reino, para melhor resisti- 
rem aos corsários da Barbaria que as assaltavam, 
pensou, entre outras providencias, em povoar um 
porto, então excellente para a pesca e para o 
commercio, intitulado Paredes; ficava duas lé- 
guas ao norte da villa da Pederneira, e a pouca 
distancia da cidade de Leiria, muito frequentada 
de el^-rei, pela abundância de caça que se encoa- 
trava no termo. 

Em 28 de outubro, passou D. Diniz carta de po- 
voação a trinta moradores, com a obrigação de 
sempre terem promptas seis caravelas para pes- 
caria; e «para que aoommodassem casa, lhes 
mandou dar a cada um seu moio de trigo. • 

Cresceu rapidamente a villa de Paredes, c 
augmenlou até ao reinado de 0. Manoel. Mas, 
cercada de areaes e a descuberto, foi mais 
tarde, de tal modo, alagada p(^ elles, empei* 
lidos pelos ventos contra as , edificações e o 
porto, que este ficou completameate obstruido 
e as casas soterradas; seado o logar alModo- 
nado inteiramente pelos moradores. ^ 

Em 1295, fundou e povoou D. Diniz Sal- 
vaterra dos Magos» eujo fértil paul, em que se 
levantaram as construcções, lhe foi doado pelos 
vereadores do coocelho de Saularpm, que era 
o senhorio, estando presentes ao auto e outhor- 
gando os nobrea e homens bons da villa. ^ 

Como já indicamos, deu a Uartim Lourenço 
de Cerveira carta regia de povoador da matta 
de Urgueira, no termo d'Ouremk em 20 de maio 
de 1299; e no dia seguinte concedeu foral aos 
povoadores da Villa Neva que edificara ua Foz 
do Coa; ficava apenas separada da fronteira de 
Leão pela corrente do Douro» e, não obstante 
issOi levantott*se, imprudentemente, dem muro 
ou defensão alguma. 

Constando a D. Dinis que, no termo de Tor- 

. 1 M&fi* Lm* T. 5. 1. 16. c. M. 
2 Afoit. Lm. P. 6. L 17. c. 26. 



Sistoiia de Portugal 



ld5 



res^ Novas, «mre a Cardif» e- Beailga» kavia 
bons terrenos, mas incultosi, aGddeotados e ie 
disposição apropriada a acoitar os lUMoenosos 
aabeadorea-queos kiCestavain, com repetidos at-» 
tentadas-yT-^Dteudea que o melhor remédio, para 
dabeian este mal, era povoar, esses sítios ermoae 
selváticos, e promover B^eiles a. agricultora e. a 
vida social. N'este ÍDluito, em 5 de setenibro 
de 1303, manchou por- oarta regia fundar aUí as 
povoações da.Áceiceira^Àtaiaya e Tojal. Para 
aitrair os povoadores deu*ihes el-rei varjos pri- 
Tílc^os e . quitoiíTOS do pesado imposto das 
jogadas. V No taluro, ^omaramose notáveis,-- 
Atalaja, por ser cabeça de condado, populosa e 
fértil, e Ãceiceira, por que foiscenarioda ultima 
e decisiva viotoria. militar da causa liberal, no 
presente século. 

Muito mais importantes porem do que estes 
logares da Bxtremadura, íuadou D. Diuiz duas 
povoações na comarca de Traa^oa-Uo&tea, loram 
Montalegre e YillarReal. 

Na primeira, jÀ antes houvera moradores, maa 
a uns ceifara-oaai morte, outros haviam abando- 
nado a terra, fugindo às. violências dos exactores 
do fisco. A fundaç&o de Villa-Real fora, primeiro, 
planeada por Âffonso iii; em 1 272, mandárar a edi- 
ficar, e dera-lhe foral, oaocedendoi^lhe os direitos 
reaes sobre a terra das Panoyas, vasta cironmscri- 
pç&a d'aqueila parte da. comarca. ^ Mas as per- 
turbaçOea clericaee no reino eram granées; oio 
appareceram povoadores^ e o fiolonbez morreu, 
sem ver realisado o pensamento. Coube ao filho 
essa tranquilla e civilisadora gloria. 

As correrias dos castelhanos e ieonezes nas 
noadas fronteiras,; motivadas pela rebeldia de 
Álvaro de Lara, coadjuvado. pelas inquietações 
do infante portuguez D. Afienso, mostraram a 
D. Diniz que era preciso prover de gente e lo- 
gares fortificados a oomarca.de Traz*oe*Montes, 
confinante de Leão e da Gallka e tâo afastada 
do centro do reino. 

Instigado pois pelo exemplo de seu pae, dese- 
jos proprioa de dar iacremenlo ao paiz e neces* 
sídade de tratar da sua defeza.,.— D« Dinia, em 3 

« Mon. Ltu. P. 6, I. 18. c. 3. 

2 Cfmcêdo vobú hominibtis populatoribtís, qní ha- 
bitáperitiê m terra de Panoyoi, qae vocatur, Vilia- 
ReiU, onmei meãs rendas et omnes meos directos de 
terra de Panoiyas, (Lib. d'elrrei D. Aff. iii,.lòh 117.) 



de janehro de 1289^ mandou po^ar MoolalegN, 
e no mesmo dia passou carta de.povoaçilQvQ.fordl 
para que, na fertiliesimodistricto de Panoyas, se 
edificasse ViJla Aeal. Limitou-lhe mil oioradores; 
ordenou que fosse cabeça da referida circum- 
scripção; e deu privilégios espociaes aoaeette ha- 
bitantes, entre, ellcs o de ser a vilU governada 
por dois juizes, sem que o alcaide-móp, apezar de 
representante directo 4o poder real, podesseeoi 
tervir com elle&na justiçai competindo^lhe exclu- 
sivamente a defeza do casteUo. «Se el-rei quizer 
fazer alcácer, deve by meter-se Alcaide que. o 
guarde^ & fique a justiça noa juizes, & nom aver 
o Alcaide hy parte, salvo em guardar seu cas^ 
tello.» — diz o foral de D. Diniz, indo muito. alem 
das conceasões de Affonso iii. 

Decorridos três annoa, já a nova povoaç&ose 
achava mui adiantada nas edificações e .numer 
rosa de habitantes. Attendendo ás neceaiida- 
des que o tempo mostrara, D. Diniz, em 24.de 
fevereiro de 1292, deu outro foral a ViUa-Beal» 
mais apropriado e completo do que o primeifco 
e confirmando os privilégios concedidos. Para 
mais daramente mostrar a especial perdilecç^o 
que consagrava a esta obra, dedicou ao senpa-* 
trono espiritual, o martyr S^ Diniz, a egreja man 
triz danova villa:— a idéa religiosa estav4 ontAo 
inherente fts mais nobres aspirações de todos ea 
espirites. ^ * > 

VillanReai conservovhse, largos aanoa, nos. dor? 
minios reaes, sendo cedida a diversas rainbaa^ 
Diniz deu-a a sua esposa D. Isabel; Aflbnso iv^a 
D« Aritea; Fernando a Dv Leonor: -^técfkois é que 
passou ao senhorio de. condes e marqueses. • 

A feracidade do solo que a rodea e a activi- 
dade dos habiUntes a tornaram, com os sécu- 
los, uma das primeiraa capitães do norte .do 
reino, perpetuando, atrai^ez das idades, o>nome 
querido do fundador. ^ 

Estabeleoendo estas e outras povoações, nioae 
esquecia Diniz, na sua soUicitttde, na verdade 
admirável, de augmentar, embellezar e foriefi- 
car as antigos cidades, YÍlbis e aloacerea jio 
reino.' . . 

Reconstruiu quasi de novo as villas e castellos 
de Serpa, Moura, Mourão,01ivença, Gampo-Maior, 
eOuguella; edificou, ou reparou inteiramente as 

> Mon. Lhs. P. 5. 1. 16. c. 62. . 



126 



Historiík de Portugal 



forltleras de Monforte, Arronches, Portalegre, 
Ifervilo, Alegrete, Cutello de Vide, Borba, Villa 
Víçoia, ArrayoioB, Bvora Hoole, Veyros, AlaiH 
dreal, Monçarás, Noudar, Juremeofaa, Redondo 
e Awumar; levantou a torre e alcácer de Beja; 
forteficou maito,— já o díssemoe,— todas as ifil- 
ks da conquista de fiiba de Goa, e bem assim 
A?òo, Pinhel, Guimarftes, Braga, Miranda do 
Douro, Monção e Castro Leboreiro; aeasteliou e 
povoou, cm grande parle, sen&odetodo, Vinhaes, 
ViUa-Flor, Alfandega, Mirandella, Freixo d'Bs- 
pada á Cinta e outras; emfím tomou defensáveis 
perto de cincoenta legares, mais ou menos im» 
portantes e espalhados por todos os pontos do 
reino. Lisboa também não foi olvidada pela sua 
poderosa iniciativa: levantou Diniz muitas ca^ 
sas, acomodando a população, sempre crescente 
da cidade, e augmentando com os allugueres os 
redditos da coroa; construiu alguns edéfidos 
pubiicos, nomeadamente o paço d'Alcaçova, e 
abriu a Rua Nova dos Ferros, a melhor da capi- 
tal. ^ 

Foram também em grande numero as suas 
fundações religiosas. Semeou, por todo o reino, 
capeUas, egrejas e conventos: impoUia-o não só 
o espirito piedoso do século, mas lambem a 
ideia de que o templo, levantado no ermo, era 
começo natural de novas povoações. Entre estas 
obras distioguem-se porem duas bem conheci* 
das, o mosteiro d^Odívellas e o de Santa Clara 
de Coimbra. 

O primeiro foi um voto da mocidade mantido 
até ao tumulo. ^ Concebeu largo tempo a sua fa* 
brica; lançou^lhe a primeira pedra em 27 de fe- 
vereiro de 1395; levou dei annos a edifical*o; 
eem 1325, trinta annos depois da fundação, or* 
denou abi sua sepultura, pouco antes de fallecer. 
.Pelo golhico e elegante cruzeiro, no alto da 
coUina; vastidão dos ediQcios; magnificência de 
lavores, dentro e fora do templo; fachada prin- 
cipal; coro sumptuoso e amplo; nave — que o ter* 
remoto de todo destruiu, mas que a tradicção 
eDgrandece,-^e, sobre tudo, pelo mausoléu do 
bom rei; antes das deturpações que hoje vemos, 
— ora Odivellas um monumento verdadeiramente 

* Rny de Pina, Chí^oiika d'eUrei D. Dinis, c. 3Í 
—Duarte Nunes de Leão, Chronica. . . fm. 
5 Vide pag. 8 d'esle livro. 



notável e dos moilriroB maiores e siaie cd%* 
brados da peuisala. 

Fica doas léguas ao norte de Lisboa, D'ama 
planíce, «Dtre três pequeaoB montes, Lus, To« 
jaes e S. Diniz que lhe oortam o horiaoote; 
um riacho crystalino lhe rega a cerca e o jar- 
dim de Vai de Flores. Pertence á ordem de 
Cister. Oitenta freiras o habitaram logo nos pii* 
meifae auaos. A clausura era suave: nio po- 
dendo o coro ser dividido da nave, nem por 
«grade, nem roda, nem outro maior encerra^ 
mento de parede, nem de madeira, nemd^oatra 
cousa,» que vedasse ãs religiosas ir ã egreja, 
onde estava o moimento do rei, para sobre elle 
faxerem as suas orações e rexas. D. Diniz ahi re* 
colheu algumas das suas filhas bastardas. Estre- 
meceu e cuidou tanto este convento, que, apeiar 
dos graves negócios da governação lhe preocupa- 
rem o espirito, dcns veses reformou a sua regra; 
e, tomao4o-o opulenta por numerosas e impor« 
tantes doações, ainda o dispensou das Jeis da de- 
samortisaçâo, facultando-lhe o herdar. ^ 

Devíamos ter conservado OdiveMas com pa- 
triótico e esmerado zelo. Era um symbolo do 
século XIV, século rico de sttva e onde, por 
entre a barbaridade medieva, começaram a scín- 
tiUar, com vigor, os primeiros arreboes dadvi- 
lisação nacional. Um rei porem vilipendiou esse 
padrão oom as suas sensualidades; e uma cata»* 
trophe natural o destruiu. O que hoje existe em 
Odivellas, do antigo monumento de D. Diniz 
pouco mais é do que o local, as tradicções, o 
nome e alguma pedra tumular. 

velho convento de Santa Clara de Coim- 
bra, de cuja yasta edificação só restam minas 
quasi extinotas, não foi elevado, directamente, 
por D. Diniz; mis é devido ã liberalidade com 
que dotou a rainha, sua esposa. 

Uma opulenta dama, D. Mór Dias, canoiíisa do 
mosteiro de S. João das Donas, aéhestrido ao de 
Santa Cruz, fundou, em 28 d'abril de 1286, na 
margem esquerda do Mondego, a poucos passos 
da ponte, uma egreja e caaa de religiosas, que 
dedicou a Santa Clara, & dotou com tedos os seus 
haveres. Opozeram-se porem o&couegos regren- 
tes, aliegando que Mór Dias, por ser professa na 
sua ordem, não podia dispor dos bens a favor 

1 itfofi. lAt$. P. 5, i. i7, cap. 21 a 24. 



Hktaria de Portogai 



mi 



d'oatra; e, ponco depois do fiikGimemo da pie- 
dosa dooa, obtivenstoi sentença do bispo de Lis- 
boa, Boprinindo o novo mosteiro e maadando 
entregar-lbes todos os haveres que haviam sido 
da defoQta. Dispersaram-se as religiosas por 
diversos conyeiHos, e comegou a arruiaar-se, 
com o abandono, a recente e incompleta edifi- 
cação. 

Foi entUo que a rainha 0. Isabel tomou sobre 
si salvar a fuadaç&o de Mór Dias, e reconstruir 
o mosteiro; com este intuito, entremeio no lití- 
gio, que, sem effeito suspensivo, se achava, em 
ultimo recurso, afiecto à santa sé. 

Obteve a pretensão deferimento pontificio, e 
oompozeram-se os padres de Santa Crus, cedendo 
ao novo convento parte da herança de D. Mór. 

Em 1317, a devota princeza, acompanhada de 
muitos prelados e senhores, lançou a primeira 
pedra das grandes edificações a que ia proceder. 
Levantou a egreja, vasta, no género gothico e 
com as três naves do estylo; nas abobedas ogi- 
vaes, que ainda existem, véem-se esculpidos, a 
miado, os escudos de Portugal e Aragão. O mos- 
teiro foi, em Iodas as suas ofiioinas, ampliado 
com grandeza. Apenas a casa admittiu morado- 
res, a rainha mandou vir onze claristas da ci-» 
dade de Çamora, para, com seu viver reformado, 
servirem de núcleo á nova commonidade; esta 
desde logo se augmentou, recrutada na primeira 
nobreza do reino, e ciiegou, em breves annos, a 
contar cincoenta religiosas. A fim de estar mais 
perto do santuário, Izabel d'Aragão construiu ao 
lado um paço real, adquado á sua famiKa e sé- 
quito, teom uma vinha adjunta;» e, para com* 
plemento mais perfeito da sua obra, edifioou-lhe 
contíguo um bospital, para abrigo, educaç&o e 
tratanienu> de orfáoa e pobres. 

A celebrada rainha, com D. Beatriz sua nora 
e muitas senhoras da corte, ahi passou largos 
annos de vida, dividindo oa dia» entre as rezas 
Bo coro e a pratica da caridade no hospital. Du* 
rante a viuvez, vestiu, sem professar, o habito 
humilde das minoritas de Sactta Ciara, e n'este 
mosteiro dispez' jazigo,*-*per{eriado»o h sepul- 
tura qae primeiro projectara, jnnto de seu ma* 
rid» em (klivellas. i . 

No velho oonveeto de Stsla Ciava, esteve en** 
te9iadft a éetveoitwada <e ^ntil Igitt de Casth), 
alé que o amor apaixonado de Pedro* i a trasla- 



dou, com as mais faustuosas pompas regias^ para 
o mausoléu precioso d' Alcobaça (1361). 

N'este mesmo mosteiro, no dia 15 de novem* 
bro de 1480, ante a corte de Portugal e os em* 
baixadores castelhanos, no meio das lagrimas a 
prantos de auditório numeroso, foi D. Joanoa, 
a eíccellente senhora j coagida a professar, para 
deixar a Fernando e Izabel, desassombrados, no 
throno do Lefio e Gastella, de que a desditosa fora 
jurada rainha e para o qual ainda a chamavam 
podet*(Mos partidários. 

Mas a natureza havia condemnado a obra píe^ 
dosa da esposa de D. Diniz; a pouco e pouco, a 
alluviào das areias do Mondego a iasubverteudo^ 
Quando, no século xvi, D. Frei Bartholomeu dos 
Martyres ahi pregou, ante o aventuroso o infeliz 
D. Sebastifto, já era, havia muito, manifesta a 
impossibilidade de manter, por longo tempo, o 
velho mosteiro, apesar da reluctancia das reli- 
giosas a abandonal-o. Por fim, foram ellas que 
sollicitaram de D. João iv remédio para o ex<» 
tremo em que se viam. Começou este monarchay 
em 3 de julho de 1649, a edlfioaç&o do con- 
vento novo de Santa Clara, a pouca distancia do 
antigo, no alto do monte da Esperança, onde 
boje se vé. 

Entre as freiras, em grande e solemne pro^ 
cissão, fúi para lá trasladado o corpo da rainha 
D. Isabel, no dia 29 de outubro de 1677. Ainda 
não estava concluída a nova obra; e para o seu 
remate serviram, em grande copia, os mate-i 
riaes da antiga. ' 

Mas os estabdecimentos de religião e piedade 
occoparam ainda assim a D. Diniz mui pequena 
parte no seu systema de desenvolvimento da 
população e prosperidade do reino. A civilifa'^ 
ção progredira, e jã ditava aos governos para 
esse fim meios mais efficaaes e mais direotus: 
eram o desenvolvimento do trabalho maleriaA 
em todas as suas principaes manifestaçõies, a 
agricultura, o commercio e a industria; etau^ 
sobretudo o aperfeiçoamento, no sentido liberal,* 
das péssimas condicções juridioas e sociaes d^ 
propriedade c do povo. 

1 Fr. Manuel da Esperança, Historia Seráfica, p. 
1 I. 9.^Mon. Lus. p. 6. I. 18. cap. 61 e 61— A. 
M. Simões de Castro, Gma hiièoric^ A^ vi^atUi im 
Coimbrãs pag. Si5 e seg. 



1^ 



Historia áe Poortugal 



A principal reforma de D. Dinis, para o au- 
gmento da população, progresso da agricaltnra 
e em geral para a civilisaçâo do reino foram as 
leis, firmemente executadas, da desamortisèo 
da terra, de que já largamente nos occupámos 
nO' capitulo x d'este livro. ^ Só elias bastavam, 
petos sduít profundos e salutares effeitos, a dar 
gloria a um reinado; mas, alem d'isso, DinrK, 
continuando, com soUicita capacidade, a po- 
litica fecunda de seu pae, tanto pelo lado agra* 
rio, como de repressão às demasias e extorsOts 
variadas é continuas das classes privilegiadas, 
apressou, por modo em extremo notável e sen- 
rivel, a grande e admirável evolução quo se 
operava na sociedade portugueza. 

Jã vimos, por eete lado, a reforma; ^ obser^ 
vemoi-a agora pela sua face directamente agri* 
cola. 

Rei e ministros, illustrados e conhecedores 
do paiz, por quo divagavam, continuadamente, 
por élle, cdmo temos dito, tratando de perto com 
o povo, administrando justiça, inquirindo das 
necessidades publicas e provendo-as de remédio, 
— sabiam praticamente as condicções de exis* 
tencia das diversas localidades, e a cada uma 
coadunavam o systema agrário adoptado, va* 
riando-o e modificaiido-o, em harmonia com os 
usos e costumes dos diversos logares. 

Faziam-n^o, genericamente, pela conceraão de 
cartas de foraes, ou eufhorgando novas, ou mo* 
dificando antigas; — e, em especial, e sobretudo, 
por contractos particulares d'aforamento. 

Nos vastos plainos despovoados do Alemtejo, 
proctirou Dinis estabelecer pequenas povoações, 
pôr cujos moradores distribuía, em courellas 
eguaes, os terrenos circumvisinbos. Conservava 
aos mosteiros, ás ordens militares, aos ricos ho- 
mens e opulentos proprietários as herdades que 
agricultavam, mas prohibia-lhes que coutassem 
grandes tratos que não podiam lavrar, e devas- 
aava^lhês e tirava-lbes os terrenos incultos, para 
08 tornar pastos communs de todos os risinhos; 
ou 08 entregava em paroellas a trabalhadores, 
que os cultivassem, designando a cada um a 
parte necessária á alimentação do seu gado. 

Doesta arte, o proletário converlia-se em dono 

1 Pag. 53 a 59 d'e8te livro. 
' Cap. X citado. 



de terreno, mediante o pagamenio d'nm oaaon 
OQ faro, tendo apenas a restriota obrigaçfto da 
cultura, que, em geral, o emphyteota cumpria 
satiafeito, como proprietário que amanha o qne 
éseu. 

Estas providencias, moldadas nas dispoaiçõeB 
do foral d*Evora, e por D. Dioia preemplas a 
João Dias, para povoar o termo de Houra,-^ap* 
plicou^as o rei, geralmente, a todos os pontos que 
poude da vasta comarca. Tinham por fim povoar 
os ermos em qne abundava, combater a teaden- 
cia primitiva e ainda hoje existente dae herdades 
enormes, onde a cultura só axialia em pequenas 
parceUas, sendo os grandes tratos abandonados, 
em pousios e matagaes, a rebanhos numerosos, 
mas mal alimentados e mal tratados; pertendiam 
destruir pela povoação, pela agricultara gene- 
ralisada, peia creação esmerada de bons pastos 
e bom gado, a charneca bravia e inculta, que 
occupava quasi dois terços da província. 

Não foi dado, ainda assim, a estas bem medi- ' 
ladas leis conseguir, completamente, o fim a que 
visavam; mas, sem ellas, o Aicnitejo, afora as 
hortas, as vinhas e os jardins que rodeam as 
grandes povoações, não seria mais do que um 
longo baldio inculto e selvático, em cujas bre- 
nhas se antolharia a custo o rude pastor com 
o rebanho enfesado: Diniz levou a povoação 
e a cultura a muitos pontos, e estabeleceu o 
único systema possível, para que pudessem pro- 
gredir n'aquella parte, a mais atranda de Por- 
lugal. 

Fernando, depois, aproveitou, habilmente, os 
preceitos de seu bisavó; e, melhorando-os, os 
generalisou. 

Na Extremadura e parte da Beira, seguiram-se 
diversas formulas, para a povoação e cultura dos 
terrenos; pervaleceu porem a que ee baseava no 
imposto real das jugadas, pagando-o o agricul- 
tor em relação á área que amanhava, ou antes 
segundo os jugos de bois que applicava á la- 
voura; servia o moio de trigo, que éiverseficava 
de logar para logar de 12 até 36 alqueires, de 
typo para o lançamento da contribuição; em al- 
gumas povoações, o lavrador pagava o imposto 
da quota, entregando a oitava, a sexta ou a 
quarta parte dos frttetos percebidos. 

Este systema não foi o maia profieuo. O agri- 
cultor era coagido a procurar as terras, que, pela 



1^8 



Historia de Portugal 



A principal reforma de D. Dioiz, para o aa- I d* terreDO, mediante o pagamento d'am cânon 



1 Pag. 53 a 59 d'e8te livro. 

2 Cap. X citado. 



ijuarui pdne uuH irueios perceoiQos. 

Bate gyatema nio foi d «naii proficao. O agrir 
cultor era coagido a procurar as terras, que, pela 



D. Diniz administrando justiça aos povos 






ASTO^.LCffOX ANO 



Historia de í^ortugal 



129 



sua feracidade, melhor supportayam o pezado 
tributo, ficando iocullas as de peor natureza. 
Bastava até que a qualidade do solo tornasse me- 
nos certos os lucros das cearas, para logo estas 
serem substituídas, ou pelo menos amesquioha- 
das, com a plantação d'arYoredo fructiféro. 

D*c$ta arte, a população dessimineu-se pela 
província, habitando e amanhando os logares 
mais férteis, c deixando em magros olivedos, 
ou, o que era mui peor, em pousio e solidão, 
largos tratos de terreno, que podiam e deviam 
ser melhor aproveitados. 

Por isso, na Estremadura, encontra vam-se 
dispersos e raros os sitios verdadeiramente cul- 
tivados; frequentemente viam^se olivaes; mas 
tudo era entermeado por vastas charnecas e bal- 
dios. 

Este syslema de cultura fora prescripto pe- 
los governos de Affonso Henriques e Sancho i; 
D. Diniz teve de acceital-o, mas aperfeiçoou-o, 
beueficiou a comarca com o estabelecimento 
das respectivas povoações que jà apontámos^ e 
promoveu directamente algumas culturas, que 
adiante indicaremos, deixando vestígios secula- 
res da sua sabia e fecunda administração. 

Em TraZ'OS-Montes, procurou D. Diniz, tanto 
como no Alemlejo, augmcntar a populaç&o e 
desenvolver a cultura; eram os dois districtos 
do reino que mais terrenos conservavam impro- 
ductivos. Mas viu-se também forçado a adquar 
as suas providencias ás tradicções e praticas 
locaes, para que fossem açceitas pelos povos. 

Aqui, a propriedade commum e concelhia per- 
valecia inteiramente á propriedade individual. 
Cada povo tinha um determinado terreno, lotado 
e sugeito a um só foro em pão ou dinheiro; e 
os moradores repartiam entre si o pagamento 
do censo. A coUeclividadc do município, ã pro- 
porção que foi crescendo, augmentou a resistên- 
cia, para que os indivíduos se não apropriassem 
de parcella alguma de terreno; e a cultura com* 
mum, por falta de illustração geral e sem ser 
animada com o estimulo do interesse particular, 
decaiu de anno para anno, sendo abandonados, 
ás pastagens e baldios, terrenos excellentes, que 
podiam ser agricultados com vantagem. 

Os logares em que o amanho se nfto fazia 
em commUD, eram todos os annos, postos em 
monte e divididos pelos visinboSi para os culti- 

U VOL, — 17. 



varem;— systema sobre modo d^mnoso á bos^ 
economia rural, pois afugenta do cultivador a^ 
idéa de toda a despeza com o campo que não dé 
resultado immediato, ou exija emprego sensível 
de capitães. 

O communismo existia ainda em outros servi- 
Ços; em alguns tinha, porem, na verdade, mais 
vantagens do que inconvenientes: — eram com- 
muns, para o logar, não só a construcção, con- 
servação e policia das pontes, dos caminhos e 
das terras, mas até o moinho, o forno de coser 
pão, as eiras, os lagares e a guarda dos rebanhos. 

Estes usos, dos quaes alguns parecerão ex- 
tranhos aos habitantes das nossas cidades d^a^ 
gora, ainda hoje se conservam, em povoações de 
Traz-os-Montes e em numerosas aldeias de todo 
o reino: — as escamisadas, entre visinhos, são 
as festas bem conhecidas, populares e frater- 
naes d*este communismo secular. 

D. Diniz, o rei amado do povo, acceitou o 
systema, conhecendo-lhe as vantagans; e pre- 
tendeu corregir-lhe os inconvenientes, que, pelp 
lado restrictamente agrícola, eram manifestos, 
como vimos. Estabeleceu que só fossem conser-. 
vados em baldios e incultos os terreuos reco- 
nhecidamente maninhos e declarados taes por 
peritos, sesseiros; e a cada povoação impoz o. 
dever de dar terreno, para casa e horta, a qual- 
quer que de fora quizesse ir ahi estabelecer-se. 

Mas estes bons preceitos da previdente admi- 
nistração dioniziana perderam-se com o tempo; 
sobrelevando os inconvenientes do systema âs 
vantagens que podiam d'elle resultar, se fosse 
aperfeiçoado na forma decretada. 

É principalmente por isso que a província de 
Traz-os-Uontes não prosperou, quanto lh'o per- 
mettiam a natureza do solo e a actividade dos 
habitantes. 

Em Vílla Real, porem, c n'alguns outros con- 
celhos da comarca, creados por D. Diniz, e em 
que as tradições portanto não existiam, seguiu 
o monarcha o methodo que adoptou no Minho, 
de todos o mais perfeito para o tempo, e o quç 
mais fecundos e prósperos resultados veio a dar. 

A província de Entre Douro e Minho foi das 
primeiras a libertar-se do jugo mussulmo^no, a 
ficar a coberto das correrias dos árabes e a gozar 
08 benéficos effeitos da tranquill idade e da paz* 
Alem doesta razão politica, mas capital, varias 



lÔO 



Historia de Portugal 



circamstaacias oatnraes, exclusivas do distri^ 
cto, favoreceram alli o incremento da popula- 
ção e da agricultura. Tudo foi aproveitado por 
Àffonso III e Diniz com extrema habilidade; e 
estes monarchas tornaram de Hinho a parte mais 
populosa, cultivada e rica do reino. 

Dividia Diniz os terrenos em grupos de dez, 
vinte e trinta casaes, e distribuía estes a outros 
tantos moradores. Cada casal constituia uma pro- 
priedade emphyteutica, um prazo, com um foro 
de cereaes, gailinhas e dinheiro, pago á coroa, 
ao municipio ou ao donatário, como senho- 
rios directos. Gompunha-se de terra de la- 
voura, uma parte correspondente de logradoiro 
para pastagens e mattos para estrumeiras, e 
uma porção de maninho para romper e agricul- 
tar. Pela morte do caseiro, ou emphyteuta prin- 
cipal, partilha vam-se entre os herdeiros todos 
os terrenos cultivados, sendo aquelles obrigados 
a inteirar o foro ao cabeça do casal, geralmente 
o filho primogénito, que o pagava ao senhorio 
directo, e ficava para todos os cffeitos como 
principal representante do dominio útil, senão 
às vezes, como succedeu no futuro, dono de 
todo elle, dando aos coherdeiros a estimação 
dos Seus respectivos quinhões. Revertiam para 
o senhorio as terras incultas. Por tanto, o in- 
teresse dos emphyteutas era amanhar o maior 
numero possivel d'ellas, para as apropriar e 
partilhar aos seus successores. Alem d'isso a 
divisão e o augmento da cultura suavisavam o 
ónus do foro. O chão que, por inculto, voltava ao 
poder da coroa ou do municipio, e o casal, que 
se despovoava, eram logo aforados pelo sys- 
tema primitivo, ou arrendados a quem os agri- 
cultasse. 

Com o correr dos annos, os casaes transfor- 
maram-se em aldeães; e apenas os moradores 
de três ou quatro se reuniam em povoação 
d'a1guma importância, D. Diniz outhorgava-lhes 
carta de foral, para constituírem municipio. 

D'este systema resultou que, em breve, toda a 
comarca d'Entre Douro e Minho estava coberta 
de excellentes casaes, d'aldeías pittorescas e de 
pequenas villas, com a sua authonomia munici- 
pal, escaceando os baldios, e tendo quadi com- 
pletamente desapparecido os terrenos maninhos, 
ante a fecunda actividade do agricultor proprie* 
tario. 



Taes foram os methodos principalmente 
guídos por D. Diniz, para povoar e agrícaltar 
o reino. Tinham, em geral, por base, cotno 
dissemos, o aforamento j'Aemphyteu8e. Esta for- 
mula jurídica da propriedade, parte romana, parte 
feudal y de variadíssimas espécies , estava longe de 
ser a expressão perfeita da pbilosophiadodireilo; 
mas offerecia uma transição excellente, para pas- 
sar, sem violentas e sanguinárias revoluções, 
do regimen predial do feudalismo, para a única 
concepção verdadeiramente liberal, o dominio 
pleno, de que nos vamos, a pouco e pouco, 
aproximando. Era igualmente a emphyteuse o 
único systema possivel, nos primeiros séculos 
da monarchia, para povoar e cultivar o paíz, já 
por colónias d 'estrangeiros indigentes, jã pela 
elevação à dignidade material e moral de cida- 
dão lavrador e proprietário, d'um proletariado 
sabido da quasi servidão feudal; e isto, de modo, 
que desse, ao mesmo tempo, à coroa e aos dona- 
tários, não só os diriitos honoríficos de senho- 
rio, mas também redditos materiaes de que não 
podiam prescindir. 

Para mais facilmente realisar o seu vasto 
systema agrícola, Diniz procurou, em todo o 
reino e muito especialmente no Âlemtejo, en- 
corporar nos domínios da coroa o maior numero 
que poude de povoações e terrenos. 

Foi, por certo, n'este intuito, que tornou, 
como vimos, mais rigorosas as inquirições, 
devassando muitos legares, — chamando ouiros 
ao senhorio régio,— e revogando, com raras ex- 
cepções, as doações inofficiosas, que fizera no 
começo do seu reinado, impellido pela liberali- 
dade dos verdes annos e necessidade de attrafair 
o clero e os nobres. Esta violenta c um tanto 
desleal resolução, posto que as doações eram em 
regra revogáveis, foi decretada em Coimbra, aos 
26 de dezembro de 1283. Devia irritar profun- 
damente os esbulhados; é provável porem que D. 
Diniz os compensasse por alguma forma, pois não 
se conhecem singnaes de que encontrasse grande 
resistência. Alem d'isso, as terras, pela revoga- 
ção retiradas de poucas mãos de nobres, que 
já então começavam a decahir, eram, pelos me- 
thodos expostos, entregues aos braços robustos 
dos numerosos homens de trabalho, que prote- 
gidos pelo poder real , se tornavam partidários da 
ooróa e adversos das classes priviligíadas. A 



Historia de Portogal 



131 



for(a nomerica dos doyob possuidores susten- 
taria o decreto; — e Diniz fundamentou-o, afBr- 
ma-se, com uma phrase sonora, mas perigosa, 
que, n'e6te assumpto defficil e ainda obscuro, 
se tomou celebre; disse, que justamente se ti- 
rava o que injustamente se concedia. ^ 

A estas providencias d'um caracter genérico 
juntou Diniz outras mais especiaes; mas que ti- 
veram também mui benéficos effeitos, para o 
resultado geral, n^este ponto, da sua adminis- 
tração. 

Seguindo o exemplo que lhe haviam deixado 
seu pae e o primeiro e o segundo Sancho, fez 
directamente amanhar extensas fazendas dos do- 
mínios da coroa, onde se seguiam os melhores 
systemas de cultura, e que serviam de norma 
e escola aos lavradores particulares; honrava-se 
de possuir, nas herdades do Alemtejo, manadas 
e rebanhos numerosos e bem creados. 

Perto de Leiria, mandou enchugar o paul de 
Uhnar; foi um frade d'Alcobaça, Fr. Martinho^ 
que dirigiu os trabalhos, abrindo as vaUas d'en- 
chugo; — as terras, quando preparadas, distri- 
buiram-se a colonos. O mesmo fez com os pues 
de Salvaterra de Magos e de Muge, impondo 
aos foreiros, entre outras condições o terem 
concluído o arroteamento em quatro annos, e 
pagarem ao rei, alem do quarto ou quinto 
dos fructos, sessenta e quatro alqueires de trigo 
para a conservação das abertas e pontes de ma- 
deira. 

Prevendo a possibilidade, n'um futuro mais ou 
menos remoto, das collinas d^areia, que se le- 
vantam ao longo das costas do oceano, perto 
de Ijeiría, lançarem, removidas pelo vento do 
i9ar, continuas chuvas de seu árido pó sobre as 
férteis planices que rodeiam a cidade e as tor- 
narem estéreis, ~- Diniz pensou e conseguiu fixar 
o solo movediço d'aquellas elevações ameaça- 
doras, cobrindo-as de pinheiraes, que, dando, 
desde logo, o resultado desejado, servissem mais 
tarde para fornecer de boas madeiras nacionaes 
as construcções terrestres e marítimas. 

Foi n'e6te duplo intuito que plantou o celebre 
pinheiral de Leiria, uma das maiores riquezas 
que legou aos vindouros, pela abundância e ex- 
cellencia dos seus productos. Afirma a tradição, 

i Mon. Ims, P. 5. L. 16. c. 34. 



que o pinisco para as primeiras sementeiras, o 
mandou el-rei vir de França, e é facto que os 
cerneiros, depois de inteiramente descascados 
de alburno, igualam o pau do norte e são aptos 
para toda a edificação. 

Nas margens do Tejo, onze léguas acima de 
Lisboa e a três de Santarém, estendem- se os 
campos denominados de Vallada, d'uma ferte- 
lldade excepcional. Quando Afifonso Henriques 
conquistou a primeira das duas cidades, orde* 
nou que a camará e concelho lisbooenses o di- 
vidissem todos os annos aos moradores de seu 
termo que não tivessem propriedades, no in- 
tento de os arrancar da miséria, e de attrahir, 
com a certeza doeste auxilio, habitantes para 
Lisboa. Era uma excepç&o louvável pelo duplo 
fim humanitário e civilisador a que visava. Pro- 
cedia-se, annualmente, ã organisaçâo da lista 
dos pobres, e dava-se a cada um sua parcella de 
terreno para cultivar. 

Os nobres e poderosos porem, nas suas con* 
tinuas extorsões, apoderaram-se de part^ do 
fértil chão, tendo a vereação da cidade de re- 
clamar contra elles perante Sancho i. Por carta 
d*este monarcha, datada de 7 de dezembro 
de 1180, foram os usurpadores obrigados a 
retirarem-se, e manteve-se em toda a sua pu- 
reza a piedosa instituição. Em abril de 12^8, 
tornou-se necessário igual decreto de Afionso 
II, que, mais brando, permittiu a posse inde- 
vida, que uma parenta sua, D. Constança, se 
arrogara de certa porção de terreno. Mas, como 
as auctoridades municipaes de Lisboa estavam 
longe e residiam perto os cubiçosos, estes^ pror 
seguiram nas suas violências e extorsões contra 
os indigentes, e em tempo de D. Diniz houve 
do conselho da cidade nova reclamação. 

A 6 de março de 1284, na villa de Santarém^ 
o soberano confirmou a Lisboa a concessão de 
seus avós, e os pobres da capital recuperaram 
o perdido campo. 

Posto haver em muitos concelhos do reino, 
como relatámos, instituições análogas, exis- 
tentes algumas ainda hoje, esta resolução de 
Diniz foi muito estimada pelo povo de Lisboa, 
e com louvor especial a mencionam os seus 
panagyristas* 

Vieram porem os nobres mais tarde a conser 
guir o seu damnoso intento, e por tal arte, qu.49, 



132 



Histoiia dd Portugal 



já no século xvii, estava de todo esquecida a 
instituição em Vailada d*Âffonso Henriques. 

Algumas leis do conde de Bolonha, e especial- 
mente os foraes, tanlo seus como de D. Diniz, 
deram à agricultura toda a protecç&o possível 
para o tempo:— concediam aos lavradores im- 
portantes privilégios; — impunham rigorosas pe- 
nas pecuniárias e corporaes contra os violadores 
das propriedades rústicas e os incendiários; — 
prescreviam e premiavam a perseguição aos ani- 
mães ferozes e damninhos. 

Nos ediflcios de D. Isabel, junto ao convento 
de Santa Ciara de Coimbra, récolhiam-se e edu- 
cavam-se as orfãas, 61bas de agricultores, e eram 
depois desposadas com mancebos campesinos, 
aos quaes, a rainha distribuía, aforava ou ar- 
rendava terras dos seus domínios, para n'ellas 
se estabelecerem e as cultivarem. 

D. Diniz, no intuito de atlrahir as classes ele- 
vadas aos trabalhos ruraes, procurou enobre- 
cei-os, decretando que os fidalgos nJLo perderiam 
a nobreza, nem as honras por serem lavradores. 
G, nas suas constantes digressões pelo reino, 
tratava, directamente e com a maior afifabilidade, 
a gente do campo; visitava, para a animar elison- 
gear, as suas propriedades; defendia-a contra os 
poderosos, e protegia-a nas suas pequenas pre- 
tensões, quando exequíveis e justas. 

Por todas estas providencias e modo dií^ve- 
lado de proceder, é que Diniz grangeou os hon- 
rosos tilulos de rei lavradoí* e pae da pátria, — 
e a agricultura portugueza, no século xiv, se le- 
vantou à maior prosperidade. Apezar de consti- 
tuir o principal objecto tributável, vergando por 
isso sob impostos de toda a espécie, chegou 
esta industria, em muitos pontos do reino, ao 
maior desenvolvimento, tanto na largueza e boa 
disposição das officínas ruraes, como no esmero 
das hortas, pomares ajardinados, ena variedade 
e exceliencia das vinhas, hortaliças e fructas; 
— tornou-se sobretudo notável pela abundância 
de cereaes, que não só satisfaziam â população 
do reino, mas que sobejavam a(6 para larga 
exportação. 

É que a nação jovcn, robusta, tomada d'en- 
thusiasmo e tendo á sua frente governantes no- 
táveis pela sua sagacidade e patriotismo, com o 
ardor, com que havia combatido os árabes e os 
vencera, laborava agora o solo, e conseguia 



arrancar das suas fecundas entranhas a riqueia 
e a felicidade. ^ 

Da industria, hoje, por alguns econonàistas 
denominada exlracliva^ isto é, que tira directa- 
mente da terra productos e utilidade, não fui 5ó 
a agricultura que mereceu disvelos a D. Diniz, 
a descoberta e exploração das minas tanobem 
atlrabiram a attenção do seu activíssimo espinto. 

Consideraram-se, por muito tempo, como exa- 
gerados, senão fabulosos, os encarecimentos da 
antiguidade e da idade media sobre a riqueza 
mineria da peninsula hespanica e nomeadamente 
de Portugal; as descobertas porem modernas, no 
nosso paiz, de jazigos opulentos, principalmente 
de cobre, ferro e carvão, são tão numerosas e 
continuadas, que, pelo menos n^aquellas espé- 
cies, justificam, ou antes excedem as vagas afir- 
mativas dos velhos escrlptores. 

Mas os poucos documentos conhecidos, sobre 
o assumpto, são, geralmente, disposições gover- 
nativas, das quaes, só por inducção, podemos 
inferir do estado da inductria. 

Por uma provisão de 12 de dezembro de 
1282, logo nos primeiros annos do seu escla- 
recido reinado, Diniz concedeu a Sancho Pires 
e companheiros que buscassem c exploras- 
sem, em Portugal e no Algarve, todas as minas 
de ferro e azougue de que tivessem noticia, pa- 
gando os direitos costumados. Indica esta pbrase 
que o lavor mineiro já era, anteriormente, co- 
nhecido no reino, estando sujeito a contribuição 
determinada e Ião sabida, que parecia ao legisla- 
dor prolixidade o repetil-a. 

Bffecti vãmente, desde o reinado de Sancho i, 
nas bordas do Tojo, principalmente entre Al- 
mada e Cezimbra, no sitio denominado da Adiça, 
extrahia-se ouro d'entre as áreas. Esta industria 
continuou até ao tempo d'el-rei D. Manuel, sendo 
prohibida nos últimos annos do seu reinado, já 

1 Sobre a agricultura portugueza n^esta epocha 
veja-se: — a Nota publicada por Jos<^ Maria Dantas 
Pereira, no fim da Memoria sobre o ro$umo da Geo- 
graphia politica de Portugal, escripto por mr. Bory 
de Saint Vinceut, no vol. x das Memorias da Aca- 
demia Real das Sciencias, pag. 262 e seguintes. — 
L. A. Rebeilo da Silva, Memoria sobre a população 
e agricultura de Portugal, pag. 104 e seg. — Mon. 
Lus, P. 5 e 6. — Map. brev. da Lusit. Ant, Tab. 4.* 
n.' 3, pag. 246. — Panorama» vol. iv, pag. 355. 



Historia de Pwtugal 



138 



para evíUr os iacoaveDíentes de removimentos 
nas margens; jà porque o ouro, proTeniente das 
novas descobertas e conquistas, foi em tal quan- 
tidade, nos primeiros tempos, que obscureceu o 
prodacto humilde, posto que mais seguro, de 
lodo o trabalho nacional. 

Mas 6 indubitável que as minas da Adiça attín- 
giram desenvolvimento, notável para o tempo, 
sendo do precioso metal o maior repositório do 
reino. Em 1290, deu D. Diniz privilegio aos que 
d'ellas exirahiam o ouro; n'este serviço, durante 
séculos, occupavam-se commumente mais de 
vinte pessoas; e tinham tal importância os seus 
trabalhos que eram chamados adiceiros os ou- 
tros indivíduos que se dedicavam a igual mis- 
ter, em diversos pontos do Ríba-Tojo. 

Âlead das minas de ferro, aiogue e ouro, ha- 
via já conhecidas, no tempo de D. Diniz, muitas 
outras de prata, chumbo, cobre, estenho, enxo- 
fre, areviche e pedra ume. D'este ultimo gé- 
nero, mandou D. Diniz procural-as, em 1301, a 
Pêro Martins, colaço da rainha D. Isabel, a Este- 
vfto Domingues, Gonçalo Pires e outros. 

Faliam também os escriptores nacionaes an« 
tigos, — Ã parte as fantesias de Pr. Bernardo de 
Brito, — de minas de turquesas e outras pedras 
preciosas; mas sfto dizeres vagos, cuja veracidade 
nâo está comprovada; — o que podemos ter como 
certo é que, alem das de ouro e prata de que se 
exgotaram ou quasi desapareceram os jazigos, 
e excepto as de maoganez que s&o de moderna 
descoberta, havia minas conhecidas de todos os 
vários géneros de que as possuímos hoje, — e é 
igualmente avíriguado, que mereceram a atten- 
ção do governo de D. Diniz, e muitas d^ellas 
prosperaram no seu tempo. 

No reinado seguinte, ao contrario, Affonso iv, 
descurando em parte a administração do reino, 
c deixando decahir alguns dos principaes ele- 
mentos de riqueza, abandonou de todo a lavra 
de muitas minas, e concedeu a das outras à in- 
dustria particular, — então em demasia débil; — 
foram concessionários Affonso Peres, mercador 
do Porto, e o estrangeiro Beroal Fucara, e seus 
successorcâ, com o preceito de as explorarem, 
pagando â coroa a quinta parte da produrção. ^ 

1 Mon, Lm, F. 5, iiv. t6, c. 30.— M. Pinheiro 
Chagas, H*st. de Port. vol. i.*" pag. 145. 



Desenvolveram-se, largamente, n*esta epocba, 
mas não poderam attingir a prosperidade da agri- 
cultura, as artes, os ofiBcioâ e o commercio. Os 
individues que se dedicavam a estas profissões 
começavam, dentro dos municípios, a conetituir- 
se em grémios c irmandades, em geral, profunda- 
mente inscientes e sujeitos a toda a regulamen- 
tação do tempo. As artes quasi que não existiam 
ainda, e as industrias mais perfeitas e os prin- 
cipaes ramos do commercio erdm, principal- 
mente, exercidos pelos judeus e mcuros, dos 
quaes havia graode numero no p-iiz. 

Os hebreus eram intelligentes, laboriosos e 
ricos; alguns dedicavam-se também às scien- 
cias governativas e á medicina. 

Posto ser ardente e profundo o espirito reli- 
gioso dos christãos, era grande a tolerância e 
a liberdade de cultos em que vivia a raça he- 
braica. 

A primitiva dureza das leis dos godos havia 
sido suavisada pelos reis de Leão, sobre todo 
por Affonso vi, que permittira aos judeus en- 
trarem com os christãos na vida social. D'este 
grande facto proveio a multiplicidade e opulên- 
cia dos sectários de Moisés, em toda a Hespanha. 
Seguindo o benéfico exemplo, e reconhecendo 
a utilidade de aproveitar esta raça laboriosa é 
pertinaz na povoução e adiantamento d'um paiz 
que começava,— os primeiros reis portuguezes 
trataram com toda a benevolência os judeus, e 
não só lhes permittiram o culto da sua religião 
e a acção da actividade particular, mas con- 
fiaram-lhes importantes cargos na governação 
publica, sobre tudo de cobrança dimpostos e 
administração da fazenda. Estes officios fiscaes 
e os seus contractos dè usura, levados, fre- 
quentes ve^s, até á desbumanidade e â dureza, 
os tomaram, no futuro, geralmente odiados. 
Foi esta animadversão, em grande parte, pro- 
movida pelo clero, o qual, já n'esta época, 
chegou a queixar-se na cúria do favor que os 
soberanos lhes dispensavam. Porem, mais de 
um pontifico os protegeria, concedendo-lhes a li- 
berdade de religião, nomeadamente, pela bulia de 
5 de julho de 1347, em que o sábio Clemente vi, 
prohibiria, sob graves penas, violentar os judeus 
a receber o baptismo, embaraçar a celebração 
das suas festas religiosas, invadir-lbcs os cemi- 
térios e lançar-lhes tributos excepcionaos. 



a34 



Historia de Portugal 



Nào era porem, no tempo de D. Diniz, desca- 
rada a coQvers&o dos hebreus; empregavam-se 
para a obter os meios mais suaves e persuasivos. 
Em dias determinados, chamavamnos, com os 
mouros, ao adro da egreja matriz da localidade, e 
um ecclesiastico catholico, em púlpito levantado 
fora do templo, explicava-lbes a religião cbristã, 
procurando convencel-os; estas predicas faziam- 
çe também, por vezes, nas próprias synagogas. Se 
algum hebreu ou sarraceno se convertia ao chris- 
tianismo, era por todos tratado com grande res- 
peito e estima; sendo punido com a multa de 
sessenta soldos quem o iasullasse; o conver- 
tido tinha logo o direito de receber dos pães 
e avós a sua legitima, e entrava na sociedade 
dos naclcnaes, sem dlfTerença alguma, e sem a 
pérfida denominação que, século depois, se usou 
de christãos. novos. 

Em quanto porem professavam a sua primitiva 
fé, viviam os hebreus, por determinação legal, 
com authoridades especiaes da sua raça, que 
tinham sobre elles jurisdicção cível e crime, até 
mesmo nos pleitos em que os christãos eram 
aulhores. O seu primeiro magistrado era o av" 
rabi-môr de Lisboa, com entrada no paço real, 
confirmando nos diplomas régios, e servindo 
no impedimento dos ministros da coroa: — no 
tempo de D. Diniz, o hebreu Judas, arrabi^ 
mói\ foi um dos mais privados ministros do rei. 
Tinham em cada comarca, como immedíatos 
áqucUe dignatario, ouvidores que julgavam em 
to()a a alçada, e dos quaes só havia appellação 
para os tribunaes christãos, nos processos cri- 
mes de penas maiores. 

Habitava no Porto o ouvidor que governava 
os hebreus de Entre Douro e Minho; na Torre 
de Moncorvo o de Traz-os-Montos; os das Beiras 
d*aquem e d^alem da Serra da Estrella, em Vi- 
xi'U c Couvilhã; o da Extremadura em Santarém; 
cm Évora o do Alemtejo; e do Algarve em Faro. 

Em cada villa ou cidade, havia um arrahi 
unauai, espécie de juiz de primeira instancia, 
com seus procuradores, tabelliães e ofiQciaes, e 
que administrava a justiça, presidia aos contra* 
cios e mantinha a policia, na judiaria, com' 
muna ou synagoga; — assim se denominava o 
ajuntamento de mais de dez indivíduos da raça 
judaica, que, habitando n uma terra, eram coagi- 
dos a .fixarem a residência em bairro especial. 



Admínistrava-se este por ordeuaçtes e regu- 
lamentos particulares, e fecbava-seã ooiie guar- 
dado por sentinellas. 

Por determinação de Innocencio lu» eram os 
hebreus obrigados a trazer no fato divisas e si- 
gnaes, para se dilTerençarem da população cbris- 
tã. Em Portugal porem, parece que só em tempo 
d^Afionso IV começou esse preceito a ter rigo- 
rosa exec4ição. Foi D. Diniz censurado Da sé 
apostólica por não cumprir o decreto pontifício; 
mas repugnava, por certo, á sua tolerância e 
intuitos civiiisadores essa distincção odiosa, que, 
mais tarde, tantos dissabores e malquerenças 
suscitou. 

A benevolência dos poderes públicos não a 
alcançavam porem, gratuitamente, os judeus. 
Pagavam pezadissimos impostos em dinheiro, 
fructos, c trabalho pessoal; e, quando as neces- 
sidades publicas o exigiam, o rei pedia á com- 
muna hebraica sommas determinadas, que ella 
satisfazia por meio de derrama. D. Diniz em 
nada alterou o estabelecido pelos seus anteces- 
sores, e continuou a cobrar os antigos tributos. 

D. Affonso IV substituiu porem os pedidos, ou 
serviços especiaes peia prestação annual de cin- 
coenta libras, alem dos tributos ordinários. ^ 

Juridicamente, os mouros tinham existência 
mui similhante â dos judeus; ás yezes, as leis 
eram feitas para uma e outra raça, e o direito 
canónico tratava diambas n'um só titulo, sob a 
epigraphe de Judeisel Sarracenis. Socialmente, 
porem, os mouros tinham em Portugal muito 
menos influencia do que os hebreus, por que 
eram mais pobres, menos instruídos, menos la- 
boriosos do que elles, e principalmente, por que 
pertenciam a uma nação inimiga, vencida e 
odiada. 

Quando Affonso Henriques estendeu a sua 
conquista a toda a Extremadura, apoderan- 
do-se de Lisboa e outras povoações importan- 
tes, viu que expulsar d'ellas os mouros, que não 
se applicavam ao mister das armas, e viviam 
de laborar os campos e fabricar os objectos mais 
necesparios á vida, — seria despovoar inteira- 

* Mon, Lm. P. 6 1. 18 c. 4. e 5. — J. J. Ferreira 
Gordo, Memoria sobre os judeus em Portugal^ no vol. 
8 da Hist, e Mem, da Acad. P. 2.— M. A. Coelho da 
Roeha, Ensaio sobre a hist. do gocemo e da legisla- 
rão em Portugal, 5.' Epocha. §g il7 a 119. 



Historia dó Portugal 



135 



mente essas terras, e privar-se de numerosos 
braços entregues ao trabalho material produ- 
ctivo; — portanto permettíu-lhes que ficassem, e, 
para lhes captivar pela benevolência o animo, 
confirmou-lbes os direitos civis que exerciam, 
sob o domínio dos princepes árabes. Esta cour 
cessão decretou-a, primeiro, Afifonso Henriques 
a favor dos mouros forros de Lisboa, Almada, Pal- 
mella e Alcácer; ampliou-se depois aos de todo o 
paiz, e áquelles que, sendo captivos na guerra, 
alcançavam mais tarde a remissão. 

Era esta legislação do principio da monarchia, 
que, com pequenas alterações, vigorava, no tempo 
de D. Diniz. — Não seria este príncipe esclarecido 
que a restringiria; regulamentou-a n'alguns pon- 
tos, aperfeiçoando-a, e manteve-a, com firmeza, 
em todas as disposições favoráveis aos mussul- 
manos. 

Viviam 08 mouros, como os hebreus, em bair- 
ros separados, que, excepto em Lisboa, eram 
fora dos muros dos logares; em parte, assim o 
exigiam os trabalhos agrícolas a que se dedicavam 
muitos dos sarracenos. Governava- se a mou- 
raria por um alcaide electivo, que, com tabelliães 
e ofSciaes, administrava a justiça entre os seus 
sectários. Celebravam estes, particular c publi- 
camente, as suas festas, cooforme o Alcorão; e 
trajavam os seus fatos mouriscos. 

Pagavam aos reis portuguezez os mesmos im- 
postos que antes satisfaziam aos monarchas mus- 
sulmanos. Davam, no l.^dejaneiro, o tributo de 
cabeça, isto é, seis dinheiros de moeda antiga 
por cada criança que nascia; e todo o individuo, 
logo que chegava á idade de poder grangear a 
vida, era obrigado a satisfazer ao fisco vinte 
soldos. Pagavam os mouros não só a dízima, 
mas a quarentena dos rendimentos e fructos per- 
cebidos. Pela legislação árabe, o estado succedia, 
em determinados e frequentes casos, na totali- 
dade ou em parte dos bens dos fallecidos; esse 
direito passou também para os reis portugueses. 
Resultavam de todos estes tributos avultadas ren- 
das para a coroa: — razão principal da tolerância 
dos governos, com a raça proscripta de Hafoma. ^ 

Hebreus e mouros concorriam pois, com os 
cbristãos, nos trabalhos productivos. 

1 M(M. ÍMs. P. 6, L 18, c. 51.--C. daRocha Bi$i. 



A industria e do commercio haviam começado 
a avigorar-se no anterior reinado. Progrediram, 
sem cessar, no longo governo de D. Diniz, mas len- 
tamente. Era profunda a ignorância dos conheci- 
mentos especíaes, necessários ao seu desenvol- 
vimento; — as classes previlegiadasopprimiam e 
vechavam em regra os homens de trabalho; — a va- 
riedade da legislação de logar para logar, — os di- 
reitos de portagem e 08 pezadissimos impostos de 
toda a espécie oneravam e dificultavam a vida do 
povo; — as communicações internas do paiz eram 
péssimas; — e os terremotos, as fomes e as pes- 
tes dizimavam, frequentemente, as populações. 

Apezar doestes grandes obstáculos, sentia-^e, 
porém, crescer em tudo a vida cívilisadora da 
nação. 

O desenho, a pintura e a escultura conserva- 
vam-se ainda n'um estado quasí bárbaro, mas a 
architectura, tanto militar, como religiosa e civil, 
pricipiava a entrar, — provam-no as numerosas 
edificações de todo o género de D. Diniz, — no 
espirito nacional, qual manifestação necessária 
aos sentimentos grandiosos do povo; e desenvol- 
ver-se-hia, por tal forma, e com ella todas aquel- 
las artes correlativas, que, um século depois, o 
mundo viria surgir a egreja primorosa de Sapta 
Maria da Victoria da Batalha, para pasmo e enlevo 
das futuras gerações. 

No Hinho, fabricava-se muito bom panno de 
linho: e em todo o paiz trabalhava-se, com es- 
mero, sobre os couros e as pelles de differentes 
animaes. Serviam para forrar as paredes das 
mais ricas sallas, para cobertura de bons mo- 
veis, para arreios dos cavallos e até para certas 
peças de vestuário, sendo algumas ricamente 
bordadas e luxuosas. 

Os estofos perfeitos de lã e seda vinham porem, 
todos ou quasi todos, do estrangeiro, principal^ 
mente de Inglaterra, Flandres e França. 

Em 1253, AfTonso lu, ouvida a cúria de pre- 
lados, ricos homens e procuradores do povo-, 
taxara, por uma extensa carta regia, o preço 
de todos 08 objectos commerciaveis nas pro- 
vmcias do norte do reino; por este importante 
documento, vô-se que a sociedade portugueza 
jã então não estava t|ío atrazada, como aliás se 
poderia suppor. ^ 

t 1. P. Ribeiro, IHu^t. Ckron. T. 3 P« 2/ a|i. 31. 



136 



Historia de Portugal 



N'esto reinado, porem, com a paz c o lM)m 
governo, tudo se desenvolveu muito mais. Diniz 
aperfeiçoou e generalisou por todo o reino as 
feiras, que foram um dos maiores beneGcios que 
cntâo SC podia prestar â agricultura, á industria 
e ao commercio nacionaes. 

Em Coimbra, Braga, Ponte de Lima e outras 
terras do norte, já muito antes de D. Diniz havia, 
semanal ou mensalmente, mercados que attra- 
hiam de muitas léguas de redor os vendedores e 
08 compradores; mas foi este soberano que levou 
as feiras periódicas ao seu maior desenvolvi- 
mento. 

Concedeu-as, em 1295, a Leiria, Villa Flor, 
Ceroancelha e Alvito; em 1298, a Ranhados; em 
1302^ a Beja, Houra, Gaia e Santarém; em 1304, 
a Hurça. Deu-as também a Moncorvo, Mongâo, 
Trancozo, Freixo d*Espada á Cinta, Prado, Vou- 
zella, Lamego c a muitas outras povoações. 
A feira de Lamego, uma das maiores do reino, 
durava o mcz de julho e chamava a si commer- 
ciantes de todo o paiz. Esta, como as de algumas 
outras localidades, era franca, isto é, tinha pri- 
vilégios e isenções, outhorgadas pelo rei, maio- 
res do que as outras. 

Uma das franquias doestes mercados excepcio- 
naes é bem conhecida pelo alvará de 2 de novem- 
bro de 1319. N*este diploma, Diniz concedeu 
& Torre de Moncorvo, alem do mercado mensal 
que já tinha, uma feira franca, que principiava 
quinze dias antes da paschoa e durava outros 
quinze depois d*ella: — quem ahi fosse comprar 
ou vender não podia ser penhorado lá, nem nos 
oito dias que precediam á ida, nem nos oito de- 
pois do regresso, a não ser por dividas contrahi- 
das no próprio mercado. Alem d'e8te privilegio, 
havia para as feiras francas a isenção d'alguns 
e até de todos os impostos. 

Eram as feiras, geralmente, presididas por 
um magistrado que velava pela observância dos 
contractos, arrecadava os tributos e mantinha a 
polida e a tranquiilidade. 

As attes, as industrias, a agricultura, o com- 
mercio, a sociabilidade ganhavam immenso, re- 
petimos, com estas congregações de povo, onde 
se expunham os artefactos de toda a espécie, os 
gados e os productos agrícolas de províncias in- 
teiras. As feiras creavam de vez o commercio no 
interior do reino, aproximando os genoros dos 



consumidores, — animavam a producção,~faci- 
litavam a circulação do numerário, — estabele- 
ciam entre as diversas povoações do paiz vincn- 
los estreitos de interesses de toda a ordem, de 
sociabilidade e affecto, — melhoravam em todos 
os sentidos as condicçõesda vidados individues, 
dos municípios e da nação; — serviam ató estes 
ajuntamentos populares, para desenvolver o gosio 
da musica e da poesia, e tornarem mais expan- 
sivo e alegre o caracter portuguez. ^ 

Mas não foi só o traGco mercantil interno que 
mereceu a attenção de D. Diniz, o seu génio in- 
fatigável prestou, igualmente, disvelada aitenção 
ao commercio externo. 

Quando este príncipe succedeu na coroa, já o 
encontrou, devemos dizel-o, com certo desenvol- 
vimento. 

Desde os primeiros tempos da monarchia, que 
visitavam os nossos portos os navegadores do 
norte. Numerosas frotas de guerreiros, que o en- 
thnsiasmo das cruzadas impellia para a Pales- 
tina, tinham-nos, por vezes, ajudado a expulsar 
os árabes; e muitos dos soldados estrangeiros, 
attrahidos pelo bom acolhimento dos porlugue- 
zes, haviam JScado na península, e estabelecido 
entre nós, numerosas colónias. 

Estes factos, repetidos a miúdo, durante um 
século inteiro, originaram relações continuas e 
variadas, entre os portos principaes de Portugal e 
as praças marítimas de Byscaia, Catalunha, Bre- 
tanha, Inglaterra e Flandres, e trouxeram, pelos 
fins do século xiii, um commercio activo, resul- 
tante da troca dos productos nacionaes com as 
mercadorias d^esses diversos paizes. Recebiamos 
os seus numerosos artefactos, e exportávamos 
cereaes, yinhos, fructas e sobre tudo sal, de 
que possuíamos abundantes marinhas. Instigados 
pelo desejo do ganho e d*aventura, os navios 
da policiada Itália, principalmente venezianos 
e genovezes, vieram também commerciar nos 
nossos portos; muitos mercadores de todas es- 
tas nações estrangeiras fixaram a sua residên- 
cia em Portugal, sobre tudo em Faro, Setúbal, 
Porto e mui especialmente em Lisboa. Residiam 
aqui, no século xiv, milhares d'elles; no Tejo 

1 Santa Rosa de Viterbo, Elucidário, yerb. Feira, 
-^L. A. Rebello da Silva, Mem. 9oln*ê a pap. # aar, 
de Port. pag. 115. 



Wstotíá de PoHogal 



137 



estavam commtimente snrtas centenares (('em- 
barcações e esta praça portugneza tomara-se das 
mais acreditadas da Europa. Tão grande prospe- 
ridade obteve-se porem, como era natural, a 
pouco e pouco. 

Foi pelos últimos annos do reinado d^Affonso iii 
eprimciroa de D. Diniz, que o commercio nacional 
externo, começou a tomar verdadeiro incremento, 
já pelo animador exemplo que recebia, ao contacto 
dos commerciantes e navegadores estrangeífos, já 
pelo augmento que haviam tido as forças produ- 
ctivas do paiz, já, finalmente, por que os portu- 
guezes, libertos da guerra com os mussulmanos, 
tratavam , por todos os modos, de empregar a acti- 
vidade, procurando enriquecer e desenvolver-se. 

È o commercio, em todos os tempos, effeito e 
incentivo da iniciativa individual. Provaram-n'o 
também então os mercadores do reino. Elles pró- 
prios, de commum accordo, se organisaram e re- 
gulamentaram. 

Estabeleceram que todos os navios de cem ou 
mais tonelladas, portuguezes ou estrangeiros, que 
transportassem fazendas de Portugal para Flan- 
dres, Inglaterra, Normandia, Bretanha e Arrochei- 
la, pagariam vinte soldos destiliis, e dez as barcas 
d'inferior lotação; e ó mesmo dariam os navios dos 
mercadores da terra, fretados para alem mar, Se- 
vilha, ou para qualquer dos logares sobreditos. 
D'esta8 quantias cem marcos de prata, ou a valia 
d'elles, depositariam os mercadores em Flandres, 
o resto ficaria na praça e portugueza que lhes 
áprovesse. 

Estes depósitos eonstituiam uma reserva, 
com a qual poderia o commerciante manter a 
justiça dos seus direitos e promover o que 
fosse em beneficio geral do commercio. Era uma 
iDstitui^o útil e importante^ espécie de bolsa ou 
caixa de assisteticia mutua, que prova o largo 
alcance a que o povo, nos fins do século xm, 
levara o fecundo principio da associação. 

Pediram os negociantes a confirmação regia 
do sett regulamento a D. Diniz, e este Ih 'a con- 
cedeu por carta, datada de 10 de maio de 1293. * 

, 1 Não transcrevemos aqui este documento, posto 
ser importante, por se achar inserido em publicações 
modernas; veja-se a traducçâo portugueza da Historia 
de P<ningál, de Schoeffer, vol. n, n . s. pag. xv e o Pa- 
Horafiía, vol. m, pag. 234. Vem também na Diaert. 
Chron, de J. P. Ribeiro, T. 3.« P. í. app. 21, pag. 59. 

U VOL. — 18, 



Esta organisaçâo, que, como 6 sabido, — foi 
depois ampliada nos seus fins e aperfeiçoada 
em tempo de D. Fernando, — esteadia-se, se- 
gundo a letra do indicado diploma, a todo o 
reino; parece porem que, na cidade do Porto, se 
desenvolveu desde logo, ou se formou outra aná- 
loga, quando n'aquelia praça o commercio co- 
meçou a tomar sensível incremento. 

Um talentoso investigador moderno encontrou, 
no cartório da camará municipal da cidade, boje 
com heróico fundamento denominada invicta, 
numerosos documentos, que diziam respeito á sua 
antiga bolsa commercial. Por dois que deu á es- 
tampa, carta regia de D. João í e accordão de 
24 de janeiro de 1402, ein que o sbnado por- 
tuense restabeleceu aquella instituição, aban- 
donada durante as perturbações do reinado 
de D. Fernando, Vé-se que ella datava dos pri- 
meiros séculos da dionharchia. Consistia, prin- 
cipalmente, na existência d'um fundo social, 
creado por um imposto ||inçado sobre a impor- 
tação e a exportação, pago por todo o commercio 
da cidade e destinado a soôcorrer os negociantes 
que cabiam na miséria e a salvar da ruina os 
que uma infelicidade imprevista ferira, em lici- 
tas e regulares especulações. Não eram conce- 
didos os soccorros, sem que o tribunal, ou junta 
directora da bolsa, apreciasse a causa que mo- 
tivara a necessidade, e reconhecesse a lisura e 
probidade do soccorrido. * 

Quer se tome a bolsa antiga do Porto, como 
ramificação aperfeiçoada dó regulamento, feito 
pelos mercadores do reino e confirmado pela 
carta regia de 10 de maio dé 1293; quer se 
julgem as duas instituições como análogas, por 
que o são, mas de diversa origem e de dife- 
rentes datas, posto que aproximadas, como de 
certo o são também; — o que podemos ter por 
evidente é que a classe commercial, que taes 
provas dava de confraternidade, economia e 
previdência, attingira um grau tão elevado de 
progresso moral, de largueza de vistas e de 
transações commerciaes, que nos deve mara- 
vilhar encontrarmos, n'aquelles séculos rudes da 
sociedade portugueza. 

t Yeja-se o erudito e distincto romancista, o sr. 
Arnaldo Gama, no seu bello romance A ultima dama 
de S. Nicolau^ cap. xi e nota respectiva. ' 



138 



Historia de Portugal 



Mas Da historia das nossaa relações diplomá- 
ticas ha provas mais patentes ainda doesta as- 
serção. 

Em janeiro de ,1290, Fifippe, o formoso, 
aqueile mesmo soberano que tão zeloso vimos 
das prerogativas da coroa, copceden aos merca- 
dores portugueses, residentes em Harfleur, na 
Normandia, os seguintes privilégios: 

Isentou-os das multas ao preboste e d'outros 
tributos. — Determinou que no caso de rixa, en- 
tre elles e os francezes, não havendo mutilação 
e não se dando rapto, quebramento de tréguas, 
roubo e outros crimes sugeitos a pena corporal, 
poderiam uns portuguezes ser fiadores dos ou- 
tros; — não havendo ferimentos, ou derrama- 
mento de sangue, cujo conhecimento era por 
direito da exclusiva competência das justiças 
da terra, poderia o processo ser decidido por 
árbitros, dois mercadores do logar e dois por- 
tnguezeS) presididos pelo preboste. — Este pro- 
curaria aos nossos commerciantes casas onde se 
alojassem e arrecadassem suas fazendas.— Nos 
pleitos concernentes a estas ou à fazenda real não 
seriam os portnguezes obrigados a responder ante 
as justiças da terra. — O bailio promoveria- Ihes- 
hia o pagamento dos seus créditos, como se per- 
tencessem à coroa.— Exceptuando taverneiros, 
estalajadeiros e mercadores, podiam livremente 
nomear e demittir os seus corretores. — Faculta- 
va-lhes servirem-se dos pezos da cidade, se os 
confiassem a homem probo, approvado pelo pre- 
boste. — Poderiam demandar, perante todos os 
tribunaes francezes, as pessoas que Ibes subtra- 
hissem fazendas, tendo sido por elles encarrega- 
dos de as transportar.— Os pleitos, provenientes 
de negócios, com qualquer cavalleiro, escudeiro 
ou seus familiares seriam julgados pelo preboste 
de HarOeur, visconde de Montivilliers e bailio de 
Cau^.— O cães da cidade foi,— note- se bem, — 
concertado e empedrado de novo, para que os 
nossos negociantes podessem desembarcar as 
suas mercadorias, sem que fossem obrigados a 
pagar cousa alguma para as obras. — Os géne- 
ros entregues em Portugal, por conta, aos mes- 
tres das embarcações para os transportarem a 
Harfleur, seriam ahi armazenados, até á sua 
venda, á custa dos mercadores, mas sob a vigi- 
lância e guarda do preboste.— Caixeih) ou criado 
de negociante português que sQbtrahjsse ao amo 



fazendas, estaria preso até dar conta do furto.— 
Se algum dos nossos commettesse crime, a puni- 
ção, quer penal, quer civil, só attingiria o ddin- 
quente.— Ninguém, ainda que fosse cavalleiro, 
tomaria aos commerciantes portuguezes fazendas, 
sem previamente as ajustar e pagar. — Bmfim, os 
mercadores de Portugal e seus servidores ficavam 
sob a protecção do rei de França, amparados 
contra todas as violências; — e, em quanto ha- 
bitassem em Harfleur, gozariam doestes privi- 
légios. ^ 

Harfleur, que é hoje uma cidade insignifi- 
cante e obscura na margem direita do Sena, a 
dois kilometros do mar, foi na idade média uma 
povoação forte e importante pelo seu grande 
trafico mercantil. As areias, obstruindo-lhe e ar- 
ruinando-lhe quasi inteiramente o ancoradouro, 
obrigaram os francezes a edificar a pequena dis- 
tancia a pittoresca cidade e o vasto ancoradouro 
do Havre, cuja vida marítima seria prolixidade 
encarecer. Harfleur foi pois a precursora do pri- 
meiro porto septentríooal da França. 

No século XIII, devia ahi haver muitos estran* 
geiros. 

A concessão porem de tantas e tão valiosas 
isenções, outhorgadas por um monarcha como 
Filippe, o formoso^ prova o grande numero de 
portuguezes que lá existia, o bom conceito em 
que estavam e sobre tudo a importância que, 
n'essas paragens, já tinha o nosso oommercio. 

Não era porem só na França que encontrá- 
vamos favor; a Inglaterra reconheceu, ainda 
mais cedo, a conveniência de manter relações 
politicas e commerciaes com este povo, esta- 
belecido ao longo do oceano, na parte mais 
Occidental da Europa. 

Logo no reinado d^Afionso Henriques, em 
1151, foi a Inglaterra o bispo de Lisboa, Gil- 
berto, levantar tropas para servirem em Portu- 
gal; e, desde então, estabeleceu-se o principio, 
quasi constantemente seguido pelo governo por- 
tuguez, de procurar, na Grã-Bretanha, allianças 
contra as violências dos nossos visinhos da pe- 
nínsula. Os inglezes ajudarain Sancho i a con- 
quistar Silves. O mesmo monarcha mandou 

1 Recueil dei Ordemumcei det Rou dê Francis 
T. 1 pag. 157.— Visconde de Santarém, Qiiairo 
elêmmUars T. 3. pag. i3< 



Historia de Portugal 



139 



embaixadores a Inglaterra; e o rei Jo&o, sem 
ttrra, que então a goTernava, recommendott por 
carta regia a seus Tassallos que os recebessem, 
com todas as honras e Ibes prestassem auxilio; 
mandou pedir por esposa uma filha de Sancho; 
e, por publico diploma, asseverou ser-lbe mui 
agradável a pas entre as doas nações, e recom- 
mendou-a aos seus delegados e súbditos, mos- 
trando estar disposto a celebrar tratados com 
Portugal. Os ingleses, flamengos e franceses 
ajudaram Âffi)nso ii, em setembro de 1217, a 
desbaratar os mouros e a tomar Alcácer. O 
commerrio entre os dois povos continuou, nos 
reinados seguintes de Sancho ii e Àffonso lu. 
Finalmente, no tempo de D. Diniz, como vamos 
mostrar, as relações diplomáticas amiudaram-se, 
tomando a regularidade possivel para a época, 
e foraia confirmados por um modo authentico 
08 tratados commerciaes, consuetudinários ou 
escriptos, que existiam anteriormente. 

Os negócios internacionaes, durante a idade 
média e ainda depois por muito tempo, trata- 
vam-se por cartas dos respectivos monarchas, 
levadas por embaixadores ou enviados de me- 
nor graduação, que voltavam ao seu paiz, ape- 
nas recebiam a resposta, ou concluíam o objecto 
da sua missão especial. 

Varias mensagens d'esta natureza se troca- 
ram entre D. Diniz e os reis da Inglaterra, 
Duarte i e ii. 

. Referiam-se, principalmente, a mutuas recla- 
mações, originadas por casos de pirataria, então 
mui frequentes, perpetrados pelos súbditos de 
ambas as nações, e algumas vezes também por 
navios castelhanos, que, para mais a salvo exer 
cerem a rapina contra as embarcações d^logla- 
terra, arvoravam bandeira portuguesa. 

O que d'esta correspondência ha conhecido e 
publicado existe na excellente collecção diplo- 
mática de Kymer. ^ 

primeiro documento doeste reinado, que 
ahí se lé, é uma carta de Duarte i, datada de 
15 de julho de 1293, onde se vô que D. Di- 

1 Rymer, FcBdera, conventiofies, litteras et mjw- 
cumipu generis acta publica inter Reges Anglics et 
(Uios quostis imperatores, reges, pontífices vel com- 
munitatess àb ineunte síbcuIo IS."" viz ab anno 1101 
ad nostra usque têmpora hahita atU tractata. 



niz já tinha escripto outras, procurando jus- 
tificar os seus vaásallos das piratarias de que 
08 inglezes se queixavam; a ultima dizia-se 
efiectuada, dentro do próprio porto de Lisboa. 
Não obstante isto, o monarcha inglez mostra 
desejar a paz, e peáe a D. Diniz que persuada 
08 seus súbditos a mantel-a. Para que os con- 
fiictos se resolvessem c a tranquillidade ficasse 
assegurada, enviou o rei dé Portugal, em janeiro 
do anno seguinte, por embaixadores a Ingla- 
terra, João Soeiro e Pedro Martins, cidadãos de 
Lisboa. 

Em 23 d'abríl doesse mesmo anno de 1294, 
publicou Duarte i uma carta, em que se estabe- 
lecia a forma de regular as desavenças entre os 
commerciantes dos dois povos por meio d'arbi- 
tros, que também teriam os poderes para tratar 
da paz; e o rei decretou tréguas, para livre-' 
mente se celebrar o desejado convénio. 

Novos casos de pirataria vieram porem per- 
turbar estas negociações, sendo até D. Diniz 
accusado de ter recebido a decima parte da 
preza da opulenta carregação d'um navio inglez, 
que, tendo arribado a Lagos, fora apprehendido 
por varias embarcações, idas de Lisboa; para 
indemnisação d*este furto concedeu, a 30 de ou- 
tubro de 1295, o rei dlnglaterra carta de corso 
contra os navios portuguezes. Porem, em 17 
de fevereiro de 1297, jã o mesmo soberano ou- 
thorgava salvo-conducto aos mercadores de Por- 
tugal, para poderem, livremente, commerciarnos 
seus estados, até certa data; e fazia-o, — note-se, 
— a requisição de governadores de provincias, 
que aifirmavam resultar d'ahi proveito para o 
seu reino. 

Decorreram alguns annos n'este estado de dú- 
bias relações, quando uma occorrencia offereceu 
ao monarcha de Portugal ensejo de as estreitar 
e regular com mais segura amisade. ' 

Um navio inglez foi aprebendido por corsa-* 
rios, e conduzido ao Tejo; Diniz regeitou as re- 
quisições do rei de Gastella, que exigia a sua 
entrega. dizendo-o de seus vassallos, e reteve-o 
dois annos, até que os seus legitimos proprie- 
tários se apresentassem. Escreveu sobre isto o 
soberano portuguez para Inglaterra; e as suas 
cartas foram recebidas por Duarte n, por que 
Duarte i, seu pae, tinha fallecido. Quando Di- 
niz soube doeste snccesso, mandou por um en- 



140 



Historift, de Port^fiftl 



viado especial cumprimentar o novo monarcha, 
encarecendo-lhe o antigo affecto e lembrando- 
Ifae os tratados que ligavam os dois povos. Duarte 
agradeceu primeiro as cartas dirigidas a seu pae 
e o serviço que á Inglaterra prestara o rei de 
Portugal, retendo o vaso ioglez c repellindo as 
pretensões castelhanas; e, quando recebeu o 
nosso embaixador, escreveu a Diniz a carta 
de 3 de outubro de 1808, diploma que, pela sua 
importância, marca uma época nas relações 
officiaes dos dois povos. 

Accusando a recepção das missivas portugue- 
zas, — que nâo sáo conhecidas, — diz regozijar-se, 
cordialmente, do pacto de união e amisade que 
até alli tinha havido entre os mercadores de 
Portugal e os de Inglaterra, a que Diniz alludia, e 
que deseja que esse tratado seja indissolúvel 
e perpetuo entre elles. Referindo-se aos passados 
conílictos, declara não haver recebido queixa a 
tal respeito de seus vassalios; e termina, afir- 
mando ter concedido aos negociantes portugue- 
zes carta de salvo conducto, permettindo*lhes 
levar a Inglaterra as suas mercadorias e com- 
merciarem alli, como entendessem, ficando ape- 
nas obrigados a respeitarem as leis, os usos e 
os costumes do seu reino. ^ 

Às primitivas relações politicas com a Ingla- 
terra, que nos haviam sido proveitosas para o 
estabelecimento da nacionalidade, vé-se pois 
que haviam succedido continuadas transações 
commerciaes entre os dois paizes, lucrativas 
e necessárias para ambos, que, se por vezes 
as violências dos piratas perturbavam ou inter- 
rompiam, eram logo reatadas por interesses re- 
cíprocos e instantes. 

Não se conhece o tratado a que os diplomas 
citados se. referem; por estes porem é incontro- 
versa a suas^xistencia; talvez nunca tivesse sido 
escripto; mas é certo que recebia vida real e 
cSectiva nas numerosas e importantes relações 
dos dois povos, e que nos seus actos era por 
elles invocado, com frequência. * 
Por maiores que fossem porem as proporções 

1 Rymer, Foidera, cit. T. 3.— Visconde de Santa- 
rém Quadro Elementar^ T. 14. 

2 Propriamente tratado escripto e assignado na 
forma coinraum, talvez não existisse ontro anterior 
ao de 20 d^outubrò dé 1353, celebrado entre Duarte 
Ml, fúa (fra^ 4$' Deus rei d' Inglaterra e de França 



a que as forças internas do paiz podessem ter 
elevado o commercio de exportação, nunca pen- 
deriam ser verdadeiramente grandes, nem alean- 
çar o seu natural desenvolvimento, em quaato 
o mar se achasse infestado, como estava, de pira- 
tas e frotas inimigas. Alem da rapina reciproca, 
exercida* constantemente, com mais ou menoa 
intensidade, pelos navios chrístãos, às vezes de 
accordo com os seus respectivos governos, — os 
mussulmanos de Granada e de toda a Africa, 
principalmente do vasto império de Moghrcb, 
sustentavam sempre poderosas armadas, guer- 
reando as nações christãs, cruel e permanente- 
mente. As costas da península eram seu prin- 
cipal objectivo, tanto pela visinhança, como pelo 
ódio ardente e fanático, originado nas antigas 
lutas; os mouros não só atacavam os navios que 
encontravam no mar, mas operavam também (re- 
quentes desembarques, para saquearem e quei- 
marem as aldeias e villas indefezas do litoral. 

Aos meios de obviar a estes gravíssimos in- 
convenientes, dedicou Diniz disvellada attenção, 
jà fortificando, como vimos, as povoações marí- 
timas, já promovendo a organisação de uma 
esquadra/ poderosa, que se contrapozesse aos 
sarracenos, guardasse as praias de Portugal e 
defendesse da geral pirataria o nosso commercio* 
É perfeitamente vaga, legendaria e ob8cm'a a 
historia da marinha de guerra portugoeza dos 
primeiros tempos da monarchia; comtudaha vis- 
tigios de que, desde o governo de D. Thereza, 
havia embarcações do estado, cujo numero foi 
augmentando de modo que é incontroverso que, 
no tempo de Sancho i, os nossos navios de guerra 
lhe serviram de grande auxilio, na conquista 
do Algarve, principalmente, na tomada de Silves, 
em 21 de julho de 1189, a que assistiram trinta 
e sete embarcações nacionaes d'alto bordo. Pa- 
rece ter sido Sancho que mudou a armada do 
Mondego para o Tejo, e foi elle que concedeu a 
Lisboa o privilegio de que os seus peões só vo- 
luntariamente serviriam nos navios de estado. 
Estas incertas noticias continuam no reinado 

e as genteSj os mercadores^ communidudes ^associa- 
ções^ das cidades maritimas de Lisboa e Porto^ # ou- 
tras do reino e senhorios de P^tugal e Algarve, 
representadas por Affonso Martins, diamado jt{fto, 
como seu mensageiro e procurador peroífttei o^xeíícel' 
lente principe referido* 



Historia; de Portugal 



141 



d'AfiraDso n, em qae a marinha portuguesa to- 
mou parta com os eruaados do norte na expe- 
dição d'Âlcacer; mas tornam-se mais claras e 
positivas no curto governo de Sancho ir. Ha do- 
cumentos conhecidos e publicados que, directa- 
mente^ se referem a este período; tratam da 
organisação naval, tanto no material, como no 
pessoal. Um prova a existência de um corpo re« 
guiar de marinhagem com chefes e privilégios 
especiaes, e mostra a soliicitude do infeliz mo- 
narcba por este importante ramo da força pu- 
blica, ordenando ás auctoridades da cidade de 
Lisboa que protejam os seus marinheiros, decre- 
tando a multa de mil morabitinos contra quem 
03 maltratasse, e declarando, que sobre elles 
só o seu chefe privativo, pretor y e o rei tinham 
jttrísdicção e mando. ^ 

Esta organisaçâo, que, não obstante os bons 
desejos do príncipe, não poude servir a San- 
cho, aproveitou a ÂfTonso hi; empregou os 
navios, com grande vantagem, na guerra do Al- 
garve, fechando a barra de Faro, em 1254; e soc- 
Qorreu com elles em 1266, Affonso, o sábio, de 
Gasteila, auxiliando a expedição a Sevilha, com- 
mandada por D, Dinis, como dissemos, quando 
infante e menino. 

Sabe-se que o bolonhez aperfeiçoou e aug- 
mentou a marinha; é conhecida a sua doação 
d' um prédio ao mestre das naus, João de Miona 
por lhe ter feito um navio alteroso. 

Quando D. Diniz subiu ao throno, jâ encontrou 
pois um certo numero de embarcações de guerra, 
com uma tripulação regular, sob o commando de 
um chefe, denominado almirante. As construc- 
ções faziam-se, geralmente, no Tejo: as tarace- 
na5, espécie d'arsenal de marinha, designado nos 
documentos do tempo por palatium navUjioi^um 
regiSy,eratm situadas na antiga freguezia da Ma- 
gdalena, onde já cm tempo de Sancho ii se fabri- 
cavam navios d'alto bordo; lançavam-se ao mar 
ou encalhavam-se, por um engenho chamado de- 
badoyra$\ os judeus tinham o encargo de dar 
uma ancora e uma amarra para cada nau ou 
galé, que se armava, como constou da inquiri- 
ção a que D. Diniz procedeu sobre o assumpto. ^ 

• 

* J. P. Ribeiro, Dissert Chron. T. 3, P. 2, p. 87. 
-T-A. Herculano, Historia áe Portugal, l. í,*n.?6. 

* Z)t«i<Tl. ÚL—Mon. Im. P. b.l Id. c. 12. 



. O systema de construcção dos opulentos e 
decantados navios da antiguidade, desde 06 
phinicios até aos romanos, havia-«e perdido 
quasi inteiramente, nas trevas espeçaa dos 
primeiros tempos da idade media; porem, ap^ 
nas o entbusiasmo pelas cruzadas impelliu 
as nações christãs para as regiões do oriente, 
numerosas barcos se construíram em todos 
08 portos da Europa, alguns com a capacidade 
necessária para transportarem mil pessoas; o 
commercio marítimo surgiu ao mesmo tempo, 
e a navegação dcsenvolveu-se rapidamente. 
O Mediterrâneo foi o principal scenario d'esta 
grande evolução do progresso humano. O ser 
culo xni é o ultimo período da primeira phase 
da marinha moderna; e os seus navios rodes, 
e imperfeitos representam um grande pro- 
gresso sobre as embarcações medievas ante- 
riores. 

As de guerra eram, commumente, galés e 
galeotas, movidas a remos e com veias triangtt* 
lares ou latinas. 

As galés tinham dois castellos^ um á próa^ 
outro á popa; n'elies se abrigavam o» officiae», 
e durante os combates guarneciam^se de mari- 
nheiros e soldados que d'ahi hostilisavam o 
inimigo. Os remeiros ficavam a descoberto e 
expostos aos tiros adversos, por isso eram, 
em geral, os condemnados por sentença, os^ 
escravos e captivos de guerra; quando os n{k) 
havia, tiravam-se d'entre os pescadores ej,bar- 
queiros, um de cada vintena. Do castello 4a 
proa arremessava*se sobre o inimigo dardos^ 
lanças, scttas, pedras e matérias incendiarias, 
a fim de queimarem o velame e casco do vaso 
contrario. A proa era a parte mais forte do na- 
vio, sendo o beque armado çoni esporão do 
mais duro metal. Tinha a galé dois mastros 
que se abatiam, dcáfralJava cada um sua vela 
latina, denominada bastardo; contava geral- 
mente esta embarcação de vinte e cinco a trinta 
bancos, com dois ou três remos cada um, edois* 
ou três homens a cada remo; media de com- 
primento duzentos a dnzaílGS e clncoenta pal- 
mos, trinta de boca e dez de pontal. 

A galeota levantava apenas um mastro, não 
tinha mais de dezesseis banecd do remeiros e 
não apresentava castellos de proa e popa. 

A galé, em combate, procurava sempre voltar 



142 



Historia de Portugal 



a proa ao inimigo, já para o investir com força, 
jÃ.para com a aua construcção levantada cobrir 
atripolação. Â invertida mellior era a obliqaa oa 
perpendicular ao meio do casco adverso, logar 
onde geralmente só se encontrava a chusma dos 
remeiros desarmada; n'este choque podia met« 
ter^se a pique o navio inimigo, langar-lhe fogo 
ou gente de bordagem, qaebrar-lhe os remos 
com o esporão e matar os remadores com os ti- 
roa.do castello da proa. 

Por vezes, armavam-se também em guerra os 
navios redondos, a que se dava o nome de naus, 
e cuja construcção era muito mais imperfeita, 
sendo o casco em demasia curto e alteroso, e 
muito levantados o tombadilho e o castello da 
proa* A mastreação curta e pequena,; quando 
mesmo se compunha de três mastros, não apre- 
sentava mais do que três velas redondas e uma 
Ijtina. Eram ainda desconhecidos os mastareos 
de gávea; e assim o pequeno velame das naus, 
junto á imperfeição dos cascos diminuia-lbes a 
mobilidade, e tornava-as quasi impossíveis de 
combater com as galés ágeis e a que os remos 
davam a facilidade de movimentos para vante 
e ré, que hoje se obtém, com as machinas a 
vapor. * 

A navegação, commumente, só se fazia de 
dia, ao longo das costas, á vista de terra, ou 
em noites bonançosas e claras. Os nautas mais 
experimentados estudavam o curso dos astros, a 
direcção dos ventos e das correntes, e por tudo 
isto se guiavam, quando, por força maior deixa- 
v;im d*avistar a terra, que logo demandavam, e 
OAde se abrigavam apenas persentíam temporal. 

A descoberta dos meios de applicar a bússola 
à marinha, realisada em 1300, operou, nos fins 
do século XIV e por todo o xv, uma verdadeira 
revolução n'estes systemas primitivos, abriu á 
navegação e ao progresso em geral uma pbase 
inteiramente nova, permittiu aos homens devas- 
sar a vastidão, até ahi mysteriosa, do oceano. 
Isso porem viria a ser futuro, o que acabamos de 
descrever era o que existia no tempo de 0. Di- 
niz, e quê e&le mofrardia desenvolveu com o 
maior esmero, j& aperfeiçoando a construcção 

1 Ignacio da Costa Quintelia, Annaes da Marinha 
P^^gúeza, 1 1.% p. i, meni. 1.» — António do Couto 
dç Castello Branco, Víemoria* militareis. 



dos navios, já augmentando o seu nuoiero, já, 
sobretudo, procurando melhorar o pessoal da ar- 
mada. 

O cuidado pelas cousas marítimas devia pro- 
vir-lhe, não só da necessidade governativa e 
politica de combater a pirataria, a que allu- 
dimos; mas também por que as viagens ao 
oriente do genovez Marco Paolo, de seu pae e 
tio, realisadas de 1253 a 1295 e cujas interes- 
santes narrativas se diffundiram logo por toda a 
Europa, despertaram geralmente o espirito mer- 
cantil e o gosto das descobertas, e deviam in- 
fluir, por modo profundo, no génio íllastrado e 
ardente de D. Diniz e da sua corte poética e 
aventurosa. 

Has a instrucção nacional começava apenas; 
a nação sabia d'uma guerra terresUre que durara 
séculos e a absorvera quasi completamente; as 
viagens ao norte, com o mar tenel^roso d'um 
lado a apavorar os espíritos e a terra do outro, 
não haviam desenvolvido sufficientemente a in« 
teliigencia e a natural aptidão dos nossos ma- 
rinbeiros. Diniz conheceu-o. e viu que Portugal 
carecia de sciencia náutica e de bons officiaes 
para os seus navios. Resolveu pois procural*o8 
nos paizes mais adiantados na arte da nave- 
gação, seguindo o exemplo que lhe deixara 
sou tio, Sancho, o bravOy de Castella que tomara 
em Génova, para ahnirante de suas frotas, Micer 
Benedicto Zacarias. 

A Itália era então a pátria dos melhores mari- 
nheiros da Europa. Pelas condições mais democrá- 
ticas da sua organisação municipal, maior somma 
de tradicções das civilisações antigas, e visi- 
nhança com um mar limitado e conhecido, desde 
a mais remota antiguidade, como era o Mediter- 
râneo, adiantara-se na marinha, muito mais do 
que 08 povos do litoral do mysterioso Atlântico. 
E de toda a Itália era a republica de Génova 
que possuia, nos princípios do século xiv, me- 
lhores navios e melhores marinheiros, que se 
haviam distinguido, pela importância do seu com • 
mercio marítimo e por brilhantes victorias em 
numerosos combates navaes. 

Quando pois vagou em Portugal, por falleci- 
mento de Nuno Fernandes Cogominbo, o logar 
de almirante-mór, o primeiro nas coisas do mar, 
D. Diniz* mandou a Génova procurar um oflBdal 
distincto a quem entregasse este cai^o. Foram, 



Historia de Portugal 



14d 



tal?ez, encarregados da difficil missão os embai- 
xadores que por esse tempo Portugal tinha em 
ÂTinb&o, junto da cúria, os cavalléiros d'e]-rei, 
Vicente Enues César e Jo&o Lourenço. ^ Estes, 
ou outros inquiriram bem do assumpto, e elege- 
ram Micer Manuel Pezagno, que, como o futuro 
depois mostrou largamente, reunia â distinção 
do berço, saber náutico avantajado para o tempo, 
verdadeiro valor militar e a habilidade insí* 
nuante dos italianos para a diplomacia. 

O iUustre genovês partiu logo para Portugal, 
e, sendo affectuosamente acolhido por D. Diniz, 
celebrou com el-rei, na vilia de Santarém, em 1 
de fevereiro de 1317, um contracto, acceítando 
o logar para que fora chamado. 

Este documento, um dos mais celebres da 
historia da marinha portugueza, é assaz conhe- 
cido e extenso, para que o transcrevamos aqui. 
Em resumo, estabelece o seguinte : 

Pezagoo, por si e seus descendentes, decla- 
rasse vastallo d'el-rei e de seus successores; 
presta-lbe menagem e juramento de o servir bem 
e lealmente; toma o governo dos seus navios e 
oom elles promette combater, conforme o rei 
lhe ordenar, todos os seus inimigos de qualquer 
estado, condição ou religião que sejam, man- 
tendo em todos os legares os interesses e honra 
da coroa. Não iria para o mar em serviço régio 
com menos de três galés. Guardaria fielmente 
03 segredos doestado que lhe fossem confiados. 
Só seria obrigado a servir em guerra terrestre, 
quando o rei entrasse pessoalmente em campa- 
nha e lh'o ordenasse. Gompromettia-se a ter 
sempre promptos para o serviço publico vinte 
genoveses, tão sabedores das cousas do mar, 
que fossem aptos para alcaides das galés e para 
arraes. Quando o rei os occupasse, pagar-se-hia, 
mensalmente, aos alcaides doze libras e meia, e 
aos arraes oito, alem de pão, biscoito e agua, 
como se desse a todos; não sendo necessários 
â nação, poderia Pezagno empregal-os em via- 
gens oommerciaes, sustentando-os á sua custa. 
Substituiria, immediatamente, os que faltassem. 
Todos que fossem nas esquadras lhe obedeceriam 
como a el-rei e o defenderiam do mesmo modo; 
em todos teria plena jurisdicção, tanto no mar 
como em terra, durante o tempo que os navios 



estivessem armados. Receberia a quinta parte 
das prezas que fizesse, sobre as aguas, aos 
inimigos de Portugal, menos das armas, doís 
cascos e apparelhos dos navios tomados, por 
serem estas cousas exclusivamente dos reis. 
Deu-lhe D. Diniz para si e seus successores; 
como em morgado, o logar da Pedreira, bm 
Lisboa, com todos os prédios que ahi possuíam 
os judeus, e todos os foros e imposições a que 
estavam sujeitas as propriedades que lá tinham 
os christãos; e alem d'isso três mil libras àn^ 
nuaes. Ao seu descendente, varão, secular, pri- 
mogénito e legitimo, passaria, por suà morte, o 
posto de almirante-mór, com todas as obriga- 
ções, direitos e bons com que lhe fora concedido 
a elle; não havendo herdeiro n'essas condições^ 
tudo, sem contenda, reverteria para a coroa. ^ 

Apenas o genovez tomou conta do commando, 
começou a dar tão evidentes provas do seu claro 
entendimento, desenvolvendo as nossas forçaá 
marítimas e dando com tal denodo caça aòs pi- 
ratas de Marrocos, que obteve a inteira con^ 
fiança d'el-rei, sendo logo empregado, nas cóm- 
missões mais importantes e difficeis. 

Para completar a reforma da força naval, co- 
meçada com tanto acerto e largueza de vistas, e 
applicar a armada ao seu principal objectivo, a 
guerra aos mouros, — eram precisos maiores re- 
cursos pecuniários do que aquelles de que o rei 
dispunha, inquietado, de mais a mais, pelas per- 
turbações civis, de que adiantes trataremos. 

Para os obterem foram o almirante-mór e o 
deão da sé do Porto, D. Gonçalo, enviados â cú- 
ria; e, com a solução feliz d'outros negctcios, já 
expostos, obteve-^e do pontífice, João xxn a bulia 
de 19 de maio de 1320, que concedia a el-rei 
D. Diniz, para as despezas d'armada a fim de 
guerrear os sarracenos, a decima de todos os 
rendimentos dos bens ecciesiasticos das or- 
dens, cathedraes e egrejas do reino, diíranté 
três annos, coch excepção da cavalláriá dó 
Hospital, por já se achar occupada na mesma 
guerra, e das egrejas de Pombal e Soure, pelos 
seus rendimentos serem destinados á sustenta- 
ção das escolas da universidade. 

A 7 de novembro do mesmo anno, publicou^se 
a bulia em Coimbra, e immediatamente se 60- 



1 »m. iMáj P. 6, 1. i8. c S6, 



t ikm, £m. ibidi 



144 



Historia de Portngal 



meçou a dar-lhe execução. Não devemos duvi- 
dar que o importante subsidio teve a applicaçào 
que lhe destinara o pontífice» já porque a pode- 
rosa influencia dos contribuintes especiaes o^ze- 
laria, já pelo notável incremento que, em breve, 
tomou a marinha portugueza. ^ 

Logo em 1322^ poude Manuel Pezagno varrer o 
estreito de Gibraltar dos barcos marroquinos; e 
foram taes as proezas da nossa esquadra contra 
03 árabes, que D. Diniz premiou o almirante com 
a concessão de outras três mil libras de renda 
annual. Às que lhe dera primeiro haviam sido 
remidas, com a doação avantajada do senhorio 
da villa de Odemira e seu castello. 

Pezagno, cujo nome, com o correr do tempo, se 
transformou em Peçanha, exerceu o lugar de almi- 
rante ainda alguns annos, durante o reinado de 
Afonso IV, a quem muito auxiliou nas guerras 
contra os mouros; depois o cargo passou a seus 
descendentes, que, em linha varonil, o conserva- 
ram até ao tempo de D. João i, com pequenos in- 
tervallos, prestando, no mar e na diplomacia, 
grandes serviços ã nação. O erudito Major sup- 
põe até que, de 1317 a 1351, os officiaes geno- 
Yezes começaram a penetrar^ com os navios de 
Portugal, os mysterios do occeano, logrando se- 
rem os primeiros a descobrir a ilha da Ma- 
deira. ^ Eé indubitável, que, sob o poderoso in- 
fluxo do príncipe illustrado que os cbamára de 
Mia, os Peçanhas deram á nossa marinha tal 
instrucção e desenvolvimento, que concorreram 
muito para a tomar depois, durante quasi dois se- 
cttlos, a primeira do mundo e a mais útil e a mais 
gloriosa. 

CAPITULO XV 

Guerra dvil— Xorte de D. Diniz 

Haviam decorrido quarenta annos doeste go- 
verno excellente, por tantos titulos brilhante, e 
sobre ludo tão fecundo para a civilisação do rei- 
no, — dos melhores, senão o melhor dos que até 
hoje batido Portugal, quando profundas e intesti- 
nas dissenções vieram enlutar a nação e repassar 
d'amargura o derradeiro lustro da vida de Diniz. 
. É que esto príncipe tão instruído e elevado 

1 Mon. Lu$. P. 6, 1. 19, c. 19. Quad. El. 1 9. p. 326. 
^ R. H. Major, Vida do Inf. D. BmrifUâ, pag. 809. 



d^espirito, tão habíl e prudente no governo, do- 
tado de tão poderosas faculdades iniciadoras e 
tão amante da sua pátria,— era homem, e ti- 
nha os excessos das suas próprias virtudes. Pos- 
suindo grande robustez phyaicâ, o animo in- 
quieto, a alma ardente, deixava-6e arrebatar 
pelas paixões amorosas, e, não obstante os bons 
conselheiros que o rodeavam terem procurado 
desvial-o d'ellas, fazendo com que desposasse, 
aos vinte annos, uma princeza, que reunia a 
grandes dotes moraes extremada formosura, Di- 
niz, ardendo em perenne fogo, teve dezenas 
diamantes e numerosos filhos illégitímos; — d'ahi 
resultaram rivalidades, ciúmes e malquerenças, 
que depois de lhe povoarem o thalamo e o lar 
de desgostos Íntimos e acerbos, assolaram o 
reJno.de ódios, de ruinas e de sangue. 

O grave chronista cirterciense, Fr. Francisco 
Brandão, indica nove d'estes filhos naturaes: 
— Âffonso Sanches, nascido de Aldonça Ro- 
drigues de Sousa, dama, que alguns dizem 
da melhor nobreza do reino, e com quem 
el-rei foi generoso em doações de casaes e al- 
deãs, com o padroado das respectivas egrejas; 
— D. Pedro Afibnso, esposo de Maria Mendes, 
talvez neta de D. Maria Paes Ribeira, amante 
celebre de Sancho i e padroeira do mosteiro 
do Bouro;— D. Pedro, conde de Barcellos, fi- 
lho de Dona Garcia de Torres Vedras, caval- 
leiro valente, de figura gigantesca e elegante, 
espirito illustrado mas versátil, e que se tor- 
nou celebre na historia litteraria, por que, 
largo tempo, se lhe attribuiu o Livro das Lir 
nhagen$;—o infeliz João A£fonso, filho d'uma 
rica dama do Porto, e alferes mór do reino; 
—Fernão Sanches;— Fernando Affonso;— e Mar- 
tim Afibnso; todos três de ascendência ma- 
terna duvidosa na historia; — e duas filhas, D. 
Maria, recolhida em Odivellas, que casou com 
D. João de Lacerda, filho do infante de Cas- 
teUa, legitimo pertensor da coroa, e que era 
oriunda de D. Marinha Gomez, dama nobre e 
oppulenta de Lisboa;— e finalmente D. Maria 
que tomou o véu no mesmo mosteiro, e que seu 
régio pae devia estremecer, pois lhe deu mo- 
rada tão sumptuosa e vasta e perto de cuja campa 
levantou seu mausoléu. ^ 

t Jfon. ItK. P. K/Kv. 17^ cap. 2 à & 



Historia de Portngal 



146 



Alem doestas provas vivas dos seus desregra- 
mentos, Diniz deixou, nos archivosnacionaes, 
documentos d'outro8 amores, sem ser com as 
m&es desta prole conhecida. ^ fia uma escriptura , 
datada de 28 de julho de 1301, de doação da 
villa de Mirandelia a Branca Lourenço, em que 
confirmam^ alem do mordomo-mór, alferes-mór 
c chanceller, o arcebispo de Braga e os bispos 
de Lisboa, Coimbra, Viseu, Lamego, Silves e 
Porto, e onde el-rei diz, textualmente: «£ esta 
vos faço por compara de vosso corpo, . . E se 
Deus tiver por bem, que eu aja de vós filho, ou 
fUhoSy que a elles fique a villa, quando n&p que 
torne â coroa. »^ 

grande numero de bastardos de D. Diniz, 
a autheoticidade doesta carta regia e a ingénua 
e brutal sinceridade, que fundamenta a doaç&o a 
uma dama, que bons cbronistas reputam da 
mais aristocrática linhagem, offerecem*nos a 
medida da licenciosidade que reinava na epo- 
cha, e podem levar-nos a suppor que, n^estes 
primeiros séculos da monarcbia, o próximo con- 
tacto com os sectários de Mafoma e a neces- 
sidade de povoar os desertos numerosos da 
península permettiam um pouco a poiygamia 
árabe, não obstante os rigores do direito canno- 
nico p9ra com o adultério, baseados na pureza 
do Cbrislianismo. 

Essa tolerada laxidão dos costumes públicos, 
attentoria da moral e das leis, não podia porem 
destruir os effeitos perneciosos das paixões des- 
regradas; nem a frequência d'e8ses desmandos 
sociaes tornar insensível o coração da esposa 
ofiTeodida. 

Quando Izabel d'Aragão deu à luz o pri- 
meiro fructo do seu enlace com o rei de Portu- 
gal, jã existiam três dos filhos bastardos de 
Diniz, e já tinham deccorrido largos annos 

1 O erudito académico D. António Caetano de 
Sousa, na Eist. Geon. da casa real port, indica ape- 
nas sete filhos bastardos d'el-rei D. Diniz; suprime 
os nomes de Fernando Affonso e Martim Affonso, 
discordando, n'esta parte do chronista cisterciense. 
A duvida, talvez impossível d'esclarecer, é porem 
sem interesse para a philosophia da historia. Quer 
fossem sete, quer nove os filhos naturaes d'este mo- 
narcha é o mesmo o juizo a formar do seu caraeter. 

^ h. ^ de Alem Douro, fl. 274.— JVon. Lus. P. 5, 
1. 17, c. 59. 

n voL. — 19. 



depois do matrimonio. Casada em 1282, só em 
1290 nasceu a infanta D. Constança. O seu sexo 
deixou na incerteza de successão legitima a rei 
e o reino, ainda mais um aono. A 8 de fevereiro 
de 1291, é que viu a luz do dia o infante D. 
Affonso. 

Este longo período d'esterilidade, em que o 
joven monarcha se entregou, profundamente, ao 
governo do estado, e se destrahiu caçando a 
miúdo, poetando com fecundia e tomando suc- 
cessivas amantes, em todos os pontos do reino, 
—devia deixar no espirito dlzabel um amargor 
pungente, para que só encontrou iinitivo, suffo- 
cando em si os instinctos e os sentimentos femi- 
ninos d'esposa e de mãe, e entregando-se, in- 
teiramente, ás piedosas virtudes da oração, doa 
jejuns e da esmola. 

Quando os filhos nasceram, a rainha, não 
obstante a sua mocidade, era mais uma santa, 
no sentido roonachal da palavra, do que mãe, na 
grande acepção doeste termo sublime. É por 
isso que ella deixou Contança, esposa de Fer- 
nando IV, ir, aos oito annos, paraCastelia, e, na 
mesma idade, seu filho D. Afibnso sahir do paço 
régio e paterno, e estabelecer-se em palácio 
próprio, separado do de seus pães, c entregue 
aos cuidados e á educação de pessoas estranhas, 
escolhidas mais pela nobreza do sangue e cele- 
bridade militar ou litteraria, do que pela intel- 
ligencia elevada de educadores, probidade aus- 
tera, dedicação ao rei e amor acrisolado da 
patría, qualidades indespensaveis à alta missão 
de que se achavam investidos. 

Se a torpe soUicitude de simuladas dedicações 
participava á filha de Pedro o grande alguma 
nova distracção amorosa de seu marido, Izabel, 
para fazer acreditar que não curava de tal cousa, 
— diz a chronica, — principiava a rezar ou a ler 
livros d^orações, ou emprehendia, com as suas 
donas e donzellas, trabalho que fosse em louvor 
e serviço de Deus. 

Todos 06 dias rezava as horas cannonicas c 
as de Maria Virgem e commemortva muitos san- 
tos e santas; ia depois á capella, que sempre 
comsigo trazia, luxuosa e provida de numero* 
SOS capellães e clérigos, e ouvia, de joelhos e 
humildosa, a missa, quasi sempre cantada com 
todo o ritual; á tarde os clorigos celebravam- 
lhe vésperas a que assistia. 



146 



Historia dd Portugal 



Nos jejans a pão e agua, era tão frequente, , 
posto serem, coutra a vontade do rei, que exer- ' 
cia essa peuiteocia as três quartas partes do anno. 

Como a corte não tinha logar fixo, acompa- 
nhando ou seguindo seu marido, vagueava, fre- 
quentemente pelo reino. Visitava e beneficiava 
com donativos, todas as casas conventuaes, onde 
lhe constava manterem os religiosos vida morige- 
rada. Populações inteiras iam sentar-se á beira dos 
caminhos por onde a rainha devia passar, e ahi 
a aguardavam, para receberem esmola; ninguém 
que lha requeria se retirava sem ella, por maior 
que fosse o numero dos pedintes. Muitos atô 
que não precisavam do subsidio, colocavam-se 
entre os pobres, só por devoção de receberem o 
obulo da princesa. Mandava Izabel vestir os es- 
farrapados que avistava; visitava as enfermas 
ulcerosas; punha, sem repugnância, as mãos 
sobre a cabeça dos doentes, e fazia*os tratar 
por seus médicos e enfermeiros. Distribuia, 
nos dias solemnes do anno, numerosos soccor- 
ros, pelos domicílios, ás pessoas necessitadas 
e a muitos mosteiros, tanto do reino, como 
estrangeiros. Os seus haveres entravam, sem- 
pre, em quantidade maior ou menor, para to- 
das as edificações ecciesiasticas e algumas ve- 
zes para as de utilidade geral, como fontes, 
pontes e caminhos. Emfim dava às mãos largas, 
publica e secretamente, das avultadas rendas 
com que Diniz a dotara, e qae ella accrescen- 
tava com boa, — e até, por vezes, rigorosa admi- 
nistração. Deleitava-se em compor as frequen- 
tes discórdias, levantadas entre as casas nobres; 
procurava por todos os modos proteger as don- 
zellas e viuvas, para que a miséria as não lan- 
çasse na perdição. Os seus costumes eram, em 
tudo, modeslos, humildes e castos. ^ 

Na pratica ardeote, talvez frenética, does- 
tas santas virtudes, conseguia, é possível, ol- 
vidar 08 desvarios do esposo; mas descurou 
também e completamente a educação do filho. 
Podendo com a sua auctoridade de rainha, de 
virtuosa e de mãe, chamal-o para junto de si, 

1 Relaçam da vida da Gloriosa Santa hahel Rai- 
nha de Portugal, tradadada de hum livro escrito 
de mão, que está no Convento de S. Clara de Coim- 
bra, publicada no Appendice da Parte vi dailfonar- 
ehia Luêitana. 



formar-lhe a alma, educal-o no temor de Deus, 
que ella possuía em subido grau, no respeito e 
aSecto para com seu pae, que lhe dera o ser, 
na obdiencia, na abnegação, no amor do pró- 
ximo, na caridade, em todas as virtudes emfim 
que o christíanismo ensina e que ella devia 
conhecer tanto,— deixou que estranhos se lhe 
apoderassem do espirito, lho inclinassem para a 
ambição, para a inveja, para a crueldade, para 
o desamor da sua pátria e de seu pae. 

Âo contrario deFilippa de Lencastre, a escla- 
recida e casta esposa de João i, que enriqueceu 
Portugal, dando-lhe cinco príncipes,. todos elles 
dotados do mais elevado espirito, e que lega- 
ram à posteridade grandiosos exemplos, — Isabel 
d*Aragão, não obstante as suas excelsas virtu- 
des ecciesiasticas, deixou de si um filho, que os 
contemporâneos chamaram bravo^ na rude ace- 
pção da palavra, mas que, com não menor jus- 
tiça, poderemos appellidar monstrOy afora os 
bons dotes de guerreiro e governante, em que 
depois se firmou, com a pratica do mando. 

Ao mesmo tempo que D. Diniz incorria no 
verdadeiro erro politico de põr casa separada 
e crear cõrle especial ao filho legítimo e her- 
deiro da coroa, longe da sua vista e vigilân- 
cia, povoava de bastardos o palácio real, edu- 
cava-os na sua companhia, inspirando-lhes o 
gosto das letras que o dominava e o amor 
filial, avigorado pelo trato intimo e reciproci- 
dade d'affectos. 

D 'este procedimento resultaram diversas e gra- 
ves consequências. Em breve foi D. Diniz esti- 
mado e obedecido por todos os seus filhos natu- 
raes, excepto o conde D. Pedro, e amava-os 
a todos, mui especialmente a Âffonso Sanches. 
Era o mais velho, desposou-o com a filha do ce- 
lebre guerreiro e diplomata, D. João Affonso, 
senhor d'Albuquerque; por morte doeste, hon- 
rou -o com o logar de mordomo-mór e enri- 
queceu-o com numerosas doações e grande parte 
dos bens do fallecido sogro; fel-o donatário de 
Villa do Conde, Campo Maior, Albuquerque, Co- 
díffeíra e outros logares*. Esta predilecção d'el-reí 
foi, como era natural, explorada e envenenada 
na casa do infante D. Affonso, espirito curto e 
facilmente dominado pelos privados. 

Pôra seu aio e mordomo-mór, o co&de de 
Barcellos, D. Martim Gil de Sousa» que se 



BMeorlft de Fortaffú 



147 



desaveio com el-rei, quando, pela morte de 
João Affooso d'Albuqtterque, de que também era 
genro, Be procedeu a partilhas entre elie e Âf- 
foQSO Sanches; a desavença foi tal que o aio do 
infante passou a Gastelia com séquito numeroso, 
e toroou-se vassallo do monarcha estrangeiro, 
conservando de lá as melhores relações com o in- 
fante, e hostelisando em tudo que podia a D. Dinis. 

Durou pouco a rebeldia; o conde morreu em 
1312, tendo alguns mezes apenas d'emigraç&o; 
votava porem ódio tão profundo a Âffooso San- 
ches que prohibiu no testamento, que os seus 
bens lhe fossem vendidos. Não se cumpriu o 
preceito, porque grande parte d^elles os mandou 
D. Diniz comprar para o filho predilecto, que 
ainda se apoderou d'outros, a mão armada, di- 
zendo-se único herdeiro do sogro, d*onde provi- 
nham. 1 

Estas contendas do aio com el-rei, originadas 
por AfTonso Sanches, e o desprezo régio da de- 
terminação testamentária do conde, para favore* 
cer o bastardo, deviam causar no infante ardente 
dissabor, tanto mais que o finado, no testamento, 
lhe pedira assistência, para o cumprimento da 
sua ultima vontade. 

Martim Gil, emquanto vivo e outros privados 
d^AfTonso, como o seu chanceller Gomes Lou- 
renço, de Beja, dotado de perversa Índole, Martim 
A£fonso de Briteiros, fidalgo insolente e alteroso, 
Pedro Migueis, irmão d'Estevão, bispo de Lis- 
boa e Nuno Gonçalves Camello, persuadiram o 
infante de que seu pae pertendia desherdal^o, 
para dar a coroa a AfTonso Sanches. 

Estevão, aquelle ingrato bispo do Porto, que 
enviado á cúria, trabira os intuitos de D. Diniz 
no negocio dos templários, delapidara os dinhei- 
ros que lhe haviam sido confiados, sollicitara e 
alcançara, contra vontade do monarcha, a mitra 
lisbonense, ^ empregava também quanto podia a 
calumnia e a intriga, com o fim de simentar a 
desharmonia entre o rei, a rainha e o infante. 

Juntava-se a isto ser D. Affonso ambicioso e 
sustentar uma corte em demasia numerosa: as- 
pirava ao governo pelo governo e desejava, cons- 
tantemente, augmento de redditos, para costear 
as despezas, sempre crescentes da sua casa. 

i Man. Ltu. P. 6, 1. iS, c. 43. 
2 Vide pag. 114 doeste Livjro. 



Para cumulo de desventura publica, a rainha, 
entregue ás orações e fria, habitualmente, com o 
marido, não procurava modificar a braveza do 
animo do filho, nem suavisar as suas desintel- 
ligencias com Diniz; D. Beatriz, que o infante 
amava, era instrumento de sua mãe D. Maria de 
Molina, que por ella o incitava contra el-rei, para 
ter este inquieto e preoccupado com dissensões in- 
testinas, como outr'ora, em muito mais apertada 
conjunctura, o monarcha portuguez lhe fizera. 
Desejava além disso a viuva de Sancho iv ver o 
genro no throno, por esperar n'elie um decidido 
auxiliar, que a defendesse contra as ambições, 
que continuavam a rodeal-a e a dilacerar Gastelia. 

Todas estas causas, predominando no espirito 
do infante e da sua corte numerosa e ociosa, 
tornaram-na, rapidamente, um verdadeiro cen- 
tro de opposição e hostilidade ao governo do rei, 
e, a pouco e pouco, n'ella se reuniram todos os 
descontentes e, peor ainda, todos os foragidos 
à justiça real. 

Em 1314, começaram as dissensões a senti- 
rem-se na vida do paiz; revelavam-se por vários 
factos, nomeadamente, pela renovação das antigas 
querellas e vindictas entre os nobres, a que já 
nos referimos, e que lançavam comarcas inteiras 
em alarme. D. Diniz só conseguiu refreal-as, em- 
pregando contra ellas todo o rigor da penalidade. 

Ainda assim, o soberano, que, na sua alta in- 
telligencia, devia conhecer os erros que prati- 
cara, como esposo e pae, em toda esta lucta de 
familia, com excepção de raros momentos, mos- 
irou-se, como era natural d'um coração af- 
fectuoso, senão tibio, pelo menos indiciso no 
emprego da coação e inclinado aos meios acco- 
modaticios. Procurou, primeiro, captar a benevo- 
lência da inquieta corte do infante, favorecendo 
alguns dos seus ministros. Ao bastardo D. Pedro, 
que era mordomo-môr de D. Beatriz, oulhorgou 
o condado de BarccUos e o cargo d'alferes-mór, 
que haviam sido de Martin Gil: ao alferes do in- 
fante, D. Raymundo de Cardona deu a villa de 
Mourão; e fez a outros doações de senhorios im- 
portantes. ^ Depois, vendo que augmentavam as 
intrigas e a opposição, queixou-se ao papa, refu- 
gio então constante de todo o governante atri- 
bulado. 

1 Mon, Lus. P. 6, 1. i8, c. 45 e 48. 



148 



Historia de Pcnrtugal 



I 



Jo&o XXII, que tão soUicito foi sempre com 
D. Dioiz, fez quanto poude a seu favor. 

Em 21 de março de 1317, expediu rarias bui- 
las para Portugal. 

Uma era dirigida ao bispo de Lisboa; em ter- 
mos severos e ameaçadores, exprobrava-ihe a 
sua iogratidão para com Diniz, por haver 
semeado entre o monarcha de uma parte e a 
rainha e o infante D. ÂíTonso da outra, a malque- 
rença e a discórdia; mandava-Jhe que procurasse 
remediar o mal que causara, e declarava- lhe que, 
a não obedecer, pelos motivos indicados c outros 
de que havia noticia, a sé apostólica estava dis- 
posta a castigai-o, severamente. ^ 

r<'outra bulia, que friná^^m Displicenter audi- 
vimuSj endereçada ao infante, manifesta o pon- 
tifice a satisfaç&o que teve por saber que não 
produziram effeito as intrigas enredadas entre 
elie e a rainha d'um lado e el-rei D. Diniz do 
outro, e aconselha a Âffonso que não esqueça 
os deveres de bom filho. ^ 
. Outras bulias, no mesmo sentido, foram diri- 
gidas à rainha e a D. Diniz, recommendando-lbes 
o cumprimento das suas obrigações d esposos e 
de pães. ^ 

Na mesma data, emfím, ha ainda uma bulia, 
enviada ao monarcha portuguez, que começa 
Múnus quatoTy em que João xxn agradece 
quatro mil florins que el-rei lhe remettera. * 
Este presente devia augmentar o zelo do papa 
pela sua missão pacificadora. 

No mesmo anno, ainda a levou mais longe, 
persentindo talvez, que as letras, expedidas em 
março, não teriam a sufficienle efficacia de as- 
serenar os ânimos. Em 10 de junho, remetteu o 
pontifice uma bulia ao bispo d'Evora, D. Giraldo, 
ordenandolhe, sob pena d'excommunhão, que 
mandasse publicar outra da mesma data, em 
que admoestava os perturbadores da traoquilli- 
dade dVl-rei e do reino e a todos os que Ibes 
dessem auxilio, conselho ou favor, e impunha a 
pena d'excommunhão aos que perseverassem om 
taes delictos. ^ 

1 No Vaticano, Registo de João xxn, tom. 1." Epist^ 
502.— Qttad. Elem. vol. D.*» pag. 307. 

2 Reg, cit. Epist. 501. 

3 Ibid. Epist. 500 e 499. 

♦ Ibid. Epist. 498.— OttíKÍ. EUm, cit. p. 308. 
5 Ibid. Epist. 321 e 322.— Arc/i. Noc. m. 10 n.° 



N*outra bulia, dirigida a D. Diniz, João xxn 
transcreve a admoestação aos agitadores, e re- 
commenda-lbe que peça a Deus auxilio, com 
o coração contricto, e faça penitencia de todos os 
seus peccados. 

Publicou D. Giraldo a bulia, que lhe fora 
mandada; e, por algum tempo, as exhortaçõese 
ameaças pontificias tiveram o desejado effeito. 
D. Âffonso refreou as ambições; aquietaram-se, 
apparentemente, os seus parciaos; c Estevão, o 
prelado de Lisboa, curvou se ante os raios im- 
minentes da sé apostólica. 

Mas, pelas diversas bulias de todo este anno 
de 1317, tanto as de março como as de junho, 
vé-se que, por enião, tratava-se, principalmente, 
d'uma questão de família. reinante, posto que já 
vastamente enredada nos interesses feudaes, e 
a que não era alheia a rainha, que se inclinava 
a favor do filho lontra o esposo. No piedoso espi- 
rito dlsabel, deviam porem impressionar, pro- 
fundamente, as cartas pontificias; é de suppor que 
eila reprimisse o infante, por algum tempo, e cal- 
lasso no fundo d'alma as amarguras de mulher 
trahida^ tanto mais que Diniz começava a enve- 
lhecer e a afastar-se dos desvarios da virilidade. 

Porem os elementos fundamentaes da tempes- 
tade continuavam a existir, aggravavam-se com 
o tempo e ameaçavam baixar da corte a alas- 
trar o reino. 

À idade e o recolhimento, augmentaram em 
Diniz o amor aos filhos que tinha junto a si, 
continuando a predilecção por Âffonso Sanches, 
cujo espirito iilustrado, dado às letras e ás cou- 
sas de governo, lhe captiva mais o seu affecto 
paternal. ^ Os conselheiros e partidários do in- 
fante continuavam a aproveitar a preferencia, 
para insistirem em que el-rei pretendia desher- 
dal-o e elevar ao throno o filho muito amado. 

Ao mesmo tempo, em Castella, D. Maiia de 
Molina e seu filho o infante D. Pedro, este prin- 

10 da collec. das Bulias— Quad. Elem, vol. 9.° pag. 
310. 

1 No opulento Cancioneiro Portuguez da Bibiio- 
theca Vaticana, publicado por E. Monaci, trazem o 
nome de Dom Affonso Sanches filho de el-rei D. 
Diniz de Port, as composições indicadas com os na 
meros 17 a 27 e 366 a 368. 

Os versos porem do filho estão longe de possuir 
a harmonia e o estro dos do pae. 



Biatoriá de Portiigal 



149 



cipalmente, incitavam D. Afiboso contra o pae e 
faziam^lhe aspirar, com demasiado ardor, aogo- 
Yemo, receioeos talvez da antiga politica de D. 
Diniz, cujo espirito inquieto e ambicioso, podia, 
não obstante os annos, ser animado e incitado 
pelo juvenil fogo de seus numerosos bastardos. 

Depois de 1314 até 1319, nenhum facto no- 
tável alterou a apparente quietação; mas, n^cste 
anno, Diniz teve noticia que seu filho ajustava 
com D. Maria de Molina, que governava Gastella 
em nome do neto Affonso xi, avistarem-se na 
fronteira, para accordarem na suaconducta poli- 
tica. O velho monarcha devia sobres>altar-se com 
a nova, que tomava apparencias de verdadeira 
rebellião; encarregou a rainha D. Izabel de pedir 
a AfTonso que não saisse do reino; ^ e mandou 
mais tarde ordem expressa ao filho de que o não 
fizesse. Instigado porem pela própria ambição e 
pelos maus conselheiros, o infante não attendeu a 
el-rei, e poz-ee a caminho, acompanhado da es- 
posa, A conferencia verificon-se no mez de maio, 
em Fuente Grimaldo, aldeia do termo de Ciudad 
Rodrigo. Doestas vistas resultou a rainha D. Maria 
enviar a el-rei D. Dinií, Pedro Coudel, sobre juiz 
da casa real de Gastella, com uma carta, pediu- 
do-lhe que cedesse ao infante o governo do rei- 
no. O filho d^AfTonso iii devia maraviihar-se da 
descortezia e audácia da missiva, tanto mais que 
não podia suppor que um espirito da elevação, 
pratica de governo e tenacidade da esposa de 
Sancho, o bravo, lhe fizesse, uma tal proposta, 
sem tencionar dar-lhe seguimento. Resolveu po- 
rem manter-se n'uma prudente reserva, aguar- 
dando o futuro. Despediu o mansageiro, regei- 
tando a proposta com firmesa, mas empregando 
as pbrases mais attenciosas para com a rainha 
de Gastella. Gom esta resposta, poz-se termo á 
conferencia, voltando o infante exasperado ao 
reino, resolvido a lançar-se na guerra civil, — 
provavelmente, com promessa formal de soccorro 
castelhano. 

Um terrível desastre, surcedido no visinbo 
reino, veiu porem evitar-nos este aggravamento 
do mal. 

No mez seguinte, dia de S. João» os dois 
tios do moço rei, o infante D. Pedro, o par- 
cial de Affonso, e o já conhecido e perverso 

í Rapbael de Jesus, Mon, Lus. P. 7, 1. 4, c. 4. 



D. João, que, á frente de poderoso exercito, 
andavam, com variado successo, guerreando 
os mouros, fumm desbaratados e morreram na 
veiga de Granada, causando esta victoría dos 
agarenos grande terror, em toda a monorchia de 
Leão e Gastella. 

Diniz mandou dar os pezames â desolada rai^^ 
nha, pela morte do filho e do cunhado, e offe* 
recer-lhe soccorro contra os mouros. Para se tor- 
nar efectiva a promessa, saiu ao mar o almirante 
Manuel Pezagno; e, como dissemos, praticou, 
então, verdadeiras proezas, com os navios por- 
tuguezes. ^ 

D. AfTonso, sem attender ã politica elevada dd 
r i, cego na sua ambição, depois das vistas de 
Fuente Grimaldo, começou a percorrer o paiz, 
á frente de numerosos bandos de parciaes, evi- 
tando, durante dois annos, encontrar-se com 
seu pae, e commeltendo e deixando commetler 
aos seus os maiores desacertos e excessos. 

Dois sobrinhos do bispo de Lisboa, â hora do 
meio dia, no centro da cidade e em occasião que 
o rei e a rainha n'elia residiam, esperaram na 
rua, com alguns creados, o filho d'Bstevão Paes, 
um dos principaes cidadãos, eassassinarum-no, 
aleivosamente. Foram presos os criminosos; e 
Diniz, sem attender ás rogativas do tio e do ir- 
mão, que era bispo do Porto, mandou-os justiçar. 
Gonsideraram os dois prelados como grande of- 
fensa o rigor d'el-rei; abandonaram o reino, e 
hostilisaram, abertamente, o soberano. Toniou- 
os D. AfTonso em intimidade e privança, e protc- 
geu-os, por todos os modos, com grave desgosto 
de seu pae. 

Tendo Affonso Sanches adquirido, por troca, a 
villa d*Aguiar, o iodo tomar posse, por lhe ha- 
verem morto alguns creados seus a que incum* 
bíra a missão, o infante foi sobre elle, no intento 
de o matar. Para evitar tão nefando crime, não 
bastou el-rei enviar mensag^^iros, foi preciso ir 
pessoalmente, com numeroso séquito, cobrir o 
caminho ao seu bastardo predilecto. 

Um dia, aprescntaram-se a D. Diniz, em San- 
tarém, dois cavalleiros da casa do infante, e, 
em nome d'esle, entregaram-lbe uns instrumen- 
tos públicos, feitos, dizia-se, n'uma villa caste- 
lhana obscura, intitulada Magazella; os juizes, 

t Mon, Lus, P. 6 I. 19, c. i6., 



no 






algasil, alcaides e tabdli&es do logar afflrma- 
Yam que um escudeiro do iofaote ferira mortal- 
laente, entre nove vaqueiros que aceudiram aos 
brados, um liomem portuguez, que, ao expirar, 
confessara estar encarregado por Âffonso San- 
ches de dar peçonha ao infante herdeiro da 
cofôa de Portugal;— e D. ACTonso requeria, so- 
lemnemente, a seu pae justiça contra o irmão 
que pertendera envenenal-o. D. Diniz, suspeitoso 
d'algum ardil, mandou a Hagazella inquirir do 
oaso. Gonheceu-se que os documentos, appre- 
aentados pelo infante, eram completamente fal- 
sos; nem na villa havia as authoridades de que 
rezavam, nem os nove vaqueiros que se afir- 
mava terem preseoceado o acontecimento, nem 
enfim tal attentado jamais succedera alii. Este 
criminoso embuste do filho e dos seus parciaes 
lançou em grande magoa o coração do velho so- 
berano. Porem mais o amarguraram ainda os sue- 
cessos sanguinolentos que se seguiram. 

Na comarca d*enlre Douro e Minho, bandos 
de revoltosos do infante esperavam nos cami- 
nhos bons fidalgos da casa d'el-rei ou de seus 
filhos bastardos e assassinavam-nos. Levantau* 
do-se tropas para os reprimir, travaram com 
algumas d'cllas um recontro em que, entre outros 
indivíduos, foi morto Lopo Gançalves d'Âbreu, 
um dos melhores cavalleiros do reino. Hem 
Rodrigues de Vasconcellos, meirinho-mór da 
província, poude, por fim, bater os bandos suble- 
vados, e degradou-os das terras do seu governo. 
Então o infante, com grave escândalo, recolheu 
& sua corte, junto a Coimbra, aquella gente fac- 
cinorosa, e dotou os chefes com pensões e com- 
mandos. ^ 

O mesmo fez a um homem seu, João Pires de 
Portel, que foi, com outros, assaltar e roubar o 
mosteiro de Marmelal de quanto possuia; os 
bandidos violaram as religiosas e as mulheres 
casadas e virgens que encontraram, e recolhe- 
ram-se depois, com o roubo, a casa do infante. ' 

Para desculpar tão criminosos desvarios, D. Âf- 
fonso e seus parciaes espalhavam, por toda a 
parte, que el-rei estava requerendo na cúria a 

^ Mou. Lu8. cit. c. 21. 

' Duarte Nunes de Lefio, Chronica d^el-rei D. Di- 



legitimação d^Âffonso Sancfaes, pva lhe 
a coroa em detrimento do filho legitimo, e 
que, para fundamentar a petição, fizera tirar ins- 
trumentos pelos povos, justificando a iuhabili- 
dade do infante para o governo. 

D. Diniz, que desejava, a todo o custo, proceder, 
n'este negocio, com suavidade e prudência, man- 
dou cartas ãs principaes cidades e villas do reino, 
pedindo que declarassem, se a alguma d'ella8, 
directa ou indirectamente, fallara em tal sen- 
tido. Todas responderam que não, em certidões 
publicas e autbenticas. Munida com estes do- 
cumentos, enviou el-rei a Aviohão a embai- 
xada, a que já nos referimos n'outro8 negócios, 
de Manuel Pezagno e o deão do Porto, Gonçalo 
Pereira, requerendo a João xxu a attestação de 
nunca D. Diniz ter sollicitado, na sé apostólica; 
a desherdação de seu filho legitimo. 

O negocio correu na cúria os devidos trans- 
mittes, e, a 10 de setembro de 1320, o pontífice 
assignou a bulia Nuper ad aura notíra$^ decla- 
rando que, nem durante o seu governo, nem o 
dos papas Bonifácio viu, Benediclo xi e Clemente 
V, seus antecessores nos últimos vinte e seis an- 
nos, jamais da parte d'el-rei ou de pessoa al- 
guma, por escripto ou verbalmente, se fizera 
supplica de dispensassão de illegitimidade para 
Affonso Sanches poder alcançar a successão do 
reino; e o santo padre, no diploma, estranhava 
que se divulgassem taes calumnias. 

A bulia é dirigida aos arcebispos, bispos, con- 
ventos, condes, barões e capitães, e a todos re- 
commenda que trabalhem, com efficacia, para 
restabelecer a concórdia entre o rei e seu filho, 
c entre este e seu irmão natural, porque «emfim, 
--diz o pontífice,— naturaes ou l«gitimo8, ambos 
são irmãos e filhos do mesmo pae*. ^ 

Apenas os embaixadores alcançaram este do- 
cumento importantissimo para el-rei, e obtive- 
ram a solução dos outros negócios graves a que 
iam, partiram para Portugal, onde chegaram 
nos últimos dias de outubro. A 3i doeste mez, 
cm Lisboa, o bispo d*Evora, D. Giraldo, na pre- 
sença d*outros prelados, de todas as authorida- 
des da cidade, muitos nobres e grande mul- 

i Arth. Nac. M. 4, n.» 4 da Gollec. das Bulias.-* 



niz, vol. 1.» pag. 123.— Ruyde Pina, aron. dVí-reí • Quad-. Elem, t. 9 pag. 327.— Jlfon. Lw. P. 6 1. 19 
D. Diniz, c. 21. I c 17. 



Historia ■ de Fditagal 



251 



tidSo âe poYO) fez, com toda a soiemnidad^, 
a publicaç&o da baila, qae destraia, completa* 
meote, oa sappostos fundameatos da rebellião. 
Picaram na maior irritação o iofánte e oá seus 
partidários. 

De mais a mais, Diniz, aotes de chegarem 
as letras apostólicas, desejaodo sereaar os ani- 
mos, e mostrar, claramente, aos povos a injnstiça 
do procedimento de seu filho, esa*eYera um ma- 
nifesto, onde, com largueza expozera os favores 
que tinha feito a D. Affonso e os muitos aggravos 
que d'elle recebera. Este documento fora lido 
em Santarém, no dia 1 de julho, ante o povo, 
a nobreza e clerezia da villa, convocados para 
este fim; e presidira ao auto, como ministro e 
procurador d'el-rei, o mesmo D. Giraldo, bispo 
d'Evora. ^ No anno seguinte de 1321, em Lis- 
boa, a 11 de maio, publicou eUrei outro mani- 
festo, relatando os novos aggravos praticados 
pelo infante. Foi doestes dois documentos que 
es velhos chronistas extractaram, entre outros, 
08 excessos referidos: não devemos suppor que 
um rei, como Diniz, alterasse a verdade de fa- 
ctos que toda a nação presenceára, para denegrir 
o procedimento d'um filho, quando essa falta 
de verdade só redundava em monoscabo do 
seu caracter. Infelizmente, a realidade era que 
03 actos do infante se tornavam, de dia para dia, 
mais criminosos e deploráveis. 

Não se contentando com as correrias, em que, 
divididos em bandos, tinham até ahi andado oe 
seus partidários, D. Âfibnso, incitado pela pró- 
pria ambição e pelos fidalgos que o rodeavam, 
organisou, n^este mesmo anno de 1320, uma 
hoste numerosa, safaiu de Coimbra, e lançou-se 
sobre Leiria. Poram-lhe aba-tas as portas por ai* 
guns parciaes, nomeadamente, por Domingos Do- 
mingues, antigo copeiro d'el^rei, então alvasil 
da villa, e que, n'e88a qualidade, tinha as chap 
ves, pela rainha D. Isabel, dcmataría do lo- 
gar. Apoderando-se da povoação, o infante dei-< 
xou 08 seus commetterem grandes insultos e 
roubos contra os moradores, fieis a el-reú 

Eslava D. Diniz em Santarém, quando rece« 
beu a noticia de tão estranho successo; congre- 
gou aa forças de que poude dispor e correu a 
recuperar Leiria. O infante, apenas soube d« 

1 Hb». £m. eU. c«i8. 



marcha d^el-rei e que levara toda a gente de 
guerra, foi direito a Santarém, por outro cami* 
nho, e assenhoreou-ee, facilmente, do castello 
e paço d'Âlcaçova. 

Era a rebellião manifesta e armada, a perfeita 
guerra civil contra o rei legitimo. 

Ficou Diniz surprebendido da audácia do filho; 
esqueceu-se por um momento que era pae, e foi 
rei, rei da sua epocha de barbara ferocidade. 

Chegava a Alcobaça, quando recebeu a noti"* 
cia da tomada de Santarém; soube, ao mesme 
tempo, que no mosteiro se achavam refogiadoe 
alguns dos moradores de Leiria, que, desleal*^ 
mente, haviam entregado a villa ao infante. 
Estavam os miseros acolhidos na capdla que 
servia de jazigo aos reis anteriores, e abraça-' 
dos ás sepulturas reaes. Diniz, cego de ira, 
não respeitou as immunidades do mosteiro, nem 
o abrigo junto às cinzas de seus maiores. Man-^ 
dou arrancar d'aHí os rebeldes e entregou-os ao 
meirinho-mór, Lourenço Annes Redondo, senten- 
ceando os que fossem encontrados incursos nar 
traição a serem decepados de pés e mãos e quei- 
mados. Levados os preeos a Leiria, ahi se exe- 
cutou a justiça real em nove, entrando n'este nu^ 
n^ero o alvasil Domingos Domingues. Foi d'e0taf 
arte que se firmou, na primeira povoação in>* 
surrecionada, a ordem pelo terror. ^ 

Estes rigores de repressão não tiveram o re-» 
sultado que el-rei esperava. A rebellião do in- 
fante proseguiu audaciosa, por todo o reino. 

Como D. Diniz voltasse a desalojar o filho de 
Santarém, AfiTonso deixou á pressa a villa e 
foi-se a Torres Novas, onde se demorou alguns 
dias. Seguiu depois a Thomar. Os freires da 
nova cavaliaria de Ghristo cerraram-Ihe as por*< 
tas do castello, que a villa ainda não tinha mo-^ 
ros, e recolheram n'eUe todo» os mantimeai09 
do termo, de modo que o infanie teve de regree^ 
sar, immediatamente, a Coimbra. 

Has a traição dos moradores de Leiria, nld 
obstante haver jã sido reprimida e castigada, 
continuava a pungir no orgulho de monaroha.; 
Leiria perteoda a sua esposa, cujo extremo pelo 
filho era a todos manifesto. Muitos asseTeravam, 
na própria presença do soberano, que a villa não 
se entregaria ao infante, tão facilmente, como fi« 

t 9hi^ Im* oii ^ 21, 



152 



Historia de Portugal 



zera, sem o assentimeolo da donatária; teima- 
vam que a raioha preveniria o filho de todos os 
movimentos e planos d'el-rei, de modo que Af- 
fonso poderia ludibrial-o livremente, — e avança- 
vam até que, não sendo possível o infante sus- 
tentar a sua hoste, com os rendimentos próprios, 
por certo, D. Isabel Ibe fornecia quantias impor- 
tantes, tiradas das avultadas rendas. 

No intuito de defenderem a princeza, depois 
declarada santa, alguns dos velhos escriptores 
asseveram serem caiumniosos taes boatos. É 
certo, porem, que nem todos os contestam, an- 
tes alguns 03 confirmam, que tinham grande ca- 
racter de plausibilidade e que D. Diniz lhes deu 
pleno credito. Na verdade, sem intenção de fazer 
mal ao marido, nem de perturbar o reino, e só no 
propósito de beneficar o filho,— fácil e natural era 
que a mãe o prevenisse das marchas contra elle 
das tropas reaes, e lhe desse o dinheiro que as 
grandes despezas de que o infante se sobre car- 
reara e a sua insaciável cubica pediriam sem 
cessar. O dinheiro, porem, como direnu)s, tinha, 
provavelmente, outra origem. 

Todavia, para obviar a taes inconvenientes, 
verdadeiros ou suppostos, D. Diniz ordenou 
que a rainha se aífastasse da corte e se reco- 
Ihesse á sua villa d'Âiemquer, e privcu-a das 
rendas com que a dotara; impediu assim que 
communicasse ao infante as suas resoluções e 
lhe fornecesse meios para a guerra. Este de- 
creto, que a tradicção ecclesíastica censura em 
Diniz, foi um acto de boa c verdadeira politica, 
exigido pela gravidade das circumstancias. 

D. Isabel, virtuosa e prudente, assim pa- 
rece tel-o comprehendido. Apenas se reco- 
lheu a Alemquer, chamou para junto de si 
as damas devotas da povoação, entregando-se 
com ellas aos seus costumados e assíduos exer- 
cícios de piedade; e regeitou, formalmente, 
diz-se, a offerta que lhe fizeram os alcaides e 
moradores das suas numerosas villas e castellos 
de obrigarem a el-rei, pelas armas, a restituir-lho 
08 bens. 1 

No entanto, o infante proseguia no caminho 
4q rebellião. 
' Sob pretexto de romaria a S. Vicente, cujas 

1 Mon. Jja. cit.— CArottfcas d'EUrei D, Diniz de 
Ruy de Pina e ^e D. N. de LeSo, togares citados. 



relíquias se veneravam na catbedral de Lis- 
boa, juntou a sua gente e marchou com ra- 
pidez, sobre esta cidade* Militarmente, era um 
acto bem planeado e de grande audácia, por 
que, senhor d'ella, o infante teria o melhor 
porto do reino, as suas esquadras e os recursos 
de homens e dinheiro da maior povoação. Fe- 
lizmente, as suas tropas não eram safficieoles 
para a empreia. Diniz, que estava em Sautarem, 
veio, immediatamente, sohre Affònsocom maio- 
res forças; e mandou-lhe dizer que, como filho, se 
lhe juntasse, e despedisse os malfeitores que tra- 
zia comsígo. O infante, surdo à voz da rasão, mas 
vendo que não podia entrar a cidade, nem 
esperar a el-rei em campo aberto, passou a 
Cintra, e tomou posições nas agruras da serra. 

Quando o monarcha, chegando ao Lumiar, se 
deteve algumas horas, para dar tempo aos bons 
pensamentos actuarem sobre o filho, soube da 
sua ida marcial para Cintra. 

Offendido d'este procedimento, el-rei mar- 
chou para lá era som de guerra, com o pendão 
real desfraldado. Ao aproximar-se, avistou o in- 
fante em boas posições e na attitude de resistir 
ò sua bandeira e pessoa. Dava-se o flagerante 
delicto de rebellião clara e patente. 

Mas Diniz era pae, esitou, não consentiu 
que se investisse com a hoste do infante. Este, 
passado largo espaço, deixou a serra, e, por ca- 
minho afifastado, veio ao Lumiar. D. Diniz, co- 
brindo Lisboa, dirigiu*se a Bemfica, em observa- 
ção. O infante, para maior ofTen^a, avisinhou-se 
do exercito real, alujando-se ante elle, a distan- 
cia d'uma pequena légua. 

Perdeu el-rei a paciência, e mandou dizer 
ao filho que o esperasse, que ia pessoalmente 
prender os criminosos que o rodeavam e casti* 
gal-os, na sua presença. Affbnso, por um resto 
de respeito talvez, e, o que é mais certo, re- 
ceiando as forças superiores de seu pàe, reti- 
rou-se, rapidamente, em direcção a Coimbra. 

El-rei usou da piedade de o não seguir e ba- 
ter. Limitou-se a publicar um decreto, decb- 
rando-o desleal e traidor e a todos os seas, e 
ordenando aos povos que o nfto recebessem, 
nem lhe dessem auxilio, sob pena de serem tam< 
b^ considerados reos de traição. 

Foi um erro politico e militar. O infante tinha 
então apenas por si os cavalleiros e soldados da 



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Assassinato do Bispo de Évora 



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SOU geral escândalo no reino, e grande magoa 
na corte e na dioceM. 
n YOL.— 20, 



1 Mon. Lus. cit. 24. 
* JKon. Í.IIS. cit. c. S5, 



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8ua boale, t&enor que á d'el-reK, e qôe seria, in- 
dubilavelmente, desbaratada, se o monarcba cha- 
masse ás armas a população de Lisboa, qae sem- 
pre se conservou flél. Deixando ir Affonso livre 
com as suas tropas, depois de haver afrontado 
o poder real, deu azo a que a sedição se propa- 
gasse pelo reino, se apoderasse, com fadilidade, 
de grande parte d'elie e commettesse os maio- 
res desvarios. 

Em breve, se seguiu um, horrivelmente, cri- 
minoso. 

Como o infante procurava augmeutar o numero 
dós parcial, levantando gente onde podia e 
insurrecionando os ânimos, Diniz resolveu man- 
dar ás diversas comarcas pessoas principaes, 
que obstassem aos manejos de Affonso, serenas- 
set) os espíritos e os conservassem na suaob- 
díeneia. Para a província do Alemtejo, foi o bispo 
d'Evora, D. OiraldOi e ahi começou a exercer, 
com activa intelligeneia e influencia poderosa, 
a sua missão paci&cadora. 

De todos os prelados do reino e ministros reaes 
era D. Giraldo o mais odiado na casa de Affonso. 
Pòra elle, como vimos, que publicara, solemne- 
mente, as bulias enviadas da cúria contra os re- 
beldes, e os manifestos d*el-rei; era, alem d^isso, 
dos servidores mais leaes e valiosos de D. Diniz. 

Apenas, na sediciosa corte do herdeiro da co- 
roa, houve noticia que o bispo andava no Alem- 
tejo, partiram, immediatamente, de Coimbra, 
Affonso Novaes e Nuno Martins Barreto, gentis 
homens do infante, com grande copia de gente 
de pé e de cavallo; e, conservando no maior se- 
gredo o seu damnado intento, passaram áquella 
comarca, em busca do prelado. 

Sabendo que estava em Estremoz, entraram 
a villa por surpreza, no dia 5 de março de 1321; 
invadiram, em tumulto, a casa em que se alojara, 
e, sem respeito á sua idade, elevados mereci- 
mentos e alta dignidade civil e ecclesiastica de 
que se achava revistido, insultaram-no e assas- 
8inaram-D0, barbaramente. 

Commetteudo outros crimes, nas villas e to- 
gares por onde passavam, recolheram- se os fidal- 
gos id sacrilagos assassinos a casa de D. Affonso, 
onde foram festejados e applaudidos. 

O ikteivoso homiddio do bispo D. GiraMo cau- 
sou geral escândalo no reino, e grande magoa 
na corte e na diocese, 
n VOL.— 20, 



Os moradores de Estremoz acompanharam o 
corpo do prelado até Évora, onde a clerezia, 
a nobreza e o povo o receberam, com grandes 
mostras de sentimento, e lhe deram sepultura, ao 
lado direito da capella mór, na cathedral. ^ 

O assassinato do seu ministro e conselheiro 
desvelado devia causar a Diniz profunda sen- 
sação; repetidos golpes dolorosos retalhavam, 
n^estes últimos tempos, a sua alma sensível, k 
desobediência do legitimo herdeiro juotára-se, 
no anno antecedente, o fallecimento de sua es- 
tremecida filha D. Maria, professa em Odivellas, 
de cuja virtude rezou, por largos séculos, a tra- 
dicção do mosteiro. 

Tão fundas e frequentes magnas começaram 
a alterar a saúde do velho monarcba, e a aggra- 
var-lhe e a amiudar-lhe as enfermidades. 

Táílvez, era parte, por se conhecer, geralmente, 
o estado valetudinário d'el-rei, é que, de dia para 
dia, foi engrossando a parcialidade do infante. 
Primitivamente, resumia-se aos descontentes au- 
daciosos, â parte mais turbulenta da nobreza e 
aos foragidos da justiça. Depois, junlaram-se-lhe 
quasi todos os fidalgos jovens, inquietos e ambi- 
ciosos; por fim, até os povos adheriam ao seu par- 
tido, com facilidade: — é que Affonso era o futuro 
imminente, de hora para hora mais próximo; e 
Diniz representava o passado e um presente pró- 
ximo a extinguir-sè. O egoísmo, o interesse e a 
cubica desertavam do velho, que declinava no 
sepulchro, e já pouco podia dar, — para se alista- 
rem nas fileiras do mancebo, que estava prestes 
a subir os degraus do throno, e tudo promettia. 

Com esta corrente, que principiava a éstabele- 
cer-se, foram inúteis todas as tentativas de con- 
ciliação. A pedido de B. Diniz, e para contrariar 
a politica de Castella, o rei d'Aragão enviou, por 
este tempo, a Portugal seu meio meio irmão D. 
Sancho, que tinha igual parentesco com a rainha 
D. Isabel, encarregando- o da missão de barmo- 
nisar o infante com el-rei. Resestiu porem D. Af- 
fonso aos conselhos e rogos do tio, e este re- 
gressou â pátria; sem nada conseguir. ^ 

Vivia o infante em Coimbra, não dentro da ci- 
dade, que se conservava leal a el-rei, como até 
ahi todas as do reino, mas nos paços do arrabalde, 

^ Mon. Iais. cit. 24. 
> Mon. IiM, cit. c. 25, 



154 



Historia de Portugal 



juQto a S. Lourenço. Seu irmão o condeD. Pedro, 
uoico dos bastardos de D. Diniz que seguia o par- 
tido do infante e que por isso el-rei deportara de 
Portugal, mas que, ultimamente, viera de Castella 
juntar-se ao irmão, aconselbou*o a que se fosse 
apoderando das terras do reino e estabelecendo 
n'eJlas governo seu, devendo começar por Coim- 
bra, que, tão visinba, era desdouro não lhe per- 
tencer. 

Reunidas as forças para o intento, realisbu-se, 
na tarde do ultimo dia de dezembro dé 1321, 
rapidamente, sem resistência alguma dos mora- 
dores, que, por descuido ou secreto accordo, 
tinham abrandado na vigilância das portas e 
muralhas. ^ N'esse mesmo dia, foi alojar-se no 
paço da cidade, a infanta D. Beatriz com seu filho 
D. Pedro, que nascera em 8 de fevereiro do anno 
anterior, e estava destinado a vingar o a^ das 
afrontas que o pae, agora, lhe fazia. A esposa d'Àf- 
fonso voltava d*Alcanizes em Castella, para onde 
o marido, ao retirar de junto a Lisboa mezes an- 
tes, a levara, allegando que só fora do reino re- 
putava a sua familia em segurança. 

No dia seguinte, 1 de janeiro de 1322, seguro 
já da posse de Coipibra, partiu o infante para 
Monte Mór o Velho, e, apenas chegou, apode- 
ruu-se do castello; o mesmo fez, trez dias depois, 
ao de Gaya. Amba^ estas fortalezas importantes 
confiara elrei ao fidalgo Gonçalo Pires Ribeiro, 
que as tinha desguarnecidas de gente de guerra. 
Para os tempos revoltosos que corriam, tal aban- 
dono parece no alcaide traição manifesta, e da 
parte do governo descuido indesculpável. De Gaya 
voltou D. AíTonso á villada Feira, cujo^castello lhe 
foi entregue, por aleivosía clara do donatário, 
o nobre cavallciro, Gonçalo Rodrigues de Ma- 
çada.* 

Reunindo se ao infante o conde D. Pedro, com 
grande cópia de gente, marcharam ambos sobre 
o Porto, que não era então rodeado de mura- 
lhas, e apenas tinha, por defeza, um pequeno 
castello ou torre de menagem, junto ácathedral. 
Ante as numerosas tropas dos rebeldes, a resis- 
tência era impossivei. Renderam se a cidade e o 
forte; e o infantq, apoderando-se do Porto, tendo 
já Coimbra, Monte Mor o Velho, Gaya e Feira, 

1 Mon. Lui, c. 26. 
« Ibid. c. 27. 



julgou-se senhor das comarcas da fieira e Entre 
Douro e Hinho. 

Obrigou 08 povos a tomar as armas, orga- 
nisou um exercito, e por alvitre de Martim Ab- 
nes de Briteiros, nobre muito aparentado no 
norte do reino, dirigiu-se a Guimarães, cuja 
posse o rico homem lhe pintou fácil, pelas suas 
relações de família e amisade, na povoação. 

Era então alcaide da nobre villa e meirinho- 
mór da comarca um valente e leal cavalleiro, 
Mem Rodrigues de Vasconcellos, aquelle qae 
desbaratara, como dissemos, os criminosos ban- 
dos do infante, nos primeiros tempos da insur- 
reição. 

Cerrou as portas da praça, negou-se, terminan- 
temente, á entrega, e, como o infante assentasse 
arraiaes, Mem Rodrigues dispoz-se á defeza. 
Logo a começou brilhantemente, ás primeiras 
investidas, e de tal arte que foi abatida, — ^diz o 
chronista d'Alcobaça, — pelo povo e nobreza da 
villa, a presumção do infante e dos seus par- 
cíaes. 

Durou dez dias o assedio, combatendo o in- 
fante as muralhas, com tanta insistência como 
inutilidade. Promessas, ameaças, assaltos, tudo 
foi baldado, ante a coragem dos sitiados. Alcan- 
çou este feito geraes louvores, como rasgo de 
valor e lealdade; D. Diniz premiou, condigna- 
mente, Mem Rodrigues e o povo de Guimarães, 
concedendo-lhes depois, variai honras e privilé- 
gios. ^ 

No meio de tão porfiada resistência, recebeu 
D. Affonso a noticia de el-rei seu pae, com gran- 
des forças, ter avançado sobre Coimbra, no intento 
de a conquistar. O infante levantou, precepitada- 
mente, o sitio, e correu a proteger a cidade onde 
tinha arvorada a sua bandeira, e em que deixara 
esposa e filho. 

D. Diniz chegara, diante dos muros da antiga 
capital do reino, nos primeiros dias de março, 
levando a gente de guerra das comarcas do 
sul, Extremadura, Alemtejo e Algarve, e bem 
assim os cavalleiros das ordens militares, que 
todas se lhe conservaram fieis. 

Tendo atravessado o Mondego, achou cerradas 
as portas da cidade, b a sua forte guarnição dis- 
posta a deffendel-a. Alojou «se Dídíb, no paço de 

i Vide pag. 68 doeste Livro. 



HUrtorta de Portugal 



165 



S. Loorenço; e eomo Coimbra não cedesse ás 
Buas intimações, para lhe castigar a rebeldia, 
oom^çoa por mandar destruir o pittoresco arra- 
balde e talar seus férteis e ajardinados campos: 
arrazaram-se casas, cortaram-se pomares, ar- 
rancaram-se vinhas e destruiram-se, completa- 
mente, as sementeiras. ^ 

Ao mesmo tempo, combatia-se a cidade, mas 
debalde: a guarnição era aguerrida, numerosa e 
tenaz na rebeldia; para as armas do tempo as 
muralhas consideraTam-se inexpugnáveis. 

A guerra civil altingira pois todos os horro- 
res; eram, sem escrúpulo, anniquillados os have- 
res, .e matavam-se uns aos outros os filhos da 
mesma pátria. 

Quando o infante com o conde D. Pedro e o 
seu exercito, que viera a marchas forçadas de 
truimarães, se approximou de Coimbra, vendo 
que el-rei estava no paço de S. Lourenço, que 
ficava no caminho da cidade, fez um rodeio, 
desviando-se, e foi alojar-se uma légua, mais 
acima, no mosteiro de S. Paulo. 

Ao mesmo tempo, chegava também a rainha 
D. Isabel, que, sabendo da guerra em que o 
reino ardia, deixara Alemquer, e vinha no in- 
tuito de restabelecer a paz. ^ 

Meditava todas as traças possíveis e as roga- 
tivas mais instantes, para congrassar o filho com 
o marido, antes de se ferirem os combates, que 
a proximidade e a exaltação das duas hostes tor- 
navam imminentes. 

Com a chegada das tropas do norte, suspen- 
deram-se, por três dias, as hostilidades: os dois 
exércitos, antes d'entrar na lucta, mediam-se, 
mutuamente, para melhor se accommetterem. 

Aproveitou a rainha as tréguas tachas, e, au- 
xiliada pelo conde D. Pedro, que desejava com- 
por-se com o pae, para ser reintegrado nas 
honras e bens que possuirá, diligenciou realisar 
a santa missão que tomara sobre si; effectiva- 
mente, conseguiu que dos dois lados contendores 
se nomeassem delegados, para tratar de um 
acGordo. ^ 

^ Mon: Lm, cit c. 28. 

* Fr. R. de Jesus, Mon. Lus. P. 7. 1. 4. c. 10. 

3 P. Pedro, conde de Barcellos, pertenceu também 
á grande pleide de poetas, que constitue este bri- 
lhante ciclo da litteratura portugueza. 

No citado Cancioneiro da Vaticana, é designado 



Com o fim de se combinar mai» livremente, 
estabeleceu se que o infante se recolhesse ã ci- 
dade, onde residia a esposa, e el-rei com a sua 
hoste deixasse o arrebalde, e fosse acampar em 
S. Martinho do Bispo, para aquém do Mondego. 

Os parlamentarios, presidido? pela rainha e o 
conde de Barcellos, demoraram porem o tratado, 
e, durante quatro dias, nada poderam concluir. 
Então, D. Diniz, impaciente e offendido, levantou 
o arraial e marchou para Coimbra, resolvido a 
accommettel-a. A não transporá corrente, taWez 
então caudalosa do rio, só havia um caminho a 
seguir: a estreiteza da ponte. 

Era um sabbado, 20 de março. Ouviram-se 
na cidade as trombetas das tropas reaes, e vi- 
ram-se, na outra margem do rio, os soldados e 
cavalleiros de D. Diniz avançarem para o con- 
vento de S. Francisco, o antigo, hoje soterrado 
no areal, e então era construcção e situado na 
extremidade, ã esquerda da ponte, fronteiro a 

Coimbra. 

Todos se armaram, rapidamente; acudiram ás 
muralhas, e um grande troço dos melhores guer- 
reiros sahiu a porta e collocou-se na ponte, para 
defender a passagem. Investiram-no, com pode- 
roso Ímpeto, os cavalleiros d'el-rei, etravou-se 

como author das composições que teem os números 
Í40 a 213, 1037 a 10i2 e 1058, a maior parte das 
quaes sáo do género sirventesco ou satyrico, e re- 
velam mais habilidade e senso pratico do que ta- 
lento. 

O author da Historia Geonologica (T. 1. p. 266) 
e antes d'ene outros eruditos esíorçaram-se por pro- 
var que o conde D. Pedro escreveu o Nobiliário, 
conhecido, gerahnente, pelo seu nome, dizendo que 
algumas passagens que o livro contem, que se refe- 
rem a famílias e pessoas posteriores cá morte do 
conde, foram ahi introduzidas por cscriptores mais 
modernos, indicando alguns o grande FernSo Lopes. 

O que se tem hoje como certo porem é que o 
Nobiliário do Conde D. Pedro, ou propriamente o 
Livro das Linhagens, que existe na Torre do Tombo, 
é, como diz o nosso chorado historiador Alexandre 
Herculano (Hist. de Port. T. 1. nota xiv), «um com- 
posto de diversas memorias geonologicas, escriptas 
em cpochas differentes, e mal coordenadas, prova- 
velmente no século xv.i Todavia a maior parte 
d'ellas e bem assim as do Livro velho das Linhagens 
foram redigidas, nos princípios do século xiv, no 
tempo de Diniz, como já dissemos. 



1 



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^9. 



um recontro, tão brilhante em proesas de valor 
individual, quanto deplorável por ser em lutafra- 
tercida. Um fidalgo realista, Gonçalo Pires Ri- 
beiro, na sua heróica audácia, rompeu as fileiras 
da gente do infante e chegou até à porta, ten- 
tando penetral-a. Defenderam-na dois esforçados 
irmãos; não só quebraram o Ímpeto do agressor, 
mas obrigaram-no a recuar tanto que o lançaram 
ao rio. Com estes e outros iguaes successos, du- 
rou o combate largo espaço; só terminou quando 
el-rei, recolhendo-se ao mosteiro, deu o signal 
de retirar. 

Ficaram os sitiados vencedores, mas tão mal 
feridos, que não desejaram segundo combate; 
alem d'is60, a rainha, a infanta sua nora, os pre- 
lados e alguns nobres principaes, que, do alto 
das torres e muralhas da cidade ou das gelo- 
sias do convento de S. Francisco, haviam assis- 
tido â pugna, vendo os seus desastrosos resulta- 
dos, instaram com Diniz e Affonso pela conclusão 
da paz. 

Para chegar, mais facilmente, a um accordo e 
evitar a eventualidade d'um novo reconlro, que 
a proximidade dos dois exércitos tornava pro- 
vável, ajustou-se ir el-rei para Leiria e o infante 
para Pombal, ficando assim distanciados algu- 
mas léguas do logar da contenda. Como, defini- 
tivamente, se assentara na paz, faltando apenas 
estipular as bases, os dois chefes despediram as 
tropas, que recolheram ás respectivas localida- 
des; ficaram apenas com o rei e o infante os mi- 
nistros, ofiiciaes das suas cortes e as guardas 
pessoaes. 

Nos princípios de maio, concluiu-se o tratado. 
Declarou-se D. AíTonso obediente a el-rei; e, com 
o perdão, deu-lhe D. Diniz os senhorios de Coim- 
bra, Monte-Mór o Velho, Gaya, Feira e Porto, 
prestando o infante juramento e menagem de os 
sustentar e defender, lealmente, á ordem do mo- 
narcha; e foram-lhe augmentadas as rendas em 
dinheiros e pannos; D. AíTonso obrigou-se tam- 
bém a despedir todos os malfeitores que aco- 
lhera e a deixal-os entregues á acção da justiça. * 
Perdoou el-rei ao conde D. Pedro, e restituiu-o 
ao antigo estado de honras e bens. 

Foi, solemnemente, jurado este pacto, na 

* Ruy de Pina, G*ron^ cit. c 24— iffow. Lus. cit. 
c. 29. 



egreja.de S. Martinho em Pon^bal, p?lo iafaite 
e a rainha sua mãe; e na de & Simão em Leiria, 
por D. Diniz e seus filhos bastardos; juraram, 
com um e outro príncipe, grande numero de pre- 
lados, mestres das ordens,.rico8 homens e cavai* 
leiros. 

Todo o reino festejou a desejada paz, e o her- 
deiro da coroa, acompanhado de D. Isabd, fai a 
Leiria beijar a mão d'el-rei e reconciliar-se, pes- 
soalmente. Nesta villa, se reuniram, com grande 
mostras de jubilo, as duas cortes e toda a famili?^ 
real. 

Foi grande e profunda a commoçâo dp vellio 
rei, vendo, junto de si, os dois filhos rebeldes e 
ausentes, havia annos. 

Alada partiu, com apparente saúde, para Lis- 
boa, na companhia da esposa e do infante; mas 
apenas chegou a esta cidade, cahiu, tão peri- 
gosamente, enfermo, que fez novo testamento, 
julgando próxima a derradeira hora. Estava po- 
rem reservado para novos dissabores, e melhorou, 
passado tempo. 

N'e8te testamento, datado de 20 de junho de 
1322, instituo el-rei vários testamenteiros, sendo 
o principal a rainha D. Isabel e depois Àffooso 
Sanches. 

Entre elles, apparece também o nome de Gon- 
çalo, deão do Porto, em que por vezes temos 
fallado, como companheiro de Manuel Pezagno, 
na embaixada á 8é apostólica. 

No mesmo anno em que el-rei fez este testa- 
mento, João XXII elevava Gonçalo ã mitra de 
Lisboa, nomeando os bispos expatriados D. Es- 
tevão e seu sobrinho para prelados de dioceses 
em Castella, com assentimento de D. Maria de 
Molina, — o que prava quanto ella favorecia a 
rebellião do infante D. ASbuso* 

De D. Gonçalo Pereira, o novo bispo de Lisboa, 
depois arcebispo de Braga, quando fora estu- 
dante em Salamanca, e de D. Thereza Peres Vil- 
larmho, com quem tivera amores, nasceu D. 
Álvaro Gonçalves Pereira, prior da ordem de 
S. João do Hospital; e este cavalleiro foi pae 
do grande condestavel D. Nuno Alvares Pereira. 
A gloria immprredoura do neto tornou illustres 
na historia os grandes merecimentos do avó. 

N*este anno de 1322, em 1 de junho, deu-se, 
na península, um acontecimento grave e fúnebre. 
Falieceu, em Valladolid, a heróica rainha D <Ma^ 



9ij|iii(<HriA( ^^'B091m9X 



VÊ^ 



rja de Mo)iaa, que, aoxUiada pelos povos, foi^ 
por largo tempo, susteoUculo da coroa de Ca6- 
tella e de{<pi8ora do palrimonio do filho e do neto, 
lotando, sem cessar, coatra as ambições desvai* 
radas dos pareates, as intrigas violentas dos no- 
bres e as armas agiuerrldas dos sarrecenos. 

D. Diniz, pelo parentesco próximo que tinha com 
a &aada« mandou celebrar pomposas exéquias suf- 
fragando a sua alma; mas a morte de D. Maria de 
Molina foi para el-rei quasi que victoria, e para o 
infante D. Afionsouma verdadeira perda politica. 
Na insurreição contra o pae, tivera sempre a rai- 
nha de Castella por incitadora e alliada. O di- 
nheiro, com que sustentara a guerra, e que mui- 
tos julgaram provir de D. Isabel d-Aragílo, talvez 
o obtivesse da viuva de Sancho, o bravo» Â cas- 
telhana ganhava, directamente, naluta, a rainha 
de Portugal arriscava n'ella a coroa, o marido e 
o filho. Alem d'isso, o vasto espirito de gover- 
nante e estadista de Maria de Molina estava 
maia affeilo aos lances arriscados e aos meios 
tortuosos de influir e dominar, do que o cora- 
ção, posto que ferido de ciúme, da mystica 
Isabel. 

Para dar execuçlo completa ao tratado de 
Coimbra e talvez apreveitando o ensejo do des- 
animo, que a morte da velha rainha lançaria 
no espirito dos partidários de seu filho, el-rei 
mandou, por todo o reino e, mui especialmente, 
nas camarcas de Entre-Douro e Minho e Trás os 
MonteS; prender c castigar os réus dos crimes 
de roubos, estuperos e assasinatos, commetli- 
dos, nos annos antecedentes, sob pretexto da 
rebeldia do infante, e que ainda se continua- 
vam a praticar, por alguns sitios. Os delegados 
reaes procederam, com energia, e conseguiram 
restabelecer a ordem e a segurança individual, 
profundamente alteradas, pela guerra civil. 

Foi um dos últimos serviços que ã pátria pres- 
tou o bom rei; mas não deixaria, por certo, de 
magoar seu filho, que, largo tempo, abrigara 
e protegera muitos d'esses criminosos, agora, en- 
tregues ao rigor da justiça. 

Succedou isto, nos primeiros mezes de 1323. 
Por meiade do anno, foi pedido de Castella soc- 
corro a Diniz e a ÂíTonso, para protegerem a 
cidade de Badajoz contra D. Fillippe, filho da 
fallecida rainha, que, pretendendo a tutoria do in- 
fantil monarcba e o governo do reino, se levan- 



tara em armas, e cercara aquella praça. Assentiu 
el-rei ao pedido, e encarregou o filho do com- 
mando da expedição. 

ASonso, que estava em Viseu, mandou ro- 
gar a Fiilipe que levantasse o assedio; respen- 
deu o castelhano descortezmente, e o infante 
apressou a marcha. Juntara, nas suas terras, toda 
a gente valida, e el-rei mandou-lhe de Lisboa, 
tropas numerosas. Com luzida hoste, aproxi- 
mou-se da fronteira; D. Fiilipe, então, afastou-se 
de Badajoz e recolheu-se a Sevilha. 

Orgulhoso com este serviço, ardente de am- 
bição e incitado por seus maus conselheiros, 
nomeadamente, poç Gomes Lourenço de Beja, o 
infante despediu as tropas, e foi a Santarém, 
onde el-rei estava, sollicitarlhe, com importuni- 
dade, augmento de rendas e novos senhorios de 
terras. Em torno do pae, encontrou todos os seus 
irmãos bastardos; a vista de Affonso Sanches 
mais lhe irritou o animo e descompoz os mo- 
dos. Esquivou-se el-rei aos pedidos do infante,, 
e este lhe requereu a reunião de cortes, para 
lhe ser augmentada a dotação, pretextando ai* 
gumas reformas, que disse necessárias, naorga- 
nisação judiciaria, e a frouxidão, que asseverou 
haver, na appiicação das leis. D. Diniz cedeu, 
facilmente, ã supplica, e convocou os três es- 
tados, para o mez de outubro d'esse mesmo anno, 
em Lisboa. 

As cortes, como instituição politica dos pri- 
meiros séculos da monarchia, ó assumpto já tra- 
tado, no antecedente volume. Aqui, só temos dq 
nos referir ã sua existência, no reinado de D. Di- 
niz. 

É um ponto histórico obscuro, e que ainda se 
não levou a satisfatória conclusão. Escriptores 
modernos de primeira nota, em cousas histó- 
ricas, como João Pedro Ribeiro, visconde de 
Santarém e António d'01iveira Marreca, trataram 
do assumpto, e, pelo que apontam, pode dizer-se 
que D. Diniz convocou as seguinte cortes: 

Na cidade da Guarda, antes de 1282, nos pri- 
meiros annos do seu reinado, em que se reuni- 
ram, como vimos, vários prelados do reino e 
por parte d'el-rei alguns ricos-bomens e juris- 
consultos, e se redigiu a primeira concordata; — 
as de Lisboa de 1285, em que os donatários e 
concelhos requereram as inquirições sobre as 
honras e os coutos;— *as da mesma cidade, eu) 



160 



filstòria dó j^òrtugal 



MfiiMtMMafiMMriM^ 



rfbiãAl 



rei, formadas em ordem de batalha, yedando-lhe 
a passagem. A vista do pendão real e talvez do 
magestoso Tuito de seu pae, que o coração lhe 
devia advinhar, no meio dos cavalleiros realistas, 
nfto commoveu o animo endurecido d'Âfibnso; 
mandou este desdobrar em azas o seu exercito, 
que tomou, rapidamente e com audaz aspecto 
marcial, a postura de combate, prescripta pela or- 
denança do tempo. 

N'uma o n'outra hoste, com seu bárbaro e 
estridente clangor, tangeram as trombetas e 
anaGs, e, a iniciar a luta, uma nuvem de settas e 
dardos escureceu os ares, ferindo e matando os sol- 
dados das duas vanguardas, âo mesmo tempo, 
a cavallaria, com as lanças em riste e os montan- 
tes levantados, aguardava o signa), para começar 
a peleja. Paes, filhos, irmãos, amigos- d'um e 
outro campo, dispunham-se a começar a mutua 
carnificina. 

De súbito, penetrou pelas fileiras, montada 
numa mulla, uma nobre figura de mulher 
afQicta, mas como que cercada duma areola de 
castidade e respeito. Ao vel-a, os cavalleiros aba- 
teram os pendões e baixaram as lanças, e a pio- 
nagcm ajoelhou, com reverencia, fira a rainha 
D. Isabel; sabendo o que ia succeder, correra do 
paço d'Âlcaçova ao campo de Alvalade, para 
evitar o enorme desastre d'uma batalha abo- 
minável. Da hoste real passbu ás fileiras de 
seu filho. Por toda a parte, a acolheu a mesma 
adoração; todos viram n'e]la o anjo da con- 
córdia, e reconheceram o sacrilégio da luta que 
iam travar. Para com Affonso e os fidalgos que o 
cercavam, a santa aragoneza empregou a elo- 
quência das lagrimas e das supplicas maternaes. 
Em breve, o bispo de Lisboa, que também cor- 
rera, no mesmo intuito, ao encontro dos dois 
exércitos, a secundou nos seus esforços. Os prin- 
dpaes ricos homens, que acompanhavam o in- 
fante, cederam; £fonsofoi, portanto, obrigado a 
ceder também. Seguido apenas de seis cavallei- 
ros, veio junto d'elrei beijar-lhe a mão e pres- 
tar^lbe obdiencía. D. Diniz recebeu-o, com a bem 
desculpável rudeza do pae, tantas vezes ofifen- 
dido; mas perdoou-lhe, e mandou-o retirar para 
Santarém. 

O ioberano e a rainha voltaram a Lisboa; e 

t R. de Pina, Ckrm, cit. c.-^JMm. Im. oit. 



a população acolhea*os, eom a ovação mais ex- 
pontanea o jubilosa. ^ Foi talvez, paraaqnelle 
grande espirito de governante, o ultimo momento 
d'alegria do seu extenso reinado. 

No locul onde se deu o encontro das duas hos- 
tes, um pouco antes de chegar ao Campo Pe- 
queno, indo de Lisboa, pela estrada do Arco do 
Cego, vé-se, no muro do lado direito, uma es^ 
pecie de nicho, ou de pórtico, alguns cen- 
timetros levantado acima do solo. As pilastras 
lateraes são duas grossas meias canas, termina- 
das por pobres capiteis, rematados com mesqui- 
nhas pyramides; sae dos capitães uma demalha 
arqueada, tendo no alto uma bolla, relativamente, 
grande, que se ergue sobre a parede. O vão centrai 
é dividido ao meio, perpendicularmente, por 
uma columna semicircular, que toca na semalha 
e termina a um terço da altura, n'uma pedra, 
defendida por pequena grade de ferro, em meia 
laranja e moderna. É um padrão singelo, rude, 
de emplastragem recente e já, boje, bastante 
arruinada, dedicado ao facto alli succedido. 

Na pedra lá-se, em letra romana, moderna e 
vulgar, uma inscripção, lavrada, quando muito, 
nos séculos xvii ou xviii, posto se possa suppor 
que foi, originariamente, redigida em português 
de mais remota data. É provável que seja copia, 
additada e deturpada, da inscripção primitiva. 
Diz o seguinte: 

— «Santa Izabel Rainha de PcH^tugal mandou 
coUocar este padram n^este logar, em memoria 
da pacificação que n^elle fez, entre seu marido 
el-rei D. Dinis e seu filho D. Afonso iv, eslando 
para se darem batalha, na era de 1323». — Deve 
ier-se: no anno de 1323, era de 1361. ^ 

Teriam passado três mezes depois do aconteci- 
mento d'Alvalade, entrara o mez de Fevereiro de 
1324, quando el-rei partiu para Santarém, onde 
tinha por costume residir por algum tempo, n'esta 
quadra. Ia entregar-se, mais livremente, aos pra- 
zeres da caça e á contemplação da opulenta la- 
voura do Riba Tejo, que, em grande parte, se lhe 
devia. 

Chegando aos limites do concelho, teve noticia 
que AfTonso, residindo, havia tempo, com sua 

t Vilhena Barbosa, l)t«i0ns^9«eitlra e^r«t A. i^mts 
ê o infantt D. Affmí^» imp!^» no toI. y do Atékm 
Ptttorwco, 



wioa a. uutMxiia uu oMmpo ae Alvalade 



160 



!fiÍBtoria dó IPbittigal 



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rei, formadas em ordem de batalha, vedando-lhe | a população acolben^os, oom a ovaç&o mais ex. 






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t R. de Pina, Cknm, oU. c^JAm. £m«. oH, 



1 ViiiieimlíarboM,/>tw«w5wcJt<r»aN^<>.^<^ 
< o infante D. Af[(m¥>s b9I$ fitíio, no yol. v do ilrchtco 
PittareBco^ 



A ralnba D. Isabel, penetrando por entre as hostes do rei o do InAtnte, 
evita a batallia do oampo de Alvalade 



Hifl|orÍa de Portugal 



161 



corte, nos (»aços (l'Âlcaçova, lhe embaraçaria o 
ingresso na villa. Apressou el-rei a marcha; en- 
trou, rapidamente,* a poYoaçSío, antes que a gente 
dò infante tomasse accordo, e foi aiojar-se, com 
o seu séquito, nas casas de vários fidalgos, para 
não inquietar o filho, no paço real. 

Da permanência dos dois bandos adversos, 
dentro dos estreitos muros d'uma villa, resul- 
taram, como era d^esperar, constantes rixas, nos 
dias immediatos. A principal deu-se, na rua di* 
reita que ia do paço para S. Nicolau. Um nu« 
meroso grupo de gente do infante e da terra 
arremetteu com um troço de escudeiros d'el-rei; 
foi a peleja tal que houve feridos e mortos de 
parte a parte, principalmente, da do infante, sendo 
os seus obrigados a recuar, deixando prisio- 
neiros. O combate porem só terminou, quando D. 
Diniz e D. Afiònso appareceram armados, e, quasi 
á força, aquietaram os rixosos. El-rei mandou 
logo, por todo o reino, convocar gente, resol- 
vido a castigar seu filho e os discuios furiosos 
que o acompanhavam. 

Pensando nas calamidades que resultariam 
d'uma nova guerra civil, os fidalgos principaes 
d'ambos os partidos reuniram-se, na tarde do 
mesmo dia da lucta, para accordarero n'um novo 
pacta de paz. O monarcha porem, justamente ir- 
ritado, estava renitente e não queria ouvir fallar 
em concórdia. Demoveram-no^ a custo, seus 
filhos bastardos, Affonso Sanches e o conde D. 
Pedro. 

Nomeados árbitros, decediu-se que se desse 
maior dotação ao infante, e, a instancias doeste, 
que fossem tiradas a Affonso Sanches as rendas e 
bens da coroa que possuia e o cargo de mordomo 
mór, e se demittisse de meirinho mór d'Entre 
Douro e Minho Hem Rodrigues de Vasconcellos, 
o heróico defensor de Guimarães. Para segurança 
d'este pacto] deviam dar-se castellos em penhor 
d'uma e outra parte, nomeavam*se juizes árbitros 
e estabeleciam-se multas. Tudo condicçõeshumi- 
Ibaotes , para serem impostas por um vassalio a seu 
rei. O caracter odiento e cubiçoso do infante e dos 
nobres, seus parcias, mostrava-se a toda a luz. 

El-rei resistiu primeiro ás exigências do fi- 
'ho, mas cedeu depois, a rogos de Affonso San- 
ches e Hem Rodrigues, que viram o seu sacrifi- 
cio indispensável para a paz do reino, e sabiam 
que a saúde do rei chegara a um estado tfto 

11 VOL. — 21, 



precário, que se tornava indespensavel ausenta- 
rem-se da corte, para se porem acoberto da vin- 
dicta do infante, apenas empunhasse o sceptro: — 
juizo que Affonso iv justiGcou, por um modo fú- 
nebre, logo no primeiro anno de seu reinado. 

Goncluido o pacto, que se assignou, em 25 de 
fevereiro de 1324, retirou-se Affonso Sanches á 
sua villa d'A]buquerque, na fronteira de Gastella, 
em cujo serviço militar depois entrou, e onde 
seguiu os destinos que se hão-de ver no próximo 
reinado; Mem Rodrigues recolheu-se ao solar 
acasteliado de Penagate. 

Passados dias, o infante sahiu, com o nu- 
meroso séquito, para o norte do reino, deixando 
el-rei na villa. 

A prudência devia ter aconselhado a Diniz que 
não fosse alli mal provido de gente de guerra, 
como se apresentou. ^ A capitulação desairosa, 
que firmou, só se explica, pela coação em que os 
seus se deviam achar, ante o bando igual ou 
superior do infante e rodeados da população 
adversa de Santarém. 

A grande reputação de bom governante, que 
Diniz alcançara, entre a christandade, fazia com 
que as perturbações continuadas de seu filho pro- 
duzissem grande escândalo e indignassem todas 
as cortes da Europa. O papa entendeu do seu de- 
ver mandar um legado aPortugala pacificarosaoi- 
mos e submetter o infante. Encarregara da missão 
o arcebispo de Santiago, D. Berenguer da ordem 
dos pregadores. Chegou o enviado do pontífice a 
Santarém, no dia 18 de maio de 1324. Foi el-rei 
recebel-o, fora da villa, e hospedou-o, com toda a 
pompa. O legado, não obstante achar celebradas as 
pazes, pregou a concórdia, diante da corte e todo 
o povo da terra, cumprindo a missão que recebera 
da santa sé. Passados poucos dias, seguiu para 
o norte do reino em busca do infante, no intento 
de junto d'elle exercer o mesmo ministério, o 
que effectuou, no Porto, recolhendo-se depois ã 
sua diocese. ^ 
No meiado do estio, voltou el-rei a Lisboa. 
A 9 d'agosto, mandou Vasco Pereira, irmão do 
bispo D. Lourenço, como meirinho mór d'Entre 

1 Ruy de Pina, Chron, cit. c. 30,— Leão, Chron, 
cit. pag. i27.— ifon. Lm. P. 6. cit. c. 37, e P. 7^ 
1. 4. 

» Mon, Lus. P. 6. 1. i9. c. 38. 



162 



Historia de Portngftl 



Douro e Mioho, com poderes amplissimos, para 
perseguir e punir os malfeirores, sendo dispen- 
sados os foros e insenções das honras e solares dos 
fidalgos, afim de se realísarem as prisões neces- 
sárias; o mesmo ordenou para todos os pontos do 
reino. Este assumpto attrahia sempre a altenção 
d'el'rei. Nos últimos annos do seu governo, em 
que mais n'elie insistiu, usou-o como poderoso 
meio de repressão, contra os parciacs do infante, 
entre os quaes abundavam, já o temos dito, os 
criminosos e foragidos da justiça. 

Não se occupava eUrei só em castigar os de- 
lidos, procurava também beneficiar os povos. 
Assim como obsequiou o bispo D. Gonçalo» ele- 
vando o irmão a meirinbo-mór, também persua- 
diu o mesmo prelado a revogar algumas consti- 
tuições, de cujo gravame se queixava, com razão, 
o povo de Lisboa e de toda a diocese. Haviam 
sido decretadas por D. Gonçalo, em synodo 
convocado, apenas empunhara o báculo. O avô 
de Nuno Alvares accedeu à rogativa regia, e os 
súbditos ficaram satisfeitos com os seus dois 
chefes, temporal e espiritual. 

El-rei porem, ao expirar do verão, começou 
a sentir-se. mais enfermo e pensou encontrar 
ailivios, regressando aos ares puros e scccos 
de Santarém. Poz-se a caminho, nos últimos 
dias de setembro, acompanhado da esposa e 
de toda a corte. Allerou-o todavia a fadiga da 
jornada, e, quando chegou a Viila Nova da Rai- 
nha, cahiu n'um tal desfallecimento e acccsso 
de febre, que todos julgaram chegada a sua 
ultima hora. D. Isabel, afilicta e indecisa, de- 
teve a marcha, c, cercando o marido d^uffectos 
e cuidados, mandou aviso ao infante do estado 
do monarcha. 

D. Afifonso, que estava em Leiria, veio a toda 
a pressa. Satisfazendo aos desejos paternos c 
vendo as incommodidades do logar, ordenou que 
ae continuasse o caminho para Santarém, eD. 
Diniz foi, com grande fadiga, levado em andas 
e Qollos de homens. 

A 4 de novembro, já se achava n'aquclla villa, 
gozando d'algumas melhoras, e podendo de novo 
occupar-se dos negócios. A doença porem era 
mortal; e D. Diniz, que não perdera o seu bom 
juizo, sentia, de dia para dia, opreximar-se da 
inorte. Dispoz-se, com serenidade, para esse ul- 
timo evento. 



A pedido do bispo D. Gonçalo, desde que, a 
sabida de Lisboa, o acompanhou até ao derra- 
deiro instante, ordenou, por um decreto, datado 
de 25 de novembro, que todas as justiças e aa- 
ctoridades do reino observassem, escrupulosa- 
mente, as concordatas celebradas com o clero. — 
«acção muito considerável, — dizem os cbronis- 
tas, — para quietação da sua alma;» e que, por 
um dos lados mais agitados, deixava o reino em 
salutar tranquiliidadc. Já vimos que as quatro 
concordataSy no seu conjuncto, se davam força 
de lei a muitas das liberdades da egreja, também 
augmentavam e fixavam as immunidades do es- 
tado, como nunca o haviam sido nos reinados an- 
teriores, e as elevavam quasi ao ponto, em que, 
ainda hoje, estão. 

Posto que se achava oongrassado com seu fi- 
lho e herdeiro, conheccndo-lhe o animo vinga- 
tivo, por iniciativa de Estevão da Guarda, sen 
eychão-mór, ou principal despenseiro, * que Ih'o 
requereu, — el-rei mandou tomar as contas aos mi- 
nistros da casa -e do reino; sendo achadas rega- 
lares e exactas, a todos deu quitação. Aos varia- 
dos negócios da administração do paço, proveu de 
modo que os deixou desembaraçados e sem du- 
vidas, para a entrada do successor. Entregon-se 
a estes trabalbos, em novembro e dezembro. 

No derradeiro dia do anno, fez testamento; era 
o quarto, e foi o ultimo. 

Durante o seu governo de quasi meio século, 
accumulara Diniz grandes thesouros, devidos ao 
desenvolvimento agrícola do paiz, á paz que, lar- 
gos annos, lhe bafejara o tbrono e, sobre tudo, 6 
sua económica e sensata administração. Jnnta- 
ra-os, — declarou o bom rei, nos seus testamen- 
tos, — para defendimenio dos rcynos de Portu- 
gal & Algarve, e para serviço de Deus contra os 
inimigos da fé, quando cumprisse. Elevou as 
finanças do estado a uma tal prosperidade que, 
sem sacrificio, nem falta sensível, Diniz deu al- 
gumas vezes e outras emprestou, não só nas 
conjuncturas que vimos, mas ainda n^algumas 
occasiOes mais, aos soberanos e grandes senho- 
res da península cbristi, sommas avultadas de 
dinheiro, frequentemente, sobre bypothecas va- 
liosas c a juros. Estes factos devem parecer le- 

* Santa Rosa de Viterbo, Bhtdãario, verbo:^ei' 
Mo. 



Bli9toria de Portugal 



163 



geadario^ t pha&tasticoe aos áctaaes ânaocei- 
ros portuguezes. 

Guardara os thesooros nas torres de mena- 
gem das fortalezas mais importantes do reino; 
ultimamente, quando a guerra civil perturbara 
o paiz e as doenças lhe diminuíram as digres- 
sões pelas provindas, encerrara-os, na torre d'Al- 
varrãa do castello de Lisboa. 

Das grandes sommas depositadas, cuja con* 
servagão muito recommendon aos successores na 
coroa, tirou Diniz, pelo seu testamento, a quan- 
tia de trezentas e cincoenta mil libras, que, to- 
mando por base as indicações de Ruy de Pina, 
devem corresponder no valor actual, aproxima- 
damente, a mil contos de réis. Foi d'esta som- 
ma, relativamente diminuta, e dos bens moveis 
que possuía, — únicos, que parece haver consi- 
derado como pessoas, tendo por nacionaes ou da 
coroa os de raiz, — que Diniz dispoz, nas ultimas 
determinações de sua vontade. 

Estas são características da epocha e da indole 
do testador: merecem, pelo menos, resumidas. 

Entrega a alma a Deus e a Santa Maria sua 
màe, e manda soterrar o corpo, no mosteiro de 
Odivellas, na sepultura que fizera, entre o coro, 
que é no mesmo plano da egreja, e a ousia^ ou 
capella inór. 

Ordena que se tire da torre d'Alvarrâa e entre- 
gue aos seus testamenteiros a referida quantia 
de 350:000 libras, que depoeitaríam no thesouro 
da sé de Lisboa, tendo cada um sua chave para 
poderem, livremente, levantar os dinheiros pre- 
cisos para a execução do testamento. 

Manda que se paguem as suas dividas pessoaes 
e as contrahidasem géneros, para abaslecimen- 
tos de castellos; que se indemnisem as muitas 
malfHUmas que seu pae e elle haviam comct- 
tido, apropriando-se de cousas que Ibes não per- 
tenciam, sobre tudo durante as guerras com Gas- 
teliae com seu filho, D. Affonso; que se entreguem 
aos respectivos donos os objectos aprehendidos 
ainda existentes; que se corríja, nas alcaidarias, 
o que for mister, e se reponham em perfeita lega- 
lidade 08 contractos mal cumpridos por parte do 
estado. 

Institoe legados importantes aoe mosteirce do 
Alcobaça e Odivellas de paramentos e objectos 
de culto, prohibindo a sua allienaçio. Dispensa 
as leis da desamortisação, para que as dtias 



casas conventuaes possam comprar, com dinheiro 
que lhes deixa, terras para augmentarem os do^ 
minios. Manda construir, no convento d*Odivellas, 
uma capella a S. Luiz, rei de França, muito da sua 
devoção, e onde, sempre, dois capellães, canta- 
riam por sua alma, em honra d'aquelie santo. 

Recommenda que se entregue ao convento do 
Marmelal a cruz do lenho do Senhor, ligno Do- 
minij que Ibe tomara de empréstimo, por de- 
voção de a trazer comsigo. 

Deixa ás nove egrejas cathedraes, que havia 
00 reino, e a quasi todos os conventos determi- 
nadas quantias, para cantarem missas por seu 
sufTragio, e em auxilio de diversas edificações. 

Ordena que, por sua a/ma, todas as aves e 
bestas fiquem áquelles que as trouxerem, ao 
tempo da sua morte. 

Deixa, para a remissão dos captivos, vinte mil 
libras, recommendando que primeiro sejam re- 
midos os portuguezes que houver na terra dos 
mouros, e depois os outros. 

Lega dez mil libras, para construcção e repa- 
ração de pontes, onde, os testamenteiros virem 
que são necessárias. 

Deixa cinco mil libras para vestfr pobres;— 
dez mil para casar mulberes virgens; — tresentas 
ao Hospital dos meninos engeitados de Lisboa^ 
para crianças expostas, — e duzentas á Albergaria 
da criaçam de Coimbra, para compra de roupa. 

Deixa â infanta D. Beatriz, sua nora, uma co- 
roa de ouro cravejada de pedras, c uma cruz do 
mesmo metal, com relíquias; e faz igual legado á 
infanta D. Mana, sua neta. 

Institne herdeiro do remanescente:— baixella 
de ouro e prata, pedras preciosas que trazia ao 
collo, servos c servas, mouros e mouras, cavai- 
los, muUas, dividas activas, o resto do dinheiro 
que ficar na torre d'Alvarrãa e a sua capella ao 
filho, o infante D. Affonso, ou áquelle que succe- 
der na coroa. 

A este herdeiro roga que proteja e galardoe 
os que viviam na sua companhia e o serviam, 
que os mantenha nas mercês que lhes fizera, e 
que não commetta contra elles aggravo algum. 
Isto Ibe recommenda, pela benção de Deus e a 
sua, assim como que não embarace os seus 
testamenteiros, antes os auxilie, em tudo que 
necessário for, para fiel cumprimento do testa- 
mento. No caso de lhe pâr embargos, futmina-o 



}64 



Historia da Bortegal 



com a maldição de Deus e a sua, para todo o sem- 
pre, de modo que seja coudemnado, como Judas 
traidor, a jazer, no fuodo do inferno, elle e seus 
herdeiros, até estar cumprido tudo o que dispoz. 

Nomea para testamenteiros, em primeiro lo* 
gar: «a rainha Isabel, minha mulber, — diz o 
rei— por que som certo, quefarápor mim&pella 
minha alma todo aquello qm ella poder & qite 
deve a fazer;^em segundo logar, Affonso San- 
ches meu filho, & Fr. Estevão Vasques, prior da 
ordem do Hospital, & Estevão da Guarda, meu 
creado & meu vassallo, & D. Gonçalo Pereira, 
bispo de Lisboa, & Fr. Vasco meu confessor.» 
Dá a todos plenos poderes para a execução, in- 
cluindo de demandarem o futuro rei; c aos dois 
últimos que sobrevivessem outhorga o direito 
de nomearem, por sua morte, quem os substitua, 
no honroroso encargo da testamentária. 

Este documento foi lavrado por Domingos Pires, 
«publico & geral labcUião nos reinos de Portugal 
& do Algarve,» na villa de Santarém, no dia 31 
de dezembro de 1324. ^ 

N'ellc, mostrava Diniz, claramente, a par do 
espirito piedoso, o seu grande amor pela justiça, 
a bondade suave e esclarecida da sua alma e a 
delicadeza do seu caracter. 

E para notar, que o monarcha não deixa legado 
algum e nem sequer nomea, no testamento, a 
seus GIbos naturaes. A todos havia accomodado, 
com largas doações, casamentos ricos e impor- 
tantes cargos. Não precisavam de maiores have- 
res, e, por ventura, o bom rei não quiz lançar per- 
turbações no reino, reconhecendo, na solemni- 
dade do acto tcstamentario, tão numerosa prole. 
Fez uma única excepção: não lhe permittíu o 
coração omitlir o nome do ilibo predilecto, que 
fora obrigado a affastar do leito mortuário. Não 
obstante estar desterrado e na impossibilidade 
de exercer a missão de que o investia, instituiu 
ACfonso Sanches seu testamenteiro. Gomo elle, 
professava também a poesia; acompanhára-o com 
extremado amor, durante largos annos; lôra, pro- 
vavelmente, seu collabororador nas grandes re- 
formas que emprebendera; e era o ente a quem 
primeiro dedicara o terno affecto de pai, e em 
que mais se reflectia a alteza do seu espirito: — 
aproveitou o ensejo da testamentária, para ainda 

1 Mon^ Lm, vol. vi. pag. o82. 



uma vez, em publico documento, o declarar seu 

^Iho. 

No entanto, a doença do rei progredia, e n&o 
deixava logar ã esperança. 

A noticia do perigo em que se achava a exis- 
tência de D. Diniz espalhou-se, rapidamente, 
levando, a todo o reino, o sobressalto e o pezar. 
A rainha, com. a mais sollicita dedicação, ser* 
via, constantemente, de enfermeira ao esposo; só 
lhe deixava a cabeceira do leito, quando os mi* 
nistros, com o soberano, se occupavam dos nego* 
cios públicos; recolhia-se então ás soas orações. 
Mandou Isabel fezer preces, por todo o paiz. Os 
templos encheram-se da multidão de povo, pe- 
dindo a Deus, com fervor, a vidapreciosa do rei. 
Os prelados, os ricos homens e os altos funcciona- 
rios aQluiram a Santarém, para rodearem o leito 
do enfermo; e a população da viila apinhava-se, 
diariamente, á porta do paço d'Âlcaçova, inqui- 
rindo da saúde de Diniz. A nação inteira assistia, 
em espirito, ao passamento do monarcha justo e 
bom, como se fora uma famiiia, trespassada de 
magua, que presenceasse a agonia do seu chefe, 
tão estremecido, quanto indispeasavel ao seuhem 
estar. 

No primeiro dia do anuo, Diniz, desejando 
ver, peia ultima vez, uma festividade religiosa e 
cortezã, ordenou que lhe fosse ministrada a eu* 
charistia, com grande pompa. Toda a corte se 
vestiu de gala e déseavolveu-se o maior appa- 
rato; mas as lagrimas eram tantas e tão funda 
a magua no coração de todos, que o lacto foi 
geral, no paço e em toda a villa. 

Effectivamente, a Diniz poucos dias restavam 
de vida. Conservou, atô ao derradeiro momento, 
toda a sua habitual serenidade. Tendo-se despe- 
dido, com palavras affectuosas, de quantos o ro- 
deavam; c havendo aconselhado, repetidas ve- 
zes, a seu filho, Affonso, a tolerância, a justiça c 
o amor a sua mãe, — falleceu, n'uma segunda 
feira, 7 de janeiro de 1325. * 

Tinha sessenta e três annos e três mezes, me- 
nos dois dias de idade, e reinara quarenta c 
cinco annos, meãos um mez e nove dias. ^ 

Apenas Diniz expirou, D. Isabel deixou, por 
um momento, o cadáver; retirou-se á sua camará, 

1 Mfm, Lm. P. 6. 1. 19. c. 41, 

2 Ihid. c. 46. 



Historia de Portugal 



165 



despiu as yestiduras regias, cortou os compridos 
cabellos e envergou o pobre habito das mioo- 
ritas de Santa Clara, apertando-o, na cintura, com 
o cordão da ordem seraphica. N'estas liumildes 
vestes, foi entregar-se à oração, junto dos restos 
mortaes de seu marido. 

Poucos dias depois, acompanhou-os a Odivel- 
Ias, em pomposo sahimento, com o novo rei, 
toda a corte, quasi todos os prelados do reino e 
grande ajuntamento de povo. D. Diniz, ahi, foi se- 
pultado, como determinara. 

Isabel demorou-se, no mosteiro, por algum 
tempo, sufTragando a alma do íinado, com actos 
de caridade e numerosas solemnidades eccle- 
siasticas a que mandou proceder, não só ahi, 
mas em todas as egrejas do paiz; depois come- 
çou a dar execução ao testameoto, e recolheu-se 
ao convento de Santa Clara de Coimbra, onde se 
tornou, modelo da viuvas e religiosas, ella que 
fora, no século, — dizem os seus panagyristas, 
— modelo das casadas. 

Todavia, passados poucos mezes, o coração 
de mãe devia-Ihe estremecer d'borior, sabendo 
que o filho, o novo rei D. ÀfTonso iv, aca- 
bava de commetter um fratercidio: mandara 
degolar, no dia 4 de junbo do próprio anno 
em que morrera Diniz, a D. João Âfionso^ al- 



feres-mór, cujo principal delícto era ter sid® 
sempre obediente a el-rei seu pae e haver 
amado, com predilecção, seu irmão, agora des- 
terrado, Affonso Sanches. 

Não reza a historia que Isabel desse passo al- 
gum, para evitar o nefando assassinato do filho 
de seu marido. 

Has, desejando poupar a Àffonso os desgos- 
tos, já que não sabia poupar-lhe os crimes, onze 
annos mais tarde, a heroina d'Âlvalade tentou 
extinguir a guerra que rebentara entre Portugal 
e Castella; e, sabindo do convento, para esta be- 
néfica missão,— morreu, em Extremoz, a 4 de 
julho de 133G. 

A piedade dos fieis começou, logo, a veneral-a 
como santa. A requerimento de D. Manuel, foi 
beatificada, pelo pontifice Leão x, em 1516; e, a 
pedido de Filippe iii, o papa Urbano viii a cano- 
nisou, em 25 de maio de 1625. 

Estes actos pontificios de commemoração cccle- 
siastica levaram o nome da piedosa rainha e, com 
elle, o de Diniz a todo o orbe cathollco. — Foram 
porem os próprios feitos, como acabamos do 
ver, que conquistaram a este grande príncipe 
eterna gratidão no coração dos portuguezes e o 
respeito e a admiração de quantos conhecem a 
sua historia. 



w h 



4 . * 



s^vxsTTxxoes:)© 



Firmes no propósito de sermos verdadeiros 
e justos, — Dão obstante os encarecidos elogios, 
que os nossos velhos e bons chronistas, Ruy de 
Pina, Duarte Nunes de Leão e Fr. Francisco Rran- 
dão dedicam a el-rei D. Diniz,— começamos com 
o espirito suspeitoso, senão inclinado ao rigor, a 
historia do seu reinado. A pouco e pouco, po- 
rem, o estudo dos documentos da epocha, com- 
provando a enorme actividade e a fecunda ini- 
ciativa do filho d'Âffonso iii, nos foi captivando, 
por tal arle^ o espirito, que, hoje, ao ter- 
minarmos este esboço, — que, mais tarde, se 
podermos, completaremos,— sentímo-nos com- 
penetrados de grata e respeitosa admiração por 
este príncipe da idade media, que foi, indubita- 
velmente, um dos melhores governantes de 
Portugal, e que pôde, em todos os tempos e por 
todas as nações, ser considerado, como um 
grande e eminente estadista. 

Se por vezes, nas suas relações politicas com 
a monarchia de Leão e Castella, o vemos doble, 
faltando hoje a compromissos tomados hontem e 
auxiliando rebeldes perversos, contra governos 
acceites, legalmente, pelos povos, — é para read- 
quirir povoações, que, com o uso d'eguaes meios, 
haviam sido usurpadas a Portugal; é para engran- 
decer a patría, e fixar os definitivos limites da 
nossa nacionalidade. Querendo dominar na pe- 
nínsula, teve de seguir a politica n'ella adoptada. 
E eram tão frequentes as traições e as prepotên- 
cias, que, não obstante algumas perfidias diplo- 
máticas, Diniz foi considerado como um dos 
príncipes e senhores mais leacs e justos das Hes- 
panhas. Por isso, os dois grandes reinos de Ara- 
gão e Castella o nomearam arbitro das mais gra- 
ves pendências e se submetteram â sua deci- 
são. 

Posto que o génio da guerra lhe não teceu ma- 
vórcias coroas, como tríumphador de batalhas, 
que as não houve para as armas portuguezas, no 
seu tempo, conservou-se sempre â frente dos 
exércitos nacionaes, em todas as campanhas;— 
sabendo que haviam sido anniquillados os seus 
mm poderosos aUiados e outros o haviam tra- 



hido, teve a hábil audácia de penetrar quarenta 
léguas, pelo interior de Castella, — e, aproveitando 
o ensejo da fraqueza adversa, augmentou, como 
o guerreiro mais feliz, o território portuguez, com 
a posse de dois castelios e onze villas importantes. 

As dissenções civis, que lhe perturbaram o 
governo, tiveram ambas a mesma causa e natu* 
reza: o feudalismo medievo, auxiliado por ele- 
mentos castelhanos, tomando por chefes, pri* 
meiro o irmão, depois o filho de Diniz, combatia 
no monarcha a realeza, que, alliada ao povo, cer- 
ceava, dia a dia, as suas isenções e forças. O es- 
poso dlsabel foi tão rápido e feliz contra o irmão, 
quanto indiciso e debíl na repressão do filho. 
É que, no prímeiro caso, tinha o espirito em 
desassombro e incitava-o ajusta ambição de con- 
servar o tbrono; no segundo, intibiava-o o affecto 
paterno e o respeito à legitimidade, na successão 
da coroa. Esta porem tríumphou em ambas as con- 
juncturas: n'aquella, por que reduziu o chefe da 
insurreição â impotência; n'esta, por que, sub- 
mettido primeiro e entregue do sceptro depois, ó 
neto d'Affonso iii continuou no governo, contra 
as classes priviligiadas, a obra civilisadora que, 
inconscientemente, combatera em seu pae. 

Todavia, a principal gloria de Diniz não vem 
da espada. Rei, perfeitamente, da sua epocha é 
compenetrado das necessidades da pátria, au- 
gmentou, notavelmente, o território d'Á£fonso 
Henriques, mas, sobre tudo, elevou a pasmosa 
altura o edificio da organisação interna, cujos 
alicerces Sancho i construíra. 

As suas deslealdades com as nações visinhas, 
os seus raros momentos de crueldade repressiva, 
os erros em que possa ter cabido como politico 
e os muitos que, na verdade, commetteu como ca- 
racter ardente e sensual, -r todos Diniz remiu, 
pela reforma geral e profunda, que realisou, na 
sociedade portugueza. 

Desenvolveu, como nenhum dos seus anteces* 
sores, a população do paiz, — elevou a agricul- 
tura, pelos variados methodos que vimos, a uma 
prosperidade, que hoje nos maravilha,^— creou a 

iudostria e o commercio interno, proifiovendo a 



168 



Historia de Portugal 



organisação municipal, favorecendo o trabalho, 
generalisando as feiras e levantando o espirito 
do povo; — assegurou o traficp luaritimo,, estabe- 
lecendo vastas associações de assistência mutua, 
entre os commerciantes, e instituindo, deGoiti- 
vãmente, a nossa marjuba de guerra, — com a 
qual defendeu dos piratas as praias e os navios 
mercantes portuguezeS; e nos babililou para as 
descobertas, que, nos séculos xv e xvj, deram 
a Portugal fama universal e eterna. 

Edificando quasi cincoenta fortalezas, reorga- 
nisando a milicla popular e reformando, com 
louvável abnegação^ e nacionalisando as ordens 
militares, — dispoz, largamente, á defeza do paiz, 
e legou a D. João i a possibilidade de resistir a uma 
invasão formal de Castelia, e firmar de vez e com 
immorredoura gloria, a independência da pátria. 

Foi um administrador zeloso, económico e sá- 
bio, tanto que elevou, com os recursos nacio- 
naes, o thesouro publico a notável opulência. 

Espirito tolerante, prudente c justo na appli- 
cação das leis, ntnhum príncipe do seu tempo o 
excedeu, n*estas qualidades, então, raríssimas. 

Conhecedor profundo da nação que regia, não 
phantasiava reformas inexequíveis, levava por 
diante e aperfeiçoava, com tenaz persistência e 
habilidade rara, as já decretadas de reconhecida 
utilidade, ~e só creava aquellas que via urgentes, 
adquadas ás necessidades e acceitas pelo espirito 
publico: — eis porque as instituições que iniciou 
ou desenvolveu não cahiram com a sua morte e 
86 perpetuaram no futuro. 

Sob formas suaves e protegendo, affectuosa- 
mente e a miúdo, os individuos, foi dos mais ne- 
fastos adversários dos descommunaes privilégios 
da nobreza e da egreja. 

Havendo recebido o poder civil vergado debaixo 
do jugo do clero portuguez, a seu turno agri- 
lhoado á thíara romana, não só Diniz levantou 
aquellc dignamente^ mas até conseguiu dar vida 
propría ao episcopado nacional. Sem quebra da 
unidade calbolica, nem renovação das antigas 
lutas, venceu o influxo ullramontano, até ahi, 
omnipotente, no paiz, e fez prevalecer o direito 
ecclesiastico privado : — reforma considerável 
que rasgou o antigo pacto feudal humilhante, 
deu á nação a verdadeira autonomia e. estabeleceu, 
em bases solidas e le^aes, os direitos do estado 
e da egreja portugueza. 



Desenvolvendo, largamente, o estabelecimento 
dos concelhos, iniciado pelos governos anterio- 
res, e continuando a chamar ás cortes os procn- 
radoret dos povos, poudi^, auxiliado com este novo 
e poderoso elemento, lutar, vantajosamente, com 
as classes príviligiadas, cortar-lhes as demasias 
e principiar, por um modo profundo, o anqi- 
quillamento, em Portugal, do feudalismo me- 
dievo, ecclesiastico e militar. 

Com as leis da desamortisação, decretadas e 
executadas com firmeza cívica e superior sabedo- 
ria, — e avocando aostribunaes seculares as acçõc3 
civis, que, por invasão de jurisdicção, corriam, 
até ahi, no juizo ecclesiastico, — tirou ao clero o 
poder territorial e o direito de soberania de admi- 
nistrar a justiça. Prohibindo aos nobres a edifi- 
cação de novos castellos senhoriaes e arrazando 
muitos dos antigos, — retirando-lhes os tradiccio- 
naes direitos de decidir as mutuas pendências pela 
espada,-— d'armar cavalleiros, — de isentarem do 
imposto régio, tornando-as em coutos e honras, 
as terras que, a esmo, adquiriam, e até aquellas 
com as quaes estabeleciam meras relações de 
pessoas, — e começando a julgar, em ultima 
instancia, os pleitos de que os ricos homens 
se arrogavam o conhecimento exclusivo, —alluiu 
até aos fundamentos a nobreza feudal, como 
alluira o poder temporal da egreja. Desde então, 
o influxo benéfico do tempo bastaria, para der- 
rocar, de todo, as velhas instituições oligarchicas 
da meia edade, que eram opprcssão esmagadora 
do povo c absorpção das forças do estado. 

Finalmente, Diniz,— que foi o maior poeta dos 
primeiros quatro séculos de Portugal, — creando, 
por um seu vallido illustre, a Estudaria de Santo 
Eloy, em Lisboa, e, com enlhusiasmo geral, a 
Universidade, — e difundindo, no paiz, o amor das 
letras e do estudo, — lançou as bases da instrucção 
secular e publica, e abriu ao povo portuguez as 
portas da sciencia,— e por tanto da civilísação e 
da liberdade. 

Apoz a obra d*Âffonso Henriques, a de Diniz é 
a maior que se nos antolha, na nossa historia; — 
o primeiro fundou a nação militar, o segundo o 
povo çujto. O conjuncto d'estes dois trabalhos 
é que deu, séculos depois, a Portugal a possi- 
bilidade de realisar, na larga evolução da ha* 
manidade, a sua gloriosa missão d'ampliar o 
mundo. 





DE D. ÍFFO 




ATE AO FIM DO VOLUME 



POR 



LUCIANO CORDEIRO 



n VOL, — 22. 







CAPITULO I 

AoolamaQSo da D. Aifonao IV.— Os dois bas*> 
tardos de D. Dixiis: D. Pedro o da Ribeira 
e Affonso Sanohes. — A oasa dos Sonsas. 
— Cortes d'£yora.~Oonde]nnag&o de Af- 
fonso Sanehes. — Tentativas de oonoilia- 
Qão.—Affonso XI de Castella e sens tios. 
— Gnerra entro Affonso lY e Affonso San- 
olies. — Negociações entre este nltimo e 
Jo5o Affonso.— -Arronohes. — Sentença oon- 
demnando Jo&o Affonso por traidor. — ^Pas. 

Oavir-se-hiam ainda, talvez, em muitas cida- 
des e Tilias da terra portugueza os brados doridos 
dos vereadores aonuneiando aos povos a morte 
do grande rei D. Diniz, quando o seu primoge- 
nito lidimo prestava no breviário do arcebispo 
D. Gonçalo Pereira o juramento de governar se- 
gundo as leis e a justiça o paiz, fazendo o que 
em prol d'elle conviesse, e o primeiro rei d'ar- 
mas da corte, soltava o solemne pregfto: «Realy 
realf pelo príncipe Dom Affonso, rei, pela graça 
de DeuSy de Portugal e do Algarve!» 

Chegara emSm o dia que tantas intrigas san- 
guinolentas Unham procurado apressar. 

Quantas sombrias preoccupações; quantas es» 
peranças refloridas se enroscariam em fantasias 
de vingança e de saudade nos eccos festivoír das 
charamellas e atabales I 

D. Diniz levara certamente para o sepulchro 
um fundo e angustioso pesar. 

Nenr na extrema hora da sua vida, tão curtida 
de trabalhos e de desgostos, lograra ver junto 



de 8*, reconciliados e amigos, es filhos: antes 
tivera, um anno ia fazer, de sacrificar ao ciame 
implacável e turbulento de um d^ellea, as boa* 
ras, os haveres e o convívio de outro. 

A figura severa do seu fiel bastardo, do filho 
infeliz de Aidonsa Rodrigues, expoliado e expa- 
triado no estrangeiro casteilo d'Albuquerque, 
havia de lhe apparecer á mente moribunda mas 
Drme e clara ainda, n*aqueila hora solemne de 
despedida e de perdfio. Essa mesma figura devia 
naturalmente acudir á memoria de muitos dos 
que assistiam á ruidosa e brilhante acclamaç&o 
de Affonso iv, como se desenha, vigorosamente 
ainda hoje, nas primeiras paginas d'este opulento 
reinado. 

Desenrolava a alferena real ao lado do novo 
roonarcba, como alferes-mór do reino, o orgu- 
lhoso e magnifico bastardo, D. Pedro o da Rt« 
beira, conde de Barcellos, senhor de Gestacd, 
Lalim, Várzea da Serra e terras do Voilga, que 
viera talvez do seu solar de Brunhido, ostentar 
00 sabimento do pae e na acclamaçào do irmfto 
lídimo, seu antigo companheiro de rebellião, a 
corte numbrosa e lusida dos seus ligios. 

No logar, porem, do mordomo-mór, n&o a^ via 
j& o bastardo dilecto e fiel do rei lavrador, 
aquelle D. Affonso Sanches, senhor de Villa do 
Conde, d'Albuquerque, de Mcdelhim, etc. que o 
ciúme feroz do novo rei afiastara do pae enve- 
lhecido e doente, e iria. perseguir ainda no af- 
frontoso desterro. 

Por uma espécie de ironia da sorte, exercia o 
cargo, o infante D. João Aflbnso, o novel bas* 



178 



Historia de Portugi^ 



tardo de D. Diniz, a briosa creanca que Affonso 
Sanches, seu irm&o, salvara porventura de ca- 
hir sob a espada terrível do infante conde de 
fiarcellos no repto do Pinheiro de Âzer. 

Na revolta de D. Affonso coalra p pae,;l). Pe-»' 
dro o da Ribeira é a figura mais distincta que* 
nos apparece do lado dos revoltosos, como Af- 
fonso Sanches é o vulto mais vigorosamente 
acentuado que se desenha ao lado de D. Diniz. 

Filhos de duas amantes d^ste«iltini<^,^^t[m,. 
o infante conde, de uma D. Gracia, de Torres 
Vedras, fallecida em 1323, e que foi chamada a 
da Ribeira por ter recebido o senhorio da Ri- 
beira de Sacavém; — o outro, havido de D. Al- 
donsa Rodrigues, a quem D. Diniz doou, estando 
em Coimbra, a 7 de abril de 1301, os reguen- 
gos de Paos, Ameal, Paredes, Gasaio e S. Lour 
reoço de Bairro em terra do Vouga, — o ciúme 
das mies parece ter^se transmittido aos dois 
bastardos que incontestavelmente se yaliam e 
hombreavam em forças. 

D. Diniz tendo talvez o instincto doeste anta* 
gonismo, como que procurara neutralisal-o, más 
á^lde, pòr uma espécie de distribuição equa- 
litaria de hcxiras e poder. 

Se fizera D. ABònso Sanches, seu mordomo* 
mòr, e senhor de Viila do Conde e dos senho- 
rios que doara á m&e, a D. Pedro, concedera o 
condado de Barcelios e o cargo egualmente emi-* 
nente de alferes*mór. 

A um e a outro casara com senhoras da maior 
prosápia e riquesa. 

D. Affonso Sanches ligando-se com D. The- 
reza de Menez^es, filha única de D. João Affonso 
de Menezes, o dedicado amigo c mordomo-mór 
de D. Diniz, o hábil negociador do tratado de 
Alcanizes, primeiro conde de Barcelios, e de sua 
mulher D. Thereza Sanches, infanta de Castella, 
veio a tornar-se senhor de Albuquerque, Mene- 
zes, MedalUm e outras terras castelhanas, como 
o poderia ter sido do condado de Barcelios, que 
vemos passar a D'. Hartim Gil de Sousa, aio de 
•D. Affonso (o IV). 

D'aqiii se originaram provavelmente as des* 
avenças entre D. Affonso Sanchefi e D. Hartim 
Gil, que o rei lavrador tentou aplacar apesar de 
se fazer, como em documento publico confessa, 
manifesta injastiça áo seu bastardo; desavenças 
qué levaram o Soúsá a renegar a pátria e o rei, 



fazendo-se vassallo de Castella, como o tinham 
feito já alguns dos seus antecessores. 
D. Marlim Gil de Sousa casara com uma filha 

m 

do segundo matrimonio de D. João Affonso de 
Veneeés; era aio ^mordomo do príncipe herdeiro 
D. Affonso, e lòi elevado por D. Diniz a conde de 
Barcelios e a alferes-mór, parecendo assim rece- 
ber da magnimidade regia, que só ella lhe pode- 
ria conferir, a herança do condado que o sogro 
disfríictara emrft)r(Hgal. 

Por outro lado o bastardo D. Pedro, feito conde 
de Barcelios e alferes-mór depois de Martim Gil 
de Sousa, casara com D. Branca de Sousa, neta 
de Mem Garcia de Sousa, achando-se por isso, 
não somente ligado á primeira nobresa portu- 
gueza, mas na chefia d'um dos ramos em que se 
dividiu a celebrq e po()erpsa'casa de Sousa. 

D. Branca era filha de D. Constança Mendes de 
Sousa e do rico-homem Pedro Asaes d'Âboiffl. 
Sua irmã casara com D. Aflònso Diniz, filho bas- 
tardo de D. Affonso nr e progenitor dos Sousas 
Diabos, 

Uma sua tia casara com Q. Lourenço Soares 
de Valladares, distincto ricc-liomem, senhor de 
Taogil, fronteiro-mór de Entre Douro e Minho, e 
d'este consorcio proviera uma penhora que se 
ligara a outro bastardo de D. Affonso iii— D. 
Martim Affonso, —dando origem aos Sousas Chi- 
chorros. 

Digamos de passagem como esta divisão da 
maior casa portugueza, no começo da monarchia 
parece ter succedido, porque ha no facto alguns 
traços profundamente característicos da época, 
e por mais d'ttm titulo esta família tem logar 
proeminente na historia dos primeiros séculos da 
nação. 

Quebrara-se a iinlia da progenitura em D. 
Gonçalo Mendes de Sousa, o celebre filho do 
conde D. Mendo o Somão, que foi o principal 
chefe da rebeliião contra Affonso n, e a poderosa 
casa passara por morte doesse para o primogé- 
nito de D. Garcia Mendes, filho segundo de D. 
Mendo. 

Era elie D. Gonçalo Garcia de Sonsa, que to- 
mando por mulher a filha bastarda de D. Affonso 
III jà viuva de seu sobrinho Estevão de Sousa, 
—D. Leonor Affonso,— fáilecera entre 1277 e 
1286, sem geração, quebrando-se novamente a 
linha da progenitura e ficando chefe da celebre 



SCistoria de 



173 



familta D. Hem Garcia de Sousa» aenbor de Pa- 
Doyas, filho segundo de D. Garcia Meodes. 

Casou este rico-homem com D. Gracia Anões, 
filha de Jo&o Fernandes de Lima o Bom e d'ella 
teve quatro filhos. 

Um, o primogénito, Gonçalo Mendes de Sousa 
teve amores com a própria irmã, D. Uaria Men- 
des, deshonestando^-se com ella, pelo que se foi 
penitenciar aos Legares Santos. Não parece ter 
havido mais noticia d'ellc, mas da incestuosa se 
sabe que encontrara um marido accomodaticio 
no distioclo rico-homem e fronteiro de D. Diiiiz, 
D. Lourenço Soares de Valiadares. 

Outra filha,— a que se seguia ao arrependido 
primogénito, morreu sem successão, e a ultima 
D. Constança Mendes de Sousa casando com o 
rioo-bomem, D. Pedro Annesde Alboim, mordo* 
mo-môr de D. AfTonso iii teve duas filhas de 
que já faltámos:— D. Maria Paes Ribeira que foi 
mulher de D. Affonso Diniz, bastardo de Affonso 
III e D. Branca de Sousa, com quem casou o 
bastardo de D. Diniz, o conde de Barcellos 
D. Pedro, e de quem recebeu, por concessão re- 
gia segundo as melhores presunipções, uma parte 
da poderosa casa. 

Como 08 ascendentes de D. Branca, cujas tra- 
dicções de rebeldia e de ousada prosápia parece 
ter herdado também, D. Pedro vira-se um dia 
despojado das suas honras e riquezas porque 
rompendo a menagem e obdiencia ao seu rei na- 
tural, que era seu próprio pae, levantara mfto ar- 
mada contra o pátrio senhorio, fazendo^se vas- 
sallo de rei estrangeiro. 

Mais d*uma circumstancia indica que este bas- 
tardo audacioso, retooiara no reinado de D. Di- 
niz o papei que o ascendente de sua mulher, 
o conde D. Gonçalo Mendes de Sousa, desem- 
penhou no tempo de D. Affonso ii, de principal 
caudilho da nobreza, na singular campanha em- 
prchendida contra o poderio e abusos d'e}la pe- 
los monarchas da primeira e ainda da segunda 
dynastia. Variavam os pretextos e tomava fei- 
ções e direcções novas a intriga que de tempos 
a tempos produzia taes explosões, mas as cau- 
sas e origens eram as mesmas.- 

A lei porem era expressa e implacável. A lei, 
e o costume que erk uma forma muito impor- 
tante da jurisprudência do tempo. 

Moderando notavelmente o direito feudal^ D, 



Affonso II estabelecera que o confisco nos cri* 
mes de traição, reverteria em beneficio dos filhos 
do criminoso, se este dentro do praso de 30 diaa 
comparecesse na corte a exorar o perdão, mas 
não só o conservara em proveito da fazenda e 
auctoridade real não se dando a hypothese, 
como absolutamente o mantinha nos casos de 
leza magostadc e heresia. Seria extremamente 
leviano condemnar à luz do nosso tempo e da 
organisação social e juridica da propriedade, 
actualmente, ou ainda nas sociedades que ter- 
minaram já o período da sua formação histórica, 
este direito derivado d'um estado de cousas ra-! 
dicalmente diveri^o. 

Teremos occasião de voltar ao assumpto. 

Mas na paz celebrada em Coimbra entre D. 
Diniz e seu filho lidimo, este fizera incluir a 
clausula da restituição ao conde de BarceJlos das 
suas honras c haveres, e desde então o ousado 
bastardo parece tcr-se mantido n'uma quasi obs^ 
cura e talvez systematica Iranquiilidade, acom- 
panhando até o pae nas posteriores dissenções, 
rapidamente aplacadas entre elle e o seu irri- 
quieto herdeiro. 

Singulares mutações da scena politica n'aquel- 
lus tempestuosas épocas da nossa organisação 
nacional ! 

Despojado das suas grandezas por se ter levan- 
tado contra o rei, o pae e a pátria, o conde de 
Barcellos é restituído a ellas por intervenção do 
príncipe Affonso e ostenta a sua gigantea figura 
no sahimento de D. Diniz e na ruidosa acclama- 
ção d'aquellô. 

Sempre fiel ao mesmo pae, sempre ao seu 
lado nas horas mais amarguradas da vida, Af- 
fonso Sanches, desterrado em Albuquerque, exr 
pulso do cargo eminente que occupara na corte 
do rei lavrador, ia sentir ainda o ódio feroz e 
implacável do irmão, agora desaffrontado de to- 
das as resistências. 

Apesar das obscurídados que o tempo accu- 
muiou sobre aqueila lucla formidável entre o 
lidimo e o bastardo de D. Diniz; apesar de todas 
as lacunas que os documentos e os chronistas 
deixaram no registro d'aquelle trágico episodio, 
sente-se estremecer nVssas trevas ou eccoar 
n'e98as profuodesas, por sobre as quaes saltaram, 
sem as medir e devassar, os. nossos primeiros 
historiograpbos, sente-se estremecer ou.eceoar 



174 



Historia de Portugal 



um drama fcrrÍTel como os qoe a inspirado 
genial de Eschy]o sabia arrancar da génese da 
historia hellenica. 

As situações, para nos servirmos da lingua* 
gera dos theatros, que a historia pôde revelar- 
nos c descrever-nos ainda, como que estrophes 
truncadas d'um poema, Eão demasiado gran- 
diosas para que possam authorisar o entrecho 
que alguns cscriptores phantasiam, firmado em 
despeitos e emulações d'animos juvenis, em am- 
bições e rivalidades de influencia; em questões 
de prosapias affrontadas ou de interesses mate- 
riaes e pessoaes, feridos. 

Uma faulha pôde certamente, originar um in- 
cêndio, mas é que encontrou condições adqua- 
das a fazer-se labareda. Não menos certo é ainda 
que 09 caracteres da feição d'aquelle que Af- 
fonso IV mostrou sempre possuir, sobre tudo se 
meter-mos em linba de conta o ambiente histó- 
rico em que elles se fundem e ai&rmam, facil- 
mente se desencadeam nas mais temerosas tem- 
pestades de cóleras; mas este ódio que sobrevive 
ao próprio triumpho, pode dizer-se assim, este 
ódio de D . Àffonso por seu irmão Âffonso Sanches, 
que se não sacia com a humilação do bastardo, 
que parece mesmo absorver e dominar o herdeiro 
de D. Diniz, no meio da não contrariada satisfa- 
ção das suas ambições de mando, e que o leva 
como que em furiosa revindicta d'impotencia a 
fazer matar o antigo e dilecto companheiro do 
irmão, — seu irmão também, — o infante João Àf- 
fonso, tem um caracter singular que parece re- 
pellir, por mesquinhas, as causas que geralmente 
£c lhe attribue. 

Nem ainda o explicaria suí&cientemente a 
idéa aliás aceitável de que nas díssenções entre 
o rei lavrador e seu filho, em volta do qual na- 
turalmente se agrupariam os descontentes das 
tendências democráticas, — premiltam a expres- 
são, — do regimen de D. Diniz, entrou como im- 
portante contigente, embora accidental, um factor 
commum ã formação politica das nações moder- 
nas e que em Portugal por muito tempo agitou 
o organismo do Estado. 

Referimo-nos ú lucta, mais ou menos ruidosa 
ou mais ou menos obscura mas tenaz, perma- 
nente, fatal, do poder realengo procurando con- 
solidar-se, radicar-gc, fortalecer-se, e do poder 
aristocrático, — feudal, — para nos scrvir-mos da 



expressão vulgar, diversa por mais lata mas 
não opposta ã significação rigorosamente critica 
d^ella. 

O que é certo porem, é que o reinado de Àf- 
fonso IV abre sinistramente com a explosão d*a* 
quelle ódio e que essa explosão deixa quasi 
numa modesta obscuridade todos os outros acon* 
tecimentod ou todas as outras iniciativas do her- 
deiro de D. Diniz nos primeiros annos de governo. 

ACTonso IV sentiu porventura a necessidade de 
avigorar a desciplina politica do Estado que elle 
tanto contribuirá para relaxar, e de sopear as 
esperanças e prosapias dos seus partidistas d'oa« 
tr*ora a quem elle dera o exemplo do desrespeito 
pela auctoridade real: com uma solemne afBrma- 
ção d'esta. Começou por convocar tos ricos ho- 
mens e cavalleiros e outros filhos d'algo, » do reino 
«e os bispos e abbades, priores e outras pessoas 
dos mosteiros e egrejasdo arcebispado de Braga 
e do bispado do Porto e áos outros bispados» seus 
«senhorios, e os concelhos por seus procura* 
dores» para, diz elle: «me receberem por rei 
e me fazerem menagem e me conhecerem se- 
nhorio divido natural como a rei e a senhor a 
que são theudos de conhecer e para livrar com 
elles algumas outras cousas que eram de meu ser- 
viço e prol dos meus reinos.» 

Reuniram -se em Évora estas cortes e n'e]ia8 
vibrou uma vez mais AíTonso iv, o seu terrível 
libello contra AíTonso Sanches, procurando obter 
a cumplicidade d'aquelle notável parlamento na 
condemnação formal do desgraçado irmão como 
traidor ao seu senhor natural e perturbador da 
paz do reino. 

Parece que as cortes procuraram esquivar-se a 
satisfazer a pretcoção do rancor real, mas que 
Affonso não demovido d*elle, fez instaurar sum- 
marío processo ao bastardo, iosistindo nas ac- 
cusações que contra elle articulara no tempo 
do pae e que este se encarregara de rebater e 
destruir. Gomo brevemente veremos, não eram 
muito demoradas o exigentes as practicas foren- 
ses do tempo em assumpto de tal natureza, nem 
muito díilicil a justiça do filho lidimo de D. Di- 
niz em proferir o veredicto fatal. 

ACTonso Sanches foi condemnado, e como ti- 
vera a prudência de conservar a vida fora do 
alcance do poderio fraterno, foi apenas despo- 
jado de todas as honras e ofBcios que aliás não 



Historia dd Pôrttigal 



176 



gosaya jâ realmente na terra portuguesa, e ex- 
poliado dos haveres que possuía n^esta. 

Tentou elle ainda abrandar o animo do mo* 
narcha en?iando-lhe de Gastella respeitosa men- 
sagem em que lhe observava a injustiça da sua 
condemnaç&o^ lhe protestava fiel vassalagem e 
lhe pedia a revogação da odienta sentença e 
a restituição do que fora seu no reinado de 
D. Diniz. 

Affonso IV porem manteve^se inexorável. 

Não o demoveram também as exortações á 
conciliação e á graça, do embaixador Lopo 
Alves de Espejo, que o celebre rei d'Aragão 
D. Jaime ii o Justiceiro^ enviara a Portugal a 
dar os pezames a D. Affonso iv e á mãe pela 
mcnrte de D. Diniz; a comprimentar o primeiro 
pela sua elevação ao throno, e simultaneamente 
a promover a concórdia entre os dois irmãos, 
(1325). 

Quer porem pela sua própria ínQuencia, quer 
pela que naturalmente lhe vinha do casamento 
com a filha de João Affonso d'Albuquerque, quer 
também pelos descontentamentos e ódios mais 
ou menos ruidosos que não faltavam ao novo 
rei portuguez, Affonso Sanches tinha em Gas- 
tella e até em Portugal dedicações e adhesões 
poderosas, porventura impacientes de se mani- 
festar em estrondoso desagravo. 

Do lado de Portugal, no seio da própria côrtc 
portugueza, eslava o seu antigo e fiel compa- 
nheiro nas campanhas contra o agora rei de 
Portugal:— o irmão dos dois, João Affonso. 

Em Gastella prestava-lhe vigoroso apoio o in- 
fante D. Filippe, filho lidimo de D. Sancho o 
Bravo c por conseguinte tio da mulher de Af- 
fonso Sanches que era neta por bastardia ma- 
terna d'aquelle rei. 

D. Filippe era tio e fora um dos tutores do 
moço rei de Gastella D. Affonso xi: porventura 
esta circumstancia tem induzido alguns escripto- 
res ao deplorável erro de suppôr que o auxilio 
effectivo e ruidoso prestado por eUe a Affonso 
Sanches na invasão do reino, representava um 
verdadeiro rompimento por parte de Gastella. 

Tão ligada anda a historia castelhana â nossa, 
até ao século xiv, que o desconhecimento d'ella 
necessariamente dará viciosas interpretações 
como esta. D. Filippe andava levantado também 
contra a auctoridade real do seu sobrinho ou 



pelo menos não procedia por determinaição e em 
nome d 'elle. 

Entrando a governar aos 14 annos, em 1325, 
Affonso XI encontrara Gastella n'uma completa 
anarchia e começara por desavir^se com os seus 
celebres tutores, os infantes D. Filippe, D. João 
Manuel e D. João o Tuerto^ que em mutuas ri- 
validades ou com as soberbias desordenadas do 
poder de que individualmente dispunham, ti- 
nham devastado e deixado devastar o reino. 

Hal acabavam de fazer em Valladoiid a re- 
nuncia solemne da tutoria e de prestar mena- 
gem ao sobrinho como seu rei e senhor, com os 
prelados, ricos-homens e procuradores das cida- 
des, e logo d'alii se lançavam de novo em ma<- 
nifesta rebellião. 

Uma das primeiras preoccupações do novel 
monarcha foi desfazer-se doestes incommodos 
vassallos. SuprimiUos, foi n'elle uma espécie do 
pensamento fixo, inabalável, fatal. Em 1326 
fazia assassinar cavillosamente D. João o Tuerto; 
no aono seguinte tinha egual sorte, em Madrid, 
o infante D. Filippe, e tentava aquella creança 
de 16 annos livrar-se pelo mesmo processo, de 
D. João Manuel. 

Por outro lado, um dos primeiros actos do 
governo de Affonso xi foi exactamente enviar a 
Portugal uma embaixada a cumprimentar o nosso 
Affonso IV e a rainha D. Isabel pelo fallecimento 
de D. Diniz e pela elevação d'aquelle ao throao 
portuguez, embaixada que a rainha recebeu em 
Odivellas e o filho em Lisboa. 

Voltemos pois a Affonso Sanches. 

Alem das adhesões e influencia de que dispu- 
nha em Portugal e Gastella, achava-se elle de 
posse do senhorio do sogro a este tempo segura- 
mente fallecido, e quanto valia o senhorio d'Al- 
buquerque experimentara-o o próprio avó ma- 
terno da mulher de Affonso Sanches, o bravo 
rei Sancho de Gastella, e teria um dia que sen- 
til-o o castelhano D. Pedro o cruel^ como adiante 
veremos. 

Eram de rija tempera estes Albuquerques ou 
Menezes que a mulher do bastardo portuguez 
representava então, e fundo rasto deixaram na 
historia de Portugal e de Gastella, a cujas famí- 
lias reaes os ligava uma dupla bastardia: por 
um lado a da mulher de D. Affonso Tello^ o ve^ 
tíkOf primeiro povoador d^Albuquerque^ D. The- 



176 



Historia de Portugal 



resa Sanches filha do nosso D. Sancho r; e por 
outro a d'outra Theresa Sanches filha de um 
Sancho também, o ir de Castella, mulher de D. 
Jo&o ÂffoDso o primeiro conde de Barcellos. 

Profundamente irritado com a injustiça e des- 
atteoção de Affonso iv, e naturalmente estimu- 
lado pela familia da mulher e pelos descontentes 
de Portugal, Affonso Sanches procurou pelas ar- 
mas o desaggrayo que pedira, e cahiu com nu- 
merosas forças recrutadas em Castella, em Leão 
e entre os seus próprios parciaes portugueses, 
sobre a terra de Bragança. Que o não impelia 
outro desígnio ou que o não animava outra 
esperança que não fosse a d'uma represália es- 
trondosa, que aliás procurara evitar, parece de- 
prehender-se da própria noticia, embora escaca 
dos seus movimentos bellicos, e da devastação 
e dos roubos. que fazia por onde passava a sua 
gente, muita da qual certamente mais attrahida 
áquella campanha pelo espirito da aventura e do 
latrocínio do que por communhão e disciplina 
de sentimentos políticos. Nunca mais azada oc- 
casião se apresentara talvez a Áffonso Sanches 
de arvorar francamente a bandeira de preten- 
dente á coroa do irmão, do que esta, se tal pre- 
tenção realmente existisse no seu animo como 
não se cançava de o affirmar Affonso iv. Gomtudo 
nenhum indicio temos de que tal idéa se mani- 
festasse claramente n*aquella explosão de terrí- 
vel revindicta por parte do bastardo. 

Terrível parece ter sido realmente esta espécie 
de correria d'elle nos domínios do irmão. 

Ao passo que um troço da sua gente entrava 
por Bragança, roubando, incendiando e devas- 
tando a terra, de Medelim e d'Albuquerque, rom- 
piam por Odiana outras forças â frente das quaes 
viera coUocar-se Affonso Sanches para attacar o 
mestre d*Aviz D. Gonçalo Vaz que defendia a 
fronteira do lado de Ousella. Travou-se a lucta 
entre a gente de Affonso Sanches e o exercito 
real, sendo desbaratado este. 

Exasperado, Affonso iv marchou rapidamente 
na direcção d'Albuquerque, invadiu Castella e 
chegando ao castello de Codeceira poz-lhe aper- 
tado cerco até que lh'o entregou por capitulação 
o alcaide Diogo Lopes que o tinha pelo bastardo 
(1326). 

Por este tempo ou provavelmente pouco antes 
D. Affonso IX de Castella que começara a percor- 



rer os seus domínios em pé de guerra e pro- 
curando restjfbelecer e consolidar n'elles a ordena 
e a auctoridade regia á custa da mais rigorosa e 
às vezes da mais cruel severidade, apoderava-se 
do castello de Valdeoebro, velho couto de fidal- 
gos bandidos, arrasando-o como D. Affonso de 
Portugal fez ao castello de Codoceira e desejaria 
fazer ao de Albuquerque. Mas a campanha do 
rei portuguez foi menos fructuosa do que a do 
seu homónimo de Castella, porque lhe offère- 
ceu menos victimas em que saciar a rancorosa 
cólera. 

Depois de derrotar D. Gonçalo, Affonso San- 
ches recolhera-se a Medellin por ter sido atta- 
cado de sesões. Por outro lado, Affonso iv tendo 
arrasado Codoceira, parece ter voltado rapida- 
mente a Lisboa, onde estava já no começo de 
julho (1326). 

O que poderia motivar este inesperado re- 
gresso? 

Um interessantíssimo documento que tem pas- 
sado desapercebido até hoje, ou que tem sido 
geralmente ignorado dos nossos escriptores, e 
que em seguida publicamos, explica talvez suf- 
fícientemente o singular acontecimento. 

Sabemos que estreitas relações d'amisade e 
camaradagem politica ligava a Affonso Sanches, 
o outro bastardo seu irmão, João Affonso. 

Natural era que nem Affonso iv nem os seus 
antigos partidistas, os descontentes do ultimo 
reinado, vissem com olhos amigos, o homem 
que mais d'uma vez tinham encontrado em vi- 
gorosa e firme hostilidade na sua frente a sus- 
tentar a auctoridade do rei D. Diniz e o poder 
de Affonso Sanches nas antigas rebeldias d'a- 
quelles. 

Egualmente não será difficil de suppôr que João 
Affonso se doesse da elevação e prosapias trium- 
phaes dos que haviam sido seus adversários, de 
seu pae e de seu irmão dilecto, bem como da 
perseguição movida a este ultimo. 

Estes mesmos factos o deviam trazer receioso, 
ainda quando as dissenções do reinado anterior, 
não tivessem legado ao novo reinado, muitos des- 
contentamentos profundos e muitas paixões con- 
trariadas que naturalmente denunciavam João 
Affoi^o, pela fatalidade da sua situação, ás espe- 
ranças d'um partido e por conseguinte aos ódios 
do contrario, 



Historia de Portugal 



177 



Rebrça-se a hypothese com o desejo que, 
segundo o docum^Qto a que àv referimos, 
alimentava secretamente o infeliz bastardo, de 
obter certos logares onde poderia fazer^se forte, 
ou abrígar^-se com os seQs, das perseguições do 
DOTO mooarcha. 

Coa6ara4he este a defesa da fronteira do lado 
do Gaia, fazendo-o fronteiro de Portalegre e 
Arronches, ou porque realmente se julgasse se- 
guro da sua fidelidade ou porque suppoaesse ca- 
ptal-a oom tão notarei prova de confiança. 

A grande importância estratégica de Portale- 
gre e Arronches nos primeiros tempos da mo- 
narehia, e ainda muito depois, senão actual- 
mente, é attestada pelas renhidas e sangrentas 
disputas de que esses pcmtos foram objecto, e 
no próprio reinado do rei lavrador, mais d'um 
iácto a pozera em relevo. 

Tomada aos mouros em 116&por Âffooso Hen- 
riques; reconquistada por elles; readquirida por 
D. Sancho ii; novamente tomada pelos mouros e 
finalmente rehavida pelo esforçado D. Paio Pires 
Correia em 1242, Arronches que fora doada espi- 
ritual e temporalmente por D. Sancho ii a Santa 
Cmz de Coimbra, em 1236, voltara â coroa no 
tempo de D. ASònso iii que náo hesitara em dar 
por aquella povoação, reconhecendo-lhe a im*' 
portaucia militar e intentando aproveitada me- 
lhor, 08 padroados de Óbidos, Assumar e Alber- 
garia de Poiares, depois de lhe ter concedido em 
1255 foral que em 1272 confirmou. 

Como porem a doasse a seu filho, o infante 
D. Afibneo, não descançou D. Diniz emqoanto 
não deslocou d'alli e d^aquella parte da fronteira 
o irriquieto irmão. 

D. AffcHisocir chegou mesmo a estabelecer ter-, 
minantemente que Arronches não poderia sahir 
do senhorio directo da coroa, em 12 de maio de 
1475, e B. João i ordenou que os pastores do 
sitio podessem andar armados e qne aos habi- 
tantes da villa e termo se pernrittisse q uso das 
armas, em todo o reino. 

Não é uma simples fantasia da armaria e da 
graça real o brasão d'aquolla historiea praça:— 
um castelio em campo de sangue. 

Arronches precedeu. Blvas na estratégia cas- 
trense nacional, e foi por lai^ kempo uma das 
chaFes mais in^portantes da fronteira. 
.N'«iiieUa oampamha, porem) Arronoliea tinha 
n voii,— 23, 



uma particular in)portancia pelo. facto de fazer 
frente exactamente ao principal ponto d'apoio 
do invasor, a Albuquerque, e mal pôde com- 
preheader-se, que fosse na melhor boa fé, que Âf- 
fooso IV pozesse allí por fronteira o homem de 
quem naturalmente mais poderia desconfiar. 

O que parece certo é que João Affònso pon- 
do-se em relações, ou continuando-as, com o 
irmão e seu antigo companheiro d^armas, Ibe 
propozera o seu auxilio, ou a sua neutralidade 
pelo menos, — a troco de três povoações d'a- 
quelle: — Alva de Lista, Castromonte e villa 
d'Açor. 

Não recusou Affonso Sanches a negociação, 
mas observou que a concessão de Alva de Lista, 
— aponto que parece ter sido importante, pois qué 
ainda no reinado de Pedro o cruel de Castêlla, 
incommodou este monarcha, — dependia de um 
Álvaro Nunes, seu amigo, que a possuía. Con- 
cordou este na cedência, e assim ultimada a 
negociação, rompera a gente de Affonso San- 
ches por terra de Bragança, como jà disse- 
mos. Mas ou porque Affonso iv lhe não desse 
tempo para mais, ou por que não se achasse 
com forças para a rebellião projectada, ou por- 
que realmente o seu intento não fosse alem de 
uma espécie de tieutralidade na parte da fron- 
teira que fora encarregado de guardar, a traição 
de João Affonso não passou, segundo o proprío 
documento da sua condemnação, de entabolar 
aquellas negociações e de avisar a cunhada D. 
Tberesa de que o rei portoguez marchava a in- 
vadir-lhe o senhorio, se é que o primeiro facto 
não foi viciado e exagerado de propósito para 
attenuar o assombro que deveria causar o trá- 
gico desfecho da campanha. Comtudo a re- 
pentina retirada de D. Affonso tv, explica-se 
facilmente, pelo facto d'elle ter descoberto a 
conspiração de João Affonso e de receiar natu- 
ralmente que na sua rectaguarda se lhe le- 
vantasse uma revolta, qne abrindo uma parte 
importante da fronteira à invasão, alastrasse ra- 
{Hdamente, pelo reino, encontrando, como de- 
certo encontraria, adhesão e auxilio no qué 
poderemoã chamar o antigo partido de D. Diniz 
e por isso de Affonso Sanches. 

Offerecia-se a Affonso iv uma occasião de af- 
firmar decisivamerite perante amigos e inimigos 
a solução de contiDUi^de que a sua elevação ao 



178 



Historia de Portugal 



throno estabelecia entre os ímpetos e exemplos 
revoIucioDarios d'outr'ora c o principio da sua 
auctoridade real d^boje. 

Elle levantara-se quando infante contra seu 
pae e monarcba; incitara á revolta os senhores 
e 08 povos; patrocinara e traclara com os inimi- 
gos do rei e do paiz; tentara deslocar violen- 
tamente do throno o próprio pae em proveito 
próprio. Investido no poder supremo do Estado, 
iniciando o seu governo no meio das insolentes 
prosapias d'uma aristocracia poderosa, à qual 
elle próprio dera o exemplo da rebeliiâo, havia 
pouco, convinba-lbe contrapor ás suas tradicções 
opposidonistas, como diríamos hoje. uma affir- 
mação positiva, enérgica, decisiva de como es- 
tava disposto a conservar a auctoridade real e a 
punir duramente qualquer tentativa revolucio- 
naria. 

Esta sugestão não somente era própria da no- 
tável e firme habilidade politica que D. AíTonso 
IV mostrou em todo o seu reinado, mas dimana 
naturalmente, hoje como hontem, do que pode- 
ria chamar-se o instincto de conservação dos 
systemas políticos, por isso que corresponde e 
se confunde até com o instincto de conservação 
dos indivíduos. 

Uma idéa, um systema, um^sentimento, uma 
ambição pôde adoptar a formula revolucionaria 
para attíngir a formula dominadora; mas con- 
quistada esta condemnará a outra, nas idéas, 
nos systemas, nas ambições contrarias. É que a 
idéa fez-se instituição; é que a aspiração fez-se 
lei. 

A iiístoria repete em cada pagina esta lição, 
e o documento que vamos transcrever, em que 
o revolucionário de poucos annos atraz, empos- 
sado no régio poder que procurara arrancar ao 
pae, disserta gravemente acerca da criminali- 
dade da rebeldia contra os reis, seria eminente- 
mente ridículo, apesar do seu sinistro caracter, 
se para o pensador sereno não fosse apenas a 
expressão mais ou menos rude, inconsciente 
porventura, d'uma espécie de fatalidade, profun- 
damente lógica no fundo. 

Que este documento complete a nossa nar- 
rativa. 

Eil-o: 

«E:^ta be a sentença da condemnação que EU 
Rey dom affonço deu e fez pubrícar na cidade 



de lisboa contra Joham afonço seu Irmalo filho 
delRei dom 0ttiis polia truiçom que contra elle 
cometeo. 

«Huma das virtudes perque melhor e mais 
honrradamente se mantém o mondo asy he Jus- 
tiça e porque se ella avja de fazer convém per 
direita razom que ouvesse fai quem na fizesse e 
sostevesse Porem forom os Reis escolheitos pêra 
esto e porque por elles cada hum aver e pcra 
cabarem aguisado quando demandar e elles 
aam postos pêra dar a cada bum Iguallmente o 
Sseu direito e o poboo em elles teer vjda e mer- 
çee he bem De rrazom que quando alguuns fos- 
sem de tam maa ventura e errasseni contra seus 
senhorios e contra as terras onde elles sam na- 
turaaes e gravemente que os Reys queiram desse 
direito e Justiça e que o poboo a queira e devem 
querer que ajam os rreis e as terras e seendo 
desfazedores dos erros os que taaes erros fezes- 
sem e nom Ibo conhecendo devjdo de natureza 
que com seus senhorios e com as terras onde 
sam naturaes nem o boom feito emenços que 
cada dia dos senhorios recehem E porque esto 
he buum dos maiores que seer podem também 
contra Deos como contra os Reys que tem seus 
lugares na terra como contra o poboo que devem 
sempre de querer vyda e proli e honrra e saúde 
de seu Rey e porque he sa vjda do poboo e sa 
proll e sa onrra e pollo seu Rey acrecentade e 
mantheuda. 

«Porende em como a nos Rey dom afonço fosse 
dito e denunciado per alvaro vasques de gooes 
que Joham afonço sendo nosso naturall e vasallo 
mandara monter e poer com afonço sanches 
quera noso Imygo e das nosas terras por seus 
maaos e desleaes merecimentos que ell contra 
nos e contra nossas terras fez seendo nosso na- 
turall que lhe desse alvadilista e que ell lhe da- 
ria aquello porque a el tynfaa apenhorada e lhe 
desse casto monte e vjlla dalçor em que tevesse 
a moihcr e que elle veesse fazer guerra em pur- 
tugall e que ell cerfaria de seu cabo e que eil 
tynha muitos e muy boos com que a fezesem e 
que em este tempo a poderia muy bem fazer e 
com os demais de portugall e erom de nos desa- 
vindos dessy aver de ter com el E afilosço san- 
ches visto esto que mandara a este que lhe este 
rrecado trouxera de Joham afonço que fosse esto 
difeer a alvoro nunes de sojye que era seu amjgo 



Historia âe Portugal 



199 



e ayja coro ell de faser o que sa prol e Ba onrra 
fosse se poderia mais de ligeiro meter a caminho 
como ell fezesse eaia guerra e que quanto era 
que a ell prazia de lhe dar crasto monte e viila 
dalçor e que alva de lista nom lha podia dar se- 
nom provesse alvaro nunes que a tinha e que 
forom alia com este rrecado e que disserom asy 
a alvaro nunes E que alvaro nunes desera que 
Ibe prazia ende pois o feito asy estava e desto 
ouve Joham afonço rrecado dafonço sanches e 
que por esto se fora logo pêra alvaro nunes e 
que lhe disera e rrogara que pois esto tinham 
eod este passo que lhe quisesse fazer ajuda pêra 
a fazer em portugall e pêra sa onrra e proll e 
que alvaro nunes desera que lhe prazia segundo 
o que lhe em este feito fora mostrado per aquelle 
mesegeiro de Joham afonço e a rreposta que lhe 
eovjara. E que por esto moverem logo e veerom 
fazer aquell mail e dapno que foy feito em bra- 
gança rroubando e poendo fogo e matando e ca- 
tivando os homens. E que outro ssy estando Jo- 
ham afonço por nosso cabedal e fronteiro em 
porlallegre e em arronches per razom desta 
guerra que afonço sanches fazia pêra agardar 
nossa terra de dano e faser mall na da afonço 
sanches que Joham afonço mandou seu rrecado 
desto que.sse eragia antre ell e afonço sanches 
a dona tareira e a gonçallo mendes que bi es- 
tava pêra quitar e que rrecebeo delles cartas e 
rrecado para esto. 

«E que sobre esto forom per algumas vezes ca- 
valeiros taa^s de que muito fiavam e que se vi- 
rom e que fii^arom avindos e firmado este preito. 
E em como a nos este fosse dito e denunciado e 
nos a esto nom quisesemos mover tam a ginba 
podendo faser per muitas cousas que a nos forom 
ditas e pêra guardarmos direito aos nossos na- 
turaes e nom rrecebessem dapno sem razom e 
por sabermos mais compridamente a verdade 
Dissemos a este que nos esto assy desera e de- 
nunciara que nos dicesse as testemunhas perque 
esto podia provar e ell disenollas. E nos veendo 
que eram taes que podiam seer em todo feito 
testemunhas e de direito e pêra fazermos direi- 
tamente e com verdade o que ouvessemos de 
faser fezemos a el saber quaaes eram estas tes- 
temunhas B nos contaaes que eram sem sus- 
peita e o sabiaiD £aser perguntamolhis pêra saber 
a verdade deste preito primeiramente jurados 



sobre sanctos avangelhos e filhada a dita en- 
quiriçom e vista com nossa corte assy como de 
direito se devia de veer e vistas muitas cartas 
que faziam prova deste feito que da huma e da 
outra porte forom eavjadas achamos pella dita 
enquiriçom e pellas ditas testemunhas que se 
provava tanto deste feito que assy a nos fora dito 
e denunciado se provava dhuma parte darmos 
aa nossa terra direito e Justiça e deli péa E 
achamos que demais desto fora dito a denun- 
ciado se provava que seendo nosso caball e fron- 
teiro fora presso huum homem que tragia cartas 
de dona tareiga e de gonsalo mendes em rrazom 
deste feito que assy fora firmado as quaes vi- 
nham a estes cavaleiros perque Joham afonço 
eslo afirmara e porque nos sabiamos que aquell 
era presso per razom das cartas que lhe acha- 
rem e nos as pedíamos pêra as veermos e te- 
mendose do dapno dessas cartas que estes cava- 
leiros a que vinham mandarem a gonsalo mendes 
que lhe mandasse outras cartas em outra razom 
que podesse perante nos mostrar sem rreceo e 
ante que veesem deu Joham affonço estas car- 
tas a huum destes cavaleiros que fizsessem ou- 
tras que perdante nos podessem parecer se receo 
e tolhessem os seellos aas outras e os posessem 
a estas outras que mandavam faser e que assy 
se fez E que estas se mostrarom a nos E que 
outro sy rrecebera Joham afonço cartas de dona 
tareja que lhe envjava rrogar que lhe físesse 
saber do que nos queríamos fazer pêra se per- 
ceber que lhe dicerom que nos jamos pêra lhe 
mandar fazer mall em sa terra E que Joham 
afonço disera ao que lhe este rrecado trovera 
que lhe envjaria de todo esto certo rrecado Em 
como quer que a nos seja muy grave e nos pesse 
muito em nosso coração davermos dar sentença 
que lhe este feito demanda contra quallquer que 
nosso natural e nosso vasallo seja moormente 
contra homem que se chama filho delfiey dom 
denis nosso padre que deus perdoee e que el 
tanta merco fez e que nos creamos que nom po- 
dia seer seu filho nem vyr do seu sangue homem 
que taaes obras fezesse contra Rey e contra se- 
nhor e contra a terra onde he natural Pêro pollo 
loco de Deus que teemos e pêra faser direito e 
Justiça e pêra estar recontar os taaes feitos e dar 
pena segundo o direito manda aos fazedores 
delles consirando quanto bem e quanta merçe 



18D 



Hiwlxina ãBBartatsH 



de nos avya rrecebida se nola elle oinrera me- 
recida e como avya de nos mercê segundo nosso 
naturall e vasallo e emvjou mover e poer com 
afonço Sanches que he nosso emmygo e da nossa 
terra tal preito e postura poendo que eil fezesse 
fazer guerra em nossa terra e que ell que a fa- 
ria de seu cabo e mandando asy esforçar com 
rrazom nom verdadeira dizendo que eram desa- 
viados de nos os nossos naturaes vasaiios polia 
quall razom logo foy feita per este nosso Jmigo 
gerra a nossa terra como dito he E querendo 
nos poer feura em ell e tirall deli serviço e pêra 
asesegar. . . pêra aver nos razom de lhe fazer- 
mos roais mercê emvyamollo por nosso cabedall 
e fronteiro contra o dito afonço sanches e ell em 
ese tempo em aquelle logar fírmase este preito 
e recebendo rrecado de nossos Jmigos em nosso 
dapno e de nossa terra em logar de nos conhe- 
cer hi serviço e guardar hi lealldade e direito o 
que devja faser e guardar Mostrou hi deserviço 
e deslealdade eeiço he o que nom devia desco- 
nhecendo natureza e vassalagem e quantamento 
e bem fezeramos e feuza que era ell poseramos 
no logar a que o envjaramos e nom esconhe- 
cendo quanto bem avja rrecebido ante ja da 
terra de purtugall e visto e examinado este feito 
com nossa ròrte e catado como era provado 
quanto auondava e avjdo conselho sobrei Juilga- 
mollo por treedor e mandamos que moura Esta 
sentença foy dada em Lisboa quatro de Julho era 
de mill e trezentos cessenta e quatro anos.» ^ 
(Anno 1326y. 

Náo deveremos certamente, obedecendo a im- 
pulsos generosos, mas pouco conciliáveis com a 
historia, condemnar em absoluto o sucressor de 
D. Diniz ou deixarmo-nos prevenir desfavoravel- 
mente árcrca do seu caracter pessoal por esta 
afirmação terrível da sua justiça de rei. Hoje 
como hontem, e mais hoje do que hontem ou 
do que nas condições orgânicas da sociedade 
politica d'aquelle tempo, o general a quem ti- 
vesse sido confiada a guarda d'nma fronteira ou 
o encargo d 'um ataque, o que procedesse, em 
face do inimigo e para com elle, como aquelle 

í Ord. de D. Duarte— Kss. ined, Cop. da Ac. das 
Sciencias. 

Conservamos n'esta transcripçSo todos os erros e 
deficiências que nos parece revelarem-se na cópia de 
que nos servimos, única que podemos ver. 



documento assevera que procedeu o tnfélii bas- 
tardo, seria indiscutivelmente um traidor que 
incorreria na mesma applicação penal. 

Fora também desconhecer ae praticas e até o 
espirito do tempo, e nâo attender ás condições 
especiaes que envolviam e determinavam o trá- 
gico successo, incriminar por demasiado sum* 
mario e obscuro o processo seguido pela justiça 
real; nem valeria muito mais, apesar de toda a 
sua sinistra gravidade, a accusação de fratercida 
vibrada â memoria de Âffonso iv por alguns his- 
toriadores, se a hypothese d*uma revindicta for-* 
midavel, d'uma explosão de ódio e de vingança 
não parecesse saltar por vezes d'aquelle registro 
e desfiamento implacável de factos que nem sem- 
pre se prestam a preparar o espirito para a si- 
nistra conclusão. 

A pessoalidade real começara já a desappare- 
cer não só na magistratura suprema, mas na 
theoria jurídica da delegação e representação di- 
vina. O rei era a encarnação da justiça; os pre- 
destinados reguladores da harmonia social. Dil-o 
na linguagem ingénua e pittoresca do tempo o 
nosso ÂfTonso iv, n'aquelle mesmo documento: 

«Huma das virtudes perque melhor e mais 
honradamente se mantém o mundo asy he jus- 
tiça, e porque se ella avja de faser. . . foram os 
Reis escolheitos pêra esto, . . elles sam postos 
pêra dar a cada hum iguailmente o seu direito 
e o poboo em elles teer vjda e mercê. » 

Dizia-o poucos annos depois, nas celebres cor- 
tes de Valladolid, de 1351, o não menos celebre 
legislador D. Pedro o cruel^ de Gasteila: 

«Porque los reyes y los príncipes mven è re- 
gnan por la justicia^ ea cual son tenudos de 
mantener é gobernar los sus pueblos. . . » 

£ D. Affonso não se esquece de observar que 
pelo logar de Deus «que teemos» tem de caliar 
os seus sentimentos verdadeiros ou supostos de 
piedade para com o irmão. 

Naturalmente a condemnação de João Affonso 
produzindo profunda e geral commoção, incitou 
os que promoviam a conciliação «ntre o rei e o 
bastardo d^Albuquerque, e particularmente a bon- 
dosa rainha Isabel; a redobrar de esforços. Gomo 
que saciado emfioi, mas provavelmente, mais 
preoceupado com outros graves assumptos que 
lhe estimulavam e prendiam a sua notável sa- 
gacidade politica, do que assustado pela expio- 



Historia de Portugal 



181* 



sãa das bum velb^s cóleras contra os bastardos, 
D. ÂfiFonso cedeu finalmente, e firmando a paz 
com Âfibnso Sanches, restiluíu-o a todos os bens 
e honrarias que elle tivera em Portugal. Não pa- 
rece porem que o senhor d'Âlbuquerque gozasse 
por longo tempo, ainda, esta nova situaçlio sendo 
provável que fallecesse pouco depois doesta paz 
tão dífficiJmente concedida. 

Nem parece que a conciliaçíLo o fizesse voltar 
definitivamente á corte, ou a fixar se n'ella, 
pois que em breve iremos encontrar-lhe o filho, 
o tristemente celebre João ACTodso d'Albuquer- 
que, occupando permanentemente na corte cas- 
telhana um logar eminente. 

CAPITULO II 

I»ortttgal , Ca stella e Aragão . —Ainda Affonso 
XI e 08 seus tutores.— D. Constança Ma- 
nuel.— D. João de Biscaia.— D. Branoa. — 
NegooiaQôes para annnlar o casamento Ju- 
rado de D. Pedro de Portugal e D. Branca. 
—Assassínio de D. João de Biscaia.— D. 
Affonso XI pede em casamento a infante 
portugueza D. Maria. — Opposição arago- 
neza. — Realisa-se o contracto de casa- 
mento.— Revolta de Valladolid.— Confede- 
ração de Portugal, Aragão e Castella.— 
D. Affonso IV, caçador. — As snas primei- 
ras leis. 

Dois assumptos d'uma elevada importância 
pelas suas relações próximas e remotas com a 
politica exterior e peninsular do paiz, deveriam 
occupar as attenções de Aflbnso iv e suscilar-Uie 
as mais graves prcoccupações. Referi mos-nos 
aos casamentos de seus filhos D. Pedro e D. 
Maria. 

No meio das rivalidades e discórdias que a 
miúdo se levantavam entre o Aragão e Castella, 
a allíança de Portugal era naturalmente esti- 
mada e soUicitada por aquelles e os outros 
estados peninsulares como d'uma importância 
decisiva, quer pela sua situação geographica e 
estratégica, quer pelas condiçOes de força eco- 
nómica e militar, que a politica, geralmente há- 
bil, dos nossos governos, conseguira crear ao 
nascente estado português. Mais d*uma vez a 
neutralidade de Portugal, a sua intervenção 
pacificadora ou guerreira, o auxilio do seu thc- 



aouro ou dos seus soldados, a mediação dos seus 
reis, se fizera profundamente sentir nos desti- 
nos políticos da Península. 

Logo que subira ao throno recebera Affonso iv 
(1525) um pedido d'avultado auxilio pecuniário, 
por parte do celebre rei d 'Aragão D. Jayrae ii 
o JuslOy para pagamento da armada que este 
destinava a soccorrer o rei aragooez da Sicília 
D. Fradique ou Frederico iii, e logo pouco de- 
pois novas embaixadas d'Aragão e de Castella 
procuravam attrahir o novo rei portuguez a uma 
alliaoça activa com os dois Estados, na previsão 
d'um rompimento entre eltes. 

Dissemos jã, que entrando no governo ao com- 
pletar apenas 14 annos de idade, Affonso xi de 
Castella vira logo conjurados contra si os seus 
tutores e tios D. Joãc íjajucl e D. João de Bis- 
caia o Tuerto, os quaes como que armando mais 
solemnemento esta alliaDça, convíeram que o 
segundo desposasse D. Constança Manuel, filha 
do primeiro. 

No intento porem de dissolver ou desarmar^ 
esta conjuração que lhe ameaçava seriamente 
a sua apenas começada realesa, Affonso xi pro- 
curou lisongear a ambição e orgulho de D. João 
Manuel, pedindo-lhe em casamento a promettida 
esposa do seu alliado. 

Nào hesitou o poderoso senhor em romper o 
pacto feito com o Tuerto, para ver a filha, rainha 
de Castella, e tractado o consorcio, recebeu em 
arrhas, os castellos de Cuenca, Hue<c e Lorca, 
para os guardar até que o rei tivesse successão, 
fazendo-se nomear também fronteiro de Castella, 
ao passo que a filha, creaoça ainda, era entre- 
gue a uma aya, D. Theresa, para que a edu- 
casse, até que podessc tomar o logar de esposa 
ao lado de D. Affonso, o que aliás nunca se rea- 
lisou. 

Succedia isto em novembro de 1325. 

Irritado D. João o Tuerto, procurou reforçar-se 
com novas e melhores allianças. Começou pois 
por pedir em casamento a infante D. Branca, 
neta de D. Jayrae ii o rei reinante do Aragão, 
em cuja corte ella vivia com sua mãe, desde 
que o pae, — D. Pedro de Castella, — fora morto 
na veiga de Granada. 

Estreitando assim a sua amisado com o rei . 
aragonez, alargava extraordinariamente os do- 
minios próprios, que abrangiam mais de oitenta 



182 



Historia de Portugal 



oastellos e logares, com os da esposa que eram 
importantes em Castella, Biscaia e Aragão. 

Acontecia porem que a infante D. Branca se 
achava jà de longa data contractada em casa- 
mento com o infante D. Pedro, filho de D. Af- 
fonso IV. 

Era delicado o caso, porque não conviria ao 
rei de Aragão, nem a D. João o Tuerto, ofiFender 
o rei de Portugal, quando exactamente mais 
precisavam captar-lhe a alliança ou assegura- 
rem-se da sua neutralidade, contra Castella. 
Andava então D. Affonso iv occupado com a 
guerra que lhe promovera Affonso Sanches, mas 
não deixou por isso de enviar a Barcelona um 
embaixador, — Lopo Fernandes Pacheco, — a tra- 
ctar do assumpto. Cumpria obter do Papa a dis- 
pensa para que o consorcio entre D. Branca, 
uma creança ainda, e o Tuerto podesse reali- 
sar-se, mas o chefe da egreja recusava-se a 
outorgar essa dispensa por estar a infante con- 
tractada para casar com D. Pedro de Portugal, 
.6 por ter já dispensado n'e8te projectado consor- 
cio, a menos que o rei portuguez e seu filho 
não consentissem no novo coniracto. Ou porque 
a campanha contra Affonso Sanches o absor- 
vesse, ou porque D. Affonso desejasse prolrahi^ 
a solução do negocio, porventura despeitado 
pela preferencia dada a João o Tuerto sobre seu 
filho e herdeiro D. Pedro, e desejoso de não hos- 
tilisar o rei de Castella, contra o qual percebia 
que se dirigiam as negociações do senhor de 
Biscaia, o que é certo é que ainda recebia em 
Extremoz em novembro de 1326 o embaixador 
aragonez D. Ximeno de Tobia que vinha instar 
por que elle e D. Pedro se empenhassem para 
com o Papa para que concedesse a dispensa do 
casamento de D. Branca com D. João o Tuerto, 
quando já o moço rei de Castella se encarregara 
de dar em Toro ao negocio uma d'aquellas ter- 
ríveis soluções de que mostrou tristemente ser 
tão abalisado cultor. 

Posera-se Affonso xi a percorrer os seus desor- 
denados Estados, como severíssimo juiz, casti- 
gando summaria e cruamente os bandidos e 
turbulentos, e cortando nas cortes de Medina 
dei Campo por muitos abusos e privilégios com 
notável ousadia. 

Informado dos planos e intrigas de D. João o 
Tuerto, convidou-o com muita affabilidade e 



honra a vir a Toro conferenciar com elle sobre 
graves negócios de administração e de guerra. 
Fez*lhe saber egualmente que se achava dis- 
posto a conceder-lhe extraordinárias honrarias 
entre as quacs avultaria a do casamento da pró- 
pria irmã do rei, D. Leonor, com o Tuerto , se 
este o sollicitasse. 

Hesitou D. João, dando por pretexto os receios 
que tinha de apparecer em Toro e na corte, 
achando-se ali Garcilaso de la Vega, seu figa- 
dal inimigo, maB o rei lhe prometteu que não 
encontraria o temido valido, e lhe enviou um 
salvo-conducto. 

Sahiu-lhe até ao encontro recebendo-o com 
particular distincção e convidando-o a jantar com 
elle. 

Quando porem D. João entrava no palácio» 
correspondendo ao gracioso convite, foi attacado 
e morto, com os dois cavalleiros que o acom- 
panhavam, por ordem do real amphytrião que 
contava então apenas 15 annos de idade (outu- 
bro 1326). 

Fácil foi a Affonso xi apoderar-se dos domí- 
nios do Tuerto, e não contente com isto fez com 
que a própria mãe do assassinado lhe cedesse o 
senhorio de Biscaia. 

Não trazia porem a embaixada de D. Ximeno 
de ^obia a Portugal por único fim o tratar do, 
aliás mallogrado, casamento de D. João de Bis- 
caia com D. Branca. Propunha também o rei 
aragonez que o nosso o acompanhasse em exigir 
de Affonso xi de Castella a ractifícaçáo das pa- 
zes que se haviam capitulado entre elle, D. Diniz 
e seu pae D. Fernando iv. 

No momento em que João o Tuerto parecia 
procurar no Aragão um auxiliar da sua vin- 
gança, e em que D. Jayme ii triumphanle na 
Itália, e fortalecido com a estima geral dos ara- 
gonezes e catalães, se poderia considerar um doe 
reis mais poderosos da Península, esta preoc* 
cupação de fazer jurar por Affonso de Castella 
que manteria paz e concórdia com o Aragão, 
poderá parecer insidiosa ou representar iima 
grave suspeita. O que é certo é que assassinado 
o senhor de Biscaia, novamente insiste o Aragão 
n^aquelie pensamento enviando a Segóvia, o 
mesmo embaixador que viera a Portuga], para 
requerer do rei castelhano a confirmação da 
paz jurada por seu pae. Esquiva-se Afionso xi 



Historia de Portugal 



183 



á exigência, descai paado-se com o achar-se 
em viagem e não ter comsigo certos ricos- 
homens do seu conselho, mas protestando o 
seu desejo- de manter com o aragonez a melhor 
amisade. 

Desfizera-se pois D. AíTonso xi d'um dos seus 
antigos tutores; não se demorar^ em fazer as- 
sassinar outro, seu tio D. Filippe, (1327), mas 
restava D. João Manuel, que eile attrabira a si 
fazendo-o seu sogro, e que naturalmente alvoro- 
çado e prevenido pelo assassinio de D. João de 
Biscaia, julgara prudente abandonar o governo 
da fronteira e retirar-se a Hurcia. 

Simulou a real creança não se aperceber dos 
receios do velho senhor e seguindo para a cam- 
panha de Granada, mandou de Sevilha cha- 
mai-o. Não cahiu no laço D. João Manuel, e 
ÂffoDSOxi, vendo naturalmente descoberto o seu 
sinistro plano, tractou de se desenlear do ardil 
que lhe aproveitara, para sequestrar o infante à 
conjuração com o senhor de fiiscaia. 

Enviou para isso a Portugal secretamente uma 
embaixada, propondo ao nosso Âffonso iv que 
lhe desse a infante D. Maria em casamento, que 
elle se divorciaria publicamente de 0. Constança 
Manuel. 

Havia porventura n'esta proposta o pensa- 
mento reservado de evitar que D. João e o rei 
aragonez conseguissem chamar ao seu partido 
o rei de Portugal. 

Respondeu este porem com enérgica dignidade 
que não se tratavam obscuramente taes assum- 
ptos e que antes que consentisse em quaesquer 
negociações, deveria realisar-se e publicar-se o 
divorcio do rei de Gastella com a filha de D. João 
Manuel. 

Por outro lado enviou D. Âffonso iv ao Ara- 
gão, Lourenço Gomes d'Abreu que chegando em 
18 de outubro de 1327 a Barcelona, expoz ao 
muribundo D. Jayme ii, que o rei de Gastella 
não querendo absolutamente confirmar o casa- 
mento com D. Constança Manuel, solicitava a 
mão da infante D. Maria, filha do rei de Portu- 
gal o qual não desejava deferir ao pedido sem a 
approvação e conselho do aragonez. 

Reprovou o caso, D. Jayme, pela affronta que 
se fazia á familia iliustre da regeitada esposa, e 
enviou a Portugal um embaixador Beshon Xi- 
menes para embaraçar as negociações tendentes 



ao enlace da princeza portugueza com o rei de 
Gastella. 

Pelo seu lado D. João Manuel, tractava de re- 
forçar a sua influencia e partido alllando-se com 
os La Cerda, por meio d'um segundo casamento, 
com D. Branca, filha de D. Fernando de La Cerda 
(Lacerda), e captando o auxilio de D. João de 
Lara, marido da filha de D. João o Tuerto, de 
de D. João de Haro, de D. Pedro de Castro e do 
filho do nosso Affonso Sanches, o depois celebre 
João Affonso de Albuquerque, poz-se em campo 
contra o rei castelhano. 

Apressava-se porem Affonso xi em levar por 
diante o seu plano, e no mesmo dia em que 
o embaixador portuguez, Gomes d'Abreu, che- 
gava a Barcelona, passava aquelle procurações, 
e expedia para Portugal a Pêro Ruys de Villió- 
gas e a Fernão Fernandes de Pina afim de ra- 
ctificarem com o nosso Affonso iv as pazes e 
accordos negociados entre os pães dos dois sobe- 
ranos, e receberem por palavras de presente a 
infante D. Maria. 

No intento manifesto de affastar inais o rei 
portuguez do infante D. João Manuel ede evi- 
tar que este conseguisse captar-lbe a alliança, 
propozeram ainda os embaixadores castelhanos 
(1327) que se realizasse o casamento do nosso 
infante D. Pedro com D. Branca, a infantil e 
malograda noiva de D. João o Tuerlo, 

Entendeu D. Affonso iv dever addiar a solução 
doeste ultimo projecto, mas ou porque pela morte 
de D. Jayme ii de Aragão, acontecida em 3 de 
novembro de 1327 se julgasse exonerado de 
demorar a sua annuencia definitiva aos desejos 
do rei de Gastella, sendo demais provável que 
cessasse a preponderância de D. João Manuel na 
politica aragoneza, com relação a este assumpto, 
ou porque visse particulares vantagens no casa- 
mento proposto, o que é certo é que em 17 de 
dezembro se assignava em Coimbra o tractado de 
ractificação dos contractos celebrados entre Por- 
tugal e Gastella por D. Dini^ e D. Fernando rv, e 
a 26 do mesmo mez se firmava a escriptura de 
casamento da infante D. Maria, filha do rei portu- 
guez, com o rei de Gastella D. Affonso xi, ractift- 
cando este em Escalona, a 25 e 26 de março de 
1328 os dois documentos, e passando á nova es* 
posa carta d'arrbas pela qaal lhe dava as villas 
e termos de Geradal, Fajara, Talaveira e Ulmedo^ 



184 



Historia de Portugal 



Estava então o monarcba castelhano cercando 
Escalona, villa que pertencia a D. João Manuel, 
e ordenou por isso para Valladoiid á infante, sua 
irmã, D. Leonor, para que se derigisse com o de- 
vido fausto à fronteira de Portugal a receber a 
rainha. 

Lavrava já, porem, uma profunda irritação 
na corte e nas massas populares, contra o va- 
lido Alvar Nunes Osório, que o rei flzera conde 
de Trastamara; de Lemos e de Sarria; senhor de 
Cabrera e de Ribera; camareiro-mór; mordomo- 
mór, e fronteiro-mór do reino, no espaço de 
três annos. 

Suppondo-se que intentava çonceder-lhe tam- 
bém a mão de sua irmã D. Leonor, c que para 
isso a mandava sahir de Valladoiid com tal pompa 
e urgência, a ordem real foi desobedecida e a 
insurreição manifestou-se francamente. 

Marchou então Affonso xi sobre Valladoiid, 
mas a cidade cerrou-lhe as portas, e defonden- 
do-se galhardamente, exigindo que o valido fosse 
expulso da côrle e despojado de todas as honra- 
rias e poder. 

Ameaçava generalisar-se a revolta, que jã do- 
minava egualmente em Zamora e em Toro^ e 
Affonso XI, julgou mais prudente sacrificar Alvar 
Nunez, submeltendo-se ã exigência de Valla- 
doiid. 

Irritado, o orgulhoso valido procurou alliar-se 
com D. João Manuel, mas o rei castelhano pondo 
em pratica o seu expediente ordinário, fel-o as- 
sassinar por um simulado amigo e apossou-se 
das cidades, castelios e haveres que elle pos- 
suirá. 

Resolvendo ir pessoalmente receber a noiva 
que acompanhada pelo próprio D. Affonso iv se 
dirigia já para a fronteira, foi o rei de Gastella 
encontral-a em Alfaiates, celebre povoação aças- 
tellaJa da raia que por dote da rainha D. Isabel 
passara para o domínio portuguez (1282) e onde 
morrera o rei da Galliza D. Garcia, preso e tor- 
turado por seu irmão D, Sancho de Gastella 
(1071). 

Ali, e naturalmente no velho Castillo de Lana 
levantado por Affonso x de Leão e reconstruído 
por D. Diniz em 1297, se realisaram as bodas do 
tei castelhano com a infante portugueza D. Ma- 
ria^ em 1328, ultimando-se logo depois, em 
f oente Aguintddo o tractado de casamento do 



infante D. Pedro, fllfao e herdeiro de D. Affooso 
IV com a infante D. Branca, filha do íaUecido 
D. Pedro de Gastella, a mallograda noiva de 
D. João o Tuerto. 

Mais previdente do que os outros monarchas 
peninsulares; receieso porventura de que ã sooi- 
bra das discórdias d'elle8, o inimigo commum 
se robustecesse e preparasse um novo e grave at- 
taqueás monarchias christãs da Península, preoc- 
cupação que brevemente os factos viriam jus- 
tificar, o nosso D. Affonso iv, procurou n'estas 
conferencias com o rei de Gastella, congraçal-o 
com o do Aragão, e tentar que se voltasse á 
concórdia e confederação dos três Estados, no 
pensamento e interesse commum de guerrear 
os mouros. 

Succedera no Aragão, a D. Jayme, seu filho D. 
Affonso o IV, que mereceu da historia o nome de 
Benigno, e aconselhava o rei portuguez ao de 
Gastella que offerecendo-lhe com a sua amisade 
a mão de sua irmã D. Leonor, procurasse desar- 
mar a influencia hostil de D. João Manuel na 
côrle aragoneza, mandando pôr em liberdade 
a filha d'este, D. Gonstança, e restituindo^a ao 
pae. Gomeçaram n'este sentido as negociações, 
procurando o rei de Portugal e de Gastella affas- 
tar D. João Manuel do accordo a que desejavam 
chegar com o rei aragonez, mas respondendo 
este nobremente que primeiro deveriam D. Af- 
fonso XI e D. João Manuel, solver entre si a 
pendência em que andavam. Vendo porem o ul- 
timo que não poderia esperar que o seu protector 
e amigo resistisse por muito tempo ao convite e 
offerecimentos dos outros dois soberanos, e sen- 
tindo crescer na corte aragoneza o partido da 
paz e alliança com Portugal e Gastella, resi- 
gnou-se a tractar com Affonso xi, resultando ser- 
lhe entregue a filha, as terras que lhe haviam 
sido tomadas, e uma avultada somma de di- 
nheiro, com a obrigação, que elle teve o cuidado 
de não cumprir, de incommodar dos 4ados de 
Murcia, os mouros, quebrando a amisade que 
mantinha com o rei de Granada. 

Em Medina dei Gampo, a 21 de outubro de 
1328, se celebrou finalmente o tratado de paz e 
confederação, entre o rei de Gastella por si e 
pelo de Portugal e D. Gonçalo Garcia, embaixa* 
dor do rei d'Aragão, por este; tractado que foi 
uma • simplea ratificação do que le fixera em 



Bistoria de Portugal 



185 



Agrèda em 1304. Para ultimar e firmar melhor 
aioda a coaciliação, eacontraram-se no anno se- 
guinte em Âgreda os reis de Aragão e Castella e 
ooDcorrendo ali os embaixadores de D. ASodso iv 
se celebrou um uovo tractado de liga e amisade, 
estabeleceodo-se o mutuo auxilio cootra os mou- 
ros, etc. Ali se pactuou também que os tutores 
da iofante D. Branca a entregassem à rainha de 
Castella, para que esta a confiasse á de Portu- 
gal que a erearia em sua companhia ate que 
chegasse à idade de 12 apnos em que poderia 
contrabir o casamento jurado. 

Aealisou-se a entrega, ainda n'aquelie mes- 
mo anno, encontrando-se novamente os sobera- 
nos de Portugal e Castella em Fuente Aguinaldo, 

Parecia, pois, que estava definitivamente cer- 
rada esta longa intriga, que poderemos chamar 
nupcial, no fundo da qual, comtudo, não seria 
fácil encontrar mais do que ambições, enredos 
e conveniências politicas. 

Voltara D. Branca a ser a noiva infantil de 
D. Pedro de Portugal; resignara-be D. João Ma- 
nuel á regeiçâo da filha, e eram d'esta vez defi- 
nitivas as núpcias de Affonso xi de Castella. 

Roma recusara a estas a sua dispensa, mas 
dera-lh'a Âvinhão. 

Nos fins de fevereiro de 1330 chegavam a 
Tarrazona os embaixadores Lopo Fernandes Pa- 
checo, português eAffonso Jofre de Tenório, cas- 
telhano, com a dispensa outorgada por João xxii 
o segundo papa do Scisma. 

Gomo que fechando a porta da politica penin- 
sular a novos enleies d'esta longa intriga, reali- 
sara-se cm janeiro de 1329 em Tarrazona, com 
a mais faustosa solemnidade o casamento de 
D. Áffonso IV o BenignOy de Aragão, com a in- 
fante D. Leonor, irmã de D. Afibnso xi de Cas- 
tella. 

Somente |uma figura irritada e sombria, pode- 
ria perceber*se no fundo doeste quadro de paz e 
de esperanças. 

Mas de que valiam as cóleras recalcadas do 
velho D. João Manuel, contra a poderosa confe« 
deração dos reis de Portugal, de Castella e do 
Aragão ? 

Realisada esta, traclou logo o rei castelhano 
de a affirmar ruidosamente, entrando novamente 
em campanha contra os mouros. 

Den-lhe o sogro^ um contingente de 500 ca- 
n voL*— 24. 



valleiros, e embora a revolta dos domínios 
italianos do Aragão, viesse distrahir as forças 
d'este, enviou o aragonez algumas galoras, a 
secundar o intento do cunhado; Conquistada 
Ttíva e derrotados n'alguns encontros os sarra- 
cenos, fez-se a paz, em único proveito do rei 
de Castella do qual se declarou tributário o emir 
de Granada, cedendo também o infante D. Áf- 
fonso de la Cerda das suas pretenções ao throno 
castelhano, em troca de varias, concessões que 
lhe outorgou D. Affonso xi. 

Se estes resultados, pon m, assf6{uravam a Cas- 
tella uma espécie de trégua nas ^uas longas per- 
turbações, um facto albiâo á campanha, mas 
succedido por occasião dVIla, ia anuullar esses 
resultados, e originar novas disst nções intesti- 
nas e exteriores. 

Voltemos porem a occuparmo-nos especial- 
mente do nosso D. Affonso e do governo interno 
do reino. 

Uma tradirçào constante e auctorisada d^nun- 
cia-nos D. Afionso nos primeiros annos do seu 
reinado como exageradamente dado d paixão da 
caça, com prejuiso dos negócios públicos. 

De escriptor em escriptor tem corrido, n'este 
sentido, uma anedocta profundamente caracte- 
rística. 

Em conselho com os seus ricos-homens e mi- 
nistros, o monarcha, teria esgotado a já cança- 
da paciência d'elles, com a exposição enthusiasta 
dos seus prazeres e glorias de monteador, e, quer 
por antecipado accordo; quer por súbita inspira- 
ção, um d'elles ter-lhe-ia observado energica- 
mente que não consistia em taes diversões o 
officio de soberano; que a justiça dos vassallos 
e o bem da terra e da prol, mereciam mais at- 
tenção e cuidados do que os prazeres da caça; 
e que elle teria de occupar-se d^elies com mais 
assidua gravidade, senão, . . 

Senão... é a phrase dicisiva e consagrada 
da lenda. 

« — 5endío?»— perguntaria D. A£fon80. 

« Senão . . . escolheremos outro rei, » teria res- 
pondido a nobre hombridade do conselho. 

D. Afifonso, furioso com a ameaça, teria pro- 
testado castigar a nobre insolência dos seus con* 
selheiros, mas reflectindo, acabara por lhes fazer 
rasão e justiça, corrigindo-se inteiramente da 
sua paixão dominante. A anedocta tem pontos 



186 



Historia de Portugal 



de parecença com oulras referidas em historias 
estrangeiras, e lembra a tradiccional declaração 
aragoneza: «Nós que valemos tanto como vós 
e que podemos mais do que vós, fazemos-vos 
nosso rei e senhor, com a condição que guar- 
dareis as nossas liberdade»; seiião: não.» 

Mas é certo que ella não destoa do espirito 
do tempo e que pode até corroborar-lhe a ve- 
racidade a situação especial em que deveria 
achar-se D. Áffonso, no começo do seu reinado. 
Alem de que, estas manifestações de forte hom- 
bridade e de rude franqueza para com os reis, 
não só da parte dos seus poderosos barões, mas 
da burguezia e do povo, são muito vulgares n'a- 
queiles tempos, e a democracia moderna, espe- 
cialmente uma certa democracia espectaculosa 
e bem-fallante dos nossos dias, teria muito que 
aprender com os toscos fidalgos e com os mo- 
destos populares da Idade Media. 

Comtudo vimos já que não parecia merecer 
D. Affonso tão dura reprehensâo. 

Á parte a guerra com AÍTonso Sanches e as 
graves negoriações com os outros Estados da Pe- 
nínsula, o filho de D. Diniz apressara-se a con- 
vocar as cortes geraes (Évora 1325) c n'ellas se 
occupara de importantes assumptos, particular- 
mente dos que poderiam restaurar a tranquiili- 
dade interna do reino. Era dos mais iínpr>rtanles 
a diss^nção em que andavam os mosteiros e 
egrejas ou os bispos, priores e abbades respe- 
ctivos com os ricos-homens, cavalleiros e filhos- 
d'algo, — herdeiros d^esses mosteiros e egrejas, 
— por causa das comeduras, cavallarias e casa^ 
mentos, * que a esses herdeiros eram dividos. 

Queixavam-se os mosteiros que Jheá eram a 
miúdo penhoradas e embargadas as herdades, 
por forma que nem podiam satisfazer aquelles 
direitos, nem «haver mantimento para si, nem 
manter hospitulidade, nem fazer as outras cou- 
sas a que eram theudos. . . dizendo esses que as 
embargavam que lhes foram dadas em presta- 
mos.» * 



1 Pensões, direitos ou foros pagos pelos vassallos 
aos senhores, e no caso sujeito, recebidos pelos ri- 
cos-homens, ricas donas e filko$ d'alQ0^ dos mos- 
teiros e egrejas de que tinham parte ou todo o pa- 
droado por fundação, compra ou herança. 

^ Consignação ou concessão de propriedades, fõ* 



Representavam os «ricos-homens, cavalleiros, 
fiihos-d'aIgo, naturaes e herdeiros dos ditos mos- 
teiros e egrejas dos. . . arcebispado de Braga, e 
bispado do Porto e dos outros bispados,» que 
«não haviam livremente as comeduras e cavalla- 
rias e casamentos e as outras cousas que haviam 
d'haver dos mosteiros c egrejas, porque as her- 
dades d 'esses mosteiros e egrejas de que esta- 
vam em posse, e em que elles haviam direito 
de penhoras, quando lhes estas cousas não fos- 
sem dadas ... * que lhas embargavam clérigos e 
leigos, de guisa que livremente não podiam ir pe- 
nhorar pelos seus direitos dizendo que lhes foram 
dadas em prestamos, e que alguns poderosos por 
esta rasão lhes ^f/ent/tam por algumas vezes estas 
penhoras que eifes queriam fazer, e que alguns 
se achacavam dizendo que lhes faziam deshonra 
por penhorar em ellas, e que os desafiavam e 
faziam desafiar os filhos d' algo. » 

Originavam-se d'aqui muitos omizios e mor- 
tes, umas vezes; oulras, demandas interminá- 
veis, c não poucas, excommuohões e discórdias 
ecclesiasticas. 

Era a velha questão das usurpações de pro- 
priedade, das concessões illigitimas dVlla, que 
tanto haviam dado que fazer a D. Affonso ii e a 
D. Diniz. Não era certamente toda a questão, 
mas uma das suas phases, a da concessão e alle- 
gação tumultuaria dos prestamos e emprasa- 
mentos aitribuidos e assignados, ás vezes, pelos 
próprios abbades e priores, a terras e a rendimen- 
tos que respondiam por certos direitos para com 
os doadores ou seus herdeiros. Entre os mos- 
teiros e os filhos d'algo se fizera em tempos 
anteriores uma espécie de concordata para o 
pagamento dos direitos dividos. 

ros, rendas ou direitos senhoriaes como pagamento 
ou recompensa de serviços. 

I Tinham comtudo começado já as excepções e 
restricções a este direito. Segundo Viterbo, no ar- 
chivo do mosteiro de Reciain (Lamego) existiam 
três cartas ou alvarás de D. Diniz, «pelos qoaes ri- 
gorosamente e debaixo dos seus Encoutos, prohibe 
que Cavalleiros, Donas, Escudeiros e outros Homees 
que $e chamão a Herdeiros, e Naiuraes desse Mos- 
teiro o n5o vão penhorar por Servços, e Comeduras 
e por Cavalarias e Casammtos, que dizião que ende 
deviam aver como Natnraes e Herdeiros, nõn no 
sendo de Direilo. » 



BIstKMria de Portugal 



187 



Em vfz de mandar proceder a um inquérito c 
revisão dos titulos de iigitimidade dos prestamos 
e doB embargos denunciados nas queií^as referi- 
das» — expediente que seu avó e pae haviam 
adoptado com tão notável e insistente energia, 
e que elle propio applicaria mais tarde, em as- 
suEDptos análogos, — D. Âffonso não se incom- 
modou a desfazer o nó gordio da questão: — 
cortou-o. 

Aevogou em absoluto os embargos inciimina- 
dos; mandou que os queixosos fossem immedia- 
tamente empossados nas suas propriedades e 
direitos, e prohibiu expressamente a repetição 
de embargos e de concessões preslimoniaes em 
circumstancias idênticas ás que sugeriam aquel- 
las perturbações. 

Eis o seu veredictum; 

— « . . . tenbo por bem e mando que todo 
los casaes e herdades, e possessões e toda 
las outras cousas de raiz dos mosteiros e egrejas 
do arcebispado de Braga e do bispado do Porto 
e dos outros bispados do meu senhorio, em que 
os filhos d'algo hão de baver os ditos direitos, 
que são embargados pela dita rasão, que esses 
mosteiron e egrejas si^am metidos em posse 
delles, de guisa, que esses abbades e abbadeças 
e priores e reitores desses mosteiros e igrejas 
compridamente possam receber todo los fructos 
e novos e direitos desses casses e herdades, e 
dizimas, e direituras e quaesquer possessões, 
pêra poderem comprir o dito degredo, assim 
oomo em elle é contheudo e manter hospitali- 
dade e fazer as outras ditas couzas, e que outro 
sim 08 filhos d'algo possam harer livremente e 
sem outro embargo, as comeduras e cavallarias 
e casamentos e os outros direitos que ende hão 
de aver, e que não consintam a nenhum clérigo 
nem leigo nem a outra nenhuma pessoa que 
lhes em essas herdades e possessões e direitos 
ponham embargos. 

«Outro sim pêra este degredo daqui em diante 
ser comprido e aguardado e não possa ser em- 
bargado pela dita razão tenho por bem e mando 
que a nenhuns clérigos nem leigos nem outras 
pessoas sejam assignados em prestamos daqui 
adeante herdades nem possessões nem dizimos 
nem nenhuma outra cousa, dos ditos mosteiros 
e egrejas, e que os abbades e abbadeças^ priores 
e reitores não lhas dem nem assignem em pres- 



tamos nem façam emprasamentos contra direito 
e como não devem em dapno dos direitos dos fi- 
lhos d*algo e engano desta minha ordenação, 
pêra se não cumprir o que eu mando e o que 
os mosteiros e egrejas são theudos a manter, 
e os que contra esto vierem mando que não 
valha o assinamento do prestamo dessas herda- 
des e possessões e que os degredem da minha 
terra e que mantenham os ditos mosteiros e 
e egrejas na posse dessas possesí^ões e herdades 
e direitos e mando que i^to seja guardado em 
todas as egrejas e mosteiros do meu senhorio, 
e mando aos meus meirinhos e a todas as justiças 
dos meus reinos que assim o façam cumprir e guar- 
dar e aquelle que assim o não fizer ao seu corpo 
e haver me tornaria eu porem como daquelle 
que não cumpre mandado do rei e dosenhor. 

«E pêra ver como os meus meirinhos e as 
outras minhas justiças sobre isto cumprem meu 
mandado, mando aos tabelliaes das minhas ter- 
' ras que dêem ende testemunhos a Pcro Ànnes, 
abbade de S. João de Pendorada, ou aquelle que 
sobre isto andar em seu logar, se lhe cumprir, 
quando lhos demandar, b 

Mas apesar de todos os esforços dos reis an- 
teriores; das inquerições de D. AfTonso ii, de D. 
Afifonso III, de D. Diniz, porventura mesmo de 
D. Sancho ii; apesar das formidáveis medidas de 
D. Afifonso III, que não somente mandara devas- 
sar e inquerir energicamente as jurisdicções e 
direitos, coutos e honras que os senhores, pre- 
lados e ordens possuiam, mas negara o direito 
régio da concessão hereditária dos bens públi- 
cos; annullara todas as transmissões particu- 
lares de senhorios,. terras e padroados de pro- 
priedade regia e ordenara que voltassem á ccrôa 
todos os herdamenlos foreiros dVlIa ou reguen- 
gueiros, que os colonos reaes houvessem por 
qualquer forma de direito alheiado; apesar de 
todas estas longas e mais ou menos violentas 
tentativas de refonua, a questão da propriedade 
illigitimamente adquirida, fruida, emprazada, 
acoutada, ou transmittida, continuava a pertur- 
bar a paz publica, c o senhorio real a sentir-se 
gravemente defraudado na arrecadação dos seus 
direitos próprios e dos redditos públicos, entre 
08 quaes não é extremamente fácil estabelecer 
uma perfeita distincção, bem como no exercício 
I da sua jurisdicção e da sua justiça. 



188 



Historia de Portugal 



Seguio n'este ponto D. Afifonso iv o expediente 
usado pelos seus antecessores, ordenando a re- 
visão e atombamento dos títulos de proprieda- 
des, hordamentos e jurisdicçâo, e a restituição 
ao património e senhorio da coroa, do que lhe 
tivesse sido usurpado ou alheiado d*ella, contra 
o direito estabelecido. 

Das suas primeiras reformas porem, uma das 
mais notáveis é certamente a que acabou com as 
coimas por morte, deshonra ou injuria, arbitra- 
das pnlo aggravado ou seus parentes, chamando 
ao direito comiuum dos tribunaes e justiças 
regias, todas as queixas e dis^ençõcs dos parti- 
cu'apps e determinadamf*nte dos ricos-homens e 
filhns-d*algo, costumados a procurar pelas pró- 
prias mãos a reparação dos seus agi^ravos. 

Cooyma ou coima era a satisfação, indemni- 
sação, multa ou pena exigida ou imposta por 
morte, affronla ou injustiça, áquelle que a com- 
metlora ou a quem era attribuida. 

Exigia-a ou impunha-a o próprio aggravado ou 
a parentella d'elle. summariaraente e sem inter- 
venção jurídica, chpgando mesmo o costume, 
n*alguns pontos, — pHo menos n'um, no Aro de 
Lamego, citado por Viterbo, — a pagar a terra ou 
povoação mais visinha do sitio, onde se encon- 
trasse morto um homnin ou uma mulher, sem 
qup se soubnsRí» quem tivesse sido o assassino, 
trinta maravidis ao mordomo, ou a provar qmm 
tivesse sido aquelle. 

Em vez da coima ou ncooimamento cuja ori- 
gem e significação histórica não é deficil de 
ppn'el»er, usavam à-» vezes os filhos-d'algo, es- 
pecialm»"nte em caso d*aíTronta, a desafiaçom 
ou desafio do aggrespf-r para dar satisfação pelas 
armas, processo que sobreviveu, apesar de todas 
as pn»bibiçÕes sociaes que o explicavam, per- 
deu io o seu caracter até certo ponto lógico e in- 
contestavelmente grandioso, para se converter na 
convenção ridicula e radicalmente absurda do 
moderno duello. 

» Acoimar morte ou deshonra de parentes.^» 
e pedir contas directas o ã mão armada aos acoi- 
mados, era us;mça vnlha, direito tradiccional e 
processo vulgarissirao n*aquel]a sociedade mal 
assenfe e consolidada ainda nas formulas d'um 
direito impessoal e geral; cheia de tradicções e 
de costumes, senão perfeitamente, pelo menos 
aproximadamente feudaes, e onde a cla$se e até 



certo ponto a família eram, podemos diser as- 
sim, instituições politicas. 

Verdadeiras guerras se originavam das rixas 
particulares dos ricos-bomens; davam batalhas 
os\ seus adherentes; colligavam-se as famílias 
limas contra as outras, e os bandos congregados 
pela inimisade ou pela dissenção dos senhores, 
devastavam o paiz. 

caso chegava até a dar-se frequentemente 
entre os que não eram filhos d*a!go, e muitos, 
d'uns e d'outros, andavam omiziados para fugir 
á vindicta ou acooimamenlos dos seus inimigos. 

Procurara o ultimo rei pôr cobro a taes des- 
mandos, e D. Aflbnso, embora, quando infante, ti- 
vesse dado notável exemplo d'elles, apressou se, 
logo que se achou investido no poder real, a se- 
guir o pensamento do pae, de extinguir todas as 
facilidades e estimuios á perturbação da paz 
publica e á offensa da auetorídade suprema. 

Em duas leis, das quaes a ultima foi publi- 
cada em 17 de março da era de 1364 (amio de 
1326y ordenou que nenhum fidalgo ou do povo, 
podesse perseguir outrem por morte ou deshonra 
que lhe fosse feita, ou a parente seu, sob pena 
de morte, mas viesse perante as justiças reaes 
accusar e demandar o crime ou aggravo. Esta- 
belecia elle, ao mesmo tempo, diversas disposi- 
ções concernentes a assegurar a reparação do 
etfendido e a evitar a impunidade dos criminosos 
que se omisiassem. ^ 

1 «A milhor das virtudes e perqae o mundo se 
sustem e rege assy he aquelia perque cada hum h& 
o seu e perque cada hum guarda sua honrra e he 
mantheudo no seu estado, e esta he Justiça. 

• E porem nós Dom AíTonso pola graça de Deos 
rey de Portugall e do Algarve veendo e consirando 
quanto bem e proll nace da Justiça e entendendo 
camanlio carrego lii aos Reys jaz em fazerem e sos- 
terem e em como delia a Deos hom de dar recado 
quando se assy nom fizesse, e perque h uma das cou- 
sas que assinadamente aos Reys pertence assy he 
poerem entre os da sua terra assessego e concórdia 
com Justiça, e per Justiça tirar dantre eiles bolliço 
e desavença; Porem porque nos mesmos Reynos — 
era hua maneira uzada que cada hum queria acoi- 
mar morte e desliotira de seu^ parentes, secundo lhes 
pertencia em divido^ e nós veendo e consirando 
como por oníizio se seguem grandes desserviços a 
Deos e aos Reys e aos outros Senhores, e dapno e 
estrago das terras, hu as ha, e chagas e mortes 



WftísoriÉi dft Portugal 



189 



^^ 



> Pòr mais d'iitn títalo, estas leis de D. Áffonso, 
teem uma grande significação histórica que pa* 
rece ter passado desapercebida a todos os es- 
criptores que se tem occupado d'este rei. Pode 
mesmo dizer-se que determíDam uma pbase nova 
de progresso e de consolidação na sociedade 
politica portuguesa. 

aquelles que nos omizios vivem e se a elles juntam, 
e des y pois nas outras terras, hu se sempre guardou 
e rnanteve Justiça sempre esquivarem estes acooi- 
iiiamentos e detmm higcir ao Direito Commum prra 
se per elle fazer Justiça. E vecndo que este Direito 
cra proveitoso e com razom e com arredamento de 
todo o dapno, c catando que aquelle uso e costume 
era contra este Direito c trazia consíjfo dapno e es- 
trago e animadamente contra a Ley de Deos, e ca- 
tando outro sy que quanto este Direito niais durou 
tanto trouxe maiores perigoos e caminhos de frran- 
des dapnos, e des y en esto acontece muitas vezes 
que recrecem hy mortes e deshonras e perigos o que 
«e toma em gram mal dobrftdo, e que se esto se òu- 
vesse a demandar per Justiça e os omirios fossem 
eftousados de hua parte e doutra, acresceu tarsia o 
serviço de Deos e dos Senbores e povoarsia a terra 
e veviriam todos em paz c assessego. 

«Porem nós dom AíTonso docndonos em nosso 
coraçom daquelles que per esta guisa dapno rece- 
biam ou recebem e querendo esquivar tamanho mall 
como se desto recreceo e poderia recrecer, e estes 
malles vinham e recreciam muito mais quando os 
omizios aconteciam entre os melhores das terras 
perque porem vinha maj^or desasseguo e mayor 
dapno estremadamente se esto acontecia entre os 
filhos d'aJgo. 

«Estabelecemos e peemos per Ley para sempre 
oom conselho da nossa corte 

'que nenhuun Fidalgo nom devcvtuem possa acopi- 
mar em nosso Senhorio morte oit deshonrra que daqui 
em diante façam a elle ou a seu Padre ou Irmaão ou a 
qualquer outro parente ou pessoa j perque ante por cos- 
tume podia acooimar também homem como mulher; 

tmais mandamos e queremos que perante nós e a 
nosuL corte cu perante as nouas justiças das terras 
acusem e demanandem pêra haver cumprimento de 
direito e nós e as nossas cortes e as íiossas justiças 
lhe daremos penas spgundo os seetts merecimentos; 

«e quando he em feito de rctos teemos por bem 
e mandauios que se guarde per aquella maneira que 
se guardan ante os filhos d'aIgo ataa qui. 

«E porque alguns fazendo mal se sairiam dos 
nossos Regnos pefa nom fazerem do mal que fize- 
ram perque per esta ley nom lho poderiam aeooi- 



Quando tivermos de .esboçar o aspecto critico 
do reinado de D. Àflbnso, teremos certamente de 
voltar a este assumpto como característico factor 
para uma apreciação justa. Outro negocio occu- 
poQ a atteuçào das cortes e do governo do novo 
rei n'estes primeiros annos, e d'esta vez na 
verdade mal inspirada andava, aquella famosa 

mar os que o mal ou deshonrra recebessem; teemos 
por bem e mandamos que a este que assy for que 
Ibe possam acooimar fora da nossa terra salvo se 
estes que o mal ou deshonrra receberam ouverera 
corregimento pelos bens daquelle que se assy for fora 
da nossa terra. E se achado for na nossa terra man- 
damos que o façam recadar das Justiças pêra se fazer 
aquello que for e nom lhe acooimem de outra guisa. 

«E se alguum filho d'algo ouver nosso mandado 
ou de nossa justiça pêra prender aquel que mal fe- 
zer nom possa porem relar el nem os que elle forem. 

«Outro sy se aquel aque o mal fezerem ouver 
nosso mandado ou de nossa justiça per que recade 
aquel que lhe o mal fez mandamos que a el nem a 
outros filhos dalgo que com elle forem em essa pri- 
SOU) nom os possam porem retar. 

«E quanto he aos omisios que ataaqui forom to- 
ma luolos em nós para fazerem hy o que entender- 
mos que he serviço de Deos e nossa proU e da 
nossa terra e outro sy delles todos. 

«E perque se trouxe ateequi que nenhuum filho 
dalgo per deshonrra que fczesse a outro de que lhe 
mandasse corregimento nom pagava mais que qui- 
nhentos soldos, teemos per bem e mandamos que o 
mal que se huns aos otUros fezerem se correga se- 
gundo e como os feitos forem e as pessoas que o mal 
fezerem e as que o mal receberem^ ca teemos que 
seria semrazom pois elles per si nom ham de cooi- 
mar de lhes nós ou as nossas justiças nom fazermos 
emendas pelos corpos ou haveres daquelles que lhes 
os males fezerem segundo o feito for. 

«E perque na Ley que fizemos ante desta que fo- 
lhe os omizios antre os que nom som filhos dalgo 
he contheudo que antre os filhos dalgo e antre ou- 
tras gentes se guarde o que sempre se guardou 
antre elles de uso e de costume e o uso e costume 
era que nom acooimavam huns aos outros os males 
e deshonras que recebiam, porem teemos per bem e 
mandamos que esta Ley seja guardada antre elles: 
e qualquer que acooimar ou doutra giiiza passar e 
nom guardar esta iiossa Ley assy como em ella he 
contheudo mandamos que moira porem, 

«Dante em a cidade de Coimbra a desacete dias 
de Março. ElRey o mandou. Lourenço Martins a 
fez. Era de i36& annos.> 



190 



HiirfxMria de Portugal 



jostiça tôo insiflteDtemeate invocada por ÀfiTooso 
i¥ e de que elle iogeauamente se dizia o repre- 
sentante lidimo. 

O antagonismo das crenças religiosas ou mais 
propriamente o fanatismo catholíco, á sombra e 
e no seio do qual se escondiam tantos senti- 
mentos diversos d*aquelle que elle affectava 
muitas vezes, não conseguira assoberbar o go- 
verno illustrado e bondoso de D. Diniz que um 
anno antes de morrer chegara a acudir energi- 
camente aos «seus judeus» como elle chamava 
aos que habitavam em Portugal, ordenando ás 
justiças e conselhos que «non os agravedes, 
nem vos desaforedes nem vades contra clles, 
nem lhes possedes suas cartas. » 

Tinham-se-lhe queixado os desgraçados, di- 
zia o rei lavrador ás suas justiças em Carta de 
1324, 

«... que lhes fazedes muitos agravos e des- 
aforamento como não devedes e que catades 
contra elles e contra seus averes muitas carrei- 
ras em muitas guizas, perque perdem muitos 
dos seus direitos e que outro sy lhes proionga- 
des seus feitos de guisa que despedem hi mais 
do que a demanda vai e que nom podem aver 
aquello que lhes devem nem fazer a mim o meu 
serviço assy como eu tenho por bem e que lhe 
nom guardades suas cartas que teem minhas e 
de meu pae e de meus avoos e que lhes ides 
contra ellas e que queredes que provem contra 
eltes e contra seus averes per chrisptaãos sem 
judeos.» 

D. Diniz pozera embargo, até onde lh'o con- 
sentia o espirito do tempo, a esta oppressão ex- 
poliadora, mas a reacção não se fez esperar. 

As primeiras cortes convocadas por D. Affonso 
sob o pretexto dos perigos que advinham á 
christandade do contacto e convívio dos mouros 
e judeus, — posto que aquelles meticulosos chris- 
tãos não vissem perigos idênticos na exploração 
do escravo mouro e do judeu rico, — tractaram 
de fazer observar com feroz rigor as velhas de- 
terminações, relaxadas pelo tempo, da separação 
d'elles nas povoações fmourarias, judearias)^ 
e dos distinctivos com que deveriam sempre 
apresentar-se em publico: um signal amarello 
nos judeus, e branco nos mouros. 

Deferiu D. AHonso aos desejos das cortes, 
mas veremos brevemente que não foi esta a 



mais severa affirmação do seu nome na historia 
do judaísmo portugaez. 

CAPITULO III 

Amores de D. Affonso XI.-— Um hábil diplo- 
mata portugpuez. — NegrooiaQdes para o 
divoroio e novo oasamento de D. Pedro 
de Portngral. — Perturbações em Castella. 
— Digno prooedimento de Affonso IV. — 
Opposiçôes do rei oastelhano ao oasa- 
mento de D. Pedro de Portugal. — Embai- 
xada portugueza a D. João Manuel. — 
Revoltas de D. João Nunes de Lara e de 
D. João Manuel. — Portuguezes em Cas- 
tella. — Continua D. Affonso XI a opp6r-se 
ao oasamento de D. Pedro de Portugal. 
— Insulto ét armada portugueza. — Guerra 
entre Portugal e Castella. — Casamento 
de D. Pedro de Portugal. 

Não tardaram os borisontes da politica peoin* 
sular a nublar-se de novo, nem se demorou D. 
Affonso XI de Castella em proporcionar a D. João 
Manuel favorável ensejo para a sua addiada vin- 
gança. 

Namorara-se o castelhano, por occasião da 
campanha de Granada, d'uma gentil viuva de 
dezenove annos que encontrara em Sevilha, cha- 
mada D. Leonor de Gusmão, e por tal forma o 
dominara a paixão que a feliz amante se tornara 
rapidamente, em poderio e respeitos, a verda- 
deira rainha de Castella. 

Contrastando em fecundidade com a infante 
portugueza, a Gusman dera a D. Affonso no pri- 
meiro anno da mancebia, um filho a quem elle 
concedeu logo largos doniinios e titulos de no- 
bresa, dando-lhe também para mordomo-mór 
um dos seus mais queridos fidalgos. 

O desgosto de D. Affonso por ver estéril ainda, 
o seu consorcio; a sua alegria ruidosa pelo nas- 
cimento do filho aduUerioo; o poderio da amante 
e a paixão absorvente do rei, estimulavam oatu* 
ralmente a adulação d'uns e a intriga vingativa 
d'outros, a um novo trama de divorcio. 

Parece até que D. João Manuel, o pae da pri- 
meira e regeitada noiva do rei castelhano, cer- 
tamente no intento de lançar a discórdia na 
confederação de Âlfayates e Âgreda, vingando-se 
desde logo do rei de Portugal e preparando con* 



Historia de Portag:al 



191 



tra o de Gastella a sua definitiva desforra, acon- 
8elkia?a a D. Leonor de Gusmão que levasse o 
régio amante a despozal-a, repudiando por esté- 
ril a infante portugueza. Recnsou-se, porem 
aqoella, a seguir o conselho; manifestou^se por 
este tempo a primeira gravidez da rainha, e um 
homem hábil, amigo e provavelmente agente de 
D. Âffonso de Portugal, D. Fernão Rodrigues de 
Valboa, veio arrebatará intriga o poderoso apoio, 
senão a única força séria de que ella dispunha, 
communicando a D. João Manuel, que enten- 
dendo haver excellentes rasões para annular os 
desposorioâ do infante D. Pedro de Portugal com 
a infante D. Branca, proporia a D. Àffooso iv o 
casamento do seu herdeiro com D: Constança, 
filha de D. João Manuel, se elle e ella consentis- 
sem. Âo mesmo tempo escrevia Valboa ao rei 
portuguez, pedindo-lhe que visto existirem impe- 
dimentos naturaes á realisação do casamento de 
D. Pedro com D. Branca, c daodo-se até a recusa 
d'aquelle que toda a corte castelhana linha por 
jastificada, fizesse anounciar o divorcio. Âcres- 
tava ainda o hábil diplomata, que havendo sérias 
rasOes de Estado para se negociar um novo en- 
lace dopriocipe portuguez, lhe permittisse o rei 
que elle em tempo opportuno, lhe indicasse qual 
conviria escolher. 

Pela segunda vez a esperança de vér a 61ha 
rainha, deslumbrou e desarmou o orgulhoso D. 
Jo&o Manuel, que se apressou a conformarse 
com os desejos enunciados por Valboa, na rea- 
lisação dos quaes, veria naturalmente também, 
um meio de captar a alliança do rei de Portugal 
e de se desforrar finalmente do castelhano. 

Seria injusto deixar de reconhecer no plano 
de D. Fernão Rodrigues uma profunda habili- 
dade e previsão politica. Vé*se que elle conhe- 
cia os homens e sondava com segurança a cor- 
rente dos acontecimentos. 

Este projecto do casamento do herdeiro portu- 
guez com a repudiada noivtt de D. Âffonso xi, 
estourando, por dizer assim, no meio dos esean* 
daioeos amores do rei de Gastella e da intriga que 
preparava o repudio da infante de Portugal e a 
enthronisação da Gusman, era ao mesmo tempo 
itm babiltsstmo ardil e uma séria ameaça, por- 
qae captando por um lado o poderoso D« João 
Manoel e offerecendo-lhe novas e melhores es- 
peranças á sna ambififto e á sua vingança, leni'* 



brava a Âffonso xi o perigo d 'uma confederação 
dos dois sogros offendídos e d'um renascimento 
das antigas perturbações, entre as quaes não se- 
ria talvez difiicil fazer vingar a das pretenções 
dos Laras. 

Devia ser grande a confiança de Âffonso iv 
no seu conselheiro e provável agente, pois que 
agradecendo-lhe as suas indicações e communi- 
cando-lhe as inquirições a que mandara proce- 
der no pensamento de escolher nova esposa para 
o filho, lhe pedia o nome e condições da noiva 
que julgava convirlhe, para que approvado e 
ajustado o casamento, se declarasse o repudio de 
D. Branca pelos impedimentos naluraes que 
n'elln se davam. 

Commuoicou lhe então o Valboa que pelas 
qualidades da pessoa c pelas conveniências da 
liga, do dote c d'outros factos, era D. Constança 
Manuel, a filha de D. João Manuel, a esposa que 
elle entendia dever-se escolher. 

Gooformou-se inteiramente o rei português 
com este projecto, se é que toda a correspon- 
dência havida sobre elle com Valboa, não pas- 
sara d*um artificioso expediente, que as círcum- 
stancias poderiam aconselhar, e logo n^esse 
mesmo anno (1331) expediu a D. João Manuel 
uma embaixada secreta a tractar do projectado 
enlace. 

Que se contava jà com a opposição do rei de 
Gastella e que todos comprehendiam a gravidade 
da situação que ia crear-se, prova-o o segredo 
em que se quiz conservar as negociações. Fize- 
ra-se D. Âffonso armar cavalleiro e cor6ar-se, 
em Burgos, n'este mesmo anno, coxn extraordiná- 
rio fausto e ruido, em companhia da esposa e 
no meio d'uma numerosa corte á qual se absti- 
veram de concorrer D. João Manuel e D. João 
Nunez de Lara. 

No anno seguinte dava a infante D. Maria á 
luz o seu primeiro filho (1333) a quem foi dado o 
nome de Fernando e por mordomo o filho de Âf- 
fonso Sanches, o depois celebre João Âffonso de 
Albuquerque. Participou D. Âffonso xi ao sogro 
o nascimento do herdeiro e ao mesmo tempo ou 
pouco depois, lhe enviou uma embaixada a soii- 
citar-Ihe soccorro contra os mouros que haviam 
surprehendido e tomado Gibraltar. Veto natural- 
mente este acontecimento suspender a ultimaçfto 
das negociações rdativas áo repudio publico de D^ 



192 



Historia de Portugal 



Branca e ao enlace de D. Pedro de Portugal 
posto que D. Âffonso iv não parecesse inquietar- 
se muito com a nova investida dos mouros conira 
os dominios do genro. Cumprindo porem leal- 
mente o contracto de Agrrda, enviou a armada 
portugueza a junctar-se à de Castelia, evitando, 
as duas, a passagem do estreito aos reforços afri- 
canos. 

Foi breve a campanha. Derrotados os caste- 
lhanos entre Âlgecíras e Gibraltar e obrigados 
a levantar o cerco d'e8ta praça, veio realen- 
tal-oa e favorecemos o assassinio do rei de Gra- 
nada, seguindo-se o ajuste de uma trégua de 
quatro annos com D. Adonso xi (1333). 

Longe de resfriar ou reprimir-se, a paixão 
d'este pela Gusman, recrudescia em escandalosa 
ostentação. O herdeiro da coroa que tão de- 
sejado e festejado fora, ãnava-se ao cabo d'um 
anno e a rainha D. Maria desdenhada pelo ma- 
rido e abandonada pela corte, vivia n'um triste 
e forçado retrahimenlo» apenas acalentado pela 
affectuosa dedicação d'alguns servidores e ami- 
gos seus compatriotas, entre os quaes avultava 
um João ÂQbnso que foi bispo d^Ástorga, prova- 
velmente seu parente pela bastardia de D. Diniz. 

Os desmandos domésticos de D. ÂfiTonso xi 
reproduziam-se naturalmente no governo dos 
povos e estimulavam vivamente a reacção ou 
antes a revindicta dos seus poderosos inimigos. 
D. João Manuel reanimado no seu velho resen- 
timento, soprava a discórdia e a perturbação 
latente, e dos seus castellos e povos, faziam-se 
verdadeiras correrias pelas terras reaes. D. João 
Nunes de Lara e D. João Affonso de Haro, pelo 
seu lado, andavam já em completa revolta. 

Assustados com a onda de desgraças que 
ameaçava envolver de novo a monarchia, parece 
que alguns senhores castelhanos se dirigiram a 
Afifonso IV para que procurasse pôr um termo 
ao dt^svairado proceder do genro c ã situação 
affrontosa da filha. Respondeu-lbes o rei portu* 
guez com aquella enérgica hombridade que o 
caracterisava, observando-lhes que d'elles era o 
dever, aliás não cumprido, de se opporem no 
interesse da coroa e do paiz, ás desordens do 
soberano, e não d'elie o direito de intervir no 
governo alheio, pelos próprios naturaes descui* 

dado. 
E conservando-se n'esta digna attitude e coQ* ' 



tinuando a sua hábil politica, commuDÍcõo sia- 
gellamente a ÂlToaso xi, por uma embaixada 
que enviou a Sevilha, que o conU*acto de dea- 
posarlos do infante D. Pedro com a infante D. 
Branca de Castella, cahira em absoluta nullidade, 
por impedimentos naturaes da noiva. 

Teve naturalmente o rei castelhano a suspeita 
de que o sogro procedia, resentido e por vin- 
gança, n'aquelle acto, querendo romper escan- 
dalosamente com elle. Enviou por isso a Portugal 
uma embaixada, acompanhada de certos peritos 
médicos, — physicos, como se dizia então, — a 
verificar as causas allegadas para a aonulação 
do contracto de Fuente Aguinaldo. 

Era infelizmente verdadeira a allegação; uma 
incurável enfermidade invadira pbysica e intel- 
leclualmente a desgraçada noiva, e assim o re- 
conheceram os enviados castelhanos. 

D. AfFonso iv imperturbável e aparentemente 
sereno, convocara as cortes para Santarém. 

Reunidas ellas (1334) propoz-lbes o casamento 
de D. Pedro com a filha de D. João Manuel, que 
elias aprovaram, e respeitando escrupulosamente 
a etiqueta, enviou ao rei de Castella por embai- 
xadores Diogo Gomes d'Abreu e Pedro Rodrigues 
Machado a participar-lhe a resolução e a pedir- 
Ihe parecer sobre o projectado casamento. 

Respondeu -lhe atlenciosamente o castelhano 
dizendo-lhe que em boa franqueza e aconse* 
Ihando-o como elle próprio desejara ser aconse- 
lhado, não aprovava a escolha, mas que D. 
Constança era muito digna d^lla pela sua for- 
mosura e virtudes e que se não fora a discórdia 
que entre elle e D. João Manuel existia, o man- 
daria chamar e trataria com elle as melhores 
condicções para o desejado enlace. Terminava 
porem aconselhando o rei portuguez a demorar 
a conclusão do negocio para obter de D. João 
Manuel maiores vantagens. 

 situação esclarecera-se inteiramente e Af- 
fooso XI não poderia já desconhecer a deltcadesa 
e gravidade delia. Os seus figadaes inimigos 
tinham arrancado as mascaras e o justo reBenti* 
mento do sogro ia talvez prestar-lhes agora um 
auxiliar terrível. 

Porventura aos primeiros annuncios d^aquella 
alliança, procurara o castelhano desarmar a có- 
lera de D. Affonso iv, simulando corrigi r-ae na 
soa vida domestica e aproximando*se mais da 



Historia de i^rtngal 



193 



esposa, a ínfanle de Portugal, pois que n aquelle 
mesmo anno em que o casamento de D. Pedro 
com a filha de D. João Manuel era officialmente 
anDUDciado, dava D. Maria á luz o que devia 
ser o seu ultimo filho, o depois D. Pedro o cruel, 
de Castella. 

À demora que Âffonso xi aconselhava na rea* 
lisação d'aquelle casamento era uma tentativa 
babil para lhe attenuar as consequências politi- 
cas, evitando a conjuração que temia entre o rei 
de Portugal e os revoltosos que se apressava 
em exterminar ou submetter. D. João Nunes de 
Larae D. João Manuel, haviam-lhc mandado ar- 
rogantes mensagens declarando-lhe que lhe que- 
bravam o preito e menagem e se desnaturalisa- 
vam do seu senhorio. Ao mensageiro do primeiro, 
mandara D. Âffonso xi cortar os pós, as mãos e 
a cabeça, iniciando novamente o seu systema 
de terror e de cruel punição. Poderam escapar- 
Ihe os enviados do segundo, mas sabendo qQe 
D. João Âffonso de Haro era alliado dos dois foi 
surprehendel-o em Âgoncillo e fel- o matar ás lan- 
çadas. Não sem difiSculdade poude o Lara abri- 
gar-se no seu caslello de Lerma, mas D. Âffonso 
XI deixando-o ali rigorosamente cercado foi con- 
quistar-lhe com feroz actividade o senhorio de 
Biscaia. Se porem se apressava em evitar que a 
conjuração dos seus rancorosos inimigos se ac- 
crescentasse com o auxilio e alliança de Por- 
tugal, o nosso Âffonso iv, pelo seu lado, não pa- 
rece ter-se deixado illudir pelo conselho d'elle, 
pois que não se demorou em fazer solemne e 
ruidosamente o pedido de D. Constança para 
seu filho D. Pedro, enviando com esta missão a 
D. João Manuel, o mestre da Ordem d'Aviz, D. 
fr. Gonçalo Vaz. 

Entrou o embaixador, e podemos dizer, o ge- 
neral portuguez, em Castella, com numerosa e 
armada comitiva, que justificando-se ostensiva- 
mente pela solemnidade da missão, fora real- 
mente organisada sob a sugestão das resistências 
que poderia encontrar, ou dos insultos que pode- 
riam fazer-lhe os partidistas do rei de Castella. 
Aproximando-se de Lerma onde se refugiara 
D. Joâõ Nunes de Lara e que o exercito de D. Âf- 
fonso XI cercava apertadamente, a embaixada 
portúgueza soffreu um serio accometi mento por 
parte d'a]gumas forças reaes. 
Se accidental e provocado por um infundado 
II VOL.— 25. 



alarme do exercito sitiante; se premeditado e 
secretamente ordenado pelo rei de Castella, fora 
difílcil determinar, posto que a segunda hypo- 
these pareça melhor corroborada pelos factos 
posteriores, llepelliram os portúguezes vigoro- 
samente a aggressão e tendo deixado mortos 
quatro dos castelhanos, proseguiram a marcha, 
conseguindo chegar até onde se achava D. João 
Manuel, ao qual transmittiram as cartas do rei 
portuguez e por quem foram festivamente aco- 
lhidos. 

Profundamente irritado, escreveu D. Affonsio 
a D. João Manuel, ordenando-Ihe que prend(Sí^e 
immediatamente o embaixador portuguez, coinu 
inimigo estrangeiro, visto que sem licença n* ni 
salvo conducto do rei de Castella, ousara invH- 
dir-lhe o senhorio com gente armada, comba- 
tendo e matando os naturaes d'esle. 

É claro que não se importaram o infante e o 
mestre d*Aviz com a irritação e a ordem de Âf- 
fonso XI. 

Deferiu solemnemente D. João Manuel ao pe- 
dido do rei de Portugal e ajustou-se que o pri- 
meiro daria de dote â filha, trezentas mil dobras 
de ouro; que a levaria a Portugal com a gran- 
desa devida ao seu novo estado; que D. João 
Manuel poderia ver sua filha sempre que qui- 
zesse, yindo e demorando-se em Portugal ã sua 
custa; que receberia o seu segundo neto, se o 
houvesse e o primeiro fosse varão, para que 
lhe suceedesse na chefia dos seus dominios, e 
que se não houvesse do casamento um segundo 
filho, ou, havendo, morresse antes de succeder 
ao avó materno, passariam os dominios doeste a 
ser governados por D. Pedro de Portugal ou seu 
herdeiro lidimp, sob a condicção expressa de 
não consentir que esses dominios voltassem a 
unir-se a Castella. 

Pactuou-se egualmente que D. Constança teria 
a livre administração e senhorio das terras que 
se lhe dessem, como succedera com D. Brites e 
mais rainhas portuguezas; que entre a coroa de 
Portugal e D. João Manuel, haveria firme amisade 
e alliança offensiva e deffensiva, excepto contra a 
egreja, obrigando-se o infante castelhano a bem 
servir os príncipes portúguezes, e Portugal a 
dar-lhe toda a assistência e auxilio quando elle 
o precisasse e pedisse. 

Ultimadas assim as negociações e celebrada 



104 



Historia de Portugal 



o contracto definitivo do casamento de D. Pedro 
com a filha de D. João Manuel, o embaixador 
portuguez imitando a digna hombridade de D. 
ASbnso IV, dirigiu-se a Burgos onde estava o rei 
castelhano, a cumprimental-o, e a pedirlhe de- 
sagravo pela aggressão que se lhe fizera, susten- 
tando que em virtude do contracto de 1328, po- 
dia entrar no seu reino sem licença especial. 

Ou porque quizesse contrapor simulação a si- 
mulação, ou porque reconsiderasse na sua preci- 
pitada cólera, D. Affonso xi acolheu amigavel- 
mente a embaixada portugueza. Quasi ao mesmo 
tempo que esta, haviam chegado a Burgos al- 
guns cavalleiros portuguezes, que vinham de 
correr vários paizes em aventurosas cavallarias, 
como era vulgar no tempo. Entre elles se citam 
Gonçalo Rodrigues Ribeiro, Vasco Eannes, e 
Fernando Martins de Santarém. Um cavalleiro 
castelhano, Martim Gil Gatina, a quem Gonçalo 
Rodrigues matara o irmão, viera-lhes no en- 
calço e chegado com elles â corte, pedira ao rei 
castelhano que lhe permittisse bater-se com Ro- 
drigues em praça cerrada, pois que o portuguez 
acceitava o desafio. Não podendo concilial-os, 
permittiu D. Âffonso xi a briga, que se realisou 
com todo o apparato e solemnidade, concluindo 
pela morte do cavalleiro castelhano, que preten- 
dendo fugir do campo, foi alcançado pelo conten- 
dedor que lhe cortou a cabeça. 

A derrota do seu compatriota e a ostentação 
ruidosa de forças e de perícia por parte do por- 
tuguez, estimularam vivamente os bríos de mui- 
tos cavalleiros de Castella. Pediu então Rodrigues 
a D. Affonso xi que mandasse abrír um torneio 
para que elle e os seus companheiros podessem 
mostrar a sua valentia e destresa, aos melhores 
d'aquelle reino. 

Em dois dias consecutivos se realisou a san- 
grenta e festiva justa e em ambos ficaram os 
portuguezes vencedores. Foi um dos seus adver- 
sários e das suas victimas o celebre Martim de 
Lara, e por singular fineza, quiz o próprio D. Af- 
fonso XI entrar n'um dos dias na arena pelo lado 
dos portuguezes. Parecia por estas festas e defe- 
rências que se resolvera finalmente o rei caste- 
lhano a não embaraçar mais o consorcio do 
cunhado, D. Pedro de Portugal, com a filha de 
D. João Manuel. 

Não succedia porem assim, pois que n'este 



mesmo anno (1335) escrevia elle a D. Affonso 
IV para que demorasse o consorcio, insistindo 
por mais avultado dote para com o pae de D. 
Constança, ao passo que a este extranhava qne 
tamanho dote conferisse â filha, como se a nata - 
resa a não tivesse tão largamente dotado, e 
aconselhando-o a que recusasse formalmente 
qualquer augmento que o rei portuguez exi- 
gisse. E á própria D. Constança escreveu tam- 
bém mostrando-se contricto de ter quebrado o 
casamento jurado com ella, e insinuando, amo- 
rosamente, a possibilidade de se divorciar de 
D. Maria de Portugal, para realisar o primeiro e 
não consumado enlace. 

Tão baixa e grosseira parece esta regia in- 
triga, que mal a poderíamos crer se a não affir- 
masse o testemunho constante dos historiogra- 
phos e a não tornassem perfeitamente verosimii 
os expedientes que se lhe seguiram. 

Repelliu dignamente a noiva de D. Pedro os 
singulares protestos, e enviou D. João Manuel 
ao rei portuguez as provas dos grosseiros enre- 
dos de Affonso xí, que furioso com o malogro 
d'aquellas tentativas, ordenou aos fronteiros que 
permittissem hostilidades contra as terras porta- 
guezas, no pensamento talvez de provocar o so- 
gro a um formal rompimento. 

Sabia elle já naturalmente que a situação pre- 
cária do Lara, a sorte que tivera D. João Affonso 
de Haro e a consolidação crescente da auctori- 
dade real, poderosamente auxiliada pelo terror 
que soubera infundir, preoccupavam gravemente 
D. João Manuel e lhe faziam pensar n'uma con- 
ciliação. Não é extremamente fácil encontrar 
uma grande lealdade e uma grande firmesa de 
caracter nos tramas mais ou menos obscuros 
doesta diplomacia dos reis e senhores medievi- 
cos, e a historia de Castella é extraordinaria- 
mente safara de taes excepções. 

A revolta contra D. Affonso xi parecia ter real- 
mente gorado e estar próxima a extinguir-se, 
sob a espada triumpbante ou assassina do moco 
rei. 

A Biscaia fora submetlida, com excepção, 
apenas de cinco ou seis castellos que se conaer* 
varam pelo Lara e por sua mulher D. Maria Diaz. 
. Alava, pozera-se expontaneamente sob o pa- 
trocínio real: fidalgos e lavradores tinham na 
juncta de Arriaga reconhecido o senhorio de D. 



Blfltorta de Portugal 



195 



AffoQBO, qae em oompeiuaç&o lhes concedera que 
86 goTeroassem pelo foro de Calahorra. N'esta 
situaçfto desesperada o sitiado de Lerma tractou 
de negociar a paz, qne obteve por intervenção 
de Martim Fernandes Portocarrero, cedendo dos 
seus direitos sobre a Biscaia e entregando os 
casteUos que ali conservava ainda. Vários cas- 
tellos e partidários de D. Jo&o Manuel haviam 
cabido também sob a coUera feroz e victoriosa 
do rei. 

N&o se descuidava porem o velho infante de 
reforgar-se com novos pactos. 

Ao passo que negociava o casamento de D. 
Constança com o herdeiro da coroa portugueza, 
alliava*se estreitamente cm Gastelfabib com o 
rei d' Aragão, pactuando o casamento de outra 
filha com o filho d^aquelie, D. Fernando, e re- 
cebendo do aragonez o titulo de príncipe de Vil- 
lena. 

Mas, ou porque não se considerasse muito se- 
guro com estas negociações, ou porque se sen- 
tisse cançado e receioso da lucta, D. João Manoel 
aceitou, se não pediu, a mediação do rei d'Àra- 
gão para obter a paz com D. Affonso xi, que 
realmente obteve. 
Passava-se isto em 1334 e 1835. 
Vimos já porem como não cessara a opposição 
do rei castelhano ao projectado enlace de D. 
Constança, e pode supor-se quanto era precária 
a pas concedida a D. João Manuel, e quanto de- 
veria irritar D. Âffonso xi a completa inutilidade 
dos seus baixos enredos. 

Apesar das ruidosas manifestações d'elle, en- 
viou o nosso D. Affonso iv a D. João Manuel, ao ter- 
minar o anno de 1835 uma embaixada composta 
de Gonçalo Vaz de Coes, Gonçalo Vaz, thesou- 
reiro-mór do bispado de Vizeu, fr. Diogo, confessor 
do rei e Rui de Pina, para ractificar e ultimar 
solemnemente o contracto de desposorios de 
D: Pedro com D. Ccxistança, ao passo que o 
infante castelhano, enviava Fernão Garcia, deão 
de Cuenca e Lopo Garcia para o mesmo fim, a 
Portugal. 

Finalmente, a 28 de fevereiro, em Évora, 
recebia o inffante de Portugal, D. Pedro por 
palavras de presente, a infante D. Constança re- 
presentada pelo seu procurador Fernão Garcia, e 
pouco depois, em Garcia Munhoz, se repetia a 
mesma soleiAnídade, recebendo D. Constança 



por marido o infante D. Pedro, representado por 
Gonçalo Vaz Góes. ^ ^ 

1 «Em nome de Deos Amen saibam todos que 
perante os muy nobres e muy honrados senhores 
Dom Affonso pela graça de Deos Rey de Portugal e 
do Algarve e o infante Dom Pedro seu filho pri- 
meiro herdeiro, Fernam Garcia Dayâo de Guencã 
mostro, e per mi Pedro Annes publico Tabaiiom ge- 
ral do dito senhor Rey em os seus Reynos presentes 
as testemunhas adiante escríptas aquesto especial- 
mente chamadas e rogadas leer e publicar fez huma 
carta de procuraçom escrípta e assignada por mam 
de Domingo Fernandes Notário publico de Castrello, 
e seellada do sello de cera colgado de Dom Joam 
filho do infante D. Manuel a qual carta e sello care- 
cia de toda sospeita segundo em elles parecia da qual 
carta o theor de verbo a verbo tal he. 

«Sepan quantos esta carta virem como yo Dona 
Costança fija dei alto e nobre seiior Don Juan con 
voluntad, e ruego, e mandamento, e grande afínca- 
mento dei dicho nuestro Padre D. Juan fago myo 
especial procurador a Fernão Garcia Deam de Cuenca 
Clérigo de mio Padre e Chanceller mayor de Donna 
Blanca para receber por my, e em my nombre pura, 
o condicionalmente per palavras de matrimonio de 
prezente por my esposo, y por myo marido segundo 
ley de Cbristianos ai Infante Don Pedro íijo primero 
herdeiro dei alto y muy noble Don Affonso per la 
gracia de Dios Rey de Portugal, y pêra otorgar a my 
dicha Donna Costança por estas mismas palavras ai 
dicho Infante Don Pedro por sú esposa y por su mu- 
ger segundo ley de Cbristianos e pera receber e otor- 
ger sobre esto por joyas por amelos e por sam to- 
dalas couzas, e cada una delias, quando para esto 
fuereu mester y prometo, e juro verdad a Dios, y a 
los santos Evangelioft per mi corporalmente tangu- 
dos de aver por firme em todo tiempo o que por el 
dicho myo procurador fuere fecho, o librado en todo 
lo sobredícho, o en parte delio, e de non venir nem 
contradizer contra ello por my nem por outrem en 
algum tiempo, e desto pido mercê a mi seiior, y a 
myo Padre Don Juan que mande seellar esta procu- 
raçom de su sello, yo Don Juan a ruego de la dicha 
mi fija D. Costança tiendo por bien confirmado to- 
dolo sobredícho, mande seellar esta carta de pro- 
curaçaon com myo mayor sello colgado, esto fue e 
passo asy em Alcácer de la Villa e Castello Lugar 
dei dicho Sefior D. Juan Domingo quatro dias de 
Fevereiro era de mil e trezentos e settenta e qua- 
tro annos. Testigos para esto llamados e rogados 
Sancho Manoel íijo dei dicho sefior D. Juan, Dom 
Fr. James e Fr. Fernando su companhom e Gil Mar- 
tins Despenseiro mayor dei dicho sefior, Estevam 



196 



Historia de PcM^tugal 



Dmi^mm 



Perante este acontecimento, parece que a có- 
lera de Affonso xi, deveria romper estrondosa» 

Pires Gopero e saquero mayor de Donna Blanca, yo 
Domingo Fernandes notário publico *en Ia dicha 
Yilla dei Castello ante dei dicho sefior D. Juan me 
ache a todalas cosas sobredichas que eii esta carta 
se contiene e a cada una delias, recebiendo de la 
dicha seúora Donna Costança Ia dicha mya sobre ia 
Cruz y los santos Evangelios el dicho Fernam Gar- 
cia Deão de Cuenca e recebi dello firme estipulacion 
e otorgamento em nombre dei dicho infante D. Pe- 
dro e por su mandado fiz esta procuraçom segundo 
costuDibre de Ia terra e cor nella em publica forma 
esta dicha procuraçom e la asiné e lacré deste myo 
signo acostumbrado en el Lugar, dia mez e anno so- 
bredichos. 

A qual carta de procuraçom assim mostrada per 
liuda e publicada^ o dito Deão por poder da dita 
procuraçom e em nome e vós da dita D; Costança 
disse ao dito senor Infante D. Pedro estas palavras 
que se seguem. 

«Sefior Infante D. Pedro eu Fernam Garcia Deam 
de Cuenca especial procurador pêra esto do Donna 
Costança fija de D. Juan por poder que ey per esta 
procuraçom em seu nome precatório vos recebo por 
seu esposo e por seu marido lidimo da dita D. Cos- 
tança per palavras de matrimonio de presente se- 
gundo dito da santa Igreja, 

«e logo esse Deam jurou aos santos Evangelhos 
corporalmente per el tangudos en a alma da dita D. 
Costança, que essa D. Costança tenha bem, e fiel- 
mente e a verdade compridamente todo esto, e que 
no venha contra elo em ilenhum tempo nem por 
nenhuma rezoui, 

«outro si o dito Infante D. Pedro recebeo a dita 
Donna Costança por sa esposa, e mulher lidima per 
palavras de matrimonio de presente, segundo a forma 
da santa Igreja, e jurou aos santos Evangelhos cor- 
poralmente por el tangudos que el tenha bem e fiel- 
men.te e guarde compridamente todo esto e que no 
vá contra ello em nenhum tempo, nem por nehuma 
razom feito aqueste em Évora nas casas do moes- 
teiro de sam Francisco postumeiro dia de Fevereiro 
era de mil e trezentos e settenta e quatro aniios. 
Testemunhas os honrados Padres Senhores D. Joam 
Bispo de Lisboa, D. Pedro Bispo de Évora, D. Joam 
Bispo de Lugo, D. Fr. Salvador Bispo de Lamego, 
e D. Garcia Peres mestre de Santiago e D. Joam da 
Cerda e D. Lopo Fernandes Ricos homens e outros 
e eu Tatialiom sobredito que todo esto presente fuy 
que este estromento pelo dito Infante escievi e si- 
gnei de meu signal em testemunho das ditas cou- 
sas.» 



mente os últimos laços de simulada amisade que 
o prendiam ainda à corte portuguesa. 

Não aconteceu porem assim. 

O castelhano retrabiu-se manhofiamente. Re- 
vogou até a ordem que dera aos seus fronteiros 
para que promovessem as hostilidades contra as 
terras portuguesas, e quando os embaixadores de 
D. Affonso IV 6 do infante D. Pedro, depois de 
concluída em Garcia Munhoz a soiemnidade dos 
desposorios, foram com uma delicadesa que pa- 
recera provocação, dar4be parte, em Vailadolid, 
do facto, Affonso xi recebeu-os com singular af- 
fabilidade; deu-lhes de presente a cada um três 
mil libras d*ouro, varias alfaias, e um eavallo 
ajaesado, e escreveu ao rei de Portugal protes- 
tando uma extraordinária satisfação peia conclu- 
são do casamento. 

Agradeceu Affonso iv esta calorosa manifesta- 
ção, mas não deixou de reprchender, por essa oe- 
casião, o genro, pela insidiosa resistência que 
fízera ao enlace que agora festejava, observao* 
do-lhe que não devia attribuir á cobardia, mas 
a prudência, o ter-lhe soffrido os actos d^essa op- 
posição. 

Era como dizer-lbe que o não illudia a ruidosa 
e tardia congratulação e lembrar-ihe que poderia 
esgotar-se a paciência se não cançava e desistia 
o enredo. 

Um outro assumpto veio bruscamente inlro- 
meiter-se nesta delicada situação da politica pe- 
ninsular. 

Uqs enviados do rei de França e de alguns 
senhores allemães, apresentaram-se em Aragão 
e seguidamente em Castella, propondo-se a vi- 
rem também a Portugal, com a missão de sol- 
licitar a adhesão dos três reinos para uma 
formidável expedição á Terra Santa. 

Declinou o rei d'Aragão dos de Casteila e Por- 
tugal a decisão do grave negocio, e consultou D. 
Affonso XI o rei portuguez, sobre o que deveria 
resolver. 

A resposta de Affonso iv foi cheia de bom 
senso e de leal delicadesa. 

Observava que não parecia rasoavel ir pro- 
curar mouros para guerrear, em terras alheias e 
longiquas, quem os tinha na própria, affrootando 
as soberanias cbristãs; que tão glorioso era com- 
batei-os na Ásia como destruil-os aqui, e que 
por isso deveria responder o rei de Castella á 



!^stDKiâL dd Bovtugftl 



SBI?2 



embaixada que sem qae precisasse reunir e con* 
multar as cortes, lhe affiroiava o sea bom desejo 
de combater os infiéis, mas que Jh^ deixassem 
axpolsal-os, primeiro, das Hespanhas, que depois 
neubuma da vida teria em ir guerreal-os o^outra 
parte. 

Reinava então em França» Fílippe vi de Va* 
lois, que suGcedendo a Carlos iv, em virtude da 
lei aalica, vira rapidamente crescer a sua influeo^ 
cia e poderio pelo forçado preito do seu compe* 
tidor Eduardo ui de Inglaterra, que não somente 
tivera de caliar as pretenções à coroa franceza, 
mas de lhe prestar homenagem de vassallo como 
duque de Guyenne; — pela victoria de Cassei;— 
pela dependência dos papas de Avinblào, — pelas 
suas ailianças e parentesco na Escócia, na Alie- 
manha e na Itaiia, — e pela dominação directa e 
UanquliJa de qoasi toda a França. 

Filippe de Valois pensava realmente em levan- 
tar e capitanear uma cruzada que defintcivamente 
expulsasse dos Legares Santos o poder mussul- 
mauo. 

Mas â parte o mau êxito que leve o convite 
dirigido n'aquelle senlido aos reis peninsulares; 
a famosa guerra de successâo, chamada dos cem 
annos veio interromper em 1337, estes ambicio- 
sos planos. 

Este negocio pois não lograra desviar a poJi^ 
tica peninsular da situação cheia de perigos que 
de dia em dia se acentuava mais. 

Chegara a época em que o contracto de car 
samento de D. Pedro de Portugal, com D. CoDSt 
tança, deveria tornar*se eíTectivo, c a filha de D. 
João Manuel ser conduzida a Portugal. Aconse- 
lhara o rei portuguez que se participasse ao de 
Castella o caso, e preparada a partida da infante, 
cumpriu o pae aquella indicação. Respondeu D. 
Affonso XI que poderiam levar a Portugal a dis- 
putada noiva quando, como, e por onde qui2es« 
sem, mas pouco depois no mez de junbo de 
1336, escrevia a D. João Manuel uma caria em 
que o declarava seu inimigo e ordenava aos mes- 
tres de S. Thiago e de Alcântara, que acercan^ 
do-se com mil cavallos do castello de Garcia 
Muuhós, obstassem ã. partida de D. Constança. 
Avisou de tudo D. João Manuel o rei de Pof- 
tugal> que imoiediataniente expediu a seu genro 
um Al varo de Sousa com enérgica missiva em 
que lhe e^an^ava. ^ si^gulfkr pix)içedifli^.9to .^e 



o couTidava a suspender as hostilidades, oootra 
D. João Manuel, até que a filha fossç entregue a 
Portugal. 

Dois incidentes vieram ainda aggravar o caso. 

Chegado a Valladoiid, o enviado português 
foi morto n*uma contenda de tavolagem. 

É possível que a politica fosse comi^etamente 
extranha a este acontecimento, embora os«in- 
guiares processos diplomáticos de Affonso xi aos 
podessem sugerir uma suspeita contraria, mas a 
frouxidão escandalosa com que se houveram as 
justiças castelhanas, dã^-nos a medida do estado 
da opinião e dos espiritos acerca das relações 
entre Portugal e Castella. Por outpo lado, uma 
esquadra portuguesa que andava no mar, sob o 
commando do almirante Estevão Vaz de Bar* 
budo, procurando abrigar-se d'um tenrporal, na 
bahia de Cadiz, foi atacado inesperadamente 
pelo governador castelhano Gonçalo Ponte de 
Marchena. 

Morto D. Álvaro de Sonsa em Valladoiid, o 
seu escudeiro particular e a comitiva da embai-^ 
xada, dirigiram -se a Toledo, a entregar a kt* 
fonso x{ a carta do rei portuguez e a aoUiçitar a 
punição dos assassinos. 

Com a sua habitual bypocrisia, o castelhano 
recebeu aSavelmente os portugaezes; promeleu'' 
lhes castigar rigorosamente amortedoemboixat 
dor, e despediu-os com uma carta para D. kU 
fonso IV, na qual proclamava a mais perfeita 
innocencia, observando que não procurava im* 
pedir a enti*ega de D. Constança, mas castigar 
D. João Nunes de Lara e D. João Manuel novat 
mente revoltados, e que não tinha elle a culpa 
de que a infante se não quizesse servir das 
estradas (\m conduziam a Portugal, que aliás 
lhe estavam abertas. 

Ao mesmtí tempo, porem, escrevia D. Joio 
Manufl ao rei de Aragão e de Portugal (30 de 
julho 1836j, notificando os crescentes aggravos 
do rei de Castella^ de. quem por este modo de* 
darava de&naturalisar^e por si e sua desceu* 
dencia, não podendo fazer idêntica notificação 
ãqueiie soberano por não haver quem confiasse 
no leal acolhimento dVlle e ousasse, por isso, 
levar-lhe a mensagem. 

Claramente a conjuração de D. João Manuel e 
de D. João Nunes de Lara, vdtava novamente a 
w»^i^Mo eóm^e a coisàa doAffoasQ u, w$ 



t» 



Hiotoria do Portns&l 



o que era tdbíb grave, a mal segura integridade 
de Castella por Í860 que os dois senhores aberta- 
mente se proclamavam vassallos de Portugal. 
Porventura uma idéa de engrandecimento terre- 
torial á custa da mooarchia castelhana, atraves- 
sava por este tempo a politica portuguesa. 

Abeirava-se em todo o caso, do seu fatal des- 
fecho este longo drama de intrigas príncipes- 
cas. 

A longanimidade de D. Affonso iv, destoando 
dos traços geraes do seu caracter violento, era 
certamente um calculo de prudência, ao mesmo 
tempo politica e domestica. 

Fazendo*se, primeiro, intermediário entre o 
Arag&o e Castella; desarmando a iotriga lançada 
entre os dois Estados por D. João Maouel e D. 
João o Tuerto; reforçando as relações com a 
corte aragonesa pelos desposorios de B. Branca 
com o prindpe D. Pedro e estreitando-as com 
Castella pelo casamento de D. Maria com D. Af- 
fonso XI, lograra renovar a tríplice alliança e 
Gonfederaçfto de Agreda que era ao mesmo tempo 
escudo contra o inimigo commum: — os mouros; 
freio para o nosso natural inimigo: — Castella, e 
garantia de segurança e de paz interna. 

Quando Affonso xi, tendo feito a pas com os 
mouros, comprado a desistência do pretendente 
D. Affonso de la Cerda, e casado a irmft D. Leo- 
nor com o rei d'Arag&o, se enamorara doi- 
damente da Gusman e poderia pelo repudio 
afrontoso da esposa portuguesa, provocar um 
rompimento com Portugal em que este se acha* 
ria isolado, D. Affonso iv chamara a si D. João 
Manuel e com elle os Laras, pela negocia- 
ção do casamento de D. Constança, e reacen- 
dendo-lhés assim as esperanças d'um formidá- 
vel alliado, enleava repentinamente a politica 
castelhana n'um grave problema. Repudiada D. 
Maria e roto o pacto de Agreda, o rei caste- 
lhano achar-se-bia simultaneamente a braços 
com a guerra estrangeira e coro a guerra intes- 
tina, sem que podesse contar que lhe valesse o 
Aragão, já bastante occupado com os italianos, 
e onde os revoltosos de Castella tinham larga 
infiuencia e poder. 

Affonso XI percebeu naturalmente os perigos 
doesta colisão, e foi certamente a idéa de evitar 
que se tornasse effectiva a alliança entre Portu- 
gal, o infante Dv Joio Manoel e os Uras, que 



lhe inspirou a teoas opposição ao casam^to do 
D. Constança com o ilfao do rei português. 

Mas se hqpve incontestavelmente da sua parte 
uma certa habilidade em protrahir a consuma- 
ção d'aquella alliança; em evitar um rompimento 
com Portugal, e em procurar enfraquecer e sub- 
metter os rebeldes antes que elles podessem 
ocmquistar a alliança portuguesa, os processos 
grosseiros e as intermitencias de tacto e de pru- 
dência da soa diplomacia, contrastam singular- 
mente com a previdente e èerena politica de D. 
Affonso IV. 

O genro não valia o sogro^ evidentemente. 

Nem pode dizer-se que este ultimo se dei- 
xasse illndir pelos protestos e affectada amisade 
com que Affonso xi procurara addiar a alliança 
de D. João Manuel com Portugal. 

Por um lado, o procedimento do rei castelhano 
para com a filha de Affonso iv; a sua paixão 
absorvente e dominante pela Guzman, eram 
d'uma notoriedade sufficientemente ruidosa, 
alem de que o rei português estava largamente 
informado do que se passava e do que se pla- 
neava na corte de Castella. 

D. Affonso IV sabia que a idéa d'um repudio 
da rainha sua filha, e da substituição d'ella pela 
amasia castelhana, chegara a tomar um certo 
vigor. 

Contava-se até que na coroação de Burgos, 
estivera para tomar o legar da infante portu- 
guesa, a Guzman, e somente á ultima hora e 
achaodo-se já preparado o rei para a solemni- 
dade, fora a rainha convidada, por que a noti- 
cia de se achar gravida, fizera reconsiderar na 
grave determinação. 

Sabia-se também que quando morrera o in- 
fante herdeiro D. Fernando, estando Affonso xi 
em Sevilha, de volta da campanha de Gibraltar, 
tentara que alguns ricos-homens se pronuncias- 
sem pelo seu filho adulterino D. Pedro, procia- 
mando-o herdeiro da coroa, e que ao passo que 
promovia na corte romana a dispensa de legiti- 
midade dos filhos que tinha de Leonor Nunes, 
lhes doava muitos casteilos e legares fortificados, 
e procurava crear-lhes uma situação de opulên- 
cia e poderio. 

Por outro lado, quer D. João Manuel, quer D. 
João Nunes de Lara não eram alliados em quem 
devesse confiar muito o rei português. 



HiatoriA de f^ortogal 



Idd 



Nem parece que fosse miúlo poderosa a popu- 
laridade d^elles, nem da sua firmesa d'aQÍmo, 
offereciam sofficiente garantia. 

Não era também D. Affonso iv homem que se 
prestasse a ser iostrumeDto dos ódios e intrigas 
particulares d^aquelles dois senhores. 

Instrumento era o rancoroso velho de Garcia 
Hunhós, nas mãos hábeis que dirigiam a politica 
portuguesa. 

Âlimentando-Ihe as esperanças de ver a filha 
casada com o herdeiro da coroa de Portugal, 
e de tirar uma estrondosa e definitiva desforra 
de Âffonso xi, a nossa politica alimentava a ci- 
sania e a perturbação na monarchia castelhana 
e oppunha ao procedimento e ás intenções do 
amante de Leonor Nunes a ameaça d'uma disso- 
lução intestina. 

N'aquella8 épocas turbulentas e de mal defi- 
nido direito internacional a diplomacia não se 
dando por segara nas suas negociações e accor- 
dos, com a boa fé dos contrahentes, costumava 
estabelecer uma caução mais positiva á execu- 
ção do que elles mutuamente se promettiam e 
obrigavam. 

Assim era que em segurança da paz e amisade 
pactuada entre Portugal e Castella, se tinham 
dado em reféns, os dois Estados, certos castel- 
los com suas respectivas alcaidarias, estabele- 
cendo-se na conferencia de Fuente Aguínaldo 
em 1329 que fossem portugueses os alcaides 
dos castellos de Portugal, dados em fiança, mas 
devessem homenagem e obdiencia ao rei caste- 
lhano, e correspondentemente acontecesse com 
os castellos d'aquelle, nas mesmas circumstan- 
cias. 

Este accordo, determinado naturalmente, não 
só pelas susceptibilidades da auctoridade real^ 
mas por exigência do espirito publico, indica 
manifestamente um progresso notável na cons- 
tituição nacional dos dois Estados, isto é, na sua 
separação histórica, progresso que é aliás corro- 
borado por muitos outros factos« 

Eram por parte de Castella, os castellos dados 
em «arreíensi, segundo a linguagem do tempo, 
08 de C^mora, Niebla, Xeres, Alconchel, fiene- 
vente, Burqurellos e Alva de Tormes, e por parte 
de Portugal os de Montemòr-o-Novo, Villa Vi- 
çosa» Celorico da Beira, Gastelmendo, Penama- 
cor e Sortella. 



Sentindo chegado o momento de romper defi- 
nitivamente a já mal disfarçada paz com o genro , 
D. A Sonso IV com a sua costumada energia an* 
tecipou-se a provocar pelas armas o desfecho 
d'esla situação embaraçosa e oppressiva. 

No começo de julho de 1336 estava já na fron- 
teira, em Estremoz, o rei portuguez. 

Affonso XI avançara contra D. João Manoel e 
D. João de Lara e cercava apertadamente Lêrma. 

Os seus escandalosos amores, longe de terem 
arrefecido, pareciam recrudescerem. A rainha 
desdenhada e entregue a um desolador aban« 
dono, era a cada momento insultada pelas inso- 
lentes prosapias de Leonor Nunes e pelas humi- 
lhações cruéis que lhe impunha o rei castelhano^ 

Depois do malogrado infante D. Fernando, ti- 
vera a princesa portuguesa um outro filho: o 
depois tristemente celebre D. Pedro o cruel y de 
Castella. 

. Era porem cada vez mais numerosa a prole 
de D. Affonso e de Leonor Nunes e sobre ella 
derramava doidamente a munificência do real 
adultero, honrarias e senhorios. 

Chamando a Estremoz os alqaides dos castel-* 
los portuguezes consignados á. fiança da paz e 
amisade estabelecida com o rei de Castella, e 
que eram: 

Pedro Affonso, alcayde do Castello.de Villa 
Viçosa; 

Martim Lourenço da Cunha, do de Sortella; 

Fernando Affonso de Cánbra, do de Celorico; 

Ruy Vasquez Ribeiro, do de Penamacor: 

D. Fr. Estevão Gonçalves, mestre da cavai- 
laria da Ordem de Chrísto, e alcayde de Castello 
Mendo; 

e Gonçalo Carvalhaes, do de Monte Hõr o 
Novo, 

dos quaes os dois últimos não poderam com- 
parecer, D. Affonso IV intimou-os solemnemente 
a entregar-lhes os castellos que tinham em re- 
féns «por razon de los pleitos, posturas, abe^ 
nencias, firmedumbres que entre el e BiRey de 
Castiella avya» visto que este rompera e que« 
brara aquelles pactos, e mandou ler-lhes pdo 
tabellião-mór Lourenço Martins uma exposição 
dos aggravos recebidos do genro e das violações 
por eUe commettidas. 

É interessante esta aUegação, que vtmoi transa 
crever: 



dõo 



!ai0toria de Portugal 



«Esíto es lo que EIRey de Portogal diz em que 
BlRey de Gastieila le erro contra e) pleito e amor 
que entre eitos ee puesto e firmado e contra las 
buenas obras que le ha fechas: 

«Primeramiente diz EIRey de Portogal que 
amando el ai Rey de Gastieila verdaderamiente 
e faziendole obras de verdadero amigo seyendo 
el ée tal bedat que non avya tempo de reger la 
su terra nín poner e& recado ajgunas cosas que 
se hy fazian assy como en aquello que recrecio 
entre los de badajos e los de yelvãs em dias dei 
Rey dom Denys que vyno el fecho apasso por 
aquelo que el y mandava fazer que los de bada- 
jos fincaron en tamafío dano que fuera assas 
grande e extrafio si eIRey de Portogal que agora 
es seyendo entonce Infante lo non partiera assy 
como es cierto e sabido. 

«E non solamlente en esto mas depues que fue 
Rey en Algunas otras maneras en que recrecie- 
rofl empieços ai Rey de Gastieila contra la sua 
Tolunlad e contra su estado en la su terra mesma 
e dotras partes tambien ante de tiempo que com 
el tomase aquel deudo selíolado que y ba como 
en el tiempo que el deudo se junto faziendo 1& 
el Rey de Portogal aver toda la beredad que fue 
dei Infante dom Pedro de que el avya grand vo- 
luntad pêra la cobrar e que le compila mucho 
dando por ella cambio en portogal a dona blanca 
en Tillas e en logares en la mas seúalada ca- 
marca e mas Rendable que y ha. 

«Et otrosi faziendole despues aludas por el 
mar e por la terra non recelando costa grande de 
seu aver e de seus naturales qne a esto embio e 
nim aíam e veni de sus cuerpos. 

«Etotrosy enbiando el Rey de allen mar ai Rey 
de Portogal sus mensageyros de los mas oura- 
dos que en la sua terra avya e de que el mays 
fiava com sus cartas e com su cierto recaudo por 
que lo enbiava a rogar e afincar que quisiese con 
ei pieyto e amor apartadamiente pêra ser el 
eterto que non recebieste dei nin de los de la 
sa terra daôo e por esto le faria semeiable pieyto 
e segnramiento pêra Ia su terra de mas que el 
daria grand sdgo ie so aver e que lo ayudaria 
com ciertas galeas e coírn ciertos cavallos contra 
todos los dei mundo contra quelos el quisiesse. 
Et el Rey de Portogal veyendo Ia entencion que 
la a Mo novfa t temien^ que si a El Rey de 
Portogal oviesse afastado de su daôo que lo en^* 



téndya a passar com El Rey de Gastieila com ao 
el conpria, Pêro teniendo El Rey de Portogal que 
avya en EIRei de Gastieila Amigo verdadero pêra 
sienpre dio pasada a esto pleitcsia e non la 
quiso embiando dezir ai Rey de Gastieila esto 
que el Rey de Alen mar enbiava mover e por 
qual guissa assy como el sabe. 

«Et porque en esto e en otras cosas que mos- 
tro per obra qual voluntad tenga de lo amar e 
lo aiudar que seria luenga razon de se dezir todo 
por mehudo por aquelios que esto oyerem el co- 
noscimento que Bl-Rey de Gastieila le desto 
mostro e muestra e qual voluntad le siempre 
tovo e las obras que le fizo e faze contra ello e 
contra todo aquello que a ei tane faziendo sa 
dano e de la su terra tiendo por razom de con- 
tar algunus yerros que dei reseibio e rescibe 
yendo contra el pleito e las posturas que entrei- 
los som firmadas 

«primeramyente Avyendo EIRei de Gastieila 
a guardar onrra e estado a la Reyoa assy como 
a ssu muger se tane en el pleito non es pêra 
negar que el estado que ella devya a tener en 
la onrra e en la pro e en la fiança e en ei mos- 
tramiento de èu voluntad e en querer el que los 
de la terra catassem por ella e la serviessem 
assy como era razom e como siempre fizierom 
todos los que fuerom de buena vefit. de todo 
esto es el contrario e todo es tornado allur e non 
terria El Rey de Portogal por estraúo quando el 
su mancebya quisiesse fazer con aquela muger 
com que la el faz o com otra de lo fazer nin 
otrossy ternya por sin razom dei fazer merced 
e biem como cabia em tal razom como esto e 
como fizierom aquelios a que esto avino mas de 
qual gissa esto passa e se faz fuora de razom e 
de manera esto tam estrano es quanto se non 
puede dezir por palabra nem solamiente en fa- 
zer a la Reyna fazer tal vida e tal passada qual 
passa e qual es avulgada por el mundo d^ que 
el mundo non toma receio nin verguença de 
dios nin de los omes, mas aun en el poder e en 
Ia onrra e en la fiança que muestra a aquella 
mugér com que bive. Et otrossy en non ossar 
ningund ome de pro catar por la Reyna nin ser* 
villa e estes poços que com ella biven entienden 
que tien los cuerpos a occasiòn de muerte assy 
como se mostro en algunos a que el tiro los of- 
ficios que d'ella tenian e la desanpai^ron e se 



Historia de Portugal 



BOI 



faeroD. E los otros que la voz qúisierom tener 
daquella parte en que el tien la voIuDtad luego 
les mostro fiança e merced e los tovo e tien por 
Buyos pêro que BiRei de Portogal es cierto que 
aquestos mesmos que esta bos agora tíenen mas 
cooòplir a el roluntad e por fazer su pro en lo de 
higo que por lo entender por razon que estos 
mesmos razoúan entre sy e dizen en otras par- 
tes que es contra dios e contra razon recelando 
que de dios e dElRey mesmo o de ailur les ha 
de yenír dano por como esto passa. 

aEt veyendo aigunas maneras estraâas que 

ha tiempo que pa&sarom e sabiendo olras que 

estovierom en passo de se fazer de las quales 

fuerom e som muchas non som pêra calar estas 

ne se diran. 

Sabyda cosa es que seyendo ElRey de Castiella 
en burgos este dia de santiago que ayora vyen 
avra quatro anos e faziendo festa de su corona- 
cion fue falado e acertado de coronar consigo 
leonor nunes e de la tomar por muger estando 
este en punto cierto para se fazer assy quiso 
dios que sovo entonce a saber como la Reyna 
era prenada e por esto ovierom razom aquellos 
bonos que se estonce y acertarom de partir este 
fecho pêro que sabydo es que desto fue entonce 
e es fama publica. E pêra se não poder negar 
que non fue assy cierto es que yestido estava 
ElRey pêra se coronar e la Reyna non sabya 
daquello estando leonor ai cercado. Et non sola- 
mente fue esto sabido en castiella mas bien aca 
en Portugal e en las otras partes assy lo ovye- 
rom por cierto. 

«Et otrossy ai tiempo que se acerto entoro 
muerte dei Infante dom fernom su fijo delRey de 
Castiella e de la Reyna dona maria su muger de 
la venyda que el vyno de gribaltar e estando 
en sevilla fue entonce y movido e fallado por los 
ornes bonos de los meiores que estonee y eram 
de como ElRey fablava e tratava com Àlgunos 
que fiziesaem omenaje a Dom Pedro su fijo e de 
leonor Imunes, assy como fijo herdero. Et ssy 
non fuera por algunos bonos que tenyam esto 
por estrano e que lo contradixierom porque fue 
estonce fecho muy grand alboroço en Ia villa de 
8eviUa en punto estava el fecho de se dezir avul- 
gadamente e de sse fazer la otra razom es quam 
solamiente dio e da grand parte de los castiellos 
e de las fortalezas de sa terra ailos figos de 
n vpi..— 26. 



aquela muger com que bive e a ella otrossy fa- 
ziendole fazer dellos omenajes apartados como 
de su heredat propia en deseredamiento dei In- 
fante su figo e nom tam solamiente de los que 
es de la corona dei Reyno mas aun en la villa 
de Ledesma que la Reyna avya pêra su mante- 
nimiento que ge la tolio e la dio a un fijo o de 
leonor nunes. 

Et otrossy tomando a los omes bonés de la 
terra e a los prelados los lugares de las villas que 
ham e ouvierom siempre exentamiente de que 
los fuerça e dessereda e todo es com voluntad 
que muestra pêra herdar e apoderar aquella mu* 
ger e sus fijos e en baxaraiento dei estado de la 
Reyna e en deredamiento e desapoderamiento 
dei Infante su fijo. 

Et otrossy ende enbiava a la Corte cometer de 
aver despensacion de legitimacion pêra los fijos 
e qual esta razom es e quam desvariado los 
omes hi pueden entender. Et por esto non ha 
agora por que se mas declare. 

«Et otrossy en aquelo que agora faz a Dom Jo- 
han fijo dei Infante Dom Manuel poniendo le 
torva e enbargo en la veuida que avya de fazer 
com Dona Costança su fija que avya de aduzir 
pêra fecho de casamiento dei Infante D. Pedro fijo 
dei Rey de Portogal. 

«Et otrossy en hir cercar a Dom Johan nunes 
aciente por que sabya que avya de venyr a estas 
bodas pêra fazer hy servicio e onora ai Rey de 
Portogal cuyo vassallo es 

«Et sabydo es que estes omes fasta agora pas« 
sarpn con el por otra guissa^ e bien se muestra 
que lo fas por lo d'ElRey de Portogal ca eierto 
es que cada uno dello avya con el su manera 
acertada pêra non rescebir dei dano trayendo el 
a cada uno delios muchas plcytessias de mos- 
tramiento de grand su pro pêra los aver contra 
el en bando de aquella muger que lo tien en 
poder e en desfazimiento dei estado de la Reyna 
su muger e dei Infante su fijo pêra le consentir 
Ia vida e la passada que fas. E por que lo ellos 
non quisieron caber se movio a esto e estrema- 
damiente en esto que ayora fas a Dom Johan 
nunes de que se nunca ante trabajo dei fazer 
dano porque el mostrasse lo que el agora mues- 
tra ante avya con el suas posturas fasta tienpo 
cierto a que el non fiziesse mal. Et des que sopo 
que fincara por vassallo dei Rey de Portogal tQ« 



202 



Historia de Portugal 



niendo que por aGDcamento de premia lo avya 
de aver contra el por la manera que dicba es 
pues lo por otras plcitesias non pudo aver por 
esto se movio a le fazer esto dessy teníendo que 
este fecho eu razon de casamieuto dei Infante 
8U fijo que lan bieu por esto como por lo ai que 
mando fazer que ay de dar torva e enbargo 
quanto el pudier mostrando que el pesa desto e 
de toda cosa que a ei e ai Infante su 6jo fuer 
onrra e pro segundo se muestra por voluutad e 
por fecho. 

«Et como quier que el en su dízir diga que 
Dom Johan e Dom Johan nunes som sus encmi- 
gos e que le fezierom dano en la terra cierto e 
sabydo es que la estranidat que el ha dellos por 
lo que el ha começado contra ellos es, ca en la 
parte de la razom de Dom Johan fijo dei Infante 
Dom Manuel sabydo es las razones por que re- 
crescio y el dano que se fizo en pêro que el diz 
que por el Rey de Portogal perdio dom Johan 
casamiento con la Reyna su fíja el contrario es 
desto la verdad ca ya el dexado avya su fija de 
dom Johan e quisiera contra el fazer lo que os 
ornes sabem quando el enbio mover ai Rey de 
Portogal aquel casamiento que se fizo afincando 
lo mucho entendiendo que le conpria mucho de 
tomar con el este dendo per la proes que se le 
ende seguierom que som tantas que seria luengo 
de contar. 

«Et otrossy en Ia parte de Dom Johan nunes 
cierto e sabydo es que por la heredat que le tien 
forçada e de que lo tien deseredado que dio a 
los sus fijos por esto recrescio entre ellos aquello 
que sfe fasta agora pizo. 

«Et por esto e por otras cosas que som muchas 
e muy desvariadas en fecho e en dicho e en 
mostramiento de voluntad tien EIRey de Portogal 
e es cierto que EIRey de Gastiella la fue e va con- 
tra el pleito e las posturas que entre ellas ha.» 

Vimos o libello, vejamos agora a contradicta. 

Recebido aquelle pelos alcaides, acordaram 
que um d'elles fosse em nome de todos, commu- 
nicar ao rei de Castella a intimação que se lhes 
fazia para que entregassem os castellos, e quaes 
08 fundamentos d^essa intimação. 

Para este fim passaram as suas procurações a 
Pedro Âflbnso, alcaide de Villa Viçosa, que tendo 
recebido a ultima procuração em 21 de julho, 
apresentava em 20 d^agosto ao rei de Castella, 



•en el Real de la derca de sobre Lerma»y com 
toda a solemnidade o documento que acabamos 
de transcrever. 

A resposta d'AGfonso não é menos interessante 
e enérgica: 

«Esto es Io que EIRey de Casticlla diz a las 
cosas que EIRey de Portogal enbio dezir por su 
escripto a martin lorenço de Cunha alcaide dei 
castiello de sorlella e fernandoso de caanbra al- 
caide de Celorico e Roy vasquez ribeyro alcayde 
dei castiello de pena mocor e a Dom frey este- 
vam gonçales maestre de la cavailaría de la or- 
dem de Jhesuchristo alcayde dei castiello de 
castielmendo e gonçalo carvalates alcayde dei 
castiello de monte mayor el novo e Pedro alfifonso 
alcayde dei castiello de villa viciosa en que dis 
que el fue el Rey contra el pleito e amor que 
entre ellos era poesto e contra las bonas obras 
que el dis que el fizo e le a fechas. 

A lo que diz de lo que fizo por Ia conlienda 
que era entre lios de badajos e los de yclvaa 
quando EIRey de Castiella era menor de hidat 
verdat fue que el que fizo hy bien pêro el fazya 
lo aguisado ca tales eran los deudos que deso 
uno avyan que por dos cônscios de cada unos 
dellos Regnos ser entre sy de parados e aver 
contienda sobre sus términos avya razon de lo 
asesegar ante que por el yerro delos dexar cre- 
cer entre los regnos de paramiento e mal. 

A lo que diz en razon de la heredat que fue 
dei Infante dom Pedro bien sabe el Rey de Por- 
togal que en las posturas que entrellos anhos 
fuerom en tiempo que movierom el casamiento 
de dona blanca e dei Infante Dom Pedro su fijo 
que EIRey de Castiella queriendo la heredat que 
dona blanca avya en su seôorio que EIRey de 
Portogal fuese tenido.de dar a dona blanca pues 
yva casar con el Infante Dom Pedro su fijo ca- 
mio de heredat en Portogal ende entrega de 
ciento e médio que avya s^ dar Al Rey de Cas- 
tiella en casamiento com la Reyna su fija. E de 
tal obra como esta e desta guisa fecha todo home 
la faria a otro pues era postura e devido como 
era esta. 

A Io que diz de las aiodas que el fizo por mar 
e por terra verdat fue quel enbio galeas por mar 
el anno que EIRey gano la villa de olvera e otros 
três castiellos de moros. Et estando el su almi- 
rante e ellos esperando la flota dei Rey de alem 



Historia de Portugal 



203 



mar que av)a de ?eByr á palear com ellos el su 
Almirante e los que veoian coo ellos sus galeas 
faerom se dende e noa quisíerom atender. Et 
laego oiro dya el almirante dei Rey de Castiella 
e com la su flota que tenya peleo com los moros 
de la flota dei Aey de alien mar e loado a dios 
venciolos sim su ayuda. 

Otro sy verdat es que el ano que EIRey de 
Castiella fue sobre teba que EIRey de Portogal 
que enbío gentes de Cavallo e el maestre de 
christus com ellos en ayuda dei Rey e teniendo 
cercada la dicba villa venierom se los dei Rey 
de Portogal deziendo que el Rey de Portogal 
enbiaYa por ellos. 

Otrossy quando los moros cercarem a gibral- 
tar enbio EIRey de Castiella rogar ai Rey de Por- 
togal que enbiasse by sus galeas en ayuda de la 
sa flota porque era el inverno fuerte e non se 
podya acorrer por terra que la terra es tal. Et 
EIRey de Portogal enbio by galeas e estadieron 
y com la su flota muy poço tiempo e venierom 
ae e finco la su flota ala. E quando EIRey de 
Castiella fue alia pêra le acorrer filio que eran 
tornados dias avie Pêro cavalleros bonoa de Por- 
togal que yvan com ellos aviendo verguença 
desto e por fazer aguisado econoscendolanatu- 
raleza que avyan com EIRey de Castiella fuerom 
em sevilla e entrarem com el alia. 

Et diz EIRey de (/astiella que por que EIRey 
de Portogal se alaba de aiudas que el bizo enbia 
el contar a los dlcbos alcaides las ayudas quales 
fuerom e como lo el passo sin ellos ca esta es la 
verdat que desta guisa passo e non dotra. 

A lo que diz dei pleito dei Rey de allen mar 
que el embio cometer bien sabe EIRey de Por- 
togal que tenudo era el de non fazer pleito con 
el Rey de alem mar nin com otro Rey de moros 
que contra christíanos fuesse e que lo avya 
aguardar lo uno como christiano lo otro porque 
EIRey d^allem mar avya guerra cora EIRey de 
Castiella. Et El e El Rey de Portogal eram Ami- 
gos por posturas e por grandes deudos que bam 
como todo el mundo sabe. Et quando EIRey de 
Castiella amor e abenencia quisera o quisiese 
com EIRey de allen mar com Rey dei mundo 
non la querra EIRey de allen mar tanto porque 
es EIRey de Castiella aquel de que mayor ayuda 
podya venir o mayor dano que de otro mas 
nunca la com el quiso aver. E quando en estos 



cosas sobredichas quando bien fuere catado 
mayor pro e guarda fizo EIRey de Portogal assy 
que el Rey de Castiella en ello porque sabe el e 
todo el mundo que a cada unos destes fechos 
poderá EIRey de Castiella dar salyda e conseio 
com la merccd de dios. 

A lo que diz que el fue contra las posturas 
que entrellos som puestas primeramiente en que 
diz que pusiera guardar onrra e estado a la 
Reyna assy como a su muger e desto que era el 
contrario por mucbas maneras que ali cuenta 
ensu escripto. 

«A esto diz EIRey de Castiella que el contra- 
rio desto es la verdat ca el guardo e guarda muy 
bien e complidamiente estado e onrra de la 
Reyna primeramiente en que el dio mucbas bo- 
nas villas e roucbos bonos castiellos e mucbas 
bonas rentas en que se mantoviesse muy onrra- 
damiento e mucbo abondadamiente como lo faz 
que nunca tanto ovo Reyna en Castiella fasta el 
dya de oy oin la Reyna dona maria su avuela 
que ovo muy grand logar e muy grand poder 
en la casa de Castiella e fizo muchos mereci- 
mientos e bonos pêra ela ser mucbo beredada 
en Castiella lo primero por ser muger dei Rey 
dom Sancho con que le a ella fue muy bien. Et 
despues por criança que fizo en el Rey dom 
ferrnon su padre e grand afam e grand eoidando 
que passo por el onde los sus meesteres. Et 
otrossy en la su criança delRey mesmo e por le 
guardar su terra e su estado nunca tanto pudo 
aver de heredat nin de rrenta en castiella como 
EIRey de Castiella a dado a esta Reyna su mu* 
ger e porque ella mantien oy mayor casa e mayor 
fazienda que nunca mantovo Reyna que fuesse 
en Castiella. Et en la onrra e len el estado man- 
tien gelo el Rey muy bien e muy cumplidamienle 
e tienlo assy por derecho. E todos los dei Reyno 
la sirven e la onrram como es aguisado. Et esi^T 
es verdat manifiesta e non ai. 

«Et a lo que EIRey de Portogal diz de la oira 
manera diz EIRey de Castiella que esto non era 
en la postura nin le faze a el yerro ninguno 
e que avya mucho escusado de fablar en este 
fecho nin por el tan solamiente esto tal. 

«Et a lo que diz que ai tienpo que EIRey de 
castiella se corono en burgos este Santiago ovo 
quatro annos que tovo fablado de non coronar a 
la Reyna salvo porque sopo que la Reyna era 



B04 



Historia de Portugal 



prenada e que esto era sabydo e manyfesto por- 1 
que aquel dya eslava ElRey de casliella vestido ' 
pêra se coronar e ella noa io sabya. A esto dize 
EiRey de Gastiella que quando el ordeno aant 
de aquel lo de se coronar que Ia Reyna que fuc 
en el acuerdo e que todos sus guisamientos quan- 
tos conplia tovo fechos pêra aquel dya. Et como 
lo el tovo en coraçom de dar a ella su onrra assy 
lo fízo entendiendo muy bíen ElRcy de Gastiella 
qual era su onrra en este logar e assy lo vierom 
cavalleros de portogal que se hy acaescierom 
entonce que assy passo verdaderamiente enuoca 
fue nada de lo que EIRey de Portogal diz. Et 
tien EIRey de Gastiella que EIRey de Portogal 
devyera escusar de dezer tal razon que faria el 
tal mingua ca pêra catar el Io aguisado e qual 
es mas su onrra non tien el que gelo tam bien 
cuydaria EIRey de Portogal como se lo el en- 
tiende. 

«A. lo que diz EIRey de Portogal que quando 
EIRey de Gastiella vyno do gibraltar e seyendo 
en sevilla por razon que Enara enlonce ai Infante 
Don fernòn su íijo que fuera fablado e sabydo 
que EIRey de Gastiella tratava com algunos que 
fiziessem omenaje a Dom Pedro su Bjo e lo reci- 
bieese por heredero si non fuera por algunos 
que lo còntradixierom. Aesto diz EIRey de cas- 
tiella que a tam poço ai Rey de Portogal de as- 
sacar lo que nunca fue fablado nim cuydado 
nim es EIRey de Gastiella tal que tal cosa fiziesse 
nim coydasse nim poderá orne dei mundp dezer 
que verdat dixiesse que nunca tal cosa feziesse 
nim cuydasse nim poderá ser que nunca tal ra- 
2om fue cuydada nim assinada nim fablada como 
esta ca bicn entiende EIRey de Gastiella que es 
lo que a de guarda en esto. 

«A lo que diz EIRey de Portogal que el Rey de 
Gastiella dio vilias c castiellos a sus fijos en aba- 
^amiento dei estado de la Reyna e en desbera- 
damiento e desapoderamiento dei Infante su fijo 
esto diz EIRey de Gastiella que bicn sabe EIRey 
de Portogal que sienpre los Reys de castiella e 
de leon beredarom los sus vassallos e los sus 
nalurales para se servir mejor delos. Et el que 
beredo sus fijos assy como a sus vassullos e sus 
naturales dei e dei Infante su fijo assi como fe- 
zierom otros Reys a los fijos que ovierom en la 
casa de castiella e de leon e de aragom e de Por- 
togal assy como el sabe e que los beredo de vil- 



ias e de castiellos e de logares que el beredo e 
gano dei Infante dom Pedro e dei Infante Dom 
Felipe sus tyos e de Dom Sancbo de ledesma e 
de la Reyna dona maria e dotros que delos i*l 
ovo e beredo com derecha razon. Et que por el- 
los 6 por los lugares e castiellos que avían res- 
cebierom ai Infante por senor c por beredero e 
le fezierom omenaje assy como los otros de la 
terra. 

«Et assy aguardo e aguarda el muy bien e 
muy conplldamiente estado de la Reyna e dei 
Infante e muy mejor que lo el guarda en lo que 
diz e faze. 

«A lo que diz EIRey de Portogal de lo de le- 
desma que tomo a la Reyna Aa esto dize BiRcy 
de Gastiella que ledesma non gela avya dada 
nim avya el senorio delia mas que avya los de- 
recbos dela e que el dio por ella la villa de ael- 
lon com sus aldeãs e com el senorio delia qne 
es de muy mayor Renta Et le dio el Algaba de 
sevilla que Rinde sesenta mill maravedis. 

«Et porque el beredo a ledesma de dom San- 
cho que la dyo a Dom Sancbo su fijo. 

a A lo que diz que CIRey de Gastiella que torna 
a los ornes bonos de la terra e a los prelados las 
vilias e los castiellos que an e ovierom sienpre 
exientamienle por fuerça e los desereda. A esto 
diz EIRey de Gastiella que el non desereda a orne 
bono de su terra nim a prelado nin a oiro nin- 
guno nim poderá nínguno dei su senorio querei- 
lar esto nim lo dezir otro ninguno que com ver- 
dat fuesse. Ga esto que EIRey de Portogal dize 
es mas com voluntad de lo assacar e a poner 
mala fama por acarretar le dafío sy cl pudiesse. 
De mas de lo que EIRey de Gastiella fiziesse en 
ell su Reyno avya muy poço EIRey de Portogal 
de fablar en ello que sy EIRey do Gastiella fa- 
blasse que era razon de repreher un Rey a otro 
de lo que faze em su Reyno quano a esto qui- 
siese tornar bien fablaria en que el reprende 
ende lio que el fíziera contra algunos de su li- 
naje non a mucho tempo. 

«A lo que diz de lo que EIRey de castiella faze 
a Dom Joban fijo dei Infante Dom manuel e a 
dom Joban nunes en que diz que puso enbargo a 
dona Gostança su fija que la non levasse a Por- 
togal pêra casar com el Infante dom Pedro su 
fijo. Et otrossi que puso enbargo a dom Joban 
nunes que avya de yr a las bodas para fazer ser- 



Blstoria âè Pòrtògál 



^305 



"Vicio ai Re^ de Porlogal cuyo vassallo diz que 
es. A esto dia El-Rey de Gasliella que esto es el 
contrario de la Yerdat que quando don Johan 
fijo dei Infante dom manuel le enbio dezir que 
la queria levar a su 6ja pêra la casar a Portogal 
e que el mandasse por qual parte la levasse el- 
Rey que el respondio que el plazia que la levasse 
e por o el quisiese. Et en la levada delia nol 
puzo el enbargo nim gelo mando poner. Et si 
dize que por la estada que esludierom los maes- 
tres en su terra cabo de la terra de dom Johan 
la dexo de levar que ellos non estodierom alli 
por poner en esto enbargo ninguno mas por de- 
fender la terra que sabya ElRey que avya Dom 
Johan postura de aiudar a dom Johan nunes assy 
como lo fizo despues por la postura que de con- 
Buno aviom. 

«Et en lo de Dora johan nunes que diz que el 
es contra el porque es su vassallo. A esto diz 
que nunca el sopo que era su vassallo fasla agora 
nin lo oyo dezir ante era vassallo delRey de Gas- 
tiellã e tenya dei terra e dineros e era su alGeres 
e nunca se dei espedío fasta despues que lo lovo 
cercado en lerma. Et elRey de castiella ovo a ser 
contra el non lo podiendo escusar por le eslranar 
muchos males e daftos e yerros que el e los suyos 
fazyam en la terra e por fazer derecho a los que- 
rellosos que dei tomaron dano como es tenido 
de lo fazer por el estado de la justiça que ha de 
mantener assy como Rey e senor. 

«Et quanto en lo de dom Johan fijo dei Infante 
dom manuel fasta el dya de oy nunca le el fizo 
mal nim daõo nim fue contra el ante le sufrio 
pop le dar logar en la su merced su frialdad e 
muchos males yerros e desaguisados que le el ha 
fecho assy como ElRey de Portogal sabe. Et de 
mas agora non le faziendo porque nim seyendo 
contra el ante seyendo su vassallo e teniendo dei 
muy grand terra e seyendo su adelantrado de Ia 
frontera e dei Rpgno de murcia se espedío dei e 
le desserve e es en aiuda de Dom Johan nunes 
razonando e deziendo que lo faze con conseio e 
con esfuerço delRey de Portugal. Et en e?tranar 
eIRey a dom Johan e a otros quales quier dei su 
regno e sus naturales el desconoscimiento que 
el fazen que es mayor razoo e mas aguisada c 
mas derecha que non moslrarse ElRey de Porto- 
gal por bando delles en tener su boz nim avya 
razom ElUey de Portogal de fablar en esto nim 



de Io estraôar tampoco como el fablaria e eetra- 
íiaria lo que el fiziesçe en castigo a los de la sa 
terra que el berrasem. 

«Et diz aqui ElRey de custiella mas que El- 
Rey de Portogal da a entender por este escripto 
en sus razones que el que siente de la fazienda 
dei Infante su nieto. Et por la obra faz el con- 
trario. Et si su voluntad es dei amar e de querer 
su pro non avya el a tomar bos nim bando pelos 
que mai fazem en la terra nim avya en el a fa- 
blar esfuerço ca el non le poderá el fazer tam 
mala obra en cosa dei mondo como los estraga- 
dores de la terra e dei Reyno que el el a a he- 
redar fallar en el conseio aiuda lo que EIRt^y de 
castiella es tal que com la merced de dios gelo 
acalonarom a los que los fazem e guardara la su 
terra pêra sy e pêra su fijo que ama mas verda- 
daderamiente que non ElRey de Porlogal ca lo 
que diz ElRey de Portugal que ante que fuesse 
fablado el casaraienlo com ElRey de castiella avya 
ia ElRey dexado fija de dom Johan e era con- 
tra el. 

• A esto diz ElRey de Castiella que ante fue 
fablado o casamiento de su fija com ElRey de 
Castiella que lo de la fija de dom Johan que bion 
sabe el que a Ia reina dona maria su abuela fue 
cometido Et ai Infante dom Felipe e a dom Jo- 
han fijo dei Infante dom Johan que eram sus tu- 
tores despues que fino la Reyna dona maria. 

«Et que sobre esto se vio la reyna dona bca- 
tris com el Infante dom fflipe en yelves e que a 
el mesmo fue enbiado dezir estando em Valla- 
dolid seyendo menor de hibat. 

«Et que sabe muy bien ElRey de Portogal que 
era pleito desto pêro rodrygues de villiegas. 

«Et despues que Alvar nunes ovo de ver su 
fazienda porque fallo que este pleito andava 
afincado. 

«Et por afincamiento que le dello fue fecho da 
parte de Portogal como ElRey e la Reyna sabem 
le conseio dexar fija de Dom Johan. Et pofque 
Ia dexo don Johan espediossedelle e fizole guerra. 
Et el ovo a ser contra el e cercarle los sus logares. 

«Et quando el casamiento delRey com la reyna 
fija delRey de Porlogal se ovo a firmar elRey de 
Portogal saco ende grand pro e onrra como el 
sabe en las posturas que de consuno ovlerom 
segunde las maneras que ante desto entrellos 
avya. 



9oe 



Historia de Portngal 



•Et por estas razoaes diz ElRey de Castiella 
qne el non fue contra las posturas e abenencias 
que ayyan EiRey de castiella e ElRey de Portogal 
mas aote diz ElRey de casliella.que ElRey de Por- 
togal le fae e va contra las posturas e abeoencias 
que en ano avyan por mncbas razones que el 
mostrara en su tiempo e en su logar. 

• Et senaladamienle por algunas qac todos 
Yceo manifieslamiente ia una es que como elios 
OTiesem posturas entressy de ser amigos de 
amigos e enemigos de enemigos que seyendo 
dom johan nunes e dom Jolian íijo dei infante 
dom manuel a su desservicio e trabajandose dei 
servir ticnpo ba ovieron falias e posturas e abe- 
nencias com ElRey de Portugal contra el-Rey de 
Castiella porque parece maniGestamenle que por 
la bos e por la ayuda c por lo eofuerço que dei 
toman le desservem agora ellos. Et sabiendo cl 
que el desservem ellos razona el per ellos e fa- 
bra en su ayuda como por este escripto parece 
e por las obras que el fas mayormiente que dom 
joban 6jo dei Infante dom manuel que melio mo- 
ros en la terra que ten consigo que correm la 
terra e ponem fuogo en ella e quebrantam las 
yglcsias e las ymagenes que estam en ellas e fa- 
zem otras desonrras en dunuc^to do la fe de los 
cbristlanos e por esto puede veer c entender todo 
el mundo quam grand yerro el Rey de Portugal 
fees. 

Et sabe muy ElRey de Portogal e manlGesto 
es a todos que sy dom Jolian íijo dei Infante 
dom manuel fue e es a desservicio delRey que 
fue por el deudo que ElRey de Castiella tomo 
com ElRey de Portogal porque tenia el cargo de 
guardar esto quando no oviesse otras posturas 
entrellos. 

«La otra razoro en que ElRey de Portogal fue 
c va contra las posturas e abenencias que som 
entrellos es que enbio ElRey de Portogal cartas 
a las cibdadcs e villas dei seilorio dEIRey de 
Castiella diziendo contra el mucbas cosas que 
fazya las qaales non som verdat en que lo en- 
fama por le poner en malquerencia de las gentes 
por le meter bolHcio e escândalo en la su terra. 

• La otra razom en que ElRey de Portogal va 
contra las posturas e abenencias que som entrei- 
los que enbio sus cartas a cada una de las villas 
e logares que estam em íialdat por omenajes por 
guardar las posturas e abenencias que som en- 



trellos en que les enbiava dezir a cada onos 
dellos muchas razoaes contra el por le enfamar 
que OOD era assy faziendo les entender que eram 
quites dei omcaaje que fizierom por esta razoa 
com palavras eaganosas que les eobiava dezir e 
que nom eram assy como por las otras que les 
en esta razom enbio parece seer. 

«Et assy por estas Razones que som laego ma- 
nifiestas e por otras que by a las villas e castiel- 
los dei seúorio delRey de Castiella som quites 
dei omenage. Et las villas e castiellos que som 
dei seúorio delRey de Portogal som tenudos a 
guardar lo menaie que en esta razom fizierom 
ai Rey de Castiella e a tener-se com el.» 

Sob diversos aspectos são interessantíssimos 
estes documentos. 

Se o memorandum do rei portuguez, — para 
nos servirmos da linguagem diplomática de hoje, 
— era enérgico e decisivo, a resposta de Af- 
fonso XI não Ibe ficava atraz. Seguindo o sogro 
de accusação em accusação, o castelhano não se 
limitava a uma defensiva que poderia parecer 
humilhante: — attacava também com a firme de- 
cisão de quem sabe que já não pode esperar do 
adversário, rasão ou tregoa, e ferido simultanea- 
mente no seu pundonor e na sua paixão, — como 
rei e como amante,— repellia com magestosa e 
por vezes insolente rudeza, a intervenção que o 
sogro se permittia, nos negócios do seu reino e 
da sua vida particular, respondendo ao mesmo 
tempo com retaliações amargas e transparentes, 
ás accusações que se lhe derigiam acerca de 
como elle procedia •4>ara com alguns dos seus 
principaes vassallos. 

 sua justificação figurava antes ser um acto 
de condescendente lealdade para com os alcai- 
deS) e de homenagem á fé dos tractados, do que 
uma satisfação ás queixas e accusações do rei 
portuguez. 

Acentuando por um lado que não precisara 
d'elle para vencer os mouros, procurava fazer- 
lhe sentir que o não temia. 

N'este sentido, ha certamente na replica cas- 
telhana uma certa hombridade e uma certa no- 
bresa sympatbica. 

A ingrata negação dos serviços recebidos do 
sogro e a petulância desdenhosa com que se 
aíTrontava a idéa d'um rompimento, tinham de 
ser em breve duramente punidas. 






Historia de Portugal 



a07 



K&o tardaria muito que ÂSòdso xi e Gasteila 
sentissem a importância decisiva— tão perfeita- 
mente decisiva ainda hoje como então, — da al- 
liança e auxilio de Portugal. 

Seria difficit e inútil apurar e explicar os fa- 
ctos a que o rei castelhano se refere, quando ac- 
cusa a inanidade dos auxilios prestados pelas 
tropas e armada de D. Âffonso iv. 

A serem verdadeiros esses factos, — e a negação 
abâolata e terminante dada no documento caste- 
lhano às accusações relativas ao proceder de At- 
fonso XI para com sua mulher, deve pôr- nos 
de 8obr'aviso, — a serem verdadeiros aquelles 
fectos, é possivel que elles se expliquem pelas 
rivalidades entre a gente portugueza e caste- 
lhana. 

Continuemos porem. 

Contam diversos historiadores que por occa- 
sião da troca doestes documentos, o rei de Cas- 
tella communicara a sua mulher, a infante por- 
tugueza, que perdoaria ao Lara e deixaria entrar 
em Portugal a filha de D. João Manuel, se o rei 
portuguez intercedesse expressamente pelo pri- 
meiro e pedisse permissão para que D. Constança 
podesse atravessar Castella e transpor a fron- 
teira. 

No intento generoso de evitar um rompimento 
entre o marido e o pae, a rainha D. Maria teria 
enviado a este um fidalgo de sua confiança, 
D. Gonçalo Vasco de Moura, soUicitando-lhe 
aquelles actos, e D. AfTonso iv acedendo, escre- 
vera n'e83e sentido ao genro ou fizera apresen- 
tar-lhe os indicados pedidos. 

O castelhano, porem, negando que houvesse 
feito a indicação cominunicada pela rainha, re- 
cusara-se terminante a ceder das suas resolu- 
ções de não perdoar ao Lara e de não permitlir 
a entrega de D. Constança. 

O que é certo, é que, como dissemos alraz, D. 
Affonso IV achava-se em julho de 1336 na fron- 
teira, preparado para entrar em campanha. 

Activara a construcção de navios; reforçara as 
praças fronteiras, e organisara dois exércitos, 
um dos quaes deveria entrar com elle pelo 6ua^ 
diana, e o outro soh o mando de D. Pedro, o seu 
irmão bastardo, invadir a Galliza. 

Mandando desafiar o castelhano, marchou Af- 
fonso IV ã frente das suas forças sobre Badajoz, 
fazendo experimentar duramente aos logares cir* 



cumvisinhos a sua éolera, longo tempo contida e 
recalcada. 

O plano parecia ser avançar rapidamente até 
ao coração do paiz inimigo para tolher ao rei 
castelhano a reunião dos seus recursos militares, 
e ao mesmo tempo provocar a diversão das for« 
ças de que elle dispunha pela invasão simultânea 
do Norte e ao Sul. 

Deixando uma parte do exercito a sitiar Bada- 
joz, o rei portuguez seguio sobre Sevilha. 

Ao mesmo tempo o infante D. Pedro invadia a 
Gallisa, levando de vencida o arcebispo de Com- 
postella e as tropas reaes incumbidas de guardar 
esta parte da fronteira. 

Os alcaides das praças portuguezas em reféns 
tinham julgado certamente contra o rei de Cas- 
tella o pleito das menagens. 

Era o próprio D. Pedro Affonso, o de Villa Vi- 
çosa, que organisava e expedia as novas forças 
destinadas a reforçar e cobrir a rectaguarda do 
exercito de D. Affonso, na arrojada invasão. 

Mas ou porque receiasse que a retirada lhe 
fosse cortada pelo castelhano que acudia rapida- 
mente a Badajoz, ou porque o cerco d*esta praça 
lhe desse sérios cuidados, o rei portuguez retro- 
cedeu sobre este ponto. 

Badajoz, porem, soccorrida a tempo resistia 
vigorosamente, e D. Affonso iv resolveu afinal 
levantar o sitio, recolhendo a Portugal a reparar 
as forças para nova envestida. 

A nova do rompimento entre o filbo e o neto, 
alvoroçara dolorosamente a velha e boa rainha 
Isabel que se achava em Coimbra. 

Quiz ella então ser mais uma vez a mediadora 
da paz n'esle choque de cóleras e aggravos, a um 
tempo domésticos e políticos, e poz-se com os seus 
sessenta annos a raminho de Estremoz onde es- 
tava o filho, contando reduzil-o, e ao castelhano 
a quem iria visitar em seguida, ã conciliação e 
amisade antiga. 

As ardências do verão alemtejano, porem, e 
os incommodos do longo jornadear, prostaram a 
santa velbinha, que veio a fenecer em 4 de ju- 
lho de 1336, sem ter podido evitar a explosão 
do caracter impetuoso e longamente contido, do 
filho. 

Voltara este, porem, como dissemos, da pri« 
meira campanha que não seria fácil de prolen- 
gar em paiz inimigo, pelo inverno denlmi e 



ao«^ 



Historia de Portugal 



preparava-8e para recomeçada, quando a rainha 
D. Briles, como que acceitando em legado o pa- 
pel de mediadora, da sogra, foi, a occultas do 
marido a Badajoz, tentar convencer D. ÀfTonso 
XI do escândalo e prejuiso mutuo d'aquella 
guerra e levai* o a propor a paz que fora por elle 
violada. 

Recebeu-a o genro dignamente mas não acce- 
dendo ás suas instancias, deixou-a partir, e rom- 
pendo por terras de Portugal veio assolar os ar- 
redores de Elvas, retirando em seguida sobre 
Sevilha. 

Recrudeceu então, ferozmente a lucta, e d'um 
e outro lado se faziam correrias devastadoras. 

Ao norte, uma partida castelhana de 1:300 
homens sob o commando de D. Fernando Ruy 
de Castro chegou a internar-se bastante em Por- 
tugal, mas as forças do bispo do Porto, do arce- 
bispo de Braga e do grão mestre da Ordem de 
Ghristo, esmagaram-n'a no primeiro encontro. 

Simultaneamente, uma armada portuguezá de 
yinte galeras e alguns navios menores, ás ordens 
de D. Gonçalo Gamello corria a costa andalusa, 
espalhando o terror e a morte. 

N'um desembarque operado em Gibralâo, tra- 
vou-se um renhido combate entre as forças por- 
tuguezas commandadas pelo próprio D. Gonçalo, 
que ficou prisioneiro e os castelhanos capitanea- 
dos por D. Nuno Portocarrero que guardava 
aquella região, e que foi morto, ficando em po- 
der dos portuguezes, o cadáver. 

Trocado este pelo capitão portuguez fez-se ao 
mar a armada onde não tardou a procural-a uma 
formidável esquadra, dotada de uma considerá- 
vel tripulação de guerra e capitaneada pelo al- 
mirante de Castella D. Âlfonso Jofre Tenório, ou 
como lhe cbaoiam os nossos escriptores Geo- 
fredo Tenório. 

Um temporal salvou a pequena armada por- 
tuguezá, quando estava já eminente a peleja. 

Expedira 0. AEfonso iv uma segunda armada 
Bob o commando de Manuel Peçanha para asso- 
lar a costa da Gallisa. 

Recolhera elta a Lisboa depois d'um êxito facil 
6 completo, quando se soube que o almirante de 
Castella, tendo reparado e reunido a sua esqua* 
dra, deteriorada e dispersa pela tempestade, cor- 
ria a costa do Algarve, exercendo cruéis repro- 
0alÍM, 



Sahiu Peçanha ao mar e foi encontrar-se com 
os castelhanos no cabo de S. Vicente. 

Foi lerrivel o choque. Inferiores em numero 
os portuguezes luctaram desesperadamente, e 
por vezes esteve indecisa a victoria. 

Mas por uma evolução hábil o almirante cas- 
telhano conseguio cercar e abordar o navio onde 
ia Peçanha, apoderar-se d'e)ie e aprisionar o 
almirante portuguez e um filho, — Carlos Peça- 
nha, — que o acompanhava, o que lançou a per* 
turbação e poz em debandada o resto da esquadra 
portuguezá. 

Orgulhoso com esta victoria, que, porventura, 
não esperava, Jofre Tenório, dirigiu-se a San 
Lucar de Barrameda e em seguida a Sevilha, 
para apresentar ao rei castelhano o que os his- 
toriadores d'aquelle paiz denominam «os seus 
gloriosos tropheus. » 

Deu D. Affonso xi extraordinário vulto á victo- 
ria do seu almirante, cobrindo-o de honrarias e 
ordenando que fizesse uma entrada verdadeira- 
mente triumphal em Sevilha. Veio accrescentar 
o gáudio da corte castelhana outra victoria in- 
significante obtida por um Fernando Arroes, mas 
o rei portuguez longe de desalentar, investiu 
outra vez pelas terras castelhanas dentro, com 
um furor implacável, que devastava tudo. 

Foi então (1338) que um embaixador francez 
que se achava era Castella, o arcebispo de Reims, 
e Bernardo de Rhodes, núncio do papa Benedicto 
XII, preoccupados com os perigos que esta guerra 
de extermínio poderia trazer ás sociedades chris- 
tãs da península, perigos que uma certa agita- 
ção da parte dos mouros accusava já como emi- 
nentes, acudiram a tentar uma conciliação. A 
instancias d^elles, concordou o rei de Castella 
n'uma trégua, com a condicção de se manter 
durante ella o que hoje chamaríamos o stalu 
quo ante bellum, no que se referia à vinda de 
D. Constância para Portugal, e accedendo D. Af- 
fonso lY foram nomeados por parte do primeiro, 
Fernão Rodrígues de Vilias Lobos, e pela do se- 
gundo o senhor de Ferreira Lopo Fernandes Pa- 
cbecos, para acordarem nas condicções e praso 
da suspensão da guerra. 

Em Castro de Ladrões se reuniram oom o le- 
gado do papa os dois delegados, mas tendo o cas- 
telhano estabelecido como questão previa para 
a realisaçfio da tregsa, a acoeita(&o por parte do 



Bistoria de Portngal 



209 



rei portuguez de certas condicções que Lopo Fer- 
nandes considerou ridículas, e o legado do papa, 
insolentes, romperam-se as negociações. 

Investiu D. Âffonso iv pela Galiza com espan- 
toso furor, deixando cruamente assignalada a 
sua passagem e tomando successivamente Sal- 
vaterra e Orense, alem de muitas outras povoa- 
ções menos importantes. 

Mas o legado pontiflcio repreendendo Affonso 
XI pelo seu intransigente orgulho e insistindo 
na necessidade de procurar um termo áquella 
guerra assoladora, que estimulava já as esperan- 
ças d*uma revindicta mussutmana, conseguiu 
vencer o partido dá guerra, que dominava evi- 
dentemente na politica castelhana, e obteve 
que acedesse á negociação d'uma tregoa, sob a 
única condicção de que ella se prolongasse por 
um anho e não por metade doeste praso, como se 
estabelecera a principio, para a completa nego- 
ciação da paz entre os dois reinos. 

Por outro lado porem, não se descuidava a po- 
litica portugueza de reforçar os sons recursos 
militares, com uma alliança, que poderia fazer 
nas forças do inimigo uma gravíssima diversão. 

Escrevia a rainha D. Brites ao rei d'Áragão, 
manifestando-lhe quanto desejava vel-o estrei- 
tar com o marido a amisade e accordo de ha 
muito existente entre os dois paizes. Rompera-se 
o pacto d*Agreda, pela guerra entre Portugal e 
Gastella: — mas poderia subsistir ou ractificar-se 
entre qualquer d'estes reinos e o Aragão. Não 
eram as mais cordeaes, as relações entre a corte 
aragoneza e a de Gastella, nem esta poderia es- 
perar uma grande sympathia pela sua causa, da 
parte de D. Pedro d'Âragão, a quem a madrasta, 
irmã de Affonso xi, e os seus partidistas caste- 
lhanos, tinham procurado affastar do throno. 

Poz o negocio em Conselho o rei aragonez e 
accordou-se em que se confirmassem os. antigos 
pactos, consultando comtudo o rei de Gastella 
sobre se adheria a este acto e eslava disposto a 
restabelecer a confederação dos três reinos, em 
proveito mutuo e para segurança da christan4ade 
peninsular. 

Se este acto de esquisita cortesia foi ou não 
praticado, importa pouco averiguar. 

O que é certo, é que em 20 de agosto de 1338 
«Dom Pedro por la gracia de dios Rey de Ara- 
gem de Valenda, de Cerdenya, e de Gorcega e 
n VOL.— 27. 



Comte de Barcelona,» dava plenos poderes ao 
seu «sobrecoch» Miguel de Leet, para «firmar 
noestra posturas alleguanças e confederaciones 
entre nos (Dom Pedro) e el muyt Alto princep 
Dom Afonso* pela forma que este quizesse e de- 
terminasse, sem que no respectivo documento 
se fizesse allusão a Gastella. E em 9 de novem- 
bro, em Goimbra, ae assignava um tractado en- 
tre o rei de Aragão, representado por aquelle 
embaixador, e o rei de Portugal, onde se dizia 
que o rei de Gastella rompera os pactos antigos 
e se propunha a fazer mal aos dois soberanos e 
aos dois estados, e se acordava n'uma alliança 
deCfensiva e offensiva contra o castelhano. Decla- 
rava porem D. Affonso iv que até ao Natal tinha 
de manter a tregoa que o legado pontificio e o 
embaixador do rei de França haviam negociado, 
e que por isso antes d'ella concluída, não poderia 
tornar effectivo o seu auxílio ao Aragão, em caso 
de rompimento com Gastella. 

De feito os dois mediadores tinham conseguido 
uma nova suspensão de hostilidades, que, com- 
tudo não parecia dever protrahir-se muito. Ainda 
talvez em agosto nomeara D. Affonso iv o conde 
de Barcellos D. Pedro, e D. Gonçalo Pereira, ar- 
cebispo de Braga, para continuarem por sua 
parte as negociações pacificadoras entaboladas 
por aquelles. 

Não poderá partir o conde, mas em 23 de ou- 
tubro realisava-se uma conferencia em Alcalá de 
Henares, entre D. Gonçalo Pereira e os enviados 
de Affonso xi. 

Exigiram estes que Portugal pagasse uma in- 
demnisação de guerra de dez contos castelhanos; 
que restituísse, com a infante D. Branca no caso 
de continuarem os impedimentos matrimoniaes, 
um conto e meio de maravedíz que recebera com 
ella; que se aquelles impedimentos cessassem, se 
realisasse o casamento de D. Beatriz com D. Pe- 
dro; etc. 

Rejeitando formalmente estas bases, o brioso 
arcebispo deu por terminada a sua missão e vol- 
tou a Portugal. 

Era incorregivel e cego o orgulho castelhano, 
mas pela segunda vez a hombridade portugueza 
lhe voltava desdenhosamente as costas ãs suas 
pretenções insolentes. 

D. Affonso IV preparado para reentrar em cam*- 
panha, expoz aos mediadores extrangeiros,*— o 



210 



Historia de Portugal 



legado e o arcebispo fraocez, — o que se passara, 
e coinmuiiicou-ibes a sua resolução, propoodo- 
Ihes comtudo eatregar a causa ao julgamento do 
PontiGce. 

Pez o mesmo o rei castelhano, e em Merida 
poderam Gnalmente o bispo de Rbodes e o arce- 
bispo de Reims fazer firmar por D. AObnso xi 
uma tregoa de 18 mezes, que o rei de Portugal 
nlJLO tardou em racliGcar. 

Passava-se isto nos fins de 1338 ou principio 
de 1339. 

Enviaram enião os dois monarcbas os seus 
embaixadores a advogar as respectivas causas 
perante Benedito xii. 

Pouco tempo se passara aiada depois da tre- 
goa de Merida, quando o rei de Custella escre- 
via já ao rei portuguez instando para que lhe 
enviasse quem por elle firmasse a paz definitiva, 
independentemente do julgamento papal. Ace- 
dendo a este inesperado convite, expediu o rei 
portuguez, em 30 de maio de 1339, por seus 
plenipotenciários, o thesoureiro-mór da Só de 
Vizeu, Gonçalo Vaz, Gonçalo Esteves de Tava- 
res e Gonçalo Vaz de Moura, e logo em junho ou 
julho d'esse anno se assignava em Sevilha um 
tractado pelo qual se reslabelecia a concórdia e 
a alliança entre Portugal e Castella, podendo o 
Âragâo entrar egualmente; e se assentava em 
que o rei de Castella se obrigava a tractar digna- 
mente sua esposa, e a deixar que D. Constança 
fosse conduzida por seu pae a Portugal quando 
e por onde quizesse; o rei de Portugal faria con- 
duzir a Castella a infante D. Branca, resliluindo- 
Ihe o dote e mantendo-lbe o que ella adquerira 
no paiz; que nenhum dos dois reis tractaria sem 
accordo mutuo com os mouros, e que, de parte a 
parte, se restituiria tudo. 

Finalmente, algumas semanas depois vinha a 
Portugal por parte do rei castelhano o seu mor- 
domo-mór Mariim Fernandes Porto-Cancro e 
conduzia a um convento dè Castella a infeliz 
infante D. Branca. 

E em meado de agosto entrava em Lisboa a 
não menos infeliz infante D. Constança, a quem 
no anno seguinte o rei portuguez generosamente 
dava «a cidade de Vizeu e Monte mayor o novo, 
e Alemquer com todas sas Aldeãs e termos, ren- 
das jurdiçõens, direitos e pertenças.! 

Como apesar de tudo ista Afiònso xi conti* 



nuasse a menospresar a esposa, escrevialhe 
ainda em 1339 o rei portuguez, estranhando- 
lhe e reprehendendo-lhe o procedimento, eo rei 
castelhano, quebrado o seu intransigente orgu- 
lho, desculpava-se cortezmente para com o sogro. 

O que sugerira porém esta evolução inespe- 
rada na politica castelhana? 

Uma invasão formidável, como as dos Almora- 
vides e AIraohades, se preparava do outro lado 
do estreito â voz de Abul Hassan, rei de Fez e 
Marrocos. 

Com as avançadas em Gibraltar e Algeciras, 
e d'accordo com o emir granadino, Abul, jul- 
gava chegada a occasião de repetir e reulisar 
as terriveis tentativas de Yussuf-ben-Tacbfin e 
de Abdelmumen, lançando sobre a península um 
espantoso exercito que reduzisse novamente á 
dominação do Islam, as perturbadas socieda- 
des chrislas que Ih a tinham rocx)uquislado pal- 
mo a palmo. 

Era o perigo commum, mas o rei portuguez 
foi o que se mostrou menos rrceioso d'elle, ou 
o que pôde sofrear a precipitação do pânico que 
deveria ser tão desastrosa aos outros dois esta- 
dos peninsulares. 

Fazendo rapidamente a paz com o sogro, e re- 
conciliando-sccom o Lara e com D. João Manuel, 
o rei castelhano convocou as cortes em Burgos 
e solicitou-lhes largos subsídios para entrar im- 
mediatameute em campanha contra os mouros. 

Por outro lado o rei d 'Aragão obtinha do papa 
o dizimo das rendas ecciesiasticas para esta es- 
pécie de guerra santa e enviava uma esquadra 
a reunir-se â de Castella para manobrar sob as 
ordens do celebre almirante Jofre de Tenório, e 
obstarem, as duas, á passagem, que já começara, 
das tropas africanas. 

Acompanhado de D. João Manuel, D. João 
Nunes de Lara, do arcebispo de Toledo, D: Gil 
de Albernoz, de D. Juão AfiTonso d'Albuquerque, 
e de um exercito numeroso de gente dos conce- 
lhos e das ordens militares, Affonso xi investiu 
de Sevilha pelas terras de Antequera, Ronda e 
Archidona, sem encontrar forças inimigas, arra- 
zando as povoações que os mouros haviam dei- 
xado desertas, e deixando D. Fernando Peres 
de Porto-carrero em Tarifa; D. Fernando Perez 
Ponce de Leão, parente da regia amasia, em 
Arcos; um bispo de Mondofiedo, D. Affonso de 



Historia de Portugal 



211 



Biezma, em Icroz, recolheu, na proximidade do 
iaverno de 1339 á cidade d'0Qde partira, com 
graades despojos e entregando o governo de 
Ioda a fronteira a D. Gonçalo Martinez de Oviedo, 
grão- mestre d' Alcântara. 

Por outro lado a esquadra de Aragão, de 12 
galéd, e commandada por Gilabert de Gruyilas, 
rounira-8e á de CasleJla, e procuravam as duas, 
mas iofructuosamente, obstar á passagem con- 
tinua das tropas de Abul, peJo estreito. 

Dois importantes acontecimentos assignalaram 
este primeiro período da guerra. Tondo passado 
a Algeciras, Âbdt Imelík, filho de Âbu), resolveu 
apoderar-se repentinamente dos depósitos que 
os cbristãos tinham formado em Lcbreja, eorga- 
nisando uma algara d*aqudle lado, avançou na 
direcção de Jerez para secundal-a. 

Quando porem a avançada mussulmana dis- 
-per^a pelas aldeias, enviava para Algeciras, sob 
a guarda d'uma grande força, os rebanhos que ia 
apreendendo. Porto-carraro, o alcaide de Tarifa 
e outros fronteirosi, armando-Ihe uma embus- 
cada, esmagavam essa força. Ao me^mo tempo 
o grão- mestre d'Alcantara surpreendia o próprio 
Àbelmeiik, no seu campo. 

A violência e o inesperado de attaque poz em 
completa debandada as tropas do filho de Abul, 
que foi uma das victimas. 

Este desastre levantou um grito de dôr e de 
rolrra em Granada e em Marrocos, e estimulou 
ferozmente os reis mouros. 

Não tardou porem que ao desastre sofrido pe- 
las tropas d*estes, se seguisse um, do ladoda con- 
federação cbrístã, que o valesse e compensasse. 

Foi o de um desgraçado desembarque operado 
pelo almirante aragonez Gilabert de Gruyilas na 
costa de Algeciras. 

Derrotado pelos mouros, Gruyilas foi morto 
n'eâte combate e por este facto a armada do Ara- 
gão, retirouse precipitadamente para a Catalu- 
nha. 

A esta succedeu uma nova, e, para Castella, 
mais importante perda naval. 

Ficara a esquadra castelhana composta de 27 
galés, seis navios maiores e alguns de menor 
importância, guardando *o estreito e procurando 
incommodar a passagem das tropas africaniis. 

Impedila ioteirameute, era impossível com tão 
dimiouias forças. 



Uma frota mourisca longamente preparada e 
composta de 250 navios, transportando muitas 
tropas de desembarque, atravessou impunemente 
da Africa, singrando em Algeciras. 

Se ao almirante castelhano faltavam navios e 
gente para ensaiar uma acção offensiva séria, eo- 
bejavam-lhe na corte os inimigos e ciosos, que 
o difamavam e accusavam violentamente pela 
sua forçada inércia. 

A esposa que estava era Sevilha, onde então a 
corte se achava também, communicou»lhe as 
suspeitas affrontosas que contra elle propalavam^ 
e o brioso marinheiro, naturalmente enfurecido, 
lançou-se com a sua pequena esquadra n'um 
combate perfeitamente desegual, com as forças 
navaes do rei marroquino, morrendo abraçado 
ao estandarte castelhano, depois d'uma lucta 
desesperada e feroz. 

Entre estes factos, p^rem, veio intercalar-se 
um, que mais agravara ainda a situação de Cas- 
tella e lhe fisera perder um dos seus mais distin- 
ctos generacs. 

Vagara o mestrado de Santiago, e elegera a 
ordem um dos seus membros, Vasco Lopes. 

Mas a paixão por D. Leonor de Guzman con- 
tinuava a absorver e dominar despoticamente o 
caracter pouco escrupuloso de Afibnso xi, e a 
impolil-o no caminho das escandalosas conces- 
sõos á familia c á prole da formosa amasia. 

Levaram-n'o, pois, ou levou-o a sua cegueira, 
a pensar em fazer grão- mestre seu filho adulte- 
rino D. Fadriqup, uma creança de 7 annos, fa- 
zendo annullar a escolha de D. Vasco Lopes. 

Esta pretenção sugeriu uma certa resistência 
na corte castelhana, que Afibnso xi nâo quiz ou 
não pode affrontar, se é que não actuou mais do 
que ella no seu animo, o empenho da Guzman 
em favor de sou irmão Affonso Melendrz de Guz- 
man. Foi este nomeado grão-mcstre. 

O facto escandulisou profundamente muitos 
ricos-homens poderosos e illustres, entre os 
quaes, mais ruidosamente manifestou o des- 
gosto, o mestre de Alcântara, Martinez d'Oviedo, 
o mesmo que vencera o exercito de Abdelmelik. 

Chamado â corte por AfTonso xi, Martinez d'0- 
viedo que conhecia os processos summarios de 
que o rei se servia para callar as bocas mais 
audaciosas, ou os mais perigosos censores, re- 
cusou-sc a cumprir a intimação, poz-se com os 



212 



Historia de Portugal 



castellos e cavalleiros da ordem em completa 
rebeldia, e propoz ao rei de Portugal eotregar- 
Ibe as praças da fronteira, que a ordem occupa- 
ya, se o ajudasse contra mooarcba castelhano. 
Era attrahente o convite, mas Affònso iv recusou 
nobremente aceder. 

Começou então uma nova guerra intestina, em 
que o caracter cruel e impetuoso de AíTonso xi 
mais uma vez se assignalou tristemente. 

Depois d'uma resistência tenaz e desesperada 
o mestre estreitamente cercado em Valência de 
Alcântara, resolveu entregar-se a AíTonso xi, 
que, intransigente na sua ferocidade, o mandou 
degolar e queimar como traidor. 

Foi na volta á Andaluzia, desta terrível cam- 
panba, e acbando-se em Cabeças de San Juan, 
que o rei castelhano recebeu a nova do grande 
desastre da esquadra, que lhe ficara reduzida a 
5 galés apenas. 

Benedicto xii escrevendo*lhe pouco depois, e 
repreendendo-o violentamente pelo suplicio do 
mestre d'Àlcantara e pelos seus amores adúlteros 
e ruidosamente escandalosos, não se esquecia 
de attribuir ao destroço da esquadra o caracter 
d'um castigo do ceu, como se os mais castigados 
não tivessem sido exactamente os mais innocen- 
tes com relação áquelles factos. 

CAPITULO V 

Actividade de Affonso XI. — Por intermédio 
da rainha D. Maria pede o auxilio de Por- 
tugal. — Hesposta enérgica do rei portu- 
guês. — Nova solicitação. — Forças navaes. 
— A invasação mussulmana. — Cerco de Ta- 
rifa. — Vom D. Maria a Portugal. — Resol- 
ve-se o rei portuguez a soccorrer Castella. 
. — Campanha do Salado.— A batalha.-rA 
tragedia de Ignôz de Castro. 

Seria uma injustiça flagrante deixar de reco- 
nhecer em ÁfTonso xi qualidades verdadeira- 
mente erainenles de rei e de general. 

 sua actividade prodigiosa, a firmesa de ani- 
mo, e a iniciativa vigorosa e opportuna da sua 
acção, parece que se acrescentavam e reforça- 
vam com 03 desastres e com os perigos. 

Vendo-se sem esquadra; quasi sem recursos 
pecuniários; fatigado por uma guerra intestina; 
rodeado de irrequietos elementos de rebeldia; 



— diante d'ama invas&o espantosa de mouros, 
o rei castelhano desenvolveu uma rara energia 
e uma previdência que, n*elle nfto parecia vul- 
gar. Bmquanto fazia armar, reparar e reunir 
todos os navios que possuía na Andaluzia, na 
6alliza«e nas Astúrias, por forma que dentro 
d*um pequeno praso podia enviar ás aguas de 
Tarifa uma pequena frota sob o mando de D. Af- 
fonso Ortiz Galderon, prior de S. Juan, solicita da 
rainha, sua abandonada esposa, que escreva ao 
pae, o nosso AfiFonso iv, rogando-lhe que envie 
uma esquadra portugueza a soccorrer Castella; 
expede Jo&o Marti nez de Ley va como embaixador 
â senhoria de Génova para contractar o forneci- 
mento de alguns navios, devendo na volta solici- 
tar do papa uma bulia de indulgências para os 
que tomassem parte na guerra, por Castella, e 
do rei d'Aragão, Pedro iv o Ceremonioso, um 
novo auxilio naval. 

Em julho de 1339, — como dissemos,— as- 
signava-se em Sevilha o deânitivo tratado de 
paz com Portugal, firmando-o entre outros, a 
rainha D. Maria, o infante D. Pedro, seu filho; D. 
João Manuel, e D. João Affonso de Albuquerque. 

Vivia a rainha com seu filho recolhida n'uai 
convento de Sevilha, quando o marido lhe foi ro- 
gar a sua interferência para que D. Affonso iv 
lhe accudisse com uma esquadra. 

Immediatamente enviou D. Maria a Portugal o 
seu chanceller, D. Vasco ou Velasco Fernandes, 
deão de Toledo, que entregando em Monte-mór- 
o-Novo a D. Affonso iv, a solicitação da filha, 
recebe*d*elle para lhe transmittir, a declaração 
verbal de que se o rei de Castella necessita soc- 
corro, tracte de o negociar directamente sem in- 
tervenção de mulheres ou da rainha, a quem está 
defeso, naturalmente, tractar de cousas marciacs, 
e deixe atf^velhas manhas quando a necessidade 
o castiga por ellas. Não tardou o chanceller a 
voltar com nova mensagem, d*esla vt-z, directa- 
mente do rei castelhano insistindo no pedido an- 
terior, e então enviou D. Affonso iv uma força 
naval importante sob o mando d*aquelle pró- 
prio Manuel Pessanha e do filho, que Jofre apri* 
sionara e fizera figurar orgulhosamente na sua 
entrada triumphal em Sevilha. 

Pozera-ps em liberdade o rei castelhano e 
enviava-os agora o monarcha portuguez, talvez 
muito intencionalmente, como que por om certo 



Historia de Portugal 



218 



despeito desforrado e triumphaDte, — a suprir a 
acção protectora da esquadra de Jofre Tenório, 
inteiramente destroçada. 

Foi o almirante porluguez collocar-se nas 
aguas de Cadiz, límitando-se prudentemente a 
ameaçar d'ali a passagem das tropas africanas. 

Em Génova contractara o embaixador de Cas- 
tella quinze galés tripuladas e guarnecidas sob 
o commando de Egidio Boca- negra, mediante 
oitocentos florins d*ouro por cada uma e mil e 
quinhentos pela capitania, mensalmente. 

Promettera o rei d*Aragào pelo seu lado doze 
galés commandadas por Pedro de Moncada, 
neto do celebre almirante Roger de Lauria. 

Era tarde porem para exercer uma acçào na- 
val profícua, que defendesse Castelia da invasão 
temerosa que a ameaçava. 

Numerosas forças tinham já passado o estreito, 
e em setembro de 1340 veio colioca'r-se â frente 
d^ellas o próprio Yussug Abul Hagiag, reunin- 
do-se logo com o seu exercito, em Algeciras, o 
emir granadino. 

Exageram talvez os chronistas, as forças mus- 
sulmanas, chegando alguns a computal-as em 
quinhentos ou seiscentos mil homens, compre- 
bendendo setenta mil cavalleiros, mas natural era 
que ellas fossem numerosíssimas, representando 
a invasão um decisivo esforço, para reduzir no- 
vamente Castelia ao dominio do Islam e tendo 
n*este sentido sido organisada e pregada a guerra. 

Uma grande multidão de fumilias seguia o 
exercito invasor na esperança d'uma segura con- 
quista. 

Era grande o perigo e começava a espalhar-se 
o terror. 

Não. parece porem que fossem grandes estra- 
tégicos os generaes mussulmanos, porque etn 
vez d'uma envestiiia rápida, que teria sido talvez 
decisiva e fatal para Castelia, demoraram-se a 
cercar apertadamente Tarifa. 

Governava a praça um João Affonso de Bene- 
vides, c apesar da de^pgualdade do numero e da 
superioridade dos el('mín)to? d'aitaque, pois que 
segundo se pode depreender de algumas noti- 
cias árabes, os sitiantes dispunham até de uma 
artilberia rudimentar,— os cbrisiãos defende- 
ram-se desesperada e heroicamente. Não lhes 
poderá valer de auxilio e defesa do lado do mar 
a esquadra de Ortiz Calderon, por que uma tem- 



pestade medonha a destroçara inteiramente no 
começo do cerco. 

Convocando apressadamente as cortes, em 
Sevilha, o rei castelhano annunciou-lhes a re- 
solução em que estava de soccorrer Tarifa. A 
necessidade do soccorro e alliança effeciiva de 
Portugal, foi ali também reconhecida e acordada, 
chegando Aff'onso xi a determinar vir em pessoa 
immediatamente solicitar o auxilio do sogro. 

Repugnando porem este acto aos orgulhos, 
ainda não inteiramente sofreados, da politica 
castelhana, pediu e obteve Affonso xi, da sua 
desdenhada esposa que viesse ella a Portugal. 

Quem se não recorda das admiráveis estrophes 
que esta afllictiva embaixada, inspirou ao pri-. 
meiro épico da moderna edade? 

Entrava a formosíssima Maria 
Pelos paternaes Paços sublimados 
Lindo o gesto, mas fora de alegria 
E seus olhos em lagrimas banhados: 
Os cabellos angélicos trasia 
Pelos ebúrneos hombros espalhados; 
Diante do pac ledo que a agasanha 
Estas palavras taes chorando espalha: 

Quantos povos a terra produsio 

De Africa toda, gente fera e extranha, 

O grão rei de Marrocos conduzio, 

Para vir possuir a nobre Hespanha. 

Poder tamanho juncto nâo se vio,- 

Depois que o salso mar a terra banha 

Trasem ferocidade e furor tanto 

Que a vivos medo, e a mortos faz espanto. 

Aquelle que me deste por. marido 
Por defender sua terra amedrontada, 
Co'o pequeno poder oflferecido 
Ao duro golpe está da moura espada; 
E se não fôr comtigo soccorrido, 
Ver-me-has delle e do Reino ser privada. 
Viuva e triste, e posta em vida escura, 
Sem marido, sem reino e sem ventura. 

Por tanto, oh, rei I de quem com puro medo 
A corrente Moluca se congela; 
Rompe toda a tardança; açude cede 
Á miseranda gente de Castelia. 
Se esse gesto que mostras claro e ledo 
De pac o verdadeiro amor asseia, 
Açude e corre, pae, que se nao corres 
Pode ser que não aches quem soccorres. 



214 



Historia de Portugal 



Não de outra sorte, a tímida Maria 
Paliando está, que a triste Yenus, quando 
A Júpiter, seu pae, favor pedia, 
Para Eneas, seu filho, navegando; 
Que a tanta piedade o com movia 
Que cahido das mãos o raio infando 
Tudo o clemente Padre lhe concede, 
Pesando-lhe do pouco que lhe pede. 

Foi em Évora que a rainhaD. Maria veio en- 
contrar o pae, e solicilar-lhe encarecidamente 
que soccorresse, ou melhor, salvasse o marido, 
o tbrono, e o estado castelhano. 

Nâo resistiu D. Affonso iv á suplica commo- 
vedora da filba e proraeiteu-lhe um prompto e 
incondiccionai auxilio. 

Pouco depois encontrava-se em Jcrumanha 
co;n o próprio rei de Caslella, que a eminência 
do perigo desarmara das prosapias orgulhosas 
(i*oulr ora, fasendo-o vir até ali, e confirmavarjhe 
a promessa que fizera â rainha D. Maria.. 

Separando-se do sogro para ir ultimar os 
aprestos da temerosa campanha e oollocar-se á 
frente das forças que poderá junctar, D. Affonso xi 
ordenava que o sogro fosse recebido como se 
fora elle próprio em todas as povoações caste- 
lhanas. 

Col!t)cando-sc â frente dos cavalleiros e peões 
rapidamente reunidos em Elvas, o ordenando 
que se lhe fossem junctando, a marchas forçadas, 
novas forças, 1». Affonso iv entrou com a filha 
em Hespanhn onde foi recebido como salvador. 

Em Badajoz sahiu-íhc ao encontro todo o clero 
regular e secular, saudando-o com o Cântico: 
«Bemdito o rei que vem em nome do Senhor». 

Festivamente o recebeu também cm Sevilha, 
D. Affonso XI, e tendo confirenciado sobre o 
plano da campanha a emprebender, marcharam 
sobre Tarifa, a 20 de outubro, vagarosamente, 
para dar tempo a que se lhes reunissem diversos 
conlingenies de tropas. 

Oito dias depois acampavam a duas léguas da 
praça sitiada, num sitio chamado Peha dei 
Ciervo. 

Ao mesmo tempo appareciam nas aguas de 
Tarifa a esquadra aragoneza dé Bamon de Mon- 
cada e a castelhana do prior de S. João. 

Era tempo. 

A lucta deseguil ia talvez findar peio extre- 
minio dos heróicos c disimados defensores da 



praça, que os reis cbristãos tractaram desde 
logo de reforçar e abastecer com gente e oiaii- 
timentos, na idéa de fazer com que a guarnição 
podesse, durante a batalha que ia travar-se, cabír 
sobre a rectaguarda inimiga. 

Tinham os mussulmanos levantado o cerco 
para attacar os exércitos christãos que se apro- 
ximavam. E'íperavam-a'os, acampados separa- 
damente com a sua gente, os reis de Marrocos e 
Granada. 

Era, da parte d*estes, considerável a vantagem 
numérica, mas se poderoso era o espirito de co- 
biça, de vingança e de gloria que os impulsava, 
nâo era menos intenso e menos estimulante, da 
parte dos christãos, o sentimento de que não 
somente pelejavam pela sua fé, mas por salvar 
as suas famílias e terras. 

Reunido no campo cbristão o conselho de 
guerra, acordou -se que o rei de Castelia atta- 
casse o de Marrocos; e o de Portugal, o de Gra- 
nada. 

Acompanhavam Affonso iv, o biípo de Braga, 
o prior do Grato, os mestres de Aviz, Lopes Fer- 
nandes Pacheco, Gonçalo Gomes de Sousa, -Gon- 
çalo d*Azevedo e outros distinctos ricos-homens, 
mas como não tivesse podido reunir mais do que 
mil e tantos cavalleiros, forneceu-lhe o rei de 
Castelia uma hoste de três mil. Tinham estes 
quatro mil, de se bater contra sete mil caval- 
leiros granadinos. 

Separava os campos inimigos um pequeno rio 
chamado o Solado, 

Infelizmente o perigo commum não conse- 
guira pôr inteiramente termo ás intrigas e 
despeitos que dividiam e inimisavam os ricos- 
homens castelhanos, e parece que ali mesmo 
em face de um inimigo formidável, graves sus- 
peitas de vindicta e traição, amesquinhavam as 
já débeis esperanças da victoria cbristã. 

Era o dia 30 de outubro de 1340. 

Confiara o rei castelhano a sua vanguarda, 
muito provavelmente com reservada idéa de se- 
ducção ou de ódio, ao rancoroso D. João Manuel, 
o seu mortal inimigo de ha pouco. 
' Dado o signal d^avançar, D. João Manuel com 
a sua gente, pareceram hesitar, chegando entre 
os partidistas mais fervorosos do rei, a supór-se 
uma diversão traiçoeira. 

Dois d'elles, o próprio Garcilaso e um seu ir- 



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D. AtTonso IV na bntalha do Salada 



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Historia de Portugal âl5 



mão, à frenie de \im troço de mil homens, avan- [ As perdas soffridas, d'um e do outro ^ado, 
_ -^-:4« — «»„> o npc«anHo a Salado nof ! como a òpulcncia dos despojos obtidos peJos 



as outras sociedades cbristfts da península. [ tamanhas que o ouro e a prata desceram oma 



Historia de Portugal 



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mão, á freDle de um troço de mil homens, avan- 
çaram rapidameole, c passando o Salado por 
uma pequena ponte, levaram adiante de si uma 
avançada mussulmana. 

Áo mesmo tempo, porem, aquelle irmão da real 
amasia, que D. Affonso xi Gzera mestre de S. 
Thiago, e D. João Nunes do Lara, mostravam 
hesitação egual ã de D. João Manuel, mas acu- 
dindo ali o rei, conseguiu fazeUos avançar e atra- ' 
vessar o rio. 

Álravessou-o em seguida o rei com o grosso 
do exercito e envolveu-se valentemente na pe- 
leja que se tornou renhida e geral. 

Mais feliz ou dispondo de gente mais discipli- 
nada e fiel, o rei de Portugal cahiu como uma 
avalanche sobre a multidão granadina, c rom- 
pendo por dia, pol-a com extriíordinaria brevi- 
dade, n*uma confusão completa, quando ainda a 
victoría se não podia contar por certa, do lado 
dos castelhanos. 

Com uma ingratidão que corresponde perfeita- 
mente á de Âllonso xi, alguns historiadores cas- 
telhanos buscam atenuar e obscurecer a parte im- 
portaniissima, — deve mesmo dizer-se decisiva, 
00 rei e das tropas portuguezas n'esle grande 
triumpho do Salado, mas os factos faliam feliz- 
mente mais alto aos espirilos menos levantados, 
até, do que essas escandalosas viciações da ver- 
dade histórica e da imparcialidade da critica. 

O pânico espalbou-se rapidamente nos ar- 
rayaes mouriscos e começou então uma deban- 
dada horrível. Os reis christãos junctaodo as 
suas forças, pozeram-se a perseguir implacavel- 
mente os inimigos^ levando -os de roldão até ao 
Guakialmesi. 

Reunidos também, os reis mouros fugiram na 
direcção d^Âlgeciras, onde pouco tempo se de- 
moraram, partindo d'ali o rei de Marrocos a 
embarcar-se em Gibraltar, para voltar aos seus 
domiuios, e o de Granada, em Marbella, d'onde 
voltou á corte. 

Um facto curioso e que alguns chronistascas- 
telhanos asperamente censuram, foi o da inér- 
cia em que se conservou a esquadra aragoneza, 
tendo alias recebido ordem para desembarcar al- 
gumas forças, que por occasião da batalha cahis- 
sem' sobre a rectaguarda mussulmana. 

Estava salva Castella, e com ella, porventura, 
as outras sociedades cbristlto da península. 



Ás perdas sofifridas, d*um e do outro ^ado, 
como a opulência dos despojos obtidos pelos 
exércitos christãos, envolveu-as e exagerou-as 
por tal forma a lenda creada pelo eothusiasmo 
d'uns e pela desolação de outros, que é certa- 
mente impossível, determinal-as. 

Cbronista ha que diz ter Abul Hassan depois 
de atravessar o estreito verificado que lhe falta- 
vam da multidão invasora «quatrocentas vezes 
mil pessoas. » 

.Outros fixam o numero em duzentos mil. 

Cbegando alguns a arrostar com o absurdo de 
supor que do lado dos chrislàos teriam pere- 
cido quinze ou vinte homens apenas, na preoc- 
cupação fanática de attribuir a victoria a um 
caracter miraculoso, como se não fora mais na- 
tural então, estabelecer que não morrera christão 
algum, para que fosse completo o milagre. 

O que pode perceber-se, alravez de todos estes 
exageros e absurdos, é que por um lado, a pró- 
pria multidão, naturalmente bisonha e indisci- 
plinada, em grande parte, dos mouros; a inapti- 
dão dos seus chefes, graças á qual um troço de 
castelhanos, por exemplo, pode cahir de surpresa 
no próprio acampamento particular de Abul Has- 
san, onde estavam as mulheres e os filhos d este, e 
a guarnição de Tarifa conseguiu romper o centro 
do exercito marroquino; por outro lado â boa dis- 
posição das forças cbristãs; a facilidade dos seue 
movimentos; o sentimento do perigo; *o plano 
hábil e reflectido dos reis peninsulares, e dos 
generaes que os acompanhavam; a bravura im- 
petuosa de que eram verdadeiros e completos 
typos os dois ÂQ^onsos e que elles imprimiam ao 
ataque dos seus pequenos exércitos: — por cima 
de tudo isto, o pânico rapidamente espalhado na 
turba immensa dos mouros: — foram as princi- 
paes parcellas do notabilissimo triumpho. 

Funda deveria ser a dôr de Abul-fíassan. 

Não somente como rei e chefe, mas como pae 
e esposo, soffreu os mais terríveis golpes. 

Fora-lhe morta a sultana valida, Fátima, a 
filha do rei de Tunes, na. carnificina que 08 
castelhanos fizeram surpreendendo as tendas 
reaes. 

Um filho e um sobrinho lhe ficaram cativos e 
com elles muitos dos seus melhores soldados. 

Das riquesas dos despojos se diz que foram 
tamanhas que o ouro e a prata desceram uma 



216 



Historia de Portugal 



sexta parte de valor em Paris, Âviobão, Barce- 
lona e outros mercados. 

Convidado pelo genro a eseolber dos despojos 
o que lhe aprouvesse, D. Affonso iv, com a sin- 
gular isenção e Bdalguia do seu caracter, não 
quiz mais do que algumas espadas, esporas e 
sellas, soberbamente trabalhadas. OCfereceulbe 
porem Affonso xi o sobrinho d'Hassan e outros 
presioneíros notáveis. 

Dois dias depois da batalha, em 1 de no- 
vembro, os dois reis alliados, tendo recolhido 
a sua gente e feito cessar a perseguição e a 
carnificina voltaram para Sevilha, regressando 
em seguida Affonso iv com o seu exercito ao 
reino. 

Gomo nova demonstração do seu reconheci- 
mento o rei de Castella acompanhou o sogro até 
Cazalla. 

A nova da victoria do Salado echoou por toda 
a Europa christã, como a d'um extraordinário e 
festivo successo. 

Ao Papa enviou o rei de Castella uma faustosa 
embaixada a offertar-Ibe uma parte dos despojos 
mouriscos como* gloriosos tropheus consagrados 
ao triumpho da Fé. 

Entrou o embaixador, — João Martinez deLey- 
va, — em Avinhão com a bandeira de Castella 
desfraldada, e o explendido brinde, composto de 
vinte e quatro prisioneiros mouros, com outras 
tantas bandeiras tomadas pelos christãos; — mui- 
tos cavallos árabes ricamente ajaezados e levando 
pendentes dos arções adagas e espadas das me- 
lhores; — e do próprio corsel que montara Af- 
fonso XI na peleja, com o seu caparação de 
malha d'aço sobre uma manta de purpura. 

Correspondente à grandesa ruidosa da home- 
nagem foi o acolhimento de Benedicto xii, que 
proferiu, mesmo, um sermão apologético, com- 
parando a victoria impropriamente attribúida 
apenas a Affonso xi, á de David sobre os phi- 
listeos. 

Cedo começou,— vé-se,— a ingrata tendência 
para obscurecer o valiosíssimo, e decisivo au- 
xilio de Poitugal. 

E comtudo esse auxilio repetia-se pouco de- 
pois, em maio de 1341, em que a esquadra 
portugueza unida á de Castella, yencia a de Mar- 
rocos que tentava uma desforra. 

Repetia-se ainda no anno seguinte em 1342 



em que Portugal reforçava com dez galés as 
débeis forças navaes de Affonso xi. 

B por esse mesmo vinham a Portugal Gomes 
Fernandez de Soria e João Esteves, pedir ao 
nosso Affosso iv, em nome do rei castelhano, 
um empréstimo de dois contos de maravediz, 
dando para caução Alconchel, Burguilhos, e Xe- 
rez de Badajoz. 

Recolhendo a Portugal, Affonso iv, dispoz-se 
a continuar a realísação d'um projecto, que a 
guerra contra Castella interrompera, — projecto 
de que infelizmente poucos vestígios nos restam 
e que constitue um dos primeiros ensaios da 
vasta epopea das nossas descobertas e conquis- 
tas ultramarinas. 

Aconselha-nos porem a naturesa do assunopto 
que o reservemos para mais tarde ser estudado 
e tractado, e que passemos a narrar um acon- 
tecimento que naturalmente se prende aos da 
longa e por vezes ensanguentada historia do ca- 
samento do príncipe herdeiro de Portugal. 

Vimos que depois de uma longa intriga e 
d'uma guerra assoladora, a infante D. Constança, 
filha de D. João Manuel, fora entregue a Por- 
tugal e ao seu desposado, o príncipe D. Pedro, 
em agosto de 1339. 

Acompanhara-a na qualidade de dama d'ho- 
nor uma formosa menina sua parenta e filha do 
castelhano D. Pedro Fernandez de Castro. 

Como jâ então era vulgarissimo, e mais tal- 
vez, então, do que agora, nenhuma affeição, 
nenhumas doestas relações e influencias mutuas, 
que aproximam e fundem as almas, prefaceara 
o enlace, que tantos esforços e sangue custara, 
de D. Constança e de D. Pedro. 
' Rodeando de todos os respeitos a esposa, — 
que era além de tudo uma santa senhora, — o 
moço príncipe portuguez não pôde resistir aos 
encantos da gentil dama d'honor — D. Ignez 
de Castro e apaixonou-se profundamente por 
ella. 

Correspondido, este amor teve rapidamente o 
seu natural desenvolvimento n'uma mancebia 
que não pôde esconder-se das vistas perspicases 
da corte. 

AflSrma-se até que fora o desgosto do escân- 
dalo que abreviara a existência, da pobre infante 
D. Constança. 

Tendo dado & luz em 1345, um filho-H) de- 



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Tjf. ni K»i Si Iludi. :<6. 

Aasasalnato de D. Igaez de Castro 



Historia de Portugal 



217 



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i. ui rcuiui d udu lorauí lamDem aíiieios ao si- 
nistro drama, alguns d'aquelles elementos poli- 
ticofl, que t&o poroitindamente agitaram o reinado 
n WL.— 28. 



memoria da formosa castelhana desdéns e insi- 
nuações infamantes, o esplendido epytaphio,-— 
podemos chamar-lhe assim,-— que lhe escreveu 



/ 



Historia de Portugal 



217 



pois rei D. Fernando, — a esposa do príncipe 
herdeiro fallecia um mez depois. 

Duas vezes estivera a desgraçada senhora 
para occupar um throno. 

Mallograda esposa do rei de Castella, o seu 
casamento com o que deveria ser rei de Portu- 
gal, n&o passou d'um noivado mal auspiciado e 
triste. • 

Desdenhada por Âffonso xi, e preterida no 
coração ambicioso d'este pela qae viria a ser- 
Ihe cunhada, trahira-a D. Pedro /pela sua pró- 
pria amiga e serviçal. 

Dir-se-hia que um destino cruel e implacável, 
pesava sobre esta existência, tão opulenta, com - 
tudo, em virtude e em bellesa. 

Viuvo, isto é liberto dos laços que quando não 
são formados d'affectos são feitos de grilhões, o 
príncipe português entregou-se despreocupada e 
inteiramente ao seu amor pela gentil castelhana, 
-■-recusando aceder aos desejos do pae ou aos 
planos e sugestões da diplomacia, que desejavam 
prendel-o de novo a uma princesa estranha. 

A lenda envolveu por tal maneira estes des- 
graçados amores nas purpuras da sua poesia, 
que mal poderá hoje arrancar-lh'os a historia 
para o theatro severo das suas dissecções. 

D. Igoez de Castro é um doestes typos ideaes 
da grande familia das Ophelias e das Desdemo- 
nas, que fora quasi profanação, sobre sacrílega, 
inútil, chamal-o ã autoria da critica. 

Attribue-se geralmente ao ciúme dos fidalgos 
portuguezes peia privança de que gosavam junto 
do infante D. Pedro, os cavalleiros castelhanos e 
particularmente os parentes de D. Ignez de Cas- 
tro, e â intriga que esse ciúme naturalmente ur- 
diu, o trágico desfecho doestes amores. 

Essa intriga teria tomado por principal instru- 
mento, a insinuação dos perigos que poderíam 
advir ã successão da coroa e ao neto lídimo de 
D. Affonso IV, 86 o amor extremoso de D. Pedro 
o levasse a ligitimar pelo casamento com D. 
Ignez, 08 filhos que tinha d'esta. 

liais racional parece, porem, que essa intríf^ 
encontrasse jâ no animo severo de D. Affonso iv 
a preoccupação d'aqueUe8 perigos e adensa 
d'aquellas relações. 

Porventura não foram tambepa alheios ao si- 
nistro drama, alguns d'aquelles elementos polí- 
ticos, que tão profundamente agitaram o reinado 
n TOL.— 28. 



de D. Diniz, e isto mesmo parecem confirmar 
certos factos posteriores que estabelecem até uma 
espécie de singular syncbronismo histórico. 

Tentou D. Affonso iv levar o filho a contrahir 
novas núpcias com alguma princesa extrangeira, 
mas encontrou uma resistência formal da parte 
d'elle. 

Evidentemente, os amores de D. Pedro por D. 
Ignez eram uma objecção irreductivel, posta aos 
intuitos da politica real, quando não fossem tam- 
bém a ameaça d'um escândalo domestico e d'um 
perigo dynastico. 

Em face d*estes obstáculos que eram apenas 
representados pela vida d'um homem, d'uma 
mulher ou d'uma creança, a politica violenta e 
brutal d'aquelles tempos não costumava hesitar, 
nem demorar-se em combinações subtis e enge- 
nhosas. 

Não ladeava a barreira, nem se esforçava por 
illudir a resistência. 

Ia direita e implacável á solução mais simples 
que era a supressão d'essa vida. 

Amigo de D. Pedro, o arcebispo de Braga avi- 
sara-o da onda de cóleras, d'intrigas ede conve- 
niências politicas que crescia e bramia contra 
elle. 

Mas D. Pedro não suspeitara talvez que ella 
ousasse salteal-o com tamanha ousadia. 

Vivia D. Ignez, com os filhos, em Coimbra, 
ou mais propriamente no paço que segundo a 
tradição fizera edificar a rainha D. Isabel, junto 
do convento de Santa Clara, na margem direita 
do Mondego. 

Resolvida a sua morte, o proprío D. Affonso, 
segundo a tradícção constante, acompanhado 
pelo seu meirinho-mór Álvaro Gonçalves, e por 
dois senhores, Pedro Coelho e Diogo Lopes Pa- 
checo, dirigiu-se, n'uma occasião em que D. Pe- 
dro se ausentara da cidade, ao paço de Santa 
Clara e ali executaram os três companheiros do 
rei o assassínio cobardíssimo da infeliz senhora. 
A historia não tem conseguido sobrelevar-se 
â lenda na determinação do lúgubre aconteci- 
mento, e embora uma ou outra vez a preoccu- 
pação pedante da novidade e da contradícção, 
tenha levado alguns escriptores a cuspir sobre a 
memoria da formosa castelhana desdéns e insi- 
nuações infamantes, o explendido epytaphio,-— 
podemos chamar-lbe assim, --que lhe escreveu 



218 



Historia de Portogral 



o génio potente e generoso de Gamões, aquellas 
estroptics feitas de lagrimas e de fogo que são 
um dos mais soberbos monumentos da poesia 
moderna, cobrem e guardam ainda religiosa- 
mente como em urna sagrada a historia d'aquel- 
lea amores c d'esta «morta escura», da gentil 
amante de D. Pedro. 

Quando a crua atrocidade chegou ao conheci- 
mento do infante, a dôr e a cólera d'este reben- 
taram ruidosamente todas as considerações e 
todos os respeitos de príncipe, de vassallo e de 
filho, n'uma explosão formidável. 

D. Pedro herdara o caracter rijo e implacável 
do pae. 

Associando a si, os irmãos de D. Ignez, — Fer- 
nando e Álvaro de Castro, e juntando alguma 
gente, cujo numero brevemente engrossou com 
os homisiados que lhe adheriram, levautou-se 
francamente contra o senhorio real e encetou 
contra elle uma campanha devastadora. 

Assolando os domínios dos que tinham con- 
c-jrrido para a morte de D. Ignez, marchou 
?obre o Porto, que o arcebispo de Braga D. Gon- 
^lo Pereira, — o que o avisara da conjuração, — 
tracAou de defender. 

Por atlenção a elJe, levantou D. Pedro o cerco, 
continuando a campanha n'oulras direcções. 

Ou porque a rebellião do filho e um tardio 
reconhecimento da feia acção que comettera, lhe 
entibiasse o animo, ou talvez antes porque a po- 
litica externa, novamente complicada, o pren- 
desse, D.Âffonso IV não parece ter procedido 
com a impetuosa severidade do §eu caracter, 
n'e8ta conjunclura. 

Novamente se turvara a confederação dos mo- 
narchas peninsulares, e fora ainda o casamento 
d'uma filha do rei portuguez, o pomo da discór- 
dia; — uma serie de acontecimentos importantes 
devia trazer preoccupada c receiosa a politica 
portugueza, — e embora pareça certo que a re- 
.beliião de D. Pedro nenhuma ligação tinha 
ou procurava fora daa fronteiras, esse movi- 
mento perturbando e enfraquecendo a aucto- 
ridadQ e o prestigio real, deveria incommodar 
08 trabalhos e projectos da diplomacia de Af- 
fonso IV. 

Reservando para outro logar a succinta nar- 

. ração dos acontecimentos que se succediam na 

politica peninsular, nfio podemos deixar de notar 



aqui, um, de somenos importância, certamente, 
mas que d'alguma forma vem a propósito. 

Tinham-se estreitado as relações com o Ara- 
gão pela desconfiança commum contra Castella, 
e um penhor d'este reforçamento das antigas al- 
lianças fora o casamento a que teremos de refe- 
rir-nos de uma filha de D. ASònso iv de Portugal 
com o rei aragonez. NaturaJ mente por esta apro- 
ximação das duas cortes, se pactuou e resolveu 
o casamento d'outra infante portugueza, a filha 
de D. Pedro de Portugal com o filho do defunto 
rei de Aragão, D. Afonso e de D. Leonor, a 
irmã do rei de Castella. 

Nos príncipics de 1334 entrava em Évora a 
rainha viuva D. Leonor e ali se celebrava o con- 
sorcio da filha de D. Pedro e de D. Constança, a 
infante D. Mana, que tinha então apenas doze 
annos, com o filho d'aqoelia rainha, D. Fernando 
de Aragão, marquez de Torlbsa, a quem o nosso 
AfTonso IV por esta occasião doou Louzã, Arga- 
nil, Pedrógão, Figueiró, Mortagoa, as terras de 
Cova de Pena Cova, e outras. 

Depois d'esta ceremonia porem, marchara D. 
Affonso para o norte, no intento de submetter o 
filho e no anno seguinte achava-se em Guima- 
rães. Iam talvez encontrar-se face a face os dois, 
quando a rainha D. Brites, — à imitação do que 
em circumstancias idênticas fizera a rainha D. 
Isabel quando este mesmo D. AfTonso se levan- 
tara contra o pae, — interveio entre o velho es- 
poso e o filho, encontrando-se com este na villa 
de Canavezes. 

Submetteu-se o furor de D. Pedro aos rogos 
e conselhos da boa senhora, e ali se convencio- 
naram as bazes d'uma conciliação. 

Estava cançado e velho o rnonarcha porluguez 
e porventura esta espécie de repi-oducçáo por 
parte do filho, do seu proprío proceder violento 
e irreverente para com o pae, D. Diniz, synchro- 
nisroo singular que o espirito do tempo não dei- 
xaria de lançar à conta de providencial castigo, 
acabara por domar aquelle caracter duro e im* 
petuoso. 

Nem por outra forma se comprerade, como 
em f^ d'nma pequena revolta, sem organisaçio 
e sem pensamento, elle consentisse n nma tran- 
sacção que realmente o exautborava da regia 
auctoridade. 

CoQsenAíu,. cooitudo, e em S. Frascísoo de 



» , • . I 



Historia dé Portugal 



219 



Guimarães juroa elle, em Canavezes, o infante, 
e no Porto a rainha D. Brites, um tractado pelo 
qua] 

1.** D. Pedro perdoava aos que directa ou 
indirectamente tivessem concorrido para a morte 
de ígoez de Castro;— promeltia ser leal e sub- 
misso vassallo, e affastar de si os criminosos e 
homisiados que acoutava, 

2.° e o rei concedia amnistia geral, e conferia 
ao filbo plena e real jurisdicção no crime e no 
civil, em toda a parte onde estivesse ou por onde 
passasse. 

Rigorosamente este tractado era quasi uma 
abdicação, ou pelo menos o príncipe D. Pedro 
era por elle feito regente, com pequenas reslric- 
ções e reservas. 

Novo e profundo desgosto soffreu o velho mo- 
narchá pouco depois, tendo dé acolher a filha, 
a desditosa rainha de Gastella, que fugia, apa- 
vorada das crueldades sanguinárias do filho, e 
náo sabemos com que fundamento, como se não 
fossem de sobejo as sinistras responsabilidades 
que pesara já sobre a memoria de D. Âffonso iv, 
ainda alguns historiographos lhe vibram a sus- 
peita de ter feito envenenar a filha foragida, que 
pouco tempo o precedeu na morte. 

CAPITULO VI 

Desordens no Aragão. — Casamento da in- 
fante portngnezaD. Leonor. — Campanhas 
d'Algeciras e Gibraltar. — A peste.— Morte 
d*Affonso XI. — Assassínio da Guzman. — 
Situação da politica portugueza. — Politioa 
interna. — Código dos judens. — Commeroiq, 
navegação e primeiros ensaios de desco- 
bertas marítimas.— Morte d*Aífonso IV. — 
Considerações. 

Retrocedamos um pouco. 

Terminada a campanha do Salado, não parece 
que a antiga confederação que ella renovara se 
conservasse e subsistisse muito leal e segura, 
antes pôde crer- se que afifastado o perigo commum 
se reproduziam as desconfianças e intrigas que 
haviam já rompido a tríplice alliança peniu- 
sular. 

Era grave a situação politica do Aragão. 

O ódio profundo entre o rei, o celebre Pedro 
IV o ceremonioso, e a madrasta, D, Leonor de 



Cãstella, irmã de Àffpnso xi, abeirava-se rapida- 
mente das mais desastrosas soluções c dominava 
inteiramente o espirito do monarcha aragonez, 
abrangendo os filhos de D. Leonor, os infantes 
D. Fernando e D. João. 

Por vezes estivera para romper-se a paz com 
Gastella, pela natural protecção que D. Leonor, os 
filhos e os seus partidistas encontravam no mo- 
narcha castelhano. 

Um novo factor porem veio juntar-se agueira 
surda entre o rei e a madrasta. 

Resolveu D. Pedro iv exauthorar o próprio ir- 
mão D. Jayme do cargo de governador geral do 
reino de Valência, que lhe pertencia pelo facto 
de não possuir o rei, filho varão e ser aquelle 
cargo inherente à qualidade de herdeiro pre- 
sumptivo da coroa, qualidade que por este mo- 
tivo recahia em D. Jayme. 

Levantou-se este em rebellião aberta e facil- 
mente excitada pelo governo arbitrário e opprís- 
áivo do rei aragonez erenovou-se então a cduíirt» 
União ardgoneza, exigindo do rei a prompta reu- 
nião de cortes. 

Proclamara, por seu lado, e contra o direito 
aragonez, D. Pedro, uma das filhas como her- 
deira da còrôa, entregando a regência de Valên- 
cia, em seu nome a Pedro de Exerica, oulr ora 
seu inimigo e partidista de D. Leonor e agora 
favorito <io rei. 

Mas naturalmente porque não julgava seguro 
o expediente, e porque precisasse d'uma alKança 
poderosa que contrapozesse ã hostilidade disfar- 
çada de Gastella, enviou a Portugal uma em- 
baixada, composta de Lopo de Garrea e Pedro 
Guilhem de Escaymbos, que D. Affonso iv rece- 
t)eu em Santarém (4 junho 1347), com o fim de 
soUicitar a mão da infante D. Leonor, filha do 
rei portuguez. 

Soube immediatamente do projecto o rei de 
Gastella e logo enviou ao aragonez Fernão San- 
ches de Tovar a instar por que desistisse da 
idéa de desposar a infante portugueza, que orei 
castelhano dizia ter pedido já, por solicitação do 
próprio D. Pedro iv para o infante D. Fernando 
seu irmão e sobrinho de Âffonso xi. 

Âo mesmo tempo enviava o rei de Gastella a 
Portugal na mesma diligencia D. João Affonso 
d*Albuquerque. 

Nem estas nem outras emhaixadas sortiram 



220 



Historia de Portugal 



resullado diverso do que já experimentara Ãf- 
foDso XI, quando procurara obstar ao casamento 
de D. Pedro de Portugal com D. Constança. 

Com um certo desdém, até, e em todo o caso 
com a mais rude indiferença pelas objecções do 
rei castelhano, D. Pedro do Aragão e D. Afibnso 
de Portugal negociaram rapidamente o casamento 
da filha do segundo com o primeiro, de forma 
que em 11 de junho se assignava em Santarém 
o respectivo contracto e antes de terminar o 
anno de 1347, desembarcava em Barcelona a 
infante D. Leonor, já rainha do Aragão. 

Triste devia ter sido o noivado. 

Morto o infante D. Jayme, não tardou D. Fer- 
nando, a quem ficava pertencendo de direito o 
governo de Valência, a lançar-se com os seus 
partidistas em soccorro da revolta que rebentara 
n'aquelle reino, levando*lhe um grande troço de 
castelhanos. 

Foi o começo d^uma conflagração geral, â qual 
veio acrescentar-se a terrível epidemia chamada 
a peste negra, de que morreu poucos mezes de- 
pois de ter desembarcado no reino do marido, a 
infante portugueza (1348). 

Ãtravez de varia fortuna e depois de ter sof- 
frido as mais cruéis humilhações, o feroz arago- 
nez conseguira não somente separar da causa 
dos revoltosos a madrasta e os irmãos, mas 
captar a neutralidade afectuosa do rei de Castella 
que promettía mesmo ajudal-o na idéa de ca- 
sar o bastardo Henrique de Trastamara, que ti- 
vera da Guzman, com uma das infantes do 
Aragão. 

Não vivia lambem Affonso xi tão desafogado 
e seguro que podesse prescindir da alJiançaara- 
goneza ou intervir francamente nas pisrturbaçõe^ 
intestinas do visiuho. 

Compreendendo que não devia deixar esmo- 
recer o grande eileito moral da victoria do Sa- 
Jado, e contando com uma tentativa de desforra 
por parte dos mouros, o rei castelhano formou 
o projecto de conquistar Algeciras, que era como 
que uma porta aberta a novas invasões marro- 
quinas, para o qun obteve das cortes convo- 
cadas em Burgos (1342) largos subsídios de di- 
nheiro. 

Chegara' finalmente a esquadra contractada 
em Génova e commandada por Bocanegra, jun- 
tandoHse a de Castella e uma composta de 10 



galés sobre o commando de Carlos Peçanha que 
lhe enviara o rei de Portugal. 

Depois de pequenos combates, poderam as três 
esquadras derrotar completamente uma grossa 
armada de 80 galés e outros navios granadinos 
e de Marrocos, seguindo-se logo uma nova victo- 
ria, obtida pela esquadra do Aragão sobre outra 
mussulmana. 

Partiu então D. AfTonso sobre Algeciras. 

Mas a esquadra portugueza voltara a Lisboa 
e a do Aragão fora chamada também ao seu 
paiz. 

Por outro lado mostrava-se muito incerto e 
diflScil o empreendimento e prolongando-se o 
cerco, soffria duramente o exercito castelhano 
sob ura rigorosíssimo inverno, e em face d*uma 
defesa tenaz e hábil. 

Sollicitou novamente Affonso xi o auxilio do 
rei portuguez pedindo-lhe um empréstimo de 
mais de dois iníihões de maravedis, caucionado 
por vários castellos e povoações, bem como 
que lhe fosse reenviada a esquadra de Peça- 
nha. 

Ao de Aragão e ao de França fez solicitações 
análogas, obtendo do primeiro dez galés que foi 
também o auxilio que conseguiu de Portugal, 
auxilio que lhe foi muito útil pelas novas victo- 
rias navaes que os portuguezes conquistaram 
sobre os inimigos communs. 

Seguiu se aquella longa e valente campanha 
conhecida pelo «sitie d'Algeciras», que terminou 
pela capitulação da praça. 

Este êxito e as desordens que rebentaram em 
Africa, estimularam o rei castelhano a empreen- 
der a conquista de Gibraltar, e veio em 1349 
assentar o seu campo em frente d 'esta praça, 
reconhecendo em breve que teria de sustentar 
um demorado cerco, para que podesse subme- 
tei-a pela fome. 

Foi por este tempo que as longas discórdias 
entre o rei de Aragão e a madrasta e os filhos 
d'esta se terminaram, restabelecendo-se entre o 
rei de Castella e aquella a paz que não chegara 
a romper-se ostensivamente, chegando aié D. 
Pedro IV a mandar ao cerco de Gibraltar um 
troço de besteiros e algumas galés, apesar das 
iuctas em que lhe andavam arriscada [)o próprio 
reino a coroa e a vida. 

A peste porem que assolava a Europa e a Hes- 



Historia de Portugal 



221 



panha, salteoa ferozmente o exercito sitiante, 
sendo uma das victimas o próprio Áffonso xi. ^ 

 morte de ÂfTonso xi causou uma profunda 
sensação, e desde logo, acclumado immediata- 
mente o uuico filho lidimo d'elie, o infante D. 
Pedro que se achava em Sevilha com D. Maria, 
sua DDãe, começou a debandada do partido da 
amante D. Leonor de Guzman, que acompanhara 
o defunto monarcha nos seus últimos instantes, 
e que corajosamente quiz acompauhar-lhe o fé- 
retro desde Gibraltar áquella cidade. 

Com ella seguiram os seus dois filhos gémeos 
e primogénitos D. Henrique e D. Frederico, conde 

* Lafuente traz a seguinte curiosa nota d'esta 
doença. 

«Eis aqui, — diz elle,—- as interessantes noticias que 
dá um escriptor hespanhol acerca da horrível epi- 
demia: 

«Não afQigio somente a Hespanha, mas espa- 
Ihou-se por toda a Europa tão espantoso estrago. 
Attribuio-S6 a uns navios comraerciantes que em 
13^8, aportaram á Sicília e á Toscana com géneros 
infeccionados que traziam do Levante. 

«Raynaldo nos seus annaes ecclcsiasticos do dito 
anno de 1348, n.'» xxx e seguintes refere os cruéis 
males que ella causou na Itaiia, matando, especial- 
mente em Florença mais da terça parte da popula- 
ção. Conta-se que João Boccacio para divertir os 
seus amigos amedrontados pelos progressos que fazia 
a epidemia, compoz o seu Decameron . . . 

«O papa Clemente vi mandou acender fogueiras 
para puriiicar o ambiente e conct^deu que todos os 
sacerdotes podessem promíscuamente absolver de 
todos os peccados, sem reserva d'algum, aos que 
fossem attacados do contagio. « 

«Segundo os historiadores francezes a França foi 
um dos reinos que mais horrivelmente soíTreram da 
pestilência, pois somente no cemitério dos Santos 
Innocentes de Paris se enterraram diarianiente 500 
infeccionados. 

«O povo, crendo que os judeus tinham enve- 
nanado os poços e fontes e que d'aqui procedia 
a epidemia, matava-os e queimava-os implacavel- 
mente. 

«A tal ponto chegou por este facto o desespero 
dos desgraçados que as niãcs se arrojavam com os 
lilhos nas fogueiras em que ardiam os maridos para 
que lhe não baptisassem as creancas. 

•Movido por estes desestres o papa expndiu bul- 
ias de excumunh«1o contra os que violentassem os 
judeus. 

<Nâo foram inferiores os males que soífreu a Hes- 



de Trastamara o primeiro e grão mestre de San- 
tiago o outro, mas como no trajecto fossem sen- 
tindo a cynica deserção dos seus partidistas e 
em Medina se pronunciassem suspeitas contra 
elles, chegando mesmo o aio que fora do novo 
rei, o filho do portuguez Affonso Sanches, D. João 
Affonso d'Albuquerque, a propor a prisão dos 
dois e da mae, retiraram-se elles e os parentes 
mais receiosos, a differentes terras, onde podes- 
sem aguardar n*uma relativa segurança os acon- 
tecimentos. 

Chegando a Sevilha, fez o antigo aio e agora 
valido de D. Pedro, o Albuquerque, recolher a 

panha, segundo narram as cbronicas de AíTonso xi 
e de D. Pedro, nas quaes esta peste é chamada a 
mortandade grande. 

«.0 Chronicon Goninbricence, publicado no tomo 
23 da Hespanha Sagrada explica-se assim: 

«Era de 1386 por S. Miguel de setembro come- 
çou esta pcMilencia que fez grande mortandade.no 
nmndo de modo que niorreram duas partes da 
gente. 

«Esta mortandade durava por espaço de 3 mezcs 
e a maior parte das dores eram d'umas incbaçõ( s' 
que se levantavam nos vasios e debaixo dos braços: 
todos padeceram eguaes dores, os que morreram e 
os que se curaram. Pelas noticias que encontramos 
nos escriptores mussulmanos hespanhoes,. cremos 
que na Andai usia se sentiu mais o flagello para 
o remédio do qual escreveu o cronograplio de 
Granada Ehn Alkabit, um tratado que intitulou: 
«Averiguações nmilo úteis da horrivel enfermi- 
dade.» 

«Abugiafar, também mussulmano e medico de 
Almeria escreveu outro tratado sobre o mesmo as- 
sumpto, no qual adverte que a pestilência appareceu 
pela primeira vez na Africa, coinmunicando-se ao 
Egypto e a toda a Ásia, íinalmente invadiu a Itália, 
a França e a Hespanha, e.que em Almeria onde fez 
o maior estrago durou por espaço de 11 mezçs. — 
Casiri, Bibl, Arabe-Hi$p. tom. 2.» etc.» 

Acrescentaremos o. que lemos em Ozanam, ílist. 
Medr. 

• Fernel, Quercetanus, Gemma, Foreslus e Palma- 
rius descreveram a peste que devastou a Europa em 
JioO. Veio da Ásia Menor na Daliuacin, d'ali passou 
á Hungria, Itália, Allemanha, Bélgica, França c Hes- 
panha: em 2 mezes matou 60 niil pessoas em Paris. 
O terror era tal que os doentes envolviam-se.n'uma 
mortalha desde que eram attacados e morriam subi- 
tamente. As pústulas charbonosas eram o principal 
symptoma.> 



U2Z 



Historia de Portngal 



uma espécie de prisão no palácio real, D. Leonor 
de GDzman, mas pareceu não ir mais alem o re- 
sentimento do novo monarcha e dos partidários 
da raioba. A alguns parentes da Guzman, foram 
conferidos novos títulos e cargos importantes e 
o filho D. Henrique, que parecera tentar em 
Algeciras a organisação d*uma séria resistência 
para o caso de ser perseguido, pôde mesmo vir 
a Sevilha visitar a mãe. 

Um projecto de casamento entre o rei D. Pedro 
ou o infante D. Fernando de Aragão, e D. Joanna 
de Vilhena, occupava as attenções da corte, por 
assim nascer renasctnte da rainha, que como o 
filho tinha por principal conselheiro Albuquer- 
que. 

Mas a astuciosa amante de Affonso.xi, posto 
que quasi abandonada e presa, pôde orgaqisar 
tal intriga que a pretendida noiva casou expon- 
tânea e clandestinamente com o bastardo D. Hen- 
rique, conde de Trastamara, o que causou um 
profundo despeito em D. Pedro, na mâc e no 
violento ministro. 

Foi a Guzman transportada sob mais rigorosa 
prisão para Carmona e fugiu D. Henrique para 
as Astúrias. 

Uma grave enfermidade que atacou o moço 
rei, apressou o desencadeamento da tempestade 
longamente accumulada. 

Na presumpção da morte de D. Pedro, diver- 
giam os pareceres acerca da successão, susten- 
tando alguns importantes senhores, a candidatura 
de D. João Nunes de Lara, que não somente fora 
partidária de Guzman, desde que uma sua filha 
casara com um filho d'ella e de D. Affonso, mas 
ficara aparentado com o Trastamara pelo casa- 
mento doeste. 

Por outro lado Albuquerque e vários punham 
a candidatura de D. Fernando de Aragão, so- 
brinho de [). Affonso xi como a mais legitima, 
coincidindo os dois partidos na idéa de casar o 
seu candidato com a rainha viuva. 

Salvou-se porem D. Pedro, e em 1351 convo- 
cou as primeiras cortes para Valladolid. 

Partiu a corte de Sevilha, tendo-se D. João 
Nunes de Lara refugiado por prevenção nas suas 
terras de Burgos, e sendo enviada a Guzman 
para Taiavara de la Reina. Por uma espécie de 
requinte na vingança, se é que se não enganam 
' os chronistas, levou D. Maria comsigo a sua 



rival até Lherena, onde vivia o bastardo D. Fre- 
derico ; facultou-ihe ali uma entrevista com este 
seu filho, e enviando-a depois para Talavera, 
fel-a apunhalar por um seu escudeiro. 

.Pode dizer-se que começou n*ente successo o 
reinado sangrento de D. Pedro. 

Pouco depois mandava elle próprio matar na 
sua presença Gàrcilaso de la Vega e abria uma 
campanha contra os partidários e família de D. 
João Nunes do Lara e do conde de Trastamara, 
o primeiro fallecido já e o segundo homisiado. 

Estes annuncios do reinado do neto, parece 
que não impressionavam favoravelmente o ve- 
lho rei porluguez, que convidando-o a vir encoo- 
trar-se com] elle em Giudad Rodrigo em 1352, 
e exprobando-lhe ali o inicio violento do seu go- 
verno, contiluiu-se fiador da fidelidade do conde 
de Trastamara, se D. Pedro se congraçasse com 
elle e o deixasse voltar a Gastella. 

É singular esta intervtnção de Affonso iv, em 
favor do filho da amante de seu genro, e mal 
pode lançar-se á conta de simples generosidade, 
em animo tão propenso a sacrificar todos os im- 
pulsos do coração aos cálculos da politica. 

Cumpre acrescentar que o Trastamara se refu- 
giara em Portugal e que acedendo D. Pedro ás 
instancias do avô, se recolheu aquelle aos seus 
domínios das Astúrias, onde em todo o caso se 
julgou mais seguro que próximo do irmão. 

Mas não duraram muito estes auspícios de 
paz, porque logo de Giudad Rodrigo partiu D. Pe- 
dro sobre Aguilar onde um antigo partidário da 
Guzman, que fora dos primeiros a abandonal-a, 
parecia preparar-se para levantar a bandeira da 
sedição. 

Não era naturalmente isolada a tentativa, e 
o próprio Trastamara, mal entrado nas Astú- 
rias, começara a inspirar suspeitas, que levaram 
D. Pedro a marchar rapidamente contra elle, dei- 
xando em frente de Aguilar, o mestre de Cala- 
trava. 

Foi curta e pouco sangrenta porem esta cam- 
panha que terminou pela inteira submissão do 
bastardo. Na volta porem tomou o rei, d'a8saUo 
a cidade sediciosa, fazendo matar em seguida os 
principaes caudilhos e arrasar a povoação, com 
a feroz dureza que parecia ter herdado do pae. 

De dia em dia crescia o valimento de D. João 
Affonso d' Albuquerque, em casa do qual, em Sa- 



Bifltoria de Portugal 



d23 



huogun, por occasitio da campanha de Àguilar, 
se namorara de D. Maria de Padílla, uma formo- 
aissima e fidalga moça que facilmente se Ibe 
entregou e que por longo tempo havia de domi- 
naUo como a Gnzman a D. ÀiTooso xi. 

Em Portugal, como dissemos, a sedição do 
principe herdeiro e o tractado dfi Canavezes, 
pareceu ter retrahido a politica nacional. 

 peste devastara também cruamente o reino; 
e por outro lado, a solução de continuidade que 
a morte de Âffonso xi produzira nos negócios 
castelhanos e a situação do Aragão, deveriam im- 
por uma certa expectativa reservada a Portugal, 
cuja situação politica devia ser também cheia de 
embaraços e delicadesas, pelas condicções espe- 
ciaes que aquelie tractado estabelecera. 

Apesar porem de todas as graves preoccupa- 
ções externas que até aos últimos momentos 
prenderam e dominaram a politica de Affonso iv 
e ainda dos desastres e embaraços que lhe sobre- 
vieram no governo interno do paiz, o trabalho 
de reformação e de consolidação social , o esforço 
pelo engrandecimento das forças vivas do paiz, 
mal pôde dizer-se que afrouxasse. Um dos as- 
sumptos que de longa data importunava a acção 
governativa e que vimos impôr-se nas primeiras 
cortes d'este reinado ás attenções de AfiFonso iv, 
apparece*nos ainda nos últimos annos d'este, mo- 
tivando diversas resoluções legislativas, entre as 
quaes não devemos deixar de citar uma que 
constítue uma espécie de solução definitiva ou 
codificatíva de notável importância. 

Keferimo-uos ás relações e situação dos judeus 
para com o Estado e para com os seus compa- 
triotas christãos. 

Em 1352 decretava o filho de D. Diniz uma 
ordenação tributaria completa para aquella parte, 
ainda então muito numerosa, da nação, que por 
pouco conhecido e d'uma singular significação 
critica, devemos transcrever. 

Diz assim: 

«Esta be a ordenação que el-rei fez per a qual 
goiza as comunas dos judeos do seu senhorio 
ham de pagar o serviço d'el-rey. 

«Primeiramente todo o judeo desque fâr em 
hidade de quatorze annos em diante e fòr casado 
ou viuvo pague vinte soldos em cada um anuo. 

íE a judia que fôr casada ou viuva pague dez 
:8ddos. 



«E o judeo ou judia nom paguem nenbua 
cousa ataa que sejam em hidade de sete annos. 
E des a dita hidade de sete annos em diante a 
judia pague dous soldos e meio ataa que Sf^ja em 
hidade de doze annos. 

«E o judeo pague cinco soldos ataa que seja 
em hidade de quatorze annos. 

«E a judia des que for em hidade de doze 
annos em diante e nom for casada e viver em' * 
poder do padre ou da madre ou d 'outrem, ou 
servir a outrem, pague meio maravedi que som 
sete soldos e meio; e se viver per sy pague dez 
soldos; 

• c o judeo que for de quatorze annos em 
diante e nom for casado é viver em poder do 
alheio pague hum maravedi que som quinze sol- 
dos em cada hum anno e se viver per sy pague 
vinte soldos. 

«Idem: todo judeo ou judia que colher vinho 
de suas vinhas pague de cada hum tonel de 
moyaçom quarenta soldos e se vender o. vinho 
em uvas sejam estimadas quantos tonees de vi- 
nho poderom dar essas uvas e pague quarenta 
soldos de cada um tonel de moyaçom como dito 
he; e se nom houver tonel pague a razom de 
quarenta soldos; e seja todo esto visto e estimado 
e escrito pelo colhedor e escripvão debrei: 

«E o judeo ou judia ataa que colha ou mande 
colher esse vinho faça-o saber ao colhedor e es- 
cripvão e se assy o non feser perca todo o vinho 
que assy colher ou mandar colher e seja delrey; 
e se o feser saber aos ditos colhedor e escripvão 
e despois esconder algun tonel ou pipa de que - 
nom pague o direito a elrey perca esse tonel ou 
pipa ou outro vinho de que assy nom pagar o • 
direito a elrey, ou se outra vegada lhe assy acon- 
tecer perca todo o vinho que ouver em essa vi- 
nha de que colheo vinho que assy esconder; e se 
a terceira vez lhe esto acontecer perca todo o 
dito vinho e de mais seja-lhe estranhado no 
corpo e no haver como for mercee delrey. 

«E o judeo ou judia que colher o dito .vinho 
deve faser certo per juramento quantos tonees 
ou pipas colhe e prevendo-se que ouve o^ais aja 
as ditas penas. 

«Idem: todo judeo ou judia que comprar uvas 
pêra faser vinho e o vender em gros ante que 
colha pague seis dinheiros d^almude pela medida 
de Lisboa» e se a quiser pêra seu beber pague 



224 



Historia de Portugal 



outro taDto, salvo se fôr de suas vinhas que pa- 
gue como dito he. 

«E deve diser o vendedor per juramento ao 
colbedor delrey e ao escripvão quanto vendeo ou 
entregou e se for achado que roais vendeo ou en- 
tregou perca-o o judeu e seja delrey como dito he. 

«Idem: todo judeo ou judia que vender vinho 
a torno pague dous soldos do almude pela medida 
de Lixboa de guisa que seja de tonei de moya- 
çom, cinquo libras. E nom deve vender vinho 
ataa que o faça saber ao colhedor e escr<pvam, e 
se lho nom fezer saber, aja a pena sobredita. 

«E manda elrey que o seu colhedor e escri- 
pvam vejam as adegas dos ditos judeos em que 
os ditos vinhos colherem pêra saber que tonees 
ouveerom, e quantos pêra aver elrcy delles o seu 
direito pela maneira quê dito he e pêra ser estra- 
nhado aos judeos se lhe nom pagarem o seu di- 
reito. 

«Idem: todo judeo ou judia que fezer vinho e 
o vender a chrisptaão obrigue-se ao colhedor e 
escripvão que pague seis dinheiros do almude da 
colheita e se o vender a torno, pague doos soldos 
como dito he. 

«Idem: todo judeo que matar carne pêra seu 
comer ou pêra vender ou pêra exercar e for de 
seu comer pague de vaca juvenca de hum anno 
ataa doos dez soldos, e des hun anno em diante 
pague vinte soldos delia; e do carneiro e da ove- 
lha doos soldos, c de cabrom hun soldo, e do cor- 
deiro e do cabrito, patos, capoões e galinhas 
quatro dinheiros de cada hun; e do frangom ou 
fragãa doos dinheiros de cada hun. E defende ei- 
rey que nom degole nenhum salvo o degolador 
posto pelos judeos em cada lugar ou quem elie 
mandar, e o degolador faça-o saber ao colhedor, 
6 se o judeo ou judia degolar sem o degolador 
aja as penas suso ditas. 

«Idem: todo o judeo ou judia que mercar carne 
de chrisplâo e seja de seu comer seja degolada 
pelo dito degolador como dito he e pague quatro 
dinheiros do arrátel pelo arrátel de Lixboa e faça 
todo esto saber o dito degolador ao dito colhedor 
e escripv&o delrey pêra averem delles o seu di- 
reito. 

«Idem: do pescado que vender ou comprar de 
hun soldo pague hun dinheiro e de seis dinhei- 
ros bnma mealha e assy do mais e do menos, e 
tanto pague do p&o cosido que comprar e vender 



e da fruita qualquer que seja ou d'outra qualquer 
coisa que vender ou comprar pelo meudo, assy 
como ferraduras, esporas e outras quaesquer 
cousas, e do alqueire de trigo que comprar ou 
vender pela medida de Lixboa ou de Santarém 
quatro dinheiros, e do alqueire de cevada oumi- 
Iho ou centeio ou legume doos dinheiros e assy 
do mais e do menos, e do alqueire da farinha de 
trigo oito dinheiros e assy do mais como do me- 
nos. 

«E virom ao colbedor e escripvão delrey cada 
domãa que lhes dem, e paguem todo o direito de 
elrey, das ditas cousas, e se assy nom fezerem, 
que ajam as penas susoditas e se sobregarem o 
direito que elrey ha d'aver das ditas cousas, per- 
cam-nas e sejam delrey ou lhe paguem a estima- 
ção delias. 

«Idem: todo judeo ou judia que mercar de 
qualquer pessoa que seja para si ou pêra outrem, 
mercadorias ou lhas derem pêra as vender, assy 
como mel, cera, azeite, panos, prata, ouro, fer- 
ro, cobre ou outras mercadorias quaesquer em 
gros, pague quatro dinheiros da livra e o judeo 
que as vender pague outro tanto: e esto aja lu- 
gar no troco se o fezerem. 

«E estas mercadorias que assy mercarem ou 
trocarem, façam-no sabente ao dito colhedor e 
escripvão logo, se a mercadoria foi feita na villa 
onde forem esses colhedor e escripvão e se fôr 
feita fora da villa, façam-no perante o tabellião 
desse loguo, bu comprar ou vender se hi tabel- 
lião ouver e se hi tabellião nom ouver, façam-no 
perante testemunhas e em esse dia, se poderem 
ou em outro dia façam-no sabente ao colbedor e 
escripvão, e se o assy nom fezerem e sobnega- 
rem o direito a elrey ajam as penas suso ditas. 

«idem: todo o judeo que comprar ou vender 
ou trocar bestas ou gaados, pague quatro dinhei- 
ros da livra e esso mesmo se comprar ou vender 
cartas maravídis ou d*outras quaesquer cousas 
que sejam, também herdades de pam como de 
vinho ou de olivaes ou outras quaesquer herda- 
des ou outras cousas que sejam movei ou raix 
ou de natura de cada huma delias. 

«Idem: todo judeo ou judia que ouver herda- 
des, casas, olivaes, pumares, ortas ou outra raiz 
qualquer, salvo vinhas, pague ho oitavo do re* 
novo que Deos fai der como por jugada oom lhe 
sendo desfalcadas as custas que sobre esto feser: 



HtetoriA éa Fertng»! 



ftee 



salvo-se for herdade de qoe aja de dar foro que 
lhe seja defakado o dilo foro. 

«Idem: todo jadeoou jadia, queouvergaados, 
bestas, colmeas, pague o disimo do renovo. 

«Outro sy manda e defende que judeo nem ju* 
dia que aja quinhentas libras ou de hi acima nom 
sejam atrevidos de sair fora de seus regnos sem 
seu mandado, perderem os averes que ou verem 
e ficarem por elrey, e os corpos estarom aa sua 
mercee como aquelles que pass&o mandado de 
seu rey e sashor. 

«.A qual ordenaçom elrey mandou que se guar* 
dasse pêra todo o sempre per todo seu regno e 
senhorio e mandou em ella poer seu seelio p^« 
dente. 

«Feita em Vallada a quinze dias de novembro. 
Berthòlomea Johanes e fez per mandado do se- 
nhor rey. Era de mil e trezentos e noventa an- 
nos.» 

Era perfeitamente a exploração fiscal do judeu 
reduzida a código. 

Esta oppressâo systematica d 'aquelles desgra- 
çados assumiu na legislação de Âffonso iv pro- 
porções absurdas como se pode ver nas primeiras 
ordenações. 

Felizmente para conpensar, até certo ponto 
esta macula da administração activíssima do fi- 
lho de D. Diniz, os esforços que ella empregou 
para desenvolver a navegação e o commepcio 
nacional, dào um bello relevo a este reinado, tão 
sombreado de cruesas. 

Quem pozesse ali o annuncio primeiro da nossa 
explendida epopea naval, não commetteria certa- 
mente um grande erro. 

Deve coofessar-se que a preoccupação de obter 
um certo poderiq marítimo, parece acompanhar 
nos nossos primeiros governos o longo e tenaz 
trabalho da consolidação do Estado portugnez. 

Vimos como no reinado precedente tomaram 
volto esses trabalhos. 

Continuou-os D. Affonso, promovendo o des« 
envcivimenio da marinha de giaerra, cuja impor- 
tância começou a ser oonsideravel na guerra com 
Gastella e com os mouros. 

Um facto muito notável, mas ainda bastante 
dMCOfo é o da idéa que manifestamente teve 
e9le rei de conquistar as iibas Cambas, e o eu* 
gaio de expedições navoee db deeei^rta que 
elle empreendeu, 
n voi»— 29. 



Como em 1344 o papa Clemente vi em Aví- 
nbãe conferisse a um príncipe bespanhol a in- 
vestidura do senhorio d'aquellas ilhas e solici- 
tasse ao rei de Portugal e a outros monarcbas, 
que auxiliassem o seu protegido a tornar effe- 
ctiva aquella singular soberania, D. Affonso res; 
pondia-lhe a 12 de fevereiro de 1345, com- 
munlcando-lbe que pozera já a idéa na conquista 
das Canárias, e n^esse intuito enviara gente e 
navios a tomar conhecimento das ilhas, tendo 
sido trazidos ao reino homens, animaes e vários 
objeòtos d'ellas. 

Acrescenta o rei portuguez que traclando de 
oi^anisar uma expedição de conquista, as guer- 
ras com os castelhanos e oom os mouros lhe 
haviam feito sustar o projecto. 

D'uma expedição por ella enviada de.Lisboa 
em julho de 1341 ha noticia segura. Parece te- 
rem-n'a commandado um genovez Nicoloso de 
Recoo e um florentino Angelino dei Tegghia dei 
Gorbizsi. 

O movimente do commercio marítimo por ou"- 
tro lado crescia e regolarisava-se, desde os pri- 
meiros reinados. 

Em 1304 tinha o concelho do Porto estabele- 
cido o que poderemos considerar um prímeiro 
ensaio de associação commerdai, para regular 
o afretamei^ e oarregam«ito das nausl È um 
documento curiceo o d'esta resolução, e por isso 
o incluímos aqui: 

—«Em nome de Deus, amen. Saibam todos 
que domingo vinte e cinco de março, era de mil 
e trezentos quarenta e dois annos, em presença 
de mim Affonso Romãaes, tabelliam pubrioo da 
ddade do Porto e das testemunhas adiante es- 
criptas o concelho da dita cidade seendo todos 
juntos traff a obra da see per pregom per Ber* 
tholamen pregoeiro da dita cidade ante lançado 
eomo eu dito tabelliam vi e ouvi que fossem to* 
dos trás a obra da See è aderençariam de sua 
prcrt, e 08 que polo dito pregam no dito log«r 
foram asimtados todos em hum accordo e em 
huma voz nom desacordando nenhum nem con- 
tradisendo, louvarem e outorgarom e derom por 
flrioaes eestavees e valiosas as cousas con&eudas 
em huã cédula que em esse coneelbo foi puMi* 
eada e l^ida, da qual^o theor de verbo a verbo 
talhe: 

«BstD he o estatuto <pvd os hotoeea bõo9 com 



226 



Historia de Portagal 



o concelho do Porto põem antre sy e fazem, 
esgoardando, o serviço de Deos e o proveito da 
dita cidade: 

«E consirando e veendo que alguns homees, 
non esguardahdo Deus nem suas almas nem o 
proveito da villa fretavam naaos per sy, nom 
seendo by chamados, aqneliles que as carrega-* 
vam e poioham algoas naaos em taaes conthias, 
quaaes era sua vontade: o concelho e homees 
boõs da dita cidade veendo e considerando o 
dapno que se íhes ende seguia e poderia seguir 
hindo este feito adiante, ouverom conselho e 
teverom por bem, arredando seu dapno c che- 
gando seu proveito que as naaos e navios que 
se ottvcrem de fretar no Porto pêra averem de 
carregar d'aver de pezo e outro sy algumas naaos 
se as aqui fretaram pêra Lisboa os visinbos da 
villa pêra aver de peso que sejam fretadas per 
quatro homens boós da cidade^ os quaes homeens 
boôs sejam daquelles que pêra Fraudes carre- 
garem em as naaos e navios, e enlegerem an- 
tre sy. 

•B teem por bem que aquestes bomeens boi^s 
que enlegerem antre sy, jurem aos santos avaa- 
gelhos que bem e direitamente fretem as naaos 
per aquella guisa que elles entenderem e virem 
que he bem e proveito da cidade c bem dos 
mercadores, e razom também convinhavel pêra 
08 mercadores como pêra os navios e naaos e 
cada huã naoos, ou navio como se avierem com 
08 mercadores. 

«E estes quatro bomeens boós que as naaos 
han de fretar, devem a faliar com os bomeens 
boós da villa quantas naaos fezerem mester pêra 
fretar e em que tempo e quando as naaos ou 
navios ouverem fretadas, devem^n'o de fazer sa- 
bei* aos mercadores; e os que em eilas carregar 
quiserem e em ellas tomar parte, que vaão da- 
quelle lugar, onde lhes este quatro bomeens bons 
mandarem e dem-lbeâ parte em tal guisa que 
cada buD aja igualdade assy conio virem que 
lhes cumpre. 

«E aquelies que contra esto forem em parte 
ou em todo peitem quinhentas libras pêra o con* 
celho e sejaiu deitados de vizinhos e o estabde* 
cimento ficar firoie e em sua fortalesa.- 

«E estes quatix) bomees bOos devem de entrar 
cm cada bun anno por páscoa per conoelhot 
apregoando aquelies que pêra esto enlegerem. 



I «B estes quatro bomees bõos devem tomar 
conto e recado dos carregadores que aqui as na- 
aos carregarem e dos descarregadores quando 
as naaos vierem com os panos e a que sobejar 
dem-no aos ditos quatro homees bõos e rece- 
bam-n'o pêra o concelho. 

«E 08 que forem carregadores devem aver 
quarenta soldos tornaises por seu affom cada bun 
e os descarregadores em Normandia outro tanto 
e liom mais. 

«B nenhun mercador que aja parte no senho- 
rio das naas nom será carregador. 

«B os quatro homens bõos que pêra esto en- 
legemos esto primeiro anno som estes, a saber: 

«Ruy Vaasques e Pêro Simooes e Pascoal Ean- 
nes, e Vicente Pires 

iO se estes todos quatro by nom poderem 
seer que os.doos que by poderem seer façam 
nas cousas suso ditas se cumprir e mandem fre- 
tar as naaos pela costa, se cumprir, aa custa da- 
quelles que as quiserem carregar. 

«Â qual cédula perleuda, o dito concelho pe- 
diu a mim dito tabelliâo que a tornasse em pu- 
blica forma sob meu signal; e demais mandarem 
todos em bun acordo a Vasco Gil, chanceiler do 
concelho que seellasse este estormento do seello 
pendente do concelho por maior firmeza das di- 
tas cousas e esto foi feito no dito logo, no dito 
dia e na era suso dita. Testemunhas que a esto 
presente forom Lourenço Esteves, e Francisco 
Annes e Esteve Annes, tabelliaaes, e Jobam 
Gordo almoxarife do infante e Hartim Paes juiz 
da dita cidade e Gonçalo Nogueira cavalleiro e 
Jobam Duraães e Martim Peres Alvarinho, e 
Vasco Gil, Miguel, e Jobam Vicente e Gomes de 
Freitas e Eslevam de Freitas e outros muitos. 

«E eu Afifunso Romaes tabeliiam de suso dito 
a rogo e a mandado do dito concelho, este estor- 
mento com minha mafto própria escrepvi e meu 
signal by puge em testemunho de verdade que 
tal he. » 

Esta medida porem não somente deixara de 
ser comprida no pensamento ingénuo da sua uti- 
lidade geral,— se é que atraz doesse pensamento 
Dão estivera desde o começo o interesse egoista 
ou monopolista d'algun8,— mas recouhecera-se 
em breve que importava n'uma sujeiçfto vexato- 
ria, principalmente para os mercadores do inte- 
rior do norte do reino. 



HistoriA d0 Portugal 



227 



BiD 1355, pois, D. AffoDso iy deferindo ás re- 
clamações dos negociaotes de Braga, de Chaves, 
de Guimarães, do próprio Porto e d'oatros Ioga- 
res, alterou e regulou melhor o pacto, e visto 
que demos o documento primitivo, justo é que 
lhe accrescentemos as resoluções de D. Affonso. 

São estas: 

«E eu vista a dita postura e as rasões ditas e 
allegadas de huma parle e outra porque achei 
que a dita postura se nom guardava pela guisa 
que devia e que porem se seguia a mim grande 
desserviço e dapoo aos mercadores, porque nom 
carregavam seus averes nem era feita entre el- 
les igualdade pela guisa que devia e pêra se aver 
melhor de guardar a dita postura e se a mim 
seguir serviço e prol aos ditos mercadores, fa- 
zendo-se igualdade antre elies pela guisa que 
deve tenho por hem e mando, que a dita pos- 
tura se guarde pela guisa que se adiante segue e 
Dom per outra a saber: 

«Que os ditos quatro homcis bõos que forem 
fretadores, quando ouverem de scer enlegidos, 
que o dito concelho e bomees bõos faça*hy cha- 
mar o meu almoxarife e escripvam do dito loguo 
do Porto, e outro sy o façam sat)er geralmente 
per pregom pêra chegarem hy os ditos mercado- 
res do dito loguo do Porto e dos outros lugares 
que hy chegar quiserem pêra esses quatro freta- 
dores serem enlegidos com outorgamento dos 
mais que se poder fazer. 

«E estes fretadores sejam jurados aos santos 
evangelhos que dem parle a cada hum mercador 
também do dito loquo do Porto como aos de fura 
igualmente, segundo os averes que cada huum 
tever pêra carregar. 

«E se depois for achado que algum mercador 
revender a outrem a parte que lhe for dada na 
naao pelos ditos fretadores nom avondo razom 
aguisada porque nom deva de carregar que aja a 
pena das ditas quinhentas libras e seja deitado 
de visinho, e se for mercador de fora pague as 
ditas quinhentas libras e nom lhe dem todo 
aquelle anno carrego em essa cidade e ficará a 
postura firme pêra sempre; e se pervenlura Ici- 
xar de carregar por alguma razom aguisada en- 
tom possa revender essa sua parte, que lhe assy 
foi dada por aquella quantia, por quanto lhe foi 
dada pelos ditos fretadores e nom por mais, e se 
o contrario desto fezer qur aja as ditas penas. 



«Outro sy se os ditos fretadores nom fezerem 
Igualdade ou per outra guisa fezerem o que nom 
devem' pêra se nom guardar a dita postura como 
dito he aja cada bum as ditas penas pela guisa 
que dito he, e desto sejam requeredores e accu- 
sadores pêra demandarem as ditas penas o dito 
meu ajmoxarife, e escripvam ou procurador do 
concelho ou outro qualquer do povoo também da 
cidade como de fora parte. E seja dito primeiro 
recebido a demandar as ditas penas o procurador 
do dito concelho e leve a pena dos ditos.dinheiros 
pêra o concelho, e se as demaudas nom quiser 
entoffl as demande o dito meu almoxarife e es- 
cripvam e levem as ditas quinhentas libras pêra 
mim c se o dito meu almoxarife e escripvam nom 
quiserem demandar a dita pena dos ditos dinhei- 
ros, entom os demande outro qualquer do povoo 
tam bem da cidade como de fora. 

«E seja de melhor condiçom aquelle que pri- 
meiro chamar a parte a juiso poia dita razom 
e leve a dita pena das ditas quinhentas libras as 
cem peia si e as outras partes sejam pêra o con- 
celho. 

«Outro sy quando os ditos fretadores derem 
parte a cada hun dos ditos mercadores como dito 
be seja hy hum tabelliam ou escripvam jurado 
e escrepva logo a parte, que assy fór dada a cada 
hum, de guisa que cada hum aja sua parte pela 
guisa que fôr escripto e lhe foi dada; e se for 
achado que esse tabelliam ou escripvam jurado 
mingua ou acrescenta alguma parte do que assy 
foy dado, escrepvendo menos ou mais ou ris- 
cando depois o que escrepver o que nom deve 
aja pena de falsQrio. 

«Outro sy se o mestre da naao consentir que 
algum mercador meta mais averes que aquelles 
que lhe forom assignados pelos ditos fretadores 
e o fezer a sabendas, aja as ditas penas e sejam» 
lhe demandadas pela guisa que dito he. 

«E em testemunho desto mandei dar esta mi- 
nha carta ao dito concelho do Porto. Dante no 
dito loguo do Porto a seis dias d'agosto. ElRey o 
mandou per maeslre Lopo das leyx seu vassallo, 
a que esto mandou livrar. — Lourenço Martins de 
Coimbra a fez. Era de mil e tresentos e noventa 
e três annos. » 

Fora impossível registrar aqui todo o enorme 
trabalho legié^lalivo,— mesmo a parte puramente 
Lconomica d'elle, — que assignala este reinado. . 



22S 



EEtaKboiia da Fmrtocpal 



Depois do tratado de Gaimarães a acção enér- 
gica e regularísadora do gOTeroo de Affonso iv, 
como a sua activissima diplomacia, parecem d&o 
somente afrouxar, mas interromper-se. 

Delicada deveria ser a situação doesse governo 
nos negócios internos do paiz, depois das ex- 
traordinárias condicçOes d'aquelle tratadp que, 
pode dizer*s.e, terminou o reinado do filho de D. 
Dinis, e os acontecimentos da politica peninsular 
haviam tomado um aspecto imprevisto e grave. 

 ferocidade do filho e successor de Affonso xi 
e a guerra civil devastavam Gastella. 

A carnificina de Toro, em que junto da própria 
rainha viuva os sicários do rei castelhano tinham 
assassinado, por ordem d'eUe, alguns illustres 
senhores que haviam procurado aqoelle amparo, 
impressionou profundamente a filba de Àffonso 
IV, aliás tão culpada talvez, nas terríveis viu* 
dietas do filho, e fez com que esle^ a solicitação 
d'ella, a reenviasse ao rei de Portugal. 

Foi o ultimo golpe que feriu o orgulho e o 
animo cavalheiroso e severo de Affonsoiv. 

No mesmo anno em 1357, pae e filha chega- 
vam ao termo fatal das suas agijtadas existên- 
cias. 

Dos reis portuguezes é talvez D. Affonso 
aquelle cuja memoria mais duramente tem sido 
tractada pela critica. 

As rebeldias e conspirações ambiciosas contra 
o pae; a sua perseguição tenaz e implacável con- 
tra um dos irmãos bastardos, a morte de outro 
no patíbulo; o assassínio de Ignez de Castro, a 
suspeita que não cremos fundada do envenena- 
mento da própria filba, a despojada rainha cas- 
telhana, teem imposto ao vulto, ém todo o caso, 
eminente doeste rei, um aspecto sinistro e re- 
pellente; tem-lhc coberto a memoria de con- 
demnações e de injurias, que quando não fossem 
até ã injustiça cruel de Ibe obscurecer muitas 
qualidades boas e muitas valorosas acções, pec- 
cavam já por não dar aos factos o desconto ho- 
nesto da crítica do tempo e do meio, das idéas e 
dos interesses dominantes que aliás pode deter- 
minar uma attenuação importante. À luz d^essa 
critica, que é a verdadeira critica histórica, o 
aspecto d'aquelle notável vulto histórico deixa 
talvez de ser tão sinistro e condemnaveí. 

A lucta formidável dos diversos factores d'uma 
sociedade que se formava á beira da id^de-mé- 



dia e ao cabo d'uffl trabalho secular de conquis- 
ta; — a noção que se reconstituía do poder real, 
— a invasão do direito romanista, explicam e 
attenuam muitas d'es8as espantosas tragedias 
que estremecem de horror o nosso sentimento e 
o nosso critério moral de hoje. 

Da primeira dymnastia é D. Affonso iv talvez 
o que tem uma mais segura, mais vasta s mais 
tenaz preoccupação do Estado e da missão e 
'-acção histórica do poder real. 

A conquista acabara, e a sociedade portngueza 
precipitava-se mais rapidamente, por isso, no tra- 
balho da soa consolidação civil e politica. 

A realesa acompanhava*a naturalmente n^esla 
evolução e presidindo a ella reconstruía o seu di- 
reito no sentido d'uma magistratura suprema, in- 
dependente, nacional. 

Nacional é o termo. 

O rei tornava-se o supremo juiz, a personifica- 
ção por assim dizer da harmonia geral, a encar- 
nação da justiça commum; a força regularisadora; 
a synthese definitiva e pessoal da unidade, da in- 
dependência c da soberania do Estado. 

Esta noção ou este facto tinham-n'o preparado, 
inconscientemente muitas vezes, previdente e 
habilmente muitas outras, os anteriores gover- 
nos. 

D. Diniz revigorando e protegendo os factores 
económicos da nação, obdecia com uma rara ín- 
telligencia áquelle pensamento ou áquella neces- 
sidade. 

Iremos encontrar essa mesma noção, mais do 
que nunca clara, terminante, sincera, em D. Pe- 
dro I, cujo reinado não é mais do que a sua inter- 
pretação rigorosa e brutal. D'ahi o cognome de 
jiLSticeiro. 

B é curioso, mas perfeitamente natural a coin- 
cidência de nos apparecerem sempre estes reis 
justiceiros no primeiro período da historia dos di- 
versos povos. 

«A primeira virtude social 6 a Justiça e por 
ella e para ella reinam os reis», como dizem, 
por estas ou outras palavras, alguns documen- 
tos da realesa antiga. 

B comprcende-se que na elaboração, nos em- 
bates, no trabalho da formação de um Estado, 
a primeira necessidade seja a d 'uma força su- 
perior a todos os elementos concorrentes; um 
poder que domine e abrace todos os poderes 



Historia de Portugal 



â29 



e lhes imponha a harmonia e lhes determine 
^7 227£>ylmento commum. 

Se considerarmos ACTonso iv não isoladamente 
nem pelo prisma dos nossos sentimentos e das 
nossas condicções sociaes d'hoje, — como filho 
on como pae, que ainda ahi poderiamos offe- 
recer o esposo exemplar e honesto em justa 
conapeDsação, — mas principalmente como chefe 
e cooio rei, no momento social em que elle 
assuaie e exerce o poder, — havemos de con- 
fessar â face dos numerosos documentos da sua 
politica externa, e da sua enorme legislação, 
que elie é um dps vultos mais notáveis ou que 
o seu governo é um dos mais proficuos, dos 
mais brilhantes e dos mais hábeis dos intel- 
Vigenles e enérgicos governos que presidiram 
à nossa formação nacional. 

Ha no caracter d'esle rei um certo cunho har- 
mónico de severa e dura austeridade que lhe 
constitue uma originalidade incontestável e ca- 
racterística no meio dos costumes desabusados, 
e pode mesmo dizer-se, das tradicções de rela- 
xamento moral dos monarchas do seu tempo. 

Vimos como o pae, o rei D. Diniz, apesar de 
todas as eminentes virtudes e acrísolados afe- 
ctos da esposa, era fácil a affeições adulteras e 
longe de as esconder, as revelava ruidosa edes- 
preoccupadamente na generosidade das suas doa- 
ções, chamando para junto de 8i e cobrindo de 
favores, os filhos bastardos, c confessando até 
em documentos públicos o premio conferido ás 
suas amasias. 

Do próprio D. Pedro, o Romeu de Ignez de 
Castro, sabemos que não o absorveu por ma- 



neira aquella desventurada paixão que lhe não 
deva a historia pátria o progenitor bastardo da 
segunda dymnastia. 

Entre o pae e o filho, D. Âffonso apresenta 
n'este caso uma feição perfeitamente distincta: 
esposo exemplar, a sua auctoridade regia pro- 
cura com particular insistência, moralisar as 
relações entre os dois sexos e obstar á disso- 
lução dos costumes. 

Eile legisla severamente contra os que «atre- 
venilo-se em taes usos e costumes de que ata 
qui usaram, induzem per afaagos e per outras 
maneiras algumas molheres virgecns e viuvas 
que vivem honestamente, pêra fazerem com ellas 
maldades de seus corpos,» — fulmina «todoo'ho- 
mem ou molher que em sua casa alcovetar mo- 
Iher virgeen ou casada ou. religiosa ou viuva» — 
regulamenta escrupulosamente acerca dos casa- 
mentos, clandestinos, etc. 

Exactamente quando decretava algumas das 
suas mais severas leis sobre o assumpto, dava o 
filho o escândalo da sua real ou apparente man- 
cebia com D. Ignez de Castro.- 

Conhecendo naturalmente a Índole do filho, 
D. ÂÍTonso antes de morrer, procurara pór-lhe 
fora da sanha vingativa os principaes auctores 
da morte da formosa castelhana, fazendo*os sair 
do reino. 

Âo seu successor, finalmente, deixava o reino 
n'uma perfeita paz interna e externa, e fora in- 
i^igne injustiça negar-lhc que o seu governo ti- 
vesse realisado um progresso importante na 
obra da consolidação política da sociedade por- 
tngueza. 



Tjr\rTiG XXX 



!>• I»edro I 



o-o<€:bx»-o- 



CAPITULO I 

Elevação ao throno, de D. Pedro. -— Nego- 
ciações oom o rei castellxano.— Qnerra 
entre Castella e Aragão. — Casamentos 
reaes. — Os assassinos de D. Ignez.— Re- 
velação do oasamento de D. Pedro oom 
D. Ignez. — Cortes. — Politioa externa. 

Em 1357, empunhava D. Pedro o sceptro, 
apressaado-se como era d^uso, em commuoicar 
este acoQtecimeDto, aos reis de Aragào e de Cas- 
tella. 

A politica externa parece ter-lhe merecido os 
primeiros cuidados de rei, e porventura de pae, 
senão também de amante. 

Tendo-lhe o rei castelhano solicitado que lhe 
deixasse faser trasladar para Sevilha o corpo da 
sua finada mãe a rainha D. Maria, deu-lh*a D. 
Pedro com delicada e aíTectuosa manifestação, 
e expediu a Castella por embaixadores Martim 
Vasques e Gonçalio Annes de Beja a entabolar 
negociações para que alguns casamentos entre 
os príncipes d*uma e doutra- côrtc confirmas- 
sem de novo a estreita amisade d'ellas. 

Lisongeado com estes auspicios ou prevendo 
as vantagens que lhe poderiam advir d'uma es- 
treita aliiança com o novo rei portuguez, D. Pe- 
dro de Castella enviando o arcebispo de Sevilha 
e outros prelados a receber o corpo da mãe, 
apressou-se também em enviar a Portugal o seu 
chanceller, João Fernandes de Melgarejo ractifi- 
car os seus desejos de boa e leal amisade e dis- 
cutir os projectados enlaces. 



Por esta occasião porem recebia o nosso D. 
Pedro, de Huesca, uma intimação do legado 
do papa para que não tivesse relações com o cas- 
telhano que fora excommungado, e para que Dão 
o auxiliasse na guerra contra o Aragão. 

Rompeca-se esta, havia pouco, em consequên- 
cia d'um agravo, mais supposto do que real, que 
ferira o orgulho magestatico de D. Pedro de Cas- 
tella. 

Fora o caso que achando-se este rei em San- 
lucar de Barrameda, um capitão de mar catai- 
lão que arribara com dez galés, aprezara dois 
baixeis placentinos que ali aportaram, sob o pre- 
texto de que eram de genovezes e por conse- 
guinte de inimigos do Aragão. 

Viu n'Í8to o castelhano desrespeitada a sua so- 
berania e como o chefe naval lhe não reparasse 
a offensa, prendeu vários mercadores catalões, 
sequestrando-lbes os bens e expediu Gil Velas- 
quez de Segóvia ao Aragão a exigir a entrega do 
culpado. 

Aparte este incidente o rompimento era natu- 
ralmente estimulado pela dissenção surda que 
lavrava ( ntre as duas cortes e que a protecção 
dada em Castella aos infantes D. Fernando e D. 
João, inimigos do rei aragonez, certamente ali- 
mentava. 

Declarada a guerra em 1356, D. Pedro de 
Castella começou a exercer as mais violentas 
extorções para obter dinheiro c abriu a campa- 
nha pelas fronteiras de Aragão c Valência com 
a sua ferocidade habitual. 

Naturalmente, reacenderam-se os velhos ódios 



Historia de Portagal 



831 



domésticos e dymnasticos, e ao passo qne o 
conde de Trastamara e os seus partidários acu- 
diam ao rei aragonez, os irmãos doeste, os infan- 
tes D. Fernando e D. Jo&o, batalhavam contra 
elle. 

Um pequeno acontecimento ameaçou fazer nas 
forças de D. Pedro de Gasteila uma diversão 
grave, levantando-lhes na rectaguarda a revolta. 
Acompanhando este rei, D. João de La Cerda e 
D. Alvar Perez de Guzman, casados com as Q* 
lhas do revoltoso de Aguilar, procufou D. Pedro 
seduzir a mulher do segundo, pelo que os dois 
senhores desertaram do campo real, passando-se 
o Guzman para o Aragão, e tratando La Cerda de 
revolucionar a Andaluzia. 

Com dificuldade conseguiu o legado do papa 
estabelecer uma pequena trégua entre os dois 
reinos, mas rompeu-a aleivosamente D. Pe- 
dro. 

Pôde ainda restabelecel-a o legado em maio 
de 1357, trocando-se reféns e communando a 
pena de excommunhão contra o que a vio- 
lasse. 

Mas taes intenções manifestou ainda o rei cas- 
telhano, que o media'dor o excommungon então, 
intimando como vimos este acto, ao rei de Por- 
tugal, porventura suspeitoso da aproximação que 
começava a negocíar^^e entre os dois. 

Assim pois, ao empossar-se no governo, o fi- 
lho de Affonso iv encontrava-se como o pae na 
vantajosa situação de ser sollicitadà a sua alliança 
pelo Aragão e por CasteUa, qualquer dos estados 
seriamente interessados em não ter Portugal por 
inimigo. 

A guerra entre elles terminou em breve, mas 
os antagonismos e as intrigas entre as duas cor- 
tes, davam à paz negociada pelo legado do papa, 
um aspecto extremamente precário. 

Hábil e prevideate no meio da sua desalmada 
ferocidade, D. Pedro de Gasteila, aproveitando a 
tregoa pactuada, procurou obter a alliança efe- 
ctiva do rei de Portugal contra o Aragão, lison- 
geando-lhe os seus desejos e projectos de pae, 
e para este fim enviou«lhe três embaixadores^ 
D. Samuel Levy, Garcia Goterres Tello e Gomes 
Pernandez de Soria. 

Como veremos porem a intelligente diploma- 
cia de Afonso iv era digoameute continuada pelo 
governo do filho. 



Em junho ou julho de 1358 celebrava-se en- 
tre 08 dois monarchas um tratado de alliança 
vagamente ofensiva, que era ao mesmo tempo 
contracto de três casamentos. 

Por elle, se estabelecia que o infante D. Fer- 
nando, filho lidimo de D. Pedro de Portugal, ca- 
saria com a infante D. Beatriz, filha do rei de 
CasteUa; e que os infantes D. João e D. Diniz, 
filhos do rei portuguez e de D. Ignez de .Castro, 
— bastardos por conseguinte,— receberiam as 
irmãs da que ia ser rainha de Portugal, D. 
Constança e D. Izabel, d'ali a 6 annos, sendo os 
noivos largamente dotados pelos respectivos 
pães. 

Como porem, as duas partes contractantes se 
deveriam* auxilio militar, e o rei de CasteUa o 
pedia contra o Aragão, impunha Portugal que o 
primeiro não podesse fazer paz com o segundo 
nem com qualquer outro Estado, sem prévio co- 
nhecimento do rei portuguez. 

Não tardou que o castelhano valendo-se doeste 
tractado, solicitasse, pelo seu embaixador João 
Fernandes d'Enestroza, o socoorro d^algumaa 
galés contra o Aragão. 

Com instrucções de servir três mezes ape- 
nas, n'esta campanha, sahiu de Lisboa o al- 
mirante Lancerote Pessanha com 10 galés, edi 
1359. 

Ao mesmo tempo porem ou pouco depois, en- 
viava D. Pedro um mensageiro de confiança a 
seu genro o infante D. Fernando, promovendo 
com eUe e com o rei d'Aragão uma liga secreta 
contra o de CasteUa, proceder obscuro que posta 
de parte a questão de lealdade, tão precária na 
politica do tempo e ainda não muito corrente na 
de hoje, parece explicar-se pela idéa qne não 
tardou a affirmar-se de se impor o rei portuguez 
n'um dado momento como arbitro nas divergên- 
cias .entre os outros dois reinos peninsulares, 
e pela situação grave em que se achava Cas- 
teUa. 

Attribuem alguns a facilidade com que D. Pe- 
dro prestou a sua alliança e auxilio ao visinho 
monarcha, ã idea fixa e implacavd de colherás 
mãos os assassinos de D. Ignez de Castro que 
n'aquelle reino se haviam refugiado. 

O que é certo é que em 1359 se celebrava um 
novo tratado pelo qual o rei castelhano se obvv 
gaVa « entregar ao de Portugal, Pedro Goefiio, 



Q32 



HiBtona de Portugal 



Aharo Gonfalves e Diogo Lopes Pacheco, em 
troca de D. Pedro Nuoes de Gusmão, Hem Ro* 
drigues Tenório, Fernão Gudiel Toledo e Fernão 
Sanches Caldeira, que tinham fugido para Por- 
tugal. 

Foi o pacto cruel, exactamente cumprido, 
salvo em relação á entrega de Pacheco, que 
pôde fugir para o Aragão,, acolhendo-ae â pro^ 
tecção.de D. Henrique de Trastamara. 

E para que não tenhamos de voltar ainda a 
eftta trágica historia dos amores e morte de Ignez 
de Castro, registremos já os dois extraordinários 
successos com que a fechou D. Pedro. 

Foi um a vingança medonha, que segundo 
documentos irrecusáveis, tirou dos dois fidal- 
gos; fazendo-08 torturar e matar com inaudita 
craesa. 

«A Pedro Coelho — diz Fernão Lopes^man- 
doQ tirar o coração pelo peito e a Álvaro Gon- 
çalves pelas espáduas» assistindo com feroz 
ItMliíferença a esta execução 

Foi o segundo soccesso a ruidosa solemnidade 
pela qual afiBrmou que casara clandestinamente 
com D. Ignez de Castro. Singular revelação que 
mal se compreende como não fora feita muito 
antes e que deveria lançar uma perturbação pro- 
funda n'aquella corte que por assim dizer assis- 
tira â execução da pobre senhora ordenada por 
Afonso IV. 

Tem-lhe contestado uns e sustentado outros 
tenazmente a veracidade; exponhamos singella- 
mente os factos e apreciem«n'o sem animo des- 
prereindo, os leitores. 

Em 12 de junho de 1360, reuniu D. Pedro 
cortes, ou especial assembléa da sua corte, em 
Catanbede, e em presença do mordomo-mór 
conde de Barcellos, chanceiler real João Affonso, 
tabellião Gonçalo Pires e de outros dignataríos 
jurou ter casado com D. Ignez de Castro, clan- 
destinamente sete annos antes, isto é, em 1357, 
em Bragança, tendo sido presentes a esse casa- 
mento, dois homens que n^aquella reunião se 
achavam, o bispo da Guarda, D. Gil, e o capel- 
)ão Estevão Lobato, os quaes testemunharam ser 
exacta a extraordinária declaração real, lavran^ 
do-se de tudo documeolo authentíco. 

Dias depois fez^se outra reunião mais nume- 
rosa, e n'eUa o mordoau>mór repetindo as re- 
ydaçOes de D. Pedro e das duai tMemunbaa 



presentes, expoz que não quizera o primeiro 
tornar publico o enlace em vida do pae, receioso 
d'eile a quem não pedira consentimento e desfa- 
zendo as objecções de parentesco entre D. Pedro 
e D; Ignez, por ser esta sobrinha d'aquelle, filha 
de seu primo co-irmão, leu um breve do papa 
João XXII em 18 de fevereiro de 1325 em que 
este dispensava os impedimentos canónicos ainda 
que por linha transversa d'uma parte no segundo 
grau e de outra no terceiro «fossem parentes D*. 
Pedro e a mulher que elle tivesse de desposar, 
ele.» 

Convém observar que este breve não se refe- 
ria, é claro, ao casamento com D. Ignez que o 
papa João xxii não poderia prever, tendo-o pas- 
sado em 1325 a solicitação do próprio Affonso iv 
e quando o filho doeste estava ainda na infância, 
e tendo morrido em 1334. 

Se pois é falso o documento, essa circumstan- 
cia não invalida inteiramente a declaração prin- 
cipal, pois que elle poderia ter sido forjado no 
intento de attenuar certos escrúpulos que susci- 
tasse o facto do parentesco no enlace que se re- 
velava. 

Terminou o mordomo-mór o seu discurso, re- 
querendo certidão do documento para uso e em 
favor dos infantes D. João, D. Diniz e D. Beatriz 
como filhos que eram de D. Pedro edeD. Ignez, 
e terminou a sessão, partindo-se todos como diz 
Fernão Lopes no seu estylo tão pitoresco e ma- 
licioso^ — «pêra as pousadas, nom minguando a 
cada buum rasooens que fossem antre si faltando 
sobre esta èstoria. » 

Parece que não deixou desde logo a estranha 
revelação de suscitar sérias duvidas, principal- 
mente por se ter feito esperar tanto tempo e pela 
singularidade de não poder determinar- se o dia 
e o mez, posto que uma das testemunhas affir- 
mara ter sido em 1 de janeiro. 

Pouco se importou porem D. Pedro com estas 
duvidas, pois que ordenou que o corpo de D. 
Ignez fosse transportado de Santa Clara de Coim- 
bra, com pompa real para Alcobaça, onde o fez 
recolher em formoso tumulo. 

Annos depois, na véspera da sua morte, afir- 
mava ainda terminantemente o filho de D. Af- 
fonso IV, o seu casamento com D. Ignes de Castro. 

Poderá a importanciapoUtioa da revetação, au- 
ctorisar a bypothese da falsidade doesta ? 



Historia de Portugal 



S33 



Gremoe que n&o. 

É certo que tendo a infante D. Maria, filha de 
D. Constança e^e D. Pedro, casado com D. Fer- 
nando, infante do Aragão, em 1354 e tendo fal- 
lecido, ponco depois de nascer o infante D. Luiz, 
outro filho lídimo de D. Pedro, restava apenas a 
este como successor o infante D. Fernando, que 
tinha então 15 annos. 

Mas alem de que D. Pedro se achava no vigor 
da idade, o casamento que elle negociara para o 
filho e a sua afiéição por este, não deixam supor 
que elle pensasse n'uma quebra natural ou vio- 
lenta da linha da successão, em beneficio dos 
até ali suppostos bastardos, e por outro lado não 
impediria a bastardia acreditada dos filhos de 
D. Ignez, que D. Pedro os engrandecesse e lhes 
negociasse annos antes os casamentos com as 
filhas do rei de Castella. 

D. Pedro coUocando a data do seu casamento 
com D. Ignez, 12 annos depois da morte da rai*- 
nba D. Constança, é claro que não tinha intento 
análogo ao do seu contemporâneo imitador eho- 
monymo, D. Pedro de Castella. É sabido que este, 
explorando o exemplo do monarcha portuguez, 
reunia pouco depois as suas cortes em Sevilha e 
declarando-lhes que o seu casamento com a rai- 
nha D. Branca de Bourbon fora nullo porque an- 
tes d'elle casara com D. Maria de. Padilha, fez 
proclamar a defunta amante, rainha de Castella 
e seus filhos successores e herdeiros do throno. 

Poderia suppôr-se também que a declaração 
de D. Pedro obdecendo a um pensamento absor- 
vente, simultaneamente de. amor e de vindicta, 
mirasse a attenuar a impressão que a cruesa 
do castigo infliogido a dois dos assassinos da 
amante, deveria causar no publico; engrande- 
cendo, por assim dizer, o crime. 

Haa alem de que o caracter do rei portuguez 
não auctorisa facilmente esta supposição, a pró- 
pria declaração d'elle de que conservara em ri* 
goroao segredo o casamento durante a vida de 
Afonso IV, toma improcedente a bypothese. 

Em todo o caso, o acontecimento não tem 
uma grande importância histórica e quasi se 
pdde coosiderar impossível apurar directamente 
« verdade. 

No empenho de realisar a paz entre os dois 
monarcbas peninsulares a quem o prendia es- 
treito parentesco e tradições atTectuosas, o rei 
11 voL*— 30. 



portuguez fazia propor francamente ao do Ara- 
gão em 1360, por dois embaixadores que lhe 
enviava, Álvaro Vasques da Pedra Alçada e Gon- 
çalo Annes de Beja, que o acceitasse por me- 
diador. 

Respondeu o aragonez queixando-se de que 
Portugal prestasse auxilio a Castella, contra elle, 
que fora sempre leal amigo e alliado de D. Af- 
fonso IV, mas que não tendo duvida em fazer 
a paz desde que nisso concordassem o infante 
D. Fernando, seu irmão, e o conde D. Henrique 
de Trastamara que estavam jâ sobre a fronteira 
castelhana, poderia o rei portuguez enviar a 
Castella os seus embaixadores para com estes 
entrar nas negociações respectivas. N'este in- 
tento chegou a ser nomeado por embaixador D. 
Fr. Martinho do Avelar, mestre da Ordem d'Aviz, 
mas ou por incapacidade doeste ou por que o rei 
de Castella não estivesse d'accordo, frustrou-se a 
tentativa, e em 1362 vemos organisada uma 
liga ofTensiva contra-o Aragão, entre Castella, 
Navarra, Portugal e o emir de Granada, mar- 
chando o filho de Affonso xi sobre a fronteira 
aragoneza com um grosso exercito de que fazia 
parte um troço de boas tropas portuguezas, uns 
300 cavalleiros, etc. 

É natural que jâ então a suspeita de que o 
Trastamara pensava em galgar ao throno caste- 
lhano estimulasse o rei portuguez, tio do de 
Castella, a soccorrer este, mas é certo que não 
parecia ser muito sincera e affectuosa a alliança 
quer de Portugal, quer de Navarra, como os acon- 
tecimentos posteriores vieram provar. 

N 'estas guerras em que os ódios e as dissen- 
sões domesticas tinham tão importante parte, as 
evoluções mais extraordinárias succediam-se ra- 
pidamente. 

Uma nova. tentativa de paz feita em Murvie- 
dro, malogrou-ss pelas exigências e má fé do 
castelhano, affastando-se d'elle definitivamente 
a Navarra e Portugal. 

Poz o rei aragonez todo o empenho em captar 
a concórdia com Portugal, enviando- nos succes- 
sivamente duas embaixadas, e propondo o casa- 
mento de sua filha D. Joanna com o filho herdeiro 
do nosso D. Pedro. 

No meio d'aquella intriga e politica tortnosa 
e desleal do tempo, o rei aragonez assassinara 
aleivosamente o infante D. Fernando, sou ir- 



234 



Historia de Portugal 



m&o, e marido da filha de D. Pedro de Por- 
togai. 

Sentindo- íe seriamente ameaçado peias forças 
triumphantes de Castella, pelas discórdias intes- 
tinas e pela guerra na Itália, procarava aplacar 
o rei portuguez, ao mesmo tempo que planeava 
livrar-se pelo assassínio de D. Henrique de Tras- 
tamara talvez para desarmar a cólera do rei cas- 
telhano. 

Mas a guerra tomou repentinamente um as- 
pecto muito diverso que mudou a posiç&ò rela- 
tiva dos adversários. D. Henrique de Trastamara, 
dispondo d*um formidável exercito de castelha- 
nos foragidos, de aventureiros francezes, in- 
glezes, aragonezes, entre os quaes militava o 
celebre Bertrand Duquesclin, invadiu Castella, 
e fazendo proclamar-se rei em Galahorra, conti- 
nuou triumphantemente até ao coração do reino. 

Acobardado, trabído, odiado, o rei castelhano 
recuou até Sevilha e d'ali enviou a própria filha, 
D. Beatriz, a desposada do nosso D. Fernando, 
e um embaixador, — Hartim Lopes de Torgilho, 
— a pedir o soccorro do rei portuguez e a instar 
pela realisaç&o do consorcio d'aquella. Trazia a 
infante todo o seu dote e enxoval, e não tardou 
em ser alcançada pelo próprio pae, que â noti- 
cia de que o Trastamara marchava sobre Sevilha, 
sahiu apressadamente d'aH para Portugal. 

Chegando a Coruche, o castelhano fez commu- 
oicar a D. Pedro que vinha a solicitar-lhe um 
soccorro immedíato e a ultimar os desposorios 
negociados enlre sua filha e o filho e successor 
da coroa portugueza. 

Era grave a situação. 

Tanto, senão mais do que a valentia impetuosa 
dos seus soldados e alliados, ajudara D. Henri- 
que a apossar-se rapidamente de Castella o ódio 
geral que o filho lidimo de Affonao xi sugerira 
com as suas oppressOes ê crueldades. 

ProBunciar-se por este, seria envolver o paiz 
n'affla perigosa pendência, attirar-se aos azares 
d'uma guerra que nenhum interesse aconselhava 
e de que não havia a esperar vantagens seguras. 
Pessoalmente o affecto do rei portuguez pelo de 
Castella não devia ser grande: — o abandono vil* 
Ião em que este ultimo lançara a irmã de D. Ignez 
de Castro, logo depois de a ter desposado, illu- 
dindo-a, não deveria ser um titulo de sympathia 
para D. Pedro de Portugal, de mais rancorosa I 



memoria do que o próprio irmão d'aquellas des- 
graçadas senhoras, D. Fernando de Castro, que 
apesar de cunhado do invasor, sustentava e sus- 
tentou por largo tempo a Galliza peio foragido 
rei. 

De resto, ao lado do Trastamara via-se a 
irmã da primeira mulher de D. Pedro de Por- 
tugal, e o próprio invasor que já encontrara aqui 
refugio contra as perseguições do monarcha cas- 
telhano, não era um inimigo nem um desconhe- 
cido sequer para os fidalgos portugueses, aliás 
profundamente oETendídos por D. Pedro de Cas- 
tella e pelos seus partidistas na breve campanha 
em que os acompanharam contra o Aragão. 

A cima, porem, das influencias pessoaes, esta- 
vam evidentemente os interesses do estado, e a 
politica portugueza que não pode com justiça 
accusar-se de desleal, n'este transe, pois que 
nenhuns compromissos tinha então com o rei de 
Castella, e até se poderia considerar desonerada 
em relação aos desposorios do príncipe D. Fer- 
nando com D. Brites, por isso que elles se não 
tinham realisado no praso determinado pelo tra- 
tado de 1358, houve-se incontestavelmente com 
grande prudência e habilidade. 

Reunido o conselho real opinou que não con- 
vinha auxiliar D. Pedro de Castella, por isso que 
seus povos o odiavam, o bastardo dominava já 
quasi todo o reino, e que por outro lado desde 
que esse auxilio se negava, seria indecoroso re- 
ceber o rei portuguez, o que lb'o vinha pedir. 

Foi isto o que o nosso D. Pedro mandou dizer, 
com palavras boas.e delicadas, por D. João Af- 
fonso Tello ao despojado rei, que retrocedendo 
sobre Albuquerque e não sendo recebido ali, )he 
mandou então solicitar um salvo conducto para 
atravessar Portugal em direcção á Galliza. 

Bnviou-lhe o rei D. Pedro, o conde de Barcel- 
los e Álvaro Pires de Castro que o acompanha- 
ram até Lamego, d'onde seguio a embcut:ar-se 
na Galliza para Bayonna. Não lhe deixou porem 
o rei portuguez que elle levasse a filha do Tras- 
tamara, D. Leonor, de quem se apoderara como 
que em reféns. 

Em face da usurpado triumphante no visinho 
reino, a politica portugueza parece ter^sé' man- 
tido n'uma reserva digna. 

Foi o novo rei D. Henrique de Trastamara, 
quem deu o primeiro passo para uma negociação 



Historia de Portugal 



)235 



de pai e amisade, escreTeodo a D. Pedro para 
lhe protestar os seus sentimentos e desejos cor- 
deães e solticitando-lbe, que enviasse â fronteira 
embaixadores^ que com os que eiie para ali ex* 
pedia, assentassem n'um tratado entre as duas 
coroas. 

De feito nos fins de 1366 encontra vam-se no 
Gaia os embaixadores portugueses D. João, bispo 
d'E?ora e D. Álvaro Gonçalves, prior do bospital, 
com os castelhanos D; João, bispo de Badajoz e 
Diogo Gomes de Toledo, rectificando o pacto de 
paz e alliança celebrado em Âgreda entre os reis 
D. Diniz e D. Fernando, e estabelecendo-se que 
D. Henrique promoveria que o rei d^ÂragãO se 
conciliasse com o de Portugal e deixasse em paz 
e liberdade plena a infante D. Maria, viuva do 
assassinado infante aragonez D. Fernando, com 
tudo o que lhe pertencesse. Pouco depois chega- 
vam dois embaixadores do rei do Aragão,— Fr. 
Guillen Gonil, prior de S. Domingos de Barce- 
lona e AÍTonso Castel-Novo,— para deGoitiva- 
mente assentarem pazes com o rei portuguez e 
soliicítar-lhe a filha, a infante D. Isabel, para 
esposa do irmão da rainha aragoneza, o rtíi da 
Sicilia D. Fradique. 

CAPITULO II 

Gòries d*£lYaB.— Politioa 

interna.— Reolamagôes dos Estados. — 

Justiça de D. Pedro. 

Seguindo rapidamente a enredada teia da po- 
litica externa, não falíamos ainda da governança 
interior do reino que é onde se desenha cara- 
cteristicamente o perfil histórico de D. Pedro. 

Em 1361 convocara eile as cortes para Elvas, 
c ali se reuniram em 23 de março. 

As queixas isoladas dos diversos Estados do 
reino, succedeu uma larga e rude exposição dos 
males que opprimiam c das necessidades que 
importunavam o povo, a cleresia e a nobresa. 
Como era natural, o primeiro tinha mais do que 
os outros de que se queixar, e fel-o pelos pro- 
curadores dos concelhos, com uma franquesa 
ousada e severa. 

Uma revisão dos direitos e privilégios muni- 
cipaes, invadidos, violados ou impunemente af- 
frontados pelos almoxarifes, pelos corregedores 



e por outras auctoridades regias e senhoriaes, 
tornara-se necessária; — o próprio poder real 
rompera em muitas cousas as velhas immunida* 
des dos concelhos; — caminhando naturalmente 
para a centralisação ensaiara em vários pontoe 
a substituição dos juizes e alvazis Ipcaes, por 
magistrados directamente nomeados pelo sobe* 
rano, alheios ãs localidades e grossamente pagos 
por ellas; — concediam-se prodigamente privilé- 
gios de isenção de certos serviços* públicos, a 
muitos individues, sobrecarregando assim os 
mais cidadãos; — os ricos-homens e cavalleiros 
da corte, quando esta viajava aboletavam-se em 
casas de viuvas ou de donas, cujos maridos se 
achavam ausentes, infamando-as, senão violen- 
tando-as; — os poderosos eximiam-se aos encar- 
gos municipaes, despresavam e desobedeciam 
aos magistrados populares e até aos régios; — os 
grandes proprietários, fidalgos ou ecclesiaslicos, 
deixavam as terras em baldio, e não reparavam 
as moradias que possuiam nas diversas povoa- 
ções; — as defesas relativas a caça grossa e 
brava, faziam com que os animaes ferozes as- 
solassem os campos e assaltassem os trabalha- 
dores e as povoações, a miúdo; — os corregedores 
das comarcas eram uns pequenos déspotas, vio- 
lentos e arbitrários, que apesar das decisões 
correctivas adoptadas por ASbnso iv, continua- 
vam a invadir a alçada dos juizes populares e 
a almotaçaria ou policia meramente municipal, 
etc, ele. 

D. Pedro com um grande espirito de justiça e 
de legalidade, talvez principalmente com uma 
grande habilidade em captar as sympatbias po- 
pulares e em reforçar a auctoridade real com 
este exercito anonymo e forte que se agitava no 
lusco fu3co da evolução histórica e social, e que 
começava a levantar as frontes ao passo que a 
oligarchia feudal as sentia vergar,— accudiu vi- 
gorosamente a todos estes clamores, sem reserva, 
n alguns casos, do sacrifício das prQprias tenta- 
tivas centralistas da realesa à tradição dos pri- 
vilégios e immunidades dos concelhos. 

Foi mantido a estes a publicação libérrima das 
suas ordenanças privativas com a única clausula 
de não serem contrarias ãs resoluções formula- 
das em cortes; a nomeação e a velha jurisdicção 
dos magistrados locaes; a acção tradiccional da 
suji almotaçaria, etc— foram prohibidos os bo« 



286 



Historia de Portugal 



letos fidalgOB em casa de vinva ou molher cujo 
marido andasse ausente; — assenton-se em que o 
rei obrigaria os senhores a promover o cultivo 
das suas terras; — foi permittído aos camponios 
matar a caça bravia, salvo casos especialmente 
determinados na lei; — finalmente o rei promet- 
teu o auxilio da sua auctoridade soberana, aos 
concelhos e á magistratura popular contra os 
poderosos que affrontassem e opprimissem uns 
ou a outra. ' 

A administração da justiça provocava queixas 
geraes: — a tortura era abusivamente applicada; 
as inquerições eram despótica e arbitrariamente 
feitas; a accusação contra os advogados que de- 
moravam e enredavam os processos motivara a 
probibição absoluta da advocacia sob pena de 
morte e confisco, e d'esta medida radical provi- 
nham grandes ínconvenienles, que tornavam in? 
dispensável a sua abolição; as dificuldades e 
delongas dos despachos reaes também suscita- 
vam enérgicas reclamações. 

D. Pedro como seu pae, tinha a paixáp domi- 
nante da caça^ e o expediente da sua chancellarfa 
era por isso e pela organisação que recentemente 
se lhe dera, complicado e moroso. 

Os filhos d* algo queixavam-se também da vio- 
lação dos seus privilégios, particularmente pela 
maneira por que os corregedores os prendiam, os 
faziam conduzir, algemados, e os submettiam á 
tortura. 

Os clérigos reclamavam que se lhes não guar- 
davam as immunidades conferidas, negociadas ou 
attribuidas à egreja: elles eram constrangidos, 
a guardar os portos e as villas; a servir em 
hostes o em galés; a pagar pelos bens patri- 
inoniues como tributários ou reguengos que não 
eram; que os prendiam sem mandado nem co- 
nhecimento das respectivas aucloridades eccle- 
siaslicas; — que eram forçados a dar pousada ao 
rei, aos infantes, ã côrle e aos senhores, que 
lhes tiravani roupas, pão, vinho e palhas; — 
que lhe não era guardado direito e justiça pela 
guisa que eram Iheudos; — que lhes tiravam as 
armas;— que o rei ordenara que não se publi- 
cassem «lettras do papa» sem seu mandada etc. 

Longa era a exposição dos aggravos clericaes 
e por vezes vivamente aggressiva das justiças e 
das pretenções regias. 

O estudo destas reclamações das cortes, é 



interessantíssimo pela âtuaçao aocial e politica 
que muitas vezes revela. 

D'ísto mesmo temos um exemplo frisaate, 
nas noticias que até nós chegaram das cdrtes 
de Elvas. 

Ás queixas do clero, denunciam a preponde- 
rância hostil que sobre as idéas e pretenções 
d*esta classe tomara o elemento civil, ou mais 
propriamente o elemento jurídico secular. 

As próprias respostas de D. Pedro a estas 
queixas, manifestam que o poder real não era 
inteiramente desagradável o proceder enérgico 
das suas auctoridades e dos seus agentes civis 
para com o estado ecclcsiastico, e que os tempos 
das transigências ou das abdicações d'esse poder 
perante as prosapias irrequietas e temporaes d'a- 
quelie estado, tinham definitivamente passado. 

Comparadas essas respostas, na forma e na 
essência, oom as proferidas no articulado do 
braço popular,— a hombridade e reserva d'omas 
com a fácil condescendência, o deferimento be- 
névolo das outras, reconhece-se que uma grande 
evolução ia adiantada na politica portugueza. 

Às observações populares relativas â morosi- 
dade de despacho, nos negócios submettidos ao 
rei, respondia este reorganisando o expediente 
do seu conselho e chancellaria; dispondo que o 
primeiro se retinisse na ausência do soberano 
superior a quatro dias» e deliberasse sobre as 
petições que lhe tivessem sido dirigidas, com- 
municando-lhe ou relatando o assumpto e o des- 
pacho qne deveria dar-se-lhe, etc. 

Ás outras queixas vimos já que D. Pedro 
deferira, mesmo contrariamente à largueza da 
própria auctoridade, concordando na justiça d*el- 
las; promettendo expressamente o seu auxilio 
em favor do terceiro estado, declinando a res- 
ponsabilidade nos abusos e invasões da magis- 
tratura regia, etc. 

Aos clericaes. protesta que a sua vontade foi 
e 6 guardar e fazer guardar os direitos e liber- 
dade da egrçja; mas responde que «é direito e 
aguisado que os clérigos de seus bens patrimo- 
niaes e as egrejas de suas herdades paguem com 
os leigos nos proes communs dos iogares. . . pois 
desses proes comunaes todos uzam e se apro- 
veitam comwialmente;* — que sempre foi cos- 
tume responderem os clérigos pela almotaçaría 
perante os almotaçeis;— que os prelados não 






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Olb. T;^ it laprtu l.ittiriríi. 

D. Pedro I e o biapo do Porto 



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•devem maoòar ipie derigoe tragam arma pois 
lhe é defeso por direito; — que lhes mostrem, 



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II 



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que tinha aos dois assassinos ou ás famílias a 

que pertenciam. 

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^.^.«i •w4^t)àf.«.u« «,u>fo<. put uui uuiiaiaii, uioa- | ijuu lugrou vef ueBposaao o Dido. Dos tilDos de 
trou-se profundamente commovido pela afleição | D. Ignez de Castro, que em 1358 se cootractara 



■*« . 



BCfartdfltfi dé Foiti^jal 



B87 



-deyrai maodsr t{iie clerigoe tragam arma pois 
Ibe é defeso por direito;— -qae lhes mostrem, 
a dle rei, as lettras papaes porque elle velará 
e mandará que se publiquem pela guisa que de- 
Tem; etc. 

Chegada ao termo da sua consolidaç&o ci- 
▼il a sociedade portogueza encootrou n^este rei 
a expressão opportuoa, rude decerto como ella, 
mas siocera e necessária de um direito mais 
lato e mais Orme do que o direito oligarchico da 
conquista e da tradição feudal. 

Força suprema, organisadora, nacional, jâ; — 
encarnação d'um poder abstracto, por assim di- 
zer; d*um poder moral, ou como diríamos boje, 
d'um poder constitucional, a realesa exercida 
por D. Pedro toma naturalmente um aspecto ju- 
rídico: — é uma magistratura, um sacerdócio, 
uma delegação sociaK a corporisação da lei. 

Na larga e 4|uasi sempre formosa lenda que 
envolve a memoria d'este homem, ha muitos 
episódios profundamente caracteristicos. 

Um dia, conta-se, uma mulher de baixa con- 
dicção, queixou-se-lbe de que um elevado eccle- 
siastico lhe assassinara o marido. O rei ouviu-a 
e incumbiu um popular de assassinar o clérigo. 
Preso o segundo assassino, o rei deixou cor- 
rer o processo, reservandose a decisão final. O 
popular foi condemnado à morte. 

Então D. Pedro, inquerindo da pena que sof* 
frera o clérigo pelo homicídio que praticara e 
sabendo que ella consistira na interdicção por 
um anno das funcções ecclesiasticas, applicou 
ao popular condemnado por ter morto o clérigo, 
esta penalidade' complacente: interdizendo-o tam- 
bém de exercer o seu ofBció por úm praso egual, 
e observando que se um tribunal ou um magis- 
trado da egrpja altribuira ao assassínio d*um 
popular commettido por um clerígo aquelle sim- 
ples castigo, era justo que um tríbunal ou um 
magistrado secular, imitando-o, não desse maior 
pena ao assassínio d'um clerígo por um popular. 
Justiça de tallião que é a lógica natural da 
justiça. 

Dois filhos (Talgo, moços e desabusados, sal- 
tearam e mataram um judeu. 
• D. Pedro exprobando-lhes a indignidade d'este 
acto, accusando-os de começarem por um judeu 
para terminarem talvez por um christâo, mos- 
trou-se profundamente commovido pela affeição 



que tinha aos dois assassinos ou ás famílias a 
que pertenciam. 

Julgaram todos que elle ia perdoar. Mas de 
súbito o justiceiro dominou o homem; o magis- 
trado supremo succedeu ao amigo, e os dois 
Dobres salteadores foram decapitados. 

Todos conhecem a lendária anedocta do bispo 
do Porto, que inspirou uma das mais formosas 
composições d'Álmeida Garrett. 

Os bispos do Porto foram por largo tempo dos 
mais poderosos e privilegiados senhores de Poiv 
tugal. 

Âos que contestam que o feudalismo chegasse 
a afíirmar-se caracteristicamente entrenós, pode 
objectar-se fácil e seguramente com os poderes, 
os privilégios e as acções de dois ou Ires se- 
nhores, ecciesiasticos, cujos vultos chegam nos 
primeiros tempos da monarchia a assumir um 
extraordinário relevo. . 

Um bispo do Porto, pois, vexava os*bons bur- 
guezes d'aquella cidade e roubara ou violentara 
a mulher de um d'elles. 

O rei, entrando ali, e chamando o poderoso 
prelado, despojou-o das insígnias e alçou contra 
elle o azorrague que segundo a tradição costu- 
mava trazer comsigo como brazão e instrumento 
da sua implacável justiça, sendo necessarío que 
acudisse o escrivão da puridade^ ou o primeiro 
ministro como se dissera hoje, para salvar o 
bispo do violento enxovalho. 

É certo, — e é curioso também que muitas dus 
anedoctas com que a lenda corrobora a fama da 
severa justiça de D. Pedro, andam citadas egual- 
mente em chronicas estrangeiras, e a estrangei- 
ros personagens attribuidas, mas não é menf«s 
certo que o caracter d'este notável monarcha, 
que a feição peculiar do seu governo se acha 
suíBcientemcnte definida não só na parte ane- 
doctica que nos transmilte uma tradicção cons- 
tante, mas no que. poderemos chamar as suas 
resoluções legislativas. 

Os successos de Castella alteraram completa- 
mente os projectos de ligações nupciaes nego- 
ciadas entre as famílias reaes de Portugal e 
d'aquelle Estado. 

Não somente o casamento de D. Peruando 
com D. Brites se não realisou, mas D. Pedro 
não logrou ver desposado o filho. Dos filhos de 
D. Ignez de Castro, que em 1358 se coutractara 



«88 



Bialoria: ãA Fortngal 



que caflassem com as filhas do ent&o rei de Cas- 
tella, um, o infante D. João, veio a ligar-se 
clandestiDamente com D. Maria Telles de Meoe- 
ze8;---oatro, o infante D. Diniz, desposou uma 
filha do rei castelhano D. Henrique ii. 

Apesar da sua absorvente e dorida paixão por 
D. Igoez, o rei D. Pedro, parece ter casado ter- 
ceira vez com uma infante castelhana, D. Branca, 
mas este consorcio se realisado, deve ter sido 
estéril. Já não aconteceu assim aos novos amo- 
res do rei portuguez com uma dama da qual a 



tradigão memorando « aiogiilar bellesa, esque- 
ceu o nome, da qual houve um bastardo que te- 
ria de ser successor do filho e herdeiro lídimo. 

Curto foL o reinado de D. Pedro. 

Em janeiro de 1367, fallecia elle em Extre- 
moz, deixando ao filho, então de 21 annoa de 
idade, uma situação notavelmente prospera e 
fácil: o paiz tranquíUo e relativamente seguro 
interna e externamente;— o thesouro ahastecido; 
—o commercio realentado; — e o throno estimado 
e respeitável. 





!>• Fernando I 



CAPITULO I 

Oaraoter do hoto rei.— Reooaqtilsta de Oas- 
téúSL por B. Pedro.— D. remando faz oom 
eUe vm traotado.-— Kova inTasfto do Tras- 
taaara.— Morte de D. Pedro. -*€hierra 
entre Portogal e Oastella. 

Hoçoi generoso, galaoteador, doUdo d'ama 
hMà figura e d'ttm génio affectuoeo e insi- 
naanle» D. Fernando conquistou facilmente uma 
eerta popularidade auapicioia quenfto Boube con- 
servar nem merecer. 

Como o pae e o aró, o praier da caça domi- 
nava-o e absorvia-o, mas nSu) herdara d'elles a 
energia de caracter e a rara habilidade politica 
que tanto os distinguira. Inconstantemente, bran^ 
do, acessível ás influencias absorventes do sen- 
timento e dos praseres facers, D. Fernando 
pareceu comtudo, no inicio do seu governo, do- 
minado por um propósito ulil e generoso: — qual 
o de promover o desbravamento agrícola e o 
augmento da navegaç&o nacional. 

Porventura se manifestava n'isto, principal- 
mente, um certo espirito ambicioso de aventura 
e de ruidosa pstêntaçfto que n&o é raro d'encon- 
irar em parelha com singulares imprevidencias 
e faeeis desalentos, n^estes caracteres imagino- 
sos e veláveis. D. íemaodo sonhava porventura 
com um grande poderio naval, como apesar de 
amigo de D. Heorkine de Castella, se propoz a 
<íiepular4he a ceréa, quando elle ee desfez defi- 
nitèiraiiiente do sen rival o desgragado D* íédro. 



Logo que D. Fernando succeden eo pae, lhe 
enviou o rei do Ârag&o um AAonso de Castro 
Novo e um fr. Guilherme, por embaixadores a 
negociar um tractado de pas e amisade. Pe8*se 
este em AlcanhOes, onde estava D. Fernando e 
onde não tardaram em aparecer também embai- 
xadores enviados por D. Henrique de Castella, 
com o mesmo intuito. 

N'aquella pequena povoação se ratificou o tra- 
ctado de 1366 entre Portugal e o novo governo 
de Castella. Mas n&o era certamente muito eiit- 
cera esta ractiflcaçfto por parte de D. Fernando. 

O expatriado D. Pedro de Castella negociara 
em Libourne um tractado (1366) com o celebre 
Prindpe Negro, Eduardo príncipe de GãUes, 
filho de Eduardo iii de Inglaterra, para recon- 
quista do seu antigo reino. 

No começo de 1367 começa a invasão a sua 
marcha triumphante e sangrenta. 

Em 15 d'abríl d'esse anno o Trastamara era 
completamente derrotado na fumosa batalha de 
Âleson, entre Navarrete e Âzofra, e D. Pedro 
começando a considerar-se restaurado na sobe- 
rania de Castella, expedia de Sevilha um embai- 
xador,-H> seu chanceller Matheus Fernandes, — 
ao rei de Portugal para estabelecer um tractadb 
pelo qual se assegurasse da sua neutratidade 
affectuosa, ou mesmo do seu auxilio, que tfo 
necessário lhe poderia ser d'um para o outro 
momento, quer contra o pertinas bastardof quer 
contra os próprios alKados ingleses. 

Tinham sido, como era natural, ooeposiseiBH» 
em qye D. Pedro obtivera4»:auailio 



240 



Historia de Portugal 



doestes, e com a sna insigne má fé, jâ o rei 
castelhano começara a faltar ao pacto, pelo que 
profundas divergências cresciam dia a dia entre 
06 conquistados de Castella. 

Recebeu D. Fernando em Coimbra o «embai- 
xador de Castella, e fez-se entre os dois reis um 
tractado de paz e alliança que elles successiva- 
mente raclificaram. 

Até certo ponto é diísculpafel, (loKAcanKBté 
considerado, este proceder do rei portuguez. 

O Trastamara fora forçado a internar-se pri- 
meiro no Aragão e depois em França, e a poli- 
tica portugueza mal avisada talvez, ou ignorava 
08 auxilios que eile recebera n'aqueile reino e 
08 esforços que fazia para poder de novo con- 
quistar a coroa, ou n&o acreditava na efficacia 
d'e88e8 eslorçoB. 

O que é certo é que pouco depois do tractado 
de Coimbra entre D. Fernando e D. Pedro, o 
Trastamara rompia com um pequeno troço de 
gente atrevida» pelo Aragfto, poderosamenie au- 
xiliado também por díatínctoscatidilhose nobres 
franoexes e aragoneses» e em setembro d'e8te 
anno ainda de 1367, era pela segunda vez ac- 
clamado rei de Castella em Calaborra. 

Como a primeira, esta invasfto iagrossavae 
camiabava rapidamente. 

D. Pedro entregava-ae no sul ao seu costumado 
aystema de cruesas e vinganças. Abandonado 
pelos ioglezes, qoe vilmente trabira, estreitara 
as suas relações com os mouros de Granada, que 
Ibe faziam pagar duramente a sua duvidosa al- 
liança. 

Resolveu-se finalmente a marcbar contra o bas- 
tardo, e n^esta campanba suocedeu o extraordi- 
nário episodio que devia pôr termo á lucta dos 
dois irmãos por um fratricídio. 

Uma aleivosia de Duguesclin pol-os face a face. 

Luelaram 08 doie n^um duello feroz e D. Hen- 
rique degolou o irmão (1369). 

Recebeu D. Fernando de Portugal a noticia do 
trágico acontecimento em 5 de abril e mais tal- 
vei do que os embaraços da situação, o deslum- 
bramento de uma ambição irreOectida, alimen- 
tada provavelmente por interesseiros cortesõeae 
peioa immigos do bastardo castelhano, leva- 
ram-n'o a di8p6^8e desde lego para disputar 
àqaiMe a ooròa de Castella. 

Ao paaso que ii'al8tiaia8 {tovoaçõea caateUMh 



nas 08 contrários de D. Henrique, aoclamavam o 
rei portuguez por ligítimo rei de Castella como 
bisneto de D. Sancho, fazia elle celebrar uma 
liça oopi o emir de Granada por 50 annos, para 
guerrearem junctos o Trastamara e os seus par- 
tidistas e alliados, dividindo entre si o reino 
castelhano:— pacto afrontoso ainda á luz da po- 
litica desabusada do tempo, pacto imbecil, que 
rompia violentamente a tradicção de previdência 
e de habilidade da politica externa portugueza. 

Não seguro com esta absurda negociação, D. 
Fernando procurou avigorar a alliança com o 
Aragão, e enviou ali Badassal d^Espinola, Af- 
fonso Fernandes de Burgos e Hartim Garcia, 
para solicitar a mão da infante D. Leonor. 

Ao mesmo tempo fazia sabir de Lisboa para 
Sevilha uma gmade çsquadra de 30 naus e 28 
gallés portuguezas e 4 gallés gênovezas fretadas, 
e entrava elle próprio nos Estados de Castella, 
dirigindo-se triumphantemente sobre a Corunha, 
que o recebeu sem resistência. Alem da Corunha, 
tinhaoi^se já pronunciado pelo rei português Za- 
mora, Ciudad-Rodrigo, Alcântara, Valeoda de 
Alcântara, Toy, etc. 

A Galliza, — apresionada por D. Henrique, — o 
seu valente governador, D. Fernando de Castro, 
indinava-se manifestamente para a soberania 
portuguesa, e porventura se outro fosse o filho de 
D. Pedro i, ter-se-hia reaiisado* então uma an- 
nexação que ainda hoje seria rasoavel e provei- 
tosa. 

Marchou então o Trastamara sobre Zamora 
e logo seguidamente sobre a Corunha, mas ou 
porque D. Fernando se não reputasse seguro en- 
tre 08 seus vassallos da véspera e longe dos seus 
Estados, ou porque pensasse em vir n^estes or- 
ganisar n'outras eondiçOes a guerra com Castella, 
é certo que mettendo^se n^uma galié, veio por 
mar, desembarcar no Porto. 

Dirigiu-se então D. Henrique para a fronteira 
portugueza e entrando por eila, veio assolando 
o território d'Entre Dooro e Uínho, oercar Braga. 

Do Porto, D. Fernando descera rapidamente 
até Évora, d 'onde expediu ao invasor umseofi*^ 
dalgo e um mercador bretão de Lisboa, — Bei- 
tran, — a negociar a paz. 

Esta tentativa singuhr em quem tão apparen- 
temente seguro de si se lançara n*ttnia campa» 
nba d*aqueUa naturesa^ embora não refifeaen^* 



Historia de Portugal 



241 



tasae mais do que utn expediente dilatório, prova 
oomo a politica portagueza de D. Feroacdo,-- 
leviana e aventureira, — estava longe da firme 
politica de D. Affonso iv. 

Braga defendeu-se bisarramente, e poucos dias 
depois de a ter cercado o fei de Castella, isto é, 
entre 13 e 18 de agosto de 1369, convencionava 
com o sitiante que se lhe renderia se o próprio 
rei português, dentro de 15 dias, lhe nHo acu- 
disse. 

Em 17, porem, chegava o mercador brelllio ao 
campo de D. Henrique, tendo deixado no Porto 
o companheiro, e começavam as negociações da 
paz. 

Breve, porem, se romperam ellas» e a cidade 
teve de entregar-se. 

locendiando-a, D. Henrique marchou sobre 
Guimarães, que lhe resistiu. 

Com a promessa de persuadir esta povoação a 
entregar-se, logrou D. Fernando de Castro,^ 
que acompanhava o Trastamara como prisionei- 
ro, — ser enviado ali, do que se aproveitou para 
se unir com os portugueses contra o bastardo. 

Ao mesmo tsmpo teve este noticia de que D. 
Fernando marchava contra elle e, apressando-se 
a levantar o cerco, retirou sobre Traz-os-Montes, 
iodo tomar Bragança e retirando-se depois para 
Castella. 

Por seu lado o mouro de Granada apoderara-se 
de Aigeciras e fizera demolir-lhe as fortificações. 

No inverno Seguinte tentou ainda o Trasta- 
mara sujeitar algumas povoações do norte, entre 
afi quaes Giudad Rodrigo, que sustentavam os 
direitos ou as pretenções do rei português, mas 
á parte os obstáculos que a invernia lhe oppoz, 
mais do que a energia e a táctica do seu ri vai, 
o importunava o pagamento difflcil dos aventu- 
reiros extr^mgeiros, que lhe tinham auxiliado a 
reconquista castelhana. 

Comtado, é certo que D. Fernando não desis- 
tira de lhe disputar a ooròa castelhana. 

Nos fins de 1369, D. Pedro i?, o (kremoniosô^ 
deàragáo, enviara a Portugal dois embaixadores, 
D. João de Vilaragut e Bernardo de Miragle^a 
negociar o caaamento de- sua filha, a infanta 
D. Leonov, oom o rei português, mediante uma 
aUiaaça ooatra CaateHa. 

Pelo traciado celebrado em Usboa paduou^ae, 
alem do indicado eBlace, que a Aragão finefiae 

U TOL.— 31. 



por dois annos a guerra do Trastamara e que 
emprestasse a Portugal 1:500 lanças, que fica- 
riam a soldo doeste por seis meses. 

Mas a parte mais importante da combinação 
foi a espécie de divisão antecipada, qnenVIlese 

estabelecia, do reino castelhano. 

■ 

O Aragão reconhecia a D. Fernando o titulo 
de rei lidimo de Castella e dos outros reinos 
d'esta dependente, exceptuando a Murcia e Mo- 
lina, com vários outros logares. 

Em seguida a Navarra entrou no pacto, e D. 
Fernando enviava um embaixador, o conde D. 
João AfiFonso Tello, ao Aragão, para apressar os 
resultados do tractado anterior. 

Ao mesmo tempo o rei português nomeava 
outros embaixadores, — Balthasar Bspinola, Af- 
fonso Fernandes e Martim Garcia, para nego- 
ciarem novas allíaoças. 

A cidade de Carmona fora uma das que se 
pronunciaram por D. Fernando. 

Cercou-a a própria rainha castelhana, D. 
Joanna, e obrigou -a a uma convenção pela qual, 
se não fosse soccorrida n*um breve praso, capitu- 
laria. 

Apesar, porem, doesse soccorro não appareccr, 
Carmona continuou a resistir e a rainha teve de 
levantar^lhe o cerco, como o Trastamara se vira . 
forçado a abandonar o de Giudad Rodrigo. Não 
tardou porem que este viesse eip pessoa acom- 
metter Carmona, que, tendo recorrido debalde ao 
rei português para que lhe acudisse como pro- 
mettera, teve afinal de entregar-se. 

Quando a situação parecia assim auspiciosa 
para D. Fernando, a tnediação do legado pon- 
tificio trouxe repentinamente uma solução paci- 
ficadora, entre Castella e Portugal. 

Em 31 de março de 1371 encontravam-se em 
Alcoutim o conde de Barcellos como plenipoten- 
ciário de D. Fernando, e D. Affonso Peres de 
Gusmão, por parte do Trastamara, e celebravam 
um tractado de pas e aorisade em que o rei de 
Prançit apparece também eomo parte contra- 
ctaute, por uma d'aqiiellas singularidades que 
são vulgares na diplomacia do tempo, e que se 
explica pelas estreitas relbçécs ique ligaivam o 
Trastamara ao soberano francês. 

Por este pacto, D. Fernando casaria oom a fi- 
lha do rei castelhano, a infanta D. Leonor, que lhe 
traria em dote Ctudad Rodrigo, Vhleaçad^Alcan' 



242 



Historia de Portugal 



tara, e outros pontos que sustentavam a candi- 
datura portugueza e que ficariam pertencendo à 
coroa de Portugal, cedendo esta de todos os mais 
que se apoderara ou que se Ibe haviam entregue. 

O rei de Castella perdoaria a todos os seus 
súbditos que haviam seguido o partido portu- 
guês com uma. excepção odiosa que, segundo o 
dizer dos cbronistas, o rei de Portugal dili- 
genciou, mas debalde, riscar da extraordinária 
conveuQ&o. Era a de que a amnistia nâo abran- 
geria a gente de Carmona, que, depois de terem 
pelejado valentemente por D. Peruando, que os 
não soccorrera, e de trahidos pelo Trastamara 
na capitulação que tinham sido forçados a ne- 
gociar, assim ficavam ainda cobardemente en- 
tregues á vindicta do ultimo. 

Em relação ao rei de França estabeleda-se 
apenas que entre elle e o de Portugal existiria 
a mesma paz e amisade que entre o primeiro e 
o de Castella havia, o que dentro d'nm determi- 
nado praso viriam a Portugal confirmar embai- 
xadores francezes. 

Mais'uma vez, e não seria a ultima, se a£Br- 
mava a fraqueza e a incapacidade da politica de 
D. Fernando e dos seus diplomatas, em relação 
aos reinados anteriores* 

Como era natural, o seu alliado da véspera, o 
rei d'Âragão, surprehendido por este mallogro das 
convenções feitas e da alliança jurada, encheu-se 
de cólera contra o rei português, apoderando-se 
de tudo quaato elle possuia em Barcelona, etc. 

Por outro lado, uma nova e porventura mais 
violenta e absorvente paixão substituirá, no ani- 
mo fraco e volúvel de D. Fernando, a da sua 
ousada candidatura ao tlirono castelhano, e pre- 
parava maiores desgraças a Portugal. 

O filho de D. Pedro ensandecera d^amores por 
uma mulher da tempera da Gusmão, ambiciosa, 
íntrigaote e formosíssima, fidalga provinciana-, 
casada com um dos senhores mais notáveis da 
corte portugueza: — D. Leonor Telles, filha de 
D. Hartiffl ÁflfaDBa Telles e esposa de D. João 
Lourenço da Cunha, d'Bfitre Douro e Minho. 

Viera eUa á corte onde tinha uma irmã, D. Ma- 
ria, que os eoptiHBca fusei», e porventura também 
a vulgar ambição du lamas cortesans da época, 
tornaram mediadora u^estes amores. 

Prometten D. Fernando faier anuullar o casa- 
ioenlD de D. Leonor Tdlea esubstitutr esta no 



logar que pelo tractado com Castella deveria 
dentro de poucos mezes pertencer ã infanta D. 
Leonor. 

Consentiu facilmente o marido em abandonar 
ao rei D. Leonor Telles, e retirou-se para Cas- 
tella. 

Mas não se deu a amante de D. Fernando por 
satisfeita com isto, e poz todo o empenho, menos 
certamente em legitimar canonicamente a adul- 
tera mancebia, do que em fazer-se proclamar e 
reconhecer rainha de Portugal. 

Inteiramente obcecado, D. Fernando cedeu a 
esta ambição de Leonor Telles, e quasi ao mesmo 
tempo que era em Toro jurado, a solicitação d'el- 
le, o tractado de Alcoutim (10 de agostode 1371), 
pela corte castelhana, rasgava esse tractado, re- 
geitando por esposa a infanta D. Leonor para ca- 
sar com a amante adultera. 

O escândalo doestes amores, e a presumpçâo 
d'aquelle acontecimento monstruoso, encontra- 
ram na classe popular, principalmente, uma re- 
sistência e uma condem nação ruidosa e tenaz. 

Em Lisboa as manifestações burgnezas chega- 
ram inesmo a tomar proporções graves. 

Um caudilho popular, o alfaiate Fernam Vasco, 
chegara a dirigir ao rei admoestações severas e 
rudes, com aquelia nobre franqueza que é uma 
das glorias da velha democracia portugueza. 

Acobardado, D. Fernando protestou que não 
casava nem pensava em casar com Leonor Telles, 
mas, illudindo assim momentaneamente o povo 
de Lisboa, apressou-se em sahir com ella, se- 
cretamente, da cidade, dirigindo^se para San- 
tarém. 

A tempestade rompeu então violenta; mas a 
fúria popular, falha de disciplina e de direcção 
sufflcientemente enérgica e inteUigente, per- 
deu-se em imprecaçGes e queixumes. 

D. Leonor Telles decerto preparara habilmente 
o seu plano; previra as difficoldades; contara com 
as resistências, e sobretudo, senhora do caracter 
do rei, soube defender-se e dominar a tormenta. 

De Santarém foram expedidas ordens violen- 
tas centra os amotinadod de Lisboa; o atrevido 
alfaiate foi morto; e os amantes' oonSnuaradi 
a sua jornada pela província, até ao mosteiro de 
Leça onde, reunida a cMe, D. Fernando ao- 
nnnciou publicamente o seu consórcio com a 
adultera, exigindo que a recottheéedsem e Ibe 



Historia de Portugal 



343 



beijassem a m&o, como raioba de Portugal que 
era, e faieiulo-lhe exlraordiaariaa doações. 

Só um homem teye ainda a hombridade de 
se recusar a prestar homenagem ao escândalo 
iríumpbante. 

Foi o infante D. Diniz, fllbo de D. Ignez de 
Castro, irm&o do rei, por conseguinte. 

Mas esta mesma hombridade se maculara pri- 
meiro, tomando para amigo e conselheiro Diogo 
Lopes Pacheco, um dos assassinos da própria 
mfte de D. Diniz e porventura n&o seria in- 
teiramente isenta d'um calculo interesseiro e 
egoista. 

«Receberam, por senhora,— diz uma chroni- 
ca,— todalas villas e cidades de seu senhorio, 
afora o Iffamte D. Denis, posto que meor fosse 
que o Iffante D. Joham, que nuoca Ih^ quiz bei* 
jar, por a qual razom ElRei D. Fernando lhe 
quizera dar com huuma daga, se nom fora Gil 
Vasquez de Resende seu ayo e Aires Gomes da 
Silva ayo delrei D. Fernando.» 

Uma circumstancia mais grave, porem, era a 
da ofiensa feita ao rei de Castella, cuja filha 
D. Fernando promettera desposar, tanto mais 
que este casamento fora condiçfto essencial na 
paz feita com Castella e no reconhecimento da 
soberania portuguesa a certas povoações. 

Enviou D. Fernando a Castella, ainda no anuo 
de 1371, uma embaixada para amigavelmente o 
informar da dificuldade que sobreviera ao ca* 
samento com a infaula D. Leonor e lhe pedir a 
modificaçlU) do tractado de Alcoutim. 

A primeira resposta do rei castelhano parece 
ter sido rudemente negativa. 

O Trastamara exigia o cumprimento integral 
do tractado. 

Insistiu o rei portuguez enviando em abril 
de 1372 nova embaixada e pôde conseguir en* 
tâo a reforma pedida d'aqueiie tratado á custa 
da renuncia e cedência a Castella de Ciudad 
Rodrigo, Valenga d'Alcantara, Honte Rei, Alha- 
vaz, que lhe deviam ficar pertencendo se tivesse 
casado com a infanta ^castelhana, e vários cas- 
tellos mais, como Araújo, Alva de Listra e Ca- 
breira. 

O rei de Castela por sua parte restituía algu- 
mas povoações da fronteira do norte, de que se 
apoderara. 

Trocaram-9e refeus, e o novo tractado foi ra* 



ctificado e jurado pelos dois soberanos e res- 
pectivas cortes. 

Assim parecia terminar vergonhosamente a 
candidatura e os projectos de engrandecimento 
de D. Fernando e assim pagava a coroa porlu- 
gueza oâ amores doeste rei. 

Mal jurara porem o novo tractado e já a poli- 
tica aventurosa e desleal de D. Fernando se pre- 
parava para fazer a guerra a D. Henrique de 
Castella. Apparcce um novo rival d'este, dispu- 
tando-lhe a coroa. 

Era o duque de Lencastre, filho de Eduardo ui 
de Inglaterra, e casado com uma das filhas do 
rei castelhano D. Pedro e da amante doeste D. Ma- 
ria Padilla. 

D. Henrique nfto podia dizer*^e inteiramente 
desafrontado de resistências sérias â sua legitimi- 
dade; ainda n^aquelle mesmo anno tivera de em- 
prehender uma vigorosa campanha na Galliza. 

Mandou D. Fernando um Vasco Domingues, 
chantre de Braga, ao duque de Lencastre, que 
immeil latamente mandou a Portugal João Fer- 
nandes Andeiro e Roger Hoor, a firmarem um 
tractado de alliança offensiva contra Castella e 
o Aragão, que se celebrou de feito em Braga. 

Apressando o rompimento, D. Fernando fez 
aprisionar em Lisboa vários navios biscainhos, 
gnipuzco^nos e asturianos. 
. Estava D. Henrique em Zamora e d'alli expe- 
diu a Portugal o' velho assassino de Ignez de 
Castro que novamente se expatriara para os seus 
estados, exigindo a D. Fernando a restituição dos 
navios aos mercadores a quem pertenciam e a 
declaração formal de guerra ou de paz. 

Apesar da resposta c informações desfavorá- 
veis que recebeu, ainda enviou D. Henrique ao 
rei portuguez uma nova embaixada, que reco- 
nheceu us intentos hostis doeste. 

O rei de Castella não hesitou mais:— inva- 
dindo Portugal, apesar das tentativas de me- 
diação do cardeal Cuido de Bolonha, legado 
ponlificio, — veio rapidamenle sobre Almeida, 
Pinhel, Celorico, Vizeu e Coimbra chegando aos 
arredores de Lisboa em março de 1373, d«poÍ8 
de ler provocado inutilmente, em Santarém, o 
rei portuguez a sahir a campo. 

O consorcio com D. Leonor Telles— suscitando 
a indignação e o desgosto dos portuguezes, afrou* 
xará em todas as classes as dedicações pelo rei. 



244 



Historia de Fortagal 



CAPITULO 1 1 * 

o céroo de Lisboa. — Defeza heroioa dos por- 
tngaezes. — Alguns episódios. — A paz. — 
Critíoa da administração de D. Fernando. 

Causou profunda índígDação em todo o reino, 
e até mesmo na corte, onde o servilismo pala- 
ciano costuma obcecar a boa rasão, que D. Fer^ 
nando deixasse proseguir impunemente o rei de 
Castelia na sua marcha invasora sobre Lisboa, 
sem Ibe ter tomado o passo em Santarém. 

Lisboa ficou n'um estado de angustia indi- 
sivel quando soube que o exercito castelhano 
se aproximava. A maior parte da população da 
cidade estava abairrada fora da cerca velha, que 
ia desde a Porta do Perro, que devemos colloear 
entre a egreja da Sé e a de Santo António, até 
á Porta de Alfama (na rua da Adiça), e desde o 
Chafariz do Rei (Beco das Moscas) até â Porta de 
Hartim Moniz, a terceira da muralha do castello, 
que faz hoje face á egreja da Graça. «E toda a 
outra cidade, diz Fernam Lopes, era devassa, 
na qual moravam muitas gentes abundadas de 
grandes riquezas e bens.» Assim, pois, estavam 
desamparadas de qualquer resguardo todas as 

* Tendo-se retirado para o Rio de Ja- 
neiro o sr. Luciano Cordeiro, que estava 
encarregado de concluir este volume da 
HisUyi^ia de Porhigal, e nSto podendo nem 
devendo a empreza retardar a publicação 
doesta obra, convidou o sr. Alberto Pimentel 
para continuar o trabalho do sr. Luciano 
Cordeiro. O sr. Alberto Pimentel allegou, 
para escusar-se, rasões de melindre, mas 
tendo-lhe a empreza mostrado uma carta 
do sr. Luciano Cordeiro, em que este se- 
nhor approvava a escolha do sr. Alberto 
Pimentel para completar o volume, o sr. Al- 
berto Pimentel cedeu finalmente ás instan- 
cias da empreza, o que mui reconhecidos- lhe 
agradecemos. 

A collaboraç2lo do sr. Alberto Pimentel 
principia justamente no ponto de chamada 
a esta nota. 

A Empreza. 



casas da Roa Nova (hoje dos Capeilistas), centro 
commerciai já entio muito importante, e do qual 
partiam duas grandes artérias, uma que seguia 
a muralha e ia desembocar fora das Portas 
do Mar (cães de Santarém, a ultima) do bairro 
chamado Villa-Nova de Gibraltar, e outra que 
subia para a Alcáçova (Castello) e que ooosti- 
tuia um verdadeiro dédalo de mas escoras e 
encruzadas. Na mesma sitnaçfto de desamparo se 
eocontrava toda a populaç&o do bairro de Vilia* 
Quente, na encosta do monte do castello, do ar- 
rabalde da Pedreira ou bairro do Almirante, qoe 
descia desde a actual rua Larga de S. Roque até 
ao Rocio, e da Mouraria, ou bairro dos moiros, 
que ainda hoje conserva a antigo nome. 

Para os lados do Passeio Publico (Valverde), 
para os lados de Alcântara e Belém, e pelas en- 
costas do monte da Graça (Almafálla) alvejavam 
casaes e verdejavam pomares e hortas, que de- 
viam ser irremedeavelmente destruídos e talados 
pelas hostes de Castelia. 

Não podendo, pois, abrígarse dentro do ter- 
reno amuralhado tão numerosa população, foi 
grande a incerteza sobre o que se havia de fazer. 
Eram uns de parecer que se juntassem todos e 
fossem tomar o passo a D. Henrique á ponte de 
Lonres, expondo-se assim a uma rápida morte, 
que lhes pouparia longas angustias; outros que- 
riam que se entrincheirassem as ruas que iam 
dar ao Rocio, concentrando ahi a prindpai de- 
fesa da cidade, munindo-se de armas todos os 
frades e clérigos. Prevaleceu esta ultima opi- 
nião, e começou logo a azáfama de improvisar 
TortiBcações. 

Entretanto D. Henrique, acompanhado pelo in- 
fante D. Diniz, entrava pelos lados de Valverde, 
e ia poisar ao mosteiro de S. Francisco, que se 
ergaia no monte do mesmo nome, e que era por- 
tanto um exceilente ponto de observação. 

Os da cidade, amedrontados com as nume- 
rosas forças castelhanas que viram, largaram as 
barricadas e correram de tropel, com os haveres 
que poderam levar, a prociirar o refugio das 
muralhas. 

A confusão era enorme, cahotica. 

Entretanto, D. Fernando, em Santarém, con- 
tentava-se com mandar a Lisboa o conde D, Ál- 
varo Peres de Castro, que era alcaide da cidade, 
o almirante Lançarote Pessanha, Vasco Martins 



BiBtúxiA de Portagal 



845 



de Mello, Jo&o Poçim, e alguns outros cavalleiros 
para opp6rem resistência & iavas&o dos castelha- 
nos. Elle deixava-se ficar em^autarem , dos bra- 
dos de D. Leonor Telles, que de Coimbra partira 
a reonir-se-ihe; confiava a um pequeno punhado 
de homens a defesa da mais bella cidade do seu 
reino, por se vingar, aconselhado pela rainha, 
dos aggravos que dos lisbonenses recebera por 
occasido do seu casamento, como quer Her- 
culano, ou por cobardia peculiar ao seu génio, 
como se deprehende de Fernam Lopes. 

Quando estes cavalleiros chegaram a Lisboa, 
accordaram armar quatro galés e algumas naus 
que estavam no Tejo, para irem com ellas ao 
encontro da esquadra castelhana que era com- 
mandada por Ambrósio Docanegra e já linha 
largado de Sevilha. 

Com effeito, equiparam-se as galés portugue- 
zas, e iam a sair barra fora quando avistaram as 
de Gastella. João Focim foi de opinião que se 
desse logo combate, mas o almirante Lançarote 
mostrou-se notavc^lmente cobarde por essa oo 
casião, e quiz adiar o combate para quando as 
galés castelhanas chegassem em frente da cida- 
de, para todos verem, dizia elle, o prazer do 
vencimento. Uma grande parte da cidade estava 
aberta, como sabemos; pois não bastava isso, 
franqueava-se ao inimigo a entrada do porto ! 
Os castelhanos subiram as aguas do Tejo sem 
que ninguém os incommodasse, aproaram as 
suas galés ás Tercenas navaes, e serenamente 
embarcaram n^ellas grandes massas de soldados. 
B Lançarote, n"esta conjunctura, desembarcava 
e vinha consultar a camará de Lisboa sobre o 
que devia fazer! Bmquanto islo acontecia, as 
galés de Bocanegra, bem armadas, remavam 
para as nossas, que sem almirante nem capitão 
fogiam para o Ribatejo, mas os castelhanos afer- 
raram-n'as, tomaram algumas e ficaram, final- 
mente, senhores das aguas do porto! 

Foi dura e justamente censurado o almirante 
Lançarote por tamanha cobardia ; D. Fernando 
demittiu-o e nomeou para o substituir. . . quem ? 
Um irmão de D. Leonor, João AfiFonso Telío. 

Começou então a boquejar-se dentro da ceroa 
de muralhas que algufis portnguezes estavam 
conluiados com Diogo Lopes Pacheco para trai- 
çoeiramente darem entrada aos castelhanos. 
Aquelles sobre quem recaiam principalmente as 



suspeitas eram Lourenço Martins da Praça, que 
fora aio do mestre d'Aviz, Martim Taveira, Af- 
fonso CoUaço e Affonso Peres, em poder dos quaes 
estavam as chaves de certas portas ^ da cerca. 

O povo tirou-lhes logo as chaves, preodeu-os, 
pol-os a tormento, sem que lhes pudesse arran- 
car confissão alguma. Então disse alguém que 
um familiar de Lourenço Martins devia ser arras- 
tado. Esta opinião percorreu a multidão como 
se fosse uma centelha eléctrica. Dito e feito. 
Arrastaram*n'o pelas ruas da cidade até o dei- 
xarem despedaçado. Outro portuguez, de quem 
Fernam Lopes nos não diz o nome, foi amarrado 
a um engenho de guerra que tinha sido collo< 
cado na porta do Ferro. O engenho, posto em 
movimento, arremessouo ao telhado da &é, indo 
o corpo bater na pedra entre as duas torres; não 
obstante, quando cahiu sobre as lages da rua 
ainda estava vivo. De novo o amarraram ao en- 
genho, que o cuspiu ao Tejo. Então o povo ficou 
satisfeito. 

Sente-se em tudo isto a grande, a profunda 
dissolução que lavrava nas primeiras classes da 
sociedade portugueza n'este reinado^ dissolução 
devida ao exemplo que vinha do alto do throno. 
A nobresa, pois que visinhava do rei, perver- 
teu-se facilmente por contagio. O povo, que es- 
tava mais longe, conservou semprQ um nobre 
sentimento de moralidade, uma honrosa aspira- 
ção de justiça no meio d'e8sa perversão aristo- 
crática. É a voz do povo que se ergue para 
condemnar o casamento do rei com. D. Leonor 
Telles, é o braço enérgico do povo que defende 
Lisboa á custa das mais duras provações, e em- 
quanto o seu rei o abandona á invasão caste- 
lhana, reclinandò-se no leito adulterino dos paços 
de Santarém, o povo defende a sua pátria, ama-a 
por 8i e pelo rei, e n'um excesso de amor pátrio 
chega mesmo a praticar atrocidades para com 
aquelles que reputa traidores. 

O rei, em Santarém, adormece tranquillo na 
alcova do9 seus prazeres criminosos, o povo, em 
Lisboa, vela a cidade de noite e de dia, diUo Fer- 

^ As portas eram doze, a saber: De S. Jorge, d'Al- 
fofa, do FeiTO, porta do Mar antiga, porta do Mar 
a S. João, postigo do conde de Linhares (designação 
posterior), porta do Chafariz do Rei, porta de S. Pe- 
dro, porta do Sol, porta de S. Fradique, porta do 
Moniz e porta da Traição. 



246 



Historia de Portugal 



Bam Lopes. Receia^se da traiçfto de dentro e da 
agressio de fora. É um leào que defende o antro 
da sua prole. 

A nosso yér, o reinado de D. Fernando tem, 
pelo que toca â historia do terceiro estado em 
Portugal, uma alta, uma grandíssima importân- 
cia. É a aurora da democracia. Desperta no 
povo, de repente, a consciência dos seus direi- 
tos. O poTO sente-se cansado, fatigado de sotTrer 
as velleidades dos reis e da nobresa, o espectá- 
culo dos seus desatinos. Lembra-se de que o 
sangue de seus avós foi derramado para arran- 
car o poder real das mãos da viuva do conde 
D. Henrique, que prostituía o seu corpo e a me- 
moria de seu marido no convívio do conde de 
Trava; lembra-se de D. Afibnso ii disputando a 
suas irm&s a herança paterna; lembra-se da 
anarehia promovida pela nobresa durante a me- 
noridade de D. Sancho ii; lembra-se de que foi 
um simples instrumento nas mftos de Affonso iii 
que procurava fortalecer-se contra a nobresa e 
contra o clero; lembra-se de que foi sacrificado 
n'uma contenda de irmftos, travada entre D. Di- 
niz e o infante D. Affonso, e n'um conflicto si- 
milhante entre D. Diniz e seu filho; lembra-se 
de que por causa do repudio da filha de D. Af- 
fonso IV tivera que bater-se contra os castelha- 
nos durante quatro annos; lembra-se de que por 
vingar a morte de uma mulher, Ignez de Castro, 
vira purpureado o céo ao norte do paiz com a 
chamma dos incêndios, porque a vingança de 
Pedro I passava como o anjo do extermínio so- 
bre as povoações. . . Agora vô deante de si, a 
dilatar cada vez mais o seu poder, a formosa 
Leonor Telles, como a mancenilheira dilata ara- 
maria, deixando cahir sobre os que estão em 
de rodor uma sombra envenenada. B para sua- 
visar as tintas negras do quadro, o que? Bem 
pouco. Duas figuras apenas. O vulto beroico de 
Affonso Henriques, o conquistador, e o doce 
vulto da rainha Isabel, a santa. 

O povo accorda do seu somno de torpor; é o 
leão que desperta. Gomprehende de repente que 
o sangue do povo também tem preço, porque é 
fertilisante. Com effeito, o sangue do alfaiate 
Pernam Vasques foi então devidamente cotado 
no espirito do povo, e fecundou o terreno no 
qual principiaram a medrar os germens da de- 
mocracia. 



Desperta a sua consciência, o povo reconhece 
entre os seus direitos o de fazer reis; mais tarde 
reconheceu o de os desfazer. D. João i pertence 
ao numero dos reis feitos pelo povo. Desde a 
acclamação do mestre d'Aviz, o governo repre- 
sentativo começa a germinar em Portugal. O 
povo conhece que tem voz. 

Principiando a oomprehender a sua nobre, a 
sua grandiosa missão, o povo de Usboa quiz 
conquistar os seus direitos pelo sacrifício de suas 
vidas e fazendas. Os castelhanos, sabendo que 
os habitantea da cidade tinham, ao fugir para 
as muralhas, lançado dentro dos poços objectos 
de valor, tratavam de os tirar por meio de fatei- 
xas; ao mesmo tempo repetiam escaramuças de 
que resultava ficarem feridos e mortos alguns 
dos portuguezes, os quaes, porem, se batiam 
com tal denodo que o próprio D. Henrique, 
observando-os do seu miradoiro de S. Francisco, 
os elogiava. As incursões dos sitiantes aos arra- 
baldes eram frequentes, e durante ellas cortavam 
as vinhas e os olivedos, saqueavam os casaes, 
incendiavam as quintas; uma d^essas correrias, 
commandada pelo próprio filho do rei de Castella, 
dirigiu-se sobre Cascaes, que, por ter pouca gente 
para a defesa, se entregou, aendo presos alguns 
habitantes e roubadas todas as casas. Mas ainda 
não era tudo. Como os castelhanos se houvessem 
apossado de alguns prédios próximos ás mura- 
lhas, e d ahi lançassem bestas contra os sitiados, 
resolveram estes inceodíaresses prédios que tanto 
os molestavam. Os castelhanos, quando viram 
levanur-se o clarão das primeiras chammas, 
trataram de roubar toda a cidade, e depois po- 
zeram-lhe fogo, dizendo que, pois que os por- 
tuguezes queriam o incêndio, incêndio teriam. 
Ardeu toda a Kua Nova, com os seus importan- 
tes estabelecimentos commerciaes, as fregue- 
zia^ da Magdalena e de S. Julião e o bairro dos 
judeus, comprehendido na villa Nova de Gibral- 
tar, ao sul da Sé. Era uma devastação enorme, a 
febre do roubo parecia haver-se ateiado de par 
com o incêndio que lavrava nas melhores ruas 
de Lisboa. Os castelhanos chegaram até a. ar- 
rancar as portas da alfandega da cidade, que 
eram formosas, diz Fernam Lopes, para as le- 
varem quando retirassem, e se outro tanto não 
aconteceu aos magníficos cavállos de bronze 
do chafariz da Rua Nova, foi porque os lis- 



historia de Portugal 



^4? 



m *■ 



bonenses primeiro os arraocaram para os sal- 
var. 

Não obstante, a maior parte da popalação de 
Lisboa, apiafaada deatro do pequeno cinto de 
muralhas, continuava a resistir energicamente 
aos horrores do cerco, çem que o espectáculo de 
tamanha devastação a desalentasse; sem que os 
tormentos da fome e da sede a Bzessem fraquejar 
um momento siquer. 

Ao mesmo tempo a província do Minho era 
invadida pelo adeantado de Galliza, Pedro Ro- 
drigues Sarmento; o conde de Céa, D. Henrique 
Manuel, sahiu-lhe ao encontro com a gente que 
pôde ajuntar, mas os portugueses foram desba- 
ratados. Então, Nuno Gonçaltes, alcaide do cas- 
tello de Paria, deixando o castello entregue a 
sen filho, sahiu com a sua hoste a desafrontar os 
portugueies, mas foi vencido e preso. Suspeitou 
então que, preso, o levariam deante do castello, 
infligindo-lhe ahi tormentos para que seu filho, 
a troco da salvação do pae, entregasse a forta- 
lesa. Prevenindo este acontecimento, pediu elle 
próprio ao adeantado de Galliza que o levasse 
ao castello, porque desejava aconselhar o filho 
a que o entregasse. Assim se fez, e os troços 
castelhanos, com Pedro Sarmento á frente, acom- 
panharam Nuno Gonçalves. Chegado ao csfstello, 
o alcaide mandou chamar o filho e, na presença 
dos castelhanos, em vez de lhe aamselhar que 
se rendesse, recommeodou-lhe que resistisse. 
Os castelhanos, vendo-se ludibriados, prostra- 
ram-n*o a golpes de espada e lança, mas o 
castello de Faria estava salvo, porque o novo 
alcaide, es(Hritado pelas palavras de seu pae, 
resistiu até desesperar os de Galliza, que levan- 
taram o cerco. 

Feliz o povo que sem se deixar corromper 
pela cobardia do seu rei sabe defender com tal 
heroicidade a terra que lhe foi berço. 

D. Henrique de C^stella comprehendeu esta 
sublime verdade, e quiz levantar o cerco. Paliou 
n'este sentido a Diogo Lopes Pacheco, o seu con- 
selheiro, que principiara por ser assassino de 
uma mulher e acabará por ser traidor á pátria. ^ 

1 Pacheco foi, como se sabe, nm dos assassinos 
de Igne2 de Castro. Refugiado em Castella, fez-se 
bemquisto na corte, mas quando D. Fernando subiu 
ao thrdno apresenbuHâe-lhe em S^tarem e pediú- 



Pacheco mostrou-se admirado do desalento do 
rei castelhano; respondeu-lhe que os portugue- 
zes estavam dentro das muralhas como ovelhas 
em curral; que, por serem muitos, teriam que 
render-se fatalmente, mais tarde ou mais cedo, 
pela fome e pela sede; e que tomar Lisboa equi- 
valia a tomar todo o reino, que não tardaria a 
render-se. 

D. Henrique não quiz mostrar-se fraco, resol- 
veu apertar o cerco, mandou apparelhar quatro 
engenhos que lançassem dentro das muralhas 
pedra partida, e preparava-se de má vontade 
para esperar o resultado da sua tenacidade; de 
má vontade, dizemos, porque D. Henrique por 
seus próprios olhos tinha visto de quanto eram 
capazes os portuguezes, e intimamente suspei* 
tava que se mostrariam mais tenazes do que elle 
próprio. £l o que logicamente se deduz do facto 
que vamos contar. 

Gregório xi enviara á península hispânica o 
cardeal de Bolonha, D. Guido de Montfort, como 
legado, para conseguir a paz entre os reis de Cas^ 
tella e Portugal . Quando o cardeal chegou á fron- 
teira de Portugal, já D. Henrique estava deante 
de Lisboa, de modo que o legado do papa fatiou 
primeiro em Santarém com D. Peruando, o qual 
achou inclinado á paz, como era natural » maior» 
mente por lhe ter faltado o soccorro que esperava 
de Inglaterra. De Santarém veio o cardeal a Lis» 
boa^ onde fallou com o rei de Castella, que, a 
despeito dos conselhos de Diogo Lopes Pacheco, 
também encontrou disposto a levantar o cerco, 
como era seu intimo desejo. De Lisboa tomou 
cardeal Montfort a Santarém, e ahi D. Peroaindo 
nomeou como plenipotenciários o bispo da Guarda 
D. Afonso e Ayres Gomes da Silva, cavalleiro. 
Bntaboladas as negociações, resoiveu^se que: 

l.o^Og fQ{g de Portugal, Castella e França 
fariam um tratado de reciproca alltança, por si e 
seus descendentes, contra a Inglaterra e o duque 
de Lencastre; 

2.*— Que o rei dó Portugal não sô recusaria 

lhe nSo só o perdão da sua culpa mas até a restitui- 
ção dos seus bens. D. Fernando concedeu tudo. 
Porque se retiraria^ porem, novamente para Castellja 
Diogo Lopes Pacheco? A opiniSo de Fernam Lopes 
é que, tendo elle aconselhado o rei a que não casasse 
com D. Leonor Telles, se retirara por teme^ a cólera 
da rainha. 



248 



Historia de Portugal 



qualqoer aoxilio aos ÍDglezes que viessem aos 
portos do seu reino, mas até os expulsaria, pe- 
dindo, para isso, se tanto fosse preciso,- a coope- 
ração do rei de Castelia; 

S."" — Que D. Fernando lançaria fora do seu 
reino os fidalgos castelhanos que na sua cdrle 
andavam, um dos quaes era D. Fernando de 
Castro, irmão de Ignez de Castro; 

4.* — Que o rei de Portugal perdoaria ao in- 
fante D Diniz, seu irmão, e a Diogo Lopes Pa- 
checo, e a quaesquer outros portuguezes que 
tivessem seguido o partido de D. Henrique, res- 
titniodo-lhes seus bens e heranças; bem como 
seria igualmente indulgente para com todas as 
villas e logares de Portugal, que tivessem adhe- 
rido a D. Henrique; 

5/ — Que D. Beatriz, irmã de D. Fernando, fi- 
lha de D. Pedro e D. Ignez de Castro, casaria com 
D. Sancho de Albuquerque, irmão de*D. Hen- 
rique; 

B.^^T-Que aquelle dos dois monarchas pactuan- 
tes que rompesse o tratado, pagaria trinta mil 
marcos de oiro, e incorreria em perjúrio para 
com o outro; 

T.^^^Que para garantia do contrato o rei de 
Portugal entregaria ao de Castelia como reféns 
alguns fidalgos portuguezes, entre os quaes foram 
incluidos João Âffonso Tello, irmão da rainha, o 
almirante Lançarote Pessanha, seis filhos de ci- 
dadãos de Lisboa, quatro do Porto e quatro de 
Santarém; e como penhor os logares de Vizeu, 
Miranda, Pinhel, Almeida, Celorico, Linhares e 
Segura. 

Apresentadas e aoceitas estas condições, enor- 
memente pesadas para Portugal, resolveu-se que 
fossem solemnemente ratificadas pelos dois so- 
beranos, o que se realisou sobre as aguas do 
Tejo, .em frente de Santarém, dentro de bateis, 
assistindo á conferencia o cardeal Montfort. 

D. Fernando, ao retirar-se da conferencia, em 
vez de vir opprimido com a lembrança dos vexa- 
mes que soOrera, fazia espirito, dizendo aos fi- 
dalgos que o rodeiavam: tQuanto eu henricado 
venho!» Dava-se então o nome de henricados 
aos portuguezes affectos ao rei D. Henrique de 
Castelia. 

Tratou-se em seguida do projecto de casamento 
de D. Beatriz com D. Sancho de Albuquerque, 
pactuando- se também o casamento de D. babel, 



filha bastarda de D. Fernando, que apenas con- 
tava enlão cerca de nove annos, com D. AfiTonso, 
filho natural de D. Henrique, iodo logo D. Iza- 
bel em companhia de seu sogro para Castelia. 

Os fidalgos castelhanos, que deviam ser entre- 
gues em virtude do tratado de Santarém, não es-* 
tavam, porem, resolvidos a esse sacrificio, efor- 
tificaram-se no castello de Ourem; D. Fernando, 
vendo-se em risco de ter que pagar a infracção 
do tratado, pediu-lhes, supplicou-lhes que o não 
compromettessem, e finalmente os castelhanos 
resolveram-se a partir, levando-os as galés por- 
luguezas ao porto de. Valência, que pertencia ao 
reino de Aragão. 

A lição fora justa, mas severíssima. D. Fer- 
nando, cujos braços se não tinham erguido para 
defender a sua pátria e os seus vassallos, achou 
que seria conveniente, a fim de poupar novas 
humilhações, tratar de construir uma defesa de 
pedra e cal, que o pozesse a coberto da necessi- 
dade de desembainhar a ociosa espada. Lem- 
brou-se então de cercar Lisboa com mais amplo 
e mais forte cinto de muralhas, e ordenou que os 
povos circumvisinhos da cidade contribuíssem 
para a obra com dinheiro ou com trabalhadores. 
Começaram os trabalhos em setembro d*e8se 
mesmo aono de 1373, e dois annos depois esta- 
vam completos. 

Vejamos, pela enumeração das novas portas 
da cidade, qual a linha descripta pela cerca de 
D. Fernando: porta de S. Lourenço, na costa do 
castello; porta da Mouraria (hoje Arco do Mar- 
ques dó Alegrete); porta da rua da Palma (cor- 
respondente á rua doeste nome); porta da ma 
da Pella (calçada do Jogo da Pella); porta de 
Sant'Anna (calçada da mesma denominação); 
porta de Santo Antão (entre a egreja de S. Luiz 
e a rua do Jardim do Regedor); porta das Estre- 
barias d'Gl-rei (ao Rodo, entre o palácio da In- 
quisição e o do duque de Cadaval); porta do 
Goodestavel (no topo da calçada do Duque); 
porta da Trindade (olhando para a aclual roa 
Larga de S. Roque); porta de Santa Catbarína 
(ao Loreto); porta do Duque de Bragança (rua do 
Tbesouro Velho); porta do Corpo Santo (talvez 
fronteira á egreja de igual invocação); porta dos 
Cobertos (próximo da antecedente); porta dos 
Côrte-Reaes (travessa do Cotovello); postigo do 
Cairão (próxima do Pelottrinbo)^ porta, da Oura 



Historia de Porti^^al 



249 



(do terreiro do Paço); porta dos Armazéns (pró- 
xima á anterior); porta do Arco das Pazes (idem); 
porta da Moeda (à entrada da raa Áurea, Junto 
à antiga casa da moeda); porta dos Pregos (Ter- 
reiro do Paço); porta dos Barretes (idem); porta 
da Ribeira (ídRm); porta da Portagem (idem); 
porta Nova do Har (rua dos Bacalhoeiros); porta 
da Judearia ou do Rosário (defronte do Terreiro 
do Trigo); postigo d'Alfama (no beco d'Airama); 
porta do Chafariz de Dentro (fronteira aos chafa* 
rizes de Dentro e da Praia); porta ou postigo da 
Pólvora (ao fim da rua do Jardim do Tabaco); 
porta da Cruz (ao fim da rua das Portas da Cruz); 
postigo do Arcebispo (campo de Santa Ciara); 
porta de S. Vicente (a S. Vicente); postigo de 
Nossa Senhora da Graça (idem); postigo do Ca- 
racol da Graça (no adro da Graça); porta ou 
postigo de Santo André (ao fundo da calçada da 
Graça) . 

Ao todo trinta e quatro portas, as quaes com 
as doze da antiga cerca perfaziam quarenta e 
seis; sobre as muralhas levantaram-se setenta e 
sete torres. 

O povo de Lisboa, vendo o formigueiro dos 
afadigados operários, que acampavam junto áa 
obras, principiou por maldizer o rei que, não 
contente com vér que os seus vassailos defen- 
deram a cerca velha, os encarregava, para des- 
cançarem, de construir uma nova côrca, no 
interesse da sua real ociosidade futura; mas de- 
pois, à proporção que os muros iam crescendo, 
03 habitantes da cidade, que precisavam de 
qualquer defesa, sem que podessem esperai-a 
da pessoa do rei, applaudiam a lembrança. 

Alguns historiadores liberalisam largos elogios 
a D. Fernando pelas acertadas medidas que to- 
mou depois de concluidas as pazes de Santarém. 

Não somos da mesma opinião. Bem sabia elle 
o respeito que costumava ter pelos tratados, e 
também sabia que não era a guerra o seu forte. 
Portanto o que fazia ? Preparava-se para ser o 
menos incommodado possivel. Mandava arrolar 
todos os homens validos para a guerra, refun- 
dir as armas, prohibia que os.fidalgos, que ti- 
nham contracto de dar lanças, podessem alliciar 
aqaelles cidadãos que eram por lei obrigados a 
servir com arma9 e cavalloa, porque os fidalgos 
yaliam*8e doestes cidadãos, para não terem que 
Ihea pagar» recebeodo eooitudo a quantia que o 
n voL.— 32* 



Estado dava por um certo numero de lanças; or- 
denava que se lançassem tributos ás viuvas, aos 
orphãos, aos jornaleiros e às mancebas domundo 
etc. para serem destinados â compra de armas e 
cavallos para aquelles burguezes que, sendo 
obrigados a servir, eram pobres; «mas, pondera 
Pinheiro Chagas, quando acontecia o mesmo a 
um aquantiado fidalgo não se lançava finta nas 
donas opulentas que disfructavam em luxuosa 
viuvez as rendas que seus maridos lhes haviam 
deixado, nos dons abbades inúteis, faustosos; 
nada, n'es8e cajso el-rei fazia-lhes mercê, e para 
essas mercês é que serviam as contribuições 
expremidas dos municípios. • 

Em face doestas medidas, não nos parece que 
sem contestação se possa affirmar que havia ta- 
lento administrativo no espirito de D. Fernando. 
Todas ellas nos parecem duramente cruéis de- 
pois de um côrco em que se perderam grandes 
haveres, perda que, comquanto afifectasse dire- 
ctamente apenas Lisboa, se. devia reflectir ao 
largo em todo o reino. O que vômos é um ar- 
dente desejo de salvaguardar pela defesa de todo 
o paiz a fraqueza do seu animo, sobrecarregando 
as viuvas e os orphãos d^aqueiles que jclle próprio 
abandonara à invasão dos castelhanos. 

Era preciso reparar os estragos causados pela 
guerra, de accôrdo; mas não tanto à pressa como 
se Catilina batesse ás portas de Roma. 

D. Fernando acabava de firmar a paz com a 
França e com Castella, aproveitasse essaclasula 
benéfica do humilhante tratado de Santarém, 
procurasse encetar com grande tino uma pru- 
dente administração no interior e manter babeis 
relações diplomáticas no exterior, para entre- 
tanto esperar que produzissem o seu resultado 
as medidas que tomara sobre a agricultura. Es- 
tas medidas constituíam a celebre lei chamada 
das sesmarias, a qual «ordenava que todos os 
proprietários de chão arável fossem obrigados a 
cnltival-o ott por si ou por outrem, que esses 
(mltivadores fossem obrigados também a ter o 
numero de bois necessário para a lavoira; se os 
bois estivessem em algumas terras por preços 
exorbitantes, as auctoridades do concelho deviam 
obrigar os donos dos bois a veodel-os por preços 
rascáveis; as terras, que apesar d'esta lei, não 
fossem aproveitadas por seus doDos, eram-lbea 
logo confiscadas e revertiam em proveito do mu» 



250 



Historia de Portugal 



nicípio, que as fazia caltívar por sua conta e re- 
cebia as Ideadas. Filhos de lavradores, qae nfLo 
se empregassem em algum ofiBcio também im- 
portante para a republica, ou nào provassem ter 
de seu quinhentas libras, eram obrigados a oc- 
cupar-se nalavoira, ou cultivando herdades suas, 
ou tomando-as de arrendamento a outros, ou, 
se não tivessem posses para tanto, servindo 
como jornaleiros nas terras de cultivadores mais 
opulentos. . . Alem disso não consentia também 
que tivesse gado quem nâo tivesse lavoira;. e as 
pessoas que o possuíam sem serem cultivadores,. 
ou se haviam de obrigar a lavrar alguma terra, 
que correspondesse aos bois que tinham, ou de 
contrario os perdiam em proveito do municí- 
pio. ■ ^ 

Os mendigos e os vadios eram por lei obriga- 
dos ao trabalho, sob pena de açoites pela pri- 
meira infracção, e de expulsão pela reinci- 
dência. 

. Taes medidas algum resultado haviam de dar 
no decurso dos tempos, posto não devesse ser ta- 
manho como quer parecer aos enthusiastas de 
D. Fernando, porque era muito difficil, quasi itn- 
possível, a plena execução daquelia lei, depen- 
dendo em grande parte de uma ãscalisação geral 
e rigorosíssima para ser útil. 

Has D. Fernando tinha pressa de obter recur- 
sos, ainda mesmo promulgando leis que fe- 
riam tão gravemente a propriedade, como nota 
Scbaeffer, e os direitos particulares. 

Que fim occulto tinha então D. Fernando? Logo 
veremos. 

Parece comiudo preparar-se para uma nova 
lucta, parece alimentar um secreto propósito de 
nova guerra ou antes de novas guerras. 

Mas disse não sei quem que em lodo o livro 
mau ha pelo menos uma pagina aproveitável. 
É velha a comparação de que a alma humana é 
um livro; é velha mas verdadeira. Na alma de 
D. Fernando ha também essa pagina aproveitá- 
vel, comprehendem-se principalmente n'ella. a 
nosao vôr, alguujaà medidas tomadas com rela- 
ç^o á navegação e ao comm^rcio. Taes medidas 
revelam, porventura,— como disse o illustre es- 
criptor que estaimos contintiando — «um certa es- 

* Pinheiro Chagas. Historia de Portugal^ vol. i, 
pág. 9^. 



piríto ambicioso de aventura e de ruidosa osten- 
tação que não é raro encontrar em parelha com 
singulares im previdências e fáceis desalentos, 
n'estes caracteres imaginosos e volúveis.» De 
mais a mais, para ter n'aquelle tempo um certo 
desvanecimento pela importância commercial e 
naval de Portugal não era preciso ser um grande 
rei, bastava olhar para o Tejo, relancear a vista 
peia emmaranhada floresta de galés e naus, 
que em numero de quatrocentas a quinhentas 
fundeavam em frente de Lisboa, não permittindo 
algumas vezes que os barcos da Outra Banda 
atravessassem directamente para os cães da ci- 
dade, vendo-se obrigados a ir aportar ao arra- 
balde de Santos. 

Em todo o caso, não é nosso intento procurar 
denegrir a verdade. Alguma coisa fez, com rela- 
ção ao ponto de que vimos tratando, o rei D. Fer- 
nando, posto que não fosse tanto, nem tão bem, 
como querem alguns historiadores. 

Ordenou que todos os portuguezes, que se pro- 
pozessem construir navios de 100 toneladas para 
cima, podessem cortar nas maltas reaes a' ma- 
deira precisa para a construcção; e que do9 ma- 
teriaes que viessem de fora não pagassem direi- 
tos; que também os não pagassem de navios que 
comprassem ou vendessem; que os proprietários 
de navios fossem isentos de pagar direitos adua- 
neiros pelas mercadorias com que carregassem 
as suas embarcações quando estas navegassem 
em primeira viagem, c de torna-viagem entras- 
sem no porto de Lisboa. 

Estas medidas, se por um lado animavam a 
marinha mercante, por outro lado atrophiavam 
a armada real, por isso que punham a madeira 
própria para construcções navaes â disposição 
dos proprietários particulares; alem de que, a 
isenção de direitos pela venda de navios feitos 
podia ser-nos prejudicial quando os paizes ex- 
trangeiros os comprassem em grande numero. 
Por baixo d'esta ostentação de converter Portu- 
gal em estaleiro iia Europa toda, vemos nós uns 
certos perigos. Tanto mais que pensando D. Fer- 
nando, como efectivamente pensava, n'umanova 
guerra, e estando alem d 'isso obrigado, pelo tra- 
tado de Santarém, a expulsar dos nossos portos 
08 inglezes, o que representava uma provocação 
a uma nação poderosa, e a fornecer o auxilio de 
galés a D. Henrique de Castella sempre (}oe elie 



Histoxte. éè Portugal 



^61 



enviasse coutra a Inglaterra uma esquadra de 
certa importância, parece^nos. que estas garantias 
concedidas à marinha mercante n&o deveriam 
ser desde logo nem tão rasgadas nem tfto am- 
pias. 

No tempo de D. Fernando existia já na cidade 
do Porto uma bolsa de commercio, creada, a 
pedido doe mercadores de Portugal e Algarve, 
por el-rei D. Diniz, no anno de Gbristo 1293. * 
Gomo consequência das medidas a que nos vi- 
mos referindo, D. Fernando teve que ampliar ^ 
e tornar estensiva a Lisboa a instituição das 
bolsas de oommercio, onde entravam as contri- 
buições de todo o corpo commercial. Na amplia- 
ção da instituição das bolsas se filia a Orde- 
nação %e companhia das naus y organisada por 
D. Fernando, companhia que tinba por fim evi- 
tar que, quando alguma se perdesse, ficasse per- 
dido o dono d'eila. 

A bolsa do commercio era pois nada mais c 
nada menos que a accumulação de um fundo, 
que provinha de impostos commereiaes, e que 
se destinava a pensionar qualquer negociante 
que se achasse de repente lançado em circums- 
tancias precárias. Ora a D. Fernando, como se 
viu, não pertence a gloria da instituição, mas 
unicamente a da ampliação dMsto que podere- 
BOB chamar uma verdadeira associação commer- 
cial. 3 Desde o momento, porem, em que D. 
Fernando dava tão amplas regalias á marinha 
mercante, n^essas regalias devia forçosamente 
entrar a de preservar o carregador contra as fu- 
nestas consequências -da perda do navio c da 
carga. D'esta necessidade e da antiga instituição 
das bolsas de commercio deriva, pois, como que 
uaturaimentej a creação da primeira companhia 
de seguros marítimos. Como se vé, a gloria de 
D. Fernando é, a este respeito, menor do que á 
primeira vista parece. 

De passagem diremos qu(s prejudicada a in- 
stituição das bolsas pelas perturbações que 
houve uo reino depois da morte de D. Fer- 
nando, teve D. João i que a renovar por uma 

1 A carta regia acha-se a pag. 234 do iii vol. do. 
Panorama. 

2 PanoramOy volume citado, pag. 235. 

3 Arnaldo Gama. A ultima dona de S, NMaUj 
pag. 203. 



provisão dada em Santarém a 11 de julho de 
1397. 1 

Para com gf atarmos esta^uccinta noticia so- 
bre a administração de D. Fernando teremos 
que failar na cunhagem que mandou fazer de 
algumas moedas. Esta me^lida foi uma- necessi- 
dade imposta pelas enormes despezas a que deu 
logar a guerra com Gastelia. D. Fernando, que 
não queria que o censurassem por procurar este 
remédio á pobresa do reino, escondeu-so para 
o fabricar; Fernam Lopes diz com transparente 
censura que D. Fernando tomou a resolução de 
mudar algumas moedas e cunharoutrasdenovo 
sem prazimento dos povos do reino, nem o fa- 
zendo saber a prelados, nem outro nenhum con- 
sentimento, E qUaes foram os resultados doesta 
medida? Responde Fernam Lopes: «por azo de 
grão despesa da guerra começada assim por mar 
como por terra, todo «e gastava que não ficava 
nenhuma cousa para deposito; e mais todo o 
ouro e prata que ei-rei achara enthesonrado: 
assim que elle damnou muito sua terra com as 
mudanças das moedas, e perdeu quanto ganhou 
em ellas, etc. » 

Já é tempo de descobrirmos o secreto desígnio 
de D. Fernando. 

«Não deixara D. Fernando, — diz P.Cfaagas— 
desde que celebrara tanto ã pressa as pazes die 
Alcoutim, de nutrir um ódio profundo contra o 
rei. de Aragão, que se assenhoreara sem grande 
reremouia do oiro português, que tinha em Bar- 
celona para despezas da guerra tão de súbito 
interrompida peio rei de Portugal. Eram incon- 
testavthuenie represálias justas, porquê D. Fer- 
nando, sendo alliado do rei de Aragão, e estando 
para desposar sua filha, fizera a paz com Gas- 
telia sem o ter prevenido, e ajustara outro ca- 
samento sem ter ao menos dado uma descu'pa 
frívola ao pae da sua primeira noiva. Mas tal- 
vez mesmo porque reconhecia quanto era grande 
a sua culpa, e quanta rasão tinha o monarcha 

1 Sobre este importante e interessante assumpto, 
vejani-sc: Vilhena Barbosa — Estudos históricos e ar- 
cheologicoSs vol. i, pag. 148; Arnaldo Gama, livro 
citado; Panorama, idem; P. Chagas — Historia de 
Portugal, vol. i, pag. 266; Alberto Pimentel— Dtc- 
cionario de invenções, origens e descobertas, etc, 
vol. I,' pag. 141 e 280; Alberto Pimentel— CHiia do 
viajaníe na cidade do Porto^ pag. 124. 



252 



Hiatona d» Portugal 



aragonez é qve D. Femaodo Ibe n&o {lodia per- 
doar. » 

Havemos de conCessar que este traço do cara- 
cter de D. Fernando lhe não fas maito bonra. 

Depois do tratado de Santarém, D. Fernando 
procurou concha var-se com o rei de Casteiia, que 
também se mostrava resentido com o de Aragão, 
para faaer guerra ao inimigo commum, e com o 
rei de loglaterra para fazer guerra ao de Cas- 
tella! Para a guerra contra o Aragão, que tanto 
preoccupava o espirito de D. Fernando, imme- 
diatamente ao cerco de Lisboa, devia o mo- 
uarcha português concorrer com quatro galé^. 
Mas D. Henrique, tratando occultamente de ne- 
gociar o casamento da iilba do rei de Aragão, 
D. Leonor, para seu filho e herdeiro D. João, 
dizia a D. Fernando que, se fizesse a paz com o 
rei de Aragão, lh'o não levasse a mal, porque o 
seu desejo era que o de Aragão emendasse ai- 
guos erros que tinha commettido, que lhe en- 
viasse procuradores para sobre isto poderem 
firmar o que cumprisse, e terminava dizendo que 
tendo de enviar soccorro ao rei de França, st u 
alliado, contra a loglaterra, lhe pedia o coadju- 
▼asse com dez galés ou ao menos com seis. ^ D. 
Fernando enviou cinco. 

«Assim— perora Pinheiro Chagas--- o rei de 
Portugal, com todas as suas pretensões a esperto 
diplomata, não era senão um instrumento dócil 
da politica dos outros. > 

Não concordamos, em que nos pese, com esta 
observação do illustre historiador. Instrumenlu 
dócil, elle! RefalEadissimo diplomata, isso sim. 
Se não, vejamos como as coisas se passaram. 

Pouco mais de um mez depois do tratado de 
Santarém, em que, como sabemos, pactuara al- 
liança com os reis de França e de Caslella con- 
ira o de Inglaterra e o duque de Lencastre, 
sabem o que fazia D. Fernando? Mandava a 
Londres plenipotenciários para negociarem um 
tratado dê paz, amisade e alIiBOça com Eduardo 
iir, no qual tratado dava novamente por válidos 
os que havia celi brado com o duque de L- n- 
castre, como rei de Castella, estipulando alera 
d*Í6to que o rei de Inglaterra mandaria a Portu- 
gal um auxilio militar para o ajudar a combater 

1 Quadro eUmentar dai relações politicas é diplo- 
máticas, pelo visconde de S^Mitarem, vol. i^ pag. 238. 



Henrique, o BastardOy rei de Castella e Leão, ^ 
procurando assim vingar*se da invasão dos caa- 
telbanos e do céroo de Lisboa. 

Mas como D. Fernando ardia em desejos de 
fazer a guerra ao rei de Aragão, não vacillou ena 
violar o tratado de Londres, e em ente'nder-8e a 
este respeito, como vimos, com D. Henrique de 
Castella. O rei castelhano, percebendo mais uma 
vez a perfidia de 0. Fernando, pediu-ihe, como 
também já vimos, o auxilio de dez galés contra 
a loglaterra para o fazer passar pelas forcas cau- 
dinas. E D. Fernando, que não perdia de idéa o 
rei de Aragão, mandar-lhe-ia as dez, para guer- 
rear o que pelo tratado de Londres era seu al- 
liado, se não tivesse falta de galés por o rei de 
Granada lhe haver tomado algumas, e não po- 
der mandar, as que restavam, para táo longe. ^ 

Não faz lembrar tudo isto duas raposas co- 
roadas procurando enganar-se uma à outra? ! 

Entretanto continuavam as negociações para 
o casamento do infante D. João, filho do rei D. 
Henrique de Castella, com D. Leonor, filha do 
rei de Aragão. O soberano aragonez oppoz re- 
sistência a principio, mas finalmente cedeu, 
mesmo a despeito da vontade da rainha sua naa- 
Iher. Finalmente, realisou-se este casamento, 
bem como o de D. Carlos, filho do rei de Na- 
varra, com a filha do rei de Castella, D. Le(»ior, 
aquella mesma com quem D. Fernando de Por- 
tugal estivera para casar. 

Deixamos de mencionar agora um outro casa- 
mento, ao qual reservaremos logar que lhe dé 
maior relevo, mas faremos comtudo menção de 
um tratado nupcial negociado pelos reis de Cas- 
tella e Portugal com relação a D. Fradiqne, dur 
que de Benavente, filho bastardo de D. Henrique, 
u a D. Beatriz, filha de D. Fernando e D. Leonor. 
Era provavelmente ainda o pensamento de fazer 
a guerra ao rei de Aragão que levava D. Fer- 
nando a consentir n*este casamento, e a reunir 
cortes eui Leiria, nas quaes a nobresa do reino, 
incluindo D. João, filho de D. Ignez de Castro, 
e D. João mestre de Aviz, jurou rcconhectr como 
rainha de Portugal D. Beatriz, e como rei D. Fra- 
dique, salvo se D. Fernando deixasse filho varão. 
' Também foi concertado n'essas cortes que, sendo 

1 Quadro elemetUarj vol. Xjv, pag. lvi, 
* Idem. Vol. i, pag. 239. 



Historia de Portugal 



id53 



OS noÍT06 ainda de menor idade ao tempo da 
morte do rei de Portugal, ficaria regente a rai- 
nha D. Leonor,, on quem D. Fernando ordenasse 
em seu testamento. Qaalqner dos reis que vio- 
lasse este tratado nupcial pagaria ao outro dez 
mil marcos de ouro. 

Mas D. Henrique, apesar d'e8te casamento e 
d'este tratado, não estava disposto a auxiliar a 
viodicta de D. Fernando contra o rei de Arag&o. 
Desesperado, quis D. Fernando conluiar-se com 
o duque de Anjou, irm&o do rei de França Car- 
los V, para fazerem a desejada guerra ao Aragão. 
Eotabolaram-se negociações diplomáticas, envia- 
ram-se de parte a parte embaixadores, mas se 
esta guerra y diz Fernam Lopes, houve algum 
começo y ou que se fez sobre este negocio, nós por 
livros, nem escripluras, nenhuma cousa poete- 
mos achar que mais pozessemos em escripto; 
mets porem entendemos- que não. 

CAPITULO III 

Casamento da infanta D. Isabel, bastarda 
de D. Fernando, oom o oonde D. Affonso, 
bastardo de D. Henrique. — O oaso de 
D. Hária Telles, irmã da rainha D. Leo- 
nor. 

Hào de os leitores estar lembrados de que na 
entrevista de Santarém, entre os reis de Portu- 
gal e Castella, se tratou do casamento da infanta 
D. Deatriz, filha de Igni^z de Castro e irmàdeD. 
Fernando, com D. Sancho, conde de Albuquer- 
que, irmão de D. Henrique, casamento que se 
realisou mesmo em Santarém dois dias depois; 
e que ao mesmo tempo se tratara dos epponsaes 
de D. Isabel, bastarda de D. Fernando, com D. 
Affooso, conde de Gijon, bastardo de D. Hen- 
rique. 

A bastarda de D. Fernando nascera em 1964, 
e tinha, portanto, cerca de nove annos de idade 
quando o seu casamento com D. Affonso foi pa- 
ctuado na entrevista de Santarém. Alt mesmo 
os recebeu por palavras de presente o cardeal 
de Bolonha, celebrando por essa occasifto festas 
que correram parelhas* em esplendor com as 
que solemnisaram. ao mesmo tempo, o casa- 
mento da filha de Ignez de Castro com Sancho 
de Albuquerque, 



I 



Apesar dos seus nove annos, a pequenina D. 
Isabel já podia considerar-se viuva quando lhe 
ajustaram o casamento com* o bastardo de D. 
Henrique. Viuva sim, Viuva d'um maridinho, 
que morrera em tenra idade, filho do conde de 
Barcellos, irmão da rainha D. Leonor. 

A imaginação de D. Fernando era fértil em 
projectos de casamento, tanto para si como para 
seus filhos. 

Logo em Santarém se boquejou, ao tempo 
dos esponsaes, que o bastardo de D. Henrique, 
então rapaz de dezoito annos, acceitara com re- 
pugnância, constrangido por seu pae, o papel 
de futuro marido d'aquella creança que o rei de 
Castella levou logo comsigo. Mas depois que re- 
tirou de Santarém a corte castelhana, então 
fallou-se a esse respeito claramente, e muitas 
pessoas lamentaram a sorte da pobre creança, 
que ia viver entre gente desconhecida, á espera 
de um casamento que repugnava ao noivo, e 
que porventura seria promovido por D. Leonor 
Telles para afiastar uma filha bastarda do rei, 
que podia vir a prejudicar os filhos que provies- 
sem do escandaloso casamento de D. Fernando. 

Tinham rasão os que lamentavam o destino 
da pequenina D. Isabel. Desde Santarém até 
Castella não achou D. Affonso uma palavra que 
lhe dissesse. 

O que se passaria n*aquelle innocente cora- 
ção quando via desapparecer ao longe a terra 
da pátria, e, relanceando os olhos em redor, 
apenas encontrava rostos desconhecidos e in- 
differentes! Mas, ó pequenina infanta, é pre- 
ciso partir para qne a esposa de teu pae, noivo 
de dois annos, ' não possa incommodar-se com 
a tua presença, porque tu representarias para 
ella o ciúme doutra mulher, e uma certa con- 
corrência aos carinhos que ella quer monopuli- 
sar para si e para os filhos que tiver. Vae pois, 
sósinha no meio de tanta gente, que teu pae 
fica enleiado nos braços voluptuosos de Leonor 
Telles, a formosa vibora que fez d'elle um Lao- 
conte. . . voluntário. 

Passados dois annos, em 1375, já se pensava 
na corte de Castella em realisar o casamento do 

> Suppondo que D. Fernando casou em 1371. Al- 
guns historiadores dfio o anno de 1372 como aqaelle 
em que se fez o casamento. 



264 



Historia âe Portugal 



conde D. Âffonso com a infantasioha de Portugal, 
então de onze annos, mas o conde, logo que tal 
ouviu, deu-se pressa em partir para o extran- 
geiro, e foi queixar-se ao rei de França e ao 
papa do casamento que lhe queriam fazer á 
força. 

D. Henrique de Gastella desesperou-se com 
este procedimento do bastardo, e mandou*lhe 
tomar as rendas e terras que possuia, dando al- 
gumas d'ellas ao conde de Albuquerque, cunhado 
de D. Fernando. Mas o seu azedume não parou 
aqui; o mesmo mandou fazer áquelles fidalgos 
castelhanos que tinham acompanhado o conde 
na viagem. 

 infantasinha, apesar da sua idade infantil, 
doia-se d'esta8 affrontas que recebia do seu pro- 
mettido esposo, e n'uma tacde de fevereiro, es- 
tando a corte em Valladolid, declarou em voz 
alta, na presença do rei, da rainha e dos magna- 
tes, que se o conde não queria casar compelia, 
também ella não queria casar com elle. 

O justo despeito de D. Isabel mais indignou 
ainda contra o bastardo D. Henrique de Gastella, 
que Ibe mandou dizer que ou viesse realisar o 
casamento ou que, no caso contrario, o desher- 
daria e amaldiçoaria, recommendando em seu 
testamento ao príncipe herdeiro que nunca lhe 
perdoasse nem Ibe restituísse as rendas e terras 
tomadas. 

Então D. Âffonso, ameaçado tão de perto pela 
pobresa, foi a Burgos, onde a corte estava, para 
se resignar ao sacrifício. 

De feito, o casamento realísou-se em novem- 
bro d'aq^elle mesmo anno. Celebrou-se no cas- 
tello de Burgos, assistindo toda a corte. N'esle 
acto religioso, em que o arcebispo de S. Thiago 
era celebrante, o conde D. Âffonso fez praça da 
repugnância com que obedecia a seu pae, por- 
que, perguntando-lbe o arcebispo se recebia por 
mulher D. Isabel que presente estava, o conde 
não respondeu. Então D. Henrique, n'um mo- 
mento de cólera, disse a seu filho que respon- 
desse afBrmativamente. O conde arrancou dos 
lábios um sim tão gelado como n'aquelle mo- 
mento devia estar o seu coração. 

À noite, houve serão no casteilo, e ao passo 
que a fremente alegria do noivado pairava nos 
olhares e nos sorrisos de outros dois noivos, 
casados no mesmo dia, D. Joanna, filha de 



D. Henrique, e D. Pedro, filho do marquei de 
Vilhena, áquelles nem se olhavam, nem sor- 
riam, nem faltavam. 

A vontade do conde de Gijon seria, quando o 
serão terminou, fugir d 'ali, partir para não mats 
voltar a ver sua esposa, mas receiou do pae. Por- 
tanto recolbeu-se á. mesma camará e deitoa-se 
no mesmo leito, cujo cortinado Femam Lopes 
ousa levantar com grande delicadesa de phrase, 
e não sabemos se com inteira verdade, asseve- 
rando que sem duvida nenhuma sabe o qae se 
passou. 

Vejamos: 

«Agora sabe-se sem duvida nenhuma, posto 
que vos pareça cousa extranha, que como foi 
serão, o conde se foi para a condessa, por re- 
ceio que houve d'el-rei se o d'outra guisa fi- 
será; e jazendo ambos em uma cama, usou elie 
de lodo o contrario, que a condessa razoada- 
mente devia esperar âquelle tempo, privando 
elle então assim seus sentidos, que nenhum dei- 
xou usar de seu ofiBcio, qual cumpria; antes Ibe 
foram todos tão escassos, que elle nunca a abrar 
çou, nem beijou, nem se chegou a ella pouco 
nem muito, nem a tocou com o pé, nem com a 
mão, nem lhe fallou tão só uma falia n'aqaella 
noite, nem pela manhã, nem ella a elle isso 
mesmo, nem nunca lhe chamou condessa em 
jogo, nem em siso, nem comeu com ella a ama 
mesa; mas vinha cada dia ao serão dormir cxmu 
ella, tendo tal geito em todas as noites, como 
tivera na noite primeira: e esta vida continuou 
com ella, de que el-rei não sabia parte, cm- 
quanto esteve em Burgos e em Paileoça, que 
seriam até dois mezes. E depois que el*rei par- 
tiu d'aquelle logar, o conde não curou mais 
d'elia, mas foi-se a outras parles, onde a vér 
não podesse; e assim andou, até que el-rei seu 
pae morreu, e foi d'ella quite por seutença, 
como adeante diremos. • ^ 

Temos duvidas a respeito doesta tradição, com- 
quanto reconheçamos em Pernam Lopes, por ser 
author contemporâneo ou quasi contemporâneo 
dos acontecimentos, uma auctoridade superior 
á dos outros chronistas: mas também sabemos 
que Femam Lopes é às vezes poeta, e o nosso 
enthusiasmo pelas legendas românticas da his- 

1 Chronica de D. Fernando, cap. xcv. 



Historia de Portugal 



055 



toria de Portugal nSLo vae até as acceilarmos 
com 08 olhos fechados. 

Que o conde de Gijon fez este casamento com 
grande repugnância, são concordes todos os au- 
thores em dizel-o, e foi porventura para ver se 
abrandava o azedume do genro que D. Fernando, 
por carta datada de Vallada aos 2 de outubro 
da era de 1415 (An. de Christo de 1377) fez doa- 
ção á bastarda da cidade de Vízeu, e das villas 
de Celorico, Linhares e Algodres, dizendo-Jhe: 
«B porque vós condeça D. Izabel minha filha 
sòdes sposada por palavras de presente, etc. » ^ 
Gomo vimos, Fernam Lopes allude ao desquite. 
D. António Caetano de Sousa ^ diz que o matri- 
monio fora annullado por sentença do bispo de 
Oviedo, em Medina dei Campo, a 12 de dezem- 
bro da era de 1417 (Christo, 1379), e affirma 
haver encontrado o documento a que se refere 
na Torre do Tombo ^ E em seguida accrescenta: 
«Depois o conde por obedecer a el-rei seu pae, 
qae levava muito a mai a sua repugnância o 
veio a effeituar (ao casamento).» Ora D. Henri- 
que II deCastella morreu a 29 de maio de 1378, 
e, como elle teimara em que o bastardo casasse 
com D. Isabel, oomprehende-se que D. Affonso, 
tendo casado com repugnância, se desquitasse 
logo que o pae morreu. Mas pelo modo de dizer 
de D. António Caetano de Sousa parece que já 
depois do divorcio, D. Henrique (que aliás era 
fallecido a esse tempo) insistira com o filho para 
qae de novo se juntasse com a mulher, e con- 
gummasse o matrimonio. 

1 Prooat da Historia Genealógica vol i, pag. 294. 

2 HisL Gen. vol. i, pag. 428. 

3 Casa da Coroa, gaveta 17, maço 2. A propósito 
da Torre do Tombo, uma nota curiosa: «El-rei D. 
Fernando foi o primeiro que mandou guardar n'esta 
Torre o archivo geral do Reino, que até então pa- 
rece não havia logar permanente e fixo; julgando 
natural e coherente, que as escripturas publicas, as 
quaes faziam uma parte do património real, estives- 
sem conservadas no mesmo logar do Thesouro, e' 
comroettidas á vigilância dos officiaes da Fazenda, 
aos quaes já então pertencia a guarda do mesmo 
Thesouro. Por este novo destino que teve aquella 
torre (a do Castello de Lisboa), veio também a cha- 
mar-se do tombo, como já pelo primeiro destino se 
tinha chamado do aver (por n'ella se guardar o The- 
souro).* Aragão Morato, Inéditos da historia portú- 
gueza^ tomo iv, Discurso preliminar. 



Vamos dar noticia ao leitor dé tudo o que en- 
contramos a este respeito. 

Fernam Lopes, na Chronicà de D. Fernando , 
torna a fallar do conde D. AfTonso para dar no- 
ticia de que estando fortificado em Gijon, o rei 
seu irmão, D. João, lhe pozera cerco, rendendo-se 
o conde e os seus, e fazendo pazes com o rei. 

Depois, na Chronicà de D, João r, * diz Fer- 
nam Lopes que o rei de Castella, logo que soube 
da morte de D. Fernando de Portugal, mandara 
chamar o conde de Gijon a Samora e lhe dissera: 
«Que D. Fernando seu pae (sogro) era finado, e 
qm porem por d* elle (conde) estar seguro ^ por- 
que estava casado corri sua filha, e se temia de 
se lançar em Portugal^ e fazer alvoroço no 
reino, que lhe prazia de ser preso. ia O conde 
D. AJSònso ficou admirado, e pediu ao rei que 
mantivesse a paz que com elle tinha feito. O rei 
respondeu: •Que não curava de suas rasõeSy 
que a elle era certo que depois que o conde par- 
tira de Cijon, e viera para sua mercéy que 
elle já era muito a mandar algumas cartas em 
Portugal em seu desserviço. O conde jurou que 
taes cartas não escrevera, mas o rei prendeu-o, 
e, accrescenta Fernam Lopes, «foi-se onde o 
conde pousava, e prendeu a condessa sua mu- 
lher, e mandou-a logo a Toledo, que eram cinco 
léguas, e o conde, isso mesmo, fora já levado. 
Estando o conde preso por grande tempo, deu 
el-rei a terra de Noruena â egreja de Oviedo, e 
confiscou para a coroa de seus reinos todos os 
outros bens, que o conde havia nas Astúrias.» 

Tendo-se desquitado em 1379, o conde de Gi- 
jon juntar-se-ia novamente com sua mulher, nãó a 
pedido de D. Henrique, que tinha fallecido antes 
do desquite, mas em 1383, por occasião da morte 
de D. Fernando, para pretenderem de commum 
accordo a coroa de Portugal, conspirando contra 
o irmão, genro de D. Leonor Telles, e pretendente 
ofiBcial? Não sabemos. D. António Caetano dé 
Sousa 2 conta a prisão do conde D. Afiònso por 
desobediências ao irmão, diz que morrera preso, 
e que D. Isabel o acompanhara em todos esses 
trabalhos, voltando ella a Portugal por morte do 
marido, acolbendo-se então i protecção de Di 
João I, seu tio, que lhe fizete varias mercês. 

1 Cap. LUi, pag. 95. 

s Hist Gen.s vol. i, pag. 427. 



256 



Historia de Portugal 



Mas, apesar da cobabitação do coode e da con- 
dessa, referida pelo próprio Fernacn Lopes, na 
Chronica de D . João i, como já vimos, e da pri- 
são de ambos, a separação carnal cootinoarla 
por toda a vida como o mesmo cbronista dá a 
entender na Chronica de D. Fernando f 

D. António G. de Sonsa diz, no volame já ci- 
tado da Historia Genealógica, que da união do 
conde e da condessa proveio a família dos Noro' 
nhãs; Duarte Nunes de Leão ^ escreve o seguinte: 
«Porque d'eUe8 nasceram D. Pedro de Noronba, 
que foi arcebispo de Lisboa, e deixou muita ge- 
ração, D. João de Noronha, D. Fernando de No- 
ronha, que foi conde de Villa Real, e segundo 
capitão de Ceuta, de que vem a casa de Villa 
Real com o appellido de Menezes nos primogé- 
nitos herdeiros da casa por casar elle com D. 
Beatriz de Menezes filha herdeira de D. Pedro de 
Menezes, conde de Vianna, primeiro capitão de 
Ceuta, e os condes de Linhares com o appellido 
de Noronha. Item deixou D. Sancho de Noronha, 
que foi conde de Odemira, de que descendem os 
herdeiros d'aquella casa, e D. Constança de No- 
ronha, segunda mulher de D. Àfionso, primeiro 
duque de Bragança, de que não houve filhos. £m 
fim doestes filhos do conde de Gijon e de D. Isabel, 
filhos dos reis D. Henrique e D. Fernando pro- 
cede a nobilíssima família dos Noronhas de Por- 
tugal. A razão do appellido de Noronha nasceu 
da villa de Noronha, de que era senhor o conde 
D. Affonso de Gijon.» 

D. Luiz de Salazar e Castro, na Historia ge- 
nealógica de la cctía de Lara, também dá noticia 
da successão dos conde» de Gijon. ^ 

i Chronica de D. Fernando, pag. 210, verso. 

D. Pedro, arcebispo do Lisboa. 
D. Constança, i.* duqueza de 
Bragança. 
D. Fernando de Noronha, con- 
» D. Affonso, Ide de Villa-Real, casou com D. 
conde de Gijon e i Beatriz de Menezes. 
Noronha, casou/ D. Beatriz, camareira-mór da 

rainha D. Joanna, casou com 
Ruy Vaz Pereira. 

D. Maria, seganda mulher do 
marechal Inigo deZuniga, senhor 
de Cerezo. 

D. Sancho, conde de Odemira, 
casou com D. Meciade Sousa* 



com D. Isabel, fi- 
lha do rei D. Fer- 
nando de Portugal. 



Em vista do que deixamos referido, tanto em 
o texto como em as notas respectivas, julgamos 
derrubada a lenda da pureza da condessa D. Isa- 
bel, contada por Femam Lopes. Diz o sr. Pi- 
nheiro Chagas ^ que a historia d*e8te casamento 
daria iacilmente um curioso romance, e, baseado 
em Femam Lopes, acrescenta que nunca o ma- 
trimonio se consummau. Para romance, seria 
aproveitável a historia tal como Femam Lopes 
a refere; mas corria o romance o perigo de ser 
desmentido pelos factos. 

Era este o casamento a que tínhamos promet- 
tido dar maior relevo; como o leitor viu, não 
o queríamos deixar passar desacompanhado de 
algumas considerações. 

Trataremos agora de um outro drama conju- 
gal mais venladeiro do que o anterior. 

Comquanto não seja um facto unioo na histo- 
ria de Portugal, — porque se lhe pôde pôr a par 
o de D. Leonor de Bragança, — a tragedia da 
morte de D. Maria Telles ganhou entre nós uma 
grande notoriedade, roroantisada pela imagina- 
ção mais ou menos ardente dos moços de vinte 
annos que teem passado pela universidade de 
Coimbra. De feito, Coimbra ó a cidade da poe- 
sia, da mocidade, do amor, e a morte profunda- 
mente dramática de D. Maria Telles passou-se 
em Coimbra; aconteceu, portanto, que a tradi- 
ção do caso romântico se identificou, em mui- 
tos espíritos, com a mais doce recordação da 
vida académica, ganhando d este modo uma 
voga enorme. Se D. Maria Telles houvesse mor- 
rido, tão violentamente, em qualquer outra 
parte, só os raros leitores de algum livro an- 
tigo o saberiam; mas Coimbra é uma chronica 
lida por muitos, folheada por diversas gerações: 
d'aqui a publicidade d'esse notável episodio do 
reinado de D. Fernando. 

A pag, 5i, do tomo n. 

A respeito de D. Constança, segunda mulher de 
>D. Affonso, !.<" duque de Bragança, e conde deBar- 
cellos, diz D. João i na carta de contracto de matri- 
monio: «Fazemos saber que por nós foi tratado a 
[urazimento de Deus com auctoridade, e dispensação 
do Padre Santo casamento entre D. Affonso coode de 
Barcellos, e D. Constança filha de D. Affonso conde 
de Gijon, e de D. Isabel minha sobrinha, e a tempo 
dos de^osoríos, etc.» {Hi$t. Gen,» vol. 5.% pag. it) 

1 Bia. de PortMQ. vol. i, pag. 369. 



Historia de Portugal 



a67 



«n 



D. MEria Telles, irm& de D. Leonor, andava 
oa casa da infanta D. Beatriz, irmã do rei, an- 
tes d'ella casar com D. Sancho de Albuquerque. 

Vem de geito dizer que foi justamente em 
casa de sua irmft que D. Fernando vira D. Leo- 
nor, e se namorara d'ella, porque o rei frequen- 
tava muito a casa da infanta. «Â qual infanta, 
diz Duarte Nunes de Lefto, ^ el*rei era t&o affei- 
Qoado, e tratava de maneira, como que preten- 
dera casar com eita, cousa até aquelle tempo 
nunca vista. De que alguns eollegiam,- que nâo 
podia deixar de haver entre eiles outra secreta 
e mais estreita conversag&o, pois a publica era 
tão solta.» Manuel de Sousa Moreira ^ diz, refe- 
ríndo^se ao rei,* «lisongeado entre tanto con Ia 
compaâía de su hermana la infante D. Beatriz, 
de quien era tan continuo, que Uegó a mover, 
sino credulidad, escrúpulo en los maliciosos.» 

Não precisava de mais este traço negro o ca- 
racter de D. Fernando para ficar perpetuado na 
historia com profunda abjecção. Faltava-lhe com- 
tudo ainda este predicado de irmão incestuoso. 

Casara D. Maria com D. Álvaro Dias de Sousa, 
que tivera de homisiar-se em Gastelía, receioso 
da cólera de D. Pedro i, porque ousara fazer-se 
amar de uma dona que o rei amava. 

A paixão do filho de Áffonso iv por D. Ignez 
de Castro desdoura-se em bom quinhão de poe- 
sia quando a gente, cuidando que o principe 
ficara ferido de inconsolável saudade para o 
resto de seus dias, chega comtudo a saber que 
frequentava as casas de mancebas formosas, ás 
qnaes queria com tal enthusiasmo, que os seus 
rivaes julgavam em perigo a própria vida. Á 
historia não deve deixar-se ir atraz das lendas, 
como as creanças atraz das borboletas: é pre- 
ciso que investigue a verdade, e a descubra. 

Falleoeu de morte natural em Castella D. Ál- 
varo Dias de Sousa. Naiuralj diz Femam Lo- 
pes, talvez para desviar a suspeita, que não 
seria inteiramente descabida, de que o rei man- 
dara ttivenenar o rival, pela gran sanha, tam* 
bem diz a chronista, que contra elie tinha. 

Foi para desanojar sua irmã pela morte do 
marido, que D. Leonor Telles viera da Beira a 

t Chroniea de D, Fernando, pag. 198, v. 
s 7%éalroMtortcaef^M2ò^Mdac(Ma({0SofMa« 
pi«. 396.. 



Lisboa, e foi então, como sabemos, que o rei se 
enamorou ao vel-a. 

Foi grande o sentimento de D. Maria pela 
morte do marido, comquanto fosse uma infi- 
delidade conjugal a causa do seu homisio em 
Casteila. Parece que por essa occasião até D. 
Leonor emprestara â irmã uma quantia de di- 
nheiro avultada para ser transportado a Por- 
tugal o cadáver de D. Álvaro, e para se lhe 
fazerem exéquias pomposas. ^ Medeando D. Ma- 
ria nos preliminares do casamento do rei com 
a irmã, D. Leonor, logo que foi rainha, quiz 
compensar-lhe a intervenção, e fez com que o 
mestrado de Christo fosse dado ao filho de D. 
Álvaro e D. Maria, D. Lopo Dias de Sousa. 

Mas, passado este primeiro impulso de gra- 
tidão, o caracter ambicioso de D. Leonor Telles 
revelou-se até para com sua irmã, a quem pe- 
dira o reembolso do dinheiro que lhe empres- 
tara. ^ D. Maria supporía talvez que o dinheiro 
tinha sido dado; a rainha, vendo a casa da irmã 
opulentada pelo mestrado de Christo, quiz reha- 
ver o empréstimo. D. Maria resentiu-se, mas 
pagou, tendo que vender a villa de Mafra, Eri- 
ceira e Enxara de los Caballeros com outros le- 
gares do património de seu filho. A exacção 
doesta divida foi, segundo Sousa Moreira, o 
preludio de desavenças que desde então afrou- 
xaram a amisade das duas irmãs, e que se 
aggravaram, como vamos vér, por uma cir- 
cumstancia imprevista. 

O infante D. João, filho mais velho ' de Igneí 
de Castro, andava na corte de seu irmão D. Fer^ 
nando; os outros dois filhos de Ignez e D. Pedro, 
D. Diniz e D. Beatriz, estavam ambos em Cas- 
tella, eile por não ter querido beijar publica- 
mente a mão a D. Leonor Telles, ella por haver 
casado com D. Sancho de Albuquerque. 

Ê uma circumstancia digna de notar-se que 
08 filhos de tão formosa mulher como Ignez de 
Castro, 6 que pela historia romanesca da mãe 
despertam quando creanças uma doce sympa- 
thia, para o que contribuíram Camões e Antó- 
nio Ferreira fazendo-os ajoelhar, chorosos e sup- 

^ Sousa Moreira — Theatro histórico, etc. 
2 Idem. 

' Mais velho, porque D. Affonso^ primeiro filho 
de D« Pedro e D. Ignez, morreu menino^ 



858 



Historia de Pdrtngal 



plicantes, ante o sombrio avô, qae essas loiras 
creanças, dizíamos, deslazam, no correr dos 
aoQos, por actos d!a çaa vida, a saudosa poesia 
com que a nossa imaginação os aureolava. 
Qaanto a D. João, vamos ter occasião de es- 
tudar o seu caracter; D. Diniz voWe-se o amigo 
intimo de Diogo Lopes Pacheco, um dos assas- 
sinos de sua própria mãe; sobre a cabeça de 
D. Beatriz pesa a suspeita de ter vivido in- 
eestuosaoiente com o rei seu irmão, como 
ainda não ha muito vimos; parecendo repu- 
gnantemente criminosa, se é que em verdade 
o não foi. 

infante D. João era um príncipe vasado nos 
moldes da sua época: gostava de cavallarias, de 
caçadas e de mulheres. 

Fernam. Lopes, querendo caracterisal-o, conta 
os casos pueris de uns ursos que o iofante ven- 
ceu em correrias fragoeiras. Não se pode exigir 
mais do pae da historia portugueza, comquanto 
de subsequentes narrativas do chronista resal- 
tem elementos bastantes para refundir hoje o ca- 
racter de D. João. 

Namorou-se o infante de D. Maria Telles, mas 
namoraram-se mais os sentidos do que o cora- 
ção, porque, visivelmente, D. João queria fazer 
d'eila uma simples amante, apenas uma concu- 
bina. Mas D. Maria tratou com diplomacia o ne- 
gocio, a fim de arrastar o iofante ao casamento. 
Tinha de casa o exemplo de que a sensualidade 
dos príncipes não vacilla deante de quaesquer 
considerações, e alem d'isso encontrava uma 
excellente occasião de poder dizer a sua irmã, 
que a tinha aggravado: «Tu és rainha hoje, eu 
posso sel-o ãmónhà. Parece que a Providencia 
quer punir o teu adultério, não o deixando me- 
morado no tbrono de Portugal em filhos va« 
rões; ^ resta-te só uma filha, uma mulher, de 
cujas mãos pode o povo doestes reinos arrancar 
a coroa real para cingir com ella a cabeça d'um 
príncipe que elle estima, o infante D. João, que 
vejo agora ajoelhado a meus pés como outr'ora 
vi o rei ajoelhado aos teus. » 

Para mais facilmente conseguir ò seu fim, 
D. Maria Telles resistiu ao infante até certo 
ponto, mas, quando o julgou sufScientemente 

1 D. Pedro e D. ÀíTonBO, filhos de D. Leonoi* e 
D. Fernando, morreram meninos. 



inflammado de desejos, concedeu-lhe uma en- 
trevista, de noite, na sua camará. Estava tudo 
preparado para a recepção, porque D. Maria 
fizera da sua alcova um aposento Terdadeira- 
mente feérico, mandando-a ornamentar expres- 
samente. Uma mulher introduziu o infante, que, 
por expressa recommendação, tinha ido acom- 
panhado de um pagem só. D. João ficou en- 
cantado, deliciado, quando respirou n'aqueUe 
jardim de Armida, preparado de geito a acoen- 
der a febre da volúpia. Então D. Maria censa- 
rou-lhe o ter suppoeto que ella acceítaria de 
boa mente o papel de amante, quando a sua 
linhagem, a sua posição de irmã da rainha, e o 
seu comportamento lhe davam pleno direito de 
aspirar a ser esposa. Depois chorou de resenti- 
mento da affironta recebida, o que às mulheres 
é Ugeiro de fazer ^ observa com graça Fernam 
Lopes. 

D. João, vendo-a chorar, presumiu fácil a 
victoria, e redobrou de instancias, porque tam- 
bém a essa hora o ardor do seu desejo attingira 
a máxima intensidade, espertado pelos cálidos 
efiluvios de tudo o que se respirava ali. N'este 
lance, a mulher, que o havia introduzido to- 
mou de industria a palavra, e accrescentou uma 
nova nota de seductora vibração ao coro de fas- 
cinações que estavam dizendo ao ouvido do prín- 
cipe: «É:i homem; rende-te.» Lembrou-lbe que 
D. Maria era irmã da rainha, e que D. Leonor 
não deixaria de accrescentar em honras e es- 
tado o marido de sua irmã; recordou que tam- 
bém o rei D. Pedro, pae do infante, havia 
desposado clandestinamente D. Ignez de Cas- 
tro, e que depois a reconhecera publicamente 
como sua esposa para legitimar os filhos. 

D. João, completamente enleiado, declarou 
finalmente que consentiria em desposar a irmã 
da rainha, com tanto que lhe fosse permittido 
não se separar d'ella n'aquella noite. Diz Per- 
uam Lopes que estava tudo preparado d'ante- 
mão, e que o casamento clandestino se celebrara 
immedíatamente, sendo testimunhas alguns ca- 
vaileiros em quem D. Maria tinha grande con- 
fiança. 

O que é certo é que o infante logrou n'esBa 
mesma noite saciar os seus ardentes desejos, e 
que, diz na sua linguagem ingénua ou mali- 
ciosa Fernam Lopes, «se partiu ledo, sem ella 



Btotoria de Portugal 



659 



ficar triste, muito cedo antemanhã, o mais afas- 
tado de fama qne se fazer pode.» 

Quando o segredo passa de dois, não tarda 
que se descubra. Foi exactamente o que acon- 
teceu. Provavelmente, a própria D. Maria teria 
o cuidado de propalar a noticia do seu casa- 
mento com o infante, porque eriai isso mesmo 
o que convinha à sua honra e ao seu proveito. 
Chegou o caso aos ouvidos do rei e da rainha. 
D. Fernando, quando a rainha se mostrou in- 
dignada, disse-ihe que pois que elles ambos es- 
tavam contentes, que lhe não pesasse a elia, 
porque a elle pouco lhe pesava. Mas D. Leonor 
não se submetteu, e sentia-se dominada de viva 
cólera quando lhe lembravsi que sua irmã era 
bemquista de todos, e o infante D. João esti- 
mado do povo c nobresa, e que as coisas se 
podiam vir a azar de modo que fosse accla- 
mado rei o infante, e D. Maria rainha, ficando 
ella privada da eminente posição que occupava, 
tanto mais que o rei era fraco, e promettia pe- 
quena duração. 

Desde esse momento, tornou-se mais pro- 
funda a separação moral das duas irmãs. Sem 
embargo, D. Leonor Telles, ao mesmo tempo 
que planeava o melhor modo de inutílisar a 
supposta concorrência do cunhado e da irmã á 
coroa de Portugal, continuava ostensivamente 
a protegel*os, o que tinha um duplo fim: fazer 
acreditar que realmente estimava a irmã, e at- 
trair o infante a um projecto que ella alimen- 
tava na mente. 

Esse projecto consistia em offerecer ao in- 
fante a mão da princesa D. Beatriz, quer dizer, 
em seduzil-o com o o£ferecimento de uma coroa 
certa, o que provavelmente Ibe seria mais agra- 
dável do que a vaga esperança de uma coroa 
incerta. 

Para fallar ao infante, escolheu a rainha seu 
irmão João Âfifonso Tello, que, entre outras gran- 
des mercês, lhe devia a de ser feito conde de 
Barcellos, e que por essa mesma rasão se ro- 
java aos pés da irmã como um reptil que an- 
dasse babujando os tapetes da corte com a 
peçonha da lisonja. 

N'e8te lance da narrativa, não nos dispensa- 
mos de copiar textualmente Fernam Lopes, por- 
que das suas palavras, especialmente d^aquellas 
que poremos em itálico, resaltam elementos bas- 



tantes a caracterisar o infante D. João de modo 
bem pouco honroso para a sua memcnria. 

Diz o chronista, modemisada, para menos en« 
fado do leitor, como às vezes fazemos, a sua 
linguagem e orthographia: 

«O conde iudusido assim pela rainha, cotne- 
çou de haver maior conversação com o infante 
do que soía, e mostrar ser muito mais seu amigo 
do que antes era: e um dia fallando ambos em 
cousas de segredo, contou-lhe o conde como era 
certo da rainha, que desejando seu acrescenta- 
mento e honra, cubicava muito de o vér casado 
com a infanta D. Beatriz, sua filha; dizendo que 
pois a Deus prazia de não haver filho que her- 
dasse o reino, depois* da morte de el^rei seu 
senhor, que antes queria a infanta sua filha vér 
casada com elle, que com o duque de Benavente, 
que era castelhano; porque mais razão era her- 
darem o reino, que fora de seu pae e de seus 
avós, os filhos seus e de sua filha a infanta, que 
não os dá linhagem d'el-rei D. Henrique, de que 
Portugal tanto mal e damno havia recebido; mas 
que lhe pesava muito da lorva (estorvo) que em 
isto via, porquanto se rugia (boquejava) por al- 
gumas pessoas, que D. Maria sua irmã era ca- 
sada com elle, e que portanto se não poderia 
cumprir isto que ella muito desejava. Ouvidas 
as doces palavras do conde, que largamente em 
isto fallou, dispostas a gerar damnoso fructo, 
logo o infante ligeiramente creu isto que lhe foi 
mui aprazivelj representando a seu entendi- 
mento todas as fumras e grandes vantagenSy 
que se lhe de tal feito- podiam seguir: des hi 
(desde então) como vides, que desejo de reinar 
è cousa que não receia de commetter obras con- 
tra razão e direito, não podia o infante pensar 
em outra coisa, salvo como havia de casar com 
a infanta, e ser quite de D. Maria por morte. 
E andando em este cuidado, antes que o a ou- 
trem dissesse, fallaram mais a rainha e o conde 
com Diogo Afiònso de Figueiredo, vedor do in- 
fante, e com Garcia Afiònso, commendadord*El- 
vas, que era então do seu conselho; e d'entre 
todos não se sabe quem, se da parte do infante, 
se da pafte dos outros, foi levantada uma mui 
falsa mentira, que seu coração d'ella nunc^ pen- 
sara, dizendo que bem a poderia matar sem 
prasmo (censura), porque era fama que dormia 
com outrem, sendo sua muíher recebida: e por 



»60 



BiBtoiia d0 Porfeoacil 



azo de taes conselhos, jamais o infante não per- 
deu cuidado de casar com sua sobrinhay e des* 
casar^se de Dona Maria por morte; e se cum- 
pria aqui o exemplo que dizem, que quem seu 
cão quer matar, raiva lhe põe nome; porque 
tanto que elles tal lestimunho entre si levantaram 
logo o infante determinou em sua vontade de 
cedo a privar da presente vida,» 

Estas palavras de Femam Lopes equivalem, 
perante a historia, a um retrato perfeito, com- 
pleto, do infante. Parece que D. João aprendera 
a ser assassino de mulheres indefesas com os 
algozes de sua mãe! De D. Leonor Telles, a 
adultera que vendera o seu corpo a troco de 
uma coroa, tudo se podia esperar. Mas do in- 
fante, que devia ter horror ao sangue, porque a 
memoria de sua mãe devia pôr-lbe a cada mo- 
mento nódoas vermelhas deante dos olhos, não 
era licito esperar que descesse até á brutalidade 
interesseira do ultimo dos villões. Se o infante 
estivesse persuadido de qae sua mulher era ef- 
fectivamente adultera, desculpava- se que, por 
vingar a própria honra, e só por esse motivo, 
a assassinasse, ainda que n&o deixava de ser 
caso para descrer da justiça dos homens que 
o adultério de uma irmã fosse premiado cora a 
coroa de Portugal, e o da outra punido com 
a morte. Mas o infante niatou de animo feito, 
matou para casar com outra mulher, para ser 
rei de PortugaL A mentira da deshonra de D. 
Maria não é a causa do assassinato, é um pre- 
texto, combinado n'um conluio infame. Pouco 
importa que fosse o infante D. João quem lem- 
brasse esse pretexto; se o não inventou, accei- 
tou o que lhe lembraram, e acceitou-o de boa 
mente, porque desde a sua primeira entrevista 
com o conde de Barcellos não pensava senão em 
ser quile de Z). Maria por morte. É duplamente 
infame. Infame, porque primeiro rouba a honra 
á mulher que passava como sua esposa, e de- 
pois lhe rouba a vida, como um miserável que 
se aproveita da sua auctoridade de marido para 
poder ^ntrar ousadamente na alcova onde vae 
exercer as funcções de assassino. 

Vamos seguir passo a passo a afadígada jor- 
nada, do infante para Coimbra em procura da 
sua victima. 

Ha n*ella episódios de um alto valor psycho- 
lógico, a nosso vér« 



Partiu o infante com este propósito, diz Fer^ 
nam Lopes, firmado de todo em seu coração , t 
íoi-se caminho de Alcaohões, povoação do districto 
de Santarém, onde a corte poisava aesse tempo. O 
conde de Barcellos, que se tornara o fidus Acha- 
tes do infante, veio esperal-o no caminho, e 
convidou-o a jantar. No dia seguinte, D. João 
jantou com sua prima co-irmã, D. Isabel de Cas- 
tro, filha do conde D. Álvaro Peres de Castro, de 
quem o conde de Barcellos andava enamorado. 
Á tarde houve dança, e refeição de vinho e fru- 
ctas, quer dizer, uma festa elegante no estylo da 
época. Foi justamente em meio doesse ptc-ntc 
fidalgo, como nós diriamos hoje, que o conde 
de Barcellos quiz parodiar a celebre phrase: Da- 
riOf lembra-te dos athenienses^ ofierecendo ao 
infante uma cola mui louçã, um hulbão bem 
guarnecido y e uma faca mui formosa que lhe 
trouxeram de Inglaterra. 

Depois dirigiu-se ao paço o nobre rancho de 
cavalleiros e donas, e quem os visse alegres e 
despreoccupados, n^aquelle passeio campestre, 
mal poderia dizer que ia ali um homem, de 
rosto prazenteiro, dominado por uma idéa fixa: 
matar sua mulher, que não era criminosa. Mas 
eram tão agradáveis as festas da corte, a coroa 
real, vista de perto, tinha tão deslumbrantes 
scintillaçOes, que— talvez o fosse pensando o in- 
fante — valia bem a pena tingir as mãos em san- 
gue innocente para ser rei um dia, embora rei 
como Macbeth, perseguido pelo remorso, e pela 
sombra de Banco. 

Chegados ao paço, houve larga conversação á 
puridade entre a rainha, o infante, e o conde, 
como para darem a ultima de mão ao vilissimo 
projecto. Depois o infante sabia com o conde, de 
quem foi hospede essa noite. Era preciso que o 
algoz fosse por tal modo disposto para a execu- 
ção do crime que o seu braço não tremesse, que 
o seu animo não vacillasse. Achates passou a 
noite aconselhando Eneas. 

Ao romper do dia, como se fora muita a pressa, 
partiu o infante para Thomar, onde o mestre de 
Christo, D. Lopo, filho de D. Maria Telles, o 
mandou convidar para ir jantar com elle no for- 
moso castello de Gualdim Paes. O infante recu- 
sou, recusou porque receiou que o espectro de 
D. Maria Telles fosse sentar*se, como o de Banco, 
á mesa do festim. Elle era já o assasino, porque 



BSstoiia dD Postngal 



861 



a reêoluc&o era inabalável, da mâe d'aqtieUe ca- 
valleiro; d&o poderia, pois, seniar-se á mesa sem 
gae D. Lopo de Sousa, por uma antecipação ma* 
ravilhDsa, lhe visse as mãos tintas de sangue, 
que havia de reconhecer, porque era o de sua 
mãe. 

D. Lopo achou extraordinária a recusa do in- 
fante, e mandou a toda a pressa diser a sua 
mãe que elle passara ali caminho de Coimbra e 
que desconfiara das suas intenções. É que aos 
oavidos do mestre de Ghristo tinham chegado 
vagos rumores de que no paço se urdia uma 
intriga contra sua mãe. D. Maria Telles, a cujos 
ouvidos taes boatos haviam chegado também, 
ficou sobremodo sobresaltada com o recado do 
filho e só poude encontrar serenidade na con- 
«dencia da sua mesma innocencia. 

O infante continuou a jornada, e, chegando a 
Coimbra, parou com os seus âquem do mosteiro 
de Sant'Ânna. Áhi deteve-se a fallar com Diogo 
kffonso e Garcia Âffonso, os dois que estavam 
na confidencia do crime, emquanto os outros 
cavalieiros da comitiva esperavam. Depois de 
breve conferencia, dirigiu-se o infante a todos, 
dando*lbes a entender o que ia fazer, o que 
equivalia a dizer-lhes que estivessem promptos 
para qualquer occorrencia. A cavalhada atra- 
vessou a ponte e, chegados à Couraça, o in- 
fante chamou um dos seus, o disse-lhe: «Vós 
sabeis esta cidade, e as entradas e sabidas 
d'ella, melhor do que outro que aqui vá, por- 
que estivestes já aqui no estudo: D. Maria pousa 
nas casas de Álvaro Fernandes de Carvalho, eu- 
caminhão por tal logar, por onde possamos ir a 
eilas, maU á pressa e fora de praça que ser 
possa.» 

O cavaliciro a quem o infante se dirigira en- 
caminbou-o á egreja de S, BartholomeUy diz 
Femam Lopes, donde nasce uma estreita rua, 
que directamente vai sahir às portas d^aquel- 
las casas. 

Pomos em itálico estas linhas, porque ellas 
teem maior importância do que â primeira vista 
parece: destroem a antiga tradição de que o 
assassinato do D. Maria Telles se realisou no 
Paço de Sub-Ripas, a celebre casa do bairro- 
alto, notável pela sua apparencia de vetustez, 
pelos numerosos medalhões embutidos nas pa- 
redes exteriores e interiores, pelas pedras lavra- 



das dos ante-peilos das janellas, finalmente, o 
paço romântico, lendário, sobre o qual a imagi- 
nação de tantas gerações académicas accumulou 
memorias históricas, fazendo d'elle antiga casa 
dos Templários, e theatro da tragedia de D. Ma- 
ria Telles. 

Em historia, tudo o que seja apurar a ver- 
dade, parcce-nos de uma grande importância, 
porque a historia não é mais do que a verdade 
dos factos em si mesmos e nos seus accidentes 
correlativos. Portanto vamos demorar-nos um 
pouco n'esta questão de arcbeologia, que pelo 
menos alguns dos nossos leitores verão com 
agrado. 

Em 1871 , alguns folhetins do interessante pe- 
riódico O Conimbricense {(WimeTOs de 10, 14 e 
24 de outubro), tratando largamente do Paço de 
Sub-Ripas, e chamando a atteoção do publico 
para o facto histórico que se dizia ter succedido 
ali, atacaram frente a frente a velha tradição de 
que fora n^essa casa que o infante D. João assas- 
sinara D. Maria Telles. A transcripção dos fo- 
lhetins do Conimbricense tomar-nos-ia grande 
espaço, mas em compensação ministraremos ao 
leitor um noticioso artigo do Er. dr. Augusto 
Filippe Simões, do qual se concluo que a con- 
strucção do paço de Sub-Ripas é posterior ao as- 
sassinato de D. Maria Telles, parecendo datar 
do século XVI, reinados de D. Manuel e D. 
João III. 

I 

«Andava em tradição que aos templários per- 
tencera a velha casa edificada sobre a muralha 
na rua de Sub-Ripas, e que abi fora assassinada 
D. Maria Telles por seu marido, o infante D. João. 

«A ordem' dos templários extinguiu-se no 
reinado de D. Diniz. Nem por esse tempo, 
nem ainda depois, no reinado de D. Fernando, 
cunhado de D. Maria Telles, as obras de defesa 
da cidade estavam tão abandonadas, ou eram de 
tal sorte desnecessárias, que sobre ellas permit- 
lissem edificações que as tornassem incapazes 
de servir ao fim para que tinham sido feitas, e 
para o qual, durante a edade-media, eram de 
continuo reparadas e accrescentadas. 

«Por outra parte, não apparecem memorias de 
ter havido .em Coimbra casa de templários. E, 
tendo o infante vindo de noite com um bando 



262 



Historia da Portugal 



armado para assassinar sua mulher, ULmbem n&o 
é crivei que lhe franqueassem as portas da ci- 
dade que Eómeote de dia permaneciam abertas. 

«A chronica de Fern&o Lopes refere o caso por 
miúdo no arrabalde da cidade, n&o longe da 
egreja de S. Bartholomeu. Não vômos razões ne- 
nhumas para rejeitar esta versão a todos os res- 
peitos admissível. 

<D'oode se depreheode que nem foi dos tem- 
plários nem serviu de theatro ao crime do in- 
fante D. João a casa da rua de Sub-Rípas. 



II 



«Em 1514 o licenciado João Vaz, proprietário 
de uns pardieiros situados defronte de uma torre 
que hoje faz parte da casa onde falsamente se 
diz ter sido assassinada D. Maria Telles, reque- 
ria á camará de Coimbra que lhe ratificasse o 
contracto de doação,' que lhe fizeram Bastião 
Gonçalves e sua mulher Catherina Ânnes e sua 
mãe Catherina Fernandes, d'aquella torre sobre 
a riba da cidade com seu lanço de muralha, tudo 
em frente dos seus pardieiros. Requeria mais o 
licenciado que licença lhe fosse dada para con- 
struir um balcão ou passadiço, atravessando a rua 
para ligar os mesmos pardieiros com a proprie- 
dade que de novo adquirira. 

«A camará, posto que não sem difficuldade, 
concedeu a licença pedida. E hoje vômos ainda 
no cimo da rua de Sub-Ripas a casa com a torre 
que fora de Bastião Gonçalves, ligada pelo pas- 
sadiço â casa em que se transformaram os par- 
dieiros do licenciado João Vaz. 



III 



«Designaram-se com muita claresa na escri- 
ptura de doação da torre as suas confrontações. 
Partia do norte com a torre do prior do Ameal, 
que é a que ainda hoje subsiste, transformada 
em casa de habitação, junto da porta do Collegio 
Novo; do lado do sul com casas do sr. D. Pilippe; 
da parte do poente com a barbacã da cidade; do 
nascente com a rua publica e com os pardieiros 
do licenciado. 

«Em outubro de 1871 publicaram-se no Co- 
fdmbricense os documentos, d'onde extrahimos 
todas estas indicações. Longe de Coimbra, lemos 



a interessante discussão que esses docum^iios 
suscitaram e que deixou plenamente provado 
que D. Maria Telles não fora. assassinada na rua 
de Sub-Ripas. Querendo, porém, interpretrar as 
confrontações referidas, aventámos que, se a 
torre doada por Bastião Gonçalves a João Vaz 
estivesse da parte de cima da casa, e de forma 
que mostrasse poder ter sido outr'oni um prédio 
separado, a do sr. D. Pilippe não seria outra 
senão a mesma que andava attribuida aos tem- 
plários e aonde se referia o assassmato de D. Ma- 
ria Telles. 

«Vindo, porém, depois a Coimbra, conhe- 
cemos que faltava à nossa hypothese o pre- 
Bupposto fundamento, qual era o da ante- 
rior separação da torre. 



IV 



«Em 1514 quem se encaminhasse á rua de 
Sub-Rípas, chamada mais arrasoadamenten^essa 
epocha, rua de Sobre-^-Riba^ acharia tudo mui 
diCTerente do que hoje vemos. 

«Do lado esquerdo, principiava a ma pelos 
pardieiros do licenciado João Vaz. Do lado di- 
reito, não havia mais que as torres de defesa 
com seus respectivos lanços de muro. Mais 
abaixo, do mesmo lado direito e talvez desvia- 
das para a parte da porta d'Almedina, as casas 
do sr. D. Pilippe que ninguém sabe quem fosse. 
Em frente dos pardieiros, a torre que hoje se vê 
incorporada na casa que ainda ent&o não exis- 
tia. Logo acima, a torre que era do prior do 
Ameal e que hoje também subsiste com algumas 
de suas velhas janellas ogivaes. Mais acima, no 
logar onde vômos o edificio do Collegio Novo, 
prolongava-se a muralha com suas torres, con- 
torneando do poente para o norte a cidade até 
à porta nova, que depois se chamou do Collegio 
Novo. 

«Tornando-se desnecessárias as muralhas por 
ter findado a epocha bellicosa da edade media, 
já então começavam a edificar sobre ellas, de 
modo que em 1552 a camará cedeu ao mosteiro 
de Santa Cruz para o edificio do collegio novo 
ou da Sapiência um pedaço de chão á porta 
nova com seu muro e barbacã e o dominio di- 
recto das torres e muros aforados ao licenciado 
João Vaz, a Gonçalo de Rezende e a Simão Af- 



Historia de Portugal 



j^6d 



foDso desde a torre do coUegio de Jesus até 
abaixo das casas do inesiDO Simfto. ^ 

«D'oDde se deprehende que o licenciado Jo&o 
Vaz tinha o partictdar gosto de adquirir muros e 
torres por aquelles sitios; que, alem da que lhe 
doara Bastifto Gonçalves, aforara provavelmente 
a do prior do Ameal, que ainda hoje se conserva 
de pé e pertence ao mesmo proprietário, e ou- 
tras que se seguiam para o norte, as quaes fo- 
ram demolidas para em seu logar se edificar o 
GoUegio Novo. 

V 

«Depois do anno de 1514, construiu-se na 
torre que fora de Bastião Gonçalves e sobre a 
muralha e terrenos adjacentes a casa apalaçada, 
cuja porta a photographia representa. Tanto a 
porta como as janellas do primeiro andar s&o 
de pedra graciosameote lavrada n'aquelle estylo 
que somente se usou em Portugal no reinado 
de D. Manuel e que lhe herdou o nome. Às do 
segundo andar são mais simples, porém ainda 
do século xvr, parecendo indicar que os dois 
andares foram construídos em epocbas differen- 
tes, o que também faz provável a côr diversa 
das paredes de certa altura para cima, tanto do 
lado da rua, como da parte opposta. 

«Vivendo, como vimos, em 1552 o licenciado 
Jo&o Vaz, e, achando-se na casa em que se 
tranformaram os seus pardieiros as datas de 
1542 e 1547 na parede da rua, e em certa ja- 
nella do pateo, oonclairemos com alguma pro- 
babilidade que: 

«1.**— O primeiro andar da casaconstruidana 
torre e junto d^ella remonta ao reinado de D. 
Manuel. 

«2.'^0 segundo andar da mesma casa, o 
passadiço, todo elle, ou pelo menos o andar su- 
perior, e a casa fronteira, onde eram os pardiei- 
ros do licenciado, foram construídos no reinado 
de D. Jo&o III. 

VI 
«Em todas estas construcções, nas paredes 

1 índices e sammarios dos livros e documentos 
mais antigos 6 importantes do archivo da camará 
municipal de Coimbra, pelo sr. J. C. Ayres de Cam- 
pos, pâg. 4. 



exteriores e interiores, estão embutidos nume- 
rosos medalhões, representando figuras de da- 
mas e guerreiros e santos em meio corpo e em 
baixo relevo. No pateo da casa onde foram os 
pardieiros vé-se n'um doestes medalhões o rei 
David tocando harpa. Outro representa Dido, ou- 
tro uma mulher com o nome de Martha. 

«Servem de ante-peitos a algumas janellas 
doesta casa pedras lavradas com emblemas, como 
é, por exemplo, um lagarto ou salamandra, pa- 
recendo que as janellas foram accommodadas ás 
pedras e nào as pedras ás janellas. 

«Cremos que os medalhões e tantos outros 
fragmentos de escuiptura não seriam lavrados 
de propósito para ornar sem ordem alguma as 
paredes, porém que, tirados de algum antigo 
edificio, por esse tempo demolido, os aproveita- 
riam para arrebicar de modo tão irregular como 
insólito as paredes das duas casas e do passadiço. 

«Abundam por entre os outros fragmentos va- 
rias misulas introduzidas nas paredes e muitas 
cruzes de Cbristo. Viriam também de outra parte 
estas pedras ? 

«Se tivesse havido em Coimbra uma casa da 
ordem de Cbristo, anterior ao collegio de Thomar 
edificado em tempo de el-rei D. João m, diría- 
mos que demolida tal casa, d'ahi se transporta- 
riam as pedras esculpidas para a rua de Sub-Rí- 
pas. Não ha, porém, memoria que auctorise 
similhante supposição. 

«Assim, temos por enigma actualmente inde- 
cifrável esta singularidade das casas do licenciado 
João Vaz, que também com a torre das janellas 
ogivaes, vieram a pertencer, não sabemos em 
que tempo aos srs. Perestrellos, em cujo cartório 
se guardam os documentos publicados no Cmim- 
bricensey em outubro de 1871.» ^ 

Em vista do que diz Fernam Lopes, e dos ar- 
gumentos compendiados no artigo do sr. dr. A. 
F. Simões, parece não restar duvida de que D. 
Maria Telles não foi assasinada no Paço de Sub- 
Ripas, mas no bairro baixo, e nas proximida- 
des da egreja de S. Bartbolomeu, sem que todavia 
seja hoje possível determinar n' essas proximida^ 
des a ma nem a casa. 

Como quer que seja, principiava a amanhe- 

^ Panorama photographieo de Porfugalf vol. 2«« 
n.«8. 



i264 



Historia de Portugal 



cer o dia 28 de novembro de 1377, jostaroente 
quando o infante e os seus chegavam às caaas 
de Âivaro Fernandes de Carvalho. Estavam ainda 
as portas fechadas, mas, casualmente, não tar- 
dou que uma serviçal, que tinha que sahir para 
ir lavar roupa, as destrancasse. Entraram logo to- 
dos a uma sala onde acharam dormindo algumas 
mulheres, e ahi Diogo Affooso e Garcia Affonso 
estiveram fallando aparte com o infante. Finda 
a mysteriosa conversação, os dois tornaram para 
junto dos outros, e o infante perguntou por D. 
Maria, a qual estava deitada na sua camará, 
com as portas fechadas. D. João, como um sal- 
teador que se arreceia de que a sua victima es- 
cape por qualquer avenida de uma encrusilhada, 
perguntou se havia na casa outra sabida. Res- 
ponderam-lhe que não, e então o infante disse 
aos seus que arrombassem as portas da camará, 
D. Maria accordou em sobresalto, e lançou-se 
fora do leito com tanta precipitação, que só teve 
tempo de envolver o corpo na colcha da cama. 
Quando o infante entrou, estava ella, tremula, 
pallida, desfigurada, amparada a uma das pare* 
des da camará; mas, quando o viu, pareceu 
socegar. Segundo Fernam Lopes, a quem es- 
tamos seguindo n'esta narração, D. Maria disse 
ao infante: «Ó senhor, que vinda é esta tão 
desacostumada!» D. João respondeu aocusan- 
do-a de ter feito constar que elle a havia des- 
posado, chegando a noticia ao conhecimento do 
rei e da rainha, que teriam pretexto para o 
mandar matar ou prender; mas se era verdade 
que ella fosse sua mulher, que então devia mor- 
rer, porque tinha atraiçoado a fé conjugal. 

• Que lógica a do infante ! Nem siquer a per- 
versa phantasía lhe forneceu elementos bastan- 
tes para engendrar um romance verosímil de 
adultério ! É a fabula do lobo e o cordeiro posta 
em acção: se não é mulher do infante, deve 
morrer, porque fes constar que o era; se é, tam- 
bém deve morrer, porque o atraiçoou. Dilemma 
horrível de um assassino que tem pressa ! 

B dizeodo, lançou-lhe logo a mão. 
^ D. Maria pediu-lhe então que a não matasse 
sem a ouvir, que lhe concedesse alguns momen- 
t08 de defesa, que fizesse sahir os que o acom- 
panhavam, e estavam á porta, 
o. A resposta foi esta: «Não vim eu aqui para 
estar comvosco em palavras», verdade que q 



infante deixou escapar dos lábios e que revda 
claramente a infame premeditação do crime. 

B arrancando com um rápido movimento a 
colcha, deixou o alvo corpo de D. Mana ex- 
posto ãs vistas dos que o acompanhavam, sendo 
que os mais d^elles recuaram envergonhados. 

Um lacaio não teria feito melhor. 

Então, o infante vibrou o bulhão, aquelle bu- 
lhão que o conde de BarceUos lhe dera, sobre o 
laído esquerdo do peito, procurando o coração. 
D. Maria soltou um grito, e invocou o nome da 
Mãe de Deus, para. que lhe acudisse. O infante, 
arrancando o bulhão, feriu-a de novo nas veri- 
Ihas. «Jesus, filho da Virgem, acudi-me» taes 
foram as ultimas palavras de D. Maria Telles. 

Com as mãos ainda tintas de sangue quente, 
o infante D. João cavalgou e atravessou com os 
seus a ponte do Mondego, fugindo rapidamente, 
ao tempo que, ouvindo o pranto que faziam os 
familiares de D. Maria Telles, muitos dos ha- 
bitantes da cidade principiavam a aiQuir ãs casas 
de Álvaro Fernandes de Carvalho. Entre esses, 
acudiu o alcaide-mór da cidade, D. Gonçalo Men- 
des de Vasconcellos, que era tio materno de 
D. Maria. 

Chegada a noticia á c6rte, a rainha vestiu dó 
para simular sentimento, mas particularmente 
dizia ao rei que não fisesse caso, parque eram 
coisas que aconteciam pelo mundo. Entretanto 
o assassino divagava pela fronteira da Beira- 
Baixa, com um pé em Portugal e outro em 
Leão, prompto a fugir ã primeira vos, e im- 
paciente de receber a recompensa do crime. 
Mandava emissários â rainha sua cúmplice ia- 
Btando pelo perdão ostensivo, ofBcial, para vol- 
tar à corte. Os mensageiros umas vezes lhe 
levavam noticias que o socegavam, outras que 
o inquietavam, e certo dia foram dizer-lheqoe 
D. Gonçalo Mendes de Vasconcellos, acompa. 
nhado de seus sobrinhos D. João Affonso, D. Gon- 
çalo Telles e D. Lopo Dias de Sousa» filho de D. 
Maria, se juntavam para o perseguir. Então o in- 
fante, atemorisado, redobrou de instancias para 
a corte; interessavam-se por elie sen tio D. Ál- 
varo de Castro, o prior do Hospital D. fr. Álvaro 
Gonçalvea, Ayres Gomes da Silva e, o que mais 
importava, a rainha. Com effeito, foram expedi- 
das cartas de perdão, e o infante, tomando a 
precaução de se fazer acompanhar 4^ oentQ Q 



Historia de Portugal 



266 



cJDCoenUk cavalleiros, dirigiu-se a Santareiti, 
d*onde mandou perguntar a D. Fernando, que 
eslavB, ein Salvaterra de Magos, se poderia en- 
trar na corte com aquella gente toda. O rei res- 
pondeu afBrmativamenle, e os dois irm&os da 
rainha, o conde de Barcellos e o conde de Neiva, 
foram esperal-o a Santarém, para lhe darem as 
boas^vindas! 

D. Jo&o demorou-se alguns dias em Salva- 
terra, divertíndo-se a montear com o rei, que 
lhe mandou pagar as tenças e moradias atrasadas 
e correntes, porque o infante precisava remune- 
rar grande numero dos homens que o tinham 
acompaúhado, e que queria despedir, como ef- 
fectivamente fez. Vendo-se tão festivamente re- 
cebido, D. João atacou o ponto principal da 
questão, lembrou a promessa do seu casamento 
com D. Beatriz, mas, ao contrario do que espe- 
rava, viu retrair-se a rainha. Poderá! O secreto 
plano de D. Leonor era livrar-se primeiro da 
irmã, e depois do cunhado, porque só lhe con- 
vinha que a fifha casasse para Castella, a fim de 
poder ficar regente do reino em seu nome. Uma 
vez regente, D. Leonor pensava em achar meio 
de fazer com que o infante se retirasse a Cas- 
tella, onde o mandaria prender ou matar. 

Has as desculpas que se davam ao infante 
eram estas: que em primeiro logar era preciso 
tempo para annullar os esponsaes de D. Beatriz 
com o duque de Benavente; que em segundo lo- 
gar era preciso requerer dispensa em Romã para 
elle poder casar com a infanta, de quem era tio; 
é, como conclusão d'e8tas duas rasões, que tudo 
isto levava tempo, e que portanto tivesse menos 
pressa em casar com D. Beatriz do que tivera. . . 
em matar D. Maria Telles. 

Então o infante, despeitado, sahiu da corte, 
com 08 poucos homens que conservara ao seu 
serviço, e dirigiu-se para o Porto, seguindo para 
Entre-Douro-e-Hinho. Mas como se a sombra de 
D. Maria Telles principiasse a perseguil-o, e o 
infante lhe quizesse fugir, resolveu-se a atra- 
vessar o Douro, a entrar na Beira-Baixa. Soara 
a hora da punição. Escarnecido pela rainha e 
pelo conde de Barcellos, pungido pelo remorso 
de ter assassinado sua própria mulher, falto de 
recursos, porque da corte faltavam já com as 
remessas das tenças e moradias (talvez calculo 
dê 0. Lieãiior pafá ò obri((ar a ir procurar recur- 

I] YOL.— 34. 



SOS em Castella), tendo que empenhar não só as 
armas e os vestidos, mas até os cães de caça, tal 
era a justa situação do infante. N'isto, quando 
vivia homisiado pelas margens do Côa, passando 
horas e horas a chorar solitário e salteado de 
remorsos, foram dizer-Ihe um dia que o mestre 
de Christo o perseguia com um bando de caval- 
leiros para vingar a morte de sua mãe, boque- 
jando-se também que esta perseguição seria 
secundada por D. Leonor e pelo conde de Bar- 
cellos, que pretendiam agora desafrontar a me- 
moria da irmã, cujos algozes foram ! O infante, 
cheio de medo, desceu pela fronteira até chegar 
a Villar Maior; parou ahi por haver um castello, 
onde se julgou a seguro, trazendo, porém, vigias 
que o podessem avisar de qualquer perigo. Com 
effeito, certa noite foram dizer-lhe que o mestre 
de Christo, com o seu bando, o alcançaria antes 
de romper a manhã. Em pouco mais de vinte 
annos era o segundo bando que se levantava 
para vingar a morte afTrontosa de uma mulher ! 
Então o infante deu-se pressa em fugir, apenas 
acompanhado por Garcia Affonso e Diogo ABoií- 
so, com mais quatro criados, sem nada dizer aos 
outros ; e, atravessando a fronteira, jornadeou 
para S. Felices de los Gallegos, onde sua irmã 
D. Beatriz, mulher do conde D. Sancho, estava. 

Nos casaes circumpostos ao castello de Villar- 
Maior tinham-se aposentado os outros cavalleiros 
dò séquito do infante, o qual tratou de passar a 
fronteira apressadamente, deixando-lhes recado 
de que não fossem ter com elle, e procurassem 
abrigo onde melhor lhes parecesse. Condigno 
galardão da dedicação com que aquelles homens 
sempre o tinham acompanhado, até mesmo 
quando D. João deixara de ser príncipe para 
tornar-se assassino! Ficaram fulminados com 
esta noticia os cavalleiros. Pernam Lopes observa 
com rasão que, vendo fugir o infante com medo, 
quanto não ficariam receiosos por suas vidas os 
que o tinham acompanhado ! E acrescenta: lEn- 
tão se confortaram uns com outros, e foram to- 
dos arramados cada um a sua parte, como a' 
frota das naves no mar, quando é perseguida de 
grande tormenta.» 

De S. Felices de los Gallegos tratou o infante 
de ganhar a amisade do rei de Castella, o qual 
effectivamente o chamou á sua corte recebeu^ 
dò-b com muitas honras e mercês, e dando-lhe 



dõ6 



Historia 4o Portii^l 



em casamento sua filha D. Constança. È notável 
que o infante D. João podessc encontrar mulher 
que o recebesse por esposo depois do assassinato 
de D. Maria Telles ! Parece que o acaso teve o 
capricho de reunir no acontecimento que vimos 
narrando um grupo de caracteres verdadeira- 
mente dcspresiveís: O infante D. João que calum- 
nia e mata sua mulher para ser rei de Portugal; 
D. Leonor Telles, a adultera que se vende a 
D. Fernando, a quem mais tarde atraiçoa com 
o conde Andeiro, e que entra na conspiração que 
prepara o assassínio da irmã; o conde de Barcel- 
los que offerece ao assassino o punhal com que 
elle ha de ferir uma mulher innocente, sua irmã 
também; Garcia Affonso e Diogo AfTonso conspi- 
radores subalternos que ajudam a tecer a intriga 
contra D. Maria Telles açulados pelo dinheiro da 
rainha; D. Beatriz, a amante incestuosa de um 
irmão, dando guarida a outro que fugia ao braço 
vingador do filho da victima; o rei de Castella 
Henrique ii dando uma filha sua ao homem que 
não punha duvida em cortar á ponta de punhal 
os laços do hymeneu; finalmente, D. Fernando 
de Portugal que faz, n'este deplorável aconteci- 
mento, como em muitos outros, o papel de idiota, 
simples joguete nas mãos de D. Leonor Telles. 

A fazer contraste com todos estes caracteres 
ha o de D. Maria Telles, a quero a ndorie re- 
dime de qualquer ligeira macula de ambição 
que se lhe possa divisar, e o de seu filho D. 
Lopo, que vae seguindo, de província em pro- 
víncia, o rastro de sangue materno que o pu- 
nhal do infante deixava escorrer, no empenho 
do retalhar o coração do algoz com o mesmo 
ferro que arrancara a vida da victima. 

Bossuet assignalava como origem dos factos 
históricos a vontade secrita da Providencia, 
Depois de Bossuet, a philosophia da historia, 
alargando as suas vistas, poz de parte a Pro- 
videncia, e assignou causas complexas aos phe- 
nomenos sociaes. 

Nó<4 não queremos por modo algum mostrar 
que o nosso espírito se acha, n*estes assumptos, 
aferrado a uma ingenuidade que era inteira- 
mente desculpável no tempo do erudito prelado 
de Meaux mas que seria hoje porventura risível 
para a maior parte dos leitores; como quer que 
seja, porem, parece que a phantasia se compraz 
em descobrir na successão do tempo a mão vin- 



gadora dos desatinos humanos e dos crimes so- 
ciaes, e, no caso sobre que estamos escrevendo, 
essa mão justiceira como que se adivinha atra- 
vez da historia quando vemos mais tarde o in- 
fante D. João preso em Castella por ordem do 
successor de Henrique ii, que se arreceia da 
concorrência d'elle, bem como da do conde de 
Gijon, seu irmão, á coroa de Portugal; quando 
vômos Leonor Telles morrer abandonada do con- 
vento de Tordesillas, encarcerada pelo próprio 
marido de sua filha, expiando no silencio do 
claustro e no-s desprezos do mundo os enormes 
crimes que tinha praticado. 

Duas mulheres, ambas rainhas, vieram a ex- 
pirar em Tordesillas, Joanna, a Doida^ e Leonor 
Telles, a adultera. Uma, mulher de Filíppeio 
Bello; outra, esposa de Fernando i, o Formoso. 
Mas uma que é victima, e outra que é algoz; 
uma contra quem o marido conspira para lhe 
arrancar o poder real que lhe pertencia por he- 
rança, outra que conspira contra sua própria 
irmã para conservar á viva força esse poder; 
uma que enlouquece por amar o marido com 
uma ternura que o ciúme exalta até á demência, 
outra que vae passando de adultério em adulté- 
rio até deixar a sua memoria tão ennegrecida 
como a sua honra; uma cuja melancólica lou- 
cura inspira a doce sympathia dos grandes 
infortúnios, outra cujo nome provoca uma con- 
demnação eterna fulminada do alto do santuá- 
rio da justiça por este juiz inconcusso, immaca- 
lado, incorruptível, que se chama Historia. 

Bossuet, se se tivesse referido a estes aconte- 
cimentos, haveria escripto: À Providencia fez 
com que estas duas rainhas morressem em Tor- 
desillas, á distancia de séculos, para que a me- 
moria d*uma fosse a condemnação da outra. 

Mas Bossuet teria auctoridade e opportuni- 
dade para o dizer. 

CAPITULO IV 

Politica europea.— Espedalmente, aoonte- 
olxnentos politioos de Portugal com rela- 
ção ao estrangeiro. — Qnerracom Gastella. 
—Iniciação militar de D. Nuno Alvares 
Pereira. 

Um importante acontecimento religioso prin- 
cipia agora a desdobrar-se na tela da historia, 
acontecimento cujas vastas ramificações encon- 



fiistorla dó Portugal 



267 



traremos ainda na chronica de reinados sub- 
sequentes. Referirao-nos ao grande scisma do 
occidente, que vae de 1378 a 1449. Chanlrel 
condensa em poucas liobas, que vamos tradu- 
zir, e que ligeiramente commentaremos, as ori- 
gens do scisma: «Tiveram os papas — diz elle — 
graves rasões para transportar a sua residência 
a ÁvígnoD; é, porem, para lamentar que esco- 
lhessem a maior parte dos membros do Sacro- 
Coliegio entre os francezes. Foi essa uma das 
causas principaes do scisma que se seguiu i 
morte de Gregório xi. Quando se tratou de ele- 
ger um successor a este papa, os cardeaes fran- 
ceces pensaram em nomear um francez que 
residisse em Avignon; os italianos queriam um 
italiano, e o povo de Roma, receia ndo ter que 
soffrer um novo exilio do papado, foi gritar em 
tumulto ás portas do conclave que queria um 
papa romano ou pelo menos italiano. Assustados 
os cardeaes, se bem que não constrangidos so- 
bre a escolha da pessoa, elegeram unanima- 
mente Bartholomeu de Prignano, arcebispo de 
Bari, homem piedoso, instruido, geralmente con- 
siderado, e que tomou o nome de Urbano vi 
(1378). A alegria foi universal; seis cardeaes 
que permaneceram em Avignon acceitaram a 
cscolba dos seus coUegas; durante quatro me* 
zes a Egrcja reconheceu apenas um chefe. Des- 
graçadamente, Urbano vi, que tinha boas inten- 
ções e resolvera extirpar os abusos, não o soube 
fazer com discrição; irritou portanto os cardeaes 
que tratava com excessiva severidade. Os car- 
deaes francezes, enfastiados já de estarem em 
Roma, entraram de pôr duvidas sobre a vali- 
dade de uma eleição feita em pleno tumulto 
popular; pelo menos simularam taes duvidas, e 
retiraram-se para Anagni com o cardeal ara- 
gonez Pedro de Luna; após algumas hesitações, 
declararam intruso Urbano vi. Passaram depois 
a Fondi, no reino de Nápoles, e elegeram o 
cardeal Roberto de Genebra, que tomou o nome 
de Clemente vii. A christandade achou-ec então 
dividida entre duas obediências: a França, a 
Castella, o Aragão, Portugal, a Saboya, a Escó- 
cia, a Lorena e o reino de Nápoles declararam-se 
por Clemente vii, que se fixou no palácio de 
Avignon; as outras nações, a Inglaterra, a Àlle- 
manba, a ITungría, a Polónia, os Estados Scan- 
dinavoa, o resto da Itália manifestaram-se pelo 



papa até ahí geralmente reconhecido. As .cir- 
cumstancias eram taes, as declarações dos car- 
deaes tão calhegoricas, que chegou a haver 
duvida nos espíritos de boa fé; todavia era este 
apenas um scisma material, não moral, porque 
nas duas obediências, não se cria que houvesse 
doid papas legítimos, mas um só; uns e outros 
se conservavam fieis ao successor legitimo de 
S. Pedro, e havia apenas incertesa sobre a pes- 
soa d esse successor.» 

Chantrel, escrevendo sob o seu ponto de vista 
orthodoxo, deixa de relatar episódios curiosos, 
e adoça outros que foram bem pouco edifican- 
tes. Um dVstes últimos foi certamente a ar- 
gúcia com que os cardeaes reunidos no conclave 
quizeram enganar o povo romano, dizendo-lhe 
que o cardeal de S. Pedro é que lioba sido eleito 
papa. O povo quiz logo sental-o na seda papal, 
e o pobre cardeal, todo afilicto, dizia: «Deixae- 
me que não sou papa, mas o que deveis ter 
como tal é o arcebispo de Bari.» Uma verda- 
deira comedia, que tinha unicamente por fim 
enganar o povo romano. Aquelle aborrecimento 
de Boma que Chantrel attribue aos cardeaes 
francezes não deixa de ter sua graça. Sabem 
do que procedia o iiborrecimento? Dil-o por 
claro o nosso Fernam Lopes. Foi porque o papa 
havia reprehendido os cardeaes, recommendan- 
do-lhes que vivessem modesta e honestamente. 

Um período de Pinheiro Chagas vae agora 
revelar-nos qual foi a attitude do rei de Por^ 
tugal em presença do grande scisma do occi- 
dente: 
. «Mas é notável que, ao passo que esta ques- 
tão religiosa inflammava os espirites na Europa 
toda, a ponto de haver guerra sanguinolenta 
entre os urbanistas e os dementistaSy D. Fer- 
nando, indifferenle como verdadeiro sceptico, 
reconhecia o papa Clemente a pedido do rei 
de Castella, reconhecia o papa Urbano quando 
se alliava com os inglezes, voltava a reconhecei: 
o pontífice de Avignon, quando se rompia essa 
ali í anca.» 

Ora O' rei de Castella a quem o sr. Pinheiro 
Chagas se refere não era já D. Henrique ii, que 
fallecera a 29 de maio d'aquelle anuo de 1378» 
mas seu filho D. João i, e se o novo rei caste- 
lhano pedira a D. Fernando que reconh^esse o 
papa Clemente, era porque o rei de França lhe 



9PS 



pintQria a» P^rtognl 



tinha feito egual pedido: «porque o rei de França 
— diz Pemam Lopes — , que havia gran liga com 
el-rei de Caetella, enviou a elle seus embaixa- 
dores, dizendo, que o eleito chamado Clemente, 
era verdadeiro papa, o qual alguns diziam que 
era seu parente. n D. Fernando, recebendo o pe- 
dido do rei de Gastei la, consultou sobre o caso 
os lettrados do reino, que foram contrários ao 
reconhecimento de Clemente vii; mas D. Fer- 
nando pouco se importou com isso, e seguindo 
mais a affeiçào da carne que ojuizo da rasâOj 
reconheceu o papa Clemente deixando descon- 
tentes 08 do seu conselho, e o povo. 

A 4 de outubro do anno a que nos vimos refe- 
rindo, nasceu na cidade de Burgos um filho do 
Qovo rei de Castella D. João i e da raioha D. Leo- 
nor i^a mulher, filha do rei D. Pedro de Aragão, 
recebendo o infante, que devia occupar um dia 
o throno de seu pae, o nome de Henrique. 

D. Fernando de Portugal, cuja politica faz 
lembrar os movimentos caprichosos de uma 
ventoinha posta no topo de um zimbório, e cuja 
ínonománia casamenteira chegava a parecer lou- 
cura, lembrou-se (ou antes, lembrou-]h'o a rai- 
nha) de desfazer o contrato de casamento de sua 
filha a infanta D. Beatriz com o duque de Bena- 
vente, filho bastardo de Henrique ii para nego- 
ciar novo casamento da mesma infanta com o 
pequenino infante D. Henrique, filho do novo 
rei de Castella. Foram encarregados d*esta ne- 
gociação o conde D. João ÂfTonso tello, irmão 
de D. Leonor, e Gonçalo Vasques do Azevedo, 
senhor da Lourinhã. D. João de Castella ap- 
plaudiu a lembrança, pelo mesmo motivo que 
ella nasceu no espirito de D. Fernando ou da 
rainha: a ambição. Logo o demonstraremos 
quando tratarmos das condições do contrato 
nupcial. O rei de Castella, por sua vez, enviou 
embaixadores a Portugal, e o tratado assígnou-se 
em Portalegre com as seguintes clausulas: «Que, 
chegando o infante D. Henrique â idade de sete 
annos, el-rei de Castella s^u pae o desposaria 
com a infanta D. Beatriz de Portugal por palavras 
de presente; e quando elle chegasse á idade de 
14 annos fizesse suas bodas publicamente. — Que 
el-rei de Castella no mez de setembro convocaria 
cortes em seu reino, nas quaes faria jurar os 
ditos infante e infanta, reis, depois da sua morte; 
e que houvesse do papa a dispensa para pode- 



rem casar. — Que daria logo ao dito infante seu 
filho Lara e Biscaya, com seus condados; e qoe 
a infanta, vjndo a ser rainha, teria todas as vil- 
las, e cidades, que costumam ter as rainhas de 
Castella. — Que, morrendo o infante depois de 
ter com ella ajuntamento, teria ella, por honra 
de seu corpo, Medina dei Campo, Calhar, Madri- 
gal, Olmedo e Aravalo.— Que morrendo o dito 
infante sem ter filho d'ella, ou não se fazendo o 
casamento, sem culpa d'ella, e morrendo el-rei 
de Portugal, sem deixar filho herdeiro, cl- rei de 
Castella ajudaria a dita infanta a cobrar o reioo, 
e manter em sua honra. — Que sendo elles reis 
primos co-irmãos por parte de suas mães, e 
parentes no terceiro grau poi* seus pães, no caso 
que de nenhum d'elles se achasse por linha di- 
reita descendente varão, ou fêmea, legitimamente 
nascida, el-rei de Castella poderia herdar o$ 
reinos de Portugal, ou o de Portugal os reinos 
de Castella, —Que ambos os reis antes do mez 
de maio seguinte se avistariam pessoalmente 
para approvarem mais firmemente^ o que por 
seus procuradores foi estipulado n*este tratado. 
—Que el-rei de Portugal daria em reféns, para 
segurança d*e8tas vistas, os castellos de Porta- 
legre, e Olivença, os quaes teriam o conde de 
Ourem, e Gonçalo Vasques; e el-rei de Castella, 
Albuquerque e Valença d*AIcantara, que teriam 
Pedro Gonçalves de Mendonça e lobego Ortiz 
d^Estunhiga. » * 

Este contrato revela claramente a ambição do 
rei de Castella â coroa de Portugal, o que o le- 
vou a pôr de parte os interesses de seu próprio 
irmão o duque de Benavente, e a ambição do 
rei de Portugal ã coroa de Castella, o que o le- 
vou mais uma vez a faltar ã sua palavra; mas 
ainda mais claramente revela a influencia de 
D. Leonor Telles, levada da ambiç-ão de nasar 
sua filha com um príncipe que ao mesmo passo 
podesse ser rei de Castella e de Portugal, para 
ella ficar regendo este ultimo reino em nome do 
rei de ambos. 

Sempre, e em tudo, esta mulher fatal. 

Como vimos, seguidamente ao tratado de Sen- 
tarem, D. Fernando procurara em Inglaterra uma 
alliança contra o rei de Castella, mas como o 

1 Visconde de Santarém, Quadro elemefUar, vol. i. 
pag. 243. 



EUfltailiL da PQCtBoai 



m 



desejo de se viogar do rei de Aragão fosse maior 
qae o de desafTroatar o reÍDo dos vexames que 
havia soffrido por occasi«lo da invasão caste- 
lhana, dera a D. Henrique o auxilio que este 
lhe pedira contra o próprio rei de Inglaterra. Mas 
Eduardo iii morrera, stiacedera-lhe Ricardo ii, 
que se deixava dominar por seus tios, dois dos 
quaes eram o duque de Cambridge e o duque j 
de Lancastre. Este ultimo julgou, pois, que era 
occasião própria de renovar as suas prelenções 
à coroa de Castelia, e procurou a.ailiança de 
D. Ff mando contra o rei castelhano; D. Fer- 
nando sorriu com ã idf^a de poder matar dois 
coelhos com uma cajadada, porque por um lado 
entendia-se com o rei de Inglaterra contra o de 
Castelia por intermédio de João Fernandes An-r 
deiro, Gdalgo castelhano que tinba sido expulso 
de Portugal em virtude do. tratado de Santarém, 
e por oulro lado entendiase com o duque de 
Anjou para fazerem aliiança contra o rei de 
Arag&o. 1 

Pouco importou a D. Fernando ter recente- 
mente contratado o casamento de sua filba D, 
Beatriz com o filho do rei de Castelia. Para elle, 
08 tratados, especialmente os de casamento, 
eram verdadeiras teas de aranha: para se pren- 
der n'elles e para os desfazer. Estando em San- 
tarém, D. Fernando reuniu o seu conselho e 
disse-lhe que projectava fazer guerra a Castelia 
para vingar as affrontas que do rei D. Henrique 
Portugal havia recebido. Verdadeiramente gra- 
cioso ! Deixou morrer D. Henrique para depois 
procurar vingar contra o filho os aggravos que 
tinha recebido do pae. Os do conselho julgaram 
que D. Fernando os consultava a seria e pediram 
três dias para responder; ao cabo dVsse breve 
praso pronunciaram-se, como era natural, contra 
a guerra. D. Fernando sorriu, e dísse-lhes cyni- 
camente que os não queria ouvir sobre a con- 
veniência ou iuconveniencia da guerra porque o 
declaral-a era negocio resolvido no seu animo, 
mas que simplesmente desejava o aconselhas* 
sem sobre o inolbor meio de a fazer. 

João Fernandes Andeiro tinba secretas entre- 
vistas com o rei e com a rainha, e doestas en- 
trevistas diplomáticas nasceu no coração do 

* Visconde do Santarém, Quadro elementar, vol. 
ni, pag. 32 e seguintes. 



castelhano e da rainha a chamma do amor. 
Andeiro espreitava as occasiôes em que o rei 
sahia para estar só com D. Leonor. D. Fernando 
não tinha a menor suspeita de que ambos tra- 
massem contra a sua honra, antes se alegrava 
de ver que as negociações eram tratadas com 
tanto cuidado por parte da rainha e do embai- 
xador, e pensava, isso sim,, no melhor. meio de 
enganar D. João de Castelia, occultando-lhe as 
suas intelligencias com Ricardo ii de Inglaterra. 
Na corte boquejava-se já do escândalo, não 
obstante estar habituada a elles; mas ninguém 
se atrevia a fallar ao rei n^esse melindroso as- 
sumpto. 

D. Fernando, pensando sempre no melhor 
meio de enganar o rei de Castelia, tivera final- 
mente uma idéa... luminosa. Disse a João 
Fernandes Andeiro, depois de feitas as combi- 
nações diplomáticas, que largasse o incógnito, 
e apparecesse de repente em Leiria fingindo 
dirigir-se á côrtç. O rei, simulando querer ob- 
servar o tratado de Santarém, em virtude do 
qual João Fernandes Andeiro tinba sido ex- 
pulso de Portugal, pQandalo;ia prender, e sahir 
immediatamente do reino. EfTectívamente a co- 
media represenlo.u-se, o rei mandou prender 
João Fernandes Andeiro no castello de Leiria 
pelo seu grande valido Gonçalo Vasques d'Aze- 
vedo, ao qual o Andeiro entregara um gomil 
de crystal com ornatos de ouro para que o desse 
da sua parte á rainha, e que o encommendasse 
muito cm sua mercê. Depois foi mandado de 
soltura, com ordem para o Andeiro sahir imme- 
diatamente de Portugal, o que elle fez. 

Representou-se a comedia, que prometteu 
desde logo ser o prologo de um novo e vergo- 
nhoso drama de adultério, mas se as grelhas 
vieram a converter-se em settas coulra quem » 
inventara, reallsaria ella ao menos o fim a que 
era destinada, enganaria o rei de Castelia? 

Nem isso. 

O boato da nova guerra espalbouse rapida- 
mente em Portugal, e, passando a fronteira, 
chegou aos ouvidos de D. João i de Castelia. 
Soube elle logo da aliiança dos inglezes com os 
portuguezes no propósito de sustentarem pelas 
armas a pretenção do duque de Lapcastre ao 
throno castelhano. 

Este boato não tardou a ser confirmado pelo 



Mb 



fikrtoria' de' ^rtiigai 



r 

facto de D. Fernando mandar armar galés e no- 
mear fronteiros para o Alemtéjo. 

Finalmente, em maio do anno de 1381 a 
guerra enlre Portugal e Castella foi declarada 
publicamente. 

Emquanto três exércitos, o portuguez, o cas- 
telhano e o inglez sé preparam para entrar em 
campanha, retrocedamos nós um pouco, saiba- 
mos quaes foram as condições com que João 
Fernandes Ândeíro negociara com D. Fernando. 
Oiçamos o visconde de Santarém a este respeito: 

«Decorreram cinco annos depois doesta epocha 
(refere-se â violaç&o do tratado de Londres) sem 
que houvesse transacção diplomática alguma 
com a Inglaterra, a julgarmos pela falta-de do- 
cumentos, e pelo silencio dos historiadores, até 
que em 23 de maio de 1380 Ricardo n deu uma 
credencial ao famoso João Fernandes Andei ro 
para ajustar uma alliança e tratado de mutuo 
auxilio entre a Inglaterra e el-rei D. Fernando, 
e a rainha D. Leonor sua mulher, conforme se 
havia estipulado nas antigas cartas e convenções 
com o dito rei. E com efifeito o celebre valido 
conseguiu que em 41 de julho do mesmo anno 
el-rei D. Fernando e a rainha D. Leonor confir- 
massem e tivessem por obrigatórios os tratados 
ajustados com Duarte ni, e que o mesmo João 
Fernandes Andeiro então plenipotenciário de 
Portugal havia assignado. B por outra carta 
patente de 15 do mesmo ratificou de novo as 
allianças que tinha feito com o duque de Lan- 
castre, e com D. Constança sua mulher, como 
rei e rainha de Castella l Finalmente prometteu 
o mesmo rei D. Fernando, que vindo a Portugal 
o conde de Cambridge, cum 1:000 homens d^ar- 
mas e 1:000 archeiros, acolheria o dito conde 
e as suas tropas como amigos, e que logo que 
chegassem romperia a guerra contra Castella 
em auxilio do duque de Lancaslre e de sua mu- 
lher, aos quae« elle dava o titulo de reis ! 

«Não se limitaram fó a estas obrigações, a 
que cl-rei subscreveéu, mas até prometteu, e 
se obrigou a que se o dito conde de Cambridge 
trouxesse comsigo seu filho, el-rei D. Fernando, 
o casaria com a infanta D, Beatriz sua filha 
herdeira e o faria proclamar e reconhecer rei 
de Portugal depois da sua morte, segundo o que 
fora promettido em seu nome por João Fernan- 
des Andeiro, fazendo directamente as mesmas 



declarações ao conde de Cambridge em carta 
datada do mesmo dia 15 de julho, assigoada 
também pela rainha D. Leonor. 

«Apesar de se achar a Inglaterra n*esta mesma 
epocha empenhada na guerra com a França e 
com a Escócia, el-rei dlnglaterra e o seu conse- 
lho julgaram não ser ínopportuno mandar tropas 
a el-rei D. Fernando para continuar a guerra 
com Castella. Mas esta resolução desagradou aos 
inglezes, em rasão de ter intentado el-rei de 
Portugal uma guerra de exterminação contra 
el-rei de Castella, na qual tinha sido mal suc- 
cedido, e porque foram as perdas que el-rei 
D. Fernando experimentara que o persuadiram 
a exigir da alJiança ingleza soccorros para con- 
tinuar a mesma guerra. Por outra parte não era 
fácil â Inglaterra destacar tropas, quando tinha 
que defender as suas costas marítimas. O cre- 
dito e influencia do duque de Lancastre era po- 
rém mui grande no conselho, o qual resolveu 
em consequência d'ella, mandar tropas a el-rei 
D. Fernando, tomando-se por pretexto que el-rei 
de Castella era mortal inimigo da Inglaterra, 
emquanto n*isto só prevalecia o interesse parti- 
cular do duque. Este assumiu o titulo de rei de 
Castella pelos direitos de sua mulher (filha do 
rei D. Pedro de Castella). Depois da approvação 
do parlamento organisaram-se as tropas, e fò 
dado o commando dVllas ao duque de Cambri- 
dge seu irmão. N*este momento a tregoa com 
Escócia estava a expirar, e o conselho resolveu 
em consequência propor ao rei d'Escocia a pro- 
longação d'ella, a fim de poder mandar as tropas 
para Portugal. Para este efiTeito mandou o con- 
selho embaixadores para a fronteira, onde se 
ajuntaram com os d*Escocia.» ^ 

Realmente, é sobremodo difficil sujeitar estas 
rápidas variantes da politica de D. Fernando a 
uma critica que satisfaça o espirito do leitor. 
Fica-se deveras desnorteado em face dos capri- 
chos do rei, sem que se possa achar outra ex- 
plicação que não seja a de um estado mórbido 
peculiar ao seu organismo. SchasfTer dã a enten- 
der que a alliança com a Inglaterra foi movida 
pela rainha D. Leonor, a quem desagradava o 

1 Visconde de Santarém, Quadro elementarj, vol. 
XIV, pag. ijx. Os documentos correlativos encon- 
tram-se no mesmo volume desde pag. 64. 






wx 



tratado conduido com Caslella, porque elle devia 
dimiouir a sua influencia depois da morte do 
rei.^ Parece-nos que, n^.este ponto, se engana 
Scbaetfer, e fundamos esta asserção nas próprias 
palavras de Fernam Lopes: > . . . havia desejo 
(D. Leonor] de ter sua filha casada em Castella, 
da guisa que o era, ou melhor se ser podesse, 
para ficar ella regedora, se el-rei D. Fernando 
morresse, como nos tratos do duque de Bena- 
vente era contheudo^ e que assim livremente se 
assenhoraria do reino. » ^ Com effeito, o que mais 
parecia convir a D. Leonor era ter a filha casada 
em Castella, especialmente com o re^ ou com o 
aeu successor, porque doesse modo teria proba- 
bilidades de ficar regente de PortugaL Tudo, 
pois, faz suppôr que ella se empenhara em des- 
fazer o contrato de casamento de D. Beatriz com 
o duque de Benavente, que não era herdeiro do 
throno de Castella, e em firmar novo contrato 
para o casamento da infanta com D. Henrique, 
saccessor do throno. O casamento de D. Beatriz 
com qualquer príncipe extrangeiro, que não 
fosse reinante no seu paiz, teria para D. Leonor 
o inconveniente de chamar um dia ao throno de 
Portugal esse príncipe, ficando ella despojada do 
poder. Portanto não chegamos a perceber a van- 
tagem que D. Leonor poderia encontrar na ai- 
lianga com a Inglaterra, sobretudo no casamento 
de sua filha com o filho do conde de Cambridge, 
sob condição de ser proclamado e reconhecido 
rei de Portugal, porque d'esse modo elle, não 
tendo outro throno, viria occupar o de Portugal, 
ficando D. Leonor limitada a um- papel secun- 
dário. 

Mas, como quer que seja, o rei D. João de 
Castella preparava-se para a guerra, e celebrava 
alliança com o rei de França Carlos vi, reno- 
vando antigas ligas e confederações, ajustando 
ao mesmo passo o que se devia fazer no caso 
que o duqujB de Lancastre, seu filho primogénito, 
seus herdeiros ou qualquer outra pessoa do san- 
gue real de Inglaterra, fosse feito presioheiro. ^ 

N'este tratado o rei de Castella D. João inti- 
tulava-se já rei de Portugal. 

^ffiilQtr^À Aortepol^ pag. 9i3. 
* Chron, de B. famanáo, cap. .civ. 
' Viacoode de Santarém. Quadro elementar» vol. 
xiv,pag. 68. 



Foram os castelhanos, como se tivessem 
pressa de castigar a volubilidade de D. Fer- 
nando, que romperam as hostilidades. O mestre 
de S. Thiago de Castella entrou em Portugal 
por Elvas, e, fazendo uma incursão pela área 
que hoje é districto administrativo de Portale- 
gre, aprisionou quantos camponezes e gados 
encontrou na passagem, incendiando algumas 
povoações. A resistência por parte dos porta- 
guezes seria completamente nulla, se o conde 
de Arrayolos D. Álvaro Peres de Castro, que era 
fronteiro de Elvas, ajudado brilhantemente pelo 
valente cavalleíro Gil Fernandes, não sahisse 
em perseguição dos castelhanos que foram re- 
pelliãos vigorosamente sobre a fronteira. 

D. Fernando, não obstante haver declarado, 
sem fundamento rasoavel, uma guerra tão gra- 
ve, cujas consequências podiam ser as mais 
funestas para o reino e para elle próprio, deí- 
xava-se estar remançado no seu paraíso de de- 
licias,— Santarém. Santarém era o seu ninho 
de amores, o seu vergel de encantos. O povo de 
Lisboa, que o via correr a cada passo para San- 
tarém, desafogava n-um estribilho das ruas o 
seu desdém por esse rei leviano que repartia os 
seus ócios entre D. Leonor Telles e Santarém: 

EU'0 voe» eU-o vem 
De Lisboa a Santarém; ^ 

tal era o provérbio com que a democracia nas- 
cente tentava condemnar os devaneios românti- 
cos do rei descuidoso. Era apenas um murmúrio 
da grande consciência popular, porque ainda 
lhe não era permittido soltar livremeúte a voz. 
Quando ella quiz fallar pela bocca do alfaiate 
Fernam Vasques, ergueu-se a forca para estran- 
gular o interprete, e o atrevimento da democra- 
cia. Mas o primeiro passo estava dado. 

Em Santarém, D. Fernando ficou indignado 
quando soube que o mestre de S. Thiagp entrava 
ousadamente em Portugal. O que fazem esses 
fronteiros todos? perguntava 0. Fernando acceso 
em cólera. Ah ! o que. fazem? o mesmo que vós 
fazeis: descãnçani. 

Olhem o que é o mau exemplo. Q mes^e de 

1 CAromoadflD. F0riia9iia.p9rDaarteNiuies4a 
l4e«o, pag. 192, v. 



2Í^ 



fiístoriá de Pòrttig:^! 



S. Tbiago, antes de entrar, zombava dos fron- 
teií^s portuguezes, mandava-os prevenir do dia 
em que fazia tenção de transpor a fronteira. Oâ 
fk*09teirÓ8 reuniram-se para decidirem o que con- 
vinha fazer! B entretanto. . . entretanto entrava 
o mestre. 

Resolveu-se D. Fernando a mandar ao Alem- 
tejo o sen grande valido Gonçalo Vasques de 
Azevedo para dizer aos fronteiros que se reunis- 
sem para fazer rosto aos castelhanos. Muitos dos 
fronteiros, entendendo que o rei mandava o va- 
lido na qualidade de capitão general, a quem 
todos deviam obedecer, resentiram-se, ficaram 
muito anojados, diz Femam Lopes. Vejam que 
desorganisação em tudo isto! Mas, finalmente, 
sempre se reuniram em Villa Viçosa com a sua 
gente, jnntando-se-lhes também o cavalleiro 
D. Nuno Alvares Pereira, que o rei mandara 
chamar â corte. 

D. Nuno estava entre Douro-e-Minho, e o 
rei, escrevendo-lfae, particípãra-lhe que o ti- 
nha nomeado fronteiro d*Entre-Tejo-e-Guadiana. 
D. Nuno dera-se pressa em partir para Portale- 
gre, onde se avistou com os irmãos, um dos 
quaes era o prior do Crato, Pedro Alvares. 

Precisamos interromper por algum tempo a 
narrativa para tomarmos mais perfeito conheci- 
mento com D. Nuno Alvares Pereira, um dos 
vultos mais heróicos da historia de Portugal no 
cyclo cavalleiresco. 

D. Gonçalo Pereira, trigessimo quarto arce- 
bispo de Braga, houve de D. Theresa Peres Vil- 
larinho um filho que se chamou D. Álvaro Gon- 
çalves Pereira, o qual se ordenou e foi prior do 
Crato. O filho do arcebispo de Braga foi, por sua 
vez, pse de trinta e dois filhos, um dos quaes, 
nascido de uma dona natural de Elvas, chamada 
Iria Gonçalves do Carvalhal, veiu a ser D. Nuno 
Alvares Pereira^ o Achilles portuguez. 

Vindo á côrté o prior D. Álvaro, pediu a el-rei 
D. Fernando que o tomasse por seu morador. 
O rei annuiu, e D. Nuno foi effectivamente en- 
viado á corte em companhia de um tio materno, 
que se chamava Martim Gonçalves de Carvalhedo, 
o qual também ficou na corte na qualidade de 
aio de deu sobrinho. Quando D. Henrique de 
CaateUa entrou em Portugal, estando D. Fer- 
nando edi Santarém, o joten* D. Nmo e seu 
irmão Diogo Alvares, ouvindo diíser na oArie que 



os castelhanos estavam perto de Santarém em 
marcha sobre Lisboa, montaram a cavallo com 
alguma gente para ir reconhecer a força em que 
vinham. Desencontraram-se, porem, e quando 
voltaram ao castello estavam D. Fernando e D. 
Leonor ainda á mesa. D. Nuno c seu irmão fo- 
ram interrogados sobre o que tinham visto. Com- 
quanto nada vissem, agradou decerto a D. Leonor 
a vivacidade com que D. Nuno, uma creança de 
treze annos, respondia ãs perguntas que lhe eram 
feitas. O que é certo é que a rainha disse logo a 
D. Fernando que queria tomar Nuno Alvares por 
seu escudeiro, e D. Fernando não só annuiu, 
mas tomou também por seu escudeiro Diogo Al- 
vares. É verdadeiramente notável que á hora 
em que o exercito castelhano devia passar nas 
alturas de Santarém, D. Fernando e a rainha, 
banqueteando-se nas salas do castello, se entre- 
gassem a estas galanterias cavalleirescas, en- 
thusiasmando-se D. Leonor a ponto de declarar 
que por suas próprias mãos queria armar caval- 
íeiro o pequeno D. Nuno. Tratou-se de procurar 
arnez que lhe servisse, mas todos eram gran- 
des; então alguém lembrou que o mestre de 
Aviz conservava ainda um arnez, que vestira 
na infância, e que esse devia servir. Com 
effeito, a rainha mandou pedil-o a D. João, que 
logo lh'o enviou, sendo para notar a coincidên- 
cia de que o mesmo arnez cingisse os corpos de 
dois homens que no futuro se haviam de achar 
ligados por uma causa commnm. 

Andava D. Nuno nos dezeseis annos quando 
enviuvou entre Douro e Minho uma dama, de 
nome Leonor d'Alvim, a qual herdara de seu 
marido largos haveres. O prior do Crato, pae 
de D« Nuno, Icmbrou-se de pedir a mão d'estâ 
dama para seu filho, e mandou*lhe fallar ca- 
samento. Blla respondeu que se sujeitaria á 
vontade do ref . D. Fernando, naturalmente ca- 
samenteiro, estava no seu elemento, mandou 
logo chamar ã corte a viuva; entretanto o prior 
do Crato fazia a proposta a seu filho. D. Nono 
ficou sufprehendido, porque o seu coração es- 
tava ainda por abrir aos doces etOuvios do amor; 
como que se envolvia n'um véo de pejo virginal. 
Mas se o coração dormia ainda; o cvpiíHòtodo 
se exaltava com a leitura de lívròf) píédbèos e 
de cavallãriã e com as proésas da ài0 e da 
guerra, que tão febrilmente dominftt^fír èailo 



Historia de Portugal 



273 



OS eÍBpirito8 moços. Portanto, pediu tempo para 
considerar. 

prior falloii com Iria Gonçalres a esse res* 
peito, e pedira-lbe que aconselhasse o 61ho a 
annuir. Todas as instancias maternas foram bal- 
dadas; o prior teve entfto que recorrer â influen- 
cia de Nono Alvares Pereira, primo do fotnro 
condestavei, e a Álvaro Gonçalves de Carvalho, 
seu amigo predilecto. 

À força de instancias, D. Nano consentia. Logo 
que D. Leonor d*Aivim chegou â corte, que poi- 
sava ent&o em Vitla Nova da Rainha, fes-se o 
casamento, sem pompa, pelo facto de D. Leonor 
ser yiuva. 

«E no ontro dia, — áit Fernam Lopes, — par- 
tiu o prior com seu filho, e nora, para as terras 
da Ordem, a um logar, que chamam Bomjardim, 
e ali conheceu Nono Alvares D. Leonor sua mu- 
Iber, a qual com verdade disse: Que se n&o po- 
dia chamar dona, porque postoque ella por tal 
modo fosse antes nomeada, ella verdadeiramente 
era donzelia porque o seu primeiro marido nunca 
dVIla houve tal conhecimento: o que ella sem- 
pre bem encobriu por sua grande bondade.» ^ 

Passada a lua de mel, como hoje dizemos, 
recolheu-se D. Nuno com a noiva á sua nova 
casa de Oabeceiras de Basto, casa importantís- 
sima, servida nada menos que por doze a quinie 
escudeiros, e vinte a trinta homens de pé. 

Do seu casamento com D. Leonor houve 
D. Nuno três filhos, dois que morreram aò nas* 
cer, e D. Beatriz, a qual, vindo a casar com o 
bastardo de D. João i, foi tronco da casa de Bra- 
gança. 

Pallecendo o pae de D. Nuno, succedeu-lhe 
no mestrado Pedro Alvares, outro dos seus mui- 
tos filhos. 

Bis aqui, a largos traços, a historia dos pri- 
meiros annos de D. Nono Alvares Pereira; a sua 
bíograpfiia, epopéa gloriosa, ir-se-ha desenvol- 
vendo de par com. os maiores acontecimentos 
políticos da época. A logenda, como sempre 
costuma acontecer na cbroníca dos heroes, ca- 
sou-se já com a sua biographia aceidentando-a 
em muitos lances com os toqies do maravilhoso. 
Asstm é que, seigundo a legenda, o pae de D-. 
Nano ouve, durante a infância de seu filho, da 

1 Ckrm. d» D. JoQo i, pag. 63. 

a vgi.« -«-30* 



bocca de um astrólogo, a prophecia dê que elle 
nascera predestinado ás grandes façanhas belli* 
cas. As prophecias sáo inseparáveis das legendas 
da época; hajam vista a tradição do aifageme 
de Santarém e o vaticínio de mestre Guedelha a 
D. Duarte. 

Foi, pois, em Portalegre que D. Nuno Alvares 
Pereira, chamado por D. Fernando para ir servir 
na fronteira, se avistou com seus irmáòs, e pro*^ 
vavehnente com sua mie, porque ella residia 
ahi n'uma casa que, sita no largo do Gorro, 
está hoje encorporada no palacete dos Fonseca 
*Achaioli. 

Reunidos os Pereiras com todos os fronteiros 
do Alemtejo, resolveu-se que fizessem uma cor- 
reria até Elvas. 

A imaginação de D. Nuno, pujante do ardor 
dos vinte annps, prefigurava-lhe triumpbos que 
tardavam á sua impaciência. Quando marcha- 
vam sobre Elvas, D. Nuno, que se afastara um 
pouco por entre um soveral, devaneando cer- 
tamente proezas guerreiras, viu ao longe, no 
declive de um outeiro, multidão de gente. O sol, 
que desabrochava no oriente, dava a essa turba- 
multa reflexos deslumbrantes, como os que cos* 
tumavam.dardejar as lanças illuminadãs por elle. 
Então D. Nuno correu a avisar os companheiros 
de que tinha avistado o inimigo, e de que iam 
finalmente entrar em batalha. Mas qual não foi 
o seu desapontamento qtiando reconheceram que 
o que D. Nuno tinha visto era simplesmente o 
trem de guerra; que precedia a guarda-avauçada 
*do8 portugueses, e que era guardado por homens 
de pé, armados com as lanças que elle vira scin- 
tillar I 

Chegados a Elvas, dctiveram-se ahi em con-- 
seiho sobre o que deviam fazer. Então correu 
voz de que D. João, o assassino de D. Maria 
Telles, vinha com muita gente de pé e de ca- 
valk) em ajuda do mestre de S. Thiago. Resol- 
veu-se por maioria que os fronteiros voltassem 
aos seus respectivos postos, mas esta resolu-' 
ção contrariou profundamente D. Nono^ que: 
desejava ardentemehte entrar em batalha. 

Effectivamente o infantis D. João chegou a Ele- 
vas, que cercou, com um exercito numeroso. 

D. Nono é que não podia esperar, », n^esta 
conjuntura^ teve um pensamento audaciosa, lem- 
brou*8e de «andar reptar o filho d» mestre de 



274 



Historia de Portugal 



S. Thiago para que elle e mais nove castelhanos 
se defrontassem com dez porluguezes, um dos 
quaes seria D. Nano. O fiibo do mestre de S. 
Thiago acceitou o repto, e facii foi a D. Nuno 
encontrar noye portuguezes,— alguns dos quaes 
são nomeados por Fernam Lopes — , queo quises- 
sem acompanhar. Estava tudo preparado, faltava 
apenas fixar dia, quando aqgnteceu fallar D. Nu- 
no com o prior seu irmão, que lhe declarou ha- 
ver recebido uma carta do rei, o qual jã sabia 
do repto feito ao íiibo do mestre de S. Thiago, 
e parecia contrario a que a justa se realizasse, 
porque mandava dizer ao prior que fosse á córlc 
e levasse comsigo o irmão. 

Imagine-se o desgosto com que D. Nuno jor- 
nadearia para Lisboa, onde o rei estava. 

Chegados os dois irmãos d corte, D. Fernando 
pediu a Nuno Alvarez que lhe contasse a historia 
do repto. D. Nuno obedeceu e, perguntado sobre 
as rasOes que tivera para o fazer, respondeu que 
eram duas: «l.*i desgostar omestredeS. Thiago, 
que estimava muito o filho, caso elle D. Nuno 
matasse o seu contendor; 2/, servir o rei a 
quem devia muitas mercês^ e morrer honrosa- 
mente em seu serviço, caso a sorte lhe fosse 
adversa.» D. Fernando oppoz-se á realisação do 
projecto, dizendo a D. Nuno que se não expo- 
zease tão precipitadamente á morte, que para 
mais o tinha, e que d'elie esperava aioda servi- 
ços maiores. 

D. Nuno reaigDOtt-se, obedeceu. ^ 

Depois de termos assistido ás primeiras esca- 
ramuças entre portuguczes e castelhanos na' 
fronteira do Álemtep, partamos no esteiro da 
armada porlugueza que vae ao encontro da de 
Gastei] a. 

D. João mandou armar etn Sevilha dezesete 
galos, e D. Fernando vinte e uma em Lisboa, 
acrescendo ainda uma galcota e quatro naus. 
Foi João Aflbnso TelJo, que, como já dissemos, 
estava investido no cargo de almirante, quem 
tomou o eommando da nossa frota; da castelha- 
na, era capitão Fernam Sandbes de Tovar. 

Como foi, porem, que D. Fernando ponde al- 
liciar cerca de seis mil tripulantes que equipas- 
sem tão numerosa esquadra, sendo certo que 
esta nova guerra desagradava a todo o reino por 
desatinada e inutii? Ah! eomo foi? Mandando 
prender os lafvradorea e todoe oa homens validos I 



do povo para os encurralar violentamente den- 
tro das galés. Agora já não importava a D. Fer- 
nando a agricultura do paiz ! O que é feito da 
lei das sesmarias? ilasgou-a elle próprio. Por 
ella obrigava todos os filhos de lavradores, que 
não tivessem qualquer posição ofiBcial ou qui- 
nhentas libras de renda, a occuparem-se na la- 
voira, ainda mesmo que para isso houvessem de 
tomar terras de arrendamento. Pois agora obriga 
todos os lavradores a serem soldados, improvi- 
saodo-os combatentes; arrasta-os violentamente 
para dentro das galés e é a esses homens, com- 
pletamente extranbos á arte da guerra, que elle 
confia a defesa da frota ! N'estas circumstancias, 
o mais que se devia esperar era que fosse ven- 
cida, e se assim acontecesse, como aconte- 
ceu, não restariam a Portugal os dois grandes 
meios de rehabilitação.das nações decaídas— a 
agricultura e a industria, porque uma e outra 
ver-se-hiam completamente desamparadas de 
braços i 

Mas sigamos a esquadra portugueza que parle 
do Rastello desfraldando as velas em direcção ao 
Algarve. 

Os castelhanos receiavam, e com rasão, a su- 
perioridade numérica de Portugal nos combates 
navaes que houvessem de travar. Mas esta pri- 
meira impressão não tardaria a dissipar-se em 
face dos desatinos dos portugueses, que fazem 
lembrar mais uma vez o celebre pensamento de 
Homero, que se converteu em provérbio latino 
— Quosvult perdere Júpiter ^ dementat prius, e 
que -Racine paraphraseou em doi& versos que 
também teem agora opportuna applicação: 

* . , . cet espril de vertige et d'erreurs 

De la chute des roiê fwieste avant-coureur ! * 

Quando as galús diegaram ao Algarve iam já 
desprovidas de agua ! Mas constando que as de 
Castella tinham partido de Sevilha, D. João Af- 
fonso Tello, inexperto almirante, não se quiz 
demorar para fazer aguada, e, despresando os 
sensatos conselhoe de Affonso Annes, sem com- 
binarem primeiro um plano de ataque, navega- 
ram ao encontro da armada'de Castella, indo^a 
esquadra o mais desorganiaada possível, porque 
velejavam adeante, e a grafide^distancia das res- 
tantes, doze galés. 

Estava a frota castelhana ancorada no |H)rto de 



Hi8t(»ia de Poiingal 



JSVÔ 



Saltes quando a portuguesa a avistou. Os caste- 
lhanos que, como dissemos, estavam receiosos 
da superioridade numérica dos portugueses, fica- 
ram muito satisfeitos quando viram apenas doze 
galés inimigas, o que invertia completameDle os 
papeis, dando-lhes aquella superioridade a elles. 
Portanto, o almirante Fernam Sanches, militar 
consummado, dispôs as suas galés em forma de 
batalha, e, mettendo aquella em que vinha no 
melo das outras, mandou navegar ao encontro 
dos portugueses. 

Fez-se a abordagem, e a victoria sorrira desde 
o primeiro momento aos castelhanos. As outras 
galés da nossa esquadra, que tinham 6cado atraz, 
tentaram ir em soccorro das que estavam empe- 
nhadas no combate, mas qttando chegaram jà 
as doze haviam sido tomadas. Não obstante, in- 
tervieram na lucta e soffreram igual derrota; com. 
«xcepçfio da que era eommandada por Gil Lou- 
reo(0, do Porto, o qual, em táescireumstancias, 
achou mais rasoavel retroceder, fugindo para 
Lisboa. 

Os feridos portugueses foram numerosos, e os 
prisioneiros todos quantos iam em as nossas ga-. 
lés, que foram conduzidas a Sevilha, onde a po- 
pulação concorreu a presencear a chegada das 
deas esquadras, indo em todas as embarcações, 
de que se compunha a nossa, o pavilhão portu- 
guês de rastos pela agua, em signal de derrota. 

Pobre pavilhão portuguez ! Tu, que foste glo- 
riosamente arvorado em Ourique, cm Santarém, 
em Lieboa;, em Silves, em Alcácer do Sal; tu,, 
que ahi mesmo nas aguas do Algarve, onde 
agora te aviltaste, viste fugir deante de tf, novo 
lábaro sagrado, as embarcações dos mouros que 
partiam para n&o mais voltar; tu, que já té fizeste 
respeitar avessa mesma Hespanha que te rebaixa 
agora, quando, para soccorrel-a, te desfraldaste 
em Tarifa; tu, pobre pavilhão portuguez, vaes 
ahi abatido, ainda mais vergado ao peso da mão 
de um louco rei do que ao poder de Castella ! 
tu vaes airastado sobre as aguas do oceano, como 
se foras indigno de fluctuar sobre ellas, mas bei- 
ja-as, beija-as a essas nobres aguas do Atlântico, 
porque ellas próprias te hão de rehabilitar, ellas 
próprias te nobilitarão rolando a gloria do teu 
nome com as suas ondas até irem levai -o ao mar 
das índias ! 
. Foram os prisioneiros portugueses encerrados 



nas tercenas de Sevilha, com excepção do im- 
prudente almirante, e de Gonçalo Tenreiro, ca- 
pitão da frota, que tiveram por menagem o paço 
do rei de Castella. 

A galé de Gil Lourenço, retrocedendo, entrou 
as aguas do Tejo e foi encostarse a Cacilhas, e, 
como não ouzasse arvorar o pavilhão nacional, 
houve duvida em Lisboa sobre se seria caste- 
lhana ou portuguesa. Mas não tardou que o ala- 
rido que 08 tripulantes faziam denunciasse a 
verdade toda. Enião, ao saber-se que estavam 
encurralados em Sevilha cerca de seis mil pri- 
sioneiros portugueses, foi grande a dõr, e o luclo. 
O próprio D. Fernando, que estava em Santarém, 
ficoq contristado, sentiu pungir-lbe o remorso 
dos seus desatinos e das suas loucuras. E D. Leo- 
nor Telles, em vez de o animar com palavras 
de conforto, disse-Ihe com inopportuna verdade 
qne desde que vira encher as galés com homens 
do campo, que nada sabiam da guerra, não po- 
dia esperar outro resultado. 

Estas palavras da rainha, ao mesmo passo que 
mostram a intenção de desviar sobre os tripu- 
lantes da frota a culpa que inteiramente cabia 
ao almirante seu irmão, revelam que ella era 
contraria a esta nova guerra, como pensamos, 
e já por mais de uma vez temos emittido. 

Entretanto, o rei de Castella D. João havia en- 
trado em PoKugal, e punha cerco a Almeida; o 
infante D. João, o filho de Igncz de Castro, 
aggredia Portugal pela comarca de Riba-Gua- 
diana. 

Quando o rei de Castella soube em Almeida 
da derrota da esquadra portugueza, ficou jubi- 
loso, porque suppõz que em vista de taes resul- 
tados os ingjezes não se atreveriam a defender 
Portugal; e o infante D. João; logo que o soube, 
foi fallar com o rei a Almeida, pedindo-Ihe que 
o deixasse ir a Sevilha, porque esperava com- 
prar ali alguns dos prisioneiros portugueses, que 
lhe eram mais affeiçoados, para vir com elies 
acommetter Lisboa por mar, medeante a pro- 
messa de resgate e de grandes mercês. 

Suprema degradação a que pode descer a alma 
de um principe! 

D. João de Castella annuiu, e o infante partiu 
para Sevilha, onde os portuguezes, ao contrario 
do que elle esperava, se recusaram a prestar-lhe 
tão torpe serviço. 



£76 



HiBteiia &9 Portugal 



Mas o infante não vaciilava na escolha de 
meios» como já sabemos, e obrígou-os a embar- 
car à força. Lisboa, quando viu chegar as galés 
de Gastella, combateu-as energicamente, e o in- 
fante teve que recolher-se a Sevilha, levando 
comsigo 08 portuguezes que trouxera, à exce- 
pção de um, Àfibnso Eannes, que era lettrado 
(Fernam Lopes diz — Âffonso Eannes das Leis)^ 
e se valeu de um estratagema para fugir. 

• 

Foi o caso qtie aproximando-se as galés de 
Castella da Outra-Baoda, Afibnso Eannes, dizeo- 
do-se muito doente de enjoo do OQar, pediu que 
o deixassem sahir cm terra para respirar o ar 
livre da praia. Foi-lhe concedida licença, sob 
condição de que seria vigiado por um escudeiro. 
ACTonso Eannes, mal que se viu em terra, pro- 
metteu ao escudeiro a mào de. uma sua irmã, 
casamento que o poria a coberto de quaesquer 
necessidades, se consentisse em fugirem ambos. 

Dito e feito. 

O infante D. João bem podia ter então reco-, 
nbecido que nascera fadado para ser enganado 
por toda a gente. 

A dolorosa impressão causada pela perda da 
esquadra portugueza foi até cetto ponto attenuada 
pela noticia de que a frota dos inglezes estava a 
chegar a Lisboa. Sempre era, n'esta deplorável 
guerra, uma esperança de rehabilitação. 

Com effeito, estava-se em julho de 1381, 
quando D. Fernando recebeu aviso de que aproa- 
vam a Buarcos quarenta e oito embarcações in- 
glezas, entre naus e barcas. D. Fernando partiu 
logo de Santarém rio abaixo, e dirigiodo-se á 
frota foi a bordo cumprimentar o conde de Cam- 
bridge, o qual vinha acompanhado por sua mu- 
lher a condessa D. Isabel, e por seu filbo Eduardo, 
que teria apenas seis annos de idade. Muitos ca- 
valleiros inglezes constituíam o séquito do conde, 
e também alguns portuguezes, d^aquelles que 
tinham sido expulaos de Portugal em virtude do 
tratado de Santarém, entre os quaes João Fer- 
nandes Andeiro. 

O exercito inglez compunba-se de três mil 
soldados, bem prestes para pellejar, assaz de 
formosa gente ^ e bem coiregidos, diz Fernam 
Lopes. 

Sigamos agora passo a passo os acontecimen- 
tos posteriores ã chegada da frota ingleza ás 
aguas do Tejo. 



CAPITULO V 



A guerra. —Os inglezes.— DeraataQdes que 
fizeram, — Feitos heroioos de D. Nuno Al- 
vares Pereira. — Os amores da rainha oom 
João Fernandes Andeiro. — Intrigas que 
resultam d*estes amores. 

O desembarque dos condes de Cambridge 
fez-se com a máxima solemnidade. 

Todo o nobre pessoal das duas cortes, a in- 
gleza e a portugueza, veio eoa baleis dt*sde a 
frota até ao cães da Ribeira, onde desembarcou, 
seguindo o brilhante cortejor para a Sé. O rei de 
Portugal dava o braço à condessa de Cambridge. 
Feita uma breve oração, o conde, a condessa, 
seu filho e todas as pessoas nobres que os acom- 
panhavam, cavalgaram, dirigindo-ee ao mosteiro 
de S. Domingos. D. Fernando levava de rédea a 
mula em que a condessa Isabel montava. Foram 
os condes hospedados n'aquelle mosteiro, e pelos 
outros da cidade distribuidos os personagens da 
comitiva. 

D. Fernando estava radiante de felicidade. A 
chegada dos inglezes enthuaiasmara-o deveras, 
tanto mais que, fallando com o conde de Cam- 
bridge sobre a perda das galés portuguezas, o 
conde lhe dissera com amável cumprimento que 
quem houvesse a terra haveria o mar e as galés. 

Entretanto, o coração de D. Leonor Telles de- 
via de estar impaciente em Santarém, por isso 
que João Fernandes Andeiro o alvoroçava de 
longe. Passados poucos dias, veioefifectivamente 
a Lisboa a rainha e a infanta sua filha. A corte 
ingleza sahiu a recebei-a; a rainha e a condessa 
abraçaram se expansivamente ao avistar-se. Co- 
meçaram logo as feitas. O rei de Portugal con- 
vidou os seus hospedes para um banquete no 
pa^ do Castello, e, depois da sobre-mesa, D. 
Fernando offereceu ao conde e aos fidalgos in- 
glezes valiosos tecido» de seda ricamente borda- 
dos a ouro; a rainha D. Leonor presenteou a 
condessa e as donas c donzellas aa companhia 
com estofos e jóias. 

Amiudaram-se as visitas entre os condes in- 
glezes e os reis de PortugaL .Lusidas cavalhadas 
atravessavam frequentemente as ruas de Lisboa, 
porque uns e outros, depois de. se visitarem, sa- 
biam a passeio. 

Os inglezeç montavaqi magnificas nmlaaeca-. 



WaHaríA àé Portugal 



077 



vallos, que D. Feroando se havia obrigado a 
fornecér-lhes sob coDdiç&o de que os pagariam 
por desconto no soldo. Não ha duvida de que por 
toda a parte se procuravam cavallos para os in- 
giezes, tomaDdo-08 a quem os possuía, medeaute 
promessa de que seriam pagos; mas é iateira- 
menle verdade que os inglezes os Dão pagaram 
e que o rei, imitando os inglezes, os não pagou 
também. 

D. Fernando presenteou a condessa de Cam- 
bridge com doze mulas, ricamente ajaezadas, 
das melhores que se poude encontrar, e o conde 
com doze formosos cavallos, entre os quaes ia 
um que lhe havia mandado o rei D. Henrique de 
Gastella. Tem graça a coincidência de ser este 
cavaiio offerecido ao conde de Cambridge, que 
vinha fazer guerra ao filho do propio monarcha 
que o offerecera a D. Fernando. 

Os inglezes chegaram a possuir tantos cavallos, 
que diz Fernam Lopes que, quando se foram em- 
bora, qualquer inglez levava vinte e trinta adeante 
de si, como manada de manso gado. 

Se D. Fernando, quando saltou na ribeira de 
Santarém, depois da entrevista sobre o Tejo, 
tinha dito: Qtianto eu henrkado venho! com 
verdade podia agora dizer, depois da chegada do 
conde de Cambridge: Quanto eu inglesado estou! 

Ora vejam. Sabem, porque já o dissemos, que 
D. Fernando, a pedido do rei de Gastella, havia 
reconhecido por papa Clemente vii. Depois que 
03 inglezes chegaram, como não quizessem ou- 
vir missa de qualquer frade ou clérigo, por isso 
que sô reconheciam como papa Urbano -vi, e 
como o conde de Cambridge fallasse a este res- 
peito com D. Fernando, dízendo-lhe que o rei 
de Gastella era scismatico porque reconhecia o 
papá de Avignon quando devia reconhecer o de 
Roma, D. Fernando não teve á menor duvida em 
voltar as costas a Clemente vii e em publicamente 
reconhecer como. papa, na egreja da Sé, a Ur- 
bano VI, na presença do alto clero inglez e por- 
tuguez. 

Mas não para aqui a anglisaçào de D. Fer- 
nando. 

No mesmo dia em que reconheceu como papa 
Urbano vi, determinou que se celebrassem os 
espoosaes de sua filha D. Beatriz, a promettida 
de todos, com o pequeno Eduardo, filho dos con- 
des de Gambrigde. 



A cerimonia realisou-se segundo o rytho in- 
glez, sendo as duas creanças postas em um leito, 
cujas alfaias eram de uma riqueza inexcedive). 
Na colcha havia, bordadas a aljôfares, as figuras 
de um rei e de uma rainha, allnsão à posição 
futura dos noivos. 

* 

Diga-se de passagem que esta mesma colcha 
foi depois offerecida a D. João de Gastella quando 
desposou a filha de D. Fernando. 

O rei . de Portugal, casando a infanta com o 
filho do conde de Cambridge, e^ipulàra a con- 
dição de que, morrendo elle sem deixar filho 
varão, Eduardo e sua esposa seriam os herdeiros 
do throno portoguez. 

Logo que os inglezes chegaram a Lisboa^ D. 
Fernando mandou-o dizer ao conde D. Álvaro 
Peres de Castro, que estava cercado por seu pró- 
prio sobrinho, D. João, em Elvas, cujo fronteiro 
era. O conde ficou jubiloso com à noticia, e en- 
viou ao infante o seguinte epigrammatico recado: 
Que se elle quizesse algumas mercadorias ou 
quaesquer outras cousas de Inglaterra, que man- 
dasse buscal-as a Lisboa, onde estavam umas 
poucas de naus ioglezas, que poderiam sortil-o 
ã vontade. 

Espalhou*se a noticia no arraial castelhano, e 
entre os mil commentaríos que se lhe fizeram, ci- 
taremos um deveras gracioso, com que Pêro Fer- 
nandes de Vellasco respondeu a um seu patrício 
que lhe perguntava que novas eram aquellas 
que D. João tinha recebido dos portuguezes: 
«Que novas hão de ser? São novas que el-rei 
D. Fernando ha mais de nove mezes que era 
prenhe dos inglezes, e pariu-os agora em Lis- 
boa, e tem-n'os comsigo.» 

O que é certo é que o côrco d'Elvas foi levan- 
tado, e que o infante D. João se reuniu com o 
rei de Gastella em Almeida. 

ê 

Emquanto D. João i se apercebe para repellir 
a entrada dos anglo-lusos no seu reino, vejamos 
o que faziam os inglezes em Lisboa. Ah ! o que 
faziam ? As mais desaforadas gentilesas. Rouba- 
vam por toda a cidade e arrabaldes, devastavam 
as quintas, matavam por bríncadeira, tomavam 
todos 08 gados e géneros que vinham para con- 
summo de Lisboa, e violentavam as mulheres. 

A principio o povo soffreu com paciência; de- 
pois queixou-se a D. Fernando, D. Fernando 
queixouse ao conde de Cambridge, mas não se 



V7B 



Historia de Fortiigal 



tomoQ medida alguma de repressão. O qoe o 
coDde se limitou a fazQr foi aconselhar aos donos 
das quintas e oasaes dos arrabaldes que pozes- 
se^m nas suas propriedades uma bandeirola com 
a di?isa do conde, que era um falc&o branco em 
campo vermelho, para que os soldados inglezes 
lh'a8 respeitassem. Os vendedores saloios, que 
vinham trazer á cidade os seus géneros, lança- 
vam mão do mesmo expediente. Eoiio a rapina 
ingleza, mal contente cum roubar os proprietá- 
rios e vendilhões que não traziam a divisa do 
conde, não só atacava a propriedade do próprio 
rei de Portugal, pois qúe de uma vez lhe toma- 
ram todas as bestas que levavam agua para o 
paço, dizendo que pois que lhes não pagavam 
o soldo o penhoravam n^ellas, mas até pratica- 
vam as maiores atrocidades, de algumas das 
quaes Fernam Lopes dá noticia. 

De uma yet bateram em Lisboa â porta de 
um homem, e como Jh'a não abrisse logo, ar- 
rombaram*n'a; entrando, feríram-n^o a)elle, e 
como a mulher se quisesse defender pondo 
deante de si um filho pequenino, os inglezes 
cortaram pelo meio a creança com uma espada. 
Nas povoações dos arrabaldes, quando as sa- 
queavam, iam dizimando os habitantes. D. Fer- 
nando pedia providencias, o conde ouvia-o, e 
tudo ficava na mesma. Então D. Fernando re- 
solveu mandar o maior numero possível de in- 
glezes para a fronteira. E os inglezes, em vez 
de fazerem incursões por Castella, e roubarem, 
lá, roubavam como hordas de salteadores pelos 
campos do Riba-Tejo e do Alemtejo; e em vez 
de combater os castelhanos combatiam os portn- 
guezes, tomavam as nossas povoações, saquea- 
ram Villa Viçosa, Borba, Monsaraz, Redondo, 
Aviz, e quizeram escalar Evora-Monte mas não 
poderam. Quando os moradores lhes não que- 
riam dizer onde tinham escondido os mantimen- 
tos, matavam- n'oB. Era uma devastação enorme, 
que pesava sobre o povo portuguez emquanto o 
rei D. Fernando tomava cavalieirescamente de 
rédea, pelas ruas da cidade, a mula em que a 
condessa- de Cambridge montava, e João Fer- 
nandes Andeiro atiçava com.amavios voluptuo- 
sos a paixão que esçandecia o coração de D. 
Leonor Telles. 

Mas a alma do povo portuguez, que cada vez 
afagava mais a idéa da sua emancipação, can- 



çada de sofTrer o jogo do poder absoluto, lança- 
va-se nos braços da liberdade, sedenta d'ella. O 
povo entendeu que devia govemar-se por si mes- 
mo, porque sempre se governaria melhor do que 
o fazia o rei D. Fernando. Então resolveu con- 
siderar os inglezes como verdadeirosinimigos, e 
começou a dizimal-os com tal energia que, se- 
gundo affirma o chronista, não voltaram alngla- 
tcrra duas partes dos inglezes qoe tioham vindo. 

Entretanto fundeava nas aguas do Tejo a es- 
quadra ingleza, ã espera que apparecessem ga- 
lés de Castella. Com effeito, chegou noticia de 
que o almirante castelhano navegava para Lis- 
boa com aquella mesma armada que tinha apri- 
sionado a nossa no Algarve. Logo que isto se 
soube, os navios inglezes e portuguèzes foram 
postar-se em frente de Sacavém» dispondo-se 
em ordem de combato. O almirante Tovar, en- 
trando a foz do Tejo, ficou admirado de ver des- 
guarnecido o rio até á cidade. Disseram-lbe 
então que as naus estavam em Sacavém; Í(ã 
sobre eílas, mas, quando as avistou, e reconhe- 
ceu que estavam cxcelientemente apercebidas, 
teve por mais prudente relirar-se para Sevilha, 
como effecti vãmente fez. 

Constou então que a armada de Castella não 
tomaria, que os castelhanos haviam resolvido 
dar apenas batalhas campaes, e, com uma impre- 
vidência que só se pôde explicar no reinado de 
D. Fernando, a esquadra ingleza retirou tam- 
bém, carregada de mercadorias, deixando ao de- 
samparo o porto de Lisboa ! 

Mal que os inglezes levantaram ferro, D. Fer- 
nando e o conde de Cambridge sabiram de Lis- 
boa para Santarém. Vejam com que aoerto esta 
guerra era feita! Nenhum plano, nenhum me- 
thodo; abandonava-se Lisboa, e concentravám-se 
todas as attenções no Alemtejo, sem se lembra- 
rem de que os castelhanos, vindo de novo ás 
aguas do Tejo, podiam ir rechaçar os portuguèzes 
contra a fronteira, vendo-se os nossos e os ingle- 
zes apertados de um lado e do outro ! 

Em Santarém celebrou D. Fernando as festas 
do Natal d'aquelle anno de 1381, e foi ahi que 
morreu D. João Affonso Tello, conde de Ourem, 
irmão da rainha. O condado foi logo dado, por 
influencia de D. Leonor, a João Fernandes An- 
deiro, o qual ia ganhando dia a dia, cada vez 
mais, o coração da rainha. 



Historia de Portugal 



S7d 



Pallava-Be j& muito dos amores do Andeiro 
com D. LeoDCM*, a qual achou acertado que elle 
mandasse ^ir da Goraoba D. Maior, sua mulher; 
mulher de prol e de bom corpo, diz Pernam Lo* 
pes. Era mais um plano de D. Leonor, a quai 
esperava que se faltasse menos d'ella vivendo o 
novo conde de Ourem em compaubia de sua es- 
posa. O que é certo é que D. Maior veio para 
Portugal, que o- conde a mandou para o castdlo 
d'Ourem, e que quando ella ia â corte a rainha 
Ibe faflia grandes presentes de jóias e dinheiro. 
«'A gallega^-díz o cbronista — era sisuda, e tinha* 
lh'o em grandes mercês, louvando-a muito por 
deante; e depois que d'ali partia, apregoa va*a 
com louvores, qíAoes uma comborça tem costume 
de dixer da (mtra.n 

Bm Santarém, mandou D. Fernando fazer so- 
bre o Ti^o uma ponte de barcas, por onde portu- 
gu^es e ínglevefr atravessarão^ para o Alemtejo, 
já entrado o anno de 1382, dirigindo-se a Évora; 
ahi se fizeram novos apercebimentos de guerra. 

Os tuglezes foram então distribuídos por Borba, 
Extremoz, Evora-Monte e Vilia Viçosa, onde o 
ciMide de Cambridge se aposenk^u no mosteiro 
de Santo Agostinho. 

Entretanto, livres as aguas do Tejo, entravam 
por ella oitenta navios castelhanos, que haviam 
sido armados em Byscaia e outros portos. Lisboa 
fechou as portas da sua nova cerca de muralhas, 
e os castelhanos, passando impunemente deante 
da cidade, de que era fronteiro Gonçalo Mendes 
de Vasocmcellos, foram desembarcar em frente; 
do mosteiro de Santa Clara* Os de Lisboa queriam 
sfthir a escaramoçar com elies, mas Gonçalo 
Mendes dizia-ihes que não sabissem, porque o 
rei apenas lhe dera ordem de guardar a cidade; 
^m embar^, sahiu um troço de portugueses, 
que sem disciplina alguma se lançaram sobre os 
caatelhanoe, resultando que alguns dos nossos 
foram feridos, morrendo Gomes Lourenço Fari* 
seu, que era juiz da ddade. 

Depois o fronteiro ordenou que as portas se 
feábasaem^ e U^mm pareceu adormecer dentro 
do seu cinto de muralhas. 

Os castelhanos fizeram novo desembarque so* 
bre o arrabalde de Santos. Como vissem que nin* 
gue&i Btes sabia ao encontro, tomaram afoutesa, 
e completaram, nos arredores de Lisboa, a obra 
de ^evastaçlto que os ioglezea haviam principia^ 



do. Devastaram as quintas, roubavam e mata- 
vam animaes, incendiavam os paços reaes de 
Xabregas, Friellas, e Vilia Nova da Rainha, 
estenderam-se pelas lezírias do Ribatejo apode- 
rando-se de tudo quanto encontravam, e, atra- 
vessando o Tejo, foram saquear e queimar os 
arrabaldes de Almada e Palmella. 

D. Fernando, quando isto soube, ficou deses- 
perado contra o fronteiro de Lisboa, accusando-o 
de só ter guardado a cidade, porque se julgava 
a seguro dentro d'ella, deixando todavia destruir 
os arredores. Resolveu, portanto, demittil-o, fa- 
zendo-o substituir pelo prior do Grato, Pedro Al- 
vares, ao qual, bem como a seus irm&os, entre 
os quaes o jovem D. Nuno, e a outros bons ca- 
valleiros, como o celebre Gonçalo Annes de 
Gastêllo de Vide, confiou a defesa de Lisboa. 
Seriam ao todo duzentas lanças. Mas n&o pre- 
cisava de mais gente o aguerrido bando dos 
Alvares. 

Quando vinham para Lisboa, souberam no ca- 
minho que os castelhanos andavam por Cintra 
roubando gados. Desandaram logo os nobres ca- 
valletros na direcção de Cintra. Eimboscaram-se 
no caminho à espera que os castelhanos passas- 
sem, e, quando passaram, cahiram de chofre so- 
bre elles, derrubando a muitos, e tomando a 
todos os roubos que traziam. 

Esta pequena aventura enthusiásmou o animo 
valoroso de D. Nuno Alvares Pereira. Finalmente, 
podéra vir ás mãos com os castelhanos! Che- 
gando a Lisboa, onde feram recebidos com 
grande alegria, Nuno, vendo. que os castelhanos 
se retraiam mais, porque jà não ousavam sahir 
nem tanto a miude nem em frente da eidade, 
resolveu procurar as aventuras, visto que as 
. aventuras o não procuravam a elle. Sem dè nada 
dar conhecimento a seu irmão Pedrâ^ Alvares, 
conchavou^se com seu cunhado Pedro Affonso 
do Casal para fazerem uma sortida. Os castelha- 
' nos sabiam nos arrabaldes, o mais ao longe que 
podia ser, para roubar gados e fructas. Sabia 
D. Nono que havia alguns dias que devastavam 
os vinhedos de Alcântara, e foi justamente em 
Alcântara que fixou a sua attenção, Partiu com 
um pequeno bando, e emboscou-se ã espera que 
os castelhanos chegassem. Gheg&ram com effeito, 
e os portugueses, apeando-se de súbito, deram 
8<^re elles no momento em que Biri)iam um ou^^ 



SQO 



Historia de Portugal 



teiro, oDde parece que as avas eram de melhor, 
qualidade. 

Eotão passou-se um caso que fas lembrar o de 
Fernam Velloso, coutado por Gamões: 

Olá, Velloso amigo, aquelle outeiro 
É melhor de descer que de subir. 

Pois, mutatis mutandis, substituiudo apenas o 
Yocativo, D. NuDO podia dizer o mesmo aos caste- 
lhanos, que deitaram a fugir com tal precipita* 
ção, adeante dos portugueses, que, chegando à 
praia, vendo-se apertados entre os nossos e o 
Tejo, tiveram que lançar-se â agua. 

D. Nuno, do alto de um outeiro fronteiro ao 
mosteiro de Santos, ria com os seus de vér 09 ca8« 
telhanos bracejando na agua em direcção &8 naus; 
mas demorando-se, para folgar com o espectá- 
culo, reconheceu que os da frota se preparavam 
para vir a terra para desaffrootar os fugitivos. D. 
Nuno alegrou-se com a esperança de uma nova 
escaramuça, e fallou aos seus exhortando-os a 
baterem-se com denodo. Todavia os portugue- 
zes, vendo que os castelhanos vinham talvez em 
numero de duzentos e cincoenta, amedronta- 
ram-se. D. Nuno n&o vacillou. 

Letnbram-se do cavalkiro negro do Eurico ^ 
de Alexandre Herculano, que passa atravez das 
hostes do inimigo, manejando a sua poderosa 
massa, e dizitnando-as com ella? Pois D. Nuno 
realisou nos arredores de Lisboa o ideal de Ale- 
xandre Uerculano, foi também por sua vez o 
cavallHro negro. Vendo que os nossos fraqueja- 
vam, lajQÇou-se para o grupo, dos castelhanos, 
de lança em riste; partida a lança, floreou a es* 
pada; as pedras e os virotes batiam de encontro 
à sua armadura, e resvalavam; os golpes, como 
diz Fernam Lopes, massavam o corpo, e nenhum 
damno faziam na carne; o cavallo que montava 
cabin ferido; uma iivella da armadura do cavai- 
leiro prendeu-se nos arreios do cavallo: então 
a morte seria inevitável, mas os portuguezes, 
creaudo alento, acudiram' a tempo, e um clérigo, 
em cuja casa D. Nuno era hospede, poude cortar 
de repente a correia que o prendia. Solto» D. 
Nuno apanha do chão uma lança, exalta-o a febre 
da guerra, centuplica-se-lhe o natural denodo, 
alguns de seus irmãos, sentindo combater para 
oa lados de Alcântara, e sabendo que. D. Nuno 
eataya fOra, «fiodeio de tropel. Caiem valorosib- 



mente sobre os castelhanos, qne, não podendo 
aguentar o choque, fogem precepitadamente 
para os bateis, disputando por medo a entrada, 
pelo que muitos foram de vez â agua. Outros, 
que tinham sido feridos, ficaram prisioneiros, e 
foram condusidos em triumpho a Lisboa, onde o 
prior recebeu com grandes deaoonstrações de ju- 
bilo 08 vencedores. 

Descontando mesmo o que possa haver de pa- 
triótica exageração na narrativa de Fernam Lo- 
pes, este feito de armas é dos mais brilhantes 
que podem ennobrecer a historia militar de um 
paiz. Quando mais não fosse, bastaria a cora- 
gem com que D. Nuno, vendo desembarcar em 
grande numero os castelhanos, os esperou em 
terra, com a serenidade de um beroe, para dar 
ao facto a grandiosidade da epopéa. Mas ha mais. 
Bile é o primeiro a avançar para os castelhanos, 
manejando a sua lança gloriosa, quando os pro* 
príos companheiros hesitam receiosos. 

Para fazer contraste a estes heroísmos de D. 
Nuno temos agora a sequencia do noTO roniance 
de amores de D. Leonor Telles. 

Como dissemos, já em Extremoz se havia bo- 
quejado das relações secretas da rainha com João 
Fernandes Andeiro, que então ahi viera como 
embaixador a tratar a alliança dos ingleses com 
Portugal. 

Agora voltara ao reino, como também sabe^ 
mos, com a corte do conde de Cambridge, o mes- 
mo João Fernandes Andéiro, a quem fora dado, 
por influencia da rainha, o condado de Ourem. 
Vimos partir D. Fernando para Évora, e é justa- 
mente em Évora que estes amores principiam a 
ter maior notoriedade. 

Certo dia, o conde D. Gonçalo, irmão da rai- 
nha, e João Fernandes Andeiro, chegaram muito 
suados á camará da rainha, em Évora. Fazia 
grande calma. D. Leonor, rasgando um veo pelo 
meio, deu metade ao conde e a outra metade ao 
Andeiro, para que se abanassem. O conde sahiu, 
e o Andeiro foi visto, por Ignez AtTonso, dama de 
honor e mulher do valido Gonçalo Vasques de 
Azevedo, foi vislo, diziamos, ajoelhado aos pés 
da rainha, e foi egualmente surprehendida pela 
mesma dama uma phrase maliciosa que elle 
então dissera a D. Leonor: «Senhora^ unis che- 
gado e mais usado queria eu de vós o panno, 
quando m'o v6s houvésseis ée dar, ipe este que 



Historia de Portugal 



281 



me vós daes.» Riu D. Leonor da grosseira liber- 
dade do dito, e Ignez ÀfiTonso foi contar ao ma- 
rido o qiíe vira e ouvira. 

Passados alguns dias, Gonçalo Vasques de Aze- 
vedo, que era ainda aparentado com D. Leonor, 
estando ella a louvar os costumes dos inglezes, 
teve a imprudência de lhe dizer: «Certamente, 
senhora, quanto a mim, seus costumes em algu- 
mas cousas não me parecem tanto de bons, como 
os vós louvaes.» «E quaes?» perguntou a rainha. 
«Não é bom costume, replicou o valido, nem de 
louvar a nenhum, o que muitos d^elles usam, que 
se alguma dona ou donzella por sua mesura lhe 
dã algum veo ou jóia, elles se chegam a ellas á 
orelha, e dizem-lhe que mais chegados e usados 
queriam elles as jóias d'eilas, que não aquellas 
que lhe ellas dão. » 

Era muito transparente a allusão, para que a 
rainha a não entendesse logo. D . Leonor chaman- 
do-o, pouco depois, de parte, disse-lhe que as 
suas palavras não tinham cabido em poço vasio; 
arrependido da imprudência, o valido quiz ne- 
gar que ellas involvessem qualqtier allnsão, 
mas era já tarde para emendar. O pomo da dis- 
córdia havia sido lançado. . 

O escândalo foi transpirando. 

Pensando no caso, D. Leonor julgou que o 
delator haveria sido outro seu parente, Vasco 
Gomes de Abreu, porque o valido Azevedo, que- 
rendo salvar a mulher^ declarara falsamente ã 
rainha que havia sido o Abreu quem lhe contara 
o que elle sabia. 

Este fidalgo, vendo a severidade com que D. 
Leonor o tratava, procurou-a na sua camará e 
perguntou-lhe a rasão da sua indisposição con- 
tra elle. A rainha lançou-lhe em rosto a delação, 
accusando-o de a ter denunciado. Abreu descul- 
pou-se. A rainha insistiu, dizendo-lhe que o Aze- 
vedo lhe confessara que fora elle o delator. Então 
Vasco Gomes de Abreu declarou a verdade, e 
disse francamente ã rainha que çe elle o sabia 
fora porque o ouvira da bocca de Gonçalo Vas- 
ques de Azevedo. 

A rainha pediu-lhe a maior reserva, e despe- 
diu-o dizendo-lhe que trataria de apurar a ver- 
dade. 

D. Leonor percebeu comtudo que estava per- 
dida, que a sua vergonha seria divulgada, e com- 
prehendeu que o mestre de Aviz, D. João, irmão 
a voL. — 36. 



do rei, único que então andava na corte, seriana- 
turalmenu' a pessoa que tomaria a peito vingara 
affronta feita ao rei, porventura com a morte de 
ambos os criminosos. Alem do que, publicado o 
escândalo dos amores da rainha, sua filha a infanta 
D. Beatriz seria provavelmente excluída da sue- 
cessão por infâmia, e n^esse caso D mestre de 
Aviz herdaria de seu irmão a coroa de Portugal.. 

D. Leonor planeou portanto um meio de se vin- 
gar de Gonçalo Vasques de Azevedo, e de inutili- 
sar o mestre de Aviz. De combinação com o An- 
deiro forjou cartas, attribuidas ao mestre e ao 
valido, dirigidas ao rei de Castella, cartas de 
conspiração contra Portugal. Estas cartas, que se 
diziam apprehendidas na fronteira, foram entre- 
gues a D. Fernando, que ficou deveras surprehen- 
dido. 

Disseram então ao rei que o melhor era man- 
dar prender desde logo o mestre de Aviz e Gon- 
çalo Vasques de Azevedo, e que depois se veria 
o destino que convinha dar-lhes. Foram com 
efifeito presos em Évora, traiçoeiramente. Tinham 
estado a conversar com o rei no terraço do paço, 
depois D. Fernando retirara-se, e quando elles 
se retiravam também, Vasco de Martins de Mello, 
acompanhado por duzentas lanças, deu-lhes voz 
de presos. «Porque?» perguntaram elles. «Não 
sei, respondeu Vasco, senão quanto me mandou 
(o rei) que vos guardasse bem, e lhe dr^sse de 
vós bom conto e recado.» Na maior parte dos 
grupos, perguntava-se a causa da prisão; ao certo 
poucas pessoas a sabiam, inas todas as mais sus- 
peitavam que tinha sido urdida pela rainha esta 
nova intriga. Os presos foram conduzidos ao cas- 
telio da cidade, e no caminho lembrou-se o genro 
de Gonçalo Vasques de os arrancar â força d'entre 
a escolta; Gonçalo Vasques receiou que o mallo- 
gro da empreza aggravasse ainda mais a sua 
posição e a do mestre, e recusou. Mas tanto D. 
João como o seu companheiro de infortúnio es- 
tavam sobremodo receiosos do futuro, porque 
todos lhes diziam, e elles mesmos o pensavam, 
que a prisão de duas pessoas tão importantes 
não se faria senão por cousa de grande monta. 

Chegados ao castello, um fidalgo de nome 
AtTonso Furtado, que era anadel-mór do reino, 
quiz salvar o mestre d'Aviz, aproveitando uma 
certa confusão que havia dentro emquanto as 
portas estavam abertas; mas, comquanto o mes- 



282 



Historia de Portugal 



tre ananísse á tentativa de fuga, tal era o re* j 
ceio do fotoro, nio se ponde realisar porqae já 
encoDtráram as portas fechadas qoando se diri- 
giam para elias. 

Logo qae anoitecea, sahiram do castello todos 
os fidalgos qae acompanhavam ambos os presos, 
os qnaes foram algemados. Então o receio an- 
gmeotou. As algemas eram claro indício de grande 
severidade para com os dois. Resolveram, pois, 
o mestre e Gonçalo Vasqnes enviar nm escudeiro 
ao conde de Cambridge, qae estava em Villa- 
Viçosa, pedindo-lhe qoe intercedesse por elies 
janto do rei. O conde respondeu que nada tinha 
com isso, e que se algum desserviço haviam 
feito ao rei, que era justo que o pagassem. 

Nova tortura para os presos, maior ainda 
quando lhes chegou a noticia de que também 
havia sido preso Louren{o Martins, vedor do 
mestra. 

Parece que n^essa mesma noite, a rainha fal- 
sificara successivamente dois alvarás em nome 
do rei, ordenando a Vasco Martins que, logo 
que os recebesse, mandasse degolar os presos 
confiados á sua guarda. Vasco Martins leu o pri- 
meiro alvará, e suspeitou da sua veracidade, 
porque, diz Femam Lopes, elle sabia que mui- 
tos alvarás passavam para outras coisas em 
nome do reiy feitos por aquella guisa. Veja- se 
mais uma vez ató que ponto chegara a cor- 
rupção dos costumes na mais alta sociedade 
portugueza durante o reinado de D. Fernando! 
Ató a própria assignatura do rei se falsificava. 
Cherchez la femme, diz o provérbio francez, e 
diz bem. D'e8ta vez, a miUher era, como sabe- 
mos, Leonor Telles, a adultera, a fratricida, a 
falsaria. 

Náo tardou novo emissário da corte, que se 
dizia enviado pelo rei, com um segundo alvará. 
Vasco Martins recebeu-o, e não deu resposta. 
Tornou novo emissário. Então Vasco Martins 
disse-lhe: «Amigo, vós vedes como já é alta 
noite, e horas em que se náo costuma de fazer 
justiça; e parece que el-rei com gran sanha 
que agora ha doestes homens, manda fazer 
isto, e pode ser que depois se arrependeria 
muito, como já acoiíteceu a alguns senhores; e 
se fossem homens d'outro estado, ainda não era 
tanto d'arreceiar; mas matar eu um irmão d'el- 
rei, e um dos grandes privados que elle tem, 



por esta maneira, digo-vos que o não cuido de 
fazer por nenhuma guisa, até de manhã que ea 
com elle falle, e saiba como é soa mercê de ae 
fazer; e se os elle mandar matar, elles bem guar- 
dados estão, e será feito seu .mandado: e isto 
entendo por mais seu serviço, ca se fazer perda, 
a qual depois não podia ser cobrada.» 

Logo pela manhã, Vasco Martins foi ter com 
o rei para lhe contar o que tinha saccedido du- 
rante a noite. D. Fernando ficou admirado, e, 
segundo o testimunho do chronista, pediu-lhe 
que não dissesse nada a ninguém. Era que o 
próprio rei estava coacto de D. Leonor Telles; 
estava preso, escravisado nos voluptuosos laços 
da sua formosura. Portanto, inútil seria pergun- 
tar que medidas tomaria o rei para punir desde 
logo severamente os falsificadores da sua assi- 
gnatura. O que o rei fez foi sahir no dia seguinte 
para Vimieiro, e isto comprehende-se. D. Fer- 
nando, não podendo arcar com D. Leonor, e 
não querendo ao mesmo tempo que se dissesse 
que elle era o algoz de seu próprio irmão, sahin 
de Évora, como para deixar inteira responsabi- 
lidade dos factos, que podessem occorrer, á rai- 
nha. Notável cobardia ! 

Estamos certos de que D. Leonor Telles teria 
ido por deante, haveria expedido as mais seve- 
ras ordens contra os dois presos, sem vacilllar 
perante toda a responsabilidade de mais esse cri- 
me, se a Providencia não velasse pelo mestre e 
pelo seu companheiro, e não contraminassecom 
o seu opportuno auxilio os projectos sanguinários 
da rainha de Portugal. 

Gomo quer que fosse, D. Leonor, podendo 
apurar a verdade, achou que devia sacudir de 
si a suspeita de ter mandado prender, e de 
ter ordenado que fossem degolados o mestre 
e o seu companheiro, e que para conseguir esse 
resultado conviria mostrar grande empenho em 
que fossem soltos, simulando que todas as or- 
dens tinham partido do rei, e que era ella quem 
intercedia por ambos. 

De feito, D. Leonor mandou pedir ao conde 
de Cambridge que solicitasse do rei a liberdade 
dos presos. O conde soliciíou ou não solicitou; 
não se sabe ao certo, nem isso importa, porque 
a intervenção do conde não passava de uma sim- 
ples comedia. O que é certo é que, decorridos 
já vinte dias de clausura, Vasco Martins recebeu 



Historia de Portugal 



283 



ordem de tirar as algemas aos dois presos, que 
não obstante continuariam a estar sob sua guarda 
e responsabilidade. 

Tanto o mestre como Gonçalo Vasques fica- 
ram admirados com esta ordem, com este raio 
de esperança que, de repente, yinba abrir uma 
clareira luminosa na dolorosa cerração que obum- 
brava o espirito de ambos. Que- vinte attribula- 
dos dias não foram esses ! O mestre nem siquer 
suspeitava o motivo da sua prisão; Gonçalo Vas- 
ques, esse sabia-o, mas nada dizia, com receio 
de se pór ainda em maior perigo. Â cadeia fo- 
ram visital-os os mais notáveis fidalgos da corte, 
com excepção do Ândeiro; mas todos elles se 
mostravam tão ignorantes do motivo da prisão 
como o mestre de Aviz. Quando chegou ao cas- 
tello a noticia de que o rei bavia partido para 
Vimieiro, o receio do mestre e de Gonçalo Vas- 
ques subiu de ponto. Entenderam de si para si 
que D. Fernando o que fazia era voltar as cos- 
tas para os não vér degolar. D. João chegou a 
prometter uma romagem piedosa se se visse li- 
vre. Que faria se tanto um como outro tivessem 
sabido o caso dos alvarás, que Vasco Martins dis- 
cretamente lhes occultou! O receio da morte 
affrontosa, que lhe parecia destinada, havia até 
levado esse valente homem, que se chamava o 
mestre de Aviz, a planear fugir da prisão des- 
cendo por uma das muralhas do castelio. 

Certo dia, Vasco Martins deu aos dois pre- 
sos a boa nova de que a sua liberdade apenas tar- 
daria vinte e quatro horas, porquanto a rainha 
tencionava ir ouvir missa à Sé no dia seguinte, 
8 tinha mandado ordem para que fossem soltos, 
e se encontrassem com ella na Sé. 

Assim.foi. Ao outro dia, Vasco Martins levou-os 
ao sitio designado, e, acabada a missa, o conde 
Andeiro deu o braço ã rainha, e o mestre de Aviz 
á infanta sua sobrinha. Gbegados á porta do tem- 
plo, a raínba entrou n^umas andas, por se af- 
frontar menos com o caminho, pois que estava 
gravida. A infanta subiu para a mula que a ti- 
nba transportado, e que o mestre tomou de ré- 
dea. João Fernandes Andeiro, caminhando a par 
das andas, fallava para dentro com galanteria. À 
porta do paço, o mestre D. João e Gonçalo Vas- 
ques iam a despedir-se da rainha, quando ella 
os convidou a jantar. D. João, que conhecia de 
sobra a perfidia de D. Leonor Telles, verdadeira 



sereia da corte que sabia attrair para melhor vi- 
ctimar, receiou que o quizessem envenenar, e 
comeu a medo, ou antes fingiu que comeu. Fer- 
nam Lopes é n'este relanço da sua cbrontca tão 
minucioso, que nem mesmo se esqueceu de nos 
pbotographar a sala do régio jantar. D. Leonor 
estava recostada á romana n'uma espécie de tri- 
clinío, como qualquer imperatriz da devassís- 
sima Roma dos cezares. O mestre de Aviz tomou 
assento á cabeceira de uma mesa, João Fernan- 
des Andeiro ficou junto d'elle, e Gonçalo Vasques 
sentou-se ao fundo da mesma mesa. A conver- 
sação animou-se mais ao pospasto, foi a rai- 
nha quem principalmente a acTimou, principiando 
a fallar das suas jóias. Seria casual este assum- 
pto? Certamente que não. A rainha quiz vin- 
gar-se dos que murmuravam das suas relações 
criminosas com o conde de Ourem, quiz vexar o 
mestre úe Aviz o Gonçalo Vasques mostrando- 
Ihes que os despresava tanto que era justamente 
na presença d'elles que tornava bem claro o seu 
crime. E porventura quereria também fazer-lbes 
sentir que para o futuro deviam reconhecer a 
superioridade do seu amante sobre todos os ou- 
tros fidalgos incluindo o próprio irmão do rei, e 
que deviam vér e calar, por mais dedicados que 
fossem a D. Fernando, se queriam salvar a vida. 
Passa-se então uma verdadeira scena de lupanar. 
Exaltada pela alegria da vingança, e quem sabe 
se também pelos licores mais delicados da mesa 
real, D. Leonor tirou do dedo um annel, em que 
um enorme rubim chamejava os seus tons mais 
rubros quando a luz lhe dava, e voltando-se para 
o Andeiro, que se havia aproximado do triclínio, 
disse-lhe: «Joanne, toma este annel. » — «Não to- 
marei», disse elle. — «Porque?» perguntou ella. 
— «Senhora, porque hei medo que digam d'am- 
bos. •»— «Toma tu o que te dou, e diga cada um 
o que quizer». Este dialogo, esta scena de baixo- 
imperio havia certamente sido combinada entre 
os dois para vexarem o mestre e Gonçalo Vas- * 
quês, os quaes tiveram que sofi^rer silenciosa- 
mente a aCfroQta. 

D. João pareceu não comprebender, apesar 
de tão claros indícios, o verdadeiro motivo da 
sua prisão, e, ajoelhando ante a rainha, per- 
guntou-lh'o. Disse-lhe ella que alguns cavallei- 
ros da ordem de Aviz, entre os quaes se fizera 
notar especialmente o commendador-mór Vasco 



284 



Bistoria de Portugal 



Porcalbo, haviam propalado que o mestre estava 
em relação com sea irmão o infante D. João para 
de commum accordo conspirarem contra D. Fer- 
nando, e que o facto de elle ter mandado ven- 
der algum gado que tinha nas albergarias da 
ordem viera confirmar pelo menos ostensiva- 
mente o que os cavalleiros haviam dito. Pené- 
lope tecia uma nova intriga, que tinha um fim 
definido. O mestre respondeu affirmando a sua 
innocencia, e dizendo que apenas tinha man- 
dado vender dezesete cabeças de gado, por 
precisar de dinheiro; accrescentou que ia im- 
mediatamente procurar o rei para lhe fazer egual 
declaração. 

D. Fernando estava doente em Vimieiro quan- 
do o mestre de Aviz lá chegou. Ajoelhando á 
beira do leito do rei, D. João principiou por lhe 
agradecer o ter-lbe restituído a liberdade, e aca- 
bou por lhe perguntar a rasão por que o havia 
mandado prender. D. Fernando nada lhe podia 
dizer a este respeito, porque ao certo também 
nada sabia. Procurou um pretexto, balbuciou 
uma resposta; tornando a emenda peior que o 
soneto, disse que o tinha mandado prender para 
lhe fazer sentir que lhe era superior em posição. 
D. João replicou que d'isso tinha elle, e sempre 
tivera, perfeita consciência, e que não seria pre- 
ciso mandal-o prender para que o soubesse e 
reconhecesse. Depois o mestre de Aviz dirí- 
giu-se ao paço onde poisava o conde de Cam- 
bridge, o qual tinha ido a Vimieiro, porque 
D. João queria agradecer-lhc a supposta inter- 
venção junto do rei. Estavam com o conde 
alguns dos fidalgos da corte de D. Fernando. 
O mestre de Aviz, depois de agradecer ao con- 
de, disse em voz alta que eslava innocente, 
e que se alguém soubesse o contrario o de- 
clarasse. Ninguém respondeu. Eniâo Vasco Mar- 
tins da Cunha, n moço, que fazia parte da 
casa do mestre, levantou a voz e disse: «Que 
talvez pinguem quizessc responder a seu amo, 
por não ousar desmentir um irmão d*el-rei; mas 
que elle era cavalieiro de menor condição, e 
que portanto o desmentissem a elle, que por 
sua vez afiirmava que o mestre nunca fizera 
nem mesmo pensara em fazer qualquer des- 
serviço ao rei seu irmão. » Consola vér que não 
obstante a grande, a enorme dissolução de cos- 
tuma da sociedade portuguesa n'esta época, 



alguns caracteres se conservavam immaculadofl 
e puros, domioando-a com superioridade incor- 
ruptivel, taes como os altos rochedos, cuja base 
o mar lambe todos os dias, a toda a hora, e que 
vêem quebrar as ondas a seus pés, sem que pos- 
sam galgar por sobre elles, por mais que suba a 
maré, por maior que seja a fúria do vento, por 
mais que as aguas marulhando em redor pare- 
çam tentar escalal-os. Com relação aos últimos 
acontecimentos que temos historiado, podemos 
apontar dois d'esses nobres caracteres, Vasco 
Martins de Mello, que recusa, com risco da pró- 
pria vida, cumprir os alvarãs de cuja veracidade 
suspeita, e este ousado mancebo, cujo nome já 
citamos, que, deante do conde de Cambridge, ar- 
remessa a luva aos mais poderosos fidalgos por 
tuguezes, com o único fim de tornar nitidamente 
manifesta a innocencia do mestre seu amo. 

Recolhendo-se a Bvora, o mestre demorou-se 
pouco tempo ahi. Foi a Aviz, e, tratando logo de 
cumprir o voto que fizera no cárcere, fez roma- 
ria a Nossa Senhora de Benavilla, d'onde jorna- 
deou para Veiros. Em Veiros enconlrou-se com 
o seu vedor Lourenço Martins, que também havia 
sido preso como jã dissemos, e que fora posto 
em liberdade, comquanto lhe houvesse sido se- 
questrado quaqto possuia. N'uma longa confe- 
rencia que tiveram, fatiaram sobre os motivos da 
prisão d'ambos. O mestre contou-lhe o que a rai- 
nha havia dito acerca de Vasco Porcalho. O sr. 
Pinheiro Chagas é de opinião que o mestre não 
acreditara n'esta nova intriga em que a rainha 
envolvera o commendador-mór de Aviz. A este 
respeito escreve: «A calumnia da rainha resval* 
lou na coiraça impenetrável da desconfiança com 
que eliç revestira o seu espirito antes de entrar 
em conversação com essa mulher perigosa. •• Mas 
se o mestre não dera a menor importância a essa 
nova intriga, para que a foi contar a Lourenço 
Martins? ft certo que o mestre fora preso pelo 
simples desejo que D. Leonor tinha de perdel-o, 
e indubitavelmente esta nova calumnia visava a 
levar o infante a matar Vasco Porcalho, porque, 
matando-o, teria que sair do reino. Mas achamos 
natural que o commendador-mór de Aviz, conhe- 
cendo que a rainha tinha desde muito o pensa- 
mento fixo de se desfazer de D. João, e aspirando 
talvez a ser um dia mestre da ordem, tramasse 
qualquer conspiração contra o irmão bastardo dq 



Historia de Portugal 



285 



rei. D. João, como o sr. Pinheiro Chagas diz, 
quando se avistoa no paço de Évora com D. 
Leonor já iria de animo feito para nào acreditar 
nada do que ella dissesse? Mas tiremos a este 
respeito alguma iliaçâo do que Fernam Lopes 
diz. O mestre conta a Lourenço Martins a intriga 
relativa ao Porcalbo, Lourenço Martins offere- 
ce-se desde logo para o matar; o mestre annue, 
e agradece o serviço que lhe é proposto. Mas 
consulta n'essa noite o travesseiro, e pela manhã 
é que, segundo o chronista, diz a Lourenço Mar- 
tins que talvez D. Leonor inventasse a intriga 
para fazer com que elie matasse o commenda- 
dor, e tivesse que homisiar-se. É só então que 
o mestre encontra o verdadeiro Gó do trama, e 
descobre a intenção reservada .de D. Leonor. 
Portanto, a nossa interpretação parece-nos mais 
próxima da verdade, tanto mais que o mestre 
não poderá ainda descobrir a verdadeira causa 
da sua prisão; pedira que lh'a dissessem, cala- 
ram-^se; não pedia, reptava, e todos se calavam 
do mesmo modo. 

Mas, perguntará o leitor, e a guerra com Cas- 
ieiia? 

A guerra com Castella parece, em verdade, 
haver adormecido durante este longo intervallo 
de tempo, como para nos permittir que desse* 
mos maior attenção á pouco edificante historia 
dos amores de D. Leonor Telles e do conde An- 
deiro. Lembram-sc, porem, agora, os inglezes 
de a continuar, e propõem-se fazer uma entrada 
por Castella, sendo convidado o mestre d*Aviz 
para os acompanhar. 

Com effeito, juntam<sc em Arronches os capi- 
tães inglezes, reunindo-se-lbes ahi o mestre com 
a sua gente, e Vasco Peres de Camões com a 
sua. Avançam sob^c a fronteira, finalmente re- 
solvidos a combater' O resultado da incursão foi 
a tomada de dois castellos, á viva força, che- 
gando n'um d'elles os castelhanos a pedirem 
piedade por intermédio dos seus sacerdotes que, 
devidamente revestidos, mostravam do alto dos 
muros a imagem de Cbristo ao exercito alliado, 
provindo especialmente a sanha dos iuglezes de 
lhe haverem ferido um cavalleiro filho natural 
do rei de Inglaterra. 

D. Fernando, mais animado ainda pelos seus 
secretos planos do que pela presença dos in- 
glezes, resolveu 4'ç§ta vez uproximar-se do ar- 



raial, e dirigiu-se a Elvas com a rainha, ond6 
esperou que chegassem os condes de Cambridge. 
Foi justamente em Eivas que a rainha deu á luz 
um filho varão, que durou apenas quatro dias. 
Toda a gente sabia que esta creança não era filha 
do rei, mas de João Fernandes Andeiro, tanto 
mais que o rei, pelo seu estado de doença, já 
não tinha relações com a rainha. A bocca pe- 
quena dizia-se que D. Fernando afogara a creança 
no coUo da ama. Mas o que é certo é que D. Fer- 
nando— veja-se que podridão moral! — ordenou 
que toda a corte tomasse iucto. Ahi em Elvas 
foram creados dois novos cargos, que imitamos 
dos inglezes: o de condestavel e o de marechal. 
D. Álvaro Peres de Castro foi nomeado condes- 
tavel, e Gonçalo Vasques de Azevedo marechal. 

Constando pois que estava imminente uma 
grande batalha, porque D. Fernando já acam- 
pava em Eivas, e o rei de Castella marchava so- 
bre Badajoz , o prior do Crato, fronteiro de Lisboa, 
revelou desejos de ir correr a sorte das armas, 
mas o rei recommendou-lhe que, por causa da 
armada castelhana ainda fundeada no Tejo, cha- 
masse todos os homens de armas da Extrema- 
dura, e os conservasse ás suas ordens, não con- 
sentindo que vagueassem fora dos muros, para 
evitar que, abandonando a cidade, se dirigissem 
á fronteira. 

Quando esta ordem foi intimada, D. Nuno Al- 
vares Pereira ficou verdadeiramente desesperado. 
Pois elie, cujo animo parecia fadado para uma 
grande liberdade de acção, havia de ficar agora 
recluso, encarcerado dentro da cerca de muralhas 
de Lisboa! Pediu ao prior seu irmão que o dei- 
xasse sahir para o Alemtejo, porque era lá que 
se ia batalhar, e porque elte já havia ganho o 
direito de se bater em qualquer parte'. O prior 
respondeu que a ordem era geral, e que puniria 
com igual severidade todos os transgressores, 
quaesquer que fossem. D. Nuno caiou-se, e em 
segredo tratou de ir juntando armas e cavallos 
para organisar uttia expedição. Mas o segredo 
transpirou, e seu irmão soube-o. A fim de con- 
traminar os projectos de D. Nuno, mandou o 
prior, com o pretexto de algunui invasão súbita, 
dobrar as senlinellas do muro, e as guardas das 
portas, evitando doeste modo que seu irmão ti^ 
vesse gente para a sortida que planeava. 

«D. Nuno Alvares Pereira, — diz um seu bi^^^ 



ft66 



Histoxia d6 Portiigai 



grapho— que entendeu o ardil, procurou dar 
apparencias a outro eogauo: confessada a culpa 
lisamente, começou a fingir-se arrependido; fal- 
lava já com despreso da campanha, mostrava-se 
diligente nos reparos da cidade, animava os sol- 
dados â defensa, e taes cousas soube dizer, ac- 
cusando-se de fácil, que vieram a receber credito 
as palavras, persuadiram-se todos, menos o go- 
vernador, cujas experiências o ensinavam a du- 
vidar, ou não crôr, tão de ligeiro mudava de 
parecer um varão constante. Passaram alguns 
dias, até que parecendo que a dilação e o silen- 
cio teria descuidado as vigias, sabiu de madru- 
gada com cinco companheiros a buscar as portas 
de S. Vicente de Fora, onde achou nos solda- 
dos, a que estavam encommendadas, resistência 
maior; pretendeu rendel-os com o respeito, mas 
como nas leis de Harte tenha o primeiro logar o 
valor, que a cortesia, temendo menos a morte, 
que o castigo, se lhe oppozeram constantes, 
vieram das palavras ás mãos, ateiou-se cruel a 
briga, acudiram outros chamados dos golpes, e 
gemidos, largo espaço sustentaram o logar, até 
que cansados, houve de ceder o numero ao es- 
forço, não sem sangue, que attestando o perigo, 
serviu á desculpa dos vencidos. » ^ 

Forçando a passagem, D. Nuno marchou so- 
bre Elvas. O terreno parecia desapparecer sob 
as ferraduras do seu cavallo veloz. Os cinco pa- 
gens que acompanhavam D. Nuno seguiam-n'o 
à desOlada, atravez da escuridão da noite, em 
direcção á fronteira. 

Chegado a Elvas, D. Nuno historiou ao rei a 
verdade do que se passara: que, impellido pelo 
desejo de combater, sabira de Lisboa sem li- 
cença, tendo forçado a sabida. O rei perdoou, 
como era natural, e a façanha de D. Nuno foi 
applaudida por aquelles mesmos que deviam fi- 
car envergonhados com ella, porque não seriam 
capazes de praticai -a. 

Ardia D. Nuno em desejos de entrar em bata- 
lha, e julgava que d'esta vez'o8 realisaria final- 
mente, porque D'. João de Gaslella chegara a 
Badajoz, reunindo ahi o seu exercito que era de 
cinco mil homens d'armas, mil e quinhentos gi- 

* Vida de D, Nuno Alvares Pereira, novamente 
composta pelo padre frei Domingos Teixeira— Lis- 
boa, 1723— Pag. 39. 



netes, a fora muita gente de pé e besteiros, e 
D. Fernando e o conde de Cambridge, oom seis 
mil lanças, e muitos besteiros e homens de pé^ 
estavam em Elvas. De uma vez o exercito an- 
glo-luso chegou mesmo a dispór-se em ordem 
de batalha na margem do Caia, occupando o 
conde ingjez a vanguarda do exercito, e D. Fer- 
nando a rectaguarda. Tudo isto, toda esta ap- 
parencia de um grande choque entre os dois 
exércitos era de geito a inflammar o animo va- 
ronil de D. Nuno Alvares Pereira, mas, no 
fundo, pensaria realmente D. Fernando em dar 
batalha aos castelhanos, não passaria todo este 
apparato bellico de mais uma comedia, em que 
o conde de Cambridge representava de boa fé? 
Já agora, no capitulo seguinte procuraremos des- 
envencilhar esta meada. 

Estando assim formado o exercito anglo-laso, 
o alferes que o duque de Lancastre tinha enviado 
a Portugal desfraldava a bandeira que trazia, e 
todos os ioglezes soltavam o brado de: CasíeUa 
e Leão por el-rei D, João de Castella^ filho de 
el-rei D. Eduardo de Inglaterra l Mas os ingle- 
zes cançaramse de gritar em favor dos direitos 
do irmão do conde de Cambridge ao tbrono de 
Castella, e de aguentar desde pela manbã até ao 
meio dia o forte sol do Âlemlejo, sem que os 
castelhanos se niexessem. 

Entretanto, D. Fernando, emquanto fazia espe- 
rar baldadamente os seus soldados e os ailiados 
pela arrancada dos castelhanos, entretinha-se em 
armar cavalleiros alguns gentis-homens ingle- 
zes e portuguezes. Em meio doesta festa cavai- 
leiresca, que se comprehenderia mais tarde, em 
Aljubarrota, porque estava então á frente do 
exercito portuguez um príncipe que foi um ver- 
dadeiro cavalleiro, mas que em pleno reinado 
de D. Fernando não passava de uma simples ir- 
risão, em meio d'esta festa cavalieiresca, dizía- 
mos, alguém lembrou ao rei que elle não tinba 
auctoridade para armar cavalleiros, por isso 
mesmo que não era cavalleiro. Para outro ho- 
mem, esta advertência, feita na presença dos 
ioglezes, seria um grande vexame. Mas D. Fer- 
nando estava habituado a elles, já se haviam 
rido da sua cobardia os cortezãos em Santarém, 
quando D. Henrique de Castella passava impu- 
nemente sobre Lisboa, e se então D. Fernando 
se não havia dado por offendido, não era decerto 



/ 



Historia de Portagal 



d8? 



agora, que se sentia doente e gasto, que se im- 
portaria com as lições que lhe dayam os seus 
próprios vassallos. Ah! n&o sou cavalJeiro? 
disse elie. Pois vou improvisar-me cavalleiro, 
n'um momento; e pediu ao conde de Cambridge 
que lhe cingisse solemnemente as armas. E de- 
pois d'esta parodia a um dos actos mais impo- 
nentes da cavallaria, D. Fernando tornou a armar 
cavalleiros aquelles a quem já indevidamente ha- 
via conferido essa honra. Que ridiculo especla* 
cílio para ser presenceado por estrangeiros ! 
Has vamos â historia da paz com Castella. 

CAPITULO VI 

Paz oom Oastella. — Apreciação d'este aoon- 
teoimento. — ^Desespero dos inglezes. — Re- 
cmltadoB políticos da pas oom Oastella. — 
Casamento deflnitivo da infanta D. Bea- 
triz. — Morte de D. Fernando. 

Seriam uma simples comedia todos os aper- 
cebimentos de batalha contra D. Jo&o de Castella, 
por parte de D. Fernando? 

Eram. 

Todas as noites sabiam do acampamento de 
Elvas, a pé, e ás escondidas dos inglezes, dois 
emissários de D. Fernando, que eram o conde 
de Arrayolos (D. Álvaro Peres de Castro) e Gon- 
galo Vasques de Azevedo, para tratarem a paz 
coro o rei castelhano, voltando de madrugada ao 
nosso acampamento. ^ 

Que rasões demoveriam, porem, D. Fernando 
a. atraiçoar d'este modo os inglezes? 

O abatimento de animo proveniente da enfer- 
midade que cada dia recrescia ? 

O aborrecimento de ter por alliados os ingle- 
zes, que haviam devastado o reino como se não 
fossem alliados mas inimigos? 

ter reconsiderado na inconveniência de per- 
sistir n'uma guerra tão inopportunamente decla- 
rada? 

A rasão doesse novo tratado de paz, cuidamos 
que deverá procurar-se principalmente na le- 
viandade peculiar ao caracter de D. Fernando. 

1 Femam Lopes, capitulo *cliv da Chronica d'el- 
rei D. Fernando, — ^V. de Santarém, Quadro elemen- 
tar, vol. xiv> pag. Lxni e vol. i, pag. 248. 



O que é certo é que as condições de paz apre- 
sentadas por parte de Portugal eram: 

1.'— Que á infanta D. Beatriz, filha de D. Fer- 
nando, casaria com D. Fernando, filho segundo 
do rei D. João de Castella, dissolvendo-se, por- 
tanto, os. desposorios da mesma infanta com o 
filho do conde de Cambridge; 

2.' — Que o rei de Castella entregaria a D. Fer- 
nando os logares de Almeida e Miranda; 

3.*— Que restituiria toda» as galés que haviam 
sido tomadas em Saltes, com todas as armas e 
equipagens; 

4.*— Que soltaria D. João Affonso Tello, irmão 
da rainha, almirante de Portugal, com todos 
os outros que tinham sido aprisionados com a 
frota; * 

5.*— Que o rei de Castella daria tantos navios 
da sua frota, fundeada no Tejo, quantos fossem 
precisos para conduzir a Inglaterra o conde de 
Cambridge e a sua gente, sem por isso receber 
frete algum; 

6.*— Que para segurança do tratado, se tro- 
cariam reféns. 

Façamos agora alguns rápidos commentarios 
a estas condições. 

Porque seria que D. Fernando propunha que 
sua filha casasse com o filho segundo do rei de 
Castella, em vez de confirmar os desposorios 
ajustados antes da guerra com o primogénito do 
mesmo rei? Diz Femam Lopes: « . . .por que o 
infante D. Fernando pois era segundo filho, ca- 
sando com sua filha, ficava rei de Portugal, sem 
se misturando o reino com o de Castella, etc.» 
Ora este patriotismo não reconhecemos nós em 
D. Fernando; bem sabemos como elle era fácil 
em oBerecer a mão de sua filha, e oom ella o 
reino, ao primeiro vindo. Quer^nos parecer que 
esta condição ou seria proposta pelo próprio rei 
de Castella, movido da ambição de que seus 
filhos viessem a governar n'um e n'outro reino, 
ou seria proposta por D. Fernando, contra a 
vontade de D. Leonor, para mais facilmente cou* 
seguir a paz, lisonjeando d'este modo aquelle 

. 1 Por lapso 86 disse a pag. 278 que o conde de 
Onrem, antecessor de João Felmandes Andelro, era 
irmão da rainha. O irmSo da rainha, também JoSo 
AiTonso Tello, é este, o almirante, que fora aprisio- 
nado pelos castelhanos nas aguas do Algarve. A ho- 
monymia foi a causa do lapso. 



2è8 



âistoria de Portugal 



mesmo sentimento de ambição qoe devia suppór 
no rei de Castella. Mas com este ponto se prende 
oatra quest&o: qnal dos dois reis fòi que propoz 
a paz? No tempo de Femam Lopes, próximo dos 
acontecimentos, não se sabia; o cbronista apre- 
senta algumas versões, que então corriam. O sr. 
Pinheiro Chagas inclina-se, porém, a crer que a 
paz fora proposta pelo rei de Castella. Poniuc? 
Por medo aos inglezes, que já haviam derrotado 
seu paena batalha de Najera. Éuma das hypothe- 
ses de Fernam Lopes. Nós, pelo contrario, cremos 
que quem propoz a paz foi D. Fernando. Leva- 
DOS a suppol-o a leviandade que lhe era ingenita; 
o mysterio com que os embaixadores sabiam to* 
das as noites de Elvas, porque, d'outro modo, 
inverter-se-iam decerto os papeis, e D. Fernando 
faria constar desde logo, por vangloriar-se, que 
o rei de Castella lhe mandava propor a paz; o 
facto de D. João i haver recusado batalha, o que, 
a continuar-se a guerra, daria uma grande força 
moral aos inglezes e portuguezes, sendo que até 
esse momento toda a vantagem estava do lado 
dos castelhanos. A lembrança de Najera a£Bgu- 
rase-nos contraproducente, e mais nos quer pa- 
recer incentivo para tirar vingança, do que motivo 
para receiar dar batalha. Mas o rei de Castella 
obrigava-se, pondera o sr. Pinheiro Chagas, não 
só a entregar as praças de Almeida e Miranda, 
mas também a restituir as galés e os prisionei- 
ros, e a fornecer navios para os transportes dos 
inglezes. É verdade. Quanto ás praças de Almeida 
e Miranda, o que podiam ellas valer â vista da 
concessão de todo o reino de Portugal, que pas- 
saya, por morte de D. Fernando, para a familia 
reinante de Castella, para t) infante D. Fernando? 
B depois importa lembrar que D. Fernando es- 
tava gasto, doente, que prometia pouc^ duração. 
Quanto às galés, aos prisioneiros, e aos navios 
para transporte dos inglezes, temos que ser um 
pouco mais extenso. Quando os embaixadores 
portuguezes levaram ao arraial castelhano a mi- 
nuta das condições da pai, o rei de Castella, sem 
mesmo a ler, teve pressa em tomar bem pu^ 
blico que a paz lhe era proposta por D. Fer- 
nando, mandou tanger uma trombeta, para sé 
reunir toda a gente; e, depois de feita a leitura 
do tratado, recusou-se a acceitar a condição de 
restituir as galés e os prisioneiros, e a de forne- 
cer navios para transporte dos inglezes. Foi ea« 



tão que o mestre de S. Tbiago de Castella appa- 
receu, e lhe disse: «E por vinte e duas fastas 
podres, que não valem nada, e por emprestar 
quatro ou cioco naus sem dinheiro, recusaes^ós 
assignar o tratado?* E rindo, tomou o mestre a 
mão do rei, para o levar a assignar, como se 
quizesse expremir que tudo isso se podia bem 
conceder a troco de um reino. E o rei, compre- 
hendendo-o 6nalmente, sorriu também de ve- 
lhaca alegria, e assignou. 

Mas a D. Leonor Telles é que de modo algum 
convinha o ajuòte de casamento de sua fiJha com 
o filho segundo do rei de Castella, que viria to- 
mar posse do reino de Portugal logo que D. Fer- 
nando fallecesse. 

Logo mostraremos como ella trabalhou para 
desfazer este novo casamento. 

Os inglezes, quando souberam que as pazes 
estavam negociadas, ficaram desesperados. O 
conde de Cambridge declarou francamente a D. 
Fernando que, se tivera o exercito inglez no 
mesmo pé em que estava quando chegara a Por- 
tugal, faria por sua conta guerra a Castella, para 
defender 03 interesses de seu irmão, embora 
D. Fernando houvesse contratado a paz. 

Comquanto Fernam Lopes guarde silencio a 
este respeito, pode imaginar-se facilmente até 
onde chegariam as devastações por parte dos in- 
glezes, pelas terras portuguezas que iam atraves- 
sando, desde a fronteira até ao Tejo, durante os 
dias que mediaram desde a assignatura do tra- 
tado até ao embarque do conde de Cambridge e 
do seu exercito nos navios castelhanos que os 
vieram receber. O resentimento dos inglezes foi 
enorme, e justificado; passado tempo, quando 
D. Fernando, com o maior descaramento ima- 
ginável, mandava por embaixador a Inglaterra 
Ruy Cravo, noticiar os desposorios de sua filha 
com D. João I de Castella, e affirmar a sua an- 
tiga alliança e amisade com aquelle paiz, Ri- 
cardo II recebia a rir o embaixador, negando-se 
a tomar conhecimento da embaixada. O próprio 
filho do conde de Cambridge, que contava en- 
tão apenas sete annos de idade, não quiz vér o 
embaixador. 

A D. Fernando não doeu decerto esta lição de 
dignidade dada por uma creança. 

O rei de Portugal, para inteiramente dar de 
mão â anglomania de que se havia possuído, 



Historia de Portugal 



289 



até Toltou a reconhecer como papa, a pedido do 
cardeal D. Pedro de Luna, Clemente yk, contra 
o parecer dos maiores leltrados do reino, in- 
cluindo o doutor João das Regras, que voltava 
de concluir os seus estudoa em Bolonha. 

Agora, D. Fernando era todo Castella. Entre- 
tanto, 08 acontecimentos parecia correrem ao 
sabor de D. Leonor Telles. Fallecia de parto a 
mulher do rei D. João de Castella, e D. Leonor 
via de repente coroados os seus desejos: para 
isso bastava que sua filha despozasse o rei viuvo. 
Ficaria ella regente do reino em nome dos reis 
de Castella, e, a seu lado, veria sentado no 
throno, por morte de D. Fernando, o seu que- 
rido conde de Ourem. Portanto, como a João 
Fernandes Andeiro cabia grande interesse em 
que o rei de Castella acceitasse a mão da infanta 
de Portugal, foi elle o escolhido para ir como 
embaixador negociar esse novo casamento. E o 
bom rei D. Fernando a tudo isto se prestava ! 

D. João de Castella facilmente acceitou para 
si a noiva promettida de seu filho. N'aquelle 
tempo, os caracteres dos príncipes podiam afe- 
rir-se por uma bitola commom. D. João de Cas- 
tella fez o que mais tarde havia de fazer o nosso 
rei D. Manuel, que também não teve a menor 
repugnância em desposar a princeza que devia 
casar com seu filho D. João iii. Cá e lá. . . diz o 
provérbio, e a philosophia das nações é infal- 
livel. 

Não podemos eximir-nos a dar um largo ex- 
tracto do contrato de casamento da filha de D. 
Fernando com o rei de Castella, contrato cele- 
brado em Salvaterra de Hagos, porque da sua 
leitura resultará a affirmação de algumas opi- 
niões que temos emitlido, principalmente com 
respeito â intervenção da rainha D. Leonor n'e8ta 
negociação, e porque elle é o ponto de partida 
dos graves acontecimentos que vão succeder de- 
pois da morte de D. Fernando: 

«Que el-rei de Castella casaria com a infanta 
D. Beatriz, e a receberia por palavras de presente 
por seu procurador, um dia antes que esta prin- 
ceza fosse para Castella, ou no dia em que par- 
tisse. — Que viria pessoalmente buscar a dita 
infanta entre Badajoz e Elvas, a qual receberia 
por palavras de presente^ antes que lhe fosse 
entregue, e assim mesmo a dita princeza rece- 
beria ao mesmo rei de Castella na f6rma sobre- 



dita, de que se lavrariam instrumentos, etc. — 
Que juraria aos santos evangelhos, antes que a 
mesma infanta lhe fosse entregue, que depois 
da morte da rainha sua mulher não recebeu ou- 
tra alguma por palavras de presente, ou de fu- 
turo.-^Que mostraria dispensa para poder casar 
com á dila infanta. — Que antes que D. Beatriz 
Ihç fosse entregue, porque era menor de doze 
annos, mas apta para o matrimonio, isto se jul- 
garia por juiz conveniente, e que lhe devia ser 
entregue, de cuja sentença se fariam instrumen- 
tos, etc.; depois do que lhe seria entregue a 
mesma infanta, que elle levaria a Badajoz, onde 
a receberia solemnemente celebrando um arce- 
bispo, ou bispo, que lhes daria as bênçãos, do 
que também se fariam instrumentos, etc.; e d^ali 
em deante trataria a dita infanta como sua legi- 
tima mulher; e logo que ella completasse os doze 
annos de sua idade, até oito dias do 13. "^ anno, 
outra vez a receberia por palavras de presente, 
e ella a elle, etc.—Que el-rei de Portugal daria' 
em dote a elle rei de Castella, em dinheiro, o 
mesmo que foi dado a el-rei D. Afibnso, avô 
d'elle rei de Castella, quando casou com a rai- 
nha D. Maria, tia do rei de Portugal, o qual 
dote será pago do dia, em que a infanta fôr en- 
tregue até três annos, a saber, um terço em cada 
anno.— Que el-rei de Castella daria em dote ã 
dita infanta todas as cidades, villas e legares, 
etc, que a rainha D. Joanna, mãe d' elle rei de 
Castella, tivesse ao tempo de sua morte, excepto 
as villas de Arevallo, e Madrigal, pelas quaes 
lhe dará em commenda as de Ervellar, e de 
S. Estevam de Gormaz, etc., as quaes terá tanto 
em vida d'elle rei de Castella, como depois de 
sua morte, se elle morrer primeiro, e ella não 
casar com outro, etc. — Que fallecendo el-rei de 
Castella primeiro que a dita infanta, jhe seria 
entregue o dote, que elle tiver recebido, e no 
caso, que ella case com outro, reterá as sobre- 
ditas cidades, villas, etc. , emquanto não lôr en- 
tregue do dito dote, etc.—Que fallecendo el-rei 
de Portugal, e deixando filho varão da dita rai- 
nha D. Leonor, ou de outra sua mulher legitima, 
a herança do reino de Portugal e Aigarves, seria 
do dito filho; e fallecendo sem deixar filho, como 
dito é, ou deixando filho que morresse sem des- 
cendência legitima, ou que esta fosse de todo 
extincta, a dita herança seria da infanta D« 



290 



Historia de Portugal 



Beatriz, á qual os naturaes do dito reino farão 
preito, e homenagem, tendo a infanta por sua 
rainha, assim como ao dito rei de Castella, que 
reconhecerão por seu rei, depois da morte da 
mesma infanta. — Que, durando o matrimonio, 
eiie rei de Castella se chamará rei de Poçtugal, 
depois da morte d'el-rei de Portugal, como ma- 
rido da dita infanta, em vida d'ella, nos casos 
acima ditos. — Que, fãllecendo a dita infanta sem 
deixar filhos legitimos, os ditos reinos de Por- 
tugal e Algarves voltarão para a outra filha 
legitima d'el*rei de Portugal; ^ mas que não 
havendo também esta filha, de sorte que não 
ficasse descendência legitima do dito rei de Por- 
tugal, nem da dita infanta, então os ditos rei- 
nos ficariam a elle rei de Castella, e do mesmo 
modo el-rei de Portugal succederia nos reinos 
de Castella, no caso d'cl-rei de Castella e a 
infanta sua irmã morrerem sem descendência 
, legitima. — Que el-rei de Castella juraria, e pro- 
metteria que, no caso de reinar em Portugal, 
guardaria a seus naturaes todos os privilégios, 
liberdades, etc. dados pelo dito rei de Portugal, 
e seus predecessores.— Que juraria per si e seus 
successores que não lançará pedidos, finta, nem 
quaesquer outros encargos aos moradores dos 
ditos reinos, salvo o que ordinariamente se cos- 
tumava pelos reis antecedentes. — Que se el-rei 
de Portugal deixasse outra filha legitima e a so- 
bredita infanta, ou seu filho, ou filha, reinasse 
em Portugal, elle rei de Castella tornaria o dote 
se o tivesse recebido; e, se não tivesse rece- 
bido nenhum, daria outro tanto em dote á dita 
segunda filha, quando fosse ordenado, que el-rei 
de Portugal desse etn dote com a sobredita in- 
fanta, de sorte que a dita segunda filha tivesse 
isto para seu casamento.— Que, fallecendo el-rei 
de Portugal sem deixar filho varão da rainha 
D. Leonor, todas as cidades, villas, etc, que lhe 
tinham dado, lhe ficariam livres para manter 
seu estado; e da mesma forma, o que tiver dado 
a cavalleiros, ou a outras quaesquer pessoas, etc. 
— Que o reino de Portugal seria sempre sepa- 
rado do de Castella, sendo administrado pela 
rainha D. Leonor, emquanto a infanta D. Bea- 
triz não tivesse filho varão de quatorze annos; 

1 A condessa de Gijon, D. Isabel. Legitima, isto 
' é, reconhecida pelo pae. 



e por morte da mesma rainha fix:aria a dita 
administração áquelles, a quem el-rei de Por- 
tugalj ou a dita rainha a tiverem commettido 
por seus testamentos^ ate o tempo acima refe- 
rido, — Que no caso de el-rei de Castella reinar 
como marido da dita infanta, os reinos de Por- 
tugal fariam a guerra, ou a paz por ordem da 
dita infanta, âquelles que a moverem ao dito rei 
de Castella; mas que não possa levar para fora 
do reino os alcaides, que tiverem os castellos, 
etc. , e querendo levar gente para fora por mar 
ou terra, el-rei de Castella lhe pagará«o soldo à 
sua custa como pagar aos seus. — Que, sendo a 
dita infanta rainha de Castella, tenham ella, e 
el-rei seu marido, durante o matrimonio, todas 
as reudas, etc, do dito reino pagas as tenencías 
dos castellos, etc, segundo o alvedrio da rai- 
nha 2). Leonor, — Que no caso, em que a dita 
infanta haja de herdar o reino de Portugal, logo 
que tiver filhos, desde o dia em que nascerem 
até três mezes, serão mandados para Portugal, 
para se crearem sob o poder d'el-rei, e da rai- 
nha, seus avós, ou d'aquelles, que ella ordenar 
em seu testamento depois da sua morte.— Que o 
primogénito, ou primogénita da dita infanta, por 
morte d'esta. seja rei, ou rainha de Portugal, 
ainda que el-rei de Castella seja vivo, o qual 
d'ali em diante não usará tal titulo, sob pena 
de perder o direito, que tiver ao mesmo reino. 
— Que, reinando a dita infanta depois da morte 
de el-rei seu pae, toda a justiça de Portugal, ele, 
seja ultimada no mesmo reino, cujos offwíaes se- 
rão postos pela rainha Z). Leonor. — Que serão 
portuguezes todos os oiBciaes de justiça. — Que 
os portuguezes, que nas guerras passadas vie- 
ram contra Portugal, nunca mais ali entrem, etc. 
— Que el-rei de Castella, e a dita infanta não 
poderão chamar a cortes os naturaes de Portu- 
gal, e sendo estas necessárias se farão dentro 
do mesmo reino pela rainha D. Leonor, etc — 
Que el-rei de Castella não poderá cunhar moeda 
em Portugal, a qual somente poderá cunhar a 
rainha D. Leonor, pondo-lhe as legendas, etc, 
da dita infanta então rainha de Castella, e de* 
Portugal, e as armas direitas de Portugal, e não 
outras.— 0ue as apresentações de egrejas, dis- 
pensas , e outras graças possam ser feitas pela 
dita rainha, etc. —Que el-rei de Portugal entrega- 
ria a dita infanta por mulher a el-rei de Castella 



J 



Historia d9 Portpgal 



291 



até 12 de maio futuro, fazendo-se primeiro os 
desposorios, tudo como se contém no capitulo 
primeiro.— Que el-rei de Castella entregaria ao 
de Portuga) o infante D. Fernando, seu filiio, ao 
tempo que se lhe entregar a infanta, para que 
o tenha comsigo, até que a infanta complete os 
doze annos, cujo termo será no 1.*^ de março do 
anno que vem, findo o qual será entregue a el- 
reí de Castella, etc.— Que se fariam preitos, e 
homenagens, etc, sobre todas estas cousas pelos 
fidalgos, mestres de cavallarias, etc, de Portu- 
gal, e Castella, e que n'elles consentirá a infanta, 
etc — Que se farão agora preitos, e homenagens, 
etc, pelos prelados, condes, etc, que aqui se 
acharem, de como el-rei de Portugal guardará 
todos estes capitules, etc— Que em Badajoz se 
tornarão a fazer iguaes preitos, etc. — Que as ci- 
dades, villas, farão os mesmos preitos etc, até 
dia de S. João de junho primeiro, e que drei de 
Portugal mandará seus procuradores ás cortes, 
que el-rei de Castella fizer, e este ás de el-rei 
de Portugal, para receberem reciprocas homena- 
gens.— Que se possam addicionar a estes capí- 
tulos aquellas clausulas, que se julgarem neces- 
sárias, e que não destruam a sua substancia, e 
isto por todo este mez de abril.— Que el-rei de 
Portugal pagará a el-rei de Castella, no caso de não 
cumprir o aqui estipulado, cem mil marcos de 
ouro, ficando sempre obrigados ao seu cumpri- 
mento, etc, e vice- versa el-rei de Castella a el- 
rei de Portugal. — Que el-rei desobriga ael-rei de 
Portugal de todo o estipulado no tratado, que fez 
sobre o casamento da dita infanta com o infante 
D. Fernando seu filho, e de quem é tutor, etc 
(2 de abril da éra de 1421, anno de 1382) * 

Moeste importante documento, que se encontra 
por extenso no tomo i das Provas da Historia 
Genealógica ^, e que é para assim dizer o testa- 
mento politico de D. Fernando, sente-se, nos le- 
gares que deixamos assigoalados em itálico, a 
mão da rainha D. Leonor Telles, aquella branca 
mão que o rei formoso beijava ainda mesmo 
quando ella lhe inoculava veneno no coração, cu- 
jos movimentos a proximidade da morte ia re- 
tardando. 

* Are. da Seren. Casa de Bragança.— V. de San- 
tarém, Quadro eleme^itar^ pag. 250. — Fernam Lopes, 
Chronica d^el^rei D, Fernando^ capitulo clviu. 

2 Pag. 296, 



Kesae documento, o poder real de D. Leonor 
é garantido, pelo menos, por quinze annos. Po- 
deria, pois, realisar ella a sua velha ambição de 
ser regente do reino, ambição que já se havia 
denunciado quando se tratou do casamento da 
infanta D. Beatriz com o duque de Benavente. B 
se D. Leonor morresse dentro d'es3e praso de 
quinze annos, poderia nomear em seu testamento 
a pessoa que lhe havia de succeder na regência 
de Portugal. A pessoa indicada por D. Leonor, 
em tal caso, seria naturalmente João Fernandes 
Andeiro. D. Leonor conservaria um grande po- 
derio, porque por sua própria mão retribuiria as 
teoencias dos castellos, as justiças do reino, e 
os fidalgos aquantiados. Se, porém, D. Leonor 
vivesse alem dos quinze annos consignados no 
tratado, ser-lhe ia fácil, a ella, que tanta habili- 
dade tinha para desembaraçar-se de quem di- 
recta ou indirectamente a prejudicava, ser-lhe-ia 
fácil vasar o veneno dos Borgias na taça do seu 
neto ou neta, que devesse herdar o throno de Por« 
tugal, e que, pelo mesmo tratado, devia viver 
na sua companhia, ou na de quem ella desi- 
gnasse em seu testamento. Portanto, D. Leonor 
seria regente de Portugal emquanto o quizesse 
ser, poria de sua mão todos os otBciaes de justiça, 
reuniria cortes se lhe aprouvesse, poderia cunhar 
o dinheiro que desejasse, concederia todas as gra- 
ças, seria, finalmente, a rainha de Portugal, e pen- 
sava em verdade que o havia de ser, porque ella 
não cogitava no futuro, não medira o alcance do 
sorriso do monarcha que ia ser seu genro, quando 
o mestre de Castella lhe deu a entender que valia 
a pena assignar todos os documentos, todas as 
condições para apanhar um reino como Portu- 
gal. Os tratados rasgam-se ainda mais facil- 
mente do que se redigem. D. Leonor tinha a 
este respeito bom mestre de portas a dentro, 
mas só começou a coniprehender esta grande 
verdade quando D. João i de Castella a mandou 
presa para o convento de Tordesillas. 

No dia 30 de abril do anno de 1383, a que 
nos vimos referindo, celebraram-se, no paço de 
Salvaterra de Magos, os desposorios* da infanta 
D. Beatriz com o rei de Castella, representado 
pelo seu procurador ad hoc, o arcebispo de S. 
Thiago. Como fosse estipulado no contrato de 
casamento, que a infanta seria entregue entre 
Elvas e Badajoz ao rei seu esposo dentro de doze 



d92 



Historia de Portugal 



dias seguintes aos desposorios, tratoa-se desde 
logo dos apercebimentos que esse acto solemne 
requeria. Os padecimentos de D. Fernando ha- 
viam-se aggravado, e resolveu-se que eile não 
fosse, ficando acompanhado, como desejara, por 
Lourenço Annes Fogaça. Partiu pois a infanta 
para Elvas, acompanhada por sua mãe, pelo 
mestre d*AYÍz e por grande numero de fidal- 
gos, de prelados do reino e das pessoas que 
D. Fernando havia nomeado para constituírem 
a casa real de sua filha, entre as quaes João 
Fernandes Andeiro, como mordomo-mór, e Iria 
Gonçalves, mãe dé D. Nuqo, como coviibeira. 

Por sua parte, D. João de Gastelia, acompa- 
nhado por sua mãe a rainha D. Joanna, por sua 
irmã a infanta de Navarra, por seu filho D. Fer- 
nando, por grande séquito de donas, donzellas, 
senhores e prelados, dirigira-se para a fron- 
teira. A rainha D. Joanna veio a Extremoz bus- 
car D. Leonor e a infanta. Em Badajoz foi 
conBrmado pelo rei de Gastelia o contrato nu- 
pcial, e toda a corte castelhana prestou com a 
portugueza preito e homenagem ao que uma e 
outra acabavam de ouvir lôr. 

Para o acto da entrega da noiva havia-se le- 
vantado em Elvas, ao longo da ribeira de Chin- 
ches, um arraial de mui vistosas tendas. Fernam 
Lopes descreve elegantemente esse acto: «A rai- 
nha pousava na viila (Eivas) com a infanta; e 
antes que partisse, para trazer sua filha a uma 
grande e mui formosa tenda d'el-rei D. Fernando 
seu pae, foi-lhe primeiro entregue o infante D. 
Fernando, moço pequeno pouco mais de dous 
annos, para o ter em reféns: porque nos tratos 
era contheudo, que el-rei D. Fernando o tivesse 
comsigo, até que a infanta sua filha houvesse 
idade de onze annos cumpridos, e entrasse por 
os doze, em que o casamento podia ser firme; e 
que então fosse aquelle infante entregue em Gas- 
telia, casando el-rei primeiro outra vez com a 
rainha sua mulher por palavras de presente. En- 
tão partiu a dita infanta da vilIa para o arraial 
dos portuguezes, bem corregida e acompanhada 
de mestres, e ricos-homens, e cavalieiros, e ou- 
tras muitas gentes que com ella iam: e indo as- 
sim lodos mui assocegadamenle, acharam no 
caminho el-rei de Gastelia, que outrosim vinha 
com muitas companhas comsigo; e quando che- 
gou em direito da infanta, inclinou a cabeça, 



e fez-lhe reverencia, e passou; e indo mais 
adeante, foi receber a rainha D. Leonor saa 
sogra, â porta da cerca velha, que está acerca 
do mosteiro, caminho de Badajoz; e inclinan- 
do-se, fez-lhe reverencia, e tomou a rédea da 
nmlla em que ia, e começaram de ir para a 
tenda aonde levavam a infanta. A rainha D. Leo- 
nor ia vestida em uns pannos d'ouro mui formo- 
sos; e sua contenencia e rosto e olhos era assim 
tudo gracioso, que quantos senhores e cavaliei- 
ros ahi vinham de Gastelia, todos louvavam sua 
formosura e graça.» Depois, o rei de Gastelia 
apresentou a dispensa de parentesco, e em se- 
guida o cardeal de Aragão recebeu as declara- 
ções dos noivos. Entretanto, o olhar ardente dos 
fidalgos castelhanos pairava cobiçosamente so- 
bre a bella figura de Leonor Telles, e ninguém 
se lembrava de mirar, por um momento, a pe- 
quenina noiva de doze annos. que principiava a 
ser rainha de Gastelia, e por cujos esponsaes ali 
estavam todos reunidos. 

No banquete d*essediadeu-se um episodio ver- 
dadeiramente curioso, mas que por si só bastaria 
para pór em rele?o a hombridade de caracter 
de D. Nuno Alvares Pereira. Foi o caso que elle 
e seu irmão Fernam haviam sido indigitados 
para tomar logar n*uma das mesas da tenda real 
mas, como se não apressassem, quando se apro- 
ximaram jã a mesa estava cheia de portuguezes 
e castelhanos. O que fez D. Nuno ? Um prodígio 
de atrevimento, mas de atrevimento digno, que 
o seu cantor Francisco Rodrigues Lobo julgou 
dever incluir na monótona e prosaica epopea do 
Condestabre de Portugal: 

Nuno Alvares entre elles logar tinha, 
E o valeroso irmão Fernam Pereira, 
Por ordem, mando, e gosto da rainha, 
Que os costumava honrar d'esta maneira; 
Porem como a vontade com que vinha, 
Não era em nenhum d'elies mui ligeira, 
Ghegam tão tarde ali que os dos assentos, 
Nem logar querem dar aos cumprimentos. 

Succedeu-lhes de modo que chegaram, 
E nenhum para ouvil-os volta o rosto, 
Antes com os olhos baixos se inclinaram, 
Gada um muito arrogante no seu posto; 
Mas a seu pezar logo se levantaram, 
E acharam na comida pouco gosto, 



J 



BiBtoiia de Portugal 



99a 



Qae Nuno do jantar fez pouca conta, 
Mas pagou-Ihe o despreso c'nma affronta. 

Perto da meza a elles se chegou, 
Nenhum d'elles fallou, e a nenhum falia, 
O seu pé nos da meza atravessou, 
E deu com ella em peso sobre a salla; 
Ao grande estrondo -o rei se levantou, 
E toda a gente áquella parte abala, 
Mas Nuno co'o irmáo de espasso volta, 
Sem fazer cgnta alguma da revolta. ^ 

. Pois ahi está justamente o que D. Nuno fez. 
Tudo aquillo lhe cheirava a castelhano; estava 
desesperado. Precisava de abrir um respiraculo k 
Bua indignação: deu com a mesa em terra , e de- 
pois voltou serenamente as costas ao banquete. 

Conta Fernam Lopes que o rei de Castclla, 
quando lhe disseram o que tinha sido, excla- 
mara: «Sei que se Vingaram bem; e quem tal 
cousa commetteu n^este logar, sentindo isto que 
lhe foi feito, para muito mais será seu coração.» 
Pois o rei de Gastella jâ bem podia saber para 
quanto era o coração de D. Nuno, e o mestre de 
S. Thiago, que era presente, também; mas como 
quer que o ignorasse, não tardaria a sabel-o. . . 

Acabado o banquete, o rei de Gastella condu- 
ziu sua sogra â povoação de Elvas, levando de 
rédea a mula; depois voltou ao arraial, e partiu 
d'ahi para ir dormir a Badajoz, sendo a joven 
rainha de Gastella acompanhada por todos os 
preladoQ, e fidalgos portuguezes, incluindo seu 
tio, o mestre de Âviz. João Fernandes Ândeiro, 
porem, disse que estava incommodado, e Bcou 
na povoação. 

Era que a febre do desejo se reaccendera com 
as phrases picantes que os castelhanos murmu- 
ravam entre si quando a belíesa de D. Leonor 
Telles 08 deslumbrou. Mais uma noite de prazer, 
barregã formosa. O teu primeiro marido anda 
exilado, o segundo está moribundo, tua filha 
parte, creança ainda, na companhia de extra- 
nhos, tua irmã jâz na sepultura que ajudaste a 
abrir-lhe, mas que importa tudo isso, se tensão 
pé de ti o teu lascivo, o teu insaciável amante, 
que importa tudo se és ainda beila, se os fidal- 
gos te cobiçam, e se pensas que ficarás sendo re- 
gente de Portugal ? ! 

1 Canto VI. 



O peior, o peior é que ao fundo d'este quadro, 
em que a volúpia do Oriente parece espregui- 
çar-se sobre leito de rosas dentro da alcova da 
adultera, se avista ao longe, muito ao longe^ 
sombrio e negro, solitário e punidor, o convento 
de Tordesillas, cárcere que se hade converter 
em sepultura. . . 

No domingo seguinte, realisaram-se as ceri- 
monias religiosas do matrimonio na sé de Bada- 
joz, celebrando o arcebispo de Sevilha. Houve 
em seguida pomposas festas, justas, torneios, 
toiros. Foi de júbilos officiaes toda a semana, re- 
novando, em um dos dias, preitos e homenagem 
os fidalgos castelhanos e portuguezes. Na semana 
immediata, o rei de Gastella despediu-se de sua 
sogra, e partiu de Badajoz. D. Leonor sabiu de 
Elvas, com destino a Lisboa, porque D. Fernando, 
sentindo-se cada vez peior em Salvaterra de Ma- 
gos, ordenou que o trouxessem para Almada. 
Pelo caminho, a rainha vinha conversando com 
08 que a acompanhavam sobre a impressão que 
lhes causara o rei de Gastella. De uma vez, per- 
guntando ao mestre de Aviz que tal lhe parecera 
D. João I, e respondendo o mestre que lhe pa- 
recera bem, tornou ella: «Bem dizeis, irmão; 
mas, porem, de mim vos digo, que o homem 
queria eu que fosse mais homem. » Uma rameira 
não daria melhor a perceber os seus instinclos 
carnaes. 

Gomo no contrato de casamento havia sido es- 
tipulado, deviam reunir-se cortes em Gastella e 
Portugal para reconhecerem officialmente o ca- 
samento do rei D. João com a infanta D. Beatriz. 
Era um acto politico, que devia completar o acto 
religioso. O conde de Ourem, João Fernandes 
Andeiro, foi enviado a Gastella, para esse fim, 
como procurador dos reis de Portugal; ás cortes 
castelhanas seguiram-se as portuguezas, que se 
juntaram no mosteiro de S. Domingos de Santa- 
rém, onde foram presentes dois embaixadores 
do rei D. João i. 

Já então era gravissimo o estado de D. Fer- 
nando, e os enviados castelhanos assim o com- 
munícaram ao seu soberano, quando chegaram 
a Gastella. 

D. João I fallou logo com alguns fidalgos da 
sua corte, encommendando-Ihes que viessem a 
Portugal, para acompanharem de perto os acon- 
tecimentos c para combinarem com certos por- 



204 



Historia de Portugal 



tugaezes» a fim de qne logo que D. Fernando mor- 
resse, D. João podesse vir a Portugal tomar conta 
do reino. 

De feito, nfto eslava por longe a punigâo de 
D. Leonor Telles, a mina de todos os seus pla- 
nos ambiciosos. Na vida social como no vasto 
theatro da naturesa, as tempestades formam-se 
de pequenas nuvens, que depois se vão engros- 
sando com vapores tenebrosos. 

Entretanto, a rainha parecia cada vez mais 
embriagada pelo amor que o novo conde de Ou- 
rem lhe soubera inspirar. Por sua influencia, 
João Fernandes Ândeiro era impudentemente 
escolhido para todas as missões diplomáticas de 
maior importância. Choviam sobre elle honras 
e proveitos. Has este descaro, â hora em que o 
rei agonisava, chegava a despertar indignação 
até nos corações mais gangrenados de cynismo. 
O almirante D. João Affonso Tello, voltando livre 
de Castella, em virtude do tratado de casamento 
de D. Beatriz com D. João i, sentiu o duro co- 
ração mordido da garra da vergonha, tal era o 
escândalo com que ^a rainha estadeava os seus 
ruins sentimentos de barregã. O irmão de D. Leo- 
nor projectou matar, por si ou por seus apani- 
guados, o conde Aiideiro; mas parecia que um 
génio mau, avaliando em muito os serviços dam- 
nados do conde de Ourem, lhe defendia a vida. 
Fizeram-se-lhe esperas, e de uma vez, que de- 
via ser quando João Fernandes Àndeiro regressava 
doesta ultima missão diplomática ás cortes cas- 
telhanas (e não quando Fernam Lopes diz, o que 
envolve erro de chronoiogia) salvou-se o conde 
por ter mudado de itinerário, à volta dé Castella, 
certamente por desconfiança, porque veio pelo 
Crato, quando os assassinos iam ao seu encon- 
tro caminho de Leiria. ^ 

Aos ouvidos de D. Fernando chegou a des- 
vergonha com que D. Leonor, durante as festas 
nupciaes de Elvas, se denunciara manceba do 
conde de Ourem. Visinho da eternidade, D. Fer- 
nando quiz mostrar-se punidor de immoralida- 
des alheias, porque as suas. . . Deus as puniria 
breve. Mandou pelo seu escrivão da puridade 
escrever confidencialmente ao mestre de Aviz, 
encarregando-o de matar o conde Àndeiro, e di- 

1 Vejam-se os primeiros capítulos da Chronica de 
el-rei D. João /. 



zendo-lhe que depois se recolhesse ao castello 
de Coimbra, onde poderia resistir ás iras da rai- 
nha. O escrivão fez a carta e, depois de a ter 
escripto, pensando no caso, disse a 0. Fernando 
que, recolhendo-se o mestre de Aviz ao castello 
de Coimbra, fácil lhe seria crear ahi um núcleo 
de resistência aos direitos da rainha de Castella 
ao throno de Portugal. Ò rei achou acertado o 
alvitre, e rasgou a carta. Antes evitar que seu 
irmão podesse ser rei de Portugal, do que casti- 
gar a immoralidade e impedir que a barregã 
coroada fosse regente em nome de sua filha, 
tendo ao lado o amante poderoso. Talis vita, 
finis ita. 

Com a impaciência peculiar aos doentes peri- 
gosos, D. Fernando quiz que o trasladassem de 
Almada a Lisboa. D. Leonor, para lhe testimu- 
nhar a sua magna em tão dolorosa conjunctura, 
deu á luz uma creaoça qne era filha do conde 
Àndeiro. O rei sabia-o melhor que ninguém. 
Todavia era o povo quem se mostrava indignado. 
Em face d'esta depravação palaciana, fazia-se na 
alma do povo uma reacção de dignidade, e é pe- 
los sentimentos nobres que o povo se torna forte, 
digno e respeitável. 

A agonia de D^ Fernando foi miserável de 
cobardia deante da sepultura e do mysterio da 
eternidade. Era um criminoso que tinha medo. 
Chorava, confessava os seus peccados, implo- 
rava o perdão de Deus. Vendo-o desesperado 
entre a consciência do crime e a inevitável pro- 
ximidade da morte, os que o rodeiavam chega- 
vam a ter dó do rei moribundo, choravam de o 
vôr chorar. Querendo salvar a todo o custo a sua 
alma, deu, n'essa hora, todas as provas de hu- 
mildade christã: vestiu o habito de S. Francisco, 
e, assim entrajado, recebeu o viatico. Final- 
mente, na noite de 22 de outubro de 1383, ex- 
pirou o rei Formoso, tendo vivido trinta e oito 
anoos e reinado dezeseis. 

Apenas a morte invadiu o aposento real, o conde 
de Ourem, receioso das iras .populares, sahiuá 
pressa do paço, indo metter-se no seu condado. 
Um escudeiro do almirante conde de Barcelios 
quiz matal-o, quando elle se escapulia; mas o 
almirante, temendo certamente a cólera da irmã, 
dissuadiu d'e8se propósito o escudeiro. ^ Que 



1 1 Chronica (Vel-rei D. João i, cap. iv, pag. 8. 



Historia de Portugal 



2d5 



nobres corações todos estes ! A rainha não cho- 
rou uma lagrima, nem siquer de remorso! João 
Fernandes Àndeiro desamparava a amante para 
se pôr em seguro, quando se tratava de um pe- 
rigo commum ! O conde João A Sonso já não an- 

« 

tepúnha a honra da irmã ao receio de incorrer 
no desagrado d'ella ! 

No dia seguinte, posto o cadáver sobre umas 
andas, foi conduzido ao mosteiro de S. Fran- 
cisco de Santarém. Era a ultima vez que ia, 
eil'0 vaCy eU-o .vem, para a terra dos seus en- 
cantos. Pouca gente acompanhou o féretro; se 
não foram os frades, o abandono seria quasi 
completo. Dó, nenhum. A rainha deixou-o ir, e 
ficou. Deu por pretexto que se sentia mal. O 
povo murmurou largamente de mais esta prova 
de ingratidão por parte da rainha. As murmura- 
ções chegaram aos ouvidos de D. Leonor, que 
comprehendeu que a sua posição era arriscada, e 
que lhe convinha, portanto, não desafiar as iras 
populares. Começou, pois, a fingir-se muito sen- 
tida, muito saudosa. Gritava, lamentava-se, mas 
quem a via e ouvia sorria para dentro. As gen- 
tes, diz o chronista, não perdiam, porem, a lem- 
brança d'aquella má fama, que em vida d*el-rei 
cobrara. Continuando o seu plano de hypocrisia, 
D. Leonor Telles pensou logo em fazer exéquias 
solemnes por alma de seu marido, para attenuar 
de algum modo o péssimo effeito que produzira 
a pobresa e abandono do enterro do rei. 

Diz Fernam Lopes que a sepultura que rece- 
beu o cadáver de D. Fernando fora tão simples- 
mente feita como o enterro. Parece até que o 
rei fora depositado no sarcophago de sua mãe, 
e depois trasladado para o tumulo privativo, que 
está hoje no museu archeologico do Carmo, ^ 

* Na capella-mór do museu do Carmo ha um sar- 
cophago, que tem o n.^ 462, e a seguinte designação 
no respectivo catalogo: «Sarcophago da princezaD. 
Constança, mâe d'el-rei D. Fernando i. A campa re- 
presenta uma figura tosca, de homem, designando 
que servira também de primeiro tumulo a este mo- 
narcha,---i376.> 1376 é erro manifesto, porque esta 
data nem se pode referir ao fallecimento de D. Cons- 
tança, que occorreu em Santarém em i345, como 
quer D. Josà Barbosa, ou em 1349, como diz o Obi- 
tuário de S. Bartholomeu, nem ao fallecimento de 
seu filho D. Fernando, que f^lleceu, como dissemos 
no texto, em 1383. Também no museu do Carmo 



para onde veio removido da egreja de S. Fran- 
cisco de Santarém. 

CAPITULO VII 

Sobre o tumulo de D. Fernando. — Prlnoipal 
influencia do seu reinado no futuro do 
paiz. — Conquistas politicas do teroeiro 
estado. — ^A democracia. 

Dando conta, no curso da narrativa, das prin- 
cipaes medidas administrativas de D. Fernando, 
e da sua deplorável politica, apreciamol-as se- 
gundo a nossa maneira de vôr. Has na rápida 
critica que por vezes fizemos da influencia doeste 
reinado sobre a organisação geral do paiz, sem- 
pre insinuamos a idéa de que foi justamente no 
tempo de D. Fernando que a democracia portu- 
gueza começou a tomar um incremento vital. 
«A nosso vôr, dissemos, o reinado de D. Fer- 
nando tem, pelo que toca à historia do terceiro 
estado em Portugal, uma alta, uma grandíssima 
importância. É a aurora da democracia.» 

Com effeito, durante os primeiros tempos da 
monarchia portugueza, o clero e a nobreza estão 
de posse de um predomínio asphyxiante para o 
rei, e esmagador para o povo. 

Pelo que respeita ao clero, diz Pinheiro Cha- 
gas: «Vimos que, durante o governo dos sobe- 
ranos da primeira epocha, a historia interna de 
Portugal se resumiu quasi unicamente na grande 
lucta com o clero: Sancho i levou as hostilidades 
ao extremo, e fez tremer o próprio Innocen- 

está, com o n.<> 481, o sarcophago privativo de D. 
Fernando, que tem no friso a seguinte inscrí- 
pçSo: 

...MUY5 NOBRE: REY5 DON FERNANDO 5 FI- 
LHO DO MUY NOBRE : REY || DON PEDRO : B 
DA YNFANTE DON || ACOSTANÇA= FILHAS 
DE DON YOHAN MANUEL : || SE FYNOU EN 
LYXBOAi NO ABYTÒ DE SAN |i FRAN- 
CISCO i .FERIA QUYNTa; XX 5 II DYAS DE 

outubros era de myl: e ccc e xxy 
anos; 

A era de 1421 corresponde ao anno de Christo de 
1383. Portanto, também no catalogo está errada a 
data de 1376 que se lé na breve noticia relativa ao 
n.» 481. 



296 



Historia de Portugal 



cio III DO seu solío pontifical; Affonso ii. frio e 
impassível, continuou sem vaciliar a prolongada 
peleja com os grandes vassallos ecclesiastioos, e 
riu-se das bulias fulminadas por Honório iii; San • 
ciio II succumbiu finalmente debaixo do peso 
d'e88es ódios accumulados e irritados pela enér- 
gica resistência dos seus antecessores; deposto 
por Innocéncio iv, o infeliz monarcha deu, com 
as suas desventuras, uma severa liç&o aos seus 
successores, lição que elles não desaproveitaram, 
nem mesmo aquelle que as explorara, Affonso iii 
o Bolonbez. 

«Apesar de ter sido levantado ao throno pelo 
clero, Affonso ni não besitou em combater-lbe 
as pretenções, e travou com elle uma acirrada 
batalba em que a politica e a energia do sobe- 
rano luctavam muitas vezes com vantagem com 
a astúcia e o orgulbo dos prelados. O papa de- 
balde fulminou a excommunbão sobre o reino, 
Affonso iii zombou dos raios da Egreja até que 
a doença lhe enfraqueceu o espirito. Era um le- 
gado pesadíssimo, porque ia pòr D. Diniz na 
alternativa ou de ser mau filho descumprindo as 
ordens de seu pae moribundo, ou de collocar para 
sempre o seu reino na faumilbanle dependência 
de Roma e do clero. 

«Felizmente o joven soberano tinha um tacto 
e uma habilidade superiores ao que se podia es- 
perar dos seus Terdes annos, e soube conciliar 
tudo, sem prejuízo dos seus deveres de monar- 
cha. A sua moderação, e a sua branda firmesa, 
se nos é permittido ligar dois termos em appa- 
rencia inconciliáveis, poderam mais do que os 
impetuosos rompantes dos primeiros reis. Recon- 
ciliado com o clero a troco de promessas vagas, 
e facilmente feitas, quando os prelados quizeram 
abusar das vantagens concedidas, sentiram-se 
com espanto reprimidos pela nião de ferro do 
poonarcha prudente que a sabia esconder com 
velludo; ao mesmo tempo, concedendo uma 
justa protecção ã ordem ecciesiastíca, D. Diniz 
tirava-Ihe todo o pretexto para se queixar e con- 
serva va-se no terreno da legalidade e da justiça. 

«Por isso D. Diniz acabou para sempre com 
essas tremendas luctas, em que a prelasia reu- 
nida n'um corpo compacto luctava teimosamente 
com a coroa, que se deixava muitas vezes arras- 
tar a excessos que justificavam a revolta. Não se 
julgue comtudo que poude elle eximir-se a si 



e aos seus successores do inveterado combate 
contra os altos senhores ecciesiasticos ; mas o 
batalhar, de que daremos uma rápida noticia, 
não era jà a lucta entre duas preponderaocias, 
era muitas vezes apenas o duello do rei com um 
ou outro bispo audacioso, que ainda tinha bas- 
tante influencia para lhe causar embaraços, mas 
não tanta que ateiasse no reino uma d'aquel- 
las conflagrações terríveis de que foi victima 
D. Sancho ii.» 

Sem embargo da posição de serena resistência 
que o sábio rei D. Diniz toma em face do clero 
preponderante, as raízes do poder ecclesíastico 
haviam mergulhado fundo, e a sombra das in- 
stituições religiosas abrangia uma enorme área, 
como a de uma arvore secular. Ainda no século 
XVI, os prédios rustioos do clero formavam qnasi 
a quarta parte da região arável do reino; e as 
duas ordens de S. Domingos e de Jesus eram 
dois colossos cujo poder, sustentado pela ri- 
quesa, pelo talento e pelo terror, faziam algu- 
mas vezes estremecer o throno real. 

Pelo que toca ã nobresa, toda a gente sabe 
que o seu poder nasceu e medrou em Portugal 
parallelo ao poder real. São os fidalgos que 
rodeiam os reis, que os ajudain a expulsar os 
moiros, são elles que levantam as suas espa- 
das, como florestas de ferro, em deredor da co- 
lôa, que com ellas se defende. Os seus serviços 
são largamente renumerados pelo rei, que os 
' quer prender pela ambição^ que lhes faa amplas 
concessões. Ponhamos de parte a grave questão 
de saber se em Portugal houve feudalisooo ou não 
houve. Não se trata aqui de saber se ao regimen 
feudal faltaram sempre entre nós duas condições 
características: a perpetuidade do domínio no 
feudatario e seus successores, e a obrigação do 
serviço militar dos senhores para com o suzerano. 
O que é certo é que, no correr dos tempos, o po- 
der da nobresa sobresalta D. João i, que planisa 
oppõr-lhe a lei mental^ finalmente decretada por 
seu filho D. Duarte, e que inquieta D. João n 
a ponto de encetar e sustentar com rara energia 
uma guerra aberta com a nobresa de todo o 
reino. 

B o povo ? 

O povo havia sido explorado pelos reis com a 
creação dos municípios; era uma espécie de le- 
breu que o poder real, aBrontado pela concor^ 



Historia de Portugal 



a97 



rencia do dero e da nobresa, queria a{ular con- 
ira estas daas poderosas classes. 

. Has o. povo, poderão diser, tinha voz nas cor- 
tes geraes; Afonso iii consentira que os munici- 
pios, que eram a encarnaç&o legal do povo, se 
fixessem ouvir quando em cortes eram discuti- 
dos os interesses geraes do pais. 

Mas essa concessão era simplesmente phan- 
tasoiagortca. O povo continuava a ser vexado e 
desattendido. «Por veses grandes queixas fez 
onvir o terceiro estado contra os vexames e 
abusos da corte e da nobresa;' então grandes 
promessas se faziam em nome do rei; encerra- 
das, porém, dà cdrtes, tudo ficava no esqueci- 
m^ito. Nos séculos xv e xvi algumas tentativas 
bouve para tomar periódica a convocação das 
cortes; foram, porem,* ineficazes.» ^ O que se 
8%ibia &n que o povo tinha de pagar os tributos, 
e de sofiirer os vexames que lhe quisessem in- 
fligir. Mais nada. Davam-lhe o direito de fallar 
em cortes, mas a sua voz perdia-se, não encon- 
trava écco. 

É, porem, justamente no reinado de D. Fer- 
nando que o povo pretende intervir efficazmente 
nos negócios públicos, começar a governar. Três 
mil mesteiraes se reúnem ã voz do alfaiate Fer- 
nam Vasques para irem dizer a D. Fernando, 
no seu próprio paço, que não deve casar com 
D. Leonor Telles. 

O povo desperta nobremente, porque desperta 
para fulminar, prevenindo-o, um grande exemplo 
de immoralidade dado pelo rei, um crime, um 
adultério. Esta origem da intervenção popular é 
nobre e sjmpathica. O rei estava collocado em 
terreno escorregadio, o povo em solo Srme. Por- 
tanto, a voz do povo, que a principio devera ser 
balbdòiante, medrosa, toraa-se desde logo enér- 
gica, forte. É a consciência da defesa de uma 
boa causa, que dá a coragem ao povo. 

«Que elles eram ali vindos, porquanto lhes 
era dito que el-rei sen senhor tomava por sua 
mulher L^nor Telles, mulher de João Lourenço 
da Cunha, seu vassallo; e por quanto isto não 
era sua honra, mas antes fazia gran nojo a Deus 
e a seus fidalgos, e a todo o povOy que elles, 
como verdadeiros portuguezes lhe vinham di- 
zer, que tomasse mulher filha de rei^ qual con- 

t Benevides.— AdtnAas de Portugal» pag» 17» 
n voL, —38. 



vinha a seu estado; e que quando com filha de 
rei casar não quisesse, que tomasse uma filha 
de um fidalgo de séu reino, qual sua mercê 
fosse, de que houvesse filhos legitimes, que rei- 
nassem depois d'elle, e não tomasse mulher 
alheia, cá era cousa que lhe não haviam de con- 
sentir; nem elle não havia porque lhe ter isto a 
mal, cá não queriam perder um tão bom rei 
como elle, por uma má mulher que o tinha en- 
feitiçado.» ^ 

Esta reacção súbita, este despertar da alma 
popular não se limita apenas aos três mil mes- 
teiraes de Lisboa, reflecte-se ao largo em San- 
tarém, Alemquer, Thomar, Abrantes, e outros 
legares do reino. ^ 

O povo abre finalmente os olhos, propõe-se fi- 
tar a luz; é elle que procura guiar o rei, con- 
duzil-o, ensinar-lhe o que deve fazer. Adverte-o, 
em primeiro logar, de que vae commetter um 
crime religioso, um peocado, que vae oSender a 
Deus, tomando para si a mulher adultera; depois 
mostra-lhe as complicações politicas que podem 
advir para o reino quando se tratar de investir 
no poder real os filhos do adultério. É o espirito 
religioso, nojo a Deus^ e o espirito nacional, 
como bons portíÂgueses, que despertam de Súbito 
o leão até ahi anesthesiado, adormecido, ferin- 
do-o nas duas fibras mais sensíveis do seu orga- 
nismo moral: o amor de Deus e o amor da pátria. 
Por isso Fernam Vasques, o alfaiate, é enérgico 
quando falia. Bem sabemos que as palavras do 
chronista, por nós citadas, não podem ser tex- 
tuaes; mas em todo o caso hão de ser um reflexo 
da verdade, e não seriam decerto tão enérgicas 
na chronica se o alfaiate não tivesse sido rude- 
mente verdadeiro, vehemente, no discurso. 

Mas o povo é d'esta vez ludibriado; D. Fer- 
nando não só o desattende, pune-o. É certo. Mas 
o que é também certo é que o rei fugiu apressada- 
mente de Lisboa quando o povo o esperava reu- 
nido na egreja de S. Domingos. O poder real 
acobardava-se, e iôso bastava para fazer compre- 
hender ao povo que elle tinha alguma importância, 
que elle tinha ao menos a força de protestar ener- 
gicamente contra os escândalos dos reis. Se não 

^ Chronica d*eWei D, Fernando^ por Femam Lo- 
pes, capitulo Lx. 
> Ibid. Capitulo lxi« 



1^98 



Historm de Portugal 



r I 



fosse nem t&o digaa nem tão nobre a altitude 
do povo portuguez» o que haveria feito D. Fer- 
nando? Haveria casado em Lisboa em vez de ir 
escondidamente casar aos arrabaldes do Porto, 
e, mandando lançar os corpos dos mesteiraes ao 
supplicio das fogueiras, faria d^elles os brandões 
que aliumiariam a sua noite de núpcias. É po- 
rem de longe, assustado pelo rugido do leão des- 
perto, que D. Fernando exclama fugindo: «Olhae 
aquelles villões traidores como se juntavam; 
certamente prender-me queriam, se eu lã fora.» 
O corpo de Fernam Vasques não tarda, é certo, 
a pender da forca, immovel e desfigurado. Ma- 
terialmente, a reacção do povo não evitou o 
escândalo; mas politicamente conquistou um 
direito, foi um grande passo para a democracia, 
o povo viu fugir deante de si, receioso, o poder 
real, que não poude arcar com elie, que não teve 
forças para fazer alli mesmo juncar de cadáve- 
res o átrio dos paços reaes. 

Foi um grande triumpho moral. 
. D. João I, rei saido da onda popular, dã ao 
terceiro estado uma grande importância, porque 
lhe reconhece o direito de fazer reis, sustentan- 
do-os pelas armas no campo de batalha, e pelo 
seu voto nas cortes, e o direito de intervir nos 
actos da soberania que tinha recebido desde esse 
momento a sagração popular. Rei do terceiro 
estado, antes de ser rei dos outros dois, corria- 
Ihe a obrigação de escutar frequentemente a voz 
do povo: reuniu cortes vinte e duas vezes. A de- 
mocracia firmava-se. Havia, é certo, de atraves- 
sar ainda períodos de oppressão e de decadência, 
mas era já mais do que uma idéa, era um facto, 
e os factos ficam quando os homens passam. 

D. João II allia-se com o povQ para vibrar 
golpes ã nobresa. Esta allíança lisonjeia tanto o 
terceiro estado, que dispensa o rei de convocar 
as cortes mais de três vezes. Os successores de 
D. João II abrem um novo período de abatimento 
para o povo, mas elle, apesar de opprimido, vive, 
pensa, agita-se de vez em quando, mostra-se, 
como quando aconselha a viuva de D. Manuel a 
casar com D. João m seu enteado, tem, final- 
mente, a consciência dos seus direitos. Âo ex- 
pirar com D. Henrique a dynastia de Aviz, o 
cardeal-rei quer, apesar de fraco e moribundo, 
continuar a opprimir o terceiro estado, annulla 
em 1578 a eleição do procurador do povo de 



Lisboa, mas o povo reage, ^ elege Phebo Moniz, 
que é, tanto' nas cortes de Lisboa como nas de 
Almeirim, a encarnação perfeita, completa, épica, 
da soberania nacional, cuja causa defende com 
uma eloquência assombrosa. 

Mas a voz de um só homem, embora esse ho- 
mem seja o representante dos interesses e direi- 
tos de uma classe inteira, pode menos que as 
armas de um exercito» Ainda assim, o povo não 
se submette facilmente a Castella. O povo reage, 
lucta, hastea o pendão do prior do Crato, que é 
filho de um príncipe e de uma mulher do povo, 
uma judia. O terceiro estado quer resuscitar o 
mestre de Aviz no prior do Grato, mas os dois 
homens tinham estaturas dífferentes, não podiam 
medir-se. A causa do oppressor venceu pela 
força. 

«D, João IV,— diz o biographo moderno das 
Rainhas de Portugal, — derrubando a domina- 
ção castelhana, apressou-se a fazer-se confirmar 
rei pelos três estados em 1641; estas cortes pro- 
clamaram a soberania nacional, declarando o 
poder dos reis emanado da vontade do paiz e 
sustentando o principio da fiscalisação da obser- 
vância das leis pelos delegados da nação; as cor- 
tes, que em 1580 não tinham sabido salvar o 
paiz melhor que o seu governo, grangeando co- 
ragem com as resoluções votadas em 1641, che- 
garam ã maior ousadia, em 1668,. depondo o rei 
D. ACTonso vi; seu irmão, D. Pedro ii, aprovei- 
tando com isso, não ficou comtudo gostando das 
pretensões das assembléas, e desde 1698 não 
convocou mais cortes, w 

Durante os reinados de D. João v edeD. Joséi 
o poder absoluto prescinde de convocar cortes, 
parece dominar superior a qualquer outra von- 
tade humana. O que faz entretanto o povo? 
Deixa-se adormecer embriagado pelos deslum- 
bramentos da realesa purpurada? Não. A idéa de 
liberdade referve em quasi toda a Europa, como 
uma grande massa de oUro n*.um enorme cadi- 
nho. É providencial, parece, o facto da nâ^nar- 
chia absoluta ter procurado resuscitar n^0ta 
época o sen pleno poderio, a sua auctoridad' 
quasi divina: porque d'este modo prepara a ebul-^^ 
lição das doutrinas liberaes, provoca a reacção 
que dentro em pouco rebentará terrível. Em vez 
de transigir emquanto era tempo, a monarchia 
absçluta agarrava-se ãs tradições do direito di- 



/ 



Historia dó Portugal 



299 



s. 



V 

•I 



YÍDO| dem querer recuar um só passo. Pòrlugal, 
na sua qualidade áe pequeno paiz, soffria com 
.apparente paciência os vexames que lhe cuspia 
na face a monarchia poderosissiroa, e esperava. 
Esperava o que? Esperava que o rumor, que 
elle ouvia ao longe, se aproximasse. Mas porque 
nâo foi de Portugal, onde a democracia tivera já 
um periodo de largo florescimento, que partiu a 
iniciativa do movimento popular? Por duas ra- 
sões, a nosso vér: 1." — Porque as grandes revo- 
luções só podem emanar dos grandes paizes, por 
isso que as revoluções são como as cbammas: 
quanto mais copabustivel, maior labareda. 2.'— 
Porque o marquez de Pombal, guerreando, em- 
bora por interesse próprio, a nobresa, vibrando 
um golpe mortal â Companhia de Jesus, abolindo 
a escravatura, acabando com a odiosa distinc- 
ção entre christãos velhos e christãos novos, 
torna-se sympathico ao povo, adoça, para assim 
dizer, a asperesa do poder real omnipotente. 

Coincide com o reinado de D. Maria i a grande 
explosão da revolução franceza. É o chammejar 
de um incêndio por muito tempo latente; tanto 
mais terrível, quanto foi violenta a força de re- 
pressão. Então a democracia attinge pleno. meio 
dia. Como em todas as grandes tempestades, o 
Júpiter popular despede da sua mão poderosa 
raios injustos, taes foram aqueiles que victima- 
ram a familia de Luiz xvi. O homem não era 
responsável pelos actos do rei. Mas, como quer 
que seja, a onda da democracia rolou desde a 
França sobre quasi toda a Europa, e fertilisou-a 
para sempre. 

Revertamos agora ao reinado de D. Fernando, 
porque esta digressão não deve significar mais 
que o desejo de acompanhar o desenvolvimento 
âa democracia portugueza desde a sua origem 
DO século XIV. Seguindo o seu curso alravez dos 
tempos, pareceu-nos que com maior segurança 
se poderia estabelecer o seu ponto de partida. 

Certo é que a prímeira semente da demo- 
cracia foi lançada à terra no reinado de D. Áf- 
fonso ni; mas essa semente parece adormecer 
no seio da terra, para só começar a germjnar 
(]uátro reinados depois. 

Referindo-se ao governo do terceiro AÍTonso, 
diz o sr. Pinheiro Chagas: «O povo humilhado 
e espesirihado pela nobresa e o clero eleva-se, 
pelo valor e pelo sacrifício, á altura dos fidalgos 



cavalleiroS) e abrindo um largo sulco nas fileiras 
mussulmanas escreve as primeiras palavras da 
sua carta d'alforria; depois tomando assento, 
peíos seus representantes, ao lado da altiva no- 
bresa e do clero orgulhoso, affirma a sua impor- 
tância politica, e alliando-se tacitamente com a 
monarchia, emancipa-se da passada escravidão, 
e prepara d'essa forma a esplendida epopea que, 
abrindo-se pela óde gloriosa d'Âljubarrota, ha de 
terminar na fúnebre elegia d*Alcacer-Kibir. » * 

Sem embargo, como já tivemos occasião dè 
vér, esta concessão de D. ACfonso xii não teve 
uma realidade utii para o povo; alem de que, 
os vexames continuaram a pezar de tal modo 
sobre a classe popular, que o próprio sr. Pi- 
nheiro Chagas se viu obrigado a dizer logo duas 
paginas adeanle: «Já voem pois que as clas- 
ses privilegiadas continuavam a ter as maiores 
exempções, e que a aurora da moderna civUir 
sacão democrática não era ainda senão uma 
ténue faxa de luz no korisonte. » ^ Uma ténue 
faxa de luz, o ponto luminoso e longínquo, que 
é a promessa de uma realidade, — a aurora. E au- 
rora foi justamente a palavra que empregamos. 
De D. Fernando para D. João i a aurora da de- 
mocracia desdobra-se no ceu de Portugal; tor- 
na-se um facto, uma realidade. 

Encarando o reinado de D. Fernando nas suas 
relações com a historia geral do paiz, éeste, em 
boa verdade o dizemos, orlado proveitoso que 
lhe encontramos. Esta doutrina já a deixámos 
tmittida quando tratámos de apreciar a politica 
e a administração do successor de Pedro i. Quanto 
á sua politica, escusado será repetir que foi de- 
plorável. Quanto á sua administração, já nos 
manifestamos, quando recusamos fazer coro còm 
aqueiles que applaudem principalmente as me- 
didas relativas á agricultura, ao commercio, e á 
navegação. Scba^ffer, por exemplo, diz o se- 
guinte: «Assim é que, mesmo n'um governo 
que de nenhunv modo foi prospero, ficou deposto 
um gérmen que, mais tarde, devia desenvol- 
ver-se maravilhosamente. » Esta phrase do il- 
lustrc historiador allcmão refere-se ás medidas 
administrativas; todavia, reconhecendo a nossa 
incompetência e humildade n^estes assumptos, 

' Hist. de Portug. vol. i, pag. 74. 
* HiU, de Portug, vol. i, pag. 76, 



800 



Historia de Portugal 



declaramos francamente que repellimos a phrase 
transcripta. 

A nosso vôr, o gérmen dos progressos da 
agricaltura, do còmmercio e da navegação deve 
ir procurar-se mais longe, — ao reinado de Âf- 
fonso III, e especialmente aos de D. Diniz e 
Àffonso lY. D. Diniz cria com o pinhal de Leiria 
as madeiras precisas para as construcções marí- 
timas; chama a Portugal os marinheiros geuo- 
vezes, entre os quaes o almirante Emmauuele 
Pezagno; estabelece o que hoje se chama portos 



militares; funda a primeira bolsa de còmmercio 
no Porto. No reinado de Atfonso iv, os navios 
portugueses, aproveitando os bastos elementos 
de progresso adquiridos no reinado anterior, vi- 
sitam o grupo das Canárias, dos Açores e a Ma- 
deira, como prova Major. ^ 

Eis o que, ao cocerrar-se o tumulo do rei 
D. Fernando de Portugal, se nos offerece recapi- 
tular com relação ao seu reinado. 

1 Life of Prince Henry of Portugal. 



ILiX^TtO V 



I>es<ie a morte die !>• I^^ernaiMlo oté 
Oj acclajtnação de !>• João I 



-ô-^>*S®><>-o- 



CAPITULO I 

D. Leonor Telles investida na regência do 
reino. — Como o teroeiro estado ganha ter- 
reno. — EzaltaçEo do sentimento popular 
pelo espirito de independência nacional. 
— £piso(fios provenientes d*es8a exalta- 
ção. — Principio da grandiosa Incta em« 
prebendida i>ela democracia. 

Estabeleceu-se a viuva de D. Feraando dos 
paços de apar de S. Martinho (Limoeiro), exer- 
cendo a jorisdicç&o de regente do reino. 

Logo nos primeirqs dias de nojo, os ofBciaes 
da camará de Lisboa, como escreve Duarte Nu- 
nes de Leão, ou os bons da cidade, como diz 
Fernam Lopes, foram levar junto do sólio da re- 
gente a expressão do que n'esse momento sen- 
tia a grande alma popular. A voz do importante 
município de Lisboa ergue-se vibrante, mirando 
a um ideial de justiça que lhe tardava, pára 
ao mesmo passo fulminar os erros passados e 
evitar os futuros. O povo, comprebendendo o 
direito de aconselhar os reis, punba-o em acção. 
O discurso que Fernam Lopes attribue aos bons 
da cidade de Lisboa começa por estas palavras: 
«Senhora, nós vendo como vós tendes carrego 
de corrigir e emendar os damnos e males, que 
os d'estes reinos hão recebido até o tempo de 
agora, de que Deus por sua piedade se queira 
doer, etc.» A consciência popular transluz n'es- 
tas palavras com um elevado caracter de inde- 
pendência. Ainda pelo que respeita ao passado, 
o povo lembra á regente que o reino jaz em 



grande pobresa, em rasão das enormes despe- 
zas até ahi feitas por mingua de boni conselho 
e sem acendo dos naturaes do reinOj mas sim 
por influencia de extrangeiros, que antepunham 
o próprio interesse ao bem estar-estar da nação. 
Lembra outrosim que foram dispendidos gran- 
des thesouros e jóias que os outros reis legaram, 
e como uma das causas da ruina do reino cita o 
terem sido feitas e semeadas moedas não usa» 
veiSy de tantas maneiras^ por que as gentes per- 
deram a maior parte das riquezas que tinham. 
Quanto ao procedimento futuro, o povo indica 
á regente, por intermédio da representação mu- 
nicipal, que não deve tomar quaesquer medidas 
sem primeiro consultar o reino. É o espirito da 
soberania nacional ganhando terreno. A fim de 
que essas medidas sejam conformes aos interes- 
ses geracs do paiz, lembra a D. Leonor, que fi- 
xando a sua residência em Santarém ou Coimbra, 
deve constituir o seu conselho com prelados por- 
tuguezes e não castelhanos, e com dois homens 
bons por cada província do reino. A fixação da 
corte em qualquer d'aquelles dois legares, ou 
em ambos alternadamente, facilitaria a acpão da 
justiça, e redusiria as despezas da coroa. O con- 
selho real, assim augmentado, poderia ter sessão 
com a regente uma ou duas vezes por semana, 
dando conta os conselheiros por essa occasião 
do que tivessem feito ou resolvido nos ontrw 
dias. O segundo ponto atacado pelos judeus foi 
a concessão dos mais pingues legares do estado 
aos moiros e judeus com prejuízo dos christãos. 
Não ha aqui apenas a idéa de fanatismo religioso, 



302 



Historia de Portugal 



aliás tão próprio da época; ha também um justo 
protesto contra as exacções quê os judeus, en- 
carregados da cobrança das rendas publicas e 
collocados, em altos cargos , praticayam por toda 
a parte, vexando o povo, opprimindo-o, escra- 
visando^o pelo terror. O terceiro ponto é também 
um protesto contra um facto igualmente escan- 
daloso, o da aposentadoria (pousadarta/ dos 
fidalgos, que completavam a obra de rapina dos 
exactores judeus, cahindo com a sua gente sobre 
povoações que tinham de os aboletar, de lhes 
satisfazer todos os caprichos, de lhes servir as 
melhores fructas, as melhores roupas, os melho- 
res leitos, a pretexto de uma caçada, de uma 
festa, de qualquer partida de prazer, emfím. 
O povo pedia que se fizessem estalagens em nu- 
mero sufiicientc para porem o reino a coberto 
d'e8las verdadeiras invasões fidalgas; mas, re- 
ceiando que os nobres senhores se dedignassem 
de aposentar-se nas estalagens, pedia ao. menos 
que elles pousassem nos mosteiros ou nos paços 
dos outros senhores, bospedando-se as comitivas 
nlis estalagens, porque, pelos modos, os criados 
eram tão exigentes como os amos. 

D. Leonor Telles, com vontade ou sem ella, 
percebeu que lhe convinha mostrar-se atten- 
ciosa com o povo, que seria um inimigo terrível 
caso a sua voz fosse desattendida. Portanto res- 
pondeu: 

1/— Que tomaria efectivamente para o seu 
conselho dois prelados porluguezes, e os melho- 
res homens que se podessem encontrar em todas 
as provindas do reino; 

2.''^Quanto á fixação da corte, que, sendo 
ella mulher, e não tendo por isso que recrear-se 
em correrias fragoeiras, e querendo viver tran- 
quillamente, nenhuma duvida tinha em residir 
em Coimbra, Santarém, ou Lisboa; e que ouvi- 
ria, antes de resolver os negócios públicos, a 
opinião do seu conselho, como lhe era requerido; 

3." — Que sempre fora sua vontade obstar a 
que os judeus monopolisassem os cargos mais 
rendosos do estado, e que procurara influir 
ii*esse sentido no animo do rei D. Fernando, mas 
que, não o podendo conseguir, jâ na qualidade 
de regente tinha demiltído o tbesoureiro e almo* 
xarife da alfandega de Lisboa, que era judeu, e 
todos os recebedores e ofiiciaes judeus; 

4.°— Que concordava com a idéa de se con- 



struir estalagens para aposentadoria dos fidalgos, 
com a condição de que essas estalagens fossem 
edificadas á custa dos concelhos. 

O que D. Leonor Telles queria era embriagar, 
por uma bypocrita concessão, o leão popular, 
cuidando que elle, embriagado, lhe lamberia 
humildemente os pés. N'um ponto, especial- 
mente, podemos nós affirmar que a concessão 
era bypocrita. A regente, constando-lbe o que o 
povo ia requerer, apressou-se a demittir o tbe- 
soureiro da alfandega de Lisboa, e mais alguns 
officiaes da fazenda publica, que eram judeus. 
Mas o que é certo é que ella sempre teve para 
elles uma grande inclinação. O tbesoureiro de 
D. Fernando fora um judeu, D. Judas. Pois 
D. Leonor^ que dizia ao povo ter aconselhado o 
rei a que não nomeasse para os alto*s cargos da 
fazenda somente os judeus, exaspera-se contra 
seu genrOy como ao deante veremos, porque elle 
não quiz nomear D. Judas para o cargo derabbi- 
mór dos judeus de Gastella. Â perGdia constituia 
o fundo do caracter de D. Leonor Telles! E to- 
davia quão justas, quão attendiveis, quão rasoa- 
veis não eram as pretensões dos homens bons 
de Lisboa ! Uma d'ellas foi mais tarde aprovei- 
tada expontaneamente, em parte, pelo intelli- 
gente rei D. Duarte, que nomeou um conselho 
especial, em que entrava um prelado, para fun- 
cionar com elle na resolução dos negócios pú- 
blicos. 

Entretanto, D. João i de Castella e sua noiulher 
escreviam a D. Leonor para que os fizesse accia- 
mar como reis de Portugal. D. Leonor fez efie- 
ctivamente expedir cartas para que a nobresa e 
o povo tomassem vozy como então se dizia, por 
sua filha e genro, salvo o seu direito à regência. 
Em alguns logares, sabiu o bando, precedido de 
pendão, deitando o pregão de Real, real, por a 
rainha D, Beatriz de Portugal. Mas em Lisboa, 
quando o conde de Céa, que era irmão da mãe 
de D. Fernando, se dirigia para a sé, de pendão 
em punho, a excitação da cidade era tamanha, 
que o conde julgou acertado mandar primeiro 
sondar a opinião publica na Rua Nova, que era 
o Chiado da época; vieram dizer-lhe que era mais 
prudente recolher-se, porque a opinião publica 
se mostrava contraria áquella solemuidade. Bsta 
excitação popular não se fez sentir unicamente 
em Lisboa, fim Santarém chegou a haver serio 







âistoria de Portugal 



úòé 



tumulto, quando o alcaide substituto, Vasco Ro- 
drigues Leitão, (o alcaide effectivo era Gon- 
çalo Vasques de Azevedo) sahiu com o pendão. 
Quando elle soltou o brado de — Re(U, realy nin- 
guém respondeu. Mas n'uma das ruas, uma ve- 
lha quebrou o gélido silencio do povo com estas 
ousadas palavras: 

«Em mà hora seria essa (D. Beatriz); mas real 
pelo infante D. João, que é de direito herdeiro 
d'este reino, mas não já pela rainha de Castella. 
E como em má hora sujeitos havemos nóá de ser 
a castelhanos? Nunca Deus queira.» Estas pala- 
vras animaram o povo; ò tumulto foi crescendo. 
Um homem do povo protestou em alta voz con- 
tra o pregão, e desembainhou a espada. Outros 
o imitaram. Uma voz lembrou que matassem o 
alcaide, que deu de esporas ao cavallo, fugindo. 
O pendão que elle segurava, bateu no arco de 
ama rua, e vergou; o alcaide não o podendo le- 
vantar, na precepitaçâo com que fagia, levou-o 
de rastos. Este incidente, n aquella época de 
excessiva credulidade, pareceu denunciar ao 
povo que a Providencia era contraria â causa 
de D. Beatriz. O pendão como que vergava a um 
peso mysterioso, fatídico. O alcaide, conseguindo 
entrar no castello, mandou fechar a toda a pressa 
as portas; o povo, de fora das muralhas, gritava 
por centenas de bochas: «Viva o infante D. João ! 
Quem nos dera agor^ aqui o alcaide, e veríamos 
se era capaz de gritar Real^ realy por a rainha 
)). Beatriz de Portugal !» Em Elvas, o alcaide 
lançou pregão por D. Beatriz, mas o brioso cavai- 
leiro Gil Fernandes recolhendo-se á povoação, de- 
pois de breve ausência, e sabendo o que se tinha 
passado, indignou-se, e sahiu por sua vez com 
um novo bando, gritando simplesmente: Real, 
real par Portugal, O alcaide convidou-o para 
jantar, e prendeu-o. Gil Fernandes, que tinha 
em Eivas uma grande popularidade, disse-lhe 
que o povo o iria soltar, logo que soubesse da 
sua prisão. Assim aconteceu. Os homens do 
campo, quando despegaram do trabalho, e sou- 
beram que Gil Fernandes estava preso, começar 
ram a tocar os sinos a rebate, juntou-se gente e 
o alcaide viu-se na necessidade de dizer que o 
Boltaria daudo-se-lhe reféns. Alguns cavalleiros 
iScaram por fiadores, e Fernandes foi solto. Ha3 
ao ouiro dia espalhou-se que o alcaide mandara 
)>U8car reforço a Castella. Gil Parujandes e a s^^ | 



gente, que era quasi toda, tratou logo de tomar 
o castello. O alcaide teve que render-se, pedindo 
que o pozeasem em seguro, a elle e sua famí- 
lia. E Gil Fernandes teve a nobre genorosidade 
de o acompanhar até onde elle podesse, sem pe-* 
rigo, tomar o caminho do Grato. 

D. Leonor Telles, percebendo que as intenções 
de seu género eram violar o contrato nupcial in- 
vadindo desde logo o reino, procurava angariar 
a sympathia publica, e um dos meios de qu^ 
planeara lançar, mão era, como dissemos, man- 
dar celebrar pomposas exéquias por alma de 
D. Fernando, a fim de attenuar o mau effeito 
que o enterro pobríssimo do rei produsira. Ex- 
pediu, portanto, cartas convocatórias a todos os 
fidalgos, mestres e prelados para que viçssem as? « 
sistir ao trintariOy isto é, ás exéquias que se 
deviam celebrar no dia em que fazia um mez 
que D. Fernando fallecera. 

O conde de Ourem, João Fernandes Andeiro, 
recebendo o convite, ficou duvidoso sobre se der 
via vir ou não. Tinha medo de que um punhal 
vingador lhe descozesse as carnes para arrancan- 
Ihe o coração. Sua mulher era deparecer que não 
.viesse. Todavia o conde sahiu de Ourem, e veio 
para Santarém, onde fallou com Gonçalo Vas- 
ques de Azevedo, que lhe aconselhou que não 
continuasse jornada para Lisboa, porque o Aze* 
vedo receiava justamente que intentassem matar 
o conde de Ourem, e que a morte do conde trou- 
xesse alguma nova conflagração para o reino. 
Mas talvez por que a febre da voluptuosidade se 
havia reaccendido em João Fernandes AndeirQ 
durante essa pequena ausenci^, ou porque cour 
fiasse muito na protecção da rainha, ou, finai- 
mente, para não confessar medo, sahiu de San? 
tarem para Lisboa, onde encontrou no paço real^ 
abertos para recebel-o, os braços da viuva de 
D. Fernando. 

D. Nuno Alvares Pereira, recebendo na jsna 
quinta de Pedraça a carta convocatória, deu-se 
pressa em partir para Lisboa. 

Celebraram*se efifectlvamente ap exéquias, ás 
quaes alguns fidalgos deixaram de comparecer, 
sendo Um d'elles Gonçalo Vasques de Azevedo» 
pois que receiavam que por essa occasião pch 
dissse rebentar algum conflicto grave^ Mas qs 
actos religiosos corresm pacifimente^ todavia»^ 
o vulcão refervia so^ (mi^ cúpula de j^o. 



S^ 



804 



Historia de Portugal 



Fiadas as exéquias, D. Nuno Alvares Pereira 
foi visitar seu irmão o prior do Crato, é parece 
que foi áhi que, entregaudo-se á meditação, e 
receiando de perigos futuros para a pátria, re- 
*conbecera que, no interesse geral do paiz, era 
indispensável que João Fernandes Ândeiro mor- 
resse. Fallou n^este assumpto com seu tio Ruy 
Pereira, e viu então que seu tio pensava exacta- 
mente do mesmo modo. Ruy Pereira, creando 
novas forças pelo apoio do sobrinho, não des- 
cansou emquanto não teve uma conferencia com 
o mestre de Âviz sobre o mesmo assumpto. 
D. João ponderou que já- não ouvia murmurar 
tanto o povo contra a rainha. Ruy Pereira repli- 
cou, e o que é certo é que o mestre de Aviz en- 
carregou D. Nuno de preparar a sua gente para 
que efTectivamcmte o conde Andeiro fosse morto. 
Mas, pensando melhor, D. João achou que con- 
vinha não precipitar os acontecimentos, e que a 
morte do conde Andeiro, facto que devia ter se- 
rias consequências, era assumpto que deman- 
dava maior reflexão. Portanto, mandou dizer a 
D. Nuno que por emquanto sobreestivesse. 

Justamente se deparou ao mestre de Aviz um ho- 
rnemi cujo espirito tinha a sensatez e experiência 
precisas para dar melhor plano ã morte do conde 
Andeiro. Ghamava-se esse homem Álvaro Paes, 
fora chan6eller-m6r de D. Pedro e D. Fernando, e, 
por motivo de doença, recebera uma espécie de 
aposentação com obrigação de aconselhar os ve- 
readores da cidade de Lisboa na resolução de 
quaesquer negócios quelhepropozessem. Álvaro 
Paes, sabendo que o conde de Barcellos projectara 
algum dia, pelo menos ostensivamente, matar o 
amante de sua irmã, fallou-lhe a este respeito, 
mas o conde de Barcellos, a quem de facto con- 
vinha a morte do Andeiro, porque o Andeiro lhe 
roubava a influencia que elle conde podia ter no 
animo de D. Leonor, disse-lhe que não via ho- 
mem melhor azado para essa empresa do que o 
mestre de Aviz. O que João Affonso Tello queria 
era ter o proveito sem ter a responsabilidade. 
Offereceu-se o conde de Barcellos para dizer ao 
mestre de Aviz que Álvaro Paes lhe queria fallar 
uma ctmsa de sua honra, diz Femam Lopes. 
De sua honra, tem graça. Pois vingar a deshonra 
de D. Leonor Telles não deveria ser preceito de 
honra para um seu irmão? Has o conde de Bar- 
cellos, offerecendo*8e para fallar ao mestre de 



Aviz, simulava tomar a iniciativa n*um negocio 
cuja responsabilidade evtts^va. Dera-se bem com 
este systema o conde D. João Affonso Tello desde 
que ministrara ao infante D. João as armas com 
que o infante matara D. Maria Telles. . . 

Efiectivamente Álvaro Paes fallou com o mes- 
tre de Aviz e poude convencèl-o a matar o conde 
Andeiro. Em seguida, trataram os dois de esco- 
lher o melhor modo de reaiisar a empresa, e ac- 
cordaram em que logo que o mestre de Aviz 
entrasse no paço para matar o conde Andeiro, 
sahisse a cavallo o pagem do mestre, Gomes 
Freire, e gritasse em altas vozes que acudisstm 
ao mestre de Aviz, que o matavam, e que então 
Álvaro Paes sahiria de casa e, juntando o povo 
alvoroçado, o condusiria ao paço, evitando d'e8te 
modo que a vida do mestre de Aviz podesse cor- 
rer risco. 

Entretanto, constando que D. João de Castella 
juntava exercito para entrar em Portugal, D. Leo- 
nor Telles tomava medidas deprev^ção, porque 
o que ella queria era conservar a jurisdicção de re- 
gente, como no tratado de casamento fora estabe- 
lecido. Tratando de nomear fronteiros, D.Leonor 
lembrou-se, no intuito de affastar da corte o mestre 
de Aviz, cuja concorrência temia, de nomeal-o 
fronteiro de Riba-Guadiana. Portanto, o mestre 
de Aviz teve que partir para o seu novo cargo, 
e ainda d*esta vez o conde Andeiro consegui- 
ria salvar-se, se o mestre de Aviz, indo a pensar 
pelo caminho sobre o caso, se não lembrasse 
de que era preciso malar o conde, porque de 
contrario a conspiração seria descoberta, e elle 
ficaria perdido. Parou pois, a três léguas de dis- 
tancia de Lisboa, e chamando um dos cavallei- 
ros da sua comitiva disse-lhe que retrocedesse a 
participar â rainha que elle mestre voltaria a Lis- 
boa no dia seguinte, por lhe parecer que não ia 
bem desembargado, como cumpria. Este aviso ã 
rainha tinha certamente por fim evitar que a 
volta do mestre causasse sensação na corte. 

Com efifeito, o bastardo de D. Pedro voltou a 
Lisboa, tendo primeiro expedido recado a Álvaro 
Paes de que estivesse prompto para o que elle 
sabia. 

Chegado ao paço com os seus, o mestre de 
Aviz foi informado de que a rainha estava na sua 
camará. Foi-lhe logo franqueada a entrada a elle, 
mas quando os seus homens iam a seguil-o, o 



[. T;p. dl [■frtu Lilltririí. 

Uorte do conde Andeiro 



Historia de P ortugal 806 



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o mestre de Ayik, ou procurando rendel-o por 
ttma falsa cortesia, o coude Andeiro insistiu com 
o mestre para que jantasse com elle. D. Joâa re- 
sistiu, e tomando a mOo do conde, depois de se 



chrooistas. Alem do que, não podemos deixar 
de contemplar com respeito e orgulho o volto 
homérico do mestre, e o grupo épico da âua 
prole. Gomtudo não deixaremos de procurar aa 



Historia de Portugal 



305 



porteiro obstou, dizendo que n&o podíanu eiitrar 
sem primeiro ir consultar a rainha, visto que 
eila estava recolhida nos seus aposentos parti- 
culares. O mestre de Aviz não deu tempo a maio^ 
res hesitações, e disse aos seus que o seguissem. 

No momento em que entraram na camará real, 
estava a rainha acompanhada por varias donas e 
senhores. Justamente n'esse momento, o conde 
Ândeiro, ajoelhado deante d'eUa, fallava-Ihe bai- 
xinho. E o conde de Barcellos também ali es- 
tava, ali, a vér sua irmã inclinada ao hombro 
do Andeiro, e não pensava então em matal-o, 
fechava os olhos e transigia ! 

D. Leonor Telles ficou sobresaltada, mas quiz 
disfarçar a sua commoção e, compondo o sem- 
blante, disse ao cunhado que se sentasse e ex- 
plicasse ao que tornava. 

O mestre tinha inventado um pretexto, expoz 
que a comarca á'entre Tejo e Guadiana era vasta, 
e que lhe parecia que precisava de mais gente 
para guardal-a e defendel-a. A rainha respondeu 
que nenhuma duvida tinha em Ib'a mandar dar, 
e encarregou o seu secretario de apurar todos os 
vassalios d'aquelia comarca que estivessem em 
condições de servir com o mestre. 

Entretanto o conde Andeiro, desconfiando de 
ver armados todos os homens do mestre de Aviz, 
disse aos seus que se fossem armar também, e 
com a maior instancia convidou o mestre a jan- 
tar com eiie. Talvez aue João Fernandes An- 
deiro pensasse n'e6se momento, por sua parte, 
em matar o mestre de Aviz, para acabar por 
uma vez com esse homem de quem elle e a sua 
amante tanto se arreceiavam. D. Leonor Telles, 
apesar das explicações do mestre, continuava a 
estar vagamente receiosa, sobretudo por ver ar- 
mados os homens do mestre, a ponto de dizer 
em voz alta que achava acertados os costumes 
ioglezes no tocante a defenderem que os caval- 
leiros vestissem armas em tempos de paz. Res- 
pondeu o mestre que se não se familiarisassem 
08 portuguezes com as armas em tempo de paz, 
não saberiam usal-as, nem poderiam suppor- 
tal-as em tempo de guerra. 

Alimentando talvez o secreto plano de matar 
o mestre de Aviz, otí procurando rendel-o por 
uma falsa cortetia, o conde Andeiro insistiu com 
o mestre para que jantasse com elle. D. Joãore^ 
sistitt, e tomando a mte do conde, depois de se 
U YOL* —89» 



haver despedido da rainha, conduziu-o para fora 
da camará, entrando n'uma vasta sala, onde os 
dois pararam junto de uma janella. A comitiva 
do mestre seguia-os. Foram poucas as palavras 
que trocaram em voz baixa. O mestre, puxando 
por um cutello comprido, vibrou um golpe ã ca- 
beça do conde Andeiro, que, sentindo-se ferido, 
quiz arrastar-se para a camará da rainha; Então, 
um dos da comitiva do mestre, de nome Ruy 
Pereira, atravessou João Fernandes Andeiro, de 
lado a lado, com um estoque. Os outros cavallei- 
ros quizeram saciar no moribundo a sôde de vin- 
gança tão longo tempo reprimida, cobrindo-o de 
golpes, mas o mestre obstou, e mandou-lhes 
que fechassem as portas do paço, e que o pa- 
gem Fernam Alvares sahisse a gritar pelas ruas, 
como era combinado, que queriam matar o 
mestre. 

Na camará da rainha sentia-se o tinir dais ar- 
mas, o rumor a que essa scena violenta dera le- 
gar. Mandou D. Leonor, sobremodo assustada, 
perguntar o que era aquillo. Dísseram-lhe que o 
conde João Fernandes Andeiro era morto. Então 
a cólera de D. Leonor fez explosão. Mataram- 
n'o bem sei porque^ disse ella. Mas eu prometto 
a Deus que irei de manhã a 5. Francisco, e que 
mandarei fazer uma fogueiray e que farei íaes 
salvas, que nunca mulher fez par estas cousas. 
As pessoas que a acompanhavam, homens € mu- 
lheres, tomaram-se de um grande medo, de um 
receio vago, e trataram de fugir, até pelas janel- 
las. O escrivão da puridade sumiu-se, e òs seus 
ajudantes também. Ainda assim, D. Leonor Tel- 
les poude conseguir que alguém fosse perguntar 
ao mestre, de seu mando, se também a queria 
matar. O mestre mandou-lhe dizer que estivesse 
tranquilla, que tioha vindo para matar aquelle 
homem, que bem Uio tinha merecido. 

Enlão a rainha ganhou ousadia, como era pró- 
prio da sua condição, e mandou dizer ao mestre 
que sahisse quanto antes do paço. 

Nós estamos fazendo historia com a maior in- 
dependência, porque entendemos que um exa- 
gerado patriotismo lhe é tão prejudicial como as 
fabulas que lhe intercalaram muitos dos nossos 
chronistas. Alem do que, náo podemos deixar 
de contemplar com respeito e orgulho o vulto 
homérico do mestre, e o grupo épico da dua 
prole. Comtudo não deixaremos de procurar aa 



V 



806 



Historia de Portugal 



manchas no sol. Portanto, escreveremos franca- 
mente o que pensamos. 

O mestre de Àviz queria desembaraçar-se de 
um inimigo pessoal ou queria vingar a bonra ul- 
trajada de seu irmão D. Fernando? 

No primeiro caso, seria mais leal que tivesse 
convidado o conde a desembainhar a sua es- 
pada, e a bater-se com elle, por isso que os dois 
eram incompativeis no mundo. 

No segundo caso, o mesmo cutello devia pros- 
trar o conde e a rainha. Matar o amante, e tra- 
tar com respeito a concubina, que levava o seu 
impódor até jurar que vingaria a morte do seu 
cúmplice, parece-nos absurdo. 

O povo, na sua elevada intuição de justiça e 
moralidade, comprehendia isto mesmo, porque 
momentos depois gritava em torno do paço real 
— gwc mal fez quem matou o conde traidor e 
não matou logo a aleivosa. 

Os homens do conde dirigiam -se armados para 
o paço, quando já lavrava nas ruas grande con- 
fusão. Alguns fugitivos djsseram-lbes o que ti- 
nha acontecido, e aconselbaram-n'os a que não 
proseguissem. Com effeito, elles retrocederam. 

O povo, ouvindo o pregão do pagem, que ga- 
lopava na direcção da casa de Álvaro Paes, al- 
voroçara-se, principiara a arraar-se, enumerava 
cm voz alta os crimes da rainha, e pedia justiça. 
N^este comenos Álvaro Paes appareceu. Acuda- 
mos ao mestre^ que o querem matar no paço 
sem motivo, gritava elie de cima do seu cavallo, 
que havia muitos annos não montava. Logo se 
indicava o nome do assassino do mestre: João 
Fernandes Ándeiro, gritava- se. As ondas de povo 
confluíram para o paço. Queriam queimar as por- 
tas, traziam para isso molhos de lenha e car- 
queja, preparavam-se para assaltar as jancilas, 
quando os cav^lleiros do mestre entenderam que 
era chegado o momento opportuno d'elle appa- 
recer. Então, do alto de uma janella, bradou o 
mestre: Amigos, apacificai-vos, porque estou 
vivo, e são, graças a Deus. A cólera dos popu- 
lares, de intensa que era, cegara-os; muitos não 
o reconheceram á primeira vista. 
. Mas, dissipada toda a duvida, os olhos do 
povo fixavam-se, absorviam, como n'um encan- 
tamento, a pbysionomia sympathica do mestre. 
Os ditos vagos, os gritos da consciência popular 
faziam-se ouvir por toda a parte.— Que o mestre 



fizera mal em não matar a rainha, porque d'ella 
ainda lhe havia de vir grande mal; que essa alei- 
vosa já nos matava um senhor, e agora queria 
matar outro; que ella ainda havia de acabar mal 
pelas coisas que fazia, etc. 

Se as portas tivessem sido abertas, ou antes, 
se o mestre não tivesse apparecido tão depressa, 
a rainha teria morrido ás mãos do povo, e as 
cbammas do incêndio haveriam consumido o 
paço real, e o leito de um duplo adultério. Ha, 
com effeito, impurezas que só o fogo pode extin- 
guir. Mas o mestre tinha apparecido e, aconse- 
lhado pelos seus, descera ã rua. Cavalgando, 
tomara a deanteira do povo. Houve então um 
verdadeiro triumpho, que faz lembrar o dos 
vencedores romanos. De toda a parte lhe falta- 
vam, lhe acenavam, de toda a parte o abençoa- 
vam; e para nada faltar, de vez em quando, 
uma ou outra voz levantava-s^. para fulminar 
os crimes da rainha, lembrando indirectamente 
áquelle homem, não que era mortal, come fa- 
ziam os escravos em Roma, mas que um rei ti- 
nha que ser honesto e.bom. 

Emquanto a turba perguntava ao mestre o 
que queria que fizessem, emquanto lhe dizia 
que mandasse, que tudo fariam, as donas pu- 
nham fora das janellas as suas cabeças nervosas 
como as de um canário sobresaltado, e gritavam 
para baixo, para o mestre, que ia passando — 
Bento seja Deus, que vos guardou de tamanha 
traição ! 

A multidão, precedida pelo mestre, dirigiu-se 
para casa do conde de Barcellos, onde o mestre 
ia jantar. Quando desembocaram no Rocio, en- 
contraram- se com o almirante que, sabendo que 
o facto se havia consummado, tendo elie d'ahi 
lavado as mãos, procurava captar n^esse mo- 
mento as syropathías do povo, alliando-se com 
o mestre, fazendó-se ostensivamente solidário 
da sua obra. Justamente até ao Rocio, essa 
grande procissão civíca tem para nós uma gran- 
diosidade verdadeiramente épica. Não ha ahi 
nenhum traidor, é a grande alma popular em 
toda a sua puresa imponente. Mas desde que o 
conde almirante procura empareihar-se com o 
mestre de Aviz, cavalgando a seu lado, o con- 
traste fere-nos desagradavelmente, repugna-nos. 
João ACTonso Tello era, no fundo, uma alma 
vil, apodrecida de ruins sentimentos. Come- 



Historia de Portugal 



807 



cara por lamber, como um cão paceiro, diria 
Gil Vicente, os pés de sua irmã calçados em 
babuchas doiradas, como os de todas .às corte- 
zãs, vivera arrastando ama vida miserável; pri- 
sioneiro em Saltes; captívo em Gastelia; Tartufo 
que receiava da cólera do povo e fingia saber o 
preço â dignidade humana, querer arrancar sua 
irmã ao leito onde o premio do seu corpo tam- 
bém revertera em proveito para elle; co'-reo 
infamissimo no assassínio de Haria Telles; mi- 
litar ignorante, caracter despresivel, n'uma pa- 
lavra, esse homem devia acabar por vender-se 
a Gastelia, de cujo rei veio a acceitar mais 
tarde o titulo de conde de Mayorga, vago por 
óbito de D. Pedro Nunez de Lara, que falle- 
cera durante o cerco de Lisboa, ^como havia 
acceitado de D. Fernando o tituio de conde' 
de Barcellos. Mas, circumstancia notável! João 
À£E6nso Telio morre onde devia morrer, morre 
justamente em Aljubarrota, que é uma bata- 
lha destinada a purificar a pátria, a redimil*a 
para a honra e para a independência: por- 
tanto» o coorde de Mayorga morre opportuna- 
mente, porque ali deviam ficar sepultados todos 
os caracteres abjectos, todos os portuguezes trai- 
dores, ao passo que d*ali deviam sahir exalçados 
para a immortalidade da historia os grandes, os 
nobres, os leaes portuguezes, D. João i, D. Nuno 
Alvares Pereira, e os mais que seria fastidioso 
enumerar. Desafiando impudentemente a pá- 
tria, João AfTonso Tello toma em Aljubarrqta a 
vanguarda dos castelhanos, é d'ali, d'aquelle 
logar que pertence aos honrados, que elle quer 
cuspir affrontas na face de Portugal, elle, o por- 
tuguez traidor. O seu cadáver, como o de um 
réprobo, apodreceria insepulto sobre o campo 
de batalha, seria pasto das aves carniceiras, 
se o rei de Portugal, representando a pátria, 
e , conservando as tradições de galharda ge- 
nerosidade que sempre deram ao nosso pequeno 
paiz um alto caracter cavalheiresco,, lhe não 
mandasse dar sete palmos de terra, porque a 
pátria, como mãe que é, recebe nos seus bra- 
ços os filhos mortos, e se os não unge com as 
suas lagrimas quando elles foram traidores e 
desleaes, amortaiha-os compassiva e encom- 
menda-os a Deus. 

Has a verdade 6 que o destino aproximara 
casualmente o mestre de Âvi^, n'esse dia me- 



morando, 6 de dezembro dè 1383, do conde de 
Barcellos João Afifonso Tello,' com quem jantara. > 

Emquanto o repasto durou, passava-se nas 
ruas de Lisboa, em frente da egreja da Sé, 
uma d^essas scenas próprias das revoluções, 
scenas sempre lastimosas, que não são mais 
que a exageração de um sentimento aliás justo. 
O povo, quando passara para o palácio real, 
com mandado por Álvaro Paes, mandara locar os 
sinos dos templos por onde ia passando; mas os 
da Sé não tangeram, e as portas da egreja fecba- 
ram-se. Fora o bispo D. Martinho, castelhano, 
natural de Samora, que, ouvindo grande tumulto 
no paço real, que, como se sabe, ficava perto, e 
vendo ondear no terreiro da Sé o vai-vem do po- 
vo, mandara fechar as portas, e obstara a que os 
sinos tocassem, para não augmentar o alarme, 
dissera elle quando lhe pediram contas. E, de 
feito, não tardaram a pedir* lh'as. O povo, vendo 
que estava gente dentro da egreja, fez com que 
alguns homens penetrassem n'ella por uma fresta. 
O bispo, e mais dois indivíduos com quem jan- 
tava, que eram o prior de Guimarães e um ta- 
bellião de Silves, refugiara-se na torre. Quando 
lã chegaram os homens que haviam entrado pela 
fresta, o bispo desculpou-se, e elles estavam re- 
solvidos a perdoar-lhe, quando os de fora pedi- 
ram em altos gritos que lhe deitassem lá de cima 
o bispo, que o queriam por força. Gomo os que 
tinham subido se demorassem em obedecer, a 
multidão já começava a accusal-os de traidores, 
a dizer-lhes que iria lá e que os despenharia a 
todos. Então os de cima resolveram-se por medo 
a matar o bispo, e a atiral-o para o povo, que en- 
trou de apedrejar e de arrastar o cadáver. Os dois 
companheiros do bispo tiveram a mesma sorte, 
porque o povo entendeu que estavam todos três 
combinados, e que eram tão castelhanos na alma 
como o bispo o era por nascimento. 

Entretanto, alguém foi ao palácio do almirante . 
participar ao mestre de Avíz o que se estava 
passando. D. João levantava-se para ir acudirão 
bispo, quando o almirante lhe disse do lado que 
se não importasse com isso, porque fácil seria ao 
mestre encontrar um bispo portuguez que o ser- 
visse melhor do que aquelle. 

Estas palavras denunciam perfeitamente a tor- 
pesa de quem as pronunciou. 

Ponde, pois, o povo consummar livremente a 



808 



Historia de Porttigal 



sua obra. Esteve todo o dia exposto no terreiro 
da Sé, espoliado das suas vestes episcopaes, mu- 
tlbido, retalhado de golpes, o cadáver de D. Mar- 
tinho. Â tarde principiou a juntar-se gente, 
especialmente creanças, cachopos diz Feraam 
Lopes; passaram um baraço ás pernas do bispo, 
6 arrastaram-Q'o até ao Rocio, onde chegou de 
tal modo esphacelado, que os cães começaram 
a comel-o. Depois, o cheiro da podridão fez com 
que o enterrassem n^aquella mesma praça. 

Se não nos houvéssemos imposto o encargo 
de ser fiel historiador, passaríamos em claro 
todo o capitulo decimo quarto da Chronica de 
Fernám Lopes, porque elle é tão contrario à 
tradicional hombridade portugueza, que o re- 
geitariamos por falso. Em todo esse capitulo, 
dèsdoura-se a gloria do mestre de Aviz com 
manchas que a fortuna deveria ter evitado. 
É preciso não amesquinhar o mestre até o 
ponto de o suppor traidor. Alguns escripto- 
res hespanhoes accusam-n'o de ter escripto 
uma carta ou cartas de adhesão a D. João de 
Gastella por occasião da morte de Fernando, 
mas é mesmo outro escriptor bespanboi quem 
põe o facto em duvida. — «El cronista castel- 
lano, Lopez de Ayala, asegura que el gran 
Maestre de- Avis, hermano bastardo dei difunto 
monarca, figuraba el primero en esta gestion; 
pêro niéganlo los portuguezes, y no és fácil sa» 
ber la verdad-^úiz o sr. Ximenez de Sandoval 
na sua curiosa monographia histórica sobre ^ 
batalha de Aljubarrota. O mais auctorisado cbro- 
nista portuguez doesta época é Fernam Lopes. 
Pois elle, que narra com grande fidelidade, que 
defende o bispo D. Martinho e condemna vehe- 
mentemente aquelles que o mataram, elle que 
escreve o capitulo decimo quarto tão pouco li- 
sonjeiro para o mestre de Aviz, não haveria, 
com igual imparcialidade, contado que D. João 
se dera pressa em escrever ao rei de Gastella 
adherindo á sua causa? Mas por isso mesmo 
que se não deve amesquinhar injustamente o 
mestre de Aviz, também se não deve engran- 
decel-o falsamente. Portanto summaríemos lisa- 
mente;' o que Fernam Lopes refere no capitulo 
referido. 

Depois do jantar, chegaram a casa do almi- 
rante alguns fidalgos e cavalleiros, entre os 
quaes D. Álvaro Peres de Castro. Entãa Ihç^ 



disse o mestre que entendia dever ir pedhr per- 
dão ã «rainha do que tinha feito. Approvaram 
todos o alvitre do mestre, que, — quem sabe?— 
talvez fosse inspirado pelo almirante, pelo prin- 
cipio de que se Deus é bom o diabo também não 
é mau. Mas ponhamos de parte as conjecturas. 
Cavalgaram todos, e dirígiram-se ao paço de 
S. Martinho. A rainha estava na sua camará 
e é fácil imaginar quão receiosa passaria ella 
todo esse dia. O mestre dírígin-se á rainha e 
pediu-lhe perdão de lhe ter causado desgosto, 
de ter abusado do seu palácio, matando dentro 
d'elle o conde Andeiro, mas procurou certificar- 
Ihe que o não fizera com a intenção de a maguar 
ou de a insultar, declarando-lbe que o matara 
unicamente, porque — emquanto o conde de Ou- 
rem vivesse a sua vida não estaria segura. 

A rainha subiu então, como era natural, á 
proporção que o mestre de Aviz desceu. Ouviu-o 
mostrando-se entre triste e desdenhosa. Ouviu-o, 
mas não respondeu. O conde D. Álvaro Peres de 
Castro extranhou que a rainha não respondesse, 
não perdoasse. Ella permaneceu calada, altiva 
no seu silencio. Veio em reforço o conde de 
Barcellos, instando pelo perdão. Finalmente a 
rainha descerrou os lábios para responder des- 
denhosamente que o mestre estava perdoado por 
si mesmo, e que era escusado fallar no que es- 
tava feito. Aproveitou a occasião para passar a 
outro assumpto, porque a saudade amorosa nas 
mulheres d'aquella estofa é intensa mas passa- 
geira. No que ella queria fallar era na vinda do 
rei de Gastella a Portugal, especialmente para 
sondar as intenções do mestre. D. João, interro- 
gado por D. Leonor, disse que jà a havia acon- 
selhado sobre o caso, mas que não tinha duvida 
em repetir que devia mandar requerer ao rei de 
Gastella que cumprisse o contrato nupcial, que 
lhe deixasse a ella a regência, e que se o não 
quizesse fazer assim, então que reunisse D. Leo- 
nor as suas gentes, e que lhe tomasse o passo. 
A rainha sorriu desdenhosa, de um modo provo- 
cante, e disse que se elles o não tinham podido 
fazer emquanto D. Fernando fora vivo, muito 
menos agora, que era morto. Quem prímeiro 
protestou contra o insulto foi o conde Álvaro 
Peres, o qual disse em voz alta que se deviam 
retirar, porque estavam ali deslocados. As pou- 
cas palavras àfi D. Álvaro são, n'esse momento^ 



Historia de Portugal 



309 



a jQsta condemnaçfto d^essa deplorável humi- 
Ibaç&o. ' 

Foi DO momento em que saíram, que D. Leo- 
nor via estendido sobre o ch&o, e coberto com 
um tapete velbo, o cadáver do seu amante. En- 
tranhou que ainda aii estivesse, e disse aos que 
sabiam que o mandassem enterrar, quando por 
mais não fosse por ser tão fidalgo como élles. 
Biles, sem Ibe dar ouvidos, foram sabindo. O 
cadáver permaneceu no mesmo sitio até á noite. 
Ninguém Ibe queria tocar. Depois que anoiteceu, 
D. Leonor mandou-o enterrar ás escondidas, na 
egreja de S. Martinbo, por ficar próxima. E, para 
fugir talvez aos espectros, que principiavam a 
tumultuar no seu espirito como n'uma balada 
pbantastica, para se arrancar á visinbança d'a- 
quelle cadáver, á bora em que mais dois, o de 
D. Maria Telles e o de D. Fernando pareciam vir 
sentar-se galvanísados, silenciosos e graves, para 
completar a trindade vingadora, sabiu do paço 
de S. Martinbo n^essa mesma noite, mudando-se 
para o do Castello ou da Alcáçova^ como então se 
dizia. 

O povo de Lisboa, tomando de repente pleua 
posse dos seus direitos, exagerava-os. Entre 
outros perigos, uma longa escravidão produz 
um, sobremodo grave: a represália. O povo tinba 
sede de justiça, e, n'essa bora de alforria, imi- 
tava o caminbeiro encalmado que finalmente se 
aproxima de uma fonte: dessedentava-se soffre- 
gamente. Victima das exacções dos judeus, ver- 
dadeiros vampiros que sugavam o sangue dos 
pobres, foi contra elles, especialmente contra o 
tbesoureiro-môr D. Judas, que o povo se alvo- 
rotou depois de saciar o seu ódio contra os 
castelhanos no cadáver do bispo D. Marlinbo. 
A turba invadiu o bairro dos judeus,— ^ a ju- 
dearia — , queria saquear todas as casas d'esse 
bairro, porque entendia que quanto dinheiro 
lâ encontrasse provinha da espoliação, quer se 
chamasse usura ou imposto, e, se tivesse encon- 
trado D. Judas e o seu grande amigo Daniel 
Negro, havel-os-bia certamente arrastado pelas 
ruas de Lisboa. Â presença do mestre de Áviz 
fez com que o povo, não sem custo, dispersasse. 

Do paço real da alcáçova, a rainha olhava ao 
longo da encosta por onde a cidade descia até 
quási à beira do Tejo, e, intelligente como era, 
sentia rugir o vulcão popular entre os grupos 



que, parados aqui e ali, pareciam discutir com 
esta vivacidade peninsular, que exagera as pai- 
xões, boas ou más. Percebendo que fallavam 
de si, que se occupavam d'ella, a rainha pensou 
desde logo em contraminar a acção do povo. 
Ora o plano que mais prudente se affigurou a 
D. Leonor Telles foi este: fugir da cratera do 
vulcão,— que era Lisboa. 

CAPITULO II 

Influenoia oresoexite do mestre de Aviz.— ^ 
Oomo o mestre prooora tomar definitivo 
o apoio das olasses populares, provocando 
o fanatismo religioso, e oomo é acolamado 
regente e defensor do reino. — Habll inioia- 
çào politica e administrativa do regente* 
—O que D. Leonor Telles pensa. 

Foi para Alemquer que D. Leonor Telles en« 
tendeu dever fugir. 

Entre a camarilha que a acompanhava, esoo* 
Ibemos apenas, para fazer menção d^ellas, duas 
pessoas, o almirante João Affonso Tello, aquelle 
mesmo que dias antes percorrera as ruas de 
Lisboa cavalgando ao lado do mestre de Áviz, e 
D. Judas, o ibesoureiro-mór, que ia disfarçado, 
mascarado de pagem, para d*este modo escapar 
ás irás populares. 

Episodio digno da penna de Cervantes! O 
conde de Barcellos era o D. Quichote da corte, 
o cavalheiro manchego que, para reparar a des- 
honra de sua irmã, tudo fazia, até acceitar a 
aposentadoria que ella agora lhe ofiTereda em 
Alemquer; D. Judas era o Sancho Pança da co- 
mitiva, de barrete na cabeça e lança na mão, 
era o pagem dedicado e roliço, que com uma 
das mãos segurava a rédea e com a outra com* 
punha os alforges onde o dinheiro roubado ao 
povo tilintava. 

Âjunte-se a isto a pressa, o medo, a precipi- 
tação com que toda a corte fugia emquanto se 
julgava exposta âs aggressões dos habitantes de 
Lisboa. Até Alverca a correria foi de deitar os 
bofes pela bocca fora. Na rectaguarda da ca- 
valhada iam alguns homens com lanças para 
defender as bagagens no caso de ataque. Com 
effeito, as bagagens deviam ser importantes, 
porque D. Leonor Telles decerto se fez acompa- 
nhar de todos os objectos preciosos que pos- 



8X0 



Historia de Portugal 



8QÍa. O dia de Ãmaobã era tao incerto para 
elia! 

De Alverca até Âlemquer, a fuga foi menos 
precipitada. Quando a corte entrava a porta 
doesta ultima villa, Gonçalo Mendes de Vascon- 
cellos, tio da rainha, teve uma phrase que me- 
rece ser reproduzida. «Agora enteodo eu bem — 
disse elle a D. Leonor — que vós estaes segura; 
cá nào em Lisboa.» Â rainba não respondeu 
a estas palavras, porque um profundo ódio a 
abafava no coração; já no caminho, D. Leonor, 
voltando-se para o lado de Lisboa, havia dito-— 
que mau fogo a queimasse, e que ainda a visse 
destruida, e arada toda a bois. 

Lisboa jQcára sobresaltada. Os boatos corriam 
com uma rapidez eléctrica. Dizia-se que o rei de 
Gastella não tardaria a invadir o reiuo, e que já 
havia mandado encarcerar no castello de Toledo 
o infante D. João, filho de D. Ignez de Castro, 
e o conde de Gijon, por suspeitar que tanto um 
como outro pretendiam o throno de D. Fernando, 
pois que um era irmão e o outro genro do rei' 
faliecido. 

Doesta vez os boatos tinham fundamento. Ef- 
fectivamente aquellas duas prisões haviam-se 
realisado em Gastella. ^ Quanto á vinda do rei 
de Gastella, ayaliaremos melhor o boato seguindo 
os passos do rei castelhano desde a morte áh seu 
sogro; Para isso, traduziremos o sr. Sandoval: 

■Antes de acabar o mez de outubro de 1383, 
chegou a D. João i de Gastella, achando-se de 
passagem em Torrijos, a notícia do fallecimento 
do rei D. Fernando de Portugal, e recebeu por 
esse motivo cartas de alguns personagens impor- 
tantes d'aquelle reino pedindo-ihe que partisse 
para lá immediatamente. O chronista castelhano, 
Lopes de Âyala, assegura que o gran- mestre de 
Avi^, irmão bastardo do defunto monarcha, era 
o primeiro a figurar n'este negocio, mas os pgr- 
tuguezes negam, e não é fácil saber a verdade. 

^ O sr. Ximenez de Sandoval, escríptor hespanhoi 
que seguimos a par das chronicas portugaezas, es- 
creve relativamente á prisão do infante D. João: 
«Disse sobre isto D. Joáo i (de Gastella) em seu tes* 
tamento: É por ende^ puesto que e$tá preso con ra- 
zoUj pues está sin culpa, mandamos que le suelten 
nuestros iestamentoi^ios, E commenta o sr. Sandoval: 
Poucas vezes terá sido melhor applicada a phrase — 
razão da sem^razão,» 



«Preoccupado o rei com a gravidade da noti- 
cia, e julgando que a primeira consequência na- 
tural devia ser o reconhecimento e a posse do 
reino por sua esposa D. Beatriz, assaltou-o o re- 
ceio de que podesse suscitar-lhe diíSculdades o 
infante D. João, ^ irmão natural do ultimo so- 
berano, como filho de D. Pedro e D. Ignez de 
Gastro, a esse tempo refugiado em Gastella; e 
usando de uni recurso, então frequente, e não 
abandonado ainda em nossos dias, mandou-o 
encerrar por precaução no castello de Toledo, 
adoptando igual medida com seu inquieto irmão 
D. Affonso, conde do Gijon, por lhe constar que 
andada sempre a conspirar. 

«Transferi ndo-se em seguida a Toledo e depois 
de assistir ás exéquias por seu faliecido sogro, 
celebrou com grande pompa o acto do juramento 
e acclamação de sua esposa e d*elle como reis 
de Portugal, offerecendo-Ihe de joelhos o arce- 
bispo D. Pedro Tenório uma bandeira com as 
armas de Gastella e de Portugal, que foi le- 
vantada por D. Juan Hurtado de Mendoza, o 
qual sahiu com ella pelas ruas dizendo: i{ea/, 
real, por el-rei D. João de Castella e de Portu- 
gal. 

«Querendo D. João i dirigir-se sem demora a 
Portugal, mandou preparar algumas companhias 
de homens de armas e celebrou conselho em 
Puebla de Montai van. Ahi, oppoz-se ardente- 
mente á sua idéa o arcebispo di^ Toledo, fun- 
dando-se em que não devia fazel-o, vistas as 
condições do ultimo tratado, e que só era pro- 
cedente enviar embaixadores a Lisboa para re- 
cordarem as clausulas do contrato matrimonial, 
para que o reino, isto é, as cortes, regulassem 
o que conviesse e lhe indicassem o modo de 
obviar a qualquer duvida ou difBculdade que se 
oferecesse; mas outros houve que pensavam o 
contrario, dizendo que não deviam ser respeita- 
das aquellas clausulas que oCfendiam legitimo 
direito de D. .Beatriz, e que convinha entrar 
desde logo, e poderosamente em Portugal, para 
fazer valer aquelle legitimo direito; e como o rei 
tivesse já formada esta resolução, adheriu im- 
mediatamente a esta opinião, que lhe lisonjeava o 
espirito juvenil pelo desejo de asseohorear-se 

^ O rei de Gastella havia-o agraciado com o Cilulo 
de duque de Valência de Gampos. 



\ 



iBistoria de Portogal 



311 



n^.i nrroai 



do reino de sua efiposa, acabando de resolvel-o 
D. Afonso Corrêa, bispo da Guarda (cidade da 
fronteira \de Portugal) e cbanceiler (^ue era de 
D. Beatriz, dando-lhe como seguro o prompto 
reconhecimento por todo o paiz. Sem embargo, 
acrescenta Âyala que insistiram vários conse» 
Iheiros em opp6r-se (dos quaes se collige elle 
seria um, e o outro o arcebispo D. Pedro Teao* 
rio) repetindo-lbe que d'esse modo se violaria 
o tratado e irritariam os ânimos dos portugue- 
ses; mas tudo foi inútil, porque o rei, depois 
de despachar para Lisboa, como mensageiro, a 
D. Ãffonso Lopes de Tajada, portador de cartas 
de pezame pela morte de D. Fernando e pedindo 
o reconhecimento de sua esposa e seu como 
reis, começou a aperceber-se para a resolvida 
Tiagem, não obstante a escacez de dinheiro em 
que se achava.» 

Não obstante a falta de recursos pecuniários 
(o próprio rei escrevia de Montalban em 24 de 
novembro á cidade de Hurcia, solicitando um em- 
préstimo, pois que o thesouro estava esgotado 
pelas despezas das guerras passadas), e as con- 
dições do contrato nupcial, D. João de Oastella 
preparava-se para entrar em Portugal. 

Até ao momento em que a onda popular não 
a ameaçou de perto, D. Leonor Telles prepara- 
va-se, como vimos, para repeliir a invasão de 
seu genro. Mas agora o caso mudava de figura, 
a opinião publica excitava-se contra ella, Lisboa 
havia-a desfeiteado, o mestre de Aviz tomava uma 
preponderância crescente, .e a viuva de D. Fer- 
nando pensava já em solicitar uma intima ailiança 
do rei de Gasteila, para se vingar das afTrontas 
recebidas. 

O mestre de Aviz, n'estas drcumstancias, jul- 
gava-se n'uma posição embaraçosa. Com que for- 
ças podia contar para resistir ao rei de Gasteila 
ou á regente de Portugal? Mão sabia. Lem- 
brou-se, pois, de sondar o animo do povo a 
este respeito. Disse a toda a gente que resolvera 
ir para Inglaterra, e chegara mesmo a fazer pre- 
parativos de viagem. Ao mesmo tempo, para 
melhor fazer sentir a perversidade do caracter 
de D. Leonor Telles, desenvencilhava publica- 
mente algumas intrigas de que elle próprio fora 
victima. Procurou o commendador-mór de Aviz, 
Vasco Porcaiho, e contou-lhe como D. Leonor o 
intrigara com dle, o que plenamente confirma 



I 



a opinião que a este respeito já emittimos. ^ 
O commendador mostrasse deveras indignado^ e 
rompe era apostrophes violentas contra a re- 
gente: Oh má mulher alHvosay comprida de 
toda maldade ! D'este modo, o mestre de Aviz 
julga conquistar mais um auxiliar poderoso. 
O povo, vendo partir a rainha cheia de cólera 
para Aiemquer, ouvindo dizer que o rei de Cas-^ 
telia não tardaria a chegar, e sabendo finalmente 
que o mestre ia embarcar para Inglaterra, teve 
receio, sentiu-se desamparado. Estes assumptos 
discutiam-SjB em todos os grupos, no seio de to- 
das as familias.' Tomemos o mestre por nosso 
defensor, dizia um; se elle parte> o que será de 
nós ! exclamava outro. 

Em de redor do mestre, choviam as instancias^ 
as supplicas para que ficasse. Agora era o tio de 
D. Nuno Alvares Pereira que lhe pedia que não 
fosse; logo era Álvaro Vasques de Góes qoe lhe 
perguntava cathegorícamente qual a rasão por 
que se ausentava. O mestre respondeu que o de- 
movia o desejo de servir o- rei de Inglaterra nas 
guerras qíie podesse ter com os seus inimigos. 
Pois fícae,^ e defendereis a pátria, o que mais 
vale, replicou Álvaro Vasques. 

Reconhecidamente, o mestre de Aviz tinha a 
opinião publica por si. Mas faltava segural-a 
ainda por um lado, n'essa época muito impor- 
tante, o fanatismo religioso. Este laço era indis* 
pensavel para ligar o povo ã cansa do mestre. 
Vivia a esse tempo nas penedias que se eriçavam 
junto do mosteiro de S. Francisco, um frade cas- 
telhano, que tinha estado em Jerusalém, e que 
era conhecido pelo nome de frei João da Barroca, 
em rasão da esperesa do sitio onde vivia como 
solitário, e que é hoje um dos mais formosos de 
Lisboa. A credulidade popular tinha-o como san** 
to. O mestre reconheceu que era justamente a 
este homem que devia recorrer n^essa conjun- 
ctura; por outro lado, os mais ardentes partidá- 
rios do mestre encarregavam o velho Álvaro Paes 
de ir fallar com frei João da Barroca para que, 
em nome de Deus, aconselhasse o mestre a ficar. 
Frei João disse efiectivamente ao mestre que elle 
era o defensor predestinado do povo português, 
e até chegou a indicar-lhe os meios de que se 
devia servir para vencer certas difficuldades. Por 

1 Vide pag. 384, 



812 



ãistoria de Portugal 



exeooplo, para tomar o castello de Lisboa, acon- 
seiboQ-lbe fr. João que mandasse fazer um enge- 
aho de madeira, a que chamavam gata, Vô-se 
que fr. João tinba sido bem industriado por Ál- 
varo Paes. Mas, como quer que fosse, o mestre 
encontrara o seu desideratum: tinha por si o 
fanatismo religioso, que valia por um bom exer- 
cito. 

Então, pareceu a algumas pessoas que havia 
um meio de remover todos os embaraços, de 
coneiliar todos os partidos: era o casamento do 
mestre de Ayíz com D. Leonor Telles. Esta des* 
graçada idéa, se tivesse partido do mestre de 
Aviz, seria bastante a deslustral-o; mas vé-se 
claramente que lhe foi imposta pela revolugão, 
e que elijB não a regeitou logo, por ter a certeza 
de que D. Leonor Telles a repelliria. Partiram 
para Alemquer, para fazer a proposta â regente, 
Álvaro Gonçalves Camello, que depois foi prior 
dos hospitalarios, e o velho Álvaro Paes. D. Leo- 
nor nada disse quanto ao casamento, mas pedin- 
do4be eiies segurança para os moradores de 
Lisboa, ella não teve duvida em prometter-lh'a, 
jurando por uma hóstia. . . que não estava sa- 
grada. 

I). Leonor Telles sabia perfeitamente quanto 
Álvaro Paes tinha influido na morte do conde 
Andeiro; pois foi justamente a esse que ella tra- 
tou com maior agrado. Sereia, representava ma- 
gistralmente o seu papel. Gomquanto D. Leonor 
houvesse dado carta de seguro, para regressa- 
rem a Lisboa, aos dois emissários do povo, al- 
guém fez ver a Álvaro Paes as intenções hostis 
com que a regente estava a seu respeito. Os 
dois trataram de partir de Alemquer quanto an- 
tes. Tanto mais que o conde de Barcellos dis- 
sera a um dos escudeiros dos embaixadores: 
«Que bem via como Castelia era contra Portugal, 
e Portugal contra si mesmo, e que bem devia 
entender que tal sandice, qual levantavam dous 
iapateiros e dois alfaiates, querendo tomar o 
loestre por senhor, que não era cousa para ir 
adeante, e que portanto, ao menos por segurança 
de seus bens, que deixasse a cidade, e que se 
fosse para elles.» 

Que abjecta alma a doeste conde de Barcellos! 
Eis aqui explicada daram^te a rasão da sua 
deserdo para o partido da irmã: porque suppu- 
nha que a causa do mestre não podia ir por 



deante. Os caracteres doesta estofa vão seoipre 
atraz do interesse, como os cães lazarentos atrax 
do osso com que lhes acenam. 

Augmentado o receio do povo pela insistência 
de boatos aterradores, tomou cada vez maior in- 
cremento a idéa de eleger o mestre de Ayíz como 
regedor e defensor do reino. Esta idéa partia prin- 
cipalmente das ciasses baixas, dos operários, dos 
mesteiraes. O mestre convidou-os a reunirem-se 
todos na egreja de S. Domingos, e ahi voltou a 
fallar na sua retirada para Inglaterra. O povo 
insistiu para que ficasse, acclamou^ regedor e 
defensor do reino. Mas como a burguezia não 
estivesse presente, como faltassem ali as pes- 
soas que deviam representar o commerdo e o 
capital, partiu certamente do mestre a idéa de 
que também era preciso ouvil-as, e nova reunião 
foi aprazada para os paços do conselho. Abi, o 
mestre repetiu o seu discurso, mas a burguezia 
calara-se. Era que receiava confiar a guarda do 
seu capital a um partido que não julgava forte- 
mente habilitado a defender-lh'o. Então levan- 
ta- se para fallar um homem que parece a sombra 
do alfaiate Fernam Vasques. É tão humilde como 
elle, igualmente operário, um simples tanoeiro, 
de nome Affonso Eannes Penedo. Este homem, 
em cujos lábios falia a alma popular, censura o 
silencio da burguezia n'essa hora em que se 
trata de salvar a independência do reino. Mas o 
silencio continua. Então o tanoeiro insiste, e 
pondo a mão na espada, recorre á ameaça. 

Attribuem-se geralmente as ameaças do povo, 
nos lances extremos, a perversidade de indole, 
e a instinctos sanguinários. É engano, e injus- 
tiça. O povo não dispõe dos recursos oratórios 
que convencem e subjugam. Sente, e sente pro- 
fundamente, mas não pode, não sabe expres- 
sar-se. Certo de que defende uma boa causa, e 
de que a sua palavra é fraca, descolorida, in- 
completa, recorre â ameaça, que é para elle um 
meio extremo, como o orador experimentado 
recorre ao dilemma, que é a espada de dois go- 
mes da dialéctica. 

Receiosa, a burguezia rendeu-se, e confirmou 
a eleição da canalha^ como diria um escripUMr 
palaciano, do povo meudo, como escreve Fernam 
Lopes. 

Investido no seu novo cargo, o mestre de Aviz 
passou a intindar-se— 0. Jo6o» por (rasa de 



Historia de Porto^ 



313 



Deu8^ Glho do mui nobre rei D. Pedro, mestre 
de cavallaria da ordem d'Aviz, regedor dos rei- 
nos de Porlugal e Aigarves — ; mandou gravar 
entre os castellos do seilo régio a cruz de Àviz; 
fundou a Casa dos Viote e Quatro, instituição 
rasgadamente democrática, assim chamada por- 
que se compunha de vinte e quatro homens, 
dois de cada mester, os quaes constituíam uma 
espécie de conselho municipal, para funccionar 
conjunctamente com a camará; tratando de or- 
ganisar a Bua casa, nomeou cbanceller Jo&o das 
Regras, vulto épico destinado a fazer pendant ao 
de D. Nttoo Alvares Pereira, completando o seu 
conselho com o arcebispo de Braga, D. Lourenço, 
Jo&o Affoaso d'Asambuja, o licenciado Jo&o Gil, 
Lourenço Esteves e Martim da Maia. 

Um mercador inglez, micer Percival, foi no- 
meado thesoureiro, em substituição de D. Judas; 
outro mercador, Lopo Martins, foi escolhido para 
o cargo de corregedor da cidade, e Jofto Domin- 
gos Torrado para almoxarife das casas e rendas. 

Bm todas estas nomeações se vô como o mos- 
tre de Aviz queria lisonjear o espirito democrá- 
tico do povo de Lisboa, não só com a creação da 
Casa dos Vinte e Quatro, como também pela 
escolha do prelado de Braga para o seu conselho, 
nos úiesmos termos em que o povo tinha reque- 
rido a D. Leonor Telles. A escolha dos mercado- 
res mais influentes para certos cargos, revela 
um grande tino politico por parte do mestre, que 
procurava fazer a bocca doce á burguezia, que 
a principio se lhe mo&trára hostil, como vimos.* 

Logo que o mestre foi acclamado regente, fu- 
giram de Lisboa os últimos partidários da rainha, 
que ainda se tinham deixado ficar na espectativa 
dos acontecimentos. Fugindo, escondiam, enter- 
ravam os seus haveres. Quem os descobria, ia pe- 
dir ao mestre para ficar com elles. Ora Álvaro Paes 
havia dado ao mestre este conselho: Dae^quillo 
que vosso não é, promettei o que não tendes, 
perdoae a quem vos não errou, ser-vos-ha de 
grande ajuda para o negocio em que sois posto. 
O mestre seguia este conselho ditado pela expe- 
riência, c baseado na eterna verdade de que é 
preciso semear para recolher. Não só consen- 
tia que 08 thesouros encontrados ficassem na 
posse de quem os achava, mas até fazia doações 
das propriedades abandonadas pelos fugitivos. 
Uma das pessoas que tinham escondido thesou- 
n voL, — 40. 



ros fora a condeisa de Barcellos, mulher de João 
Âffonso Telio. A condessa escondera um cofre, 
quando a rainha partiu para Alemquer, na egreja 
de S. Domiogo8| sobre a porta principal, pelo 
lado de dentro, e ahi mesmo foi desencantado; 
o povo, apesar da sua natural cobiça, vendo 
talvez n'este achado a mão da Providencia, pois 
que se tratava das jóias da esposa do traidor 
João Afonso Tello, irmão da rainha, foi levar o 
thesouro ao mestre de Aviz, respeitando a presa. 
Desde o momento em que fora investido no 
alto cargo de regente do reino, dado esse pri- 
meiro passOf o mestre de Aviz procura tornar 
bem firme o terreno em que se collocou. Que- 
rendo altrair partidários, procurando a alliança 
das pessoas que opinavam que o herdeiro do 
throno devia ser o filho mais velho de Ignez de 
Castro, manda a Toledo um escudeiro de con- 
fiança, encarregado de dizer ao infante D. João 
que elle mestre de Aviz, acceitando o titulo de 
regedor e defensor do reino, não era mais do 
que um simples depositário da coroa, que aliás 
pertencia a seu irmão D. João. 

O filho de Ignez de Castro estava tão vigiado 
na prisão, que o escudeiro teve que dar o recado 
do mestre de Aviz a um frade, que o ouviu de 
confissão, o qual frade, também confessor do 
infante uo cárcere, fez chegar finalmente p re- 
cado ao seu destino. Pelo mesmo processo, o 
infante D. João mandou pedir a seu irmão o mes- 
tre de Aviz que tomasse o titulo de rei, porque 
seria esse o único meio de lhe ser dada a liber- 
dade. Parece até que o infante fizera esta decla- 
ração por escripto, certamente por assim lhe ter 
sido pedido. 

Schseffer aprecia este acto do mestre de Aviz 
nas seguintes palavras, que para nõs correspon- 
dem á realidade: «D'este modo, tornando notória 
a intenção de conservar o reino a seu irmão, o 
mestre attraiu a si todos quantos eram dedicados 
ao infante, ganhou com estas manifestações de 
amor fraternal, de abnegação e desinteresse os 
corações dos portuguezes, excitou a compaixão 
pelo prisioneiro, o amor pela casa real enraizada 
no paiz, o ódio contra o oppressor extrangeiro, 
e o horror ás algemas de Cástella. Foi assim que 
aproveitando habilmente os acontecimentos e as 
circumstancias, e lisonjeando as opiniões de 
cada um, o gran-mestre firmava cada vez mais 



814 



Historia de Pnrtiigal 



os tens passos oo meio das agitações e das tem- 
pestades de que Ibe proviera o poder; se bem 
qoe avaliando a força e a importaocia do favor 
popular, não desconhecia a sua ioconsislencia, 
e exforçava-se por adquirir partidários nas clas- 
ses superiores. • 

Pinbeiro Cbagas, referindo-se a este acto do 
mestre de Avíz, escreve: «Se este passo fora 
inspirado pela antiga amisade que unia intima- 
mente os dois irmãos, se pelos cálculos de uma 
politica faabil, é o que não poderemos decidir, 
porque o mestre de Âviz parecia ter tomado o 
reflexo dos caracteres dos dois bomens, que fo- 
ram depois os principaes esteios do seu ibrono; 
ás vezes a sua alma apresenta-se dissimulada e 
pirofuuda como um abysmo ou cooio a alma de 
João das Regras, outras vezes cavalheirosa e 
leal como a sua espada, ou como a alma de Nuno 
Alvares Pereira.» 

Nós acreditamos, com Scba^ffer, que esse acto 
do mestre de Aviz fora ditado por um grande 
tiuo politico, e mais nos firmamos n^esta opinião 
qpando nos lembramos de que o mestre mandara 
pintar nas bandeiras o retrato do infante alge- 
mado em Castelia, despertando d este modo um 
sentimento religioso, a piedade, como jã soubera 
insinuar-se no animo do povo por um meio idên- 
tico quando fora consultar fr. João da Barroca 
ao ermitério visinho do convento de S. Fran- 
cisco. 

Desde o momento em que o mestre de Aviz 
fora aoclamado regedor e defensor do reino, 
D. Leonor Telles não se julgou segura em Alcm- 
quer, pela proximidade de Lisboa. Convinba-lbe 
Santarém, que ficava mais distante, e que offe- 
recia tranquillisadoras condições de segurança, 
mas Santarém era justamente uma das terras 
que, como sabemos, não tinham querido tomar 
voz por D. Beatriz de Castella. D. Leonor encar- 
regou, porém, o aicaide-mór de Santarém de 
sondar a opinião publica a seu respeito. Mas 
como se chamava o alcaide-mór? Gbamava-se 
Gonçalo Vasques de Azevedo, o mesmo que, por 
intrigas de D. Leonor, estivera preso com o mes- 
tre de Aviz. Pois esse homem, perguntará o lei- 
tor, 6 quem dispõe á opinião publica em favor de 
D. Leonor Telles, que o linba ofifendido? É esse 
mesmo. A historia ofierece doestas anomalias, 
mas não ba remédio senão acceital-as. Gonçalo 



Vasques de Azevedo esqueceu-ae da offeo» re- 
cebida, escreve Schseffer. A verdadeira cansa 
d*esse extranbo acto escapa hoje, infelismeote, 
á investigação histórica. 

O que é certo é que D. Leonor Telles, tendo 
recommendado aos de Alemquer que se lhe con- 
servassem fieis, e pondo por alcaide do castello 
Vasco Peres de Camões, partiu para Santarém 
com a sua comitiva, que era pequena, segando 
affirma Fernam Lopes. 

Estava- se em dezembro, tinham passado as 
festas do natal de 1383. 

Foi de Santarém que D. Leonor Telles escre- 
veu ao genro uma carta * iosistiodo pela soa 
vinda a Portugal. D. Leonor Telles, julgava-se 
perdida, sem um apoio qualquer; portanto pe- 
dia-o ao rei de Castella, seu georo, qne era, 
n^aquellas circumstancías, a única pessoa qoe 
ella julgava poder supplantar o mestre de Avis, 
conservando-lhe a ella a sua posição de regente, 
pois que, chamando-o a Portugal, ganhava litn- 
ios á gratidão do marido de sua filha, julgava 
dever amansar-lhe as idéas em que ellc estava 
de romper o tratado nupcial. 

D. Leonor Telles calculava isto. 

Emquanto esperamos pelo rei de Castella, si- 
gamos os passos do mestre de Aviz, em cujo par- 
tido viera alistar-se João Lourenço da Cunha, o 
primeiro marido de D. Leonor Telles. 

il lustre escriptor a quem estamos conti- 
nuando disse, referindose a João Lourenço da 
Cunha, que elie consentira facilmente em aban- 
donar D. Leonor Telles ao rei, o sr. Ximenez de 
Sandoval, em pbrase menos velada, falia da des- 
vergonha com que João Lourenço se estadeava 
por Castella. ^ Sem embargo, o facto de vir alís- 

1 Esta carta, datada de Santarém em janeiro de 
138i, vem publicada nos Retfes nueoos de lUedo, 
por Lozano. 

2 Vamos dar as próprias, palavras do escriptor 
hespanhoi, porque, se não primam por delicadas, 
não destoam completamente na historia de um rei- 
nado em que o leitor tem sido obrigado a acompa- 
nhar urna vasta serie de iuimoralidades. A historia 
é uin espelho, e como tal também reflecte o nú. 
«En el — Sumario de lo$ reyes de Espana, por el 
despensero de la reina dona Leonor de Catíilla, — 
$e dice que emigrado á Espana el Jtum Lorenso de 
Aamka, ondeAa por todas partes ostentimàd mmos 



I 



Historia dé Portugal 



815 



tar^se no partido do mestre de Aviz parece-nos 
revelar a intenflão de se vingar da mniber que o 
repadiára, e accosar, pelo menos ostensiva- 
mente, o desejo de se desafrontar dos vexames 
recebidos. 

CAPltMLO III 

Nuno Alvares segae o partido do mestre. — 
PropagaQfiLO da revolução demooratica. — 
Adhesôes importantes. — Neffooiaç?5es di- 
plomatioas oom a Inglaterra. — Medidas 
finanoeiras adoptadas pelo mestre. — En- 
trada do rei de Castella em Portugal. — 
Aoonteoimentos Immediatos. 

Qoando Nuno Alvares Pereira soube que o 
mestre de Àviz matara ás próprias mãos João 
Fernandes Ándoiro, quando viu por terra esse 
de^honroso sustentáculo do tfarono da regente, 
sentiu alvoroçar-se-lbe a imaginação com a idéa 
de ver sabir da onda popular uma nova monar- 
cbia, expuDgida dos vicios que até abi, e prin- 
cipalmente no ultimo reinado, baviam maculado 
a purpura real. A seus olhos, a encarnação da 
realesa assim refundida não podia encontrar-se 
senão no mestre de Aviz, e desde logo o seu es- 
pirito pendeu inclinado á causa do mestre, que 
era a causa do povo, tanto mais que era essa 
uma empresa arriscada, e o animo ardente e ar* 
rojado de Nuno Alvares dava-se melbor com os 
perigos do que com as victorias fáceis. 

Conferenciando a este respeito com o prior 
seu irmão, Nuno Alvares encontrou-o tenazmente 
ligado ao partido de D. Leonor Telles; voltou-se 
então para outro seu irmão, Diogo Alvares, o 
qual no primeiro momento prometteu acompa- 
nhado, mas que não tardou u reconsiderar. Rea- 
tavam, portanto, a. Nuno Alvares apenas os seus 
homens d*armas, os seus fieis companheiros de 
aventuras bellicosas. Voltou-se, pois, para elles, 
a quem expoz as suas intenções. O discurso que 
Pernam Lopes põe na bocca de Nuno Álvares, se 
não é textual, tem o grande valor de ser profun- 
damente característico «Amigos, — diz Nuno Al- 
vares^-eu vos quero contar um segredo, e grande 
feito, que trago cuidado em meu coração, o qual 

euemoi de oro en la cabeza, y que a la reina^ que 
fué su mujer, dona Leonor Telles de Meneses, la 
apellidaban-^lor dê aUura,» 



é este. Assim que eu vejo no meu entendimento 
um poço mui alto, e mui profundo, cheio de 
grande escuridade, e bem me diz a vontade que 
não ha homem que em elle salte, que d*elk possa 
escapar, salvo por grande milagre, querendo-o 
Deus hvi^ar d elle por a sua mercê, não posso 
com meu coração, senão todavia que salte em 
elle, « 

Magnifica comparação esta ! Âquillo que apa- 
vora 08 cobardes é justamente o qu^ affoila os 
fortes. Em vendo um poço fundo, o que aprazia 
a Nuno Alvares era luctar com a escuridão, me- 
dir a profundesa do pengo. Portanto, logo que 
os seus homens lhe declararam que para toda a 
parte o acompanbaríam, Nuno Alvares metteu-se 
a caminho, na direcção de Lisboa. Pela estrada, 
foi preciso empregar grande vigilância, pernoi- 
tar vigiado como num acampamento, porque a 
rainha exasperou-se quando soube que Nuno 
Alvares ia offerecer os seus serviços ao mestre 
de Àviz, e deu ordem para que o prendessem, e 
o matassQm em caso de resistência. 

O povo de Lisboa recebeu Nuno Alvares com 
demonstrações de alegria, e o mestre de Aviz 
do mesmo modo, porque era uma acquisição im- 
portante; roas, no seio da familia de Nuno, o 
quadro era differente. Sua mãe Iria Gonçalves, 
que estava na casa de Portalegre, logo que 
soube que o fílbo partira para Lisboa, deu-se 
pressa em o seguir. Chegada a Lisboa, Iría Gon- 
çalves expoz ao filbo os perigos que a defesa da 
causa do mestre trazia comsigo, sobretudo quando 
o rei de Castella se preparava para entrar em 
Portugal. Nuno Alvares, sem deixar de ser res- 
peitoso, foi inabalável. Não valeram instancias 
maternas a despersuadil-o do seu propósito. Por 
sua parte o mestre foi pessoalmente visitar Iría 
Gonçalves, para €onvencel:a de que não devia 
obstar a que seu fiibo seguisse a causa do povo. 
O que é certo é que Iría Gonçalves, reconhecen- 
do-se vencida, acabara não só por lembrar a 
Nuno Alvares que uma das mais nobres quali- 
dades que o homem pode ter é a fidelidade de 
caracter, mas também por prometter que re- 
commendaria a seu filbo Pernam Pereira que 
viesse fazer companhia a Nuno. Effectivamente, 
Fernam Pereira accedeu ao convite materno, e 
veio com a sua gente para Lishoa alistar-se no 
partido do mestre. 



ai6 



Historia de Portogal 



Refere Fernam Lopes qoe ao tempo da che- 
gada de Kano Alvares a Lisboa, aJguos conse- 
Ifaeiros do mestre eram de parecer que elle de- 
via ir a Inglaterra pedir auxilio de gentcp, qae 
o ajudassem a expulsar de I^rtugal o rri de 
Gastella. Pode ser (fue assim fosse, mas é mais 
provável, e cousentaneo com os aconleci mentos 
anteriores, que a intenção do mestre foese ainda 
a mesma, — espertar para a Júcta o animo dos 
seus adeptos. Como quer que foBsc, outros con- 
selheiros, taes como João das Regras e Nuno Al- 
vares, oppozeram-se tenazmente a esse alvitre. 
O mestre não resistiu, e desde logo se tratou de 
organisar um piano de combate. 

Pensou-se, em primeiro logar, em tomar o 
castello de Lisboa, do qual era alcaide, posto 
pela rainha, Martim Affòneo, porque do castello 
po'dia vir grande damno para a cidade. Mas a 
guamigão resistia, e mandou^se fazer a gata 
que frei João da Barroca havia aconselhado, isto 
é, um artificio de madeira que devia abalar as 
muralhas. Houve então no partido do mestre 
uma idéa portentosa, uma doestas felizes idéas 
que rebentam ás vezes do seio da revolução 
como flores abençoadas por Deus, e que pare- 
cem inspiradas para evitar a effosão de sangue. 
Mandou-se dizer aos defensores do castello que, 
se se não rendessem, suas mulheres e filhas se- 
riam postas sobre a gata, e que então se veriam 
na cruel necessidade de victimar as suas pró- 
prias famílias. Esta ameaça produziu grande im- 
pressão em todos os que estavam dentro do 
castello. Â fim de apruveital-a, Nuno Alvares 
pediu ao mestre que o deixasse ir ter uma en- 
trevista com Martim ASònso, alcaide do castello. 
Obtida a licença, Nuno Alvares foi, e empregou 
toda a sua eloquência para convencer o alcaide 
de que devia evitar que corresse sangue portu- 
guez por culpa sua. Martim AfTonso declarou pior 
fim a Nuno Alvares que entregaria o castello se 
a rainha lhe não mandasse auxilio dentro de 
quarenta horas. D'este contracto foi dudo como 
reféns, por parte do alcaide do castello, Affonso 
Eannes Nogueira. Emquanto ia um mensageiro 
levar o recado do alcaide á rainha, o povo de 
Lisboa preparava-se para a defesa, na hypothese 
de ser enviado o soccorro pedido. 

Quem recebeu o recado foi o conde João Af- 
fonso, que depois o communicou á rainha, « 



que chasqueou do medo da guarnição do cas- 
tello, mas que respondeu, de accordo com soa 
irmã, que não tinha gente apercebida para man- 
dar, e qoe o praso era tão pequeno que não dava 
tempo a organisar qualquer expedição: 6nal- 
mente, que quem depois -tomasse a ddade to- 
maria o castello. 

Pouco importaram ao mestre e aos snis as 
ironias jactanciosas do conde e de sua irmã, o 
que elles quizeram foi haver o castello, que effe- 
ctivamente se entregou, indo o mestre aposen- 
lar-se n'elle. 

Espalhou-se pelas provindas a noticia da ren- 
dição do castello de Lisboa, e produziu excel- 
lente impressão no povo; basta uma ligeira brisa 
para atiçar o incêndio quando elle está latente. 
O povo de Beja, creando novo animo com as 
noticias recebidas de Lisboa, propoz-se tomar o 
castello incendiando-lhe as portas, o que eSecti- 
ramente fes. Alem do que, constando-lhe que o 
almirante micer Lançarote se dirigia para o Al- 
garve, para levantar voz pelo rei de Gastella, foi 
ao seu encontro, e aprisionon-o a elle, e aos seus, 
tomando-lhes quanto levavam, sendo a tomadia 
remettida ao mestre. Mettido Lançarote no cas- 
tello de Beja, receiou o povo que tratasse de 
levantar-se com elle, e resolvendo a multidão 
que era melhor tirar d'ali para fora o almirante, 
como Lançarote se defendesse, matou-o de morte 
afrontosa. Os castellos de Portalegre e Bxtremoz 
foram também tomados pelo povo. O castello de 
Évora não só foi tomado, mas incendiado, ficando 
devasso como pardieiro, diz Peruam Lopes, c 
constando ao povo que a abbadessa de S. Bento, 
talvez por ser parenta da rainha, dissera, quando 
o povo tomara o castello, que lá andavam os 
bêbados com as suas bebedice, foram procural-a 
estando ella a ouvir mi^^sa, e mataram-n'a, ar- 
rastandoa depois pelas ruas como tinham feito 
ao bispo de Lisboa. 

No Porto, baluarte de codas as idéas liberaes, 
a causa do mestre de Aviz não tardou a achar 
écco. A arraya meuda, como diz o chronista, quiz 
levantar voz pelo mestre, mas um dos populares, 
que fora convidado para levar a bandeira, recu- 
sâra-se a isso: foi logo morto ás cutiladas. Outro 
popular se encarregou d'essa missão, e o pre- 
gão de Portugal, Portugal pelo mestre d! Aviz, 
fez-se ouvir em todas as mas e praças. 






»i 



Hiatoria de Portngid 



dl7 



Como se vé, a lucta estava travada. De um 
lado a arraya meatia, o povo do Messias de Lis* 
boay como os Dobres lhe chamavam por escar- 
neo; do outro lado a uobresa, a quem os po- 
pulares chamavam traidores scismaticos. De um 
lado, os partidários do mestre, do outro iado os 
partidários do rei de Castella. â lucta era iu- 
gente, verdadeiramente épica. Fullando dos po- 
pulares, diz Feroam Lopes: «R era maravilha 
de vôr que tanto esforço dava Deus n'ellfS, e 
tanta cobardice nos outros (os nobres), que os 
castelios, que os antigos reis por longos tempos, 
jaaendo sobre elles com força de armas, podiam 
tomar, os povos meudos mal armados, e sem 
capitSu), com os ventres ao soh, antes de meio 
dia os filhavam por força, etc. . .» 

E accrescenta Fernam Lopes — «que não so- 
mente os homens, como dito é, mas as mulhe- 
res tinham bando pelo mestre contra qualquer, 
que da sua parte não era ... » 

Um dia, em Extremoz, algumas mulheres 
lançaram da muralha abaixo um rapaz porque 
dissera mal do mestre, e pertencia ao partido 
de Gasteila. 

Mas se este apoio popular era espontâneo e 
ardente, não tinha comtudo um caracter de se- 
gurança que pudesse tranquilisar o mestre de 
Aviz; era preciso organtsar um exercito, forte e 
disciplinado, para fazer rosto ao de Gasteila. Fui 
enláo que brotou a excejlente idéa de procurar 
em Inglaterra, pelas vias diplomáticas, um auxi- 
lio que devia produzir um duplo efTeito, porque 
fortaleceria material e moralmente os partidá- 
rios do mestre. Nào era effectivamentc prudente, 
como queriam alguns conselheiros, que o mestre 
ÍQSse a Inglaterra solicitar esse auxilio, mas ptn- 
sou-se logo em enviar embaixadores ad hoc, e 
de feito nenhum paiz poderia nessa occasiào 
ter tanto interesse em auxiliar Portugal como a 
Inglaterra, porque o inimigo do mestre de Âviz 
também o era seu. Foi entfto que se abriram com 
a Inglaterra as largas negociações diplomáticas 
que vieram a estreitar-se durante todo o futuro 
reinado de D. Joào i, a ponto de ser inglez.^ a 
dama que escolheu para esposa; — relações de 
que o visconde de Santarém dâ ampla noticia no 
volume XIV do seu Quadro elementar, e de que 
opportunamente trataremos. 
Foram primeiro euviados como embaixadores 



a Ricardo ii Lourenço UartinsT e Thomaz Daniel, 
ambos pessoas da confiança do mestre, a fim de 
obterem auctorisaç&o paca alistar em Inglaterra 
voluntários que viessem ajudar-nos contra oscas- 
telha nos. Foi depois nova embaixada, composta 
de Fernando AiTonso de Albuquerque, mestre da 
Ordem de S. Thiago, e de Lourenço Eanes Fo- 
gaça, para tratarem do mesmo assumpto. A es- 
colha de Fernando de Albuquerque para o cargo 
de embaixador fora um acto de hábil politica, 
porque dVste modo se evitou que pudesse entre- 
gar ao rei de Gasteila, quando entrasse no reino, 
todas as fortalesas do mestrado de S. Thiago, o 
que se receiava. 

O mestre de Aviz começou, em tfto difficeís 
circumstanciasj a alfirmar o seu fino talento go- 
vernativo. Do ardor patriótico do povo de Lisboa, 
já o mestre estava seguro, seguríssimo; mas nào 
bastava o amor pátrio para fazer rosto ao rei de 
Gasteila, era preciso dinheiro, e dinheiro era 
justamente o que nào havia, importava crear 
urgentemente novas fontes de receita. O mestre 
tinha predisposto tão habilmente os ânimos doa 
lisbonenses, que fácil lhe fui leval-os a abrirem 
a bolsa para organisar convenientemente a de- 
fesa nacional. 

A municipalidade cedeu-lhe logo as cem 
mil libras que pagavam de moradia os ju- 
deus e os niuuros, emprestando-lhe, alem 
d'ís^o, estes últimos, setenta marcos de prata. 
Dirigiu-se o mt stre a todas as pessoas ricas da 
cidade,^ o seu appello fui ouvido, com vontade 
ou sem ella. E dizemos cum vontade ou sem 
ella, porque, na excitação em que estava o es- 
pirito popular, era arriscado para qualquer bur- 
guez dinheiroso o desuttender um pedido do 
mestre; tanto n?ai8 que tinha sido dada ordem 
para ser tomado todo o dinheiro que sabisse 
escondidamente da cidade, tendo o apprehensor 
um quinto da tomadia. As confrarias c irman* 
dades emplastaram as cruzes, cálices, castiçaes, 
etc, que podiam, dispensar, o que perfez a tota- 
lidade de duzentos e oitenta e sete marcos de 
prata. 

Da í?uarda de te dos estes valores foi encarre- 
gado o thesoureiro do mestre, micer Percival. 

Empenhado em amontuar recursos para a de- 
fesa do reino, o mestre de Aviz mandou cunhar 
moeda, com tal sagacidade, porem, que a des- 



ms 



Historia de Bortugal 



peia nlo foi sensíTel. Seja Femam Lopes quem 
D06 dé conhecimento do expediente que o mes- 
tjré tomou: «E o mestr^ ordenou de lavrar moeda 
nova de reaes de prata, c da lei de nove dinhei- 
ros, e desbi outros cinco, e por o lavramentOy 
que mandava fazer de menos da lei, gançava 
para.as despesas»» Â esta moeda ligou depois o 
povo uma idéa de superstição religiosa, que o 
levava a trazel*a pendente do pescoço como ta- 
lismao, e preservativo de certas dores. ^ 

A municipalidade de Lisboa teve auctorisação 
para mandar cunhar a moeda que lhe fosse pre- 
cisa para faeer face aos seus encargos, entrando 
n'estes encargos o equipamento das hostes que 
havia de fornecer ao mestre; mas esta concessão 
Bão se limitou apenas á camaia municipal de 
Lisboa, toroou-se ostensiva a todos os particula- 
res que posBuissem oiro ou prata em barra, aos 
quaes foi permittido mandarem cunhar dinheiro 
Da casa da moeda, sem terem que pagar por isso 
qualquer percentagem â fazenda real. Parece 
que um dos particulares que se aproveitaram 
d'essa concessão fora o dr. João das Regras. 
Schseffer acha esta. medida extranha; não nos 
parece que deva ser assim classiKcada, desde 
que se comprehenda que o mestre de Aviz que- 
ria chegar aos seus Ons sem indispor contra si 
a opinião publica. Por um lado, pedia dinheiro 
emprestado ás pessoas abastadas; por outro lado, 
depois de ter seguro o empréstimo, e mandado 
cunhar as quantias de que precisava para as pri- 
meiras despezas, concedia-lhes que mandassem 
amoedar o oiro e a prata que possuíssem, o que 
era ainda um recurso se mais tarde fosse preciso. 

Certo de que bò é bem servido quem remu- 
nera os serviços, estabeleceu ordenados aos o£B- 
eíaes de sua casa, e, a fim de exaltar cada vez 
mais o euthusiasmo popular, deu dinheiro para 
resgate dos portuguezes que tinham caldo em 
poder dos castelhanos nas guerras passadas. 

Que enorme differeoça entre D. Fernando e o 
mestre d'Aviz ! 

Mas para que se não dissesse que o que elle 
queria era supplantar desde logo a memoria do 

1 Sobre a moeda que D. João mandou cunhar 
depois de ser rei, veja o leitor o capitulo l da 
chronica de Femam Lopes. Ha ahi curiosos subsí- 
dios para a historia da numismática portugueza. 



rei J). Fernando seu irmão, tomal-a odiosa pelo 
confronto dos actos de um com os do outro, 
mandou fazer exéquias em S. ^Nicolau por alma 
de D. Fernando, e, no seu empenho de não 
esperdiçar nenhum elemento de popularidade, 
mandou distribuir esmolas peias pessoas que 
tinham reputação de santas, por frei João da 
Barroca, e por algumas mulheres emparedadas. 

Com este fino tacto politico e administrativo, 
parecia o mestre fadado para triumphar de todas 
as difficuldades, mas accrescia ainda que se 
achavam a seu lado homens como que predes- 
tinados para completar a sua obra. Basta contar 
um facto, que vem agora a propósito. No conse- 
lho do mestre começou a lavrar certa emulação 
do peso que elle dava á opinião de Nuno Alva- 
res Pereira. Certo dia tratava-se um assumpto 
importante, Nuno Alvares deu parecer sobre elle, 
e logo os outros conselheiros sahiram a contra- 
rial-o vivamente. Nuno desatou a rir; pergun- 
taodo-lhe o mestre porque ria, Nuno contou por 
claro tudo o que se passava, explicou que o con- 
trariavam apenas por emulação. Pois desde esse 
momento em deante a inveja desappareceu, e 
todos se conciliaram em deredor do mestre, 
pondo de parte pequenos resentimentos pessoaes, 
quando era da independência da pátria que se 
tratava. Mas isto só o podem comprehender es- 
píritos elevados, ainda mesmo que por momen- 
tos se desvairem. É preciso ser grande para se. 
vencer a si mesmo. 

Ia começar o anno de 1384, o rei de Castella 
devia avançar sobre a fronteira, e era preciso, 
portanto, alargar a ãrea da defesa. Almada era 
uma posição importante, uma espécie de chave 
do mar para qualquer armada, diz Pernam Lo- 
pes, e por isso foi o mestre de Aviz aconselhado 
a procurar havel-a. Com effeito, D. João diri- 
giu-se a Almada, e foi bem recebido pelos habi- 
tantes da povoação. Pensou então o mestre em 
tomar Alemquer, mas ahi a empreza era mais 
difficil, não 6ó porque a povoação tinha um bom 
castello, mas também porque, como sabemos, a 
maioria dos habitantes seguia a causa de D. Leo- 
nor Telles. Não obstante estas considerações, o 
mestre de Aviz, acompanhado por Nuno Alvares, 
foi, com duzentas lanças e alguns besteiros,, so- 
bre a villa de Alemquer, na qual estava por al- 
caide Vasco Peres de Camões. 






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Xk: 



Hifftorta de Po/r^iag»! 



Ôld 



Eoàquaolo o mestre de Âviz joraadea sobre 
Alemquer, sigamos dós D. Joào de Castella quf , 
acompaobado por su^ esposa, se dirige à froa- 
teiru de Portugal. 

Oiçamos o sr. Ximenez de Sandoval: 
«Em companhia da rainha D. Beatriz, eesool- 
tado unicamente de 25 ou 30 ginetes, atravessou 
a raia de Portugal e entrou na Guarda D. João i 
em um dos primeiros dias de janeiro de 1384, 
sendo recebido peio bispo, cleresia e povo, mas 
esteve quedo em seu castello o alcaide (é a pró- 
pria phrase de Fernam Lopes), Álvaro Gil Cabral, 
illudindo prestar-lhe homenagem. Chegaram três 
dias depois quinhentos cavallos que conduzia D. 
Pedro Nunes de Lara, conde de Mayorga, e foram 
apresentando-se alguns senhores da comarca a 
cumprimental-Oj reconhecendo D. Beatriz como 
rainha; mas faltaram outros dos notáveis, como 
o alcaide de Trancoso, Gonçalo Vasques Couti- 
nho, e nem todos sahiram satisfeitos da entre- 
vista^ pela seriedade ou poucas palavras do rei, 
ou porque, segundo diz Àyala e repete Fernam 
Lopes, não Ibes deu dinheiro, estando acostuma- 
dos ao agasalho de D. Fernando.» 

Temos que fazer alguns ligeiros commenta- 
rios. 

Em primeiro logar o sr. Ximenez de Sandoval 
esqueceu-se de fallar em mais duzentas lanças, 
que vieram juntar-se ao rei de Castella, e que 
elle mandara buscar. Dil-o Fernam Lopes. Vé-sc 
que o rei de Castella começara, logo que trans- 
pozera a fronteira, a arrepender-se da teme- 
ridade de entrar apenas com vinte ou trinta 
ginetes, reconhecendo que tinha a vencer dif- 
ficuldades, e não se contentando com as qui- 
nhentas lanças do conde de Mayorga, que espe- 
rava. ' 

Em segundo logar esqueceu-se também de 
mencionar que aquelles mesmos fidalgos portu- 
guezes que se apresentavam ao rei de Castella 
o faziam na persuasão de que elle respeitaria os 
tratados. 

«A el-rei pesava muito doesta condição, diz 
Fernam Lopes, que punham em taes menagens, 
porem dava logar a ella, porque não podia mais 
fazer por então. » 

Paliando de Gonçalo Vasques Coutinho, alcaide 
de Trancoso, omittiu o sr. Sandoval a tradição, 
contada por Feroam Lopes, de que este alcaide 



fora aconselhado por sua mãe, Beatriz Gonçalr 
ves, a não ir apresentar-se ao rei de Castella. 

Tem porem inteira rasão o escriptor hespanhol 
quando aponta as causas do descontentamento 
dos fidalgos portuguezes, depois da entrevista 
com o rei castelhano. 

«E isto dizem que foi por duas rasões, diz o 
chronista portuguez. À primeira porque el-rei 
era homem de poucas palavras e não muito 
ledo, e elles haviam usado com el-rei D. Fer- 
nando que era de grandes gasalhados: A outra, 
porque lhe el*rei logo não dava dinheiros, e que 
não podia isto fazer, cá tão á pressa entrara no 
reino por cobrar a posse d^elle, que não tivera 
sentido de esperar nenhuns dinheiros.» 

Vem a ponto aproveitar n'este lance o retrato 
que o sr. Ximenes de Sandoval faz de D. João i 
de Castella; é-nos mesmo indispensável conhe- 
cer o homem que temos de acompanhar durante 
08 acontecimentos que vão desenrolar-se, posto 
que o sr. Sandoval vá procurar traços caracte- 
rísticos, sob o ponto de vista psychologico, a 
factos que para nós ainda vem longe. Itiio im- 
porta. Preferimos essa pequena irregularidade 
chronologica a deixar incompleto o retrato, ou a 
mutilai-o, o que seria falta de probidade litteraria. 

«Menos um anno que o seu antagonista portUp 
guez contava D. João i de Castella em Aljubarrota. 
— Armado cavalleiro por seu pae D. Henrique u 
em Burgos, começou a militar muito cedo, apesar 
da sua curta idade e delicada saúde; e em 1378 
foi-lhe confiado o commando da expedição con- 
tra Navarra. 

«Levantado ao throno no anno seguinte, em 
que falleceu D. Henrique em S. Domingos de la 
Calzada, trasladou-se a Burgos para a coroação 
e juramento solemne. 

«Era, segundo Lopes de Ayala, não grande 
de corpo, branco y loiro, manso, socegado, franco, 
e de boa consciência; era homem que se pagava 
miuito de estar em conselfio, ^ e tinha muitas 

1 Que se pagava muito, isto é, a quem aprazia 
muito. Deixamos ir a própria phrase do sr. Sando- 
vel, porque ella também apparece frequentes vezes 
nos nossos escriptores, exemplo: <Da qual elle 
mesmo soe repetidas vezes fazer lembrança, como 
que d'ella com razão se paga muUo^ sendo aliás 
homem muy mesurado.» CoUeçam das mitiguidaies 
de Evora^ pag. 54. 



Hi8tx>ria de Portugal 



doenças; todos os historiadores accrescentam 
que era de bons costumes, affavel, mas serio 
e de powas palavras, puudoDoroso, amigo de 
justiça, verdadeiro, e nada altivo nem soberbo. 

«Âo conjuocto de tão benignas qualidades se 
deveu que, não obstante os terríveis desacertos 
da guerra de Portugal e as grandes perdas que 
causou ao pais, todos, com rara excepção, se 
lhe conservaram fieis, dandolbe provas de ca- 
rinho; pois, como refere D. Modesto de ia Puente, 
a sua presença nas cortes de Vaiftadolid, «ves- 
tido de lucto, com o coração traspassado dodòr, 
assomando-lhe as lagrimas aos olhos, lamentando 
a perda de tantos e tão bons cavalleiros como os 
que haviam perecido n'aquella guerra, protes- 
tando que a alegria não voltaria â sua alma, 
nem despiria o lucto até que fosse vingada a des- 
honra e a affronta que por sua culpa soffrera 
Gastella, antes representa um pae amoroso e 
terno que chora a morte de seus filhos, do que 
um soberano que os sacrifica ã sua ambição ou 
velleidades. 

«Pintam perfeitamente sua nobre condição a 
simplicidade com que confessa a derrota em sua 
carta â cidade de Murcia, e as palavras que, se- 
gundo Fernam Lopes, dirigiu em Sevilha a 
alguns dos seus criados que maltratavam os pri- 
sioneiros que varriam o palácio: Dejadlos, que 
los portugueses son buenos y lealeSy y no teneis 
motivo para hacerles mal: á los que fuei^on 
en mi compailia los vi á todos mo^Hr delante de 
tni, y los mios me quitaron la corona de la ca- 
beza; ^ acrescentando o cbronista que ao outro 
dia mandou dar liberdade áquelles indivíduos, 

1 O sr. Sandoval faz as seguintes justas reflexões 
a esta passagem: «Não se comprehende bem o sen- 
tido da ultima phrase, que talvez quizesse significar 
que pelo comportamento dos seus perdeu o prestigio 
ou comprometteu a sua câroa; a não ser que alluda 
á perda da de Portugal, que lhe pertencia por sua 
mulher.— O modo por que Soares da Silva escreve 
essa passagem parece-me mais claro e acceitavel: 
Dfjadloêf no les molesteis, que no lo merecen, pues 
son buenos y leales, porque los que fueron contra mis 
me vencieron sirviendo fielmente á $u seUor; y los que 
me servian á mi todos murieron ix>n8tante y valero- 
sãmente á mi vista: los mios son los que me quitaron 
la corona de la cabeza, não sé si como traidores^ si 
como cobardes,» 



que eram dos aprisionados pela esquadra caste- 
lhana no anno anterior, ena freme de Lisboa. 

«O zelo e afan com que se occupou dos as- 
sumptos próprios da governação do reino com- 
prova-se pela frequente reunião das cortes no 
seu reinado, e pelo catalogo das leis, disposições 
e fundações, podendo desde jâ citar-se as se- 
guintes: adopção da era de i^hristo, a contar de 
13S3, em vez da antiga de Cezar; o casamento 
de seu filho primogénito, a quem declarou prín- 
cipe das Astúrias, com D. Catharina de Lancas- 
tre, para terminar a guerra dos ingleses e as 
pretensões da linha que se dizia legitima de 
D. Pedro i; melhoramentos em diversos ramos 
de administração publica, tradusidos em leis so- 
bre garantias e privelegios, ou sobre justiça 
e negócios ecclesiasticos; uma sobre a vadia- 
gem e mendicidade, outra sumptuária, algumas 
medidas importantes acerca das rendas, dos ju- 
deus, t dos apetrechos, armas e exercícios mili- 
tares, etc.» 

Tanto é o que nos importa saber da biogra- 
phia do rei D. João i de Gastella para melhor o 
podermos avaliar no momento em que transpõe 
a fronteira porlugueza. 

Foi na Guarda que o rei de Castella recebeu a 
carta em que sua sogra, por vingar-sedo mestre 
de Aviz, o chamava a toda a pressa. 

D. João de Gastella sahiu immediatamente da 
Guarda, e foi pernoitar a Gelorico. Demorando-se 
ahi quatro dias, seguiu paraGoimbra, cujos al- 
caides, ambos parentes de D. Leonor Telles, 
porque um era o conde de Neiva seu irmão e o 
outro Gonçalo Mendes de Vasconcellos seu tio, 
recusaram recebel-o. D. João jornadeou para 
Miranda, que se lhe entregou, e sabindo de Mi- 
randa dirigiu-se para Thomar, onde o mestre 
da ordem de Ghristo, D. Lopo Dias de Sousa, o 
filho da desventurosa Maria Telles, não só o 
não recebeu mas até escaramuçou com a hoste 
castelhana que o acompanhava. Seguindo para 
o sul, descançou na GoUegã e marchou sobre 
Santarém, sendo recebido á distancia de duas 
léguas por dois emissários de D. Leonor, — Gon- 
çalo Vasques de Azevedo e João Gofiçalves Tei- 
xeira, — que por elles mandava cum{M*imentar 
seu genro e sua filha. 

Entretanto, o mestre de Aviz, acompanhado 
por Nuno Alvares Pereira, acampava em frente 



Historia de Portugal 



321 



de Alemquer« na esperaDca de poder tomar o 
castello. 

Abi Ibe foram dizer qoe D. Jofto de Gastella 
já estava oa Gaarda com iotençio de marchar 
sobre Santarém. Nuno Alvares era de parecer 
que fossem tomar o passo ao rei de Gastella, 
pois que sabiam que vinha com pouca gente. 
O meatre de Avíi nfto seguiu, porem, doesta vez 
o conselho de Nuno, allegando que eram ali 
fnuito poueosj dii Fernam Lopes, e que impor- 
tava defender Lisboa. O sr. Guilherme Jo&o Car- 
los Henriques, na sua Memoria sobre Alemquer, 
dix que «os aiemqnerenses se defenderam com 
coragem e houve valentes escaramuças e sorti- 
das^ mas que na véspera do combate final, che- 
gando a noticia de que el-rei de Gastella se 
achava em Santarém com um grande exercito, 
quasi todos fugiram deixando D. João e o con- 
destavel D. Nuno apenas com 60 lanças, com 
que tiveram de se retirar para Lisboa.» Ha aqui 
varias ioexaclidOes. O mestre d'Aviz e Nuno Al- 
vares sabiam perfeitamente que o rei de Gastella 
vinha com pouca gente, o que motivou o alvitre 
de Nono Alvares de lhe saírem ao encontro; os 
companheiros do mestre n&o fugiram quasi to- 
dôSj retiraram, por ordem do mestre, por serem 
poucos. Tal é o testimunho de Feroam Lopes, 
preferivel a qualquer outro. Resta observar que 
Nuno Alvares Pereira ainda não era condestavel 
a esse tempo. 

Bffectivamente, quando o mestre de Avis soube 
que o rei de Castelia se aproximava de Santa- 
rém, retirou sobre Lisboa. 

O momento a que somos chegados é impor- 
tantíssimo na historia dos acontecimentos de 
que nos occopamos, porque eUe é o prologo da 
r.ompleta derrota de D. Leonor Telles, e do 
subtil duello de astúcia e velbacaria em que 
a sogra e o genro se vfte empenhar, duello tfio 
decisivo como rápido, em que a vantagem per- 

* 

tence, logo desde os primeiros golpes, ao rei de 
Gastella. 

Nfto nos podemos esquivar a transcrever n^este 
passa Fernam Lopes, cqa narrativa é deveras 
interessante: 

«Antes alguns dias^ que el-rei diegasse a San- 
tarém, mandou deante Pêro Carrilho seu apo- 
sentador-mór, para requerer á rainha, que lhe 
viandasse dar ifousada em bairro para os seofi 
n voim —41% 



e ella houve conselho com esses fidftlgos e se- 
nhores que com ella estavam; accordaram que 
el-rei nem os que com elle vinham n&o pousas- 
sem dentro na villa, mas que el-rei pouzasse em 
um dos mosteiros, que lhe mais prouvesse, e os 
seus de fora, como melhor podessem. O aposen- 
tador vendo isto não se tomou porém para el- 
rei, mas aguardou ali até que viesse. A villa 
começou de se velar melhor, queantea n&o por 
isso, como se fosse em guerra. Ora contam al- 
guns, que nfto embargando que a rainha D. Léo^- 
nor mandasse chamar a el-rei de Gastella, e lhe 
prouvesse muito de sua vinda, pêro como era 
mulher sagaz, e percebida em tudo, não tinha o 
coraç&o bem seguro, que el-rei teria em seus 
feitos aquella maneira, que ella desejava e que- 
ria, e receiando muitas cousas, de nenhuma 
sendo segura, duvidava muito sahir do castello, 
e se poer em poder d'el-rei, receiando o que lhe 
depois aveo, e n&o quizera sair fora a lhe faUar, 
mas que se fora el-rei entanto pousar em um 
dVsses mosteiros, e depois accordariam a maq- 
ueira, qoe tivessem em suas falias. Dizendo Mai<- 
tim Gonçalves de Athaide e Gonçalo Aodrigues 
de Sousa, e outros fidalgos, que todavia nfio ae 
posesse em poder d'elle, porque poderia ser que 
a reteria el*rei alé que lhe entregasse aquelle 
logar, e os outros todos, que por ella estavam. 
E Gonçalo Vasques e Jo&o Gonçalves disseram ft 
rainha que o não fizesse por nenhuma guisa, 
mas pois seus filhos eram, e os fizera vir de seu 
reino chamados por suas cartas, que a ella seria 
grande desmesura, e cousa de que el-rei teria 
má suspeita, e grande queixume em não sahr 
logo a os receber, e lhe fallar, maiormente que 
elles ent«*nderam o^elle quando o foram receber, 
em que lhe tinha bom desejo, e vontade de lhe 
fazer prazer, e honra em toda cousa, que po- 
desse. E dizem que em isto chegou el-rei a San- 
tarém uma terça feira, depois de véspera^ doze 
dias de janeiro, e a rainha D. Beatriz sua mu- 
lher, a qual vinha em uma mula de sella, co- 
berta de dó, e D. Beatriz de Castro e outras 
donas e donzellas com ella. Com el-rei vinham 
até cento e oitenta de cavallo, todos armados, e 
lanças alevantadas, e trombetas oomsigo. Mas 
logo á tarde vieram muitos, e descavaigou eHe, 
e sua mulher em um grande chão, que se faz 
ante a porta do casteUOi e todoa oa fidalgosi d<h 



82S 



Historia de Porttigal 



Das e doozellaB, que em sua companhia viaham, 
estavam assim a pé, até que o foram dizer á 
rainha; então sahiu ella de má mente, coberta 
^e um grande manto preto, que não parecia o 
rosto, trazendo-a de braço Vasco Martios de Ga- 
mões, e poucos com ella. El -rei como a viu, 
foi-a logo receber abraçando-a elle, e sua filha, 
e ella choramingando, começou logo a dizer a 
el-rei: «Filho, senhor, faço-vos. queixume do 
mestre d'Aviz, que matou o conde João Pernan- 
de9 em meus paços, acerca de míobas fraldas, 
e me deitou fora de Lisboa, a mim, e a quantos 
eram meus, e tinham da minha parte.» A que 
el^rei lhe respondeu: «Que a isso era elle vindo 
por lhe fazer todo o prazer, e honra, e lhe dar 
vingança do que lhe assim fora feito.» E então 
86 despediu a rainha d'el-rei, e de sua filha, e 
se quizera tornar para o castello, o que el-rei 
leixar quizera, se não fora Pedro Fernandes de 
Vellasco, que disse que razoada cousa lhe pare- 
cia de a levar comsigo, pois havia tanto tempo 
que a não vira elle, nem sua filha, e que a le- 
vassem. Todavia, sem embargo d'isto, a rainha 
quizera tornar para o castello, dizendo a el-rei 
que pois ainda não estava aposentado a leíxasse 
ir por entanto, e que outro dia pela manhã se 
iria para elle, e para sua filha. Bl-rei disse que 
todavia se fosse com elle, e tomou-a de braço de 
uma parte, e a rainha da outra, e levaram-n'a 
comsigo para o mosteiro de S. Domingos, onde 
elrrei havia de pousar. » 

A victoria do primeiro golpe pertencia, pois, 
a D. João I de Castella. Homem de poucas pala- 
vras, génio concentrado, tratara de procurar 
pela reflexão a corda sensível que devia ferir no 
coração de sua sogra. Achou-a facilmente: era a 
vingança. Em primeiro logar, vingança do mes- 
tre de Aviz; em segundo logar, vingança dos ci- 
dadãos que tinham levantado voz contra ella. 

Durante essa noite, o rei castelhano teve uma 
larga conferencia com D. Leonor Telles; o que é 
certo é que bastou só uma noite para conveo- 
cel-a a alienar o seu direito â regência do reino. 
Logo no outro dia pela manhã foi lavrada solem- 
nemente a escriptura da renuncia. 

O que se passou n^essa grave conferencia no- 
cturna não o souberam ao certo muitas das pes- 
soas. da corte, mas Schseffer adivinhou-o com 
perfeita intuição histórica, partindo das conse- 



quências para as premissas. «João, diz o iiisto- 
riador, fez ver a sua sogra que, para o bom êxito 
da empresa, importava que uma só pessoa tivesse 
o mando c o direito de empregar os meios de 
acção; que um duplo poder suscitaria desordem, 
e teria menos quem obedecesse; que á própria 
D. Leonor era conveniente largar o mando, a fim 
de que João se fortalecesse, para deixar eoi se- 
guida o reino firme e seguro, ficando então 
D. Leonor em estado de recompensar Hberaloiente 
os vassalos fieis, e de castigar os rebeldes.» C 
D. Leonor Telles, cujo sonho constante fora pos- 
suir a. regência por morte de D. Fernando, ella, 
que imaginara os mais criminosos planos para 
chegar a essa grata solução, ella que não pen- 
sava n*outra coisa, deixou-ec embriagar pelas 
palavras pérfidas do genro, como que anesthe- 
siada pelo magico elixir da vingança. D. João 
de Castella soubera adormentar a leoa, de modo 
que ella, ao sentir o primeiro golpe, não tivera 
ao menos um grito de desespero, a nota deses- 
perada da ambição que se despenha. Júpiter ha- 
via-a dementado, para melhor a perder, como 
diz o provérbio. 

Alguns dos apaniguados de D. Leonor Telles, 
vendo escapar-se-lhes o valimento da regente, 
aconselharam-n'a a que não alienasse os seus 
direitos. Foram repellidos asperamente por ella. 
De nada valeram estes conselhos, a regente re- 
nunciou eCfectivamente aos seus direitos, e, por 
aoa ordem, Santarém abriu de par em par as 
portas da cerca, para que o rei de Castella po- 
desse hospedar-se dentro das muralhas da po- 
voação. O castello foi-lhe entregue, os alcaides 
foram substituídos por outros da confiança de 
D. João I, e toda a povoação ficou d^ahi em deante 
guardada e defendida por grande numero de ho- 
mens de armas. 

Inve^ído no pleno poder dos dois reinos, 
D. João de Castella tratou de imitar as mais sa- 
bias medidas do mestre de Aviz. Acceitou os 
desembargadores da justiça que encontrou, e 
que eram os mesmos que tinham sahido de Lis- 
boa com D. Leonor Telles. Gòbbeceu D. João 
quanto seria violento começar por uma expo- 
líação. Depois, também á similfaança do mes- 
tre, mandou cunhar moeda em Santarém, reaes 
de prata de lei, de sete dinheiros. E assim como 
o mestre havia lançado uma finta sobre ós ha*- 



Historia de Portugal 



3S8 



biUates de lisboà, no empenho de obter re- 
cursos para as despezas da guerra, D. João 
de CasteUa cobrara dos moradores do concelho 
de Santarém triala mil libras para o mesmo 
lim. 

No brasão castelhano mandou incluir as qui- 
nas porluguezas, passou a denominar-se D, João 
por ffraça de Deus rei de Castella, e de Leão, e 
de Pofhigaly e de Toledo, e de Galliza, e dos 

« 

outros logares que se costumava nomear, e 
mandou reformar o sello regio^ blpartindo*o de 
modo que de um lado ficavam as armas de Gas* 
tella e do outro as de Portugal: a inscripção cir- 
cular dizia— Joannw Dei gratia Re<v Castellx, 
et LeoniSy et PortugalUs^. 

Reformado o sello, D. João de Castella, não 
querendo começar desde logo a irritar os portu- 
gueses fazendo-os substituir nos altos cargos por 
castelbaoos, disse ao antigo chanceller Lourenço 
Eannés Fogaça, que o conservaria a eiie no cargo, 
bem como ao seu escrivão Gonçalo Pires. Mas a 
om e outro repugnava terem que cbancellar com 
um sello em que as armas de Gastella se ligavam 
com aa de Portugal, e por isso Lourenço Fogaça 
pediu licença ao rei para vir a Lisboa buscar sua 
mulher; a mesma solicitação fez para Gonçalo 
Pires. Concedida aos dois a licença pedida, vie- 
ram sem perda de tempo a Lisboa, e ofereceram 
08 seus serviços ao mestre de Âviz, o qual apro- 
veitou logo o chanceller para ser um dos embai- 
xadores enviados a Inglaterra, e Gonçalo Pires 
para uma commissão ã cidade do Porto. 

A volta de D, João i de (lastella agrupou-se, 
como era natural, um certo numero de Gdalgos, 
dos quaes uns eram os que tinham acompanhado 
D. Leonor Telles, e outros eram alcaides que, 
julgando certa a victoria do exercito castelha- 
no, corriam a prestar homenagem ao sol que 
nascia, e que reputavam seguro. À maior parte 
das povoações eram contrarias a esse acto de 
servilismo praticado pelos seus respectivos al- 
caides, mas calavam-se por medo; em outras 
porem, cujos habitantes eram de animo menos 
sofrido, o povo revoltava-se contra os alcaides, 
como sabemos que acontecera em Évora, Extre- 
moz, Beja, etc. e occupava por sua conta e 
risco os castellos. 

O vulcão, prestes a explosir, anounciava por 
frequentes abalos a hora da erupção. Assim 



coino das fortalezas que tinham voz por Gastella 
sabiam os alcaides portuguezes a fazer roubos e 
morticínios no termo das que tinham voz pelo 
mestre, assim os partidários do regente não des-^ 
aproveitavam qualquer ensejo de mingar nos ini- 
migos os ataques que dia a dia aogmentavam. 
Uma d'essa3 vinganças dos partidários do meiH 
tre consistiu em tomarem alguns navios caste- 
lhanos que tinham vindo ao Tejo com farinha^ 
peixe secco e outros mantimentos, na hypothese 
de que a esquadra de Gastella jã houvesse che- 
gado a Lisboa. 

Referem alguns historiadores que, durante 
estas primeiras hostilidades, o conde de Hayor- 
ga, de quem jã falíamos, mandara desafiar o. 
mestre de Aviz por um jogral que de Santarém 
viera a Lisboa, e que Nuno Alvares Pereira to* 
roâra sobre si o encargo de responder ao conde 
castelhano, acceitando o duello como proposto a 
si, mas que o conde recusara, allegando que só*- 
mente se bateria com o mestre. Quer o factd se 
dósse assim, quer o repto partisse de Nuno Al- 
vares, como outros historiadores opinam^ o que 
é certo é que o animo de Nuno Alvares estava 
impaciente por se lançar nos perigos da guerra, 
tardandp-lhe o momento do rompimento defini* 
tivo das hostilidades. Por toda a parte se pre- 
sentia a guerra, todos a esperavam dia a dia, 
hora a hora, e todavia ainda não havia chegado 
o instante da primeira refrega. Em cumprimento 
das ordens do mestre, numerosos ranchos de 
campooezes entravam as portas de Lisboa, car- 
regados com quantos mantimentos podiam tra- 
zer e seguidos pelas mulheres, pelos filhos e 
pelos gados. Eram sem conto estas procissOes 
de camponezes que se dirigiam a Lisboa tra-. 
zendo comsigo quantos bens moveis possuíam, 
e em cujos corações a saudade dos seus doces 
campos, que não tardariam a ser cruelmente 
talados, devia pungir horrivelmente. 

O mestre, percebendo a impaciência que la- 
vrava no animo de Nuno Alvares, procurava dís- 
trahil-o, encarregando-o de algumas excursões 
destinadas a recolher mantimentos. Uma d'es- 
sas excur&ões dírigiu-se sobre Gintra, e foi pro- 
veitosa. Tendo noticia de que o rei da Gastella 
enviava forças sobre Lisboa, receioa o mestre 
que ellas se encontrassem com Nuno Alvares 
á volta de Gintra. Handou-lhe reforço, mas fe- 



824 



Historia de PortngAl 



liimente nlo foi preciso, porqae os castelhanos 
nãoappareceram. 

lectivamente o rei de Gastelia havia dado 
ordem para qne o mestre de S. Thiago, Pedro 
Fernandes Cabeça de Vacca^ acompanhado do 
marechal Pedro Rodrígaes Sarmento, adeantado 
de Galliza, e Pedro Fernandes de Vellasco, seu 
camareiro-mór, marchasse sobre Lisboa com 
mil homens de armas. Este destacamento di- 
rigia-se por Alemqner a Loures, e d'ahí ao Lu- 
miar, onde se estabdeceu no dia 8 de fevereiro, 
com o propósito de incommodar os defensores 
de Lisboa, fazendo correrias sobre a cidade. 

Entretanto, D. Jo&o ide Gastelia conserva va-se 
em Santarém, onde os soldados castelhanos pra- 
ticavam as mais revoltantes violências, espo- 
liando, roubando os moradores, langando-os fora 
de suas casas, violando a honra das mulheres, 
e inQigindo-lhes tormentos horriveis, quando 
ellas procuravam resistir. 

IXesesperadoB, os santarenos mandaram pedir 
ao mestre de Aviz que os fosse soccorrer. A pri- 
meira idéa do mestre e dos seus conselheiros foi 
ennuir â supplica. Has, reconsiderando-se, esta 
idéa foi posta de parte, nfto só porque eia arris- 
cado o transporte por meio de barcas, pois que 
só pouca gente podiam levar^ mas também por- 
que se desconfiou de que esse pedido n&o fosse 
verdadeiro, mas sim um ardil dos castelhanos, 
para desviarem a attençfto do mestre da defesa 
de Lisboa. 

CAPITULO IV 

Resistenoia de Coimbra.— Disoordia entre 
D. Leonor Telles e sen genro.— Plano e 
mallofirro ' de uma oonspiraçfto. — Ultimo 
aoto da vida politioa da Tiuva de D. Fer- 
nando. — O rei de Caetella aproxima- se 

. de Li8l)oa. — Prosegne a illiada de Nuno 
Alvares Pereira. — Batalha dos Atoleiros. 
— ^Façanhas dos portoguezes. 

«Importava a D. Jo&o i, diz o sr. Ximenez de 
Sandoval, possuir Coimbra, que alem da sua si- 
gnificação, politicamente considerada, interrom- 
pia a sua linha de operações, que era então a 
mesma que boguiu seu pae D. Henrique ii em 
1373, e a que elle tomou na campanha imme- 
diata por Gidade-Rodrigo, Guarda e Celorico.» 

A rainha D. Leonor escreveu ao conde D. Gon- 



çalo seu irmfto, e a Gonfida Mendes de Vaaoon- 
oellos, seu tio, para que se rendessem. Peruam 
Lopes copia a própria carta de D. Leonor ao conde 
de Neiva, l^reparadas assim as coisas, e julgando 
o rei de Gastelia que os alcaides de Coimbra se 
renderiam mais facilmente com a presença das 
rainhas D. Leonor e D. Beatriz, observação do 
sr. Sandoval, marchou com ellas e algumas for- 
ças por Thomar, cujo castello continuou porem 
a conservar-se fechado. 

Deixando D. João de Gastelia em marcha so- 
bre Coimbra , voltemos a Lisboa, dando-lhe tempo 
a que chegue, para sabermos o que se lera pas- 
sado entretanto. 

Ordenara o mestre qne João Fernandes Moreira 
sahisse com alguma gente de cavallo e de pé a 
fazer uma investida contra o acampamento doe 
castelhanos no Lumiar, no propósito de os attrair 
até perto da cidade. Os castelhanos prepararam-se 
para o ataque, e enoontraram-se com os portu- 
gueses no sitio de Alvalade (hoje Campo Grande); 
travando- se combate, foram presos e mortos al- 
guns portugueses, sendo do numero d'este8 úl- 
timos o próprio João Fernandes Moreira. Seguindo 
o seu plano, o mestre collocara-se n'uma emi- 
nência próxima da egreja de S. Lazaro, com Nono 
Alvares e umas trezentas lanças, a fim de pode- 
rem cahir sobre os castelhanos, quando elles, 
attraidos pelos portugueses, se aproximassem 
da cidade. Yictoriosos, os castelhanos vinham 
effectivamente em perseguição dos portoguezes 
fugitivos, mas, quando viram o mestre de Aviz 
e a sua gente, retrocederam para o acampa- 
mento. 

O mestre de Avis ficou desesperado não fó 
pelo mallogro doeste plano, mas lambem porque 
já ia para quinze dias que os castelhanos esta- 
vam no Lumiar sem haverem sofTrido o menor 
damoo. Resolveu-se então que se reunissem gen- 
tes, e fossem dar«lhes combate. Foram, defeito, 
e acharam os castelhanos desprevenidos ao ponto 
de terem que fugir a toda a pressa, uns para 
Alemquer, outros para Torres Vedras, deixando 
no acampamento as panellas ao fogo e a carne 
nos espetos, pois que estavam cosinbando o 
rancbo. 

Entretanto, o rei de Gastelia marchava para 
Coimbra. 
Cumpre, porem, notar um acontecimento' oc- 



/ 



ãáatoria ãii Portqgttl 



026 



corrido entre a relnéB8)i àu doas cartes de D. 
Leooor, ao irmào e ao tio, e a marcha do rei 
caatelbano. Um ligeirot iocidente lançara, D'eéae 
GomenoB.* a discórdia entre a sogra e o genro. 
Tendo vagado em Casteila o iogar de rabbi-mór 
dos jndens, D. Leonor pedia-o para o seu prote* 
gido D. Judas, o antigo tbesoureiro; mas D. João i 
de Castdla, em ves de despachar o protegido da 
sogra, attendeu o pedido de D. Beatriz, que se 
interessava por David Negro. D. Leonor ficou 
desesperada oom esta desoonsideraçfto, porque 
elh bastou a pôr-lhe a descoberto o erro em que 
tinha cabido renunciando ao poder. Conferen- 
ciando com os seus apaniguados, e pensando 
«oícamente em vingar-se do genro, aconselhou* 
lhes a que viessem todos para o mestre, e que 
grande magna tinha ella de não po>ler faser ou- 
tro tanto. Immediatamente escreveu aos alcaides 
dos castelios que tinham voz pelo mestre de Aviz, 
disendo-lhes que se não rendessem ao rei de Cas- 
telia, ainda mesmo que a vissem acompanbalo, 
porque outro remédio não tinha. 

O que é certo é que durante a marcha sobre 
Coimbra D. Leonor Telles já ia mais como pri- 
sioneira do que como sogra do rei de Castelia. 
Em Torres Novas, por. exemplo, onde pernoita- 
ram no primeiro dia, D. Leonor Telles ficou guar- 
dada durante a noite por soldados castelhanos . . . 
unicamente para sua segurança^ como lhe disse 
D. João de Casteila. 

Chegado a Coimbra, D. João acampou na 
margem esquerda do Mondego, encarregando o 
conde de Mayorga de eniaiioiar negociações com 
o conde de Neiva para render-se. O irmão de D. 
Leonor Telles resistiu a todos os offerecimeotos 
e a todas as ameaças. Travaram*se então algu* 
mas escaramuças entre os castelhanos e os da 
cidade. 

D. Leonor Telles não fazia agora senão pensar 
em vingar<^se do genro, como outr ora em vin* 
gar-se do mestre de Âviz. Para instrumento de 
sua vingança, escolheu a sua dama D. Beatriz 
de Castro» filha do conde D. Álvaro Pires de 
Castro, a qual andava de amores com Affooso 
Henriques, irmão do conde de Trastamara D. 
Pedro, primo do rei de Casteila. 

Industriada por D. Leooor Telles, D. Beatriz 
pediu 80 enamorado Affonso Henriques qne pro- 
curasse influir 00 animo do irmão para que D. 



Leonor reconquistasse o seu antigo poddr e bon* 
ra, e que a melhor maneira de o conseguir seria 
fazer com que ella se recolhesse dentro da ci- 
dade, onde teria a protecção do conde de Neiva. 
«E ainda vos digo mais, accrescentou D. Beatriz, 
que se vosso irmão podesse fazer isto, e ella 
fosse posta em seu livre poder, que não era ma- 
ravilha depois casar com elle, e haverem elles 
ambos o regimento d'esta terra, porque ella tem 
taes irmãos, e tantos parentes e criados, que era 
por força de se assenhorear do reino, e haver o 
regimento d 'elle, como antes tinha. » 

D. Leonor Telles, fallando com o genro, mos- 
trava que não desesperava de convencer o ir- 
mão a render-Fe, caso a deixasse fallar oom elle. 

D. João de Casteila, apesar de viver em des- 
confiança com sua sogra, consentiu que ella 
fosse fallar com o conde de Neiva, tomando, po* 
rem, certas precauções para o acto da entre- 
vista. 

O que D. Leonor Telles tinha em vista, fal- 
lando com o irmão^ «não era communicar-lbe o 
segredo da conspiração, diz Pinheiro Chagas, 
mas unicamente assegurar- se de que poderia 
contar com elle para qualquer successo. » O re- 
sultado da entrevista foi o melhor que D. Leo* 
nor podia esperar, porque o conde D. Gonçalo 
continuou a mostrar-se francamente hostil ao 
rei de Casteila, ao qual ò conde convidou ironi- 
camoíite para ir jantar com elle, ainda mesmo 
que se fizesse acompanhar de cem lanças. 

Segura da disposição de anime de seu irmão, 
D. Leonor Telles disse a D. Pedro de Trastamara 
que se entendesse com o conde de Neiva sobre 
a reaJisação do plano, que ella em segredo ali- 
mentava, de evadir-se para o interior da cidade, 
e que altegasse que elle D. Pedro a seguiria, por 
achar-se desgostoso com as preferencias que D. 
Joào 1 de Casteila, seu primo, estava concedendo 
a outros fidalgos. Assim fez o castelhano. Mas o 
que D. Pedro occultou ao conde D. Gonçalo foi a 
segunda parte do plano: que uma vez dentro das 
muralhas de Coimbra, D. Leonor Telles despo- 
saria o conde de Trastamara, o qual mataria o rei 
de Casteila, proclamando-se ambos reis de Por- 
tugal. 

Ficara, pois, assente tudo quanto o conde 
de Trastamara combinara com o conde de Neiva 
por intervenção de um frade franciscano: Que 



3B6 



HijMAviai d» Boftftsai 



certa noite tocaria um sino a rebate dentro da 
cidade, que o conde de Neiva sahiria com a sua 
gente, que o conde deTrastainára, fazendo-se 
acompanhar por D. Leonor, simularia querer 
saiiir-lbe ao encontro com a sua bosle, que o 
conde de Neiva 6ngeria fugir-lhe, e que o conde 
de Trastamara mostraria perseguil-o até dentro 
das muralhas, e, que, finalmente, fechariam as 
portas^ estando salva D. Leonor Telles. 

Receiando pela vida de David Negro e de sua 
família» no projectado conflicto, o frade francis- 
cano, que era seu particular amigo, avisou-o do 
segredo. O judeu pediu mais pormenores; não 
lb'o8 soube dar o frade. Mas isso mesmo que 
soube, e que não era tudo, foi David Negro con- 
tai-o ao rei de Gastelia, que ficou sobremodo 
surprehendido, especialmente por se achar en- 
volvido na conspiração o conde D. Pedro, seu 
primo co-irmão. O rei, ouvindo a extranha con- 
fidencia, apressou-se a communical-a à raioba, 
a qual não se mostrou tão assombrada como 
seu esposo. «Eu vos digo, snr. — disse ella ao 
rei — que sempre me receei d'esse homem, pela 
grande affeição, que Ibe vi ter com minba mãe, 
posto que nenhuma cousa vos dissesse.» Do que 
se vé, que D. Beatriz, com a sua fina intuição 
de muiber, conhecia muito melhor sua mãe, do 
que D. João i. 

Urgia tomar providencias para mallograr a 
conspiração, e o rsi de Gastelia tratou logo de 
mandar chamar o conde de Mayorga para esse 
fim. Resolveram os dois que o conde estivesse 
de vigia com a sua gente^ e que logo que o conde 
D. Pedro sabisse còm a sua, se desse voz de 
traição^ traição pelo toMe D. Pedro, sendo 
presfos os mais conspiradores que podesse ser, 
'OU mortos, se resistissem. Foi dada ordem para 
ser reforçada a guarda de D. Leonor Telles. O 
conde D. Pedro devia entrar n^essa noite de 
guarda ao pa^o, mas como tardasse em chegar, 
e a guarda que elle devia render estivesse im« 
paciente de recolher-se, o conde de Mayorga disse 
ao rei que não era conveniente que o paço fi- 
casse desamparado, e que portanto lhe mandaria 
cincoenta lanças- das suas. Assim se fez. Um dos 
escudeiros do conde de Trastamara, que estava 
na confidencia da conspiração, vendo todos estes 
extranhos preparativos, correu a avisar o conde 
de que o segredo tinha sido descoberto. D, Pe- 



dro ficou aesustadissimo, e tahto elle como seus 
irmãos, e alguns dos escudeiros conspiradores, 
com suas mulheres, trataram de fugir. Os fugi- 
tivos atravessaram a ponte, e o conde de Tras- 
tamara fallou rapidamente com o de Neira, a 
quem contou o que se tinha passado. D. Gon- 
çalo aconselhou-o a que fugisse para o arrabal- 
de; D. Pedro fugiu, com os seus, para Santarém. 

Eotretanto, o rei de Gastelia esperava armado 
ua sua cambra o aiguai de rebate. Mas como jã 
lhe parecesse que tardava, mandou procurar o 
conde D. Pedro, e soube que tiòha fugido. Co- 
nheceu então que também o seu segredo havia 
sido descoberto. Bacolerisado, e sabendo que o 
conde fugira para o arrabalde, mandou-ibe no 
encalçQ mil lanças. O conde D. Pedro soubera 
das ordens que o rei tinha dado a seu respeito 
e fugira com a maior pressa para o Porto, onde 
contou o acontecido, para que lhe dessem gua- 
rida. Os do Porto suspeitaram a principio que 
fosse estratagema castelhano, e a primeira idéa 
que tiveram foi matal-o. Mas depois acharam 
que seria melhor vigial-o, e mandar contar tudo 
ao mestre de Âviz. 

N'e9Ba mesma noite mandou D. Joio de Gas- 
telia prender o judeu D. Judas, grande privado 
de D. Leonor Telles, e a sua camareira D. Maria 
Pires. Longa, longuíssima pareceu essa noite ao 
rei, que estava ancioso de apurar a verdade. 
Logo pela manhã, depois de ter ouvido missa 
muito cedo, mandou trazer á sua camará o judeu 
e a camareira. Apenas estavam presentes, alem 
do rei, a rainha D. Beatriz, o infante de Navarra, 
o delator David Negro, e um escrivão que havia 
de levantar o respectivo auto. Chegados que fo- 
ram, ordenou o rei que os despissem, e pozeesem 
a tormento. D. Judas apressou-se a declarar que 
não era preciso tanto, porque immediatamente 
revelaria a verdade toda. R contou, de feito, todo 
o plano da conspiração. A camareira fez iguaes 
declarações. O escrivão reduziu tudo a auto. En- 
tão perguntou o rei ao judeu e ã camareira 
se ratificariam na presença de D. Leonor Tel- 
les quanto disseram. Responderam aíBrmatíva* 
mente. Foi chamada D. Leonor, a qual veio de 
braço, até á porta da cam&ra real, com o caval- 
leiro encarregado da sua guardai 

D. Leonor, não obstante vir sob custodia, e sa- 
ber o que se passava, parecia insensível â imuN* 



J 



mstCMâa de Poptt^;al 



81^7 



néncia do perigo. Mostra va-se tranquilla, sereoa. 
Qoaiido deu com os olhos no judeu deounciante, 
disse-lhe sobraoceifa e desdenhosamente: «Aqui 
estaes vós, D. David ? Vós ibe fazeis aqui vir?» D. 
João de Casteila foi quem respondeu: « Mais razão 
ó que seja elLe aqui, que me deu vida, que quem 
rae tinha urdida a morle.» E, dieeodoisto, orde- 
nou o rei ao escrivão que lesse o auto. Quando 
D. Leonor ouviu o que D. Judas deposera, vol- 
tOtt*se para elle e exclamou: «6 porro, como trai- 
iâor, disseste aquilio de mim?» — «Disse, respon- 
deu D. Judas, e digo que é verdade, e assim passou 
de feito.» — D. Leonor contestou: «Mentes como 
perro traidor, e se assim passou de feito, tu m'o 
aconselhaste. » £ apeia odo-se inteiramente do pe- 
destal da altivez magestosa em que se collocãra 
a principio, D. Leonor Telles desceu até à lin- 
guagem da collareja que se vé por terra. 

. O caracter de D. Leonor sempre foi sujeito a 
estas profundas desigualdades. Subia facilmente 
para descer rapidamente. Pois não é certo que 
ainda mesmo quando manejava habilmente os 
seus grandes recursos intellectuaes, quaúdo pu- 
nha em acção a sua grande coragem e a sua 
grande altivez, havia n'ella, como por de traz 
d'uma tela transparente, o que quer que fosse 
de rameira, de ordinário, de vil, que se perce- 
bia daram^ite? ! Sempre a vimos, sempre ate- 
mos visto assim. 

D. Beatriz houve-se em todo «este negocio com 
nobre dignidade* Atalhando a altercação de sua 
jBãe com* D. Judas, disse voltando-se para ella: 
«Ó mãe^ senhora, em um í^nno me quizeras ver 
viuva; orpbã, e desamparada!» Éimpossivel ser 
mais eloquente nem mais digna em menos pala- 
vras. A sua accusaçlo tem o tom doce do quei- 
xume; sente-^e a fiJIia nas palavras da rainha. 

D. João de Casteila interveio então: «Ora aqui 
não cumpre mais razões. Eu matar-vos não 
quero por amor de vossa filha, posto que m'o 
vós. bem merecido tenhaes, nem me cumpre an- 
dardes mais em minha companhia, nem eu na 
vossa, mas mandar-vos-hei para um honrado 
mosteiro de Casteila, onde jà estiveram rainhas 
viuvas, e filhas de reis, e abi vos mandarei dar 
mui honradamenie mantimento, porque bem po»- 
saes viver.» 

D. Leonor Telles respondeu^lhe n'um tom 
meíado de' desdém e de regalia: «Isso fazei vós 



a alguma irmã, se tiverdes, e a me^ei por freira 
n'ufn mosteiro, porque vós a mim não m'o ha- 
veis de fazer, nem vol o o olho vérà. Em ver- 
dade, este é um bom galardão, que vós me dais ! 
Deixei o regimento que no reino tinha, efiz-vos 
haver a maior parte de Portugal, e agora, a dito 
de um perro, que com medo dirá que Deus não 
é Deus, as8acaes*me que falsei, por me não dar- 
des as cousas que me promettestes e sobre que 
commungastes comigo o corpo de Deus em San- 
tarém. Dígo^vos que, quanto a isto, se pôde 
bem dizer que quem o seu cão quer matar, raiva 
Ibe põe o tiome. » 

D. João de Casteila não dispendeu mais pala- 
vras. Ordenou que a levassem d*ali, debaixo de 
prisão, como tinha vindo. £ como David Negro 
instasse muito com o mònarcha para que per- 
doasse a D. Judas, concedeu finalmente essa 
graça, como premio da denuncia. 

Depois levou a oooseibo a sua intenção quanto 
ao destino de D. Leonor Telles. Dividiram-se as 
opiniões dos conselheiros. Diziam uns que a 
mandasse, de feito, recolher em um convento 
de Casteila, porque d'outro modo D. Leonor se- 
ria um estorvo á conquista de Portugal, quando 
mais não fosse, aconselhando os alcaides ã que 
não entregassem os castellos. Outros eram de 
opinião que el-rei não devia fazer isso, porque 
D. Leonor cedera n-elie a regência do reino, e 
ihe dera a cidade de Santarém, e outros castel- 
los, ^f especialmente, que não o devia fazer, 
pelo mau effeito moral e politico que esse acto 
oaturalmente produsiria. 

D. João de Casteila decidiu-se pela sua pri- 
meira idéa. Ordenou que Diogo Lopes de Estu- 
nhiga acompanhasse D. Leonor a Casteila. Desis- 
tindo de tomar Coimbra, em vista da resistência 
da povoação^ D. João retirou para Santarém, e 
foi d'ahi Qja^ D. Leonor Telles, antes de partir, 
escreveu a Martim Annes de Barbuda e a Gonçalo 
Eannres, de Castello de Vide, para que a viessem 
roubar ao caminho. Mas está ultima aventura 
mallagrou-se, porque as cartas apenas chegaram 
ao seu destino quando ella já tinha passado a 
fronteira. 

Seguindo para o norte, pela fronteira oriental 
de Portugal, vendo levantap*se a seu lida as 
montanhas alpestres da Beira e de Traz-os- 
Montes, encontrando-se com. um rio portuguez, 



2SiB 



Historia de Portugal 



o Dctaro, aqueile mesmo qoe ella OQtr'ora atra- 
▼esaára quando D. Pernaado a arrancava aos po- 
pulares de Lisboa para a ir desposar d 'um arra- 
balde do Porto, Yendo de um lado a terra onde 
(6ra rainha, e do outro a terra onde ia ser ca- 
pCiva, presentindo ao longe o convento de Torde- 
sillas, perto de Valíadolid, um extranho combate 
de lagrimas de angustia e de labaredas de ódio 
devia dilacerar o coração de D. Leonor Telles. 

Foi doeste modo que desceu o paono sobre o 
grande drama que ella fora chamada a represen- 
tar na scena politica de Portugal. 

Concluindo o seu bello romance, Arrkas par 
faro de Hespanha, escrevia Alexandre Hercula- 
no: «O casamento de D. Leonor Telles, e as 
consequências d'elle, são o primeiro acto do 
drama terrível da lUiada sceUrum da sua vida 
politica. Foi este primeiro acto que nós procu- 
rámos dispor na tela do romance histórico. Todo 
o drama daria, n'essa forma da arte, uma terrí- 
vel chronica. Desde esta época, até ser arrastada 
em ferros para Castella por aquelies mesmos que 
chamara a assolar o seu pait, a Lucrécia Borgia 
portugueza é, em noesa historia, uma espécie de 
phantasma diabólico, que apparece onde quer 
que haja um feito de traições, de sangue ou d*a- 
troeidade. Que um dia algum homem de génio 
taça o que nós em parte tentamos. Bnt&o Portu* 
gal teri um romance igual a Ivankoé ou a Aòíre- 
Dame, Com Leonor Telles o trabalho do artista 
será metade: ó resto deixou-o ella feito.» ^ 

D. Joio de Castella náo se entreteve ^a philo- 
sophar, a propósito de sua sogra, quando a viu 
peias oostas, sobre os imprevistos contrastes da 
sorte. O que tratou foi de pôr a tormento a ca- 
mareira Maria Pires para que ella revelasse onde 
D. Leonor Telles tinha escondido os seus thesou- 
ros. ftHTortsada com a presença do ecúleo, a ca- 
mareira dedarou que as jóias da viuva de D, 
Fernando estavam guardadas em casa de um 
homem bom de Santarém. 

Comprehendendo que ellas eram perfeitamente 
dispensáveis a sua sogra n^um convento, D. Jofto 
de Castella ,gnar4ott*as para si, nfto obstante a 
differ^ça dos sexos. 

Os habitantes de Aleraquer, logo que tiveram 
notida da prisão de D. Leonor Telles, enviaram 

> Pamunma» voi. vi, pag. 86. 



commissarios áo mestre de Avis oflereoendo- 
Ihe a posse d'aquella povoação, sob dansult 
de que a restituiria a D. Leonor Telles, bem 
como as rendas que tivesse recebido, caso algum 
dia D. Leonor rebouvesse a liberdade, e a sua 
antiga posição. O mestre de Aviz mostrou o ma- 
ximo respeito pela viuva de sen irmão, e pro* 
metteu, caso ella voltasse a Portugal, cumprir 
pontualmente as condicções d'esse pacto. 

D. João de Castella, vendo-se finalmente des- 
embaraçado de D. Leonor Telles, fixod todas as 
vistas no mestre de Avis, que importava pôr 
também fora de combate. 

Resolveu, portanto, levantar o arraial, e cami- 
nhar para o sul. Esteve em Bombarral quatro 
dias, e d ahi seguiu para a Arruda. Grande nu- 
mero de pessoas d'esta povoação, quando soube- 
ram queelle se aproximava, metteram-sen^uma 
gruta, a que os castelhanos largaram fogo lego 
que chegaram e souberam que estavam ali es- 
condidas. Foi também na Arruda que foram eih 
contrados dois homens armados na camará onde 
o rei de Castella havia de pernoitar. O rei não 
conseguiu averiguar se elles se tinham escon- 
dido por medo ou por traição, mas na duvida 
mandou-os enforcar. 

Não descascava D. João. Ao mesmo tempo que 
reunia conselho na Arruda piara assentar um 
plano de operações militares, escrevia ao almi- 
rante Tovar para que, logo que a esquadra cas- 
telhana chegasse ao Tejo, voltasse elle aCastelb, 
e, juntando as forças que podesse 'recrutar ás do 
conde de Niebla e ás do mestre de Alcântara, 
entrasse em PiK^togal peio Alemtejo e quê, de 
combinação com as forças do prior do Hospital, 
viesse tomando e arrasando todas as povoações 
trastagaoas que ainda se não tivessem rendido, 
devendo este novo exercito, depois de ter cum- 
prido as ordens acima indicadas, jnntar-se ao 
exercito que acompanhava o rei. * , 

No conselho, como sempre acontecia, debate* 
ram-se opiniões contrarias. Dlsiam uns que 
D. João não devia vir pôr cerco a Lisboa, não só 
porque já havia peste na cidade, mas tamben 
porque não conseguiria fechar o cerco, visto qae 
a cidade podia oonmunicar com o mar, peto 
menos emquanto a frota castelhana não chegas^ 
se. Mas que, ainda mesmo depois da chegada 
da frota, teceiavam muito do resultado de cerco, 



/ 



Historia de Portogal 



8^0 



por íbso que não traziam os engenhos apropria- 
dos a este género de guerra, e porque dentro 
das muralhas havia grande quantidade de gente. 
Opinavam outros que, logo que a esquadra che- 
gasse, devia o rei sitiar Lisboa, porque, sendo 
Lisboa a cidade principal do reino, tomada Lis- 
boa, Portugal inteiro se daria por vencido. 

Segundo Lopes de Âyaia, o rei inclinava-se ao 
primeiro alvitre. Mas, escreve o sr. Sandoval, 
fosse por íraquesa ou porque o convenceram 
logo as rasões allegadas pelos segundos, na 
esperança de que cercada por elle a praga e 
bloqueada pela esquadra que havia mandado 
apressar» se renderia logo, resolveu esperaUa 
nos acampamentos de Arruda, Óbidos, Bombar- 
ral e Torres- Vedras, para marchar a pôr aper- 
tado cerco a Lisboa mal que a esquadra che- 
gasse. 

Entretanto, o mestre de Âviz tratava activa- 
mente, de aperceber-se para a guerra, e, ao 
mesmo passo que recebia adhesões de vários 
pontos do reino, recebia também pedidos de 
soccorro contra as devastações que os caste- 
lhanos faziam especialmente na provinda do 
Alemtejo, quando passavam em direcção ao 
acampamento dos seus. O irmão de D. Fernando 
pensou logo em nomear fronteiro d'£ntre-Tejo e 
Guadiana um hábil e valeroso general, defe- 
rindo ao requerimento dos povos d'aquella pro- 
víncia. Lémbrou-se primeiro do conde D. Álvaro 
Peres de Castro, mas poz de parte esta idéa, 
para fazer recahir a sua escolha no esforçado 
Nuno Alvares Pereira. Quem impugnou esta 
nomeação foi o dr. João das Regras, allegando 
que o escolhido devera ser um homem de ma- 
dura aucloridade, e que, entre outras mais 
rasões, Nuno trazia os seus irmãos com os ini- 
migos. Esta insinuação de desconfiança não 
ensombrou nem acobardou o espirito do mestre 
de Aviz, que perfeitamente sabia que dois ho- 
mens da mesma estatura moral raras vezes se 
encaram sem emulação. De feito, Nuno Alvares 
foi escolhido, e desde logo tratou de armar os 
melhores escudeiros que o deviam acompanhar, 
muitos dos quaes eram de Évora, Beja, e dç 
outras terras do Alèmtejp. 

«De- vinte e dois annos de idade, diz o padre 
Domingos Teixeira, occupou D. Nuno Alvares 
Pei^mra o posto de fronteiro-mór do Alemtejo, 
n yoL. — 42. 



honra suprema na milicia d^aquelles tempos^ 
que hoje corresponde a capitão general dos 
execoilos; occupação pequena a tão grandes es- 
pirites. Vários juizos formou a inveja dos gran- 
des, vendo em tão verdes annos cargo tamanho, 
mas soube tão bem desempenhar a opinião, e a 
pessoa, que não pareceu demérito a idade, ou 
as cans falta, mostrando-se em todas as em- 
prezas igualmente soldado, e ministro. Deixou 
ã posteridade exemplo na justiça, no valor ému-* 
los.» 

Munido de amplos poderes para recompensar 
e punir, que lhe conferira o mestre de Aviz, 
partira Nuno Alvares para o seu destino, com a 
sua hoste que não excedia duzentas lanças, 
entrando n'este. numero os quarenta cavalleiros 
escolhidos. Segundo as tendências do seu espi-* 
rito, Nuno Alvares procurara na religião esti- 
mulo para a sua coragem. Mandara fazer uma 
bandeira, que o seu biographo, jã citado, des^* 
creve por estas mesmas palavras: «Em campo 
branco fez pintar com primoroso artificio uma 
cruz vermelha no alto, debaixo da haste direita 
outra de inferior grandeza com a imagem de 
Ghristo pendente entre a Senhora, e o evange- 
lista S. João: no lado esquerdo em correspon- 
dência outra Senhora com o Menino Jesus nos 
braços: no fundo respondiam ás pinturas de 
cima, de uma parte S. Jorge, da outra S. 
Thiago Maior, aromados ambos, de joelhos e as 
mãos levantadas: nos quatro cantos quatro es- 
cudos das armas dos Pereiras.» Assim prepa- 
rado com estes auxilies espirituaes, atravessou 
Nuno Alvares Pereira o Tejo, e dirigiu-se sobre 
Setúbal, cujos habitantes, não tendo «inda to- 
mado uma opinião politica difinitiva, não se 
tendo pronunciado^ como boje dizemos, recu- 
saram abrir-lbe as portas da povoação. Teve 
D. Nuno de acampar no arrabalde, e ahi, pen- 
sando na responsabilidade da sua commis- 
são, achou prudente experimentar o valor da 
hoste. Allegando que os castelhanos podiam vir 
ao longo da ribeira do Tejo, durante a noite, e 
surprehendel-os, mandou postar aentinellas na 
distancia de uma légua, isto é, junto ao castello 
de Palmella. Ao mesmo tempo recommendavia 
em segredo a Lourenço Fernandes, de Beja, 
que alta noite desse alarme de que os castelha- 
nos se aproximavam. Com effeito, a comedia 



' I 



330 



Historia de Portugal 



foi fielmente representada. Lourenço Fernandes 
foi chamar D. Nuno, que mandou logo tocar a 
reunir. O que é certo é que nâo faltou um só 
soldado. Armados rapidamente, e dispostos em 
ordem de batalha, conduziu-os D. Nuno para o 
sitio indicado por Lourenço Fernandes. Â atti- 
tude da tropa era exceliente, e Nuno ficou então 
tranquillo, reconhecendo que podia contar com 
os seus soldados. É escusado dizer que os cas- 
telhanos não áppareceram. Lourenço Fernandes 
desculpou-se dizendo que os fogos que tinha 
visto, e que lhe pareceram do inimigo, eram de 
uns almocreves, como depois que o sol nasceu 
todos poderam verificar. 

Depois de ter exhortado a sua hoste, depois 
de ter feito varias nomeações, como alferes da 
bandeira, ouvidor, thesoureiro, capellães, etc, 
dirigiu-se Nuno Alvares a Montemor -o-Novo, e 
d'aM a Évora. 

Vamos agora seguir a narrativa do sr. Xime- 
nez de Sandoval, porque tem o especial mere- 
cimento de condensar com precisão e claresa as 
noticias dadas por Fernam Lopes, e por outros 
chronistas dignos de credito. 

«Tão diligente como intrépido, o joven Nuno 
Alvares Pereira começou a percorrer o Âlemtejo, 
ameaçando as povoações que pretendiam mau- 
ter-se neutraes na contenda ou as que estavam 
por D. Beatriz, apoderando-se de algumas e ex- 
citando todas a levantar-se contra 03 castelha- 
nos. Passou de Almada a Setúbal, e d*ahi a 
Montemór-o-Novo e Évora, onde decidiu estabe- 
lecer a sua praça de armas ou centro de opera- 
ções; dirigiu emissários e proclamações desde 
ali, chamando a unir-se quantos homens arma- 
.dos quizessem combater pela pátria; e não obs* 
tante serem vagarosos e poucos os que acudiam 
a incorporar- se, quiz acommetter para logo Ex- 
tremoz e Elvas, e até as circumvisinhanças de 
Badajoz, não só para caUsar damno ao inimigo, 
mas também desejoso de conseguir qualquer 
vantagem para adquirir proselytos no paiz. 

«O mestre recem-nomeado da ordem de Al- 
cântara, Diogo Gomes (ou Martins) Barroso, que 
tinha ficado em Badajoz com o governo e vigi- 
lância da fronteira, considerou necessário atalhar 
immediatamente as correrias de Pereira; e, uniu- 
do-se ao conde de Niebla, ao almirante Tovar e 
outros cavalleiros da Andaluzia, penetrou no 



território portuguez com um corpo que se avalia 
em mil cavalios e alguns peões. ^ 

«Eis o que deu occasião ao primeiro e for- 
mal encontro da guerra, a que os portuguezes 
chamam batalha de Atoleiros; e como não só 
por essa circumstancia, mas lambem pelo seu 
fatal êxito, merece ser bem conhecida, daremos 
os pormenores de Fernam Lopes e dos seus com- 
mentadores, paracendo-me menos que sufficien- 
tes as poucas palavrss de Ayala, que somente diz 
que — «pela má ordenança que tiveram foram 
desbaratados, e morreu o mestre de Alcântara; 
mas os outros reuniram-se, e os de Portugal não 
ousaram acommettel-os mais, e assim acabou a 
peleja.»— Justifica, por outra parte, esta expla- 
nação, a reconhecida influencia que teve sempre 
na moral dos exércitos belligerantes o primeiro 
feito de armas e a attitude das respectivas tro- 
pas, que costuma revelar o que de umas e outras 
deve esperar-se no futuro. 

«Nuno Alvares Pereira, tendo conhecimento 
da entrada dos castelhanos, e de que, havendo» 
checado ao Grato, marchavam sobre a vllla de 
Fronteira, resolveu sahir-lhes ao encontro desde 
Évora com a gente que tinha já reunida, de 300 
a 400 cavalios, e 1000 infantes, entre besteiros 
e peões, não obstante considerar o inimigo su- 
perior em numero e qualidade, pois que por 
Gasteila militavam muitos fidalgos castelhanos, 
e alguns de Portugal, como seu próprio irmão 
Pedro Alvares Pereira. Oppunham-se os seus 

1 Não se achando então o chronista Ayala com o 
rei de Gasteila, guiar-se-ia sem duvida por informa- 
ções que lhe deram para consignar estes aconteci- 
mentos, e por esta rasão ha no seu livro confusão e 
erros, taes como o antecipar a acção de Atoleiros; 
o padre Marianna seguiu-o fielmente, e o moderno 
historiador Lafuente nem siquer menciona este im- 
portante encontro. Ghama a attenção que o almi- 
rante Tovar se encontrasse ali, e não á frente da 
esquadra; mas, talvez, para não esperar que se alis- 
tasse, iria por terra incorporar-se ao exercito, pois 
que, ainda que pela Chronica podesse inferir-se que 
esse corpo era destacado desde Santarém, dou maior 
credito ao que diz Torres y Tapia na da ordem de 
Alcântara, — isto é, que saiu de Badajoz. O com- 
mando superior dão-n'o uns ao conde de Niebla 
D. João Aífonso de Gusmão, e outros ao mestre de 
Alcântara. 

(Nota do sr. Sandoval J 



/ 



SEíatoarla de F<:nrtiigál 



331 



companheiros, qualificando a empreza de teme- 
rária, mas elle logrou arrastatos até â distancia 
de quatro léguas, fazendo-os acampar n*uma 
paragem denominada Atoleiros y a pouco mais 
de meia légua de Fronteira. Vinham n'esta di- 
recção os castelhanos, os quaes modificaram a 
marcha quando souberam da proximidade do 
inimigo, e enviaram adeante um parlamentario 
para intimal-o a render-se; mas, despedido com 
menospreço, preparou-se a castigal-o pelas ar- 
mas. 

«Ordenoa Pereira a sua gente pondona van- 
guarda e rectaguarda os besteiros, e mandando 
desmontar todos os que iam a cavallo, segundo 
entào se usava (diz a Chronica portugueza), em- 
punhou a sua bandeira e orou um momento de 
joelhos ante as imagens de Nossa Senhora e de 
S. Jorge, que n*ella levava pintadas; ergueu-se, 
desceu o capacete e, tomando a lança, exhortou 
com energia os soldados, aconselhando- os a 
esperar com firmesa o ataque. Os castelhanos, 
aproximando-se, desmontaram também para 
combater a pé, mas observando que os portu- 
guezes se tinham apeiado, pareceu-lhes oppor- 
tuno aproveitar a superioridade da sua cavallaria 
e cavalgaram outra vez, cor^fiados em des- 
baratados á primeira investida; acommetteram, 
pois, de lança em riste, ao grito de Castella 
e S. Thiago; e respondendo os contrários com 
o de Portugal e S, Jorge, apresentaram lhes 
as suas lanças, e resistiram immoveis â carga. 
Gahiram mortos ou feridos muitos cavallos pelas 
lançadas e settas que por cima dos homens de 
armas despediam os besteiros; com o que, des- 
concertando-W ou perturbando-se os da van- 
guarda, apeiaram-ise alguns, communicando a 
desordem aos outros, succedendo o mesmo 
quando o ataque se repetiu, de modo que desis- 
tiram, deixando entre ambos mais de cem ho- 
mens mortos. 

«Vendo então Nuno Alvares Pereira que Deus 
o ajudava, e que os inimigos desfalleciam, aco- 
melteu-06 com vigoroso impulso, sem lhes dar 
tempo a refazerem-se; e ainda que muitos qui- 
zeram resistir, a desordem augraentou, lavrou 
o pânico instantaneamente, e fugiram, uns para 
o Crato, outros para Monforte e outras povoa- 
ções que eram por Castella; ficando mortos sobre 
o campo de batalha o mestre de Alcântara, o 1 



claveiro da mesma ordem, o adeantado de Anda- 
lusia e alguns cavalleiros portuguezes que se- 
guiam a causa de D. Beatriz; sendo insignificante 
a perda dos vencedores, que, perseguindo os fu- 
gitivos durante uma légua, foram pernoitar a 
Fronteira. * 

«Immediatamente se apresentou Pereira em 
Monforte, que não pôde tomar, falto de meios de 
ataque, e d^ali passou a Arronches, Alegrete é 
outras povoações,' que se lhe entregaram; mas 
teve que interromper as suas operações por or- 
dem que recebeu para trasladar-se a Coimbra e 
Porto, com o fim de reforçar as naus que se 
aprestavam em soccorro de Lisboa. 

«Desgostoso ou impaciente devia estar D. Joãof 
nos seus acampamentos da Arruda e Bombarral 
vendo transcorrer todo o mez de março e o de 
abril sem que chegasse a esquadra, baldadas 
suas negociações e tentativas para attrair o 
mestre de Aviz, e sem resultado proveitoso o 
bloqueio e escaramuças de Lisl)oa por Cabeça de 
Vacca,— quando recebeu a inesperada noticia da 
derrota de Atoleiros; é de suppôr que se lhe au- 
gmentaria então a impaciência de conquistar a 
capital antes que abandonassem a sua causa as 
muitas villas e castellos que se mantinham fieis, ' 
particularmente nas províncias de Entre-Douro 
e Minho e de Traz-os-Montes, sustentados por 
cavalleiros portuguezes; e por este fundado mo- 

1 Occorreu esta acção de Atoleiros, segfundo Per- 
nani Lopes, no mez de abril, quarta feira de tre- 
vas, isto é, quarta feira da semana santa; e acerca 
do logar em que se deu, dizem uns que foi ao oeste 
de Fronteira, e outros ao sul, entre essa villa e Ex- 
tremoz, que é o que me parece certo. Nos Anales 
de Sevilha por Zuíliga nomeam-se os cavalleiros an- 
daluzes que morreram ali, e a Chronica citada da 
ordem de Alcântara, além do mestre e do claveiro, 
que duvida se era Martim Nieto ou Pedro Affonso 
de Sottomayor, nomeia Gonçalo Daza e JoSo de 
Lerma, accrescentando que os seus cadáveres foram 
levados a enterrar na egreja de Santa Maria' de Al- 
mocovara, no castello de Alcântara. Ao Mirarem- 
se os castelhanos, refere Fernam -Lopes que dizendo 
alguém ao almirante Tovar, que ia ferido, que tor- 
nasse á batalha, respondera: «homem morto não 
cobra soldo, ande a bandeira e vamo-nos, que de- 
pois que homem é uma vez desbaratado, mal torna 
outra vez a talho.» 

(Nota do sr, Sandoval.) 



832 



HIstDria dA Poortngal 



tivo determíBoa aproximar-se mais de Lisboa» 
trastadando-se no dia 6 de maio para o Lomiar, 
onde se encontrava a vanguarda, e alojando as 
snas tropas nas circumvisinhanças. Com a pro- 
ximidade de maiores forças repetíram-se, como 
era natural, as escaramuças entre as avançadas 
e os que sabiam da praça, succedendo em uma 
d'eiias subir os castelhanos ao cerro onde agora 
está Nossa Senhora do Monte e chegar até á 
porta de Santo Agostinho, que se chamou depois 
postigo da Graça, deixando ahi prisioneiro o ca- 
pilHo Ramirez de Arellaoo. 

«Habilitada completamente a esquadrilha por- 
tuguesa, levantou ferro a 14 de maio sob o com- 
mando de Gonçalo Rodrigues de Sousa, com 
rumo ao Porto, para receber ali reforço de gente 
e provisões e regrespar unida com as galeras 
alistadas no Douro, sem que nenhuma difBcul- 
^ade tivessem na viagem, por não apparecer 
ainda a frota castelhana; o que occasionou tam- 
bém que, arribando dias antes três naus mer- 
cantes carregadas de farinha para o exercito de 
Gastella, e vendo-se em perigo de ser apresadas, 
encalharam para que fossem a pique, salvan- 
do*se na praia os tripulantes. 

«Transcorria d'este modo o mez de maio como 
o anterior, e persuadido o rei de que a empresa 
levava geito de ser duradoira e mais difficii do 
que pensara; vendo, por outro lado, que as bai- 
xas naturaes e as extraordinárias, devidas a 
enfermidades que acommettiam o exercito, iam 
diminuindo o seu effectivo; sabedor de que os 
agentes do mestre de Avis contratavam em In- 
glaterra soldados auxiliares, escreveu a seus 
reinos e senhorios e a seus aliiados de França 
pedindo lhe enviassem com urgência homens 
de armas, infantes e cavallos. Da rarta dirigida 
à ci«li»de de Murcia, datada em Morineray ajunto 
a Lisboa a 20 de maio, e in?crla por Gascales 
noa seus Discursos históricos, irai-ladaremos 



> N5o ha, nem pude averiguar que houvesse nas 
cercanias de Lisboa aJgunia localidade chamada Mo- 
rinera ou Molinera, mas encontra-se na ultima carta 
geographica a aldôa ou povoação Mnrleiras ao norte 
de Loures; outra, Manleigueira, junto ao Campo 
Grande, e outra, Musgueira, immediata ao Lumiar, 
que é o ponto onde me inclino a crer pousava o rei 
quando escreveu aquelle despacho. 

(^ota do sr, SandomlJ 



aqui 08 seguintes períodos, que lançam multa 
luz na questão militar, pelos pormenores relati- 
vos ao armamento, pela pressa e rigor oora qae 
se pedia gente, e pelas jornadas que deviam fa- 
zer até lograrem incorporar-se no exercito real. 
«Depois de dizer que para obrigar â obediên- 
cia o reino de Portugal havia mandado armar 
uma grande frota, e que tinha cercado Lisboa, 
adverte os abusos e pretextos com que costu- 
mavam eximir-se a servil-o muitos dos que a 
isso eram obrigados, pelo que, requerendo-ihes 
com nova instancia, mandava que 

=0s que forem homens de armas, que nos 
sirvam com armas e com cavallo; e os que forem 
homens a pé, que traga cada um d'elle8 uma 
besta com todo o apresto que haja mister um 
besteiro; e o lanceiro uma lança e dardo e seu 
escudo. B quando cá sejam chegados, nós os 
mandaremos prover como foi sempre costumado 
em taes casos. B temos por bem que nenhuns 
fidalgos se escusem de vir ao dito serviço, salvo 
os casados e os que forem velhos de sessenta 
annos para cima, e os moços de dezoito para 
baixo., etc, etc. 

«Previne também que se faça saber a todos, e 
se apregoe, esta disposição, a fim de que aquelles 
a quem respeite, 

«partam logo aprestados na maneira que dita 
é, até quinze dias primeiros seguintes, e venham 
a servir e estejam cá com a maior brevidade 
que ser possa, contando sete léguas por cada 
dia, e se apresentem aos nossos contadores de 
soldo que comnosco andam, e não se movam 
d'ahi sem nossa ordem. = 

«Em consequência d*este pedido, deveu re- 
ceber considerável reforço o exercito de D. João i 
no cerro de Lisboa, ainda que não tamanho 
como pudera inferir- se se não houvesse s^^mpre 
escusas, delongas e outros mil motivos na apre- 
srntciyão dos contingentes, como succedeu pre- 
cisamente com o da própria cidade de .Murcia 
qu(% [)osto jà em marcha, retrocedeu a guardar 
a sua fronteira em virtude da ordem dos gover- 
nadores do reino durante a ausência do rei, o 
arcebispo de Toledo e D. Pedro Gonzalez de 
Mendoza, a quem foi dado aviso de uma en- 
trada de mouros granadinos no território, com 
o pretexto das hostilidades que tinham com 
o Aragão. O historiador Ferreras diz que então 



WaUaiiA d» FortQgta 



838 



88 qdíq ao rei o priocipe Carlos de Navarra, 
com um escolhido corpo de tropas, o que, a ser 
aesim, desmentiria o asserto de Feroam Lopes^ 
que suppõe que o príncipe acompanhava já a 
D. Jofto I quando fez a sua entrada em Santa- 
rém; na Chronica da ordem de Âlcaotara consta 
que o noYO mestre eleito para substituir o que 
pereceu em Atoleiros, D. Gongalo Nunes de Guz- 
nião, foi também ent&o incorporar-se ao exer* 
cito com os cavalleiros da sua ordem; e por 
ultimo, Proissart consigna que foram de França 
300 lanças dos melhores homens de armas do 
condado de fiearn, apesar da opposiçâo do conde 
Gastão de Foix, que tratou de dissuadil-os, e 
até lhes predisse as catastrophea que os espera- 
Tam. * 

•Para avaliar numericamente o etfectivo a 
que ascenderia nos mezes seguintes a totalidade 
do exercito castelhano, temos: primeiro, as ci- 
fras que dá Fernam Lopes, de 5:000 lanças, 
alem da gente de Santarém, e outros legares; 
1 :000 ginetes, 6:000 besteiros, emoitissima gente 
de pé;— e segundo Froissart, que n*um relanço 
diz 20:000 e em outros 30:000 homens, por 
onde, prescindindo das exagerações em que 
quasi sempre incorrem os demais historiadores 
portuguezes, se pode bem calcular em una 
25:000 homens a força total reunida para o as- 
sedio. 

«O ultimo chronista citado, Froissart, cujas 
noticias sobre esta guerra procediam de alguns 
dos francezes qoe assistiram a ella, abunda em 
erros e confusão; diz, por exemplo, que o conde 
de Longueville fazia de condestavei de toda a 
hoste do rei de Castelia, e que Regnaud Limosin 
era o marechal, porque o rei o estimava muito, 
em razão de que. sendo um dos eavolleiros que 
vieram a Hespanha com Bertran Duguesclin, ti- 

1 O mesmo numero de 300 lanças e os mesmos 
nomes dos principaes cavaileiros, dá Sueiro nos Ana- 
tes de Flandes, — Mezeray, sem embargo, na sua His* 
torta de França, diz que se lhe enviaram por uma 
parte 1:000 lanças, e de Gasconha mais de 400, po- 
dendo ascender o total a uns !2:000 homens. Anterior- 
mente noticia que o rei pediu fosse auxilial-o o con- 
destavei 01 i vier Dnguesclin, porque o seu exercito 
carecia de bons capitâek, e lhe faltava disciplina e 
valor, asserto que não é crivei. 

(Nota do $r. SandowUJ 



nha servido lai^amente a seu pae D. Henrique 
e a elle, casando-o em Castelia, e concedendo- 
lhe um bom património; é, porem, de todo o 
ponto inacceitavel similhante noticia, porque 
d'ella resultaria que os dois principaes postos 
do exercito tel-oe-ia o rei confiado a extrangei- 
ros, quando consta qoe justamente para entrar 
em campanha creou ambas as dignidades, no- 
meando para ellas a personagens notáveis do 
reino. Pode sim admittir-se que tivessem essa 
cathegoria entre as tropas auxiliares francesas, 
e que D. João i lhes dera grande peso em seu 
conselho nas coisas da guerra, attendendo á 
predilecção de D. Henrique n por esses caudilhos 
que o ajudaram contra seu irmão D. Pedro, e 
que deixou ao morrer muito recommendados a 
seu filho; e pelo credito que gozavam de expe- 
rimentados capitães, o que explica de algum 
modo o que em varias passagens expressa o 
mesmo chronista sobre a rivalidade, inimisade 
e o ódio qoe chegou a existir no exercito en- 
tre os castelhanos e francezes (gascões e bear- 
neses).^ 

•Avistada a esquadra de Castelia a 28 de 
maio, moveu seu campo o rei sobre a cidade, 
enviando, tão inutilmente como das vezes ante- 
riores, um parlamentario para tratar de rendel-a, 
antes de estreitar o cerco, á sua obediência; se- 
guiu-se uma viva escaramuça ou tentativa de 
ataque súbito â praça, em que, acommettida a 
muralha pela porta de Santa Catharina, correu 
risco de ser forçada, tendo que pelejar em pes- 
soa o mestre de Âviz; mas lograram repellir os 
castelhanos, que deixaram morto no campo o 
alcaide de los Donceles.» 

Até aqui o sr. Ximenez de Sandoval, em cuja 
narrativa o leitor admirará, certa e principal- 
mente, a gravidade e exactidão que a caracteri- 
sam, e que não são vulgares em extrangeiros, 
sobretudo quando se trata de uma derrota que 
sofTreram. Mas o sr. Sandoval leu, com animo 
desassombrado, os chronistas portuguezes, cas- 
telhanos e francezes no empenho de apurar a 
verdade histórica, e, para completar os seus es- 
tudos, emprehendeu uma viagem a Portugal, 
para visitar o theatro d'essanotabiiissima guerra. 
Na historia dos grandes çonflictos nacionaes, 
pois que é verdadeiramente um pleito, devem 
ouvir-se ambas as partes. N^este caso, attender 



834 



MÈBtmitL cte Portugal 



apenas ás cbronkas portngaezas seria lisoDjear 
indecorosamente a vaidade pátria, quando aliás 
se trata de nm feito de armas que não precisa 
de exagerações para sobresair com glorioso re« 
levo. Fazer unicamente obra peias cbronicas 
hespanbolas seria, pelo meoos, lançar saspeíção 
de fabulosos por byperbolíco patriotismo sobre 
os nossos cbronistas. Do confronto das narrati* 
vas castelhanas com as portuguezas é que de?e 
resaltar a verdade. 

Pedro Lopes de Ayala, que é, Doesta matéria, 
para os castelhanos o mesmo que Pemam Lopes 
para os portugueses, a primeira auctoridade, 
pois que pelejou na batalha de Aljubarrota, fi- 
cando prisioneiro e seudo depois resgatado, é 
muitas vezes omisso e confuso, e cae em equi- 
vocos tão ceosuraveis como, por exemplo, o de 
antecipar a batalha dos Atoleiros. Não admira, 
porque as peripécias da guerra snccedem-se 
ordinariamente com tal rapidez que deixam 
atordoados os que andam enredados n^ellas. E 
muitíssimas vezes nio se pode avaliar devida* 
. mente o que se passa ao pé de nós, a doid passos 
de distaucia. A este respeito conta PrévostPa- 
radol, no Essai sur l^histoire universeUey que 
estando preso na torre de Londres sir Walter 
Aaleigh, por motivos políticos, emprehendera 
escrever uma historia universal por combater os 
enfados do cárcere. Certo diaouviu um grande 
ruído no corredor contíguo á sua cellula. Per- 
guntou a um guarda o que tinha sido; não soube 
dizer-lh'o o guarda. Interrogou outro. A mesma 
ignorância. Então Raieigh correu a rasgar o seu 
manuscripto, dizendo a si próprio que era lou- 
cura tçntar escrever a historia da antiguidade, 
quando não era dado ao homem verificar ao 
certo o que tinha occorrido no seu tempo e a 
tão curta distancia de si. 

Mas o sr. Sandoval procura supprir as defi- 
ciências de Ayala recorrendo a outros cbronistas 
de igual ou immediata auctoridade. G com rasão. 
Não fizemos, pois, senão imitar-Jbe o exemplo, 
que nos parece de bom aviso. 

O acampamento castelhano estabeleceu-se des- 
de o mosteiro de donas de Sanlos-o-Velho até 
ao local que é hoje passeio da Estrella ou talvez 
até ao largo do Rato, tendo por limite ao occidente 
a ribeira de Alcântara. Santos-o- Velho foi o sitio 
escolhido para quartel real. «Ali fizeram logo 



para el-rei^^ Pemam Lopes— mna alta casa 
sobradada feita sobre quatro traves grossas, cer- 
cada de parede de pedra secca, e á €erca d'dia 
eram assentadas muitas e nobres tendas assim 
d'el-rei, como doe senhores, que cora elle vi- 
nham.» Todo o acampamento estava dividido 
em ruas, flammantes dos pendões e bandeiras 
das províncias a que pertenciam as tropas, e das 
principaes casas da nobresa castelhana, ali re- 
presentadas. A cavallaria occupava o logar in- 
terposto ás tendas. Era uma cidade improvisada, 
onde nem siquer faltavam os gozos próprios dos 
grandes centros. Pemam Lopes dâ noticia de se 
venderem ali perfumes, especiarias, ricos esto- 
fos do Oriente, em rasão de terem arribado à 
praia do Rastelio duas carraças do Levante, que 
faziam curso para Piandes, e que foram obriga- 
das a arribar. Uma das ruas era occupada por 
meretrizes, circumstancia de que o sr. Ximenez 
de Sandoval deduz qual era o estado moral do 
exercito castelhano, o que — diz elle, — a ser 
certo, indica que não faltariam ali outros vícios, 
como o jogo, o furto e as pendências, que são 
inseparáveis companheiros quando nas tropas 
faltam policia e disciplina. Havia lojas de varias 
mercadorias, sendo algumas de cambistas oa 
cambadoreSy como diz Peraãm Lopes. No Tejo, 
perto de GacHhas, estavam sempre duas galés 
castelhanas, para não deixarem entrar gente 
nem mantimentos em Lisboa. E ao longe da ci- 
dade jaziam as naus da esquadra de Gastella, 
ligadas por um grosso calabre, de modo que não 
podesse romper por entre ellas, de uma banda 
para outra, qualquer barco. Todo o acampa- 
mento era constantemente fornecido não só com 
remessas de mantimentos vindos de Santarém, 
e d'outras povoações que tinham voz por Cas- 
tella, mas também por barcos que vinham de 
Sevilha, carregados com viveres c armas. 

Por sua parte, o mestre de Aviz, sabendo que 
o rei de Gastelia avançava sobre Lisboa, man- 
dara recolher â cidade todos quantos mantimen- 
tos foi possível encontrar nos arredores. Da 
gente das circumvisinhanças uma recolheu-se á 
cidade, outra atravessou o Tejo e passou a Pal- 
mella, Setúbal e outros logarés. 

Quanto a fortificação, os muros da cerca ins- 
piravam toda a confiança. Em cada uma das se- 
tenta e sele torres da muralha, levantaram-se 



HifltMia. dg Bortagal 



885 



UDS fortes de madeira, onde havia graode abon* 
dancia de armas. Â guarnição da cerca foi diví« 
dida em quadrilhas, pertencendo a cada uma 
uma torre e um sino para chamar a sua gente. Ao 
menor signal de qualquer d'estes sinos; ou dos 
das egrejas da cidade, corria ás rburalbastodaa 
população, incluindo os frades, entre as quaes se 
notavam, pelo seu ardimento, os da Trindade. 
De noite, toda a cerca era guardada por senti- 
nellas, e o próprio mestre de Àviz, que não cu- 
rava de descançar, apparecia de repente, a horas 
mortas, a vigiar o que se passava. As portas da 
cidade estavam todo o dia abertas, e confiadas a 
bons homens de armas, que não deixavam pas* 
sar ninguém sem declarar d'onde vinha e para 
onde ia. De noite, todas as chaves eram entre- 
gues ao mestre, ficando aliás as portas bem guar- 
dadas. Junto da de Santa Gatharina, estava 
preparado um hospital de sangue, onde havia 
constantemente um cirurgião. E como por esta 
parte fosse maior o perigo, mandou o mestre de 
Aviz levantar uma barbacã desde a referida 
porta até á torre de Álvaro Paes. Ao passo que 
os homens, sempre equipados, trabalhavam afa- 
nosamente na construcção d'esta barbacã, as 
mulheres conduziam materiaes, cantando trovas 
cheias de um nobre patriotismo e ás vezes im- 
pregnadas de uma ironia penetrante, como esta: 

Esta és Lisboa presada, 
Mirad-la y dejad-la; 
Se quisiéredes carnero, 
Gual dieron ai Andero; 
Se quisiéredes cabrito, 
Gual dieron ai Obispo. 

Tudo corria de feição para a causa do mestre; 
restava apenas que a esquadra portugueza re- 
gressasse ao Tejo reforçada com as galés do 
Porto. Os portuenses tratavam activamente de 
equipal-as, mas sobreviera uma contrariedade 
com que não contavam. O arcebispo de S. Thiago, 
D. Garcia Manrique, entrara pela província de 
Entre-Douro-e-Hinho, com uma hoste composta 
de portuguezes e castelhanos, e obstava a que 
podessem reunir mantimentos, porque lhes cor- 
tava a communicação com os arrabaldes. Fer- 
nando Affonso de Samora também incommodava 
06 portuenses, mas d'este ultimo viram-se elles 
livres depressa. O conde de Trastamara, aquelie 
meaiBO que ftagira de Coimbra, acooselbou oa 



portuenses a repellir vigorosamente os castelha- 
nos, e o certo é que Fernando Affonso de Sa»- 
mora foi feito prisioneiro. Vencido este inimigo, 
restava vencer o arcebispo. Os portuenses, jun- 
tando-se com os tripulantes das galés dé Lisboa, 
reuniram um exercito de cinco mil homens, e 
marcharam contra o guerreiro prelado de S. 
Thiago que, depois de breves escaramuças sus- 
tentadas nos arrabaldes, retirou. As galés per- 
correram então as costas da Gailiza, fazendo 
represálias, e voltaram ao Porto, d'ohde parti- 
ram para Lisboa com o reforço que esperavam. 

D. Nuno Alvares Pereira tinha sido chamado 
pelo mestre a Lisboa, visto que a sua presença 
no Alemtejo se podia dispensar agora. Era ef- 
fectivamente em Lisboa que a guerra se locali- 
sava. D. Nuno, que desejava estar onde estivesse 
o perigo, partiu logo com a sua hoste para o 
Porto, a fim de se transportar na esquadra. Mas 
quando chegou, já a esquadra tinha levantado 
ferro, parece que por alvitre de Ruy Pereira, o 
qual, por um indigno sentimento de inveja, nãtf 
queria trazer em sua companhia Nuno Alvares, 
para que o não offuscasse. 

Desesperado com esta contrariedade, Nuno 
Alvares retrocedeu, e em Coimbra esteve para 
cahir no laço dé uma traição que pretendia ar- 
mar-lhe a condessa de Geia, a qual desejava 
vingar-se das devastações que Nuno havia feito 
em Cintra, terra de que o conde era alcaide. 
Emprehendeu a condessa juntar 06 seus escudei- 
ros e outra gente para prenderem Nuno, cujos 
soldados souberam, porem, o que se passava, e 
resolveram assaltar o palácio onde a condessa 
morava. Mas Nuno Alvares, também informado 
a tempo, conseguiu evitar que os seus soldados 
realisassem o que tinham planeado. 

A hoste de Nuno estava completamente des« 
provida de recursos, e elle teve em Coimbra não 
só que vender todas as suas pratas, mas também 
que appellar para a generosidade dos homens bons 
da localidade. O alcaide do casteilo, Gonçalo 
Mendes de Vasconcellos, vendo o mau estado de 
equipamento em que se achavam os soldados de 
Nuno Alvares, não pôde deixar de exclamar «Es- 
pantado sou de que estes homens possam defen-» 
der este reino, contra o rei de Casteila, que é mn 
tamanho senhor, salvo se Deus anda por capitão 
td^ellesl* 



I 



336 



Historia de Portugal 



Sahiodo de Coimbra, veio Nudo Alvares por 
Thomar, e d'afaí a Torres Novas, com o propo^ 
sito de resolver o alcaide, que era GoDçalo Vas- 
qnes de Azevedo, a reader-se ao mestre de Aviz. 
^ alcaide tergiversou, e sabendo que Nuno Al- 
vares estava carecido de dinheiro, escreveu ao 
' rei de Castella aconselhaodo-o a que lhe man- 
dasse fazer promettimentos, que talvez conse- 
guisse chamal-o a si por esse melo. O rei de 
Castella respondeu que o nào podia fazer sem 
desaire, mas pedia a Gronçalo Vasques de Aze- 
vedo que por qualquer meio ao seu alcance o 
fizesse elle. Gonçalo Vasques de Azevedo encar- 
regou um judeu, David Algaduxe, irmão da mu- 
lher de D. Judas, de fazer a proposta a Nuno 
Alvares. Com effeito, o judeu foi offerecer-ihe 
mil dobras, mas ficou esmagado pela dignidade 
com que Nuno Alvares repelhu a aviltante of- 
ferta. 

Não podendo, pois, entrar em Lisboa, a não 
ser por mar, Nuno Alvares resolveu .tomar para 
o seu posto na comarca de Entre-Tejo-e*Guadia- 
na. Dirigiu-se a Punhete, hoje Constança, a fim 
de atravessar o Tejo. Contaram-lhe ahi que al- 
guns bandos de castelhanos infestavam os ca- 
minhos, exercendo desenfreada pilhagem, e Nuno 
Alvares esperou, desde logo, a occasião de se 
encontrar com algum d'esses bandos. Não se de- 
morou muito o ensejo. Certo dia em que Nuno 
Alvares estava comendo ã sombra de uns freixos, 
uma das atalayas veio dizer-lbe que se avistava 
gente ao longe, e que lhe parecia ser castelha* 
nos, que vinham de Santarém. Nuno preparou-se 
ã pressa para investir com elles. CoUocou a sua 
gente no ponto que lhe pareceu mais conve- 
niente, e quando os castelhanos se aproximavam 
cahiu sobre elles, desbaratando-os, e tomando 
as azemolas que levavam carregadas de ouro, 
prata, roupas, etc. 

Melhor apercebido doeste modo, graças a um 
providencial acaso, levantou arraial, e, passando 
o Tejo, dirigiu-se a Évora. 

Entretanto, a esquadra portugueza, partida do 
Porto, demandava a barra de Lisboa. 

D. João I de Castella estava deveras inquieto. 
Receiava que, em virtude das negociações diplo- 
máticas encetadas pelo mestre com a Inglaterra, 
viesse doeste paiz um soccorro poderoso. Mas 
depois tranquilUsou-se mais a este respeito, por 



saber que a Inglaterra tinha que suspender os 
preparativos de embarque da divisão auxiliar 
para acudir ã Escócia, onde a guerra com a 
França se renovava. O rei de Casteíla julgava 
também que a esquadra que se esperava do 
Porto fosse mais importante, e incommodava-o 
a suspeita de que viria a bordo d'ella D. Muno 
Alvares Pereira com valiosos reforços levantados 
no Alemtejo. 

No dia 17 de julho de 1385, um domingo, 
teve D. João de Castella noticia de que a esqua- 
dra portugueza estava á vista de Cascaes. Teve 
logo uma conferencia com o almirante Tovar e 
com o capitão-mór Pedro Afan de Rivera, para 
assentarem o que se devia fazer. O almirante 
opiniou que se fosse combater' a esquadra 
fora da barra; Pedro de Rivera foi de pare- 
cer que se combatesse dentro do Tejo. Venceu, 
por decisão do rei, a opinião d'este ultimo. Man- 
daram os castelhanos duas galés fora da barra 
para observar a esquadra portugueza; e ao ama- 
nhecer do dia seguinte todas as outras levanta- 
ram ferro para ir postar-se, em ordem de batalha, 
perto da margem direita do Tejo, em frente do 
Rastello, com as proas viradas para Almada, de 
modo a atacarem de flanco a esquadra inimiga. 

Durante a noite, a esquadra portugueza tinha 
enviado ao mestre, n*um ligeiro batel, João Ra- 
malho, mercador do Porto, para o avisar de que 
entrariam no outro dia. Toda essa noite foi de 
terrível anciedade no arraial portuguez, porque 
se suppunha, e com fundamento, que a perda 
da esquadra portugueza equivaleria á perda da 
causa do mestre. Fizeram-se promessas, votos, 
procissões piedosas. 

Cerca das nove horas da manhã do dia 19, 
a esquadra portugueza, composta de dezesete 
naus, e dezesete galés começou a atravessar a 
barra. O capitão da frota era Ruy Pereira, e o 
almirante, o oonde D. Gonçalo, irmão de D. Leo- 
nor Telles. Os burguezes do Porto tinham man- 
dado lembrar ao mestre a conveniência de se 
convidar o conde de Neiva, D. Gonçalo, alcaide 
de Coimbra, para tomar o supremo commando da 
esquadra, porque pela adhesão do oonde se as- 
segurava a posse de Coimbra, e se libertavam os 
portuguezes dos receios que lhe causava a pro- 
ximidade de uma praça tão importante como 
aquella que não se sabia ao certo qual partido 



I 



/ 



Historia de Portugal 



337 



viria a tomar. O mestre anoulu à proposta, e 
maadou-se desde logo um enviado ao conde D. 
Gonçalo, o quai respondeu que também annui- 
ría sob condição de que lhe seriam doadas as ter- 
ras que baviam constituído o apanágio de sua 
irmã D. Leonor. 

 ambição era tendência de familia! 

Mas eòsas terras tinha-as jà o mestre promet- 
tido a Nuno Alvares Pereira. Como havia de ser? 
Nuno Álvares, que estava ainda no Alemlejo, 
d^onde depois marchou para o Porto, como sa- 
bemos, teve noticia do que a este respeito se 
passava, e logo escreveu ao mestre dizendo-lhe 
que cedesse livremente das terras, porque até 
lhe era agradável contribuir para a acquisição 
de mais um partidário, que se julgava impor- 
tante. 

Eis explicada a rasão por que encontramos 
o conde D. Gonçalo a bordo da e.^quadra portu- 
gueza. 

Vejamos, agora, como ella conseguiu entrar 
a barra de Lisboa. 

Vinha na frente a nau capitania, chamada 
MUheira, trazendo sessenta homens d'armas ' 
e quarenta besteiros, sob as ordens de Ruy 
Pereira. Esta nau era seguida de mais quatro. 
Depois doestas cinco naus vinham todas jun- 
tas as dezesete galés. As doze naus restantes 
vinham empoz. O vento era de feição para 
os portuguezes entrarem. A esquadra caste- 
lhana, querendo também tirar partido do vento, 
deixou entrar a esquadra portugueza, e depois 
que ella entrou, e as naus já estavam a sal- 
vamento do lado de Almada, soltou as velas 
e correu sobre a nossa esquadra. Toda a po- 
pulação de Lisboa estava nas muralhas se- 
guindo com a maior ancíedade tudo o que se 
passava. Quando se viu a manobra da esqua- 
dra castelhana, houve um momento de terror. 
A nossa esquadra ia ser esmagada pela de 
Castella. Prepararam-se á pressa quantos bar- 
cos havia. O próprio mestre se mettera com 
quatrocentos homens n'uma das naus genove- 
ses, que tinham sido anteriormente tomadas, 
para ir prestar soccorro á nossa esquadra, mas 
Dão eó a contrariedade do vento que soprava 
da barra, como também a grande confusão que 

1 O sr. Sandoval diz 600 homens; é erro. 
II VOL. — 43. 



ia a bordo, Gzeram com que retrocedesse. Mas 
lá estava Ruy Pereira para salvar a esquadra 
portugueza. Vendo a manobra da. castelhana, 
a nau capitania virou rapidamente de bordo, 
as outras quatro fizeram igual movimento, e, 
com uma ousadia nunca vista, vieram lan- 
çar- se entre as quarenta castelhanas, atacan- 
do-as. A esquadra de Castella, tendo que res- 
ponder ao ataque, não pôde impedir que as 
galés portuguezas passassem e que as res- 
tantes doze naus, que vinham atraz, entras- 
sem em combate auxiliando Ruy Pereira. 

Esta façanha custou a vida de quem a pra- 
ticou. Ruy Pereira morreu; a sua nau e mais 
duas foram apresadas, mas a esquadra portu- 
gueza havia, finalmente, entrado. 

Os sitiados deliravam de jubilo encurralados 
dentro das muralhas de Lisboa. 

Veio a nossa esquadra encostar-se á cidade, 
estendendo-se desde as Tercénas até á Porta do 
Mar. O mestre mandou logo li^vantar estacadas 
que preservassem as naus e galés portuguezas 
de qualquer ataque das castelhanas. A esquadra 
de Castella voltou a fundear no Rastello, sendo 
reforçada na semana seguinte com a chegada de 
vinte e uma naus e três galés. Fortalecida 
por este reforço, contando então sessenta e qua- 
tro naus, das quaes três eram as que nos foram 
tomadas, dezeseis galés, uma galeota e varias 
carraças, levantou ferros e veiu postar-sc em 
frente da cidade. 

Não obstante a superioridade numérica da 
esquadra castelhana, não pôde ella causar, 
desde então, graves, prejuisos á portugueza, 
que era protegida pelas fortificações de Lis- 
boa. 

O rei D. João de Castella começou, por ven- 
tura, a comprehender quão diSicil lhe seria a vi- 
ctoria. O espirito de resistência, por parte dos 
portuguezes, era cada vez maior. Em princípios 
de julho, o importante castello de Ourem havia- 
se rendido, finalmente, aos partidários do mestre. 
Nuno Alvares, á volta de Coimbra, tomara Mon- 
saraz, e, correndo pelas vastas planícies do Alem- 
tejo, ia enaltecendo cada vez mais o seu nome 
rosto a rosto da fronteira hespanhola. O rei de 
Castella, querendo tomar-lhe o passo, enviou con- 
tra Nuno Alvares o marechal Pedro Rodrigues Sar- 
mento, que marchou a unir-se com as forçaa 



■ 



838 



Historia de Portugal 



que estavam jâ no Alemtejo. Informado do que 
se passava, Nuno Alvares saiu-ibe ao encontro 
em Ponte de Sòr» para evitar que fizesse juncçâo 
com as forças castelhanas do Alemtejo. Mas como 
já chegasse tarde, e o marechal castelhano se 
houvesse reunido às restantes tropas no Crato, 
Nuno Alvares voltou a Évora, onde tratou de 
reforçar a sua hoste. Devidamente reforçado, 
sahiu de novo ao encontro dos castelhanos, que 
acabavam de occupar Ârrayollos. Pedro Sarmento 
escrevera de Ârrayollos a Nuno Alvares uma 
carta insultante, desmesurada diz Peruam Lopes, 
mandando-lhe ao mesmo tempo dizer que se com 
elle viesse ao campo ^ o entendia açoutar como 
menino, Nuno Alvares, despresando os insultos 
do marechal, avançou sempre sobre o arraial 
castelhano «, mal que se avistaram, os dois 
exércitos trataram de aperceber- se para combate, 
n&o obstante a inferioridade numérica dos por- 
tugueses. Por esta mesma inferioridade se ex- 
plica facilmente que os castelhanos conseguissem 
rodeiar Nuno Alvares, o qual, fazendo uma ma- 
nobra similbante á que tão bom resultado dera 
em Atoleiros, formara quadrado. O marechal 
castelhano, vendo que nfto podia romper esse 
como duro rochedo de soldados, resolveu ven- 
cel-os pela fome, sitiando-os, ao passo que Nuno 
Alvares Pereira, receiando o desalento da sua 
hoste, decidira comsigo mesmo passar atravez 
das linhas inimigas, retirando. Estavam os por- 
tuguezes n'esta situação havia já dois dias, e 
foi justamente na segunda noite que Nuno Al- 
vares emprehendeu realísar tão ousada façanha. 
A chuva era torrencial, os relâmpagos aclara- 
vam de instante a instante as duas grandes mas- 
sas de soldados inimigos e, sem embargo, Nuno 
Alvares, apesar de todas essas contrariedades, 
logrou romper as linhas castelhanas, não sem 
deixar alguns dos seus soldados em poder do 
marechal. Mas o que é certo é que Nuno Alvares 
conseguira qiiebrar o circulo de ferro que o 
apertava, e que Pedro Sarmento, contente com 
essa provação que fizera sofiTrer a Nuno Alvares, 
retirara para Lisboa, onde o rei de Castella lhe 
censurou o não ter perseguido o inimigo. Ao 
contrario, Nuno Alvares é que pensava em 
perseguir Pedro Sarmento e, com esse intuito, 
marchara sobre Almada, onde esperava encon- 
tral-o 



CAPITULO V 



Defeoa heroloa de Almada.— Morta de Joio 
Lourenço da Cunha.— Nuno Alvares Pe- 
reira. — Causas do levantamento do oeroo 
de Lisboa.— Cortes de Coimbra. — Acola- 
maçSo de D. João I de Portugal. 

Precedamos Nuno Alvares na sua marcha so- 
bre Almada, onde realmente se tem passado 
acontecimentos dignos de chronica. 

O rei de Castella, attenta a importância e a 
posição d*esta povoação, resolveu pór-lhe sitio, 
a 6m de a render pela fome. Effectivamente, os 
almadenses sofTriam já as mais duras privações 
com extraordinário heroísmo. A agua que po- 
diam beber era a de um charco, e essa mesma 
custava sempre alguma escaramuça com os si- 
tiantes. Pôde dizer-se que compravam agua a 
troco de sangue. Em Lisboa havia a mais viva 
anciedade pela sorte de Almada. Nada se sabia 
do que lá estava acontecendo, a não ser que cada 
vez os castelhanos apertavam mais o cerco. Um 
almadense que tinha vindo na esquadra do Por- 
to, offereceu-se para atravessar o Tejo a nado, 
a fim de saber noticias. Voltou, e trouxe infor- 
ções exactas. Então o mestre pediu-lhe que tor- 
nasse lã, pelo mesmo modo, e que dissesse aos 
almadenses, que não podendo ser-lhes enviado 
soccorro de Lisboa, se rendessem. Em vista d*e8te 
conselho do mestre, os de Almada negociaram 
a paz com o rei de Castella, que occupou a praça, 
poupando as vidas e os bens dos habitantes, por 
pedido da rainha D. Beatriz. 

N'e8ta altura da sua chronica, Fernam Lopes 
historia, fundando*se em di£ferentes versões, a 
tentativa de uma conspiração contra o mestre de 
Aviz. Os castelhanos haver-seiam entendido se- 
cretamente com o filho do conde D. Álvaro de 
Castro, que fallecera durante o cerco, D. Pedro 
de Castro, ao qual estava confiada a guarda do 
muro de Lisboa desde Santo André até ã porta 
de Santo Agostinho. Segundo essa supposta com- 
binação, na noite de quinze de agosto, os cas- 
telhanos subiriam ã quadrella guardada por a 
gente de D. Pedro de Castro, e tomariam a cidade. 
N^esta conspiração achamos envolvido o nome 
de João Lourenço da Cunha, se bem que o pro- 
, prio Fernam Lopes cite uma versão segundo a 



^ ' • .1. 



Historia de Portugal 



839 



qual João LoureDço ds^ Cunha nào apparece como 
conspirador^ mas sim como denunciante da cons- 
piração, achando-se em artigos de morte, em 
consequência de uma dor. Conspiraria, efifecti- 
vamente, contra o mestre de Aviz João' Lourenço 
da Cunha, que voluntariamente, como sabemos, 
viera alistar-se no exercito portuguez ? Eátes dois 
factos, o de vir servir a causa do mestre, e de 
conspirar depois contra elle, repellem-se. O mó- 
bil que trouxera a Portugal João Lourenço da 
Cunha fora certamente a vingança. Ora, traindo 
o mestre de Aviz., que futuro poderia elle ter? 
Beijaria a mão à rainha D. Beatriz, filha do 
adultério de D. Leonor Telles? E que protecção 
poderia elle esperar dos reis de Castella, depois 
do que tinha acontecido á própria D. Leonor? — 
elle, que devia representar aos olhos da rainha 
de Castelia, como um pbantasma, o crime de 
seus pães! Não acreditamos a hypolhese de ter 
João Lourenço da Cunha entrado na conspiração, 
e n*este ponto discordamos inteiramente do sr. 
Pinheiro Chagas, que a explica tomando a am- 
bição como móbil. 

Alem do que, temos ainda duvida sobre ter 
sido João Lourenço da Cunha quem denunciou a 
conspiração, porque, se Pernam Lopes diz que 
elle morreu de uma dor e teve tempo para con- 
fessar-se, Froissart refere que um soldado caste- 
lhano atravessou com um dardo ses plates et sa 
cotte de maille et un floternel emplie de soie re- 
torse *, penetrando o dardo até meio do corpo 
de João Lourenço da Cunha. N'este caso a morte 
de João Lourenço da Cunha seria rápida. 

E jâ que estamos citando Froissart, citaremos 
um facto, que devia ter occorrido por este tempo, 
e que elle refere, não obstante o silencio que a 
este respeito guardam Fernam Lopes e Ayala. 
Diz que estando em Santarém as companhias 
francezas, commaudadas por Geoffroy Richon e 
Geoffroy Partenay, taes excessos praticaram, que 
os habitantes se revoltaram contra ellas, obri- 
gando-as a sahir, com perda de sessenta ho- 
mens; que o rei mandou syndicar pelo marechal 
Regnau, e que, ouvidos os depoimentos do povo 
saQtareuo, desculpou o tumulto. 

1 Plates eram laminas de ferro que faziam parte 
da armadora, e floternel era uma espécie de jaqueta 
de pelles, fortemente acolchoada. 



Retrocedamos, agora ao encontro de Nuno Al- 
vares, que vem sobre Almada. 

Quando constou ti'esta povoação que D. Nuno 
Alvares Pereira se aproximava, o pânico dos 
habitantes foi enorme, mas a guarnição caste- 
lhana teve tempo de fechar as portas da praça. 
D. Nuno não investiu com os castelhanos, e li- 
mitou-pe a atravessar serenamente com a sua 
hoste os montes da Outra-Banda em direcção a 
Coioa, onde fui comer, e d'onde seguiu para 
Palmella. Chegado aos pincaros da montanha 
de Palmella, quando foi noite, Nuno Alvares 
mandou accender almenaras, a que o mestre de 
Aviz correspondeu mandando accender ouifas no 
seu acampamento. 

Em Lisboa, onde os horrores da fome se fa- 
ziam sentir já de um modo verdadeiramente in- 
quietador, o facto de saber-se que Nuno Alvares 
não estava longe deu ã população uns raros 
vislumbres de esperança, porque se pensou tm 
mandar chamar Nuno Alvares para se dar aos 
castelhanos um ataque decisivo. Mas a difficul- 
dade estava em poder Nuno Alvares atravessar 
o Tejo, tão vigiado pela esquadra castelhana. 
Este projecto era devido ao estado afflictivo dos 
sitiados. Fora até preciso expulsar da cidade as 
boccas inúteis, lançando-se fora das muralhas os 
judeus e as meretrizes. 

No sabbado 27 de agosto resolveu o exercito 
castelhano dar um ataque mais formal que os 
anteriores, pelo rio e por terra. O conde de 
Mayorga, á frente de um escolhido corpo de 
Ijomens de armas e besteiros, atacou os por- 
tuguezes, pela porta de Santa Catharina. A de- 
fesa, por parte dos porluguezes, foi enérgica 
e tenaz. O mestre de Aviz combatia entre os 
defensores. Ao cabo de encarniçada lucta, os 
assaltantes retiraram, soffrendo ambos os exér- 
citos grandes perdas. No combate fluvial, os cas- 
telhanos perderam uma galé. 

Os inimigos estavam desalentados, não só pela 
heróica tenacidade dos portuguezes, mas tam- 
bém pelo numero de óbitos que todos os dias 
occorriam no seu acampamento. No mez de ju- 
lho, as febres que desde o principio accommet- 
tiam os castelhanos, haviam tomado um caracter 
' pernicioso, e no mez de agosto conveiteramse 
n'uma horrível epidemia. A soldadesca e a gente 
dos campos foram os primeiros atacados, mas 



840 



Historia de Portugal 



depois a peste atacou as classes superiores, mor- 
rendo entre outras pessoas D. Pedro Fernandes de 
Velasco. O numero de óbitos subia já a 200 por 
dia. Um eclypse do sol, que occorreu no dia 19 
de agosto, poz nos castelhanos um gr<inde ter- 
ror supersticioso, tanto maior quanto (;ra certo 
que os portuguezes eram respeitados pela ter- 
rível eafermidade. Tomavam tudo á conta de 
castigo àe Deus. O numero das viclimas illuslres 
ia crescendo todos os dias. Morreu o mestre de 
S. Thiago, D. Pedro Fernandes Cabeça de Vacca, 
e Ruy Gonçalves Mexia, que o substituiu; o al- 
mirante Tovar, os dois marecbaes Ptdro Sar- 
mento e Alvares de Toledo; o commendador- 
mór de Castella, D. Pedro de Sandoval, e outros 
' muitos, entre os quaes D. Pedro Nunes de Lara, 
conde de Mayorga, cuja morte foi profundamente 
sentida. 

Segundo Ayala pereceram em dois mezes 
2:000 castelhanos; Froissart exagera a perda to- 
tal, elevando-a a 20:000. O que não padece du- 
vida é que a mortandade foi enorme. 

6 rei, comquanto de débil saúde, n&o havia 
sido atacado; foi mais feliz do que seu avó D. 
Affonso XI, que, em análogas circumstancias, 
falleceu durante o côrco de Gibraltar. Nfto ob- 
stante, transportou-se com a rainha e a corte para 
Almada. Parecia disposto a continuar a todo o 
custo o côrco, oppoodo-se aos conselhos dos corte- 
z&os, especialmente do infante D. Carlos de Na- 
varra, que lhe dizia que o insistir era tentar a 
Deus. 

Adoeceu, porem, a rainha D. Beatriz com sym- 
ptomas de peste, e, n'esta conjunctura, D. João 
de Castella resolveu-se a levantar o cerco. 

No dia 3 de setembro, um sabbabo, o rei e a 
rainha atravessaram o Tejo, emprebendendo logo 
jornada. A rainha, que ia muito doente, era con- 
dusida n'uma liteira. Quando no dia 6 chegaram 
a Torres Vedras, chegaram a imaginar que ella 
tinha morrido. Pdo caminho, até ahi, haviam pe- 
recido muitos castelhanos. 

Demoraram-se em torres Vedras, para vôr se 
a epidemia os deixaria finalmente. Mas a mor tan- 
dade continuava, a doença da rainha aggravava-se 
e o próprio rei começou a sentir-se mal. Então 
resolveram apressar a retirada, jornadeando de 
Torres Vedras para Santarém. 

Em Lisboa, o jubilo pela retirada dos caste- 



lhanos era indescriptível. D. Nodo Alvares Pe- 
reira, não obstante a esquadra castelhana per- 
manecer ainda no Tejo, atravessou o rio, e veio 
apertar nos seus braços o mestre de Aviz. Sabia 
uma procissão, guiadapelo bispo de Li^^boa, D. 
João Escudeiro, e houve funcção religiosa, pre- 
gando frei Rodrigo de Cintra; finalmente, as mais 
expansivas demonstrações de alegria popular. 

O acampamento foi, por precaução bygienica, 
mandado incendiar, pelo mestre de Aviz. 

«Tal foi o sitio de Lisboa, escreve o sr. San- 
doval, que, como indicam as datas successi vã- 
mente annotadas, começou por um imperfeito 
bloqueio no mez de fevereiro, sem que tomasse 
um caracter formal até ao fim de maio; é, pois, 
absurdo que Froissart, e outros, gniando-se por 
elle, dissesse que durou um anoo; pôde dizer-se 
que durou quatro mezes escassos, desde 6 de 
maio, em que o rei se estabeleceu no Lumiar, 
até 3 de setembro, em que levantou o cerco; e 
rigorosamente, só durou três mezes e cinco dias, 
contados desde 28 de maio, em que o exercito e 
a esquadra se estabeleceram em frente da praça. > 

Em Torres Vedras, D. João de Castella reunia 
conselho. Os capitães francezes foram de opinião 
que se continuasse a guerra, e os castelhanos 
que se desse por acabada. O que é certo é que o 
rei partia d'ali, como sabemos, para Santarém, 
onde se demorou até ao fim de setembro, a fim 
de dar tempo a que o exercito descançasse. A sua 
tenção, ao partir de Santarém, era recomeçar a 
campanha, em melhores condições, depois que 
passasse o inverno, como veio a acontecer. Dei- 
xando guarnecido o castello de Santarém, e todos 
os outros que tinham voz por Castella, jornadeou 
para Torres Novas, que se lhe rendeu. 

No meiado de outubro, o exercito continuou a 
marcha. Na vanguarda ia uma longa fila de aze- 
molas carregadas com os athaudes dos fidalgos 
castelhanos, que tinham fallecido em Portugal, 
rodeiados dos seus pagens e escudeiros. ^ Na 

^ Diz o sr. Sandoval, na Memoria citada, que a 
muitos dVsses fidalgos mandaram as respectivas fa- 
mílias erigir magestosos mausuleo^. O do mestre de 
S. Thiago, Cabeça de Vacca, existe na cathedral de 
Burgos. O do almirante Tovar encontra-se na cathe- 
dral de Sevilha. Teve primitivamente um epitaphio, 
hoje apagado, no qual se dizia que fallecera no cerco 
de Lisboa, no anno de 1384, e que lhe mandara ia- 



J-r 



Historia de Portugal 



341 



*mH 



rectaguardã, ia o rei com a corte, e uma forte 
escolta. 

No percurso até â fronteira, nioguem sabíu a 
hostilisar ó exercito castelhano. Chegados ahi 
rei e exercito, foi licenciada tempoparÍHmt?nte a 
maior parte das tropas, que partiram para as 
suas respectivas províncias. O rei escreveu ás ci- 
dades fazendo-as scientes dos motivos da reti- 
rada, ^ e partiu com a rainha para o santuário 
de Guadelupe, a fim de agradecer âMàe de Deus 
o tel-os preservado da peste e implorar a sua di- 
vina protecção para a campanha futura. Ahi se 
demorou a corte, até que negócios de estado a 

zer aqueile mansuleo seu sobrinho João de Tovar, 
em 1436. 

^ O sr. Sandoval publica a seguinte carta de D. 
JoSo de Gastelia á cidade de Leão. NSo tem data, 
mas presume-se que seria escripta de 22 a 25 de ou- 
tubro, e datada de Ciudad-Rodrigo. É documento 
importantCi e por elle se conhece o namero de adhe- 
sôes que D. /oSo conservava em Portugal, posto que, 
entre as viilas mencionadas, haja algumas omissões. 

Diz assim : 

«D. iohan, por la gracia de Dios Rey de Castiella, 
de Leon e de Portogal, de Toledo, de Gallizia, de 
Seuilla, de Górdoua, de Murçia, de Yahen, dei Âl- 
garbe, de Algezira, e Sefior de Lara e de Vizcaya e 
de Molina, ai conceio e alcalis, e ai mei7no e a los 
ofíçiales ommes baenos de la cibdat de Leon, salud 
e graçia; bien sabedes en commo por otras nuestras 
cartas bos auemos enbiado dezir la rrazon commo nos 
entramos en este nro rregno de Portogal, E commo 
teniamos cercada la çibdat de Lixbona asy por mar 
commo por tierra, la cual teniamos en tan grand 
apretamiento que Ia cobráramos muy aynna, saluo 
por Ia grand pestilência de mortandat que fue en el 
nro rreal tan afyncadamente, de que morieron mu- 
chos delos grandes de nro rregno e otros machos 
eaualleros e escuderos que alli estauan con nusco, 
E otrosy por el grand afyncamiento que todos los 
que alli estauan nos fezieron, rrequeriendonos que 
non quesiesemos tentar a dios mas de lo que le auia- 
mos tentado, E non quesyesemos ponernos mas en 
peligro a nos e a nuestra gente. E por esta rrazon 
ouimos de partir de alli e venimos a una villa nra 
que está á ocho léguas de Lixbona, a que llaman 
Torres-Vedras, £ alli acordamos de estar por esas 
viilas e lugares nros., que estan a siete e a ocho lé- 
guas dende fasta que cobrasemos á Lixbona; E nra 
gente repartida e derramada por las viilas pensando 
que por estar derramada çesaria Ia mortandat, acaes- 



obrigaram a trasladar-se a Sevilha depois de en- 
trado o mez de janeiro de 1385. 

ô mestre de Âviz, passados os primeiros júbi- 
los, tratou de se assenhorear dos logares e cas- 
tellos que se conservavam fieis a Gastelia. Nuno 
Alvares foi para o Alemtejo, com esse fim. O 
mestre foi sobre Cintra, mas teve que recuar 
por causa do grande temporal que fazia. Depois 
foi a Almada, que o rei de Gastelia não deixara 
guarnecida, levando comtudo em reféns algumas 
creanças da povoação. Não obstante arriscarem 
a vida de seus filhos, os almadenses abriram 
logo as portas ao mestre, repellindo os castelha- 

ció que la rreyna mi muger fue doliente de una lan- 
dre, de la qual todos los físicos la desasperaron por 
muerta, E nos eso mesmo íuemos doliente e en 
grand peligro, e morieron otros muchos eaualleros 
que eran alli con nusco dela dicha pestilência. E 
por esto, veyendo nos que la dicha pestilência non 
cesâua, nos, con acuerdo de los que y estauan con 
nos, que nos fue afyncado por su parte, que que- 
syesemos partir dende, porque entendian que cumplia 
á nro seruicio por cuartro rrazones: la primera por 
la sobredícha mortandat, E la segunda, porque en 
este inuierno nos fariemos a nos mas dafío que 
prouecho, por rrazon de las grandes aguas que fazia, 
que non podiemos estar sy non en viilas, e para es- 
tar en viilas non era nra onrra, pues non podiemos 
estar en los campos sin fazer otra cosa que nra onrra 
fuese; la terçera, porque aquellas viilas que alli te- 
niemos en aquellas comarcas, non nos podian sos- 
tener de viandas fasta el mes de junio que venian 
las nueuas, por quanto auiemos estado enellas ocho 
meses, E si ay ouieramos de estar algund tiempo 
non poderian auer viandas las nras gentes fasta el 
dicho mes de junio; E la quarta, por la grand costa 
que nos faziemos en tener nra gente ayuntada con 
nusco syn fazer grand prouecho, E éramos forçado 
de tener toda nra gente con nusco mientra estouie- 
semos en Portogal. E por quanto dios sabe que non 
querriemos agrauiar á todos los que sodes en este 
nro. rregno de Gastiella con grandes cargas mas de 
las que auedes complido por nro. seruicio, E porque 
la dicha carga se nos faria muy grande de complir 
estas cosas. Acordamos de tornar a Gastiella este 
inuierno por estas rrazones, e porque se rrefeziere 
nra. gente de cauallos e de armas e de otras cosas 
que auian gastado, E porque podiesen tomar mas 
frescos e reparados para el veAno que víene acabar 
esta demanda que teneroos començada, en la cual, 
con la merced de dios, hay muy poço de aca))ar 



d42 



Historia de Portugal 



D08 da esquadra que queriam fazer provisões 
na margem esquerda do Tejo antes de partirem. 

Devendo reunir-se cortes em Coimbra, o mes- 
tre tomou essa direcção, esperando conquistar na 
passagem algumas villas e casteilos. Âlemquer, 
sem embargo do offerecimento que anterior- 
mente haviam feito ao mestre os seus habitan- 
tes, foi defendida valentemente pelo seu alcaide 
Vasco Peres de Gamões. Mas, depois de valo- 
rosa defesa, o alcaide teve iaue capitular, sal- 
vaguardando comtudo os direitos de D. Leonor 
Telles. 

De Alemquer seguiu o mestre para Torres Ve- 

segund el estado en que queda; que sabed que nos 
dexamos en todas las villas e castiellos que están 
por nos en este rregno gente por esta manera; nos 
dexamos derredor de Lixbona en Santarém e en 
Sintra, e en Torresvedras, e en Alange, e en Ouidos, 
e en la Touguia, mill e seysçientas lanças, e ocho- 
eientos ballasteros, e dos mili oromes de pié; Las 
quales villas son todas derredor de Lixbona diez e 
ocho léguas, que non está entre medias villa nin 
castiello que non este por nos, salvo el cuerpo de la 
cibdat de Lixbona, para guarda de las dichas villas 
e castiellos, £ para fazer cada dia mal e dafio a la 
dicha cibdat. Otrosy, dexamos entre Tajo e Guadia- 
na, seteçientas lanças e quatrocientos ballesteros, e 
nuU ommes de pié; E las villas e castiellos que es- 
tán por nos, son estas: el castiello e Ia villa de 
Porcel, e la villa e castiello de Villaviçiosa, e la 
viUa e castiello de Oliuençia, é la villa e castiello 
de Campomayor, e la villa e castiello de Monforte, 
e la villa e castiello de Ocrato, e la villa e castiello 
de Maruan, e la villa e castiello de Mora, e Ia 
villa de Almadana, e el castiello de Ugela, e la 
villa Dalterdochao, e el castiello de Pedrosa, e el 
castiello de Belver de Nueyra, e el castiello de 
Nodar, las quales están todas por nos, para guar- 
dar e defender las dichas villas e para fazer mal 
é dano a todas las otras que están contra nos. 
Otrosy dexamos entre Duero e Mino, por quanto 
toda la tierra está por nos, saluo la cibdat dei Puerto, 
quinientas lanças e quinientos ommes de pie en los 
lugares que están por nos, que son estos: La cibdat 
de Braga con su villa e castiello, e la villa e castiello 
de Caminna, e la villa de Viana, e la villa e castiello 
de Melgaço, e la villa de Valência, e Ia villa de 
Monçon, e Villa Nueva de Cervera, e la villa de 
Ponte de Limia, e Ia villa de Barçellos, e la villa e 
castiello de Guimaranes, e el castiello de Castro 
Leuoreiro, e la viUa e castiello de Sant rroman, e 



dras, que lhe resistiu vigorosamente. Durante o 
côrco d'esta villa ficaram prisioneiros dos caste- 
lhanos o novo prior do Crato, Álvaro Gonçalves 
Caniello; e o filho de D. Maria Telles, D. Lopo 
de Sousa, mestre da ordem de Christo. Ahi foram 
encontrar-se com o mestre alguns cidadãos de 
Elvas, entre os quaes o notável Gil Fernandes, 
que para ali tinham sido mandados por Nuno 
Alvares, e que amargamente se queixaram ao 
mestre d'esta ordem do fronteiro do Alemtejo. 

Levantado o côrco de Torres Vedras, D. João 
dirigiu-se a Coimbra, onde, como sabemos, se 
deviam reunir as cortes, a pretexto de que era 

el castiello de Picocha, e la villa e el castiello de 
Lindoso, e la villa de Nuuea, e el castiello e villa de 
Nonbrega, e el castiello de Faria, e la villa e cas- 
tiello de Bamoso, e el castiello de Bermy, e la villa 
e castiello de Cellorico de Vasco. E esto mesmo de- 
xamos en algunas villas e castiellos de Trás los mon- 
tes trezientas lanças e quinientos ommes de pie, las 
quales son estas: la villa e castiello de Bragança, e 
la villa e castiello de Vifíaes, e la villa e castieUo de 
Chaues, e la villa e castiello de Monforte de rrio 
Libre, e la villa e castiello de Miranda, e la villa e 
castiello de Mogadeyro, e la villa e castiello de Al- 
fandiga, e el castiello de Benposta, e la viUa de 
Fresno de espada cinta, e la villa e castiello de 
Villarreal, e el castiello de Otero de Miranda, e la 
villa de Pefiarroyas, e el castiello de Torre de 
chama, e el castiello de Sant esteuan, e Ia villa 
de Goneya, e Ia villa de Vilarello, e el castiello 
de Monte alegre, e el castello de Vinaes, e el cas- 
tiello de Mounçe. E eso mesmo dexamos en al- 
gunas villas e castiellos de Rivra de Goa, quatro- 
çientas lanças e quatrocientos ommes de pie, las 
quales son estas: la villa e castiello de Castiel rro- 
dhgo, e la villa e castiello de Castiel mellor, e el 
castiello de Almeida, e la villa e castiello de Castiel 
bono, e la villa e castiello de Castiel mendo, e la 
villa de Sortella, e la villa e castiello de Villamayor, 
e la villa e castiello dei Sabugal, e la villa e castiello 
de Conillana, e el castiello de Peila mayor, e la villa 
e castiello de Mont Santo, e el castiello de Segura. 
E todas estas villas e castiellos quedan en tal rre- 
cabdo que nos daran tal cuenta dellos como cumple 
a nro seruicio, e que se fará tanto dano so dellos a 
las otras viUas e castiellos que estan contra aos, 
commo si nos mesmo estoviesemos aca en Portogal. 
E todo esto vos enviamos dezir porque sepades nr<)s 
fechos en el estado en que estan e la rrazon de 
nuestra venida. — Nos bl Ret.» 



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João das Regraa nas cartes de Coimbra 



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Historia de Portugal 843 



3, Pinhel, Abran- 

âo, Freixo d'E8- 
i Alegrete. 
'* astello Rodrigo, 

Marvão e Gertã. 
.rato, Fronteira, 



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^.*w , '^*'«^vo, Ait-rtuer uo ôai e Aimaaa. 

No sétimo, os de Niza, Torres Vedras, Gastello 
Branco e Aveiro. 



mioba, Torre de 
•ília e Cabeço de 

xellos, Coruebe, 

arem. 

ayuios, Ourique, 

iguia, Monsaraz, 
.0 de Cacem, 
.nna doÂlemtejo, 

e Moz e Pombal. 

ola. 

o cbanceller João 

ira fallar, porque 
'^.onQado o difBcil 
. em proveito do 

lidatos ao throno 

kT da candidatura 

ado que a rainha 

.^a de D. Leonor 

sendo vivo João 

rnando e Leonor 

. m grau que não 

ue tanto D. Fer- 

> Cunha eram tri- 

. finalmente, não 

' Beatriz fosse 61ha 

upulos o espirito 
)s por juramento 
u a violação dos 
Uella, e que este 
deiro grémio da 
a o papa de Avi- 
' 1.. ' jo do mestre de 

Aviz reconuecia o santo paare Urbano, o verda- 
deiro papa. 
O auditório deixou-se arrebatar pela palavra 



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Historia de Portugal 



843 



preciso tomar medidas indispensáveis ao estado 
de abatimento em que se achava o paiz. Mas 
toda a gente sabia que o principal motivo da 
convocação d'essas cortes era o reconhecimento 
ofiBcial dos direitos do mestre ao throno de Por- 
tugal. Se, porém, o braço popular applaudiria 
enthusiasticamente esta questão, logo que fosse 
apresentada, havia sobejas rasões para descon- 
fiar das intenções da nobreza. 

D. Nuno Alvares Pereira, partindo para o Alem - 
tejo, tomou Portel, e seguiu para Elvas, d'onde 
mandara retirar, como dissemos, Gil Fernandes 
e alguns outros. Parece que o principal motivo 
d'esta ordem de D. Nuno fora punir a rebeldia 
que Gil Fernandes, comquanto denodado cavai- 
leiro, havia mostrado na véspera da batalha dos 
Atoleiros, talvez porque se resentisse de lhe não 
ser dado o commando, a que julgaria ter direito 
pelos seus assignalados serviços. D. Nuno pôde 
então dissuadil-o com boas palavras, mas o re- 
sentimento Ocou. De Elvas seguiu Nuno Alvares 
para Villa Viçosa, que sitiou sem successo, e em 
cujo côrco seu irmão Fi^rnam faileceu. De Villa 
Viçosa caminhou sobre Coimbra, a fim de assis- 
tir ás cortes como estava combinado. 

Os leitores que. desejarem ter pleno conheci'- 
mento das formalidades com que antigamente se 
reuniam as cortes em Portugal, devem ler a in- 
teressante obra do visconde de Santarém intitu- 
lada Memorias para a historiaj e theoria das 
cortes geraes etc. Sem embargo d*e6ta indicação, 
vamos dar noticia das povoações que tinham vo- 
to, e dos bancos que os seus respectivos repre- 
sentantes occupavam. 

No primeiro banco tinham assento os procura- 
dores do Porto, Évora, Lisboa, Coimbra, Santa- 
rém e Elvas. 

No segundo, os de Tavira, Guarda, Vizeu, 
Braga, Lamego e Silves. 

No terceiro, os de Lagos, Faro, Leiria, Beja, 
Guimarães, Extremoz e Olivença. 

No quarto, os de Portalegre, Bragança,Thomar, 

Montemor-o-Novo, Covilhã, Setúbal e Miranda. 

No quinto, os de Ponte de Lima, Vianna, Foz 

do Lima, Villa Real, Moura e Montemor-o-Velho. 

No sexto, os de Cintra, Torres Novas, Alem- 

m 

quer, Óbidos, Alcácer do Sal e Almada. 

No sétimo, os de Niza, Torres Vedras, Castello 
Branco e Aveiro. 



No oitavo, os de Mourão, Serpa, Villa do 
Conde e Trancoso. 

No nono, os de Aviz, Arronches, Pinhel, Abran- 
tes e Loulé. 

No decimo, os de Alter do Chão, Freixo d'Es- 
pada à Cinta, Valença, Monção e Alegrete. 

No decimo primeiro, os de Castello Rodrigo, 
Castello de Vide, Penamacor, Marvão e Certa. 

No decimo segundo, os do Crato, Fronteira, 
Monforte, Veiros e Campo Maior. 

No decimo terceiro, os de Caminha, Torre de 
Moncorvo, Castro Marim, Palmella e Cabeço de 
Vide. 

No decimo quarto, os de Barcellos, Coruche, 
Monsanto, Gravão, Panoias e Ourem. 

No decimo quinto, os de Arrayulos, Ourique, 
Albufeira, Borba e Portel. 

No decimo sexto, os de Athouguia, Monsaraz, 
Villa Viçosa, Penela e S. Thiago de Cacem. 

No decimo sétimo, os de Vianna do Alemtejo, 
Villa Nova da Cerveira, Porto de Moz e Pombal. 

No decimo oitavo, os de Mertola. 

Abertas as cortes de Coimbra, o chanceller João 
das Regras tomou logo a mão para fallar, porque 
a elle tinha sido secretamente confiado o difficil 
papel de pôr fora de combate, em proveito do 
mestre de Aviz, os outros candidatos ao throno 
de Portugal. 

Occupou-se em primeiro logar da candidatura 
de D. Beatriz. Combateu-a dizendo que a rainha 
de Castella era* filha adulterina de D. Leonor 
Telles, por isso que nascera sendo vivo João 
Lourenço da Cunha; que D. Fernando e Leonor 
Telles eram ainda parentes em grau que não 
admiltia dispensa, por isso que tanto D. Fer- 
nando como João Lourenço da Cunha eram tri- 
netos de D. AGfonso iii; que, finalmente, não 
podia haver certesa de que D. Beatriz fosse filha 
do rei D. Fernando. 

E, a fim de libertar de escrúpulos o espirito 
dos fidalgos que estavam ligados por juramento 
à causa de D. Beatriz, recordou a violação dos 
tratados por parte do rei de Castella, e que este 
soberano estava fora do verdadeiro grémio da 
Egreja, por isso que reconhecia o papa de Avi- 
nhão, ao passo que o governo do mestre de 
Aviz reconhecia o santo padre Urbano, o verda- 
deiro papa. 

O auditório deixou-se arrebatar pela palavra 



844 



Historia de Portugal 



^ 



\ 



ardente do douto chanceller, e os applausos re- 
beoiaram de todos os lados da sala, especial- 
íneute quando clle appellou para o sentimento 
de nacionalidade, que devia levar todos os bons 
portuguezes a repellirem a candidatura de D. 
Beatriz, que representava simplesmente uma 
absorpção. 

Triumpbante da primeira difficuldade, Joào 
das Regras passou a failar dos dois filhos de Ignez 
de Castro. . 

Esta investida era muito mais difBcil, não só 
porque era muito numeroso o partido da legiti- 
midade, mas também por que o próprio mestre 
de Âviz reconhecera o direito do infante D. Jo&o, 
filho mais velho de Ignez de Castro. Mas João das 
Regras, com a sagacidade que lhe era peculiar, 
procurou atacar a questão pela raiz, e tratou logo 
de pôr em duvida a legitimidade do casamento 
de D. Pedro com D. Ignez de Castro. Notou as 
ipverosimilbanças que se davam entre o caracter 
resoluto de D. Pedro e o Fupposto receio de de- 
clarar emquanto seu pae foi vivo, que D. Ignez 
era sua legitima mulher; observou que não era 
crível que todas as pessoas que se dizia terem 
assistido ao casamento perdessem a memoria do 
dia, mez e anno em que se realisou, excepto uma 
8ó, Bstevam Lobato, cuja declaração devia avi- 
var a reminiscência dos outros que foram pre- 
sentes; extranhou que D. Pedro fizesse similhante 
declaração só depois de transcorridos quatro an- 
nos sobre a morte de seu pae. 

«E porque pensais que isto assim então foi 
feito? (São palavras que Femam Lopes attribue 
a João das Regras). Por que em vida d'el-rei seu 
pae, nem depois até áquelle tempo, nunca elle 
pôde haver dispensação do Papa, que lhe legiti- 
masse 08 filhos; então fez aquella publicação, 
como vistes, por mostrar que eram lidimos, e 
valesse o que podesse valer. » 

Tendo preparado o seu discurso com uma sa- 
gacidade verdadeiramente notável, João das Re- 
gras ia subindo lentamente a escala dos efeitos, 
e de si para si jubilava de vór que os seus gol- 
pes eram certeiros, e produziam o resultado es- 
perado. 

Portanto, fez notar que ainda que D. Pedro 
tivesse casado com D. Ignez, o casamento seria 
illegitimo, porque D. Pedro era primo co-irmão 
do pae de D. Ignez de Castro, e ainda tam- 



bém porque D. Ignez fora madrinha do infante 
D. Luiz, filho de D. Pedro e de D. Constança, o 
que constituía ^rave impedimento. 

Estavam, pois, fora de combate D. Beatriz de 
Castella e os filhos de D. Ignez de Castro, os 
quaes, alem da illngitimidade da sua origem, 
tinham desservido a pátria em favor de Castella. 
Pelo que, só restava eleger o mestre de Aviz 
que, sobre ser de origem real, tinha defendido 
heroicamente a pátria em circumstancia» tão 
difíiceis. 

Ainda aFsim, a victoria de João das Regras 
não era decisiva, porque a assembléa estava di- 
vidida em duas facções: uma, que se inclinava 
para a causa do infante D. João e era capitaneada 
por Martim Vasques da Cunha; outra, que advo- 
gava a causa do mestre e tinha por orador João 
das Regras e por leader Nuno Alvares Pereira. 

Não se chegara ainda a resolução nenhuma, e 
a vaga parecia mesmo rugir ameaçadora^ o que 
suscitou a Nuno Alvares a idéa de se desemba- 
raçar violentamente de Martim Vasques. Has João 
das Regras parecia tranquillo ao passo que Nuno 
Alvares se mostrava impaciente. Era que João 
das Regras tinha ainda de reserva um golpe ter- 
rível, que em ultimo caso vibraria triumphante- 
mcnte. 

Com effeito, em nova sessão das cortes João 
das Regras poz em acção a sua artilhería de re- 
forço, e preparou-se para ler -uns documentos 
que elle quizera calar, 

O primeiro documento lido foi uma carta do 
rei D. Affonso ao arcebispo de Braga pedindo- 
Ihe a sua interferência para que o papa negasse 
a seu filho D. Pedro, que andava embevedo de 
amores, a dispensa que elle solicitasse para 
casar com D. Ignez de Castro. 

Depois, João das Regras passou a ler uma 
carta de D. Pedro ao papa, na qual lhe decla- 
rava que havia casado com D. Ignez de Castro, 
não obstante o parentesco que tinha com ella, 
e lhe pedia que confirmasse o casamento, em 
guisa que os moços ficassem legítimos. 

Em seguida, e depois de fazer sentir á assem- 
bléa a intensidade dos exforços que os embaixa- 
dores de D. Pedro empregariam junto da Santa 
Sé, para obterem a confirmação papal, Jo&o das 
Regras desenrolou um terceiro pergaminho, que 
passou a ler. 



Historia de Portugal 



846 



Era a resposta do papa ás solicitações de D. 
Pedro. 

Este documento, bem como os outros já refe- 
ridos, vem estampados na cbronica de Fernam 
Lopes. Mas, a fim de não alongarmos fastidiosa- 
mente a narrativa, limitar-nos-hemos a noticiar 
que o papa Inoocencio vi recusava cathegorica- 
mente legitimar o casamento e os filhos. 

Em vista d*cstas provas, que tinham um 
grande valor, sobretudo se attendermos á época, 
o grupo que defendia a' legitimidade do filho 
mais velho de Ignez de Castro, alijou os seus 
escrúpulos, e fez causa commum com os defen- 
sores da candidatura do mestre de Âviz. 

Então, os prelados, fidalgos e procuradores 
dos concelhos foram offerecer ao mestre a coroa 
de Portugal. Outro qualquer havel-a-hia recebido 
a impulsos de alegria, sem procurar firmar-se 
cada vez mais no terreno. Mas o mesire de Aviz 
sabia também preparar effeitos, e attegou que 
havia taes embargos assim no defeito de sua nas- 
cença, como na profissão que á ordem de Aviz 
fizera e, principalmente, que seria inconveniente 
que sendo rei fosse vencido por Castella, facto 
que a dar-se não desairaria nem o reino nem a 
elle, não passando de um simples cavalleiro. 
Por ultimo, que contassem sempre com a sua 



boa vontade quando se tratasse de defender a 
pátria. 

A isto replicaram os prelados, fidalgos e pro- 
curadores dos concelhos instando para que accei- 
tasse a corou, porque d'ontro modo Portugal 
correria grande risco de cair nas mãos dos ini- 
migos, maior mente scismaticos e reveis à Santa 
.Egreja. 

O mestre de Âviz, que jà não podia ser defu* 
turo accusado de ambicioso, porque tinha diiB- 
culiado a sua annupncia, cedeu por fim, e tudo 
se preparou desde então para o acto solemne da 
acciamação, sendo Nuno Alvares Pereira encar- 
regado de dirigir os apercebimentos da festa. 

Com effeito, o mestre de Aviz foi acclamado 
rei de Portugal a 6 de abril de 1385, tendo viole 
e sete annos de idade. 

Finalmente, a obra começada pelo povo aca- 
bava de ser coroada pelo clero e pela nobresa. 
Seutava-se finalmente do ibrono de Portugal um 
rei que a vontade popular indicara e cuja candi- 
datura a sua perseverança fizera triumphar. 

Três elementos poderosos contribuíram certa- 
mente para o bom resultado da empfeza: a fir- 
mesa do povo, a espada de Nuno Alvares Pereira 
e a provada sagacidade do dr. João das Re- 
gras. 



II TOL, — 44. 



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31iI"V"JE^O "V 



Xt/einado cie !>• JoSLo I 



o-<>*£g<x>-^ 



CAPITULO I 

Primeiros aotos de B. JoSo I. — Exigenolae 
dae cdrtes. — Viotoriae do condestavel e 
do rei. — Batalha de Tranooso. — Aoonte- 
oimentos ató á batalha dedeiva de Alju- 
barrota. 

Elevado á dignidade real, tratara D. Jo&o i de 
noaiear os ofBciaes de sua casa e de recompen- 
sar com outras nomeações e mercês os serviços 
recebidos. 

Nuno Alyares Pereira fora nomeado condesta- 
vel e mordomo-mór; Álvaro Pereira « marechal; 
Gil Vasques da Cunha, aiferes-mór; AfTonso Fur- 
tado, capitão do mar; chanceller-mór, Lourenço 
Aones Fogaça, que continuara a ser subslituido 
interinamente por João das Regras, etc. O mes- 
trado líi* Aviz reteve-o em si D. João i, diz Fer- 
nam Lopes. 

O ronde D. Gnoçalo, irmão da rainha D. Leo-. 
iijp pt*ri'pa lodo o «lireiío a qualquer recom- 
p* n-^a (it^sde o munienio que se bandeara, em 
janeiro do bunode 1385, com alguns fidalgos cas- 
telhanos, encarregados pelo rei de Gastella de 
conspirarem contra a vida do mestre de Aviz. Os 
bens do conde, como os dos 6dalgos que fugiram 
logo que a conspiração se descobriu, foram con- 
fiscados, e elle conduzido a Évora sob prisão. 

Resolvida a grave questão da eleição do rei, 
as cortes de Coimbra occuparam-se dos negócios 
do estado. 

A cidade de Lisboa, allegando que lhe coubera 
maior quinhão de dedicação na defesa da causa 



do mestre de Ayíz, solicitou do novo rei que 
admittisse como membro permanente do seu 
conselho um cidadão lisbonense; que fixasse a 
corte e a sede do governo em Lisboa, e que só 
confiasse a guarda do sello régio a um natural 
d'esta cidade. 

Os procuradores dos outros concelhos pediram 
ao rei que não admittisse no seu conselho quaes- 
quer pessoas que tivessem defendido a causa de 
D. Leonor Telles; que o soberano não podesse 
resolver a paz ou a guerra sem prévia reunião 
das cortes; e que não podesse obrigar ninguém 
a casar contra vontade como tinha acontecido 
durante o reinado anterior. 

Eram naturaes estas exigências das cortes, 
depois de haverem conferido o poder real ao 
mestre de Aviz. Era, por assim dizer, a sua re- 
muneração, visto que os principaes vultos do 
partido do mestre já por elle haviam sido remu- 
nerados. De mais a mais, o povo tem tido sem- 
pre o defeito de se embriagar com os seus trium- 
phos, exagerando o seu poder* É o perigo da 
democracia. Por esta tendência se explica que, 
em nossos dias, as republicas francesa e hespa- 
nhola se convertessem nos graves desatinos do 
communismo. É preciso um grande tinopruden- 
ciai para apreciar devidamente essas exigências, 
por parte de quem pode despachal-as. Ora o que 
é certo é que em todas as que foram apresenta- 
das a D. João I nas cortes de Coimbra ha um 
manifesto fundo de justiça, de moralidade e de 
rasão. D. João não podia deixar de deferir a ci- 
las, não só porque eram de sua natureza accei- 



f'. 



' / 



Historia de' Portugal 



847 



taveis, mus também porque n&o podia prescindir 
do elemento popular, que lhe havia de tornar a 
ser preciso na continuação da campanha contra 
Caslella. 

Mas, dando bom despacho ás representações 
dos procuradores, D. João i deixou entrever a 
sua hombriedade de caracter e a rectidão do seu 
espirito, porque, manifestando as cortes que de- 
sejavam ser ouvidas sobre o seu casamento, o 
rei disse que reclamava na escolha de noiva a 
mesma liberdade que os seus vassalos reclama- 
vam para si próprios, mas que, em todo o caso, 
não casaria sem previamente informar as cortes 
a esse respeito. / 

Foi resolvido que o rei alçasse as si^as e não 
lançasse peitas, diz Fernam Lopes, porque os po- 
vos promettiam fornecer recursos para a guerra; 
que os concelhos ítra^^em logo um pedido para 
a paga do soldo e fazer moeda, com excepção 
do concelho de Almada, que o rei quíz distinguir 
por esta excepção, em recompensa da sua he- 
róica resistência contra os castelhanos. 

Gomo se vé, tratava-se de organisar a dt fesà 
para a continuação da guerra com Castella. 
D. João, logo depois de acciamado rei, mandou 
plenos poderes aos embaixadores que trazia em 
Inglaterra para «tratarem com Ricardo, rei de 
Inglaterra, e com João, rei de Castella, de Leão, 
8 duque de Lancastre, ou com quaesquer outras 
pessoas de qualquer estado que fossem»; nego- 
ciarem todos 08 tratados e allianças que julgas- 
sem convenientes, especialmente com respeito 
aos homens d*armas e archeiros que deviam ser 
enviados a Portugal. > 

Dias antes da acclamação de D. João, tinha 
chegado o primeiro soccorro de gente de Ingla- 
terra, parte do qual se encontrou no mar cora 
as galés castelhanas, travando-se combale naval. 
Os inglezes conseguiram entrar, 6naimenle, as 
barras de Lisboa e Setúbal, havendo todavia 
mortos e feridos de ambos os lados. Outros navios 
inglezes abordaram ao Porto. 

Continuando a tomar medidas de prevenção, 
D. João I resolveu que o condestavel fosse ao 

> Quadro elementar, do visconde de Santarém, 
tomo XIV. A historia das negociações diplomáticas 
com a Inglaterra, antes e depois da acclamação de 
^ D. João I, vem laj^amente narrada em todo este vo- 
lume. 



Porto a fim de organisar uma esquadra que po- 
desse estar apercebida para qualquer eventuali- 
dade. Mas os burguezes portuenses fizeram sen: 
tir ao condestavel a falta de recursos em que se 
achavam, e elle seguiu para o norte, sob pre- 
texto de ir fazer uma romaria a S. Tbiago de 
Galliza. O sr. Ximenez de Sandoval entende que 
a romaria não passaxa de fingimento; sem em- 
bargo, as chroiiicas pprluguezas dào-n'a como 
principal fim da excursão de D. Nuno. O que é 
certo ó que estes actos religiosos estavam no es- 
pirito do tempo, e que muitas vezes os romeiros 
iam batalhando em caminho dos santuários, 
como d'esta vez também aconteceu, porque o 
condestavel, seguindo para o Alto Minho, foi 
tomando, na passagem, Neiva, Vianna, Monção^ 
Caminha e Vilja Nova da Cerveira, as primeiras 
com resistência, e as outras sem ella. 

Fosse porque o rio Minho ia cheio, ou porque 
o condestavel só tivesse tido em vista a rendição 
das povoações do Alto Minho, o que é certo é 
que Nuno Álvares parou abi em uma boa aldéa^ 
diz Fernam Lopes, próxima ao rio. . 

Entretanto, D. João i, provavelmente para rea- 
nimar o espirito dos portuenses, aliás tão dedi- 
cados ã sua causa, partiu de Coimbra para o 
Porto, aonde nunca tinha ido, e onde foi rece- 

« 

bido com grandes festas, que o seu chronista 
descreve minuciosamente. 

Essa parte da chronica de Fernam Lopes, se 
não tem umn importância capital na historia do 
reinado de D. João i, é todavia muito interes- 
sante sob o ponto de vista ethologico, porque 
nos dá a conhecer o que era, na idade-médía, 
uma recepção fiMta pelo povo portuguez ao seU 
rei. De passagem diremos que alguns dos feste- 
jos consistiam em andarem as mulheres a cantar, 
pelas ruas, cantigas allusivas, e a atirar pellas ao 
ar; em treparem alguns homens por cordas ar- 
madas, o que parece ser uma espécie de mastro 
de cocagne; e em as donas arremessarem das 
janellas, sobre o rei, flores, milho, trigo e ou- 
tras coisas. 

Já agora, não desapproveitaremos a occasião 
de darmos em traços rápidos a descripção da ci- 
dade do Porto, n*essa época. São dois traços, 
mas profundos e verdadeiros, como só a penna 
de Alexandre Herculano os sabia produzir. 

«Nos fins do século xiv, o Porto ia ainda longe 



348 



Historia de Portugal 



da sorte que o aguardava. O fermento da futura 
graudesa estava no caracter dos seus Blhos, na 
sua síluaç&o, e nas mudanças politicas e indus- 
triaes que depois sobrevieram cm Portugal. Posto 
que nobre, e lembrado como origem do nome 
d'esta linhagem portugueza, os seus destinos 
eram humildes comparados com os da theocra- 
tica Braga, com os da cavalleirosa Coimbra, 
com os de Santarém a cortesã, com os de Évora 
a romana e monumental, com os de Lisboa, a 
mercadora, guerreira e turbulenta. Quem o visse 
coroado da sua cathedral semi-arabe, semi-go- 
tbica, em vez do alcácer ameiado; sottoposta 
em vez de torre de menagem aos dois campaná- 
rios lizoB, quadrangulares e macissos, tão diffe- 
rentcrs dos campanários dos outros povos chris- 
tãos, talvez porque entre nós os arcbitectos 
árabes quizeram deixar as almadenas das mes- 
quitas estampadas como um ferrete de antiga 
servidão na face do templo dos nazarenos; — 
quem assim visse o burgo episcopal do Porto, 
pendurado â roda da egreja, e defendido antes 
por anathemas sacerdotaes que por engenhos de 
guerra, mal pensaria que doesse burgo submisso 
nasceria um empório de commercio onde dentro 
de cinco séculos mais que em nenhuma outra 
povoação do reino essa classe, então fraca e não 
definida, a que chamavam burguezes, teria a 
consciência da sua força e dos seus direitos, e 
daria a Portugal exemplos de um amor tenaz 
d'independencia e de liberdade. 

•A populosa e vasta cidade do Porto, que hoje 
se estende por mais de uma légua desde o Semi- 
nário até alem de Miragaia, ou antes até á Foz 
pela margem direita do rio, entranhando-se am- 
plamente para o sertão, mostrava ainda nos fins 
do século XIV os elementos distinctos de que se 
compõe. Ao oriente o burgo do bispo, edificado 
pelo pendor do monte da Sé, vinha morrer nas 
hortas, que cobriam todo o valie onde hoje estão 
lançadas a praça de D. Pedro, c as ruas das Flo- 
res e de S. João, e que o separavam dos mostei- 
ros de S. Domingos e de S Francisco. Do poente 
a povoação de Miragaia assentada ao redor da 
ermida de S. Pedro, trepava já para o lado do 
Olival, e vinha entestar pelo norte com o couto 
de Cedofeita, e pelo oriente com a villa ou burgo 
episcopal. A egreja — o município — e a mooar- 
chia entre esses limites pelejaram por séculos 



suas batalhas de predominio, até que triamphoa 
a coroa. — Então a linha que dividia as trcs po- 
voações desappareceu rapidamente debaixo doâ 
fundamentos dos templos e dos palaciojs. O Porto 
CQnstituiu-se a exemplo da unidade mooarchica. • 

Conhecido o Porto d^essa época, digamos que 
era na antiga casa do Almazem (casa que poste- 
riormente, e por muitos annos, serviu de alfan- 
dega) que os nossos reis da idade-média se 
hospedavam quando visitavam o Porto. Ahi foi, 
com effeito, bospedar-se D. João i, e ahi rece- 
beu a visita de D. Leonor d'Alvim, mulher do 
condestavel, á qual nunca tinba visto. 

Do Porto, D. João i foi ás occultas a Guima- 
rães, combinado com dois cavalieiros d'aquella 
localidade, para a arrancar ao poder de Castella 
e às mãos do alcaide Ayres Gomes da Silva, que 
fora aio de D. Fernando e a cuja intervenção se 
dcveul o não ferir este rei seu irmão o infante 
D. Diniz quando recusou beijar a mão da rainha 
D. Leonor Telles. 

O alcaide resistiu, refugiando-se dentro da se- 
gunda cerca de muros, quando a primeira foi 
invadida pelos soldados de D. João i. De um e 
do outro lado bavia cavalieiros esforçados: entre 
os do rei contava-se o celebre Sá das galés, e en- 
tre os do alcaide havia um hespanhol de grande 
valor, chamado Álvaro Tordefumos. D. João i 
teve que mandar buscar ao Porto engenhos de 
guerra, e por fim Ayres Gomes da Silva teve que 
capitular, pondo por condição que, se o rei de 
Castella lhe enviasse o auxilio, que lhe maDdava 
pedir, e com que contava dentro de certo praso, 
recomeçariam as hostilidades. 

Foi um emissário a Córdova com recado ao 
rei de Castella. Entretanto, os soldados do rei 
portuguez, de impacientes que estavam, ataca- 
ram com alguma vantagem a segunda cerca. 
Não tardou que o rei de Castella respondesse 
que em tão curto espaço de tempo não podia 
mandar o soccorro pedido, pelo que o alcaide 
entregou a fortalesa, expirando dias depois. 
Este facto tem como pendant o que aconteceu 
com o castello de Lisboa depois da morte de 
D. Fernando. 

Em vista doestes acontecimentos. Braga quiz 
pronunciar-se por D. João i, em cuja defesa acu- 
diram logo, com engenhos de guerra, Hem Ro- 
drigues de Vasconcellos e D. Nuno Alvares Pe- 






Historia de Portugal 



849 



reira, devendo-se em grande ponto aos exforços 
do condestavel a rendição da fortalesa bracha- 
rense. 

p. Joáo dírigiu-se sobre Ponte do Lima, cujo 
casteilo lh(*. resistiu boroicamenle, rendeudo^se 
apenas o alcaide e os seus bomens quando o 
fogo, que tinba sido posto á for(alesa, ameaçava 
já carbonisalos. Tanto o alcaide como os solda- 
dos foram debaixo de prisão remettidos para o 
Porto, d'onde seguiram para Coimbra, correndo 
perigo, pelo caminbo, de morrerem ás mHos do 
povo. 

Depois de todas estas victorias, D. João i e o 
seu condestavel partiram para Guimarães, d'onde 
após alguns dias de descanço^ se trasladariam ao 
sul do reino para continuarem os preparativos 
de guerra. 

Entretanto, o rei de Castella preparavase para 
recomeçar a lucta, escrevia para^ França a pedir 
que Ibe enviassem companhias auxiliares, e de 
Talavera dirigia cartas aos seus reinos e senho- 
rios, determinando o numero de soldados que 
cada província devia mandar-lhe. Depois, trasla- 
dava-se a Sevilha, e mandava aprestar uma es- 
quadra para que viesse bordejar perto de Lisboa, 
a fim de que impedisse a entrada de qualquer 
soccorro extrangeiro. 

Adoecendo, porém, gravemente, D. João de 
Castella teve que interromper os seus trabalhos, 
e s6 em abril pôde transferir-se a Córdova, para 
continuar a sua tarefa. Ordenou ao arcebispo de 
Toledo que tratasse de reunir na fronteira forças 
e mantimentos, ao passo que elle fazia concen- 
trar outras forças em Badajoz, para onde pessoal- 
mente se dirigiu acompanhado pelos mestres de 
Alcântara e Calatrava. Chegando a Badajoz, D. 
João de Castella tratou de sitiar a praça de El- 
vas, a qual resistiu tenazmente ao cerco dos cas- 
telhanos. 

•Prolongandose este cerco, diz o sr. Sando- 
val, que parecia ser o começo da invasão pelo 
Àlemtejo, recebeu o rei a noticia de uma grande 
derrota experimentada pelos seus, que tinham 
penetrado em incursão, procedentes de Ciudad- 
Rodrígo; e por isso, ou porque já Ibc não con- 
viesse operar por aquelle lado, levantou o campo 
e trasladou-se a Alcântara, para depois marchar 
sobre Ciudad-Rodrigo, deixando em Badajoz al- 
gumas companhias com o encargo de vigiarem 



e protegerem a fronteira e hostilisar quanto pos- 
sível o paiz inimigo.» 

A derrota a que o sr. Sandoval se refere n'este 
período éa da batalha de Trancoso, muito pare- 
cida com a que os castelhanos experimentaram 
no anno anterior na acção dos Atoleiros. 

Oiçamos o sr. Sandoval, reservando-nos o di- 
reito de fazer alguma retiQcação: 

«Havia encarregado o rei (de Castella) o arce- 
bispo de Toledo, como fica dito, de reunir forças 
e provisões pela banda de Salamanca e Ciudad- 
Rodrigo, e de acommetter com alguns bomens 
de cavallo a fronteira inimiga emquanto elle 
entrava pelo lado de Badajoz; e com tal fim, 
aproveitando-se de estar distraídos Entre-Douro- 
e-Miubo os caudilhos portuguezes, penetrou pela 
Beira João Rodrigues de Castanheda com outros 
cavalleiros principaes, levando côrca de 300 a 
400 lanças, 200 ginetes e um numero subido de 
besteiros e peões, que alguns suppunham ascen- 
dia a 2:000. Passando Almeida, que estava por 
Castella, e passando por Pinhel e Trancoso, 
adeantaram se, causando o maior damno até 
Vizeu, donde, depois de saqueada e incendiada, 
retrocederam pelo mesmo caminho, carregados 
de despojos, com um crescido comboyo de pri* 
sioneiros, azemolas e gado, sem haverem tido 
difficuldade nem opposição; mas a presença do 
inimigo no coração do paiz, e os clamores do 
povo. pelos estragos sotfridos, produziram a re- 
conciliação instantânea dos fidalgos da comarca 
que andavam desavindos, João Fernandes Pa- 
checo, Gonçalo Vasques Coutinho, e Martim Vas- 
ques da Cunha, os quaes, reunindo, a toda a 
pressa, quanta gente armada poderam, lanças, 
besteiros e prões, se pozeram em ordem de ba- 
talha a meia légua de Trancoso, em logar con- 
veniente, por onde os castelhanos tinham que 
passar quando retrocedessem. Duvidaram estes, 
quando os avistaram, .entre atacal-os ou prose- 
guir desviando a direcção, e prevaleceu o pri- 
meiro alvitre, segundo Ayala, por julgarem des- 
bonroso o segundo; apeiaram-se, excepto os 
ginetes, em umas terras lavradas, pelas quaes 
marcharam, avançando, com grande calor, pó, 
sol de cara e fadiga, para os inimigos, que os 
esperavam a pé firme; e ao aproximarem-se, jã 
um pouco descompostos, foram desbaratados. 
Froissart diz que antes de tra?ar-se peleja se 



850 



Historia de Portugal 



parlamentou, o que não deu resultado, e que 
logo, entregues os cavallos aos pagens, começou 
um renhido combate de três horas, que termi- 
nou com a derrota dos castelhanos, os quaes, ao 
retirar-se, procurando os seus cavallos, viram 
que os pagens e os criados haviam fugido. A 
versão de Fernam Lopes e dos seus commenta- 
dores explica que os castelhanos queriam iiludir 
a acção e se inclinaram para o pequeno rio de 
Frechas, mas que os portuguezes lhes sahiram 
ao encontro, e lhes apresentaram obrigada bata- 
lha junto á ermida de S. Marcos; que então fize- 
ram alto, apeíando-se os homens de armas com 
exclusão da cavallaria ligeira fjiiutesj, soaram 
as trombetas e rompeu a peleja aos gritos costu- 
mados de S. Thiago e S. Jorge, dados respecti- 
vamente por uns e outros. Alguns bisonhos 
fugiram alerrorisados para Trancoso, e, perse- 
guidos pela cavallaria ligeira, tiveram que ir 
acolher-se aos seus, determinando-os esse inci- 
dente a resistirem com vigor, em termos que 
não só repelliram a investida dos castelhanos, 
senão que por sua vez os acommetteram pon- 
doos em dispersão e fuga, causando-lhes grande 
perda, resgatando toda a prúsa que levavam na 
bagagem, perecendo Castanheda e os demais ca- 
pitães, com excepção de um que escapou com 
08 ginetes, e de outro a quem perdoaram para 
que lhes desse a conhecer os mortos; quanto aos 
vencedores, padeceram pouco, e não morreu ne- 
nhum dos caudilhos. 

• Na Historia do arcebispo D. Pedro Tenório 
pelo doutor Eugenia de Narbona, suppõe-se a 
sua presença n'essa expedição e combate e que 
logrou escapar com alguns pagens em Giudad- 
Rodrigo: deve, porem, duvidar-se, porque todos 
os chronistas se limitam a dar Castanheda como 
chefe principal. 

«Com respeito á data d'esta acção, variara as 
opiniões: Âyala, Mariana e outros historiadores 
collocam-n'a no mez de julho; Froissart, com 
inconcebível absurdo, n*uma quarta feira de ou- 
tubro de 1384; Fernam Lopes e a Monarchia 
Lusitana no mez de maio, sem determinarem 
dia; João Baptista de Castro, no Mappa de Por- 
tugal, no mesmo dia de S. Marcos, que cae a 
25 de abril, a menos que queira dizer S. Marco, 
que é a 18 de junho; e o dr. Norbona, na citada 
Historia de D. Pedro Tenório, 8uppõe-n'a acon- 



tecida em junho. À meu juizo é menos erróneo 
collocal-a em maio, porque o rei de Castella 
soube o acontecimento estando ainda em Elvas, 
e consta que a vinte se encontrava jã em Madri- 
gal, e porque o de Portugal recebeu a noticia 
em Guimarães.» 

Agora faremos algumas rectificações ao sr. Xi* 
menez de Sandoval. 

Erradamente cita o illustre escriptor hespa- 
nhol como desavindos os três fidalgos beirões 
que nomeia; d'esses, só o estavam dois, Gonçalo 
Vasques Coutinho e Martim Vasques da Cunba. 
João Fernandes Pacheco, physionomia profuD* 
damenle portugueza, foi o medianeiro, foi quem 
conseguiu que os dois se reconciliassem e bata- 
lhassem juntos. 

Contra o que o sr. Sandoval escreve acerca 
da versão de Fernam Lopes, devemos citar o 
seguinte período do sr. Pinheiro Chagas: «Qoe 
o fizeram forçados (trata se de os castelbanos 
acceitarem a batalha) é evidente, porque são 
concordes em dizel-o o chronista portuguez e 
o chronista castelhano. Este ultimo, contem- 
porâneo do successo e chanceller do seu rei 
D. João I. >E os castelhanos vendo, diz Fernam 
Lopes, que em toda a guisa não se escusava 
pelejar, salvo se quizessom deixar a cavalgada 
que traziam, e fugir por esses montes cada um 
como melhor podesse, quilhes era coisa vergo- 
nhosa, houveram accordo como fariam. E con 
verguenza de esto ovieron d^ir a pelear», diz 
Ayala. O testemunho é insuspeito.» ^ 

Também o sr. Sandoval parece attribuir a 
victoria dos portuguezes ao desespero com que 
voltaram a combater os bisonhos que fugiram, 
e que eram os lavradores das cercanias, quando 
aliás não voltaram, deixando no campo apenas 
trezentas lanças dos fidalgos, e alguns besteiros, 
para resistirem a um exercito castelhano de dois 
mil homens; o que também destroe as palavras do 
sr. Sandoval quando mais adiante escreve que 
08 castelhanos, posto tivessem inferioridade nu- 
mérica, tinham por si a boa qualidade da tropa. 
Tinham a seu favor a quantidade e a qualidade, 
uma e outra cousa. 

Vejamos agora quaes seriam as causas d*este 
fevez experimentado pelos castelhanos. 

> Historia de Portugal, vol. n, pag. 68, 



historia de Portugal 



851 



Ao Br. Pinheiro Chagas quer prarecer que a 
rivalidade existente entre os fidalgos portugue- 
268, convertendo- se em emulação, fora um inci- 
tamento para todos. 

O sr. Sandoval entende que Castanheda era 
tão valoroso como arrojado, faltando- lhe a pru- 
dência militar, e, por isto, e pela confusão que 
a fuga dos pagens e bagageiros originaria, ex- 
plica a rasão doesse desastre «que pôde conside* 
rar-se preludio e modelo em menor escala da 
grande catastrophe que ia verificar-se em Alju- 
barrota, para a qual contribuiria pelo influxo de- 
plorável que difundiria nos soldados castelhanos, 
e pelo estimulo e confiança que deu aos portu- 
gueses», palavras suas. 

Resta-nos agora examinar qual foi a impressão 
d' este feito de armas produzida nos soberanos de 
Portugal e Castclla. 

D. João de Portugal ficou sobremodo jubiloso 
quando a Guimarães lhe chegou noticia da victo- 
ria de Trancoso, mas o seu jubilo não tardou a 
ser perturbado pela participação de que o porto 
de Lisboa acabava de ser bloqueado por uma ar< 
mada castelhana. Portanto, D. João deu-se pressa 
em partir de Guimarães com o condestavel, e no 
seu trajecto para o sul do reino recebeu em 
Coimbra uma proposta de alliança por parte do 
rei de Navarra, se bem que estas negociações 
não tivessem seguimento, pelo que, como diz 
Fernam Lopes, não ha porque fazer mais de- 
tença n^esle ponto. 

Quando chegou a Penella, que tinha voz por 
Castella, já encoutrou a bandeira nacional has- 
teada no castello, que havia sido tomado pelo 
povo. Em Torres Novas, que lhe resistiu, os por- 
tuguezes tiveram que escaramuçar com os cas- 
telhanos, vencendo-os. Em Santarém também 
houve escaramuça, cabendo igualmente a victo- 
ria aos porluguezes. D. João j, continuando a sua 
marcha para o sul, enviou o condestavel ao Aiem- 
tejo para recrutar tropas, dando-lhe Abrantes 
como ponto de reunião. 

O condestavel, partindo a desempenhar a sua 
missão, chegou a Évora, onde lavrava certo des- 
animo, por isso que as tropas da guarnição, ba- 
Tendo tentado ir soccorrer com mantimentos a 
guarnição de Arronches, tinham sido batidas pe- 
los castelhanos no caminho. 

Todavia, o condestavel procurou reanimar o 



espirito dos eborenses, e, tendo allici,adò dois 
mil peões e, trezentos besteiros, veio reunir-se 
em Abrantes com o rei, que eíTecti vãmente ahi 
o estava esperando, tendo recebido algum reforço 
de Lisboa, do qual faziam parte cem inglezes. 

Quanto ao rei de Castella, desesperado com a 
desagradável impressão do revez de Trancoso, 
— impressão que o próprio sr. Sandoval não 
dissimula, — atravessou a fronteira e veio sitiar 
Elvaà, que o celebre Gil Fernandes defendia. 
Sabendo porém que tinha chegado ao Tejo a 
esquadra castelhana, composta de 12 galés e 46 
naus, segundo Ayala, resolveu alargar as opera- 
ções e expediu ordem dando como ponto de reu- 
nião a todas as tropas Ciudad-Rodrigo. Mas antes 
de sair de Elvas, o rei de Castella praticou atro- 
cidades, que ScbsBÍlcr fulmina em liogungcm 
clieia de vehemencia e indignação. Mandou mu- 
tilar prisioneiros portuguezes, o que deu logar 
ã retalliação por parte de Gil Fernandes. 

Comquanlo o rei de Castella estivesse visivel- 
mente impaciente de reunir p seu exercito em 
Ciudad-Rodrigo, sem esperar por algumas forças 
que ainda faltavam, taes eram as que D. Carlos 
de Navarra commandava, reuniu, segundo o es'> 
tylo, o seu conselho, onde, como sempre acon- 
tecia, as opiniões se digladiaram. 

A respeito dos conselheiros do rei de Castella 
conta Lozano, nos Reyes Nuevos, o seguinte cu- 
rioso facto: Que, por occasião de ser acclamado 
rei de Portugal o mestre de Aviz, alguns conse- 
lheiros do monarcha castelhano o incitaram a 
emprehender outra campanha, porque (não quero 
roubar à phrase o piltoresco característico da 
língua hespanhola) juntando Castilla todas sus 
fuerzas pondria en un pufio á Portugal ^ y el 
que se llamaba rey tendria á dicha escapar 
huyendo: esta jactância casteUana, pondera o 
escriptor hespanhol, nos tiene hoy como nos 
tiene (escrevia em 1666), y nos puso entornes 
cual nos puso. Bien me entiende el entendido. 

Queriam uns quo invadisse o reino com todo 
o exercito, que procurasse tomar com elle Lis- 
boa, porque com essa conquista acabaria natu- 
ralmente a guerra. Outros eram de opinião que, 
em vista das derrotas do anuo anterior, do re« 
cente revez de Trancoso, e do estado de saúde 
do rei, não entrasse elie pessoalmente, arriscao- 
do-se a ter que ^trar em batalha, e achavam 



352 



Historia de Portugal 



acertado que do resto do an no se fizesse guerra 
gverreada^ ilividirido as tropas pelo norie, centro 
e sul de Portugal, destinando-as a incursões 
activas, emquanlo a esquadra náo fó Fúria des- 
troços em L'8boa mas em todo o litoral. 

D. João de Ca«tella estava já de tenção feita 
para continuar a guerra; com essa idéa sairá »Mle 
de Portugal quando levantou o cerco de Li^sboa. 
N*e8te ponto, dà-nos rasâo o sr. Sandoval, que 
diz: «D. João i linba, sem duvida, resolução for- 
mada, accorde com a opinião dos primeiros, mas 
limiiou-sc a indicar o desejo de executar uma 
incursão pela Beira para talar o pait, tornando 
logo a Casiella para adoptar a opinião dos se- 
gundos; ao que mui sensatamente lhe replicaram 
que Dão era honrosa para eile similhante caval- 
gada y nem cabia ao rei fazer almogaveria. Isio 
não obsiantH, sem esperar, como já se diíS^e, pelo 
infante de Navarra e pelo de Portugal, que man- 
dou lhe trouxessem do castello de Almonacid, 
ODde estava preso, com o fira de vôr se o infante 
com sua presença podia contribuir a perturbar 
os partidários inimigos, atravessou a fronteira 
a 8 de julho, e marchou por Almeida, Pinhel e 
Trancoso a Celorico, onde parou para tomar o 
castello e deixar guarnição, e onde, talvez sob a 
impressão de um fatal presagio ao ver-se alan- 
ceado de suas frequentes doenças, ditou e assi- 
gnou no dia 21 o celebre testamento que havia 
de occasionar tão serias difficaldades depois da 
8ua morte. » 

Durante esta marcha, o rei de Casteila conti- 
nuou a praticar atrocidades, que realmente des- 
toam da sua indoie mansa e socegada, segundo 
Lopes de Ayala, e das palavras com que, segundo 
Fernam Lopes, deffendeu em Sevilha a lealdade 
portugueza. Talvez que se devam attribuir ao 
desespero proveniente de tanto lidar em vão e 
âs exacerbações biliosas próprias das organisa- 
ções enfermiças, como a sua. Em Trancoso, como 
para vingar-se da derrota alli experimentada pe- 
las suas tropas, mandou arrasar a ermida de S. 
Marcos, que balisava o campo onde a batalha se 
dera. 

A 31 de julho ou no 1.* de agosto marchou 
j). João de Casteila sobre Coimbra, sendo trans- 
portado em liteira, em rasão da debilidade em 
que se achava. Diz o sr. Sandoval que esta mar- 
cha se effectnou sem opposição mas com mani- 



festos signaeí de retraimento e terror por parte 
dos poriuguczes, não sô por aniypathia aos cas- 
telhanos, senão pelo estrago que se dizia iam 
causando. N'este pas.-«o, e n'u:ma nota anterior, 
faz o sr. Sandoval rápida referencia ás atrocida- 
des». , de qui^ já falíamos. 

AcampHfido o seu exercito na margem es- 
querda dv) Mondf^jjo. enviou algumas tropas a 
fiizcr provÍ5ôes em Montomór-o- Velho, Soure 
e Aveir». As porias da cidade continuaram a 
permanecer fechadas, mas o rei de Casteila tam- 
bém não intentou forçai- as. Queimou uns arra- 
baldes, e tratou de reunir provi.«ões. 

No dia 7 ou 8, provavelmente, o exercito cas- 
telhano moveu se e foi pernoitar em Soure, onde 
se lhe apresentou um escudeiro portuguez com 
este recado de D. Nuno Alvares Pereira: «Direis 
a el-rei de Casteila, que meu senhor el-rei de 
Portugal, e todos os seus naluraes, que com elle 
estão, lhe dizem da parte de Deus, e do marlyr 
S. Jorge, que lhe não queira destruir sua terra: 
e que por serviço de Deus, sendo guardada a 
honra ri'el-rei roeu senhor, e ficando elle rei no 
reino de Portugal, que elle faria com ellê boa 
avença, qual fôr razoado e guisado, enâo o que- 
rendo elle desembargar, nem se partir de sua 
terra, que el-rei meu senhor o põe todo t)a mão 
de Deus, c o quer livrar por batalha, e esperar 
sobre esto o seu juizo.» O rei de Casteila res- 
pondeu affirmando os seus direitos á corda de 
Portugal, e que se o mestre de Aviz, e os seus, 
quizessem reconhecel-o, que não só lhes per- 
doaria, mas repartiria com elles as terras e os 
officios grandes y e que, se não estivessem por 
isto, que também appellava para a sorte das ar- 
mas. 

Continuando a marcha, o rei de Casteila foi 
dormir no dia 10 a Pombal, e a 11 ou 12 per- 
noitou em Leiria. Durante o caminho, baviam- 
se-lhe reunido não só alguns cavalleiros portu- 
guezes, procedentes das guarnições dos castellos 
que tinham voz por Casteila, mas também alguns 
castelhanos da tripulação da esquadra queíúiha, 
como dissemos, fundeado no Tejo. *X, 

Diz o sr. Ximenes de Sandoval que o rei d 
Casteila dera ordem para que as suas tropas acam 
passem nas proximidades de Leiria, mas que 
sendo preciso ordenal-as em mais desembara- 
çada posição, 86 estabeleceram para alem do 



Historia de Portugal 



353 



valle, na planície por onde se dirige a estrada 
de Aljubarrota. 

Vamos agora ao encontro de D. João i de Por- 
tugal, que deixamos em Abrantes. 

Em tão apertada conjunctura, o rei portuguez 
reuniu conselho para saber o que devia fazer. 
Coroo sempre acontecia, as opiniões dividiram- 
se. Queriam uns que se evitasse o lance de uma 
bdtalba, attenta a superioridade das forças cas- 
telhanas, e que penetrassem os portuguezes ne 
território inimigo, pela Andaluzia, com o que 
obrigariam os castelhanos a retroceder para li- 
bertarem o seu p&iz. Contra este alvitre revol- 
tott-se principalmente D. Nuno Alvares Pereira, 
declarando que era ridículo ir fazer guerra ao 
longe quando ella de tso perto nos tentava, e que 
sahirem do território portuguez o mesmo impor- 
tava que abandonal-o, preparando-se ensejo para 
a perda da capital. Esta opinião, contraria á pri- 
meira, levantou certa reluctancia, e o condesta- 
vel, despeitado com a opposiçâo que lhe faziam, 
marchou sobre Thomar com as tropas que havia 
recrutado no Alemtejo, dizendo que estava dis- 
posto a vencer ou morrer. 

D. João I, a quem a idéa de D. Nuno agra- 
dava intimamente, mandou-o chamar a fim de 
que retrocedesse, para que as tropas se encorpo- 
rassem n'um só exercito. O coodestavel respon- 
deu que não recuaria um passo, mas que faria 
alto esperando pelo rei, se elle effecti vãmente 
estava resolvido a dar batalha. Foi de Thomar 
que o condestavel enviou ao rei de Castella a 
mensagem que já conhecemos, e foi ahi que 
D. João de Portugal veio reunir-se com elle. Em 
vista da resposta do rei de Castella, os portu- 
guezes seguiram avante, indo, no dia 11, acam- 
par junto de Ourem. D*este sitio foi enviado ao 
rei de Castella nova mensagem por um escudei- 
ro, cuja principal missão era inteirar-se bem 
das forças dos castelhanos. 

No dia 12> que era um sabbado, o acampa- 
mento dos portuguezes foi transferido para Porto 
de Hoz, e d^ahi, na manhã seguinte, avançou o 
condestavel em direcção a Leiria com o fim de 
sondar os movimentos do exercito castelhano. 
Gastou, porem, todo esse dia em observações. 

Na manhã do dia 14 marcharam as forças 
portuguesas em ordem de combate para o logár, 
a uma légua de distincia» sobre o caminho que 
II voL. — 45. 



váe de Leiria a Aljubarrota, que o condestavel 
julgou conveniente para esperar batalha. 

O rei de Custelta, logo que avistou os por- 
tuguezes, enviou lhes os parlamentados Diogo 
Alvares, irmão do condestavel, e Pedro Lopes 
d*Ayala, o chronisla castelhano doestes succes- 
sos. Âppsar de eloquentemente procurarem um 
e outro convencer os portuguezes de que seriam 
derrotados, attenta a superioridade numérica do 
exercito castelhano, as suas advertências foram 
despresadas. Qual seria, porem, o motivo que 
levara o rei de Castella a enviar estes dois par- 
laraentarios? A sua doença, segundo SchaelTer, 
que o trazia desalentado, e as admoestações do 
próprio Ayala, que lhe aconselhava o papel de 
Cunctator, Mas não faltavam conselheiros me- 
nos prudentes em torno de D. João de Castella, 
e esses, entre os quaes D. João Aflbnso Tello, a 
esse lempo conde de Hayorca, opinavam por 
uma batalha immedíata. Pois bem, assim se 
fez. E é justamente no dia em que nos achamos, 
14 de agosto de 1385, que ella se yae dar. 

CAPTÍULO II 

Forças de um e outro ezeroito. — O logar da 
batalha. — Hovimento dos oaatelhanoa e 
dos portuguezes.— A batalha. — Viotoria 
dos portuguezes. — Despojos e perdas do 
inimigo. — Considerações. 

Na descripção d'esta batalha, importantíssima 
para os destinos de Portugal, vamos seguir pri- 
meiro o mais auctorisado chronísta portuguez, o 
velho Fernani Lopes, offerecendo-lbe por vezes 
como commcntador o sr. Ximenez de Sandoval, 
por nos parecer que é esse um meio eíficaz de 
apurar a verdado híslorica. 

Sobre as forças de um e outro excTcito, Fer- 
nam Lopes diz que as do rei de Portugal eram 
ao todo mil e setecentas lanças, oitocentos b(^.â- 
teiros, e quatro mil e quinhentos infantes; e que 
as do rei de Castella eram dois mil ginetes, oito 
mil besteiros, e quinze mil infantes, ao todo mais 
de trinta mil, incluindo os fruncezes, assim como 
entre os besteiros portuguezes haveria, como sup- 
pomos já ter dito, entre outros exlrangeiros, uns 
cem inglezes. 

Diz mais Fernam Lopes que os castelhanos 
traziam comsigo umas setecentas carroças, e 
muitas azemolas, em qué conduziam mantímen- 



864 



Historia de Portiigal 



tos o armas; bem como trazim oito mil cabeças 
de gado; e eogenbos de guerra, trons e bombar- 
das, em numero de dezeseís. Quaato apageos e 
azeméis, diz Femam Lopes, e d^outra gente de 
serventia, era tanta, que a vista da boste era 
espantosa cousa de vér. 

Quanto ás forças dos castelhanos, o sr. Xime- 
nez de Sandoval vae quasi.de par com Fernam 
Lopes, porque as computa, depois de ter addu- 
sido varias r9zões, em 32:000 combatentes, 'e 
12:000 nâo combatentes. Quanto ás portugue- 
sas, orça-as em 10:000 combatentes, e 3:000 
não combatentes, distribuindo-as por este modo: 

■gjRei D. João I com seus Corabaten- Nao cora- 
o * tes ua tentes 

|\ ministros, pagens, es- 
1 1 coita e gente de ser- 

|l viço 200 150 

I . O condestavel de Portu- 
^ l gal com os principaes 
g. ' ] cavalieiros e escudei- 
I j ros, e homens de ar- 
o| / mas; pagens e gente 

o'^\ de serviço- 1:900 1:000 

Corpo de auxiliares in- 

giezes, besteiros na 

I) maior parle 700 300 

£ ) Massa principal de peões, 

besteiros e ianceiros ou 

archeiros 7:200 500 

o I Pagens, conductores de 
li carroças, azemolas; 
ã ( gado; vivandeiros, etc. 7:200 1 :050 

Total 10:000 3:000 

N'este lance, e em resposta ao sr. Sandoval, 
temos que recordar as seguintes passagens de 
Fernam Lopes: «...e d'outros inglezes e fre- 
cheiros e outros homens de armas que eram 
por lodos outros duzentos»; ^ «. . .chegou Fer- 
nam Rodrigues de Sequeira, fronteiro-mór de 
Lisboa, com as gentes que ahl tinha e mais as 
da cidade, que eram cem lanças, contando vinte 
e uma de inglezes, que vinham com elles.a ^ 
A isto acrescenta o sr. Pinheiro Chagas: 
«Vinte e uma lanças vem a dar pouco mais 

^ Chronica de D. João J, 2.» part, cap. 38. 
* Id, 2.* part., cap. 55. 



de cem homens, que, juntamente com outros 
voluntários estrangeiros e com alguns porta- 
guezes, formavam os duzentos homens da ála 
esquerda.* ^ 

Isto quanto á cifra do corpo de auxiliares ex- 
trangeiros dada pelo sr. Sandoval. 

Como quer que seja, são muito para notar 
estas palavras do illustre escriplor hespanbol, 
referentes à desorganisação que a morte de D. 

« 

Fernando lançara cm todo o reino portuguez, 
especialmente no exercito: 

« Pacil é comprehender a confusão que origi- 
naria similhaote estado de coisas, e por isso 
sobe de ponto o mérito que adquiriu o chefe do 
movimento ao organisar a resistência, secun- 
dado por Nuno Álvares Pereira, por João das 
Regras, pelo arcebispo de Braga e demais com- 
panheiros, levantando o espirito do povo até 
inspirar cega confiança aos seus soldados, para 
que se apresentassem em campo aberto rosto a 
rosto de um inimigo superior e melhor consti- 
tuido.». 

Sobre o logar da batalha, o sr. Sandoval dá 
informações muito completas, procuradas em 
chronislas portuguezes e castelhanos. 

De todas essas noticias topographicas esco- 
lheremos apenas quatro, por serem as de aiaior 
auctoridade. 

D. João de Castella n'uma carta dirigida á ci- 
dade de Murcia, e escripta depois da batalha de 
Aljubarrota ^ diz o seguinte: «Elles fos portu- 
tuguezes) pozeram-se n^aquelle dia, desde pela 
manhã, n'uma praça forte entre dois arroyos, cada 
um de dez ou doze braças d'altura, e quando a 
nossa gente ali chegou, e viram que não os 
podiam acommetter por ali, tivemos todos que 
rodear para os atacar por outro ponto, que nos 
pareceu ser mais plano.» 

Pedro Lopes de Ayala escreve: «E veio {o rei 
de Portugal) para outro logar, que chamam Porto 
de Mós, e poz sua batalha a duas léguas d*ahi 
em uma praça que de dois lados era plana, 
havendo dois valies dos outros dois lados»; e 
acrescenta que o rei de Castella se postou «cerca 
d'elles (dos portuguezes} em uma planicie, e or^ 
denou sua batalha.» 

1 Hist de Portug. vol n, pag. 74. 

2 Yeoo na citada Memoria do ar. So&doval, a 
pag. i2i, Transcrevemol-a mais adiante. 



-y 



Historia de Portngftl 



855 



É exacto o sr. Sandoral quando diz que na 
carta de doação que o rei de Portugal fez à or- 
dem de S. DofDÍQgos do mosteiro que ediBcara 
em memoria do^seu triumpbo, exprime que foi 
entre Leiria e Aljubarrota que a batalha se deu; 
assim como ha uma referencia similbante no seu 
testamento, e outra no epitaphio do seu tumulo. 

Fernam Lopes é, n'e8te ponto, mais lacónico. 
Limita-se a dizer que D. João i partiu de Porto 
de Mós a estabelecer o campo, onde depois foi a 
batalba, que é dahi uma pequena légua, dando 
como sitio do recontro aquelle ponto da estrada 
hu ora fie feita a egreja de S. Jorge. 

Em vista doestas indicações, não ha motivo 
para duvidar de que a batalba se desse no sitio 
onde se encontra a ermida de S. Jorge (que se 
presume mandada edificar por Nuno Álvares), 
na estrada real de Coimbra a Lisboa, a três ki- 
lometroB e meio de Leiria, a dois e meio do 
mosteiro da Batalha, a doze de Aljubarrota, e a 
cinco de Porto de Hós. Pernam Lopes diz clara- 
mente que o logar da batalha ficava a uma pe- 
quena légua de Porto de Mós, exactamente os 
cinco kilometros calculados pelo sr. Sandoval, 
e que oulrosim ficava onde agora está feita a 
egreja de S. Jorge, Ayala escreve, como já vi- 
mos, que a distancia entre Porto de Mós e 
o campo era de duas léguas, mas o computo 
de um estrangeiro, feito em tão difficeis cir- 
cumstancias, não deve merecer maior fé, por 
muitos motivos, do que o de Fernam Lopes. 

Averiguadas, quanto possível, as forças dos 
dois exércitos, e determinada a topographia do 
campo de batalha, vamos seguir as evoluções das 
doas massas inimigas, que se preparam para dis- 
putar palmo a palmo a victoria. 

No arrayal portuguez soaram as trombetas 
antes de romper o dia. Devemos suppór que 
a aurora fora impacientemente esperada pelos 
nossos cavalleiros, que passaram a noite fazendo 
votos de bravura, dando largas k imaginação 
que os poucos annos e as tendências cavalleires- 
cas da época inflammavam. Um Gonçalo Eanes, 
de Gastello de Vide, jurara que seria elle quem 
descarregaria o primeiro golpe; Vasco Martins 
de Mello excedeu-o em arrojo jurando que elle 
próprio poria a mão no rei de €astelta. 

Depois de terem ouvido missa, e commungado 
muitos cavalleiros, o exercito portuguez poz-se 



em marcha. Nuno Alvares Pereira commandava 
a vanguaí^da, e o réi a rectaguarda. As bagagens 
iam no meio. Quando o nosso ex^fcito chegou 
ao logar escolhido pelo condestavel, eram cerca 
de sete horas da manhã. Tratou- se logo de dis- 
por as tropas em ordem de batalha, com a frente 
para Leiria, a fim de que podessem descoDrir o 
caminho que os castelhanos traziam. O sr . San- 
doval explica: «Bsta disposição ou ordem' de 
batalba, claramente explicada por Lopes, era, 
com ligeiras alterações, a mesma que estava 
adoptada como formatura ou ordem normal, em 
figura rectangular, com duas linhas ou azes á 
vanguarda e rectagarda, e duas alas para cobrir 
os flancos: o que pode dizer-se constituia uma 
formula geral nos exércitos da idademedia.» 

Das extremidades da primeira linha ou van- 
guarda, commandada pelo condestavel, partiam 
as duas alas: a da direita, commandada por Hem 
Rodrigues e Ruy Mt^ndes de Vasconcellos, era a 
chamada dos namorados, e desfraldava a sua 
bandeira verde, a cór symbolica da esperança 
amorosa; a da esquerda era formada pelos in- 
gleses e gascões, bomçns d'armas e besteiros, 
com alguns portuguezes aggregados, sendo com- 
mandada pelo gascão João de Moniferrat e por 
Antão Vasques. 

Na rectaguarda collocou-seo rei com a segunda 
linha, cujas extremidades avançavam até às alas. 
O sr. Sandoval calcila que a distancia entre as 
duas linhas seria de 600 a 700 metros. 

Por detraz da segunda linha, n'um espaçoso 
curral que ali havia, estavam as bagagens, car- 
roças, azemolas, etc, com uma força que lhes 
fazia guarda. 

«Menos madrugadores os castelhanos — diz o 
sr. Sandoval — é de crôr que não soassem as 
trombetas até que fosse dia claro e que com 
pouca diligencia gastassem muitas horas a ouvir 
missa, abater as tendas, carregar os carros e 
azemolas, ordenar as prevenções da marcha e 
formar as tropas, pois que já eram mais de dez 
horas quando no campo portuguez avistaram as 
primeiras avançadas pelo caminho de Leiria.» 

O aspecto das nossas tropas era por tal modo 
aguerrido, que o gascão João de Montferrat dizia 
a D. João I que tinha já assistido a sete batalhas 
campaes e que, sem embargu, nunca tinha visto 
soldados com lâo alegre c resoluto aspecto. 



I- 



; , 



356 



Historia de PortTiSid 






i 



Ús castelhanos, avistando os portuguezes, n&o 
qaizeram pelejar cocn elles de rosto, e tomaram 
para Aljubarrota pela parte que dá contra o mar, 
diz Fernao) Lopes. Portanto, dobrando sobre a 
direita, o exercito castelhano teve em vista fazer 
um rodeio para illudir o ataque de frente e en- 
volver a posição pelo lado de Aljubarrota, «no 
que, observa o sr. Sandoval, se proporiam evi- 
tar a passagem do arroyo e subir o declive, rá- 
pido por ali, logrando também dar as costas ao 
sol e ao vento». 

O rei de Portugal e o condestavel comprehen- 
deram immediatamente a manobra dos castelha- 
nos, e trataram de collocar o exercito de modo 
que desse a frente a Aljubarrota e não a Leiria. 

«Resultando, observa o sr. Sandoval, que am- 
bas as hostes executaram, a pequena distancia 
uma da outra, as manobras tácticas mais difficeis 
e perigosas no campo de batalha, as quaes só se 
podem coroprehender n^aquellas condições pela 
natureza das armas usadas: a castelhana fez um 
movimento de flanco, e a portugueza um cam- 
bio de frente á rectaguarda sobre o seu mesmo 
terreno^ sem a menor difBculdade e sem se hos- 
Ulisarem; pois não parece senão que era regra 
militar cavalleiresca, como nos torneios e duel- 
los pessoaes, aguardarem reciprocamente pre- 
vinidos para romper o ataque.» 

 medida que os castelhanos chegavam â 
planície, formavam a sua primeira linha esten- 
dendo-se perpendicularmente ao caminho d'Âl- 
jubarrota, e a uma distancia da portugueza que 
o sr. Sandoval calcula em 1 :500 metros. 

D. Nuno Alvares Pereira estava impaciente 
pelo rompimento das hostilidades. Sobre o seu 
cavallo de batalha andava por entre a vanguarda, 
e de uma àla para outra, posto o escudo do 
lado em que estavam os inimigos, com receio 
dos virotões que d'alguns logares vinham, diz 
Fernam Lopes. 

Os castelhanos iam fazendo tiros sobre os 
porluguezes, dos quaes morreram dois irmãos, 
facto que a principio causou má ímpres&ão entre 
os nossos; mas essa impressão dissípou-se logo 
que um escudeiro disse que tinha sido castigo 
de Deus, porque aquelles dois homens haviam 
entrado dias antes n'uma egreja e matado o pa- 
dre que estava dizendo missa. 

Oiçamos agora a descripção do terrível cho- 



que dos dois exércitos, feita pelo cbronista por- 
tuguez. 

«Os portuguezes, como os viram abalar, co- 
meçaram a avivar os corações, para os receber 
com bom esforço, dando ás trombetas moveram 
passo e passo em sua boa ordenança, o condes- 
tavel ante a sua bandeira e assim cada tim como 
lhe fora mandado; seu appellido a altas vozes 
eram Portugal e S. Jorge, e dos inimigoâ Cas* 
tella e S. Thiago. Avantajou-se Gonçalo AnneF, 
de Castello de Vide, que prometteu primeiro 
ferir de lança, e foi derribado, e acorrido, e le- 
vantou-se, e ao ajuntar das azes pozeram as 
lanças uns nos outros ferindo e puxando quanto 
podiam, e os peões e besteiros lançando em 
tanto muitas pedras, e virotões de uma parte á 
outra. Em isto os ginetes dos imigos provavam 
a meude d'entrar na carriagem dos portuguezes, 
mas tudo achavam apercebido de guisa, que lhe 
não podiam empecer. E se em este passo achar- 
des escripto que os castelhanos cortaram as 
lanças, e as fizeram mais curtas do que traziam, 
havei que é certo, e não duvideis, porque elles 
cuidavam de pelejar a cavallo, e quando viram 
a batalha pé terra, por se desembaraçar, e aju- 
dar melhor d'ellas, as talharam, o que lhes de- 
pois mais empeceu, que aproveitou, e leixadas 
as lanças das mãos, que a uns e outros pouco fez 
nojo, e jazendo um grade vallo d'ellas ante uma 
aze e outra, vieram ás fachas e espadas d*armas, 
não d'esta grandeza do tempo d'agora, mas tama- 
nhas como espadas de mão, grossas e estreitas, 
e chamavam-lhe estoques, e o primeiro logar 
onde começaram de pelejar foi junto com a ban- 
deira do condestavel, onde agora está uma pe- 
quena egreja de S. Jorge, que elle depois mandou 
fazer. Assim se encendeu uma forte, e crua pe- 
leja ferida de golpes, quaes os homens teem 
costume de dar, e não quejandos alguns escre- 
vem. Para que diremos golpes, nem forças, nem 
outras razões compostas por louvor d 'alguns, 
nem afermosentar historia, que os sizudoâ não 
hão de crôr, de guisa que de historias verdadei- 
ras façamos fabulosas patranhas, abasta que de 
uma parte e d 'outra eram taes e tamanhos 
golpes dados, como cada um podia apresentar 
àquelle que lhe cabia em sorte; de guisa que os 
muitos por subjugar os poucos, e os poucos por 
se verem isentos de seus imigos, lidavam com 



Historia da Portngtd 



857 



«M 



Ioda sua forga, sendo a Bua aze grossa d'aquella ^ 
maneira: e a dos porluguezes pequena, e sin- 
gela; e não a podendo soffrer foi rota por forga 
a sua vanguarda, e entrada poderosamente dos 
imigos, e aquelle magote de muita gente, que 
dizemos,* abriu um grande e largo portal, por 
que entrou a mór parte d'elles com a bandeira 
d'el-rei de Castella, e àcôrca da do coudestavel, 
onde foi a mór força da peleja. As alas, d*onde 
era Mem Rodrigues, e a outra de Âolão Vasques, 
quando isto viram, dobpáram sobre elles, e fica- 
ram então entre a \yrnguarda e a rectaguarda, 
onde uns e os outros pelejaram mui de vontade, 
de guisa que o som dos golpes era ouvido mui 
grande espaço a redor, e a âla dos namorados, 
que elles cuidaram desbaratar primeiro de todo, 
aqui foi havido dobrado afam e peleja, onde 
Mem Rodrigues foi muito ferido, e seU irmão e 
outros fidalgos d'aquella parte, mais que em ou* 
iro logar. 

«El-rei, quando viu a vanguarda rota, e o 
conde ém tamanha pressa, com grande cui- 
dado, e todos com elle, abalou rijamente com 
sua bandeira dizendo alta voz com grande es- 
forço: Avante^ avante, S. Jorge, Portugalf S. 
Jorge, Portugal, que eu sou rei, e tanto que 
chegou onde era aquelle áspero e duro traba- 
lho, leixadas as lanças. de que se pouco ser- 
viram, por azodá mistura da gente, começou 
de ferir de facha, e assim desenvolto e com tal 
vontade, como se fosse um simples cavalleiro, 
desejoso de ganhar honra e fama, e veio a elle 
por aquecimento Álvaro Gonçalves de Sandoval, 
bem mancebo e de bom corpo, ardido cavalleiro, 
casado d'aquelle anno, e como el-rei alçou a fa- 
cha descendo para lhe dar, elle recebeu o golpe, 
e travou por ella, e tirou tão rijo, que lh'a levou 
das mãos, e fel-o ajoelbar d*ambos os joelhos, e 
foi logo levantado muito azinha pêro sobreveio 
o nobre Martim Gonçalves de Macedo, homem 
fidalgo, que bem servia el-rei em estes trabalbos; 
e quando Álvaro Gonçalves alçou a facha para 
lhe dar, elrei esperou o golpe e tornou-]h*a a 
tomar por aqúella guisa, e quando lhe quizera 
outra vez dar, jazia já morto pelos que eram 
presentes, que o mais â pressa fazer não pode- 
ram, porque cada um tinha assaz que ver em 
si: e sendo a batalha cada vez maior, e mui fe- 
rida de ambas ^é partes, prouve a Deus que a 



bandeira de Castella foi derribada, e o pendão 
da divisa com ella: e alguns castelhanos come- 
çaram de voltar atraz, e os moços porluguezes, 
que tinham as bestas, e muitos dos outros, que 
eram com elles, começaram altas vozes a bradar 
e dizer — Já fogem ! já fogem l — e os castelhanos, 
por não fazer d'elles mentirosos, começaram 
cada vez de fugir mais. 

«El-rei de Castalla olhando a batalha e vendo 
que a fortuna de todo em todo era favorável aos 
porluguezes, de guisa que sua bandeira era já 
abatida, e muitos dos seus voltavam atraz, e se 
acolhiam as bestas, que achavam, por haverem 
mais toste de fugir, trigou-se como quem não 
sente dôr, por logo partir; antes que mais visse 
como se perdia a batalha dé todo, e desceu da 
mula em que estava e puzeram-n'o em um ca- 
vallo, em que. à pressa começou de andar, não 
bem acompanhado, e cheio de temor, e levou 
direita estrada caminho de Santareno O bom de 
Vasco Martins de Mello, que devotara prender 
el-rei de Castella ou lhe pôr as mãos, seguiu o 
alcanço acerca de légua, por sua promessa fazer 
verdadeira; e só, sem outrem, cm cima de um 
cavallo, por chegar a elle, metteu-se entre as 
gentes que o acompanhavam, e sendo conhecido, 
pela cruz de S. Jorge, que era portuguez, foi 
logo morto. . .» 

Tal foi, segundo a descri pção auctorisada de 
F. Lopes, o choque dos dois exércitos; como 
conira-prova, recommendamôs ao leitor a carta 
em que o rei de Castella historia â cidade de 
Murcia os preliminares, os episódios e o resul- 
tado da batalha. ^ 

1 cDon Juan, por la gracia de Dios, Rey de Cas- 
tiila, de LeoQ, de Portugal, etc. AI Goncejo, y Al- 
caides, y Alguacil, y Gavalleros, y Escuderos, y 
hombres buenos de la muy Noble Ciudad de Mur* 
cia, Salud, y gracia.— Bien sabeis, como por otras 
nueslras cartas os embiamos á contar el mal, y 
daão, y perdida, que nos sucedió ã nos, y á los 
nuestros por nuestros pecados, y de los nuestros; y 
porque entónces con nuestra dolência, y por. venir 
tau ilaco, no os pedimos mandar escrivir las cosas 
tan largamente como pasaron, y como habiamos 
voluntad de os las escrivir, os las diremos ahora. 
Sabed, que Lúnes catorce dias de ette mes de 
Agosto, hubinios batalla con aquel traydor, que so- 
ba ser Maestre de Avis, y con todos los dei Reyno 
de Portugal, que de su parte tenia, y con todos los 



858 



BiBtoiia de Portugal 



D. João de Gastella devia ter chegado a San- 
tarém da uma para as duas horas da madrugada. 
Em Santarém, -entrou n'uma barca que o condu- 
ziu, Tejo abaixo, até Lisboa, para embarcar n'uma 
das galés da sua esquadra surta em frente da 
cidade; «sem aguardar, diz o sr. Sandoval, no- 
ticias do resto do exercito, e sem tomar provi- 
dencias a respeito dos fugitivos e manutenção da 
praça: disse elle que o estado da sua saúde o 
impossibilitou de caminhar por terra, mas bem 
podia tomar algum descanço, socegar e dispor 
depois o conveniente ás circumstancias. Triste e 
abatido devia ir com effeito, e motivos sobravam 
para que maldissesse da sorte, arrancando-se os 
cabellos, como diz a carta do arcebispo de Braga 
e a Chronica de Lopes, pois que nSo deixaria de 
paesar-Ihe pela mente o juizo severo que d'elle 

otros extranjeros, asi Ingleses, como Gascones que 
con él estaban, y la batalla fué de esta manara. El- 
ba se pnsieron aquel dia desde Ia roafiana en una 
Plaza fuerte entre dos arroyos, de fondo cada uno 
diez ó doce brazas, y quando nuestra gente ai llegó, 
y vieron, que no les podian acometer por alli, hu- 
bimos todos de rodear para venir á ellos por otra 
parte, que nos pareció ser más llano; y quando lie- 
gamos á aquel Lugar era yá hora de vísperas, y 
nuestra gente estaba muy cansada. Entónces los mas 
de los Cavalleros, que con nosotros estaban, que se 
habian visto en otras batallas, acordaban, que no 
diese esta en aquel dia; Io uno, porque nuestra 
gente iba fatigada; y lo otro, para mirar la gente 
Portuguesa como estaba. Mas toda Ia otra nuestra 
gente con la voluntad que habian de pelear, fué- 
ronse sin nuestro acuerdo allá, y nos bailamos con 
ellos, aunque con mucha flaqueza, que habia catorce 
dias que ibamos camino en litera, y por esta causa 
no podíamos entender ninguna cosa dei campo, 
como cumplía á nuestro servicio. Despnes que los 
nueslros se vieron fronte á fronte con ellos, ballaron 
três cosas; Ia una, un monte cortado, que les daba 
hasta la cinta; y Ia segunda, en Ia frente de su ba- 
talla una cava tan alta como un hombre hasta la 
garganta; y.la tercera, que Ia frente de su esquadron 
estaba tan cercada por los arroyos que la tenian ai 
rededor, que no habia de frente de trecientas y 
quarenta, á quatrocientas lanzas. Pêro aunque esto 
estaba asi, y los nuestros vieron todas estas diíicul- 
tades, no dexaron de acometerlos, y por nuestros 
pecados fuimos vencidos. Nos viendo nuestra gente 
desbaratada, y rota, fui monos para Santaren, y de 
allí nos venimòs por mar en un barco armado á 



faria a historia, pelo infeliz papel que como sol- 
dado, como general e como monarcha represen- 
tou n'esta jornada.» 

O testimunho é insuspeito, porque é um bes- 
panhol que falia. 

D. Gonçalo Nunes de Gusmão marchou cami- 
nho de Santarém, posto não fosse perseguido 
pelos portuguezes. Em Santarém soube que o 
rei de Caslella tinha embarcado, e, esperando 
talvez algumas horas para que as tropas e os ca- 
vallos descançassem, atravessou o Tejo, dei- 
xando em Santarém a guarnição que encontrara, 
e que não tardou a fugir, abandonando a forta- 
lesa e os prisioneiros. 

Aos primeiros alvores da manhã poderam os 
portuguezes certificar-se da completa retirada dos 
castelhanos. Os habitantes das povoações circum- 

Lisboa, para nuestra flota, por quanto por nuestra 
enfermedad no podíamos subir á cavallo. Estu vimos 
asi dos dias, y mandamos quedar alli nuestra flota, 
y hacer ai ganas cosas que cumpUan á nuestro ser- 
vicio; y mucha gente nuestra de los que estaban en 
nuestro Reyno de Portugal, se fueron á nuestra flota; 
y venimonos despues á SevilU en três galeras, y 
llegamos aqui lúnes veinte y dos dias de este mes 
de Agosto, donde nos fué forzado detenenios aqui, 
por la gran enfermedad que teniamos, y j)or orde- 
nar algunas cosas que cumplia. Y Díos queriendo, 
entendemos partir de esta Ciudad para Castilla de 
aqui á quatro ó cinco dias; por quanto con la ayuda 
de Díos, y de todos vosotros los de nuestros Reynos, 
de quien creemos, que sentireis el mal, desonra, y 
perdida que babemos recibido; entendemos com 
brevedad haber venganza de esta desbonra, y co- 
brar lo que nos pertence. Y porque nos, y los nues^ 
tros no quedemos cora tan gran verguenza, y lasti- 
ma, babemos ordenado de hacer tales cosas con 
vosotros, como cumpla ai servicio de Dios, y honra, 
y provecho nuestro, y de nuestros Reynos; y que 
Ias Cortes se hagan en Valladolid. Entendemos co- 
menzar por el primer dia de Octubre primero que 
viene. Por lo qual os mandamos, que nos embieis 
luégo á la dicba villa de Valladolid dos hombres 
buenos y honrados de entre vosotros, con vuestra 
procuracion bastante; porque nos, con consejo de 
ellos, y de los que alli se juntaren, ordenemos lo 
que entendiéremos que cumple á nuestro servicio, y 
á honra, e provecho de nuestros reinos. Dada en Ia 
muy Noble Ciudad de Sevilla, á 29 dias de Agostc. 
dei aíio dei Nacimiento de nuestro Sefior Jesu- 
Ghrísto de 1385 aflos. Nos el Rey.» 









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Aljubarrota.— Terminada a batalha, Ant&o Vasqnes de Almada, 
apresenta a D. João I a bandeira d'el-rel de Castella 



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Historiai de Portugal 



860 



postas desceram eqtlo ao campo da baitalha para | dreceram insepnilo^, como die Fernam Lopes, 



dar sepultura condigna, porque os outros ou apo- 
1 Panorama, toI m, pag. ii4. 



esse respeitável trem aamiseina; aamininao, 
n&o obstante, a possibilidade, seria innegavel 
que ficaram de legitimo tropheu.» 



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&pr68<9IlGli U J>. u\jv^\j X et ua>iiuoix» «aoa-awa «aw <wM,Mtow«*«* 



Historia de Fortagal 



859 



postas desceram eotio ao campo da bsitalha para 
festejar a victoria, e posio não seja grandemente 
generoso é com tado bem patural que fossem 
persegaiodo e matando os fagitivos. N^este mo- 
mento, colioca a tradição portuguesa a heroici- 
dade da padeira de Mjubarrota, que nos parece 
iadiscutivelmente apreciada nas seguintes linhas 
de Alexandre Herculano: «Se imaginarmos qu» 
uma mulher, armada com uma pá, venceu e der- 
rubou sete. soldados em peteja igual, a tradição 
é absurda e incrível; mas, se attendermoe a que 
estes sete.homeos podiam ser assasioados depois 
da batalha, quando as gentes d'el-rei de Castelia, 
cheias de fome e cansaço, se derramavam pelos 
arredoires de Aljubarrota, sem offerecerem a mi- 
Dima resistência a quem as accomettia, de que 
Bão testemunha os antigos cbronístas, ent&o a 
façanha da celebre padeira, perdendo grande 
parte do seu^maravilhoso, se torúa possível. Re- 
dusido assim à possibilidade, este successo tra- 
dicional, quer real quer fabuloso, tem em quaU 
quer dos casos um valor histórico; porque é um 
symbolo, uma expressão da id!éa viva e geral dos 
portugueses d'aquelle tempo, o ódio ao domínio 
estranho, e o rancor o()m que todas ^s classes 
d'indeviduos. guerreavam aquelles que prelen» 
diam sujeital.-os a esse domínio.» ^ 

D. João I, fatigado das enormes eommoções 
d'aqueUa fuemoravel jornada, deitára-se, se- 
gundo se diz, sobre um banco de pedra, tendo 
Antão Vásques d^Almada a idéa de lhe cobrir os 
pés com a bandeira real de Castella. O que é 
certo é que este quadro, muito natural em tal si- 
tuação, correspondia n'esse momento a uma per- 
feita cópia da realidade dos acontecimentos po* 
líticos. 

D^ois de ter repousado, o rei de Portugal 
foi, acomi^nhado por um prisioneiro castelha- 
no, e por muitos cavalleiros portaguezes, exa- 
minar os cadáveres, que alastravam o chão. Os 
castelhanos haviam deixado no campo a fina flor 
dos seus cavalleiros^ e alguns dos portugueses 
que seguiam a causa do rei de Castella, sendo 
do numero d'estes o conde de Mayorca, D. João 
Affonso Tello, irmão da rainha D. Leonor, único 
dos inimigos a quem o rei de Portugal mandou 
dar sepultura condigna, porque os outros ou apo- 

1 PcMorama, vol m, pag. 114. 



dreceram insepulto^, como diz Fernam Lopes, 
ou foram enterrados em valta", no campo, como 
diz frei Manuel dos Santos, o que se acceíla fa- 
cilmente como medida hygienica, sobretudo se 
attendermos em que se estava em agosto. Os 
cadáveres dos portugueses foram condusídos ao 
mosteiro de Alcobaça, e ahi sepultados. Entre os 
prisioneiros castelhanos 6cou em Portugal Pedro 
Lopes d'Ayala, que, depois de se haver resga- 
tado por trinta mil dobras, voltou a Castella, e 
foi chronista destes acontecimentos. 

D. João I demorou-se três dias no campo, por- 
que assim o exigisse a tradição cavalleiresca ou 
por medida de prudência. O rei rendia graças a 
Deus e à Virgem por Ine ter sido dado o trium- 
phar de Ca£telia, ao paço que o seu exercito 
recolhia os despojos opimos do inimigo. 

Toda a gente sabe que D. João i erigiu o 
mosteiro da Batalha, que doou á ordem domi- 
nicana, em remembrança da victaria qve no& 
deUf da batalha que ouoemos com aquelle que 
se chamava rei de CasteUa, entre Leiria e Alju- 
barrota, como diz a carta do doação. 

Acerca dos despojos dos castelhanos,- diz Fer- 
nam. Lopes: tAH (no campo) foi achada gran 
riqueza de prata, e ouro, e jóias, e guarnimen* 
tos de desvairadas guisas; como bem podeis en- 
tender, que traria tal rei e taes senhores: como 
com elle vinham não por se tornar de guerra 
começada, mas por continuar no reino até se 
socegar, como em cousa que haviam já por sua: 
e isso mesmo cobraram cavallos, e mulas, e 
azemolas, e armas, e outras muitas e boas cou- 
sas que seria longo de nomear: dé que el-rei 
nenhuma cousa tomava a quaesquer, que as em 
poder tinham. » 

A este respeito commenta o sr. Sandoval: 

«É muito para extranbar que entre essas boas. 
coisas não cite e se occupe dos dezeseis trons ou 
bombardas que anteriormente diz pertencerem 
ao exercito hespanbol, como tão pouco que volte 
a fallar d'ellas; circumstancia que, unida ás con- 
siderações que emittimos, e ã de que nenhum 
escriptor português faça menção do destina que 
se lhes deu ou aonde foram parar, induz ã du- 
vida que nos cabe de que, com efifeito, houvesse 
esse respeitável trem d^artiibeiria; admittindo, 
não obstante, a possibilidade, seria innegavd 
que ficaram de legitimo tropheu.» 



) 



Historia de Portng&l 



>ulro capitulo, proâegue Fernam Lopes: 
c as nobres cousas que se em esta batalha 
am, foram achadas outras de muita valia, 
ito de praeer foram as baadeiras e pendões 
ei de Gastelia, e dos seabores e capitães, 
m sua companhia viobam, das quaes trazia 

quatro das suas direitas armas, que são 
lios e kões, c as de Portugal mescladas com 
por misio da bandeira, contra o cabo, se- 
o já temos tocado, e isto porque se cbama 
ei de ambos os reiaos: e estas foram acha- 
a repo&te (equipagem); e-estas quatro ban- 
s com outra, que foi tomada na batalha, 
lou el-rci a Lisboa, e mais dois balsões 
ei isso mesmo de sua divisa, cujo campo 
erde, e em meio um falcão, que nas môos 

um bom mote, que em lingua francesa 
Em bom ponto ^ e outro era todo cheio de 
8 de ouro, e outro de prata^ e diziam ai- 
que o haviam, que aquillo queria significar 
3lrei era senhor de dois reinos, e que pelo 
se entendia Gastelia e peia prata Portugal.» 
las bandeiras maodouas D. Jofto i para a 
Lisboa, ignorando-se até quando estiveram 

como desappareceram. Has observa o sr. 
oval: «Só em um livro castelhano encontro 

episodio que demonstra que no século xv 
a alguma, ou algumas, na egrejado mosteiro 
ilalba. » É de presumir que as bandeiras cas- 
nas, transferidas da sé de Lisboa para a 
a da Batalha, fizessem parte dos preciosos 
}jos que d'este templo levaram os francezes 
L810, depois de a'elle haverem praticado 
les irreverências. 

litas deviam ser as armas encontradas, e 
ibendidas; das azemolas e carros, conje- 
. o sr. Sandoval que se perdessem mais de 
de, «mas — observa — como tudo isso proce- 
m grande parte das requisições feitas desde 
rada em Portugal, não experimentou omisso 
vel damno o reino de Gastelia. > As tendas 
impanha, que jà se tinham principiado a 
r, cahiram em poder dos vencedores, in* 
io a do rei de Gastelia, que era luxuosa; 

se serviu D. João i quando em 1387 o du* 
e Lan castre veio a Portugal, 
ando frei Mauuel dos Santos escrevia a sua 

aça illustrada ainda existiam, n^este mos- 
tres grandes caldeiras de metal, despojos 



de Aljubarrota. Hoje apenas se oenserva ba cha- 
mada solados reisum dos famosos caldeirões. ^ 

Em poder de D. João i ficou um sceptro do rei 
de Gastelia, de cryslal e ouro, ou prata dourada, 
que o monarcha português offereceo depois ao 
convento do Garmo de Lisboa. Parece que serviu 
na coroação de D. João iv, e que se samin, 
por occasião do terremoto, nas ruínas d'aqiiene 
templo. 

A este respeito, observa o sr. Sandoval: 

«Mo tenho conhecimento de que os reis de 
Gastelia trouxessem sempre, e menos em tempo 
de guerra, esse signal distinctivo da jerarcbia; 
mas pode crôr-se que, destinado para os actos 
ou cerimonias de apparato official, o levasse 
comsigo para quando, uma vez na capital, exi- 
gisse o juramento e tomasse posse do reino de 
Portugal.» 

Dà Fernam Lo^s noticia de ter sido encon- 
trado por um escudeiro portuguez um precioso 
relicário que pertencia ao rei de Gastelia e que 
continha um fragmento do lenho da Vera Cruz. 

Parece que D. João i, attento o grande valor 
estimativo d^essa reliqnia, a comprara ao escu- 
deiro para oCfereceUa a D. Nono Alvares Pereira, 
o qual, passados annos, a ofifereceu ao convento 
do Garmo, por doação assignada em Villa Viçosa. 
Em 1658 o relicário foi roubado da sachnstia 
do Garmo com outros objectos preciosos; mais 
tarde averiguou-se quem tinha sido o ladrão, o 
qual não foi punido por este crime, por ter que 
ser justiçado por outro. 

Sobre esta noticia de Fernam Lopes, escreve 
o sr. Sandoval: 

«Não quadra bem essa riqueza de alfaias na 
equipagem e capella real de D. João i, estando 
em campanha, com a penúria em que consta se 
achava antes de emprehender as operações; mas 
sem duvida o costume e a devoçáo, exigiam que 
se não separasse de taes objectos, e também que 

t A inscripçflo respectiva diz assim: 

Canebas Antis 
> Vates. 
Hic ost ille lebes, Tolo Cantatus in Orbe, 
Quem Lusilani, duro, gens áspera, bellò, 
De Gastellanis spoliu memorabile caétris, 
Eripore: cibos hic olim coxerat hostis; 
At nuG nostri teatts sine fine triuphi.. 



Kiatoría âe Fortugvd 



361 



oe tivesse* como prolectol*e& nos trnn&es d<n guer- 
ra^ segundo parece que então fez, tonoando o 
retícario da catbedral de Burgos, a que perten- 
cia; 

«Uma passagem da Chr&nicaúe Proissart con- 
corre a dar Indícios de qoe effectivamente o rei 
ae 6eera acompanhar de certo luxo de jóias. 
Quando fugiu, ao ebegar a Santarém, diz que 
julgou pet*dido um rfco bacioete real, avaliado 
em 20:000 francos, que devia de ter cercadura 
de briJhaates e pedras preciosas; mas .que com 
grande prazer se lhe apresentou ali com elle 
um escudeiro que o levava, de nome Martinho 
Haren. » 

Entre os despojos do exercito castelhano, e 
particularmente entre os do rei de Casiella, cita- 
se um oratório de prata com lavores gothicos, 
que existe na oollegiada de Nossa Senhora da 
Oliveira, em Guimar&es, se bem que o cónego 
Oa^par Eeiaço seja de opini&o de que o oratório 
foi feito oom a prata que o rei D. João i offereceu 
á coHegiada. 

Fr^ Manuel dos Santos feita de uma cruz de 
cr^^taf guarnecida de prata dourada, de dois 
candelabros, imagens, e outros objectos, perteu* 
cantes àquelles despojos, que o monarcha ven- 
cedor doara ao mosteiro d'Àlcobaça. Pois que 
vinha com o rei de Gastelia a flor da nobresa do 
seu reino, é fácil de acreditar que, na precipita- 
ção da fuga, tivessem que abandonar muitos 
objectos preciosos, sobretudo de uso devoto. 
Mas a rapacidade das invasões francezas arreba- 
tou tudo quanto bavia de bom por templos e 
mosteiros. 

Na egreja da Batalha ainda boje se conserva 
um altar^ carcomido e incompleto, que se diz 
ter pertencido â capella volante do rei de Gas- 
telia. Âo^r. Ximenez de Sandoval não repugna 
aiBrediUir qua a tradição porlugneza, a respeito 
d'esta atoir^ BQivepdadeira, não obstante o si* 
leocio de frei Luiz de Sousa. A dois e meio ki* 
lometroa da Balalha^ m ermida decanto 'António » 
guardada outra altar que, ipostó aateja renovado^ 
parece datar, coidm> Oianteríòr, do século xiv, e 
que, h^polheae do sr. Saudovai, talveí perten* 
oesae a algum prelado ou grande senhor do se* 
quito ^castelhano. 

Na Bibliotheca Nacional de Lisboa existe uma 
bíblia em pergaudubo^ úi^/Uít», «om chapas e 
]] \0L.— 46. 



brocbns de metal, que estava no mosteiro de 
Alcobaça, e que alguns escriplorcs consideram 
procedeot»» dos despojos de Aljubarrota. O sr. 
Sandoval escreve: «Tenho por certo que esta 
Bíblia procede de Gastelia, que seja do meiado 
do século XIV, mas iiâo me quer parecer tão 
manifesto que ò rei D. Joãoi a levasse na sua 
cape41a de campanha.» 

Finalmente, também se falia de um falcão 
Gngido que se diz haver sido apanhado no campo 
da batalha por uns soldados visinhos da vilia de 
Pinbel, falcão que veiu depois a figurar no bra- 
são d'esta viila, poisado sobre um pinheiro. Esta 
circumstancia do pinheiro, faz crer ao sr. San- 
doval que o falcão seria vivo, que seria desti-* 
nado à caça, como era uso então, e que, ao 
fugir o rei, o falcão se refugiaria na rama do 
pinheiro. 

Ao terminarmos esta revista dos despojos, 
verdadeiros ou suppostos, do exercito caste- 
lhano, devemos dizer de passagem que dos 
combatentes portuguezes também se conservam 
alguns objectos, taes como a desbotada loriga 
que no dia da batalha vestia o rei de Portugal, 
e uma imagem de prata de Nossa Seobora, que, 
segundo a tradição, o arcebispo de Braga D. 
Lourenço Vicente trazia comsigo naqoelle dia. 
Tanto a imagem como o cadáver do arcebispo 
estão na sé de Braga. 

Quanto ao numero de mortos, que o exercito 
castelhano deixou no campo de batalha, não se 
pôde saber qual foi na totalidade. O sr. Pinheiro 
Gbagas escreve: «Devia ser enorme tanto pela 
consternação que houve em Gastelia, como por- 
que só d'homens d'armas ficaram no campo 
estendidos dois mil e quinhentos. Os peões 
mortos deviam ser muitos mais, porque, fugindo 
desordenadamente em todas as direcções, foram 
salteados pelos eamponezes, e pelos homens daa 
cidades e villas, que.se viogavam das suas crue^ 
zas d'outr'ora matando D*^les á vontade. » Diz o 
sr. Saudoval: «Resumindo, chegamos á conje* 
ctura de que sobre o campo de batalha perece-» 
riam uns 3:000 homens, e outros tantos nas 
cercanias e nos dias seguintes, ficando, alem 
d'e8tes, 4:000 prisioneiros, e como, seguudo se 
indicou, avaluamos em 8:000 os que retiraram 
com D. Gonçalo Nunes de Guzman, ^fàlta saber 
com certesa o destino de 14:000 paira completar 



862 



Historia de Portugal 



a totalidade do exercito. Carecemos de pormcoo* 
ree exactos; mas tendo dito que a massa princi- 
pal de iofaoteria, que não combateu nem chegou 
ao campo da acção, se retirou pelo mesmo ca- 
minho por onde ia marchando; e constando por 
indicações de oulros historiadores que o prin* 
eipe Carlos de Navarra acudiu á Beira a fim de 
proteger o regresso a Castelia dos restos da 
hosle, entrando com elles pelo lado de Ciudad- 
Rodrigo, pôde calcuiar-se ascenderiam a i 1 :000 
homens os que reunidos se salvaram n^essa di- 
recção; e que outros 3:000 em peloiões ou iso* 
ladamente lograriam evadir-se e penetrar em 
Castelia por differentes pontos da fronteira. O 
crescido numero dos não combatentes compartiu 
do perigo; mas, como na maior parte, iam com 
os carros e equipagens que abandonavam para 
fugir, e como muitíssimos eram portugueses 
conhecedores da terra, é de inferir que lhes fora 
fácil escapar ao perigo e chegar a salvo aos 
seus domicílios. 

«A perda da hoste portuguesa, continua o sr. 
Sandovai — deveu sem a menor duvida ser di- 
minuta, comparada com a castelhana, pois que 
consistiu apenas na que experimentou no com- 
bate; mas salta à primeira vista que pecca por 
exigua a avaliação de Fernam Lopes, a menos 
que nos 150 de que falia não queira referir-se 
unicamente aos fidalgos^ sem fallar da gente 
meuda. Reflexionando que pelejavam mesclados 
e corpo a corpo com armas iguaes, e tendo 
peiores defensivas, segundo diz o mesmo chro- 
nista, os portuguezes, é força convir que de- 
viam cair muitos mais do que os que asaignala, ou 
então demonstrar que, por efifeito milagroso, se 
embotavam, sem ferii-os, os golpes dos adver- 
sários, ao passo que elles eó com tocar-lbes os 
viam mortos por terra. Talvez seja exagerada 
a cifra de 2:600 dada por Poliodoro Virgílio, 
tendo em vista as ciroumstancias, incidentes e 
as forças que combateram, e não podendo ad- 
mittir-se humanamente que os castelbaaos se 
deixassem matar como carneiros, creio que serã 
calculo rasoavel suppòr n'um total de 1:500 a 
baixa effectiva que soffreram os vencedores. » . 

O sf, Sandovai procura defender este calculo 
eom a própria lição de Fernam Lopes. 

Conoo quer que seja, a barreira do tempo torna 
impeoetdravel a verdade. Sobre este ponta, como 



sobre outros muitos, principalmente no tocante 
ás guerras com Castelia n'esta época, o mais qae 
se pode fazer é defrontar as noticias de escri- 
ptores de ambas as nacionalidades, a 6m de que 
o leitor se habilite a formar a sua opinifto, com 
imparcialidade, iridependentemeote de precon- 
ceitos de túmido patriotismo, incompatível com 
o rigor da verdade histórica. 

O sr. Sandovai faz longas e minuciosas consi- 
derações sobre a batalha de Aljôbarrota, e as 
suas consequências» Não podemos reproduzil-as 
na integra, mas de nenhum modo deixaremos 
de trasladar as seguintes linhas, nas quaes está, 
para<> assim dizer, a synthese de todas as refle- 
xões do iUustre escriptorhespanhol: 

«Os erros políticos e estratégicos prepararam, 
pois, esta fatal jornada; e a fraqueaa de caracter 
do fflooarcha e a imperita arrogância de alguns 
dos seus cavalleiros, torpemente a compromette- 
ram. Outras deploráveis causas orgânicas, tácti- 
cas e disciplinaree, mas sobretudo a ausência de 
valor moral, de claro discernimento no com- 
mando da batalha, precipitaram o resultado qne 
se viu, convertendo em caXastrophe o que não 
devia passar de accidente, em funesta batalha 
decisiva o que podia ter-se limitado a uma acção 
perdida. » 

CAPITULO III 

Remuneração de aerviçoB. — Talverdo. — 
Xiifluenola doesta batalha no sentimento 
patrlotioo. — O rei em Traz-os-Montes.— 
Renovam-se as pretençoes do dnqne de 
Lancastre; sua vinda a Portugal. — Ca- 
samento de D. João I. — Sna gi^ave doença. 
. — Administração interna e externa. — Ne- 
goolaçSes para paz. 

• 
Depois da batalha de Aljubarrota, que é por 
SchsBffer considerada a mais 'meaoravel que se 
travou entre exércitos christfios na peaioanla his- 
panica^ D. João t de Portugal ievanloa^ae a toda 
a altura da sua magoaoimkisulft beroka, per- 
dpaado aos castelbtnoa que ainda féi encontrar 
encairalados nas egreías de Santarea, ao passo 
que D. João i de Castelia ponha a tratos horrí- 
veis quantos portuguezes encontrava para além 
da fronteira. 
Querendo remunerar os servisos do condes- 



Btetoria de Portugal 



863 



tayel Nano Alvares Pereira, o rei de Portagal 
fez*lbe mercê do condado de Ourem, pondo o 
agraciado por condição, por um justo orgulho 
que n^aquellas idades e circumstancias se per- 
cebe facilmente, que D. João não mais concede* 
ria qualquer outro condado emquento reinasse. 
Que differença entre aquelles tempos e os nos- 
aos, em que os condes avultam, e os heroes es- 
caceam ! 

Alem do condado que pertencera a João Fer- 
nandes Andeiro, o rei doou ao condestavel vários 
reguengos, villas, rendas e direitos. Estas mer- 
cês foram recebidas como perfeitamente justas 
pela opinião publica, se exceptuarmos uma parte 
da nobresa, e o dr. João das Regras, cuja emu- 
lação cresceu com a inveja. 

Kas ò condestavel, como se ainda quiíesse 
ampliar a justificação dos seus merecimentos, 
em vez de se deixar adormecer nos remansos do 
seu novo condado, tratou logo de a perceber- se 
para ir fater guerra offensiva a Castella, fosse 
por iniciativa do rei ou por iniciativa própria. 

Passando ao Atemtejo, de cuja província con- 
tinuava a áer fronteiro, Nuno Alvares organisou 
um exercito de mil lanças, dois mil peões e al- 
gUi^s besteiros, com o qual entrou pela fronteira 
de Badajoz, com animo feito de dar uma severa 
lição a alguns fidalgos castelhanos que blasona- 
vam de valentes, e simulavam arrancar-se os 
cabellos por não terem -estado em Aljubarrota, 
onde tudo, sem elles, correra mal. 

Nuno Alvares entrando em território castelhano 
tomou o castello de Villa-Garcia*, que encontrou 
desamparado, e recebeu abi uma mensagem dos 
fãnfarrôesB castelhanos que lhe mandavam por 
acinte tim feixe de varas, como symbolo do seu 
desejo de vergastar o condestavel portuguez. 
Nuno respondeu ao arauto que se viraria o fei- 
tiço cofitra o fêhiceiro e, proseguindo a sua mar- 
cha, dirigiu-se para os lados da aldeia de Val- 
verde, cujo nome um novo successo das armas 
portikguezas não tardou a tornar notável. 

Os castelhanos, que esperavam reforços, mar- 
charam sobre Valviprde, e D. Nuno acampou a 
légua e meia do rio Guadiana^ em cuja tra- 
vessia 08 de Castella esperavam contrarial-o 
tom vantagem. 

Recebidos pelos castelhanos os reforços que 
esperavam, e que eram na sua maior parte popu- 



lares indisciplinados, em cujo animo á lembrança 
de Aljubarrota devia fazer grande impressão, 
ficavam todavia com um exercito de vinte e tan- 
tos mil homens. 

Assim reforçados, marcharam a collocar-se 
nas margens do Guadiana, de modo que quando 
os portuguezes se aventurassem a atravessal-o, 
ficassem opprimidos entre dois fogos. Mas, Nuno 
Alvares, sem trepidar, pondo as bagagens no 
centro do seu pequeno exercito, poude romper 
ousadamente por entre os castelhanos que mar- 
ginavam o rio d'aquelle lado, deixando comtudo 
a rectaguarda para guardar as bagagens e fazer 
rosto ao inimigo. E assim atravessou com a van- 
guarda, não obstante a opposição que Ibe faziam 
os castelhanos da margem fronteira, opposição 
funesta papa muitos soldados portuguezes. 

O condestavel, com uma heroicidade que so- 
brepuja todos os sonhos de valor cavalleiresco, 
voltou, depois de ter deixado a vanguarda em 
terra firme, a buscar as bagagens, e, depois de 
as ter acompanhado, voltou de novo a buscar a 
rectaguarda, que correu grande perigo, como 
facilmente se pode imaginar. 

Feita a travessia, não obstante os exforços 
empregados pelos castelhanos para mallogral-a, 
toma-se vivo e rijo o combate. Os cartelhanos 
são desalojados de outeiro' em outeiro, mas 
a rectaguarda do exercito portuguez corre de 
novo grave risco. D. Nono voa em seu auxilio, 
saiva-a, volta depois para a vanguarda, que en- 
che de coragem com a sua presença e as suas 
palavras. Mas novo desastre ameaça a recta- 
guarda, o desanimo não se faria esperar muito, e 
no próprio espirito do condestavel houve decerto 
um momento de hesitação, porque julgou pr^ 
ciso implorar o auxílio divino. Apeiando-sedoseu 
cavallo de batalha, ajoelhou entre duas fragas 
a rezar. Depois, cheio de uma grande confiança 
religiosa, voltou a galope para o centro do seu 
exçrcito, animando-o com firmeza e enthusiasmo^ 
Mal que o virara de novo, os seus soldados pri- 
maram-se, a guerra recomeça com uma ^ 
tuosidade terrível. Ondas de combatentes , che- 
tem com medonho fragor. O mestre de Si tomar 
cahiu morto.. O novo mestre de Âlcanta^ limi- 
portuguez traidor, quer tomar o comcumja- 
avançar sobre os portuguezes, mas os cqueate^ 
nos, nobres e plebeus, desanimados, exiguezes 



864 



Histcvin 4o Partusia 



de forças, abatidos, reliram-se. Nuno Alvares Pe- 
reira, o épico vencedor de todas estas batalhas, 
bontem em Aljubarrota, hoje em Valverde, entra 
em Porlugal saudado na passagem pelo entbu- 
siasmo dos portugueses, que o considt ram um 
semi-deus. 

Exaltada a imaginaçào dos portuguezes pela 
febre da victoria, os feitos de bravura muUipli- 
cam-se por toda a parte, Antão Vasques, por 
exemplo., sae de Lisboa com quatrocentos ho- 
mens e entra por Castella tomando villas e cas- 
tellos; as adhesões á causa do rei de Aviz, como 
os castelhanos chamavam irouicamente ao mes- 
Ire-rei, o reconhecimento oflicial dos alcaides de 
vários castelios portuguezes, repetem-se como 
as, façanhas militares. 

Indo de peregrinação a Guimarãps, cumprir 
uma promeasa que fizera a Nossa Senhora da 
Oliveira, o que estava perfeitamente no espirito 
da época, D. João i marchou depois sobre a pro- 
víncia de Traz-os-Montes com o fim de tomar 
alguns dos castelios que ainda se conservavam 
fieis ao rei de Castella. 

Quando o rei seguia caminho de Chaves, rece- 
beu noticia da victoria de Valverde, que lhe en- 
viava o coi^degtaviel juntamente coro o pedido de 
desculpa para as suas temerárias façanhas, que 
decerto poderiam) ter posto em perigo de annul- 
lar-se o successo de Aljubarrota. 

A resposta do rei foi a remessa de uma nova 
jmercé: o titulo de conde de Barccllos para o já 
conde de Ourem. 

Pondo .aperrado C(}rco á praça de Chaves, D. 
JoâP I cortou;lbe a communicação com o. rio Tâ- 
mega, a fim de obrigar os sitiados a reoderem-se 
pel^ sede. Elles, porem, resistiram tão energics\- 
mente, que D. João i teve*que pedir reforço para 
Lisboa^ O qual lhe foi promptamente enviado. 
Simultaneamente coui as tropas que d'aqui lhe 
foram enviadas chegou a Chaves o condestavel 
Nuno Alvares, procedente do Alemtejo. O al- 
mVide, vendo-se tão poderosamente sitiado, leve 
deixrender-se, pondo comtudo a condição, então 
calcu> em uso, de que a sua resoJução apenas 
baixa <álída se dentro de certo praso o rei de Casr 

O sr.e não enviasse auxilio. 
com a |d'ondç poderia a infeliz rei de Castella 

Cofflíín'es8a occasião, o auxilio pedido? Pai:a 
impe&e^r des/orra, contava com a Fr^uça, em < 



cujo Ihrono se sentava n^esse momento o joven 
Carlos VI, influenciado por seus tios; Mas a 
França, constando-lhe que o duque de Laocastre 
estava disposto a fazer valer de novo oa direitos 
de sua mulher á. coroa de Castella, reaolviu fa- 
zer guerra ã Inglaterra, em proveito próprio, de 
preferencia a soccorrer o seu aliiado de Castella. 
Desanimado com todas estas contrariedades, o 
rei castelhano mandou dizer ao alcaide de Cha- 
ves que entregasse a villa, a qual logo foi doada 
por D. João 1 ao seu condestavel. 

Mas o que haveria de verdade ua noticia acerca 
das pretensões do duque de Laooastre ou de &oa 
mulher? Muito; tudo. O duque escrevera a D. 
João I participando-lhe a sua próxima vinda á 
península, para o que solicitava navios de trans- 
porte que 'lhe foram promptameate mandados 
sob o commando de André Furtado. 

Em seguida a Chaves, rendeu-se Bragauça, e, 
tendo então reunido um exercijbo numero&issimo, 
de mais de vinte mil hoipens, D. Jo&o i pensou 
em entrar por Castella pela província da fieira. 
Passando por Almeida, que ainda tinha voz por 
Castella, algumas escaramuças entre os seus sol- 
dados e 08 defensores da praça fizeram com que 
se empenhasse um ataque» cujo resultado foi 
victorioso para o rei. 

Combinou-se que o exerdto portuguez, divi- 
dido em três hostes, se reuniria defronte de Co- 
ria, para dar asa^to.a esta praça castelhana. 
Mas, a esse tempo, lavrava já certa discórdia 
entre os chefes do nosso exercito, devida príoci- 
palmente á emulação que tinham do condestavel, 
sobre cuja cabeça as merçôs reaes se accumula- 
vam, como temos visto. Fosse por desgosto pro- 
veniente d'estas rivalidades ou por ser a sua 
opinião contraria ao assalto, o certo é que D,. 
Nuno Alvares se conservou immovel com a soa 
hoste ao mom^to dos nossos investireoi com a 
fortaleza. 

« I 

. O fa^alto foi mal succedido, e o.rei mostron-se 
profundamente contrariado com o pfQcedimento 
do condestavel, que acudiu a descuipar-se. E se 
eSectivamente a causa da sua desobediência foi 
.qualquer rçsentimento, ooube justificar a sua 
(alta com excellentes razões, decla^ndp que fa- 
zer cercos sem engenhos de guerra apropriados 
o mesmo exa que sa.crificar improficuamente a 
vi.díi do^^ sitiantes. 



BiBtoríil ^9 i^ortiig^ 



866 



D. ioSko I resolveu-se a levantar o cerco, por- 
41116 Gzesseip peso uo eeu espirito as allegações 
de NuDO Álvares, ou porque os maotimentos co- 
meçassem a faltar do acaroparoento. 

Tendo chegado a Inglaterra a esquadra por- 
tugueza, o duque de Lancaslre embarcou com 
duas mil lanças, três mil besteiros, e grande nu- 
mero de peões, segundo Feroam Lopes, posto 
que Ayala fíxe as forças inglezas apenas em 
mil e quinhentas lanças e mil e quinhentos bes- 
teiros. 

* A 25 de julho de 1386, a esquadra portugueza 
aportava â Corunha, que se rendeu ao duque 
de Lancastre por falta de elementos de defesa. 
K'este porto da Gallizafoi que. os embaixadores 
do rei de Gastei la se encontraram com o duque 
inglez, 08 quaes confirmaram os direitos do seu 
monarcha ao throno castelhano e propozeram ao 
duque o casamento de sua filha mais velha com 
o herdeiro do throno de Gastella, D. Henrique. 
O ÍDgiez recusou esta proposta^ e dirigiu-se sobre 
S, Tbiago, onde recebeu npeqagem da nobreça; 
e, teudo reconhecido como legitimo papa Boni- 
fácio IX, nomeou novo arcebiapo e deão. 

D. João I, sabendo da aproximaçclko do du- 
que:, de Lancastre,. partiu immediatameqte para 
o Poeto, onde o condestavel se lhe reuniu, pre- 
parandp-^e para receber o sen hospede com o 
maior luzimento possivel.* 

Finalmente, no 1.° de novembro, o rei de Por- 
tugal e o duque ingkz avistavam-se em Ponte 
de HourQ, sob a barraca de campanJba que o rei 
castelihaao perdjera em Aljubarrota. 

D'e9sa entrevista resultou um tratado de al- 
liao^a offei^ÍYa e defensiva contra quaesquer 
inimigos dos dois contratantes, e como conse- 
quência d'eale tmtado a obrigaçâ,o do rei de Por- 
tugal, auxiliar com tropas, por oito mezes, a 
contar.^: primeira oitav^ do natal), ajs preten- 
sões do dl^]ue de Lancastre, ficando também 
cpmíbipadQ que D. João casaria qom uma filha do 
duque, a qual trairia. para a coroa de Portugal 
varias v^as. castelhanas, na faypothese.de que o 
duque triumpbaria. 

.;D)ahija lresroe2iea, isto é, a 2 de fevereiro de 
.1387, o rei de^.Portugal casavA, efiectivamente, 
pO Porto^com a segpnda filha do duque de Lan- 
castre, 0. Filippà, que preferira 4 primogénita, 
0. Gfilh^rioa, .pocqoe d'c8te ii^pdo julgava,-— e 



acertadamente julgava — evitar complicações por 
liticas, de futuro. 

. Fernam Lopes consagra um capitulo a todas as 
festas que por occasião do casamento do rei se 
fizeram no Porto. Jogos, danças, cantares, tudo 
isso houve em abundância, como era do estylo 
em taes casos. Houve um grande banquete, de 
que o condestavel, servidor de toalha e copa, foi 
mestre-8ala.'«Em quanto o espaço de comer durou 
—diz o velho chronista — faziam jogos á vista de 
todos homens, que o bem sabiam fazjsr: assim 
como trepar em cordas, e tornos de. mesas, e 
salto real: as quaes acabadas alçaram-se todos, 
e começaram a dançar: e as donas em seu bando 
cantando arredor com grande prazer. El-rei se 
foi emtanto para a sua camará, e depois de cea, 
ao serão, o arcebispo e outros prelados, com 
muitas tochas, accesas, lhe benzeram a cama 
d'aqúellas bênçãos, que a Egreja para tal acto 
ordenou, e ficando elrei com sua mulher, fo- 
ram-se os outros para suas pousadas.» 

Concorriam em D. Pilippa as mais levantadas 
qualidades do seu sexo, realçadas por uma sã edu- 
cação ingleza. No volume seguinte, por varias 
vezes fallaremos d'esta princesa, que pareceu 
predestinada para ser mãe de um grupo de prín- 
cipes a quem a historia é obrigadas tributar pro- 
funda admiraç&o e respeito. Portanto, noticiado 
o easam^nto do rei, tornemo-nos aos aconteci- 
mentos que viahamos descrevendo. 

Não poude facilmente D. João i organisar, no 
praso marcado, o contigente que devia pôr ao 
serviço da causa dp duque de Lancastre, e só no 
fim de março fd que o exercito apglo-lusp^ en- 
trara em forma pela Galliza, obstinando-se o con- 
destavel em marchar na vanguarda. 

Durante a ausência de seu marido, a rainha 
0. Fi'lippa, noiva de um mez, ficou investida da 
regência do reino. , 

O rei de Gastella tratava de guarnecer, não 
sem grande, difficuldade, como é de presumir, 
as fortalezas contra as quaes os invasores pri- 
meiro deviam investir. 

O rei de Portugal e o duque de Lancastre, che- 
gando diante de Benavente, não poderam tomar 
esta praça por falta de machiaas de guerra, limi- 
tando-se a talar c saquear os lQgare0 çircumja- 
^ntes, não sem que se travassem frequente^ 
conflictos entre os prqprios alliados, pçrtuguezes 



866 



Historia de Portugal 



e ÍDglezes, rixas que parecia obedecerem a uma 
antiga tradição, e que ciiegaraoi ás vezes a ser 
muito graves, como aconteceu, por exemplo no 
saque de Valdevez. 

Seguiu o exercito invasor a pôr cerco a Vil- 
las-lobos. Era um dia de espesso nevoeiro, e 
um troço de cavalleiros desgregou-se do resto 
do exercito, de modo que se acharam envolvi- 
dos pelos castelhanos, os quaes despediam so- 
bre elles uma chuva de dardos. No mais apertado 
doeste lance, um cavalleiro portuguez resolve-se 
a atravessar a toda a brida por entre os caste- 
lhanos, para ir pedir auxilio ao arraial portu- 
guez. Não tardou que voltasse acompanhado pelo 
condestavel, com o auxilio preciso. Os castelha- 
nos fugiram completamente assombrados das fa- 
çanhas que n'es8e dia presenciaram. 

Villas-lobos teve que render-se, mas o rei de 
Portugal, achando de si para si que este pro- 
cesso de ir tomando povoação a povoação era 
sobremodo moroso e fatigante, lembrou ao du- 
que a conveniência de ou voltar a Inglaterra a 
bUdcar maior exército ou de acceitar qualquer 
reconciliação por parte do rei de Castella. O du- 
que optou por este ultimo meio, que proporcio- 
naria o casamento de sua filha D. Gatharina 
com o príncipe castelhano D. Henrique, e o 
certo é que os dois alliados retrocederam para 
Portugal, separando-se os três chefes do exer- 
cito de modo que o condestavel voltou para o 
Àlemtejo, D. João partiu em romagem â Senhora 
da Oliveira de Guimarães, e o duque dirigiu-se 
a Coimbra para ver sua filha, a regente. 

No caminho, encontraram-se com o duque os 
embaixadores que lhe enviava o rei de Castella, 
que a esse tempo jã havia recebido de França 
um soccorro de duas mil lanças. 

Da entrevista com os embaixadores castelha- 
nos resultou que o duque de Lancastre renun- 
ciava às suas pretensões sob condição de que 
D: Catharína casaria com D. Henrique, recebendo 
elle duque, a troco do indemnisação pelas des- 
pezas de guerra, seiscentos mil francos deouro,^ 
e uma pensão annual de quarenta mil francos. 

A fim de tirarem o duque de Lancastre de sob 
a immediatá protecção do rei de Portugal, te- 
merosa para os castelhanos, ós embaixadores 
convidaram-n'o a ir para Bayona, que pertencia 
à Inglaterra, a fim de estar mais próximo do rei 1 



de Castella. O duque, satisfeito com o aspecto 
que as negociações haviam tomado, preparava-se 
para seguir para Bayona, mas seu genro adoe- 
cera perigosamente, quando, recolhendo da ro- 
magem a Guimarães, se dirigia a Coimbra, onde 
D. Pilippa o esperava. Bstava-se em julbo, e pa- 
rece que o rei adoecera de febres, de grande dor 
de quenturay diz Fernam Lopes. Por doente, pa- 
rou o rei nos paços do Corval, e ahi acudiram à 
pressa, desde Coimbra, a rainha e sen pae. É 
para acreditar tudo quanto o chronista diz da an- 
gustia de D. Filippa n'esse lance. Pobre noiva, 
que tinha vivido quasi sempre separada do ma- 
rido e que o via agora em perigo de vida quando 
justamente elle lhe ia ser restituído ! B depois 
que profundo sobresalto o de todo o paiz, que 
receiava, e com fasão, perder a suá independên- 
cia com a vida do seu novo rei ! D. Jo§o i man- 
dou chamar o condestavel, e fèz (estamento, 
perdoando por essa occasião, a pedido de seu 
sogro, ao conde D. Gonçalo e ao sen cúmplice 
Ayres Gonçalves de Figueiredo a conspiração de 
Torres Vedras. Mas, felizmente, o rei melhorou, 
e a familia real voltou a Coimbra, onde um cas- 
telhano tentou assassinar o duque de Lancastre, 
sendo condémnado a morrer queimado. Seria 
este castelhano incumbido superiormente d'a- 
quella missão? Sob o ponto de vista politico, a 
morte do duque de Lancastre nãò deixava de 
ser uma felicidade para Castella, porque d'este 
modo cessavam os compromissos tomados, e que 
foi levada a offerecer, não obstante o soccorro 
que a França lhe enviara, por o abatimento em 
que se achava devido aos seus i^ecentes desas- 
tres, e pelo receio que tinha da protecção do rei 
de Portugal a seu sogro. 

Restabelecido D. João i, o duque partiu para 
Bayona, no mez de setembro; embarcando com 
ò seu exercito, consideravelmente dízinfado. Bm 
Bayona conffrmou-se o tratado de reconciliação 
entre o duque e o rei de Castella, pactuando-se 
portanto o casamento de D. Catharina com o 
primogénito castelhano. Não tardou que se rea- 
lisasse este casamento, vindo a duquesa de Lan- 
castre a Castella visitar o rei seu primo. A fim 
de pagar ao duque os seiscentostkiil francos do 
tratado, o rei de Cãètellá lançou utúa peita pelos 
seus reinos, por conta dos impostos a receber. 

Temos Visto áté agora D. Jofth i tratando dos 



v. 



£aatori& de Portogid 



86? 



negócios da guerra; já é tempo de o apreciarmos 
na reaoioçào de negócios da admioistrasão pu- 
blica. 

Publicou o Qovo moQarcba portqguezum de- 
creto regulando a distribuigUo das presas feitas 
DO mar, de modo que o tbesouro real. e os ap- 
prebeosoree quioboassem em justa proporção; 
outro, legalisaado os contratos feitos pelos alcai- 
des portugueses no tempo em que tinbam voz 
por CasteUa. «Muitos queriam, escreve o sr. Pi- 
nheiro Cbagas, que taes contratos não fossem 
considerados validos, porque válida tamt^m não 
era a instituição abusiva dos tabeiliães por um 
fioberano illegitimo. Reconhecendo a verdade do 
principio, percebeu porem D. João i com o seu 
alto bom senso, as tristes consequências que a 
sua applicação teria na pratica, e ordenou que, 
apesar d^ísso, a validade permanecesse nos refe- 
ridos contratos.» Regularisou também a admi- 
nistração da sua casa na parte relativa ao soldo 
dos fidalgos que o serviam, ordenando que só 
fosse pago a quem o servisse com certo numero 
de lanças, para cortar o abuso de se estar pa- 
gando; aos filboa dos fidalgos desde que nasciam. 
Mandou pagar á republica de Geoova a impor- 
taacia dos navios que tinbam sido apresados du- 
raute o côrco de Lisboa. Depois reuniu cortes 
em Braga, nas quaes alguns fidalgos dissidentes 
lhe prestaram homenagem, reconbecendo o seu 
poder real, entre esses seu irmão o infante D. 
Diniz, o qual, porem, pouco tempo se bavia de 
demorar em Portugal. D. João i, sabendo que elle 
conspirava, maodou^o para Inglaterra sob pre- 
texto de uma missão diplomática; mas D. Di- 
díz quando ia de viagem, retrocedeu, sendo 
assaltado no mar por pescadores flamengos, os 
quaes pediram a 0. João i um grande resgate por 
seujrmão. O rei negou-se a pagal-o, fundamen- 
lai^o a recusa, aa desobediência do infante, o 
qual, baviendo sido a final posto em liberdade, 
gratuMltmente, pelos flamengos, ae recolheu de 
novo a Castelia. 

Schmffer accusa D. João j de não haver des- 
envolvido uma gramde actividade legislativa, que 
aeria de esperar do seu caracter viril, inspirada 
n!iUD profundo sentimento das necessidades da 
época. «DispoaiçC^ d'aUo. alcance, diz o histo* 
rUdoraUemão, que penetrem o âmago das coi- 
aaa, oomo as leis e aa decisões regias sobre os 



, direitos oppostos e os limites do poder e da ju- 
risdicção do jsoberano e da egreja, appareceu 
apenas aqui e alem, isoladamente, n'esta época 
de tranquillidade.» O er. Pinbeiro Chagas, lou- 
vando a maneira sensata por que Portugal atava 
relaçOes de estreita amisade com us potencias da 
Europa, faz observar, relativamente ú politica 
interna, que os caracteres dominantes d'esta po- 
litica foram a debellação das preteneões da no- 
bresa e do clero, e a introducção definitiva do 
direito romano na legislação portugueza. 

No volume seguinte, por varias \ezc8 falíamos, 
e largamente, de alguns actos tanto da vida como 
da administracçâo de D. João i, o que nos dis- 
pensa de inutilmente os relatarmos aqui. Assim é 
que, por exemplo, lá encontrará o leitor noticia 
da lei mental, que era um golpe vibrado á no- 
breaa, e que germinava no espirito do rei ao 
tempo da sua morte. 

Durante o reinado de D. João i alterou -se a 
chronologia até abi &ai uso, começando-se a 
contar os annos desde o nascimento de GbristOi 
sendo abandonada a era de Cezar. 

Sejam quaes for as censuras que se possam 
fazer ao caracter de D. João i como rei e como 
homem — por isso que nem o sol é isento de ma- 
culas—o que é certo é que elle logrou consoli- 
dar a independência de Portugal, tão viva e 
pertinazmente disputada por Castelia, acceitando 
para o seu tbrono a base democrática que o be- < 
roico povo portuguez argamassara com o seu pró- 
prio sangue. Não discutiremos se D. João i foi 
grande por si mesmo, ou por felizes circumstan- 
cia^ que parecessem empenhadas em propiciar- 
Ihe a gloria. O que é certo é que em redor da 
sua coroa ha uma atmosphera de gloria, de re- 
nascimento histórico, de progresso, como dize- 
mos á moderna. Como homem teve a felicidade 
de possuir uma família cuja respeitabilidade 
grandiosa ainda boje se faz admirar; como rei, 
teve a felicidade de não ficar nunca inferior ás 
circumstancias que o destino punha em de redor 
do seu tbrono. Uma vida nova sente-se latejar 
sob as paginas da historia do seu reinado. As 
artes bracejam os primeiros renovos de uma glo- 
riosa efflorescencia. A architectura principia a 
escrever a cinzel o grande poema da Batalha, 
onde o est jlo gothico penetra n'uma grandiosi- 
dade monumratal. A Utteratura encontra culto- 



Ò^È 



Historia de Portugal 



res mesmo dentro do paço real, onde os livros 
não tardarão a allíar-se com as espadas n^uma 
convivência fraternal. O oceano vae cooverler-se 
dentro em breve n'um dos mais famosos tliea* 
tros da gloria porlugueza; a expedíç&o contra 
Ceuta rasgará o vóu azo) que as aguas boje va- 
poram para toucar-se e até enl&o emanavam para 
occultar-se mysleriosamenle. Todos estes acon- 
tecimentos, seja qual fôr a maneira de apreciar 
D. João I, são outros tantos fascículos luminosos 
que, enirecrusando-se para fazer moldura ao per- 
fil do rei pcrtuguez, lhe dão um esplendor com 
que raros monarcbas teem entrado os umbraes 
da historia. 

Mas, reatando a narrativa que estas consi- 
derações interromperam, fatiemos da continua- 
ção da guerra com Casteíla. 

O rei de Portugal está no Minho; o condestavei 
no Alemtejo. 

D. João i punha cerco a Melgaço, que offere- 
cia grande resistência. Empenhado em tomaUa 
por assalto, chegara mesmo a convidar a rainha 
para o ir presencear. Mas, por fim de contas, e 
a instancias d^alguns dos seus cavalleiros, accei- 
tou a capitulação, cujas condições foram rigoro- 
sas para a guarnição da praça. De Melgaço foi 
ei-rei sobre Monção. Depois veio a Lisboa, onde 
a rainha ficou. D*aqui foi tomar Gampo-Maior, 
que capitulou; voltando de novo á Lisboa, reu- 
nia as cortes de '1389, nas quaes se concerta- 
ram com o rei de Gastelia tréguas de alguns 
mezes. Mas ainda mesmo n'e8te anno, em agosto, 
a guerra recomeçava, tomando D. João i a praça 
de Tuy. Em vista de mais este desastre, o infe- 
liz rei de Gastelia enviou embaixadores a pedir 
mais longas tréguas. Gom effeito, estabelece- 
ram-se negociações, dirigidas pelo duque de 
Lancastre, e quatro paizes, Gastelia, Portugal, 
França e Inglaterra assignaram um tratado de paz 
por três annos. Todavia, o rei castelhano, se bem 
que as&ignasse o tratado por força de circumstan* 
cias, nutria o mais vivo desejo de continuar . 
a guerra com Portugal. Chegara mesmo a ter a 
idéa, que aliás foi repellida pelos seus eonse^ 
Iheiros, de abdicar a coroa de Gastelia em seu 
filho D. Henrique para se apresentar, simples pre- 
tendente, a dispotar a cdróa de Portugal, a fim 
de perder o odioso que a sua qualidade de rei 
castelhano tinha aos cibos dos portoguexed. 



A morte colheu-o porem, por desastre, em meio 
dVstes sonhos de rehabilitação, em outubro de 
1390, e seu filho D. Henrique foi proclamado 
rei, sob a tuteita de tima regência que traítoo 
de negociar a prorogr^ção da fregua por mais 
quinze anno<t, estabelecidas novas coodrções. 
Não as observaram, porem, lealmente os caste- 
lhanos; ao passo que uòs soltávamos, por exem- 
plo, como havia sido pactuado, os prisioneiros 
inimigos, os castelhanos retinham os prisioneiros 
portugueses, infligindo-tbes maus tratos. Sendo 
tatAbem uma das condições do tratado que se 
avaliassem os prejuizos soffiridos de parte a parte, 
e que fossem dad09 bens & execução na impor- 
tância d'es6es prejuizos, ou que se tomassem 
quando pacificamente não fossem entregnea, con- 
dição a que os castelhanos faltaram redonda- 
mente, D. João I, entrado o anno de 1395, resol- 
veu tomar de sobito uma praça aos castelhanos, 
como garantia do cumprimento da Condição, e 
da divida. A praça escolhida foi Badajoz; e a pes- 
soa a quem o rei confiou este desígnio, o cavai- 
leiro Martim AfTonso de Mello. 

Martim travou secretas negociações com una 
portuguez, de nome Gonçalo Annes, qiie vivia 
refugiado em badajoz por causa de um crime que 
commettera em Elvas, e a quem agradou o con- 
luio na esperança de obter perdão do rei. 

Quando Gonçalo Annes tinha já apalavrado o 
porteiro da cidade, o governador rastejou o con* 
luio, mas expulsou o agente português, que pro- 
testou mas não desesperou. Indo viver alguns me- 
zes em Sevilha, sustentando sempre secretas 
relações com Portugal, voltou depois a Badajoz, 
e poude conseguir que na noite de quinta feira 
d^Ascensfto, de 1396, fossem abertas as portas 
aos portuguezes, que tomaram a ddade de sa* 
bito. 

Peita a presa, D. João i enme embaixadores 
a Gastelia, solicitando o cumprimento do tratado; 
Henrique iii respondeu attivamente, dedara&do 
renovadas as hostilidades. 

A esse tempo, ntguós fidalgos portuguefees 
mostravam-se cada Ves máís deseoutentee, nfto 
se julgatido sufficientiemente pagos dos seuas»^ 
viços, ao passo qoe a mão real tioíbaaoGumriado 
Dumerosas meroéd sobre a cabeça do coddestavel, 
e porque a monarchia de D^ Jofeo i) uio sendo es« 
senciahnenle obra sua, ufto tUéa ioipiniva a a^' 



Historia de Portugal 



369 



dente convicção que é a mais segura salvaguarda 
dos prÍDcipios. 

Uma graude emulação lavraya priDcipalmente, 
como sabemos, entre João das Regras e Nuno 
Alvares, porque esses dois homens represenla- 
vam idéas differentes, oppostas, como nota o 
sr. Pinheiro Chagas: cKuno Alvares Pereira era 
o homem dos tempos cavalleirosos que findavam, 
e Mo das Regras o das diplomáticas eras que 
se abriam.» O condestavel, querendo galardoar 
oa serviços dos seus dedicados cavalieiros, fazi^- 
Ihes doações, ao pa^so que Jofto das Rpgras dizia 
■o rei que Nuno Alvares afT^antata as preroga- 
tívas reaea, e que estavu concentrando em ai um 
poder intolerável. D. João i procurou um meio 
conciliador: comprar aos Bdalgoa essas- terras. 
O coQde!itavel ofTendeu-Ee, quiz expatriar-se, mas 
a imtancias do rei rraolveu-se finalmente a ficar, 
pactuan(io-se «que o rei tomasse para si todos 
os vassallos que o conde e outros fidalgos tinham, 
e que outro não tivesse vassallos senão tlie, e 
que o conde tomasse para si as terras que dt^ra, 
o que feí contra vontade; e como as terras foram 
tiradas, el-rei poz a todos suas quantias, e assim 
ficou o condestavel socegado n'3quellaa que tinha 
de juro e herdade, mas as que eram de préstamo 
lhe (oi rorç03odeixare,como, mu/fllismuiandií, 
diz Fernam Lopes. 

Coincidiu com o momento da renovação das 
hostilidades o despeito do cotidestavel, que, sendo 
chamado pelo rei, respondeu que havia no reino 
mais fidalgos; instou de novo o rei para que o 
auiiliasse, e o condestavel respor^deu com não 
menor azedume. >Ao passo qu'^ dava estas res- 
postas duras ao seu rei, escreve o sr. Pinheiro 
Gbagas, sabem o que fazia? Estava reunindo ã 
pressa soldados para se vir juntar a D. João i, 
e, quando este menos o esperava, e passeiava 
em Santarém singularmente queixoso do proce- 
dimento do seu amigo, do seu irmão d'arma8, 
appareceu>lhe de suhito Nuno Alvares ã testa de 
dQdS mil lanças I Lançaram-se noa braços um do 
outro, e tudo esqueceram, anãoseraquellaami- 
sade fortíssima qné os unia desde qoe as sues 
espadas leaes tinham começado a reflectir, naa 
tolhas sem mancha, empunhadas pelas suas mios 
juvenis, 08 fulgidos raios do sol das batalhas.* 

Fidalgos castelhanos, reunindo com os des- 
contentes portugueies, leTantanun-se em bando 
n TOt.— 47. 



e incendlapam Vizeu. Feita a reconciliação entre 
o ni e o condestavel. queriam um e outro ir pu- 
nir a ousadia dos incendiários de Vizeu, entre 
08 quaes eslava Martim Vasques da Cuoba, mas 
como ouira partida inimiga andasse talando o 
Alemlejo, correram à Tronteira Iranstagana, sem 
que podessem encontrar o inimigo, que se deu 
pressa em fugir. 

Então Nuno Alvares ficou cm Évora, e o rei 
partiu para Coimbra. 

Cheio de novos entbnsiasmos, Nuno Alvarts 
corruu por Caalella a dentro até Cáceres, com a 
espada a'uma das mãos, e o facho incendiário 
oa outra. Ninguém lhe deu batalha, nem mesmo 
o mestre de S. Tbiago, apesar de siogularmeoto 
reptado. 

O rei, r«m um exercito de mais de quatro mil 
lanças, resolveu invadir a Galltza. 

SofTreu. porem, um grande desastre na passa- 
gem do rlú Uinho , que, não obstante ircaudaioso, 
oexercitosepropaz atravessara vau. Hettendo-se 
á agTja de noite, a escuridão e a corrente de tal 
modo embaraçaram a passagem, que muitos sol- 
dados porluguezes foram victimas do geu próprio 
arrojo. Não obstante, D. João i avançou, e foi si- 
tiar Tuy, sendo repellido no primeiro assalto. Ir- 
ritado, resolveu pflr cerco. Os sitiados mandaram 
pedir soccorro a Henrique iir, o qual concebeu o 
plano de atacar simultaneamente Portugal pelo' 
Alemtejo, pelo Minho, pela Beira, e por Lisboa, 
para onde navegou logo umaesquadra castelhana. 
D'eãte modo, estando o exercito portuguez divi- 
dido n'esse momento, e não podendo juntar-se 
por ter que reprimir a invasão por quatro pontos 
differentes, o rei de Caslella julgou a victoria fá- 
cil, tanto mais que tinha lançado mão do infaute 
D. Diniz, de volta de Inglaterra, convidando-o a 
apresentar-se como candidato ã corâa de Portu- 
gal, para captar as sympathias do povo. 

Com efTeito, D. Diniz entron pela Beira, que 
devastou, sem que as soas proclamações encon- 
trassem echo nos corações portugueies; Nono 
Alvares deu-se pressa em ir procural-o, mas oa 
fidalgos castelhanos que acompanhavam D. DÍdÍz, 
amedrontados pelo prestigio do nome do condes- 
tavel, aconselhBram-n'o a retirar. A esquadra 
castelhana, sendo fortemente combatida pelo 
povo de Lisboa, teve que virar de rumo. Na 
província do Alemtejo, os portugueses paseavam 



870 



Historia de Portugal 



desdeohosamerUe a fronteira, e voltavam victo- 
riosos. No Minho, D. João i obrigava TtJiy a ca- 
pitular peia pertinácia do cerco. 

Então, em vista d'estes revezes, Henrique iii 
mandou embaixadores a proporem a paz. Fi- 
xou-se um armistício de nove mezes para ser 
discutida. Os embaixadores portuguezes. o con- 
destavel, o bispo de Coimbra, Ruy Lourenço e 
Alvares Pires Escobar, gastaram todos esse es- 
paço de tempo a discutir com os embaixadores' 
de Gasteila, sem chegarem definitivamente a 
uma resolução. Baralhavam-se e digladiavam-se 
as pretensões. Os castelhanos, por exemplo, 
queriam a restituição de Badajoz e de Tuy; 
que a rainha D. Beatriz cazasse com o infante 
D. Affonso, segundo 6lho de D. João i, que 
morreu na infância; que se doasse ao infante 
D. Diniz um ducado em Portugal, etc. Os porlu* 
tuguezes não só não podiam acceitar estas con- 
dições, mas também faziam por sua parte exi- 
gências, taes como serem postos em liberdade 
os seus prisioneiros; que íís praças que os trans- 
fugas portuguezes tivessem entregado a Gasteila 
fossem restituidas, e elles expulsos, etc. 

Em vista do que, D. João i e o condestavel fo- 
ram sitiar Alcântara, que resistiu, fazendo porem 
ambos algumas escaramuças de que sahiram 
victoriosos. 

Mas, sendo impossível continuar este estado 
de cousas, D. João i mandou embaixadores ^ a 
Henrique iii, a proporem a paz. Oè castelhanos 
quizeram fazer-se fortes, pediram uma indemni- 
sação pela renuncia dos pretensos direitos ã coroa 
de Portugal, e insistiram na condição de que D. 
João I lhes daria auxilio contra os moiros. Mas 
os embaixadores portuguezes accentuaram de 
um modo cathegorico e firme as únicas condições 
aceitáveis para Portugal: restituição de Badajoz 
e Tuy a troco da entrega das praças portuguezas; 
Uberdade aos prisioneiros portuguezes; perdão 
aos transfugas portuguezes, com restituição dos 
seus patrimónios; promessa de soccorro a Cas- 
tella contra os moiros, mas sem o caracter de 
obrigação indeclinável. 

O rei de Gasteila, em face doesta attitude ener« 
gica, auctorisou os embaixadores a contratarem 

^ Foram o arcebispo de Lisboa D. João, João Vas- 
ques de Almada e o doutor Martim d'Ocem. 



uma trégua de dez annos, tendo-se combinado 
que, passados os primeiros seis mezes, a pax 
definitiva seria assignada. 

Não passou, porém, um só semestre, passaram 
muitos, Henrique in não queria abandonar, como 
seu pae, as pretensões á coroa de Portugal e, 
também como seu pae, morrera com ellas, fi- 
cando como regentes, durante a menoridade de 
D. João II, a rainha viuva D. Catharioa de Lan- 
castre, e o infante D. Fernando, tio do joven rei. 

D Gatharina, logo que se viu desembaraçada 
de algumas discórdias civis, entabolou com sea 
cunhado o rei de Portugal negociações para a 
paz, enviando embaixadores cuja pertinácia em 
quererem por parte de Gasteila uma indemnisa- 
ção' pecuniária fez com que as negociações abor- 
tassem. 

No seu empenho de contratar a paz, D. Gatha- 
rina de Gasteila abriu correspondência com D. 
João I n^esse sentido. Todavia ainda mais qua- 
tro annos decorreram sem que ella podesse ver- 
gar a vontade de ferro do rei de Portugal no to- 
cante á clausula de se obrigar a dar soccorro a 
Gasteila contra os moiros. Não tendo sido possível 
obter mais favoráveis condições do que as que 
tinham sido estipuladas na trégua, assignou-se 
finalmente um tratado de paz a 31 de outubro 
de 1411, sob clausula de que ficava ainda de- 
pendente da approvação do rei quando elle che- 
gasse à maioridade. Ora foi vinte annos depois, 
isto é, em 1431, que D. João ii de Gasteila, de- 
pois delongas hesitações, se resolveu a ratificar 
o tratado definitivo. 

Está pois completa a grande obra da indepen- 
dencia portugueza, missão trabalhosíssima a cuja 
frente o consenso popular coUocâra o mestre de 
Aviz. O leão de Gasteila será, pois, obrigado a 
conter-se dentro dos limites topographicos do 
seu paiz por quasi século e meio. Depois avan- 
çará para um predomínio de sessenta annos, 
mas de novo será repellido e vencido. 

Assim, pois, tendo nós supplantado a pode- 
rosa nação castelhana, depois de tantos exforços 
por sua parte para rehabilitar-se, e atando as 
mais estreitas, relações de amisade com a Ingla- 
terra, sendo até D. João i o primeiro soberano 
extrangeiro a quem foi conferida a banda da or- 
dem da Jarreteira, éramos uma nação respeitada 
e temida pelas mais cultas da Europa, estava 



Historia de Portugal 



371 



fiDalmente inaugurado o grande período do nosso 
esplendor e da nossa prosperidade, ao qual suc- 
cedeu infelizmente uma decadência cada vez 
maior e mais temeiiosa, 

CAPITULO IV 

A família de D. Jo&o I.— Espirito oavallei- 
roBO de seus filhos. — Primeira Idóa da ex- 
pedição a Ceuta. — Reeerras de D. João I 
a este respeito. — Doença e morte da rai- 
xiha. — Expedição a Ceuta. 

Emqnanto o rei de Portugal descança da tra- 
balhosa obra da independência da pátria recon • 
centrando as forças de corpo e alma que bade ir 
consumir em Geutà, fallemos um pouco da sua 
familia, não com a largueza que o assumpto me- 
rece, não só porque damos a este respeito mui- 
tas noticias na bistoria do reinado seguinte, mas 
também porque muitos dos 61hos de D. Jo&o i 
teem que figurar mais tarde separadamente em 
acontecimentos importantes. 

Pela ordem chronologica do nascimento, os 
filhos do rei de Portugal foram os seguintes: 

l.*" — D. Branca, que nasceu em Lisboa a 13 
de julho de 1388, e que viveu pouco mais de 
oito mezes. 

2.''— D. Âffonso, que nasceu em Santarém a 
30 de julho de 1390 e que morreu na infância, 
havendo comtudo duvida sobre o numero certo 
de annos que viveu. Está sepultado em Braga. 

3.'— D. Duarte, que nasceu em Vizeu a 31 de 
outubro de 1391, é que succedeu a seu pae. 
(Vide o terceiro volume.) 

4.® — ^D. Pedro, que nasceu em Vizeu a 9 de 
dezembro de 1392. Este infante representa um 
notável papel tanto na historia positiva como na 
legendaria de Portugal. É ao mesmo tempo o 
martyr de Alfarrobeira, e o viajante das sete 
partidas do mundo, 

5.*— D. Henrique, que nasceu no Porto a 4 
de março de 1394. É o promotor dos grandes 
descobrimentos marítimos de Portugal. 

6"— D. Izabel, nasceu a 21 de fevereiro dn 
1397, e casou com D. Filjppe o Bom^ duque de 
Borgonha. Esta princeza chega a representar 
um papel notável na politica europea, como no 
terceiro volume historiamos (principalmente a* 
pag. 29.) 



7.<^^D. JoSo, que nasceu em Santarém a 13 
de janeiro de 1400. Foi gran-mestre da ordem 
de S. Thiago e succedeu, no cargo de condesta- 
vel do reino, a D. Nuno Álvares Pereira Com 
cuja neta veiu a casar. 

8.*— D. Fernando, que nasceu em Santarém 
a 29 de setembro de 1402, e de cuja vida tra- 
taremos opportuoamente, é o infante santo ou 
pmíjíptf consíaníc, o captivo de Fez. 

Quaàdo ainda era simplesmente mestre d'À- 
viz, teve D. João i dois filhos naturaes, delgnez 
Pires, os quaes foram D. Âffonso, que foi conde 
de Barcellos e primeiro duque de Bragança, e 
D. Beatriz que casou com o conde de Aruadeí, 
e em segundas núpcias com o barão de Ircben- 
field. 1 

I < A mãe doestes filhos foi depois commendadeíra 
de Santos, divergindo, porem, as opiniões sobre a 
sua origem; alguns a suppozeram nobre; entretanto 
parece que seu pae era um homem do povo, cha- 
mado Pedro Esteves, natural de Veiros; alguns di- 
zem que tinha o officio de sapateiro, e^ue por tal 
forma se sentiu da deshonra da filha, apezar da ele- 
vação do amante, que, não se deslumbrando com a 
gerarchia do aoctor da sua infelicidade, jamais a quiz 
ver, e deixou para sempre crescer as barbas, d'onde 
lhe proveio o nome de Barbadão. Pretendem alguns 
que Barbadão quizera matar o mestre de Aviz, quando 
este ia de Aldeia Gallega para Montemor; mas que 
a coragem e a galhardia do rei o detivera; dizem ou- 
tros que n'essa occasião D. João se dirigira para 
elle, emquanlo estava como extático, e lhe pergun- 
tara: • Então quando havemos de acabar com esta 
melancolia?» «Quando acabar comvosco,» respondeu 
o pae da real amante; mas que afinal a galanteria 
e o grande animo do mestre de Aviz o arrastaram 
ao paço, e que por fim D. João largamente o pre- 
senteara. 

«D. Âffonso nasceu em 1370, e casou em 4 401 , com 
D. Brites Pereira, filha do condestavel D. Nuno Al- 
vares Pereira. Seu pae o fez peto seu casamento 
conde de Barcellos, e depois seu sobrinho, o rei D. 
Âffonso V, o fez duque de Bragança. Casou pela se- 
gunda vez, em i420, com D. Constança de Noronha, 
filha do conde de Gijon. Falleceu em Chaves em de- 
zembro de 146i. 

•D. Beatriz casou em 1405 com Thomaz Fitz 
Alan, conde de Arundel, primo segundo da rainha 
D. Filippa. El-rei D. João i enviou sua filha acom- 
panhada por seu irmão D. Âffonso com uma esqua- 
dra a Londres, onde se fizeram feçtas esplendidas 



í 



372 



Historia de Portugal 



Lançando um rápido olhar pela còrte de D. 
Jpão I, Dão podéoios deixar de reconhecer que 
um nohre perfume de cavallaria passa sobre ella, 
envolvendo n'um grupo encantador todas essas 
individualidades» graciosamente fortes, que para 
todo o sempre deixaram de existir. No terceiro 
volume fazemos uma observação que nos parece 
ser a mola real da organisação interna da familia 
deD. João i. A vinda da rainha D. Filippa, creada 
n*uma corte onde a pureza da mulher constituía 
um verdadeiro culto, acabara por levantar ainda 
mais o ideial da ínnocencia e da virgindade, 
ideial que chega depois até ao exagero de se 
tornar estensivo aos homens, como de dois dos 
filhos da rainha resa a tradição. Nas divisas da 
familia real ha não só um programma de governo, 
mas também de virtude. D. João i e D. Filippa 
subordinam os seus actos a estas duas phrases: 
• II me plait» e «Pour bien,» Ainda mesmo que 
a esta ultima divisa se dé a interpretação român- 
tica da legenda popular, não fica decerto deslus- 
trada por uma leviandade do rei, logo corrigida 
pela consciência do dever. ^ As divisas dos in- 

por occasiflo do seu casamento. Foi o contracto de 
casamento feito em 21 de abril de 1404; foram os 
negociadores: João Yasques de Almada e Martim de 
Ocem, por parte de Portugal, e João Wiltshire, João 
Soapp e João Wabeiate, por parte do conde. 

■O rei de Portugal deu a sua filha e a seu genro a 
somraa de doze mil e quinhentos marcos da moeda 
de Inglaterra, de que passou obrigação a 20 de abril 
de 1405. O casamento fez-se em Lambetb, perto de 
Londres, a 26 de novembro de 140o, na presença 
do rei Henrique iv de Inglaterra; deitou as bênçãos 
o arcebispo de Cantobéry. 

«Esta filha do mestre de Aviz, que, segundo di- 
ziam, tinha estado para casar com Mem Rodrigues 
de Vasconcellos, que na batalha de Aljubarrota com- 
mandava a ála dos namorados, enviuvou em 1415 e 
tornou a casar n'esse mesmo anno com o barão de 
Irchenlieid, Gilbert Talbot, de quem enviuvou em 
1419.. 

Francisco da Fonseca Benevides— itafn/iai de Por- 
tugal^ tomo I. 

> <Diz ella (a tradição popular) que D. João i em 
Cintra, passeiando com a rainha D. Filippa e as suas 
damas, se foi desviando um pouco do rancho com 
uma donzella, por quem tinha alguma predilecção, 
e a quem furtara um beijo, no momento em que a 
rainha, voltando-se, o surprehendeu em flagrante. 



fantes são por igual significativas: « TaUnl dê àien 
faire, divisa de D. Henrique; Desir^ divisa de D. 
Pedro, etc. 

Creados n*esta atmosphera verdadeiramente 
cavalleiresca, os filhos de D. João i, especial- 
mente os três mais velhos, D. Duarte, D. Pedro 
e D. Henrique, ardiam em desejos de ser arma- 
dos cavalleiros; mas a concessão d'es3a honra 
dependia da realisação de proesas militares, e 
D. João I, a fim de propiciar ensejo a seus filhos 
para obtel-a, bavia-se lembrado de fazer durante 
um anno brilhantes torneios para que seriam 
convidados os mais afamados cavalleiros de todo 
o mundo. Na anciã doeste desejo, os infantes con- 
versavam frequentes vezes, sobre a maneira de 
realisal-o, com seu irmão o conde de Barcellos; 
d'uma d^essas vezes, João Àffonso d'Alemquer, 
cavalleiro experimentado, iotrometteu-se na con- 
versação, alvitrando aos príncipes que mais hon- 
roso seria irem conquistar em Ceuta as suas 
esporas de ouro, porque ao mesmo passo servi- 
riam a si e a Deus, batendo-se contra os infiéis. 
Enthusiasmados com esta lembrança os filhos de 

cFoi por bem» acudiu o monarcha. Uma pega, acres- 
centa não sabemos se a tradição popular, se o poeta 
(Almeida Garrett) que tão elegantemente a pdz em 
verso, ouvindo a phrase, repetiu-a logo volteiando 
em torno da rainha. Em memoria do caso, se con- 
struiu nos paços em Cintra a celebre sala das pegas, 
onde innumeras d'estas aves estão pintadas, com a 
divisa *Por bem» a sair-lhes do bico. A poesia em 
que Almeida Garrett contou, com a sua inimitável 
síngelesa, e com o profundo conhecimentp que tinha 
do tom da poesia popular, esta graciosa anecdota, 
não está incluída (salvo erro) nas suas obras com- 
pletas, e foi apenas publicada^ primeiro (também 
salvo erro) n'um antigo periódico litterarío lisbo- 
nense, A lUtutraçãOs de que era redactor principal 
o sr. António Augusto Teixeira de Vasconcellos, e 
depois transcripta n'um dos Almanachs de lembran' 
ças. Foi ahi que a vimos. Começa pela seguinte qua- 
dra, que repete no fim: 

Gavião, gavião branco 
Vae correndo, vae voando; 
Mas não diz quem n'o feriu 
Gavião, gavião branco.* 

Pinheiro Chagas— fíMíorio de Portugal, vol. u. 
pag. 158. 



Historia de Portagal 



078 



D. loão I correram a commanical-a a sea pae, o 
qual, como era próprio do seu animo guerreiro, 
a apoiou. 

Se, porem, a febre da gloria atiçava os desejos 
dos infantes no sentido de nobilitarem-se por fei- 
tos d'armas, cumpria a D. Jo&o i n&o acompa- 
nhar precipitadamente a anciedade de seus filhos, 
mas preparar a guerra com prudente reserva, de 
modo a obstar a que os louros de Aljubarrota' po- 
dessem vir a ser calcados aos pés dos moiros de 
Ceuta. A fim de que esta cidade moirisca podesse 
8er devidamente estudada, recorreu a um estrata- 
gema. Mandou a Sicilia Affonso Furtado de Men- 
donça e Álvaro Gonçalves Coelho, sob pretexto 
de pedirem a mão da rainha para o infante D. 
Pedro; mas o verdadeiro motivo era proporcio- 
Dar-lbes occasiâo de tocarem em Ceuta, para 
estudarem a praça. Assim fizeram os embaixa- 
dores portuguezes, os quaes seguiram depois 
viagem para a Sicilia, sem que todavia a missão 
diplomática, que tinham tomado por pretexto, 
fosse bem succedida. 

Pouco importava isso. O que se queria, o que 
se precisava saber era se a expedição a Ceuta 
tinha probabilidades de victoria. E o que é certo 
é que não só os embaixadores portuguezes como 
todas as pessoas que o rei consultava â puridade 
sobre este negocio, fosse por influencia dos in- 
fantes, ou por enthusíasmo próprio, não faziam 
senão impellir o espirito do rei no sentido da 
expedição. ^ > 

Portanto, obedecendo á corrente da opinião, 
e a uma tendência do seu animo, D. João i tra- 
tou de fazer apercebimentos para a jornada de 
Ceuta, logo que o projecto mereceu também a 

1 cQuando ao regressarem (os embaixadores), de- 
ram conta da commissâo da Sicilia, el-rei quiz que 
Mendonça expozesse o que tinha averiguado com 
respeito a Ceuta. Sua única resposta foi assegurar a 
el-rei de que seria bera succedído na projectada em- 
presa e, instado por mais explicações, em vez de; 
relatar o que tinha visto e observado, contou a his- 
toria de uma prophecia, já realisada em parte, que 
ouvira quando menino a um mouro velho, que um 
rei chamado João, filho natural do rei defunto, 
seria o primeiro do seu reino que dominaria em 
Africa. 

«Recorreu el-rei depois ao prior de S. JoSo, mas 
parecia que lhe estava destinado receber respostas 



approvação da rainha, a qual todavia se oppoz a 
principio a que seu marido tpmasse parte na ex* 
pedição. Mas D. João i argumentou com o ser- 
viço que iria prestar a Deus, e a rainha deixou-se 
vencer. 

Logo que os preparativos de guerra princi- 
piaram, sobretudo depois que D. João i mandara 
afretar navios a vários portos da Europa, as na- 
ções sobresaltárkm-se, sobretudo as que mais 
convisinhavam ae Portugal. Contra quem seria a 
guerra? Ao certo não se sabia. A rainha regente 
de Castella enviou á corte de seu cunhado em- 
baixadores, que D. João I aliás tranquillisoa. O 
rei do Aragão fez o mesmo, e obteve resposta 
satisfatória. Então o rei de Granada, sabendo que 
D. João I não pensava nem em Castella nem no 
Aragão, receiou por si, e mandou embaixadores 
a Portugal. Também obtiveram resposta tranquil- 
lisadora, mas eomtudo ficaram suspeitosos, e em 
nome da sua rainha pediram a D. Filippa, a quem 
prometteram valiosos presentes para as núpcias 
de sua filha, que intercedesse junto de seu ma- 
rido. A rainha de Portugal respondeu que em 
Portugal era indecente que uma mulher se intro- 
mettesse nos negócios de seu marido, e que os 
presentes para sua filha os agradecia, dispen- 
sando -os, porque lhe não faltariam quando se 
tratasse das bodas. Cheios de' desconfianças, 
os embaixadores retiraram, e o rei de Granada 
tratou de pôr em estado de defeza o littoral do 
seu reino. D. João i receiou, porem, que estes 
preparativos de defeza se estendessem até Mar- 
rocos, e por isso, a fim de tranquillisar o rei de 
Granada, mandou embaixadores ao conde de 
Hollanda, com o pretexto de irem levar uma de- 

só em enigmas, porque este declarou nSo poder en- 
trar em pormenores,! emquanto lhe não trouxessem 
duas cargas de areia e dois alqueires de favas. Quan- 
do, depois de alguma hesitação, lhe apresentaram 
estes singulares aprestos, o prior figurou com a areia 
sete eminências, das quaes Ceuta ou Septa deriva o 
nome, indicou a dupla muralha para o lado de terra 
com as respectivas torres e cortinas, e representou 
com as favas o numero e situação provável das ca- 
sas, e, o que sobretudo era importantissimo, assig- 
nalou o sitio mais conveniente para se eflfectuar coiii 
segurança e rapidez o desembarque das tropas.» 

Life of prince Henry of Portugal^ por Henry Ma- 
jor, traducção portug. 



874 



Blstoria de Portugal 



daracSo de guerra, mas em verdade encarrega- 
dos pelo rei de lhe coDfidenciarem o verdadeiro 
fim da expedição. 

Âo mesmo tempo o infante D. Henrique era 
eocarregado de levantar tropas na Beira, o conde 
de Barcellos Entre-Douro-e-Minho, devendo em- 
barcar todas essas forças no Porto. O infante 
D. Pedro foi encarregado de fazer recrutamento 
nas provindas do sul. D. Duarte foi encarregado 
da administração da justiça e fazenda. O rei ti- 
nha especialmente a seu cargo os cuidados da 
armada. Peitos todos estes apercebimentos, D. 
João I publicou uma ordenança dizendo que to- 
das aquellas pessoas que voluntariamente qui- 
sessem acompanhar seus filhos, declarassem por 
escripto o numero de homens d'armas que tra- 
riam, sem todavia declarar qual era o destino da 
expedição. 

À esquadra organisada pelo infante D. Henri- 
que no Porto, composta de sete galeões, seis 
galeras, vinte e seis transportes e grande numero 
de fustas, viera juntar-se em Lisboa àquella que 
O infante D. Pedro organisâra e que, composta 
do oito galeões, a esperava no Tejo. 

Não foram poucas as pessoas que voluntaria- 
mente se alistaram. Entre ellas, apresentou-se 
ao infante D. Henrique um velho cavalleiro, Ay- 
res Gonçalves de Figueiredo, que orçava pelos 
noventa annos. «Á vossa idade conviria mais o 
repouso do que o serviço militar, dissera-lbe o 
infante.» 

O ancião respondeu: 

«Longe de mim taes pensamentos; emquanto 
DOS meus membros circular o calor vital, em- 
quanto as forças me não desampararem, não 
deixarei de seguir el-rei meu senhor a toda a 
parte aonde elle quizer ir. > 

Coincidiu, porem, com a organisação dos pre- 
parativos a manifestação d*essa terrível epide- 
mia tão vulgar na idade media, a peste, que 
simultaneamente atacava as populações de Lis- 
boa e Porto. 

O rei e a rainha estavam em Sacavém, mas 
como n'este logar foram atacadas de peste algu- 
mas pessoas, resolveram retirar-se para Odivel- 
las. O rei partiu logo, porem a rainha quiz adiar a 
partida por algumas horas, a fim de poder ouvir 
missa. Entretanto foi atacada de peste, mas não 
obstante partiu assim mesmo para Odiveiias aonde 



immediatameote foram chamados pelo infante D. 
Duarte seus irmãos D. Pedro, D. Henrique e o 
conde de Barcellos, que estavam no Tejo com a 
esquadra. Não se julgando comtudo gravíssimo 
o estado da rainha, os três irmãos recolheram 
ao fim da tarde a Lisboa, mas, tendo-se aggravado 
durante a noite os padecimentos de D. Filippa, 
D. Duarte tornou a chamar seus irmãos logo qne 
a manhã clarejou. 

Vendo os seus filhos reunidos em torno do lei- 
to, a rainha, havendo pedido que lhe trouxessem 
as ricas espadas destinadas aos infantes, entre- 
gou-lh'as por sua própria mão, fazendo a cada 
um recommendações especlaes. Pediram os in- 
fantes a seu pae que se retirasse de Odiveiias, 
com o duplo fim de evitarem que corresse o risco 
de ser atacado pela epidemia e que fosse teste- 
munha do passamento da rainha. D. João oppoz- 
se, mas as instancias redobraram, e o rei, atra- 
vessando o Tejo, foi poipar em Alhos Vedros. 

No decimo terceiro dia de doença, a rainha, 
sentindo um forte vendaval, perguntou a seus fi- 
lhos: «De que lado sopra o vento tão rijo, que faz 
estremecer as- paredes do quarto? Responderam- 
Ihe que era do norte. «Parece-me, respondeu a 
rainha, que é o mais favorável para a vossa par- 
tida, que se deve realisar no dia de S. Thiago. > 
Faltava apenas uma semana para que chegasse 
o dia indicado pela rainha, e todavia a partida 
da expedição realisou-se justamente n'esse dia. 

Teve ainda palavras de, louvor para Nossa Se- 
nhora, a quem se dirigiu como em extasi; depois, 
deixando cair as mãos sobre o peito, expirou. 

Era o dia 19 de julho de 1415. 

Como se estava na estação calmosa, e a peste 
produzia a immediata putrefacção dos cadáveres, 
o funeral de D. Filippa realisou-se logo no dia 
seguinte em Odiveiias, d*onde o corpo foi tras- 
ladado para a Batalha a 14 de agosto de 1434. 

Depois dos funeraes de sua mãe, os infantes 
partiram para o Rastello, onde se reuniu conse- 
lho para se decidir o que se devia fazer em vista 
de tão triste acontecimento. Diziam uns que o 
melhor era desistir da empresa; mas os infatiles, 
espacialmente, insistiram por ella. Havendo (Com- 
tudo embate de opiniões, os infantes forani^ter 
com seu pae a Albos Vedros para que decidisse. 
D. João, cuja tristeza era profunda, readquiriu 
a consciência dos seus deveres de soberano e de ^ 



Historia de Portixgal 



875 



pae, logo que ouviu a exposição dos infantes. 
Optou pela partida, sem demora, porque tal pa- 
recia baver sido o desejo da rainha. 

Com effeito, concluídos rapidamente os últi- 
mos preparativos, a esquadra levantou ferro a 
25 de julho, justamente o dia consagrado ao 
apostolo S. Thiago. 

Ao anoitecer de sabbado 27^ fundeou a es- 
quadra ua babia de Lagos, onde o rei encarregou 
fr. Jo&o de Xira de expor, i)'uma prédica, o 
verdadeiro fim da expedição. Muitas pessoas 
Borriam de incredulidade, julgando que o rei as 
enganava ainda. 

Quando a esquadra demandava o estreito de 
Gibraltar, o mau tempo fez com que arribasse a 
Faro, d'onde só pôde sahir no dia 7 de agosto. 
D'ahi, a esquadra foi fundear em Algeziras, 
onde os moiros receiosos enviaram a D. João i 
uma deputação; d^AIgeziras dírigiram-se os nos- 
sos a. Tarifa, cujo governador castelhano os re- 
cebeu muito bem. Finalmente, no dia 12 de 
agosto, os moiros de Ceuta viram apparecer em 
frente da sua cidade a esquadra portugueza, e 
se por um lado ficaram cheios de terror logo 
que reconheceram serem o alvo da expedição, 
por outro lado tranquillisou-os um pouco o verem 
apenas no mar galés e fustas, pois que as naus 
tinham arribado a Málaga. Ao passo que os moi- 
ros, cujo governador era Saiat-ben-Salat em 
nome do emir de Marrocos e Fez, faziam os seus 
preparativos de defesa, D. João i mandava D. 
Henrique ao encontro das naus. Salat-ben-Salat, 
tendo feito appello ás tribus do deserto, que 
promptamente lhe acudiram, despediu-as com- 
tudo logo que, de repente, viu a esquadra por- 
tugueza levantar ferro. Ora a razão fora haverem 
reconhecido os nossos que o ancoradouro não 
era seguro, voltando por isso as galés a Alge- 
ziras, ao passo que as naus, impellidas pela 
corrente, foram outra vez parar a Málaga. 

Na esquadra portugueza houvera um certo 
desanimo, devjdo a todas estas contrariedades, 
que pareciam ruim horóscopo. 0. João i, na 
grande firmesa do seu animo varonil, soube re- 
sistir a todos 08 preconceitos dos seus compa- 
nheiros, e, finalmente, a 20 de agosto, a esqua- 
dra portugueza tornou a apparecer deante de 
Ceuta. Como D. Henrique houvesse pedido a seu 
pae para aer o primeiro a desembarcar, logo que 



08 seus navios tomaram a deanteira, muitos dos 
tripulantes, julgando que a outra parte da frota 
retrocedia para Portugal, alarmáram-se. O in- 
fante disse lhes severamente que ou o acompa- 
nhassem no assalto ou se deixassem ficar cobar- 
demente a bordo, elle combateria sóáinbo. Os 
escudeiros, envergonhados e arrependidos, pe- 
diram perdão da sua fraqueza; e sentiram-se 
reanimados de nova coragem, a exemplo do in- 
fante. 

«Os mouros da cidade — escreve Azurara — 
tanto que viram a frota acerca de seus muros, 
encheram todas as janellas, e frestas de can- 
deas, por mostrarem que eram muitos mais, dos 
que os cbristãos presumiam, e assim pela gran- 
deza da cidade, como por ser de todas as partes 
tão alumiada, era mui formosa de vér; sobre a 
qual DÓS aqui podemos interpretar, que assim 
como a candea quando se quer apagar dá sem- 
pre grande lume, assim estes que ao outro dia 
haviam de deixar suas casas e fazendas, e mui- 
tos d^elles haviam de partir das vidas para todo 
o sempre, faziam aquella sobeja mostrança de 
claridade significando seu fim, etc. » 

E logo depois: 

«Postoque aquelles mouros assim alumiassem 
sua cidade, a fim de acrescentarem em a seme- 
lhança de sua multidão, os outros, que estavam 
nos navios, não alumiaram menos sua frota, mas 
isto era mais por necessidade, que por mostrar 
sua multidão, porque, tanto que os navios tive- 
ram suas ancoras lançadas, logo cada um come- 
çou de cuidar no que lhe cumpria, para o dia 
seguinte, e com tochas, que os capitães tinham 
ante si, e as candeas que os homens traziam nas 
mãos, quando andavam carregendo suas cousas 
era a frota mui alumiada, etc. » 

Espectáculo tão deslumbrante como sinistro, 
a cuja luz as aguas do Estreito deviam de ter um 
aspecto terrivelmente phantastico, avermelhadas 
pelos revérberos dos fachos como se um mar de 
sangue, cheio de palpitações luminosas, separasse 
a cidade moirisca do fluctuante acampamento 
cbristão! 

Ao amanhecer o dia seguinte, que era o vi- 
gessimo primeiro do mez de agosto, os nossos 
estavam preparados para o combate, e o rei D. 
João I, andando n'uma galeota por entre a es- 
quadra. dava aa ultimas iustrucçôes» recQoimeii* 



376 



Historia de Portugal 



dando a lodos que ninguém desembarcasse pri- 
meiro que o infanle D. Henrique. Mas como os 
moiros livessem sabido da cidade para vir com- 
bater os portuguezes no desembarque, apode- 
rou-se de alguns dos oossos^caTaileiros tamanba 
impaciência^ que alguns d^elles, dois pelo menos, 
JoSu) Fogaça e Ruy Gonçalves abicáram á praia 
momentos antes do infante D. Henrique, que, 
todavia, a todos tomou a deanteíra no combate. 

À attitude dos moiros, 'sabindo á praia^ era 
falsa, e apenas um exforço dos mais moços. 
A verdade era que, a exemplo de Salat-ben- 
Salat, estavam muito desanimados, e o pânico 
tornou-se cada vez maior entre elles quando dois 
atbletas berberes, dois gigantes do deserto, fo- 
ram derribados, um ás mãos de Ruy Gonçalves, 
outro às mãos de Vasco Martins de Albergaria. 

O infante D. Henrique, julgando vér no mais 
cerrado da lucta seu irmão D. Duarte, a quem 
D. João 1 bavia aliás probibido que combatesse, 
pôde reconhecer que se não enganava, e a pre- 
sença dos dois irmãos espiritou ainda mais, se 
era possível, a coragem dos portuguezes. 

D. Henrique queria, como lhe havia sido re- 
commendado, esperar o desembarque do resto do 
exercito; mas D. Duarte foi de opinião de que, 
envolvidos com os moiros, poderiam entrar na 
cidade, ou p(4o menos tomar a porta de Âlmina, 
para franquearem passagem aos seus. 

Com effeito, a porta fora surprehendida, sendo 
Vasco Martins d'Albergaria o primeiro portuguez 
que entrou na cidade. 

Os dois infantes, aos quaes já se havia juntado 
o conde de Barcellos, entrada a poria, tomaram 
posição, por conselho de D. Duarte, n'um outeiro, 
que dominava as ruas da cidade Vasco Fernan- 
des de Athaide conseguira entretanto arrombar 
outra porta, o que abriu nova passagem aos sol- 
dados portuguezes, os quaes agora estavam divi- 
didos em três bandos, um commandado pelo 
conde de Barcellos, outro por Martim Affonso de 
Mello, e o ultimo pelos dois infantes, D. Duarte 
e D. Henrique. 

O herdeiro da coroa, a fim de poder combater 
com maior desembaraço, despira a armadura fi- 
cando apenas com uma cota. Mais livre de movi- 
mentos, pôde avançar rapidamente, de modo que 
quando D . Henri que se resolveu a fazer outro tanto, 
j&o não encontrou. D. Duarte havia tomado o ponto 



mais elevado da cidade moirisca, denominado 
Gesto, e D. Henrique, desejoso de encontrar seu 
irmão, mettera pela rua direita, fazendo recuar 
os moiros diante de si. 

Todavia o desembarque geral ainda se não ti- 
nha feito, porque D. João i ainda não havia aca- 
bado de passar revista á frota. Quando elle man- 
dava por seu filbo D. Pedro dizer a D. Duarte que 
podia desembarcar, a resposta foi — que já eslava 
dentro da cidade.. Então o rei deu ordem para que 
todos desembarcassem, e o exercito portuguez, 
dividido em quatro corpos, marchou para a ci- 
dade. Um d^esses corpos era commandado pelo 
condestavel, outro pelo infante D. Pedro, o ter- 
ceiro pelo mestre de Gbristo, e o ultimo, que era 
o de D. Duarte, agrupava-se em torno da ban- 
deira do herdeiro da coroa, que se antecipara. 

D. João I, que na véspera se ferira n'uma 
perna ao saltar para bordo da galé, sentou-se à 
porta da cidade, à espera que o combate se con- 
centrasse no castello. 

A afllicção com que as mulheres fugiam aper- 
tando contra o peito os filhos pequenos, e com 
que muitos homens escondiam os seus haveres 
ou fugiam levandoos, espiritara a coragem dos 
moiros combatentes, que empregando um su- 
premo exforço conseguiram fazer com que muitos 
dos portuguezes fugissem deante d^elles. 

D. Henrique não quiz suster na passagem os 
primeiros fugitivos, para não comprometter a 
sorte dos que vinham mais atraz, que seriam 
rechaçados pelos moiros; mas, quando estes 8e 
aproximaram, tomou-lhes o passo, acompanhado 
apenas de alguns cavalleiros. Os portuguezes ao 
mesmo passo envergonhados do seu medo e 
animados pela presença do infante, voltaram ao 
combate, levando de roldão o inimigo. Entre- 
tanto chegaram soccorros aos moiros, que de 
novo se fizeram fortes, sendo porem repellidos 
outra vez pelos portuguezes, a quem o infante 
animava. 

Recuando os moiros, o infante, unicamente 
seguido por dezesete dos seus, perseguiu-os, tra- 
vando-se rijo combate, sobretudo porque os 
moiros queriam levar comsígo um cavalieiro 
portuguez, Fernam Gbamorro, que o infante 
disputava. Os moiros fraquejaram, finalmente, 
mas o infante D. Henrique achou-se entalado 
entre os ainuosoa muros da cidade, unicamente 



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376 



Historia de Portugal 



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entre os sinuosos muros da cidade, unicameote 



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Os infajites em Ceuta 



"w- V 



mk^tík 4b VMà&d 



ZHI 



com cinco cavalleiros a seu lado. Sustentando 
heroicamente tão difficii posto, em vão espe- 
rava reforço. Já os nossos o julgavam morto, 
qaando um cavalleiro porioguez foi dar com 
elle. Queria o infante esperar em tão arriscada, 
situação os Booeorros que Hiè enviassem, mas, a 
ibstancias que lhe fbram dirigidas em nome de 
seu pae e de D. Duarte, retirou-se, in.do encon- 
trar-se com o rei n'uma mesquita, onde foi. 
abraçado e felicitado pelas suas façanhas <l'a-( 
quelle dia. ^ 

Entretanto, era 8ol*podtt>^ oiteodo pousado nas 
torres do castelto am bando de i^rdaes, os por-* 
tnguezes inferiram -d'iibi que oiá moiros o haviam 
abandonado. Tendoiíatam' os iiossos atacal-o^ 
no dia seguinte pela manhã, mas em vista do 
fue ^xi^mps referido, ei-rei piandpu Jpão Vaz 
de Atmadii a reconhecer a verdade. .Foram os' 
líioaso8f..^.^.contraram fectiada a porta da cida- 
dplla. Iam a forjal-a, quando ao alto, da mura- 
lha apgareceram.dois bomeas, que em l^espanbol 
disseram a Almada que estavam 80&,,qjQe iam 
i||}rir |iSfP'^^^> 9^ S^lat^ben-^alat e a guarnição ^ 
lyavjam fugido. 

.MEo,tãoJoão Vaz de Alma(|a^ basteou no topo. da 
cidadelia o estandarte de S. Vicente, padroeiro 
de, iisboa. 

A conquista estava feita, com grande mor- 
tandade para os moiro^^ e diminuta para os 
conquistadores, sem que todavia aventemos al- 
garismos, sobre os quaes pesam grandes dú- 
vidas. 

No dia sej^uitite, ainda os moiros appareceram 
deante da fortalesa. D, Duarte e o condesiavel 
sabiram a escaramuçar cpm elles; estas impo- 
tentes tentativas repetiram-se- por parte dos moi- 
ros, mas o rei prohibiu formalmente ao herdeiro 
da coroa que sabisse a escaramuçar. 

No primeiro domingo, o rei resolveu ir ouvir 
missa com seus filhos ã mesquita principal da 
cidade, já purificada. Na torre mais alta dois si- 
nos repicavam festivamente. «Como foram elles 
para ali? pergunta Major. A resposta não deixa 
de ter seu interesse. A cidade de Lagos fora 
alguns annos antes atacada e saqueada pelos 
moiros que levaram esses sinos, e procuraram 
escondel-os; mas que, descobertos, tomavam 
agora a convocar ao longe e em sons vibrantes 
06 cbristãos ao officio divino. • Bstã ô a verdade, 
n vot.— 48. 



Os actoãf religiosos Bíeram-se com grande sé- 
lemnidade. O padre João Xira prégoii. BD. Joãoi 
armou, finalmente, cavalleiros seus filhbs D. 
Duarte, D. Pedro, e D. Henrique. Estava, pois, 
justificado o fim da expedição, e o leão alHcano 
principiava a dobrar a cerviz perante o poderio 
portuguez. Por sua parte, os filbos de D. João i 
armaram cavalleiros alguns valerosos fidalgos 
do seu séquito. '*' 

Não sem que o contrariasse a opinião de al- 
guns dos seusconkellieiros, resolvrà D. João i 
conservar o domínio de Ceuta, e portanto tra- 
tou de escollier governador á quem confiasse b 
guarda da praça. Parece que a prínòipío se lem- 
brara de Martim ÂfFonso de Mello, mas veio a 
ser nompsdo D. Pedro de Menezes, conde de 
Vianna. Henry .MijofaKtHltfe esta nomeação a 
uma bravata do conde, o qual haveria dito, 
empunhando uma'bengato4e zambugeiro: «A fé 
qíie com esta 86 bengafta sou capaz de defeâder 
estes muros contra todas as forças dos moims.» 
Mas o que é verdade é (pie o despacho fora 
realisádó por influência de D. Duarte para com 
seu pae. È o que não é lií^nos verdade é que o 
condede Víanoa,' á ser verdadeiro o episódio 
da bengala, soube trlumpbálr dos exfórços em- 
pregados pelos moiros para arrancarem Ceuta 
ãs mãos dós vencedores. Estes exforços irrom- 
peram com grande intensidade em 1419, a 
ponto do rei de Portugal enviar em auxilio do 
conde de Vianna os infantes I). Henrique e D. 
João, sendo este ultimo em idade' de receber b 
baptismo militar. Mas quando os dois infantes 
entravam a embocadui^á do estreito de Gibral- 
tar, receberam do conde de Vianna noticia de 
que o auxilio já não era preciso, por isso que 
os moiros, a quem elle valerosamente resistira, 
haviam retirado. 

Retrocedamos, porem, ao dia 2 de setembro 
de 1415, em que D. João i deu ordem para que 
a frota portuguesa levantasse ferros. Assim acon- 
teceu. Aproou a esquadra ao Algarve, e ahi, em 
Tavira, D. João i recompensou os seus compa- 
panheiros d'armas. Não podendo dar quaesquer 
honras ao herdeiro da coroa, agraciou o infante 
D. Pedro com o titulo de duque de Coimbra, e o 
infante D. Henrique com o de duque de Vizeu e 
senhor da Covilhã. A muitos cavalleiros presen- 
teou no momento de os despedir, e por essa 



878 



BiMpff^ áí? PoajíB^il 



occasião remunerou a tripiilaçlLo de viole e sete 
naTÍ08 io^leies que, tendo arribado a Lisboa, 
na sna derrota para a Terra Saota, se baviarn 
encorporado, a pedido do rei, na expedig&o a 

Ceuta. 

Do Algarve passou D. João i a Bvora, onde os 
seus filhos mais novos, D* Jo&o eP. Fernando, 
tinham ficado, sob a tatella do novo mestre de 
Avii, Femam Rodrigues de Sequeira, governa- 
dor do reino^ A infanta D. Iz^bei também bavia 
ficado em Évora, N'eata cidade» as manifesta- 
fOes de entbufUismo pela victçriai^e Ceuta foram 
ruidosas e unanimes, saindo o povo todo ao en- 
coBtrQ do rei ci;\jo throno a dedicasfto popular 
bavia cimentado» 

■ . . . 

CAPITULO V 

• 

▲o de«o«r do paa»o.— As nUxms da nor- 
te*-— mtiaoa «imqtft « íállaoineato de D. 
JoSa I. 

No decurso, de dezoito annos, ^, mort^ vae a 
poucQ e pouco çeifaqdó com o sêu gladio im- 
placável o grande loureiral dos beroes de Alju- 
barrota a de Ceuta. Cbegaj a gçnte a ter magua. 
de que esses homens, que se tornaram eternos 
para a historia, não fossem, por excepç&o à lei 
fatal do aniquilamento, materialmente immor- 
taes. 

Dos homens notáveis 4'^ta gloriosa época, 
o primeiro a baquear no sorvedouro da sepul- 
tura foi o grande doutor Joào das Regras, que 
morreu em 1404, e foi sepultado no convento 
de Bemfica. D. João i honrara-lbe os últimos 
annos da vida com largas doações, e nobilitado- 
ras mercês. 

D. Nuno Alvares Pereira, abi por 1422 reco- 
Ibeu-se ao convento do Carmo de Lisboa, que 
tiuba fundado, depois de haver feito doação da. 
maior parte dos seus beps. Um anno depois, to- 
mava [o tabardo, isto é, vestia o habito carmeli-, 
tano, e renunciava ao nome que a sua espada 
tornara celebre para adoptar o de Nuno de Santa 
Maria. Oito annos viveu de penitencia aquelle 
que tantos vivera de gloriçi. Do pouco que lhe 
restavfi de seu^, repartia com os pobres que todos 
oa dias acudiam á porta ^c^ convento, cantajíido- . 
lhe tpnadilhas: . , I 



P gram condestabre 
Em o seu mosteiro 
Dá-Qos sua sdpa/ 
Hail-a sua ròpa, 
Hftil^ seu dinheiro. 

A beofam de Peu». 
Cahtu naçaldpir^ 
De Nimalves Pereira, 
Que abondo cresceu 
£ todoto deu. 

I 

Se comer queredes, 
Mdra bade» falem: 
Dod' oMOfa Qoa tem» 
Ahi lo eomeredesi < 
Como lo bedes. 



No i.* de noveoDÍbro de 1431, ezhakm-ae ao 
derradeiro suspiro a grande e bella^ma do coa- 
desta vel, qtte a esse tempo contava pouco mais 
de setenta e ntt annos deidade, e que primeiro 
foi enterrado ém sepultara rasa no meio da ca- 
pella-ntór da egreja do Carmo. 

A deificaçfto popillár tifto se fea esperar. Sobre 
a sua sepultura, romagens ao mesmo passo de- 
votas e patrióticas iam entoar canções, confun- 
dindo na mesma trova o valor do guerreiro com 
a virtude do monge. Na legenda do povo, Nuno 
Alvares começara a ser logo ostoto das batalhas, 
o vencedor dos castelhanos protegido pela ben- 
çam de Deus. ^ 

1 As mulheres de Lisboa, cautavam. esta segnidi- 

Iha, pela Pascboa Florida, na sepultura do condes- 

tavel: 

Guta 9ó;—Íepoi8 o e6ro 

N6 nie lo iltgtdet, nom, 
Que flaoto he o ooúde. 

O gr^ittcopdefltabre 
NunaWes Pereira 
Defeodea Portngale 
Com iiM tendeírt, ■ 
£ cQqi sfltt paiMlong. 

. Nón»4o<ttgide8,m»Qe,«t& 

Levou a vanguarda, 
Com braçal e cota ' ' 
.1. 'I OficiatilUçsidatay 

, , ^ fi top» o jteadoDe 






áeUrttorfá d^- Fbrtagal 



d?0 



D. Jòáo t começaYa á seâtir que os Bens com- 
panheiros de gloria, e a gaa companheira de 
amor, chamavam por éllt do tumulo. A doença 
fazia com que algâma^ vefees entregasse o go- 
verno do reino a D. Duarte. Os médicos aòonse- 
Ihavam-lhe a que estivesse no Ribatejo, em 
Alcochete, pot ser logar saudável. «Onde estando 



Nó me lo digades, nooe, etc. 

Guia 9Ô 

Com soa cbeg;ançt 
nihoii Badalhouce, 
Sem intr diTeoça 
£ntrou «oa torre> 
E pox 86 peodooe. 

Coro 
Nó me lo digades, none, etc. 

■ 

Guiaiô 

f 

Deotro no Valverde 
Vencei os castethlos, 
Mstoii bcDS, e ma^s 
Soc'a ha sua hoste 
E seà esquadrone. 



\ 



Os moradores do, RasteUo iam cantar na segunda 
oiUva do Espirito Saato: 

Santo condestabre 

Boné portnguéa. 

QOfldeilárroyofos, 

De fiareellos, dorém. • . . < 

Coro 

Santo condestabre, 
Boné portogués. 

Na campanha somdes 
Alem d'oma bea, 
B mais outra bei 
B mais oatra bei. 

C&ro 

Santo condestabre 
Boné português. 

Guia 

Por (Uson da Pátria 
Todo esto lo fez, 
Mata 08 castelhaos 
SaWa a nossa grey. 

C6ro 

B mais otra bez, 
B mais otra bei. 

Guia 

No me lo digades 
Quabondo lo sey 
Librou as obelhinhas 
Do Leo de Gastei. 



I já alguns poucos de dtas— escreve|Ruy de Pina, 
^ — sentindo-se fraco, e apressado de acctdentes, 
ie fraquezas, que acerca d'elle, e de todos testí- 
!m unhavam bem sua morte disse e eocommen- 
dou aos infantes seus filhos, e a outra nobre 
gente do seu conselho: que porquanto se sentia 
já no estremo de FUa vida, e para tal rei, como 

Coro 

E mais otra bez, 
E mais otra bez. 

Os moradores de Sacavém cantavam no anniver" 
sario do condestavel: 

Uma voz 

Do Bestello a Sacavém 
Nem niogola nem ninguém 
Tem semelho ao condestabre 
Que lo prouge, e que le praae 
Ho fagernos tanto bem. 

Côror-^ bem, e bem. 

O rapaz das coberturas 
Que morre, e cahe pêra traz, 
Ji nom vai a sepultura, 
' Oue otra bez vive o rapai: 
E ho conde le flzo o bein. 

Cdro—E bem, e bem. 

iíilbadeJoanoeSstée 
Que finou por noo mamar, 
Ao do Moinho do cubo 
Que flnoQ pof se afogar, 
Viventa o conde também. 

C8ro— E bem, e bem» 

O nai daqneUs alfcyata, 
, A gram dor de Lopo AJTons, 
Non les chega aos coraçOns, 
Qoo o ooode santo (08 guarda: 
Y tudo por fager bem. 

Coro— E bem, e bem. 

E bem condestabre santo, 
Cobrinos cõ vosso manto, 
E cõ vosso manto de gales, 
Defendimento de males, 
E fágauofi munto bem. 

Cõro—E bem, e bem. 

O epitaphio do condestavel, na sua primeira se- 
pultura, dizia assim: 

Nun 'Alvares Pereira 
Condestabre de Portugal, 
Jaz aqui d 'esta maneira 
Que foi na batalha real, 
A mais singular bandeira. 
Capitão mui valoroso, 
E por tal mui conhecido, 
qual nunca foi vencido 
Mas sempre victorioso 
Dos inimigos mui temido. 



i.v- 



f 



380 



B^ififní^rá^^Fff^^fílg^^ 



-elle, Dfto convinha morrer em aldeias e desertos» 
mas na principal cidade, e melhor casa de seus 
reinos, logo o levassem à cidade de Lisboa, e o 
aposentassem dentro no seu castello, que ent&o 
mandava muito ennobrecer, e assim se cumpriu. 
E passados alguns dias', em que sentiu melhora- 
mento, os infantes seus filhos, por seu mandado, 
e por sua devoção, o levaram com grande aca* 
tamento à capella-mór da Sé, e o pozeram em 
todo seu estado ante o altar do martyr S. Vi- 
cente, onde seu corpo jaz, porque el-rei, por ser 
d'elie muito devoto, antes de sua morte se quiz 
d'elle em sua vida despedir, e ali ouviu com 
mjiita devoç&o missa solemne, em que com 
grande efficacia encommendou a Deus sua alma. 
E porque a dita capella-mór a este tempo estava 
pqr sua ordenança e despezas começada, e não 
ainda acabada, por tal que no acabamento d'ella 
depois de sua morte não houvesse mingua, ou 
tardança, logo, antes que se d'al! partisse, man- 
dou trazer em ouro amoedado o que por vista de 
bons officiaes pareceu que para sua perfeição 
abastaria, e â ofierta da missa mui devotamente 
a otfereceu, e encommendou ao veador da obra, 
que d'ella nunca sahisse até se de todo acabar, 
como se acabou, segundo agora se vé. E d'ali 
foi visitar a egreja de Santa Maria da Escada, 
que está apegada com o mosteiro de S. Domin- 
gos, que novamente mandou fazer, em que tinha 
singular devoção. E depois de se despedir da 
imagem de Nossa. Senhora, ecom inteiro conhe- 
cimento de sua morte encommendou a ella sua 
alma, foi levado ao castello, d'onde partira, onde 



poucas horas esteve antes do seu falleci.oiento, 
sendo jà em poder de reli^oaoi?,^ e outros minij- 
>tros d^ sua çonsci.encia^ pondo por aca^o as mãos 
'em^sua barba real, porque a' achou uai pouco 
crescida, a mandou logo fazer, dizendo que não 
, convinha a rei, que muitos haviam de vér, ficar 
depois de morto espantoso, e disforme. Feito isto 
o dito glorioso rei acabou logo sua bem-aventu- 
rada vida com mui claros signaes de salvação de 
sua alma, a quatorze dias de agosto, véspera da 
Assumpção de Nossa Senhora, do anoo do nas- 
cimento de Nosso Senhor Jesus Ghristo de mil 
quatrocentos e trinta e três. E foi cousa assaz 
maravilhosa, e de singular exemplo de sua de- 
voção, e grande prognostico de sua bem-aventu- 
rança, que em tal dia tambegi nasceu, e D'elle 
então cumpria idade de setenta e seis aunoa, e 
em tal dia em batalha campal, em que se cum- 
priam quarenta e oito annos, vencep n'e8te reiao 
el-rei D. Joãp de Gastella, cora que segurou es- 
teâ reinos, e estado, por cuja raettoria maodon 
novamente edificar o mosteiro de Santa Mana de 
Victoria, que vulgarmente se diz ()a Batalha, e 
em tal dia, em que se cumpriam dezoito aunos, 
partia de Lisboa, quando em Africa {hisbou, e 
tomou aos inimigos da fé, a moi nomeada cidade 
de Ceuta. • 

Foi assim que o grande rei deaappareceu d'en- 
tre os vivos. * 



1 No 3.* volume, a pag. 24 e ÍS, encontra o leitor 
uoticia relativa aos funeraes de D. Joio i. 




IReeiíimo da* liistoria* de Poi-tngfal desde 
O. ^fEbnso IV até !>• JoaLo I 



K>-<>^£g-X>-<í- 



Afibnso IV, subindo ao tbroDO, deixou resfo- 
legar livremeute a velha rivalidade, que parecia 
adormecida, contra seu irm&o natural Âffonso 
Sanches. Reunindo cortes, o novo rei soube im- 
por de tal modo a sua vontade, que o J;>astardo 
de D. Dinis foi despojado de todas as honras e 
officios que aliás já n&o gosava em Portugal. 

O bastardo, encontrando na corte de Castella 
um auxilio, que os laços de parentesco justifica- 
vam, pdde recrutar forças em Castella e Leáo e 
invadiu Portugal, acudindo D. Aflonso iv a fa- 
zer rosto á invasáo. 

 rainha Isabel, cujo throno a Egreja veiu, no 
decurso dos tempos, a converter em altar, lo- 
grou restabelecer a paz entre os dois irm&os, 
sendo restituídos ao ba9tardo todos os bens e 
honras que tivera em Portugal. 

A situaç&o geographica e estratégica do nosso 
paiz, as. condições de força militar e prosperi- 
dade económica em que se achava, faziam en- 
tão muito apetecida a alliança com Portugal, 
sobretudo nas cortes da península hispânica. 
N'esta8 causas aliás nitidamente manifestas se 
deve procurar a explicação do casamento de D. 
Affonso XI de Castella, com a infanta portugueza 
D. Haria. 

Todavia, as boas relações internacionaes que 
este casamento devia originar, foram supplan- 
tadas por uma longa serie de acontecimentos 
políticos, que lançaram n'uma vasta intriga o 
sogro e o genro, os quaes se digladiaram por 
meio da diplomacia e da guerra até que a in- 
vasão dos moiros fez com que o rei castelhano 



enviasse sua própria cbulber — (ão humilhada 
aliás pela rivalidade de D. Leonor de Gusman 
—a pedir auxilio a seu pae^ D. Aflbnso iv de 
Portugal. 

Commovido pelas lagrimas da filha, o rei de 
Portugal mobilisou o seu exercito,, que tão glo- 
riosamente veio a assigoalar-se na batalha do 
Salado. 

Tendo-se realisado, ao cabo de grandes com- 
plicações politicas, o casamento do infante D. Pe- 
dro de Portugal com D. Constança, filha de D. 
João Manuel, veio no séquito d'e8ta priuceza a 
formosa Ignez de Castro, por quem o infante por- 
tuguez se apaixonara loucamente. Os trágicos 
episódios doestes amores mal succedidos, andam 
vestidos nas roupagens da poesia legendaria. 
Toda a gente os conhece; são do dominio popu- 
lar. O ciúme dos fidalgos portuguezes perante a 
predilecção do infante pelos fidalgos castelhanos, 
compatrícios de Ignez e seus protegidos, seria 
talvez a causa da vasta intriga palaciana, que 
teve por luctuoso desenlace o assassínio da loira 
castelhana. 

O infante D. Pedro^ despedaçado o coração 
amantíssimo, revoltára-se contra o pae que não 
quizera ou não soubera evitar esse crime, e, á 
frente de um bando de cavalleiros, devastou al- 
gumas terras do norte do paiz, vindo finalmente 
a reconciliar-se com seu pae por intervenção da 
rainha D. Brites. 

Apesar de se ver lançado n'uma vasta rede de 
complicações politicas, D. ASbnso iv não descu- 
rou o desenvolvimento material do seu reino, e 



882 



tf 

Historia de Portugal^ 



r^: ' 

A previsão de seu ^ realisava-se. 

Em virtude doesse tratado, 08 portugueiea 
Pedro Coelho, Álvaro .(rOD^alves e Diogo Lopes 
Pacheco deviam ser restituídos em troca de 
D. Pedro Nuoes de Gusmão, Uem Rodrigues 
Tenório, Fernão Gudiei Toledo e Fernam San- 
ches Caldeira, hespanhoes rçfugi^dos em Por- 
tugal. 

Effectivamente, a extrddic^ão realisou-se, me- 
nos com relação a Diogo Lopes Pacheco, que 
pôde fugir para o Aragão, valendo-se da protec- 
Qão de D. Henrique de Trastamara. 

Havendo ás mãos os auctores do assassiaio 
de Ignez de Castro, o rei D. Pedro i tirou d^elles 
uma vingança friamente planeada e, dando or- 
dem para que o cadáver da castelhana fosse 
desenterrado, fel-o transportar com pompa real 
de Coimbra para Alcobaça, declarando que clan- 
destinamente a tinha desposado, facto hoje muito 
contestado, e com fortes razOes a nosso vôr. 

D. Pedro i, mantendo-se n'uma reserva digna 
no meio das complicações da politica peninsular, 
tratava dos negócios interiores, e em 1361 reu- 
nia cortes em Elvas attendendo âs reclamações 
que por parte dos representantes dos municípios 
lhe eram feitas em nome do povo, e cortando 
por fundos e largos abusos com um notável es- 
pirito de justiça e de moralidade. 

«Chegada ao termo da siia consolidação civil 
a sociedade portugueza eucohtrou n'este rei a 
expressão opportuna, rude decerto como ella, 
mas sincera e necessária de um direito mais lato 
e mais firme do que o direito oligarchioo da con- 
quista e da tradição feudal. 

«Força suprema,' organisadora, nacional, jâ; 
—encarnação d'um poder abstracto, por assim 
dizer, d'um poder moral, ou como hoje diríamos 
constitucional, a realeza exercida por D. Pedro 
toma naturalmente um aspecto jurídico:— é uma 
ma-gistratura, um sacerdócio, uma delegação so- 
cial, a corporisação da lei.» 

Tal é a ratificação do aspecto carectisticò d'este 
reinado, que pode ser perfeitamente representado 
pela figura ialtiva de D. Pedro i vibrando o azor- 
rague da correcção coútra o bispo do Porto ac- 
cusado de violentar uma mulher. 

Depois de cimentada a independência da pa- 

tría, depois de firmado o terreno onde o drama 

I da nossa vida politica devia desenrolar-se, a co- 



a elle se attribuem hoje, aproveitando os elemen- 
tos já creados por seu pae, os primeiros passos 
para as nossas descobertas iQaritímks, suppon- 
do-se que, durante o seu reinado, pilotos genove- 
zes, embarcados em navios portuguezes, desco- 
briram Porto Santo, Madeira, etc. Também se 
altribue a D. AfFonso iv a idéa da conquista das 
Canárias. Com a organisagão d'estas expedições 
navaes não podia deixar de desenvolver-se o 
commercio marítimo, e é justamente no reinado 
anterior e n'este que vamos encontrar na cidade 
do Porto o primeiro ensaio de associação com- 
mercial para regular o afretamento e carrega- 
mento das naus. 

Em vista do que fica summaríamente referido, 
é licito synthetisar o reinado de D. Affonso iv 
nas palavras que estão postas n'outro logar, e 
que repetiremos aqui. 

«Se considerarmos Affonso iv não isolada- 
mente nem pelo prísma dos nossos sentimentos 
e' das nossas condicções sociaes d*hoje — como 
filho ou como pae, que ainda ahi poderíamos 
offerecer o esposo exemplar e honesto em Justa 
compensação,— mas principalmente como chefe 
e como rei, no momento social em que elle as- 
sume e exerce o poder, — havemos de confessar 
á face dos numerosos documentou da sua poli- 
tica externa, e da sua enorme legidlação, que 
eíle é um dos vultob mais notáveis ou que o seu 
governo é um dos mais proficuos, dos mais bri- 
lhantes e dos mais babeis dos intelligentes e 
enérgicos governos que prisidiram á nossa for- 
mação nacional.» 

Expirando no anno de 1357, pondo os olhos 
embaciados no horisònte em cujos traços negros 
lia certamente prenúncios da vingança do her- 
deiro do throno contra os assasinos de Ignez de 
Castro, receiando certamente a explosão da có- 
lera de seu filho até ao ponto de mandar sahir do 
reino os principaes auctores do homicídio, D. 
Affonso IV deixava todavia um rastro luminoso 
na historia da consolidação politica da sociedade 
portugueza, legando uma coroa que já se fazia 
respeitar e temer, apesar de invejada. 

D. Pedro i, subindo ao throno, aproveitou o 
ensejo que as negociações politicas lhe offere- 
ciam para fazer um tratado com o rei de Castella, 
certamente no empenho de colher ás mãos os 
assassinos de D. Ignez de Castro. 



Hiato?^ 4^ l^rtng!^ 



308 



ròa procura consolidar a obra da conquista re- 
cente, pela personificação do espirito de justiça, 
como se dissesse ao paíz que a rodeiava: Con- 
quistei a gleba onde basde nascer e. morrer. 
Plantei a arvore a cuja sombra protectora podes 
yiver confiado na garantia dos teus direitos. 
Cumpri a minha miss&o. » 

Fallecendo em janeiro de 1367, D. Pedro i 
legou â historia a tradição dos seu;^ amores, a 
lenda da sua firmesa de caracter na applicação 
da justiça, porque é preciso ser forte para faser 
respeitar o que ainda se não sabe geralmente 
(|tte é respeitável— e esse era o seu caso — , fi- 
nalmente, legando a seu filho um reino mais in- 
vejável do que nunca, porq.ue até depois do 
exemplo da vingança de D. Pedro i contra os as- 
sassinos de D. Ignez de Castro, estava aberta a 
porta para os casamentos vantajosos, para as po- 
derosas allianças politicas, pois que as princezas 
extrangeiras nenhuma duvida poderiam ter em 
vir sentaf-^e n*um tbronp onde, por tradição 
galante, deviam encontrar o amor durante a vida 
e a saudade depois da morte. 

Este traço npbilitador apagou-o da coroa por- 
tugueza o joven D. Fernando» entregando-se â 
paixão adulterioa. Mas se o reinado do filho de 
D. Pedro i é directamente uma calamidade social, 
indirectamente affigura-se-nos uma grande con- 
quista politica. 

Logo desde os seus pf imeirqs dias de reinado, 
D. Fernando lança-se, cheio ^ imprudência e 
de má fé, nas graves complicações da politica 
peninsular, sobretudo nas di^senções dos dois 
irmãos de Castella, dissenções que terminaram 
por úm fratricídio. Em face doeste inesperado 
acontecimento, D. Fernando invade os estados 
deCaBtella.allegaadoaaa,qualidadedel.isneto 
de D. Sancho, no intento de realisar uma anqe- 
xação territodM» uísis, como em todos os actos 
da sua yids^ vemol-o de repente retirar para 
Portugfàl, sem que ao certq seja possível deter- 
minar as razões que para isso teve. 

Não. se, fizeram esperar as represálias de D. 
Henrique, de; Castella, que, depois da retirada dp 
rei portuguez, yeio assolar o tçrritoríp d'Entre- 
Douro e Hinho, e p4r cerco a Braga. 

E, i^'estaa circumstancias,^tendo aliás partido 
de D« Fernando a aggressão, não duvidara ew 
mandar propor a paz ao castelhano I 



Â.0 passo que a cidadei de Braga se defendia 
heroicamente, D. Fernando hesitava sobre se de- 
veria ir soccorrçl-a 1 

P. Henrique retiroiu para Ca^tella, depois de 
haver devastado o norte de Portugal por meio do 
incêndio a do saque, e D. Fernando, não per- 
dendo a idéa da annexa^o, acceita uma alliaoça 
com o rei de Aragão, com cuja filha contracta 
casamento, para fazerem juntos guerra a CaslelU. 

Não tarda, porem, que vejamos .aliiar«9e .o 
veraatil rei de Portugal com o de C^stella, ajus- 
tando casam^nt^cpo) utni^ sua filha, outra Leonor, 
a segunda! 

A indignação do rei aragqnez não se fez es- 
perar, e á coqta da retratação de D. Fernando 
apossou-se de quanto elle possuia em Barcel- 
lona. 

Para coroar este prospecto de grandep cala- 
midades faltava só a paisção que D. Leonor 
Telles, n^ulher de João Lourenço da Cunh^a, 
soubera inspirar a D. Fernando^ Para a desposar, 
annullado o primeiro casamento de O, Loopor, 
não duvidou o rei portuguez de rasgar o ultin^o 
traitado cqm Castell^, pelo qual se obrjgava >a 
desposar a infanta castelhana. 

O povo, intervindo accentuadamente nos ne- 
gócios públicos, protesta pela voz do alfaiate 
Fernam. Vasco, contra esses escandalosos amores, 
que, não obstante^ recebem uma saucção ma- 
trimonial. 

D. Fernando consegue sufocar a indignação 
do rei de Castella,.alieaando-lhe todas as villas 
castelhanas que havia tomado, mas, Quando 
parece respirar tranquillo nos braços de D. Leo- 
nor Telles, aproveita-se das pretenções do duque 
de Lancastre ao tbrono de Castella, firmando 
com a Inglaterra upA.traiado de alliança offep- 
siva çpatra Castella e o Aragão I 

Uma nova invasão castelhana assola Portugal 
até ás portas de Lisboa, ctxjos habitantes» não 
obstante o apertado do cerco^ a defendem heroi- 
camente.. A bravura dos vassallos contrasta 
n'es8a occae|^ãOi e> em todo este reinado, com a 
pobardia do rei. Por intervenção do papa Gregó- 
rio XI pactuára*se a pa;c. 
, Temo« visto até aq«i o desatino com que 
D. 1'çtrngndp ^s^ inyplven n^ politica exterion; 
pois a, respeito. 4^ ii^iteiiior» da administração, dp 
seu reino, não o consideramos n'ifito mais ielix. 



dS4 



Historia de Portugal 



De todas as medidas adoptadas por D. Fernando, 
fió achamos alguma utilidade real nas que ditem 
respeito â navegação e ao commercio. 

Peitas as pazes com Castella, D. Fernando 
continuava a alimentar um profundo despeito 
contra a justa vingança ào rei de Aragão. Mas 
como a ambição â coroa de Castella continuasse 
a minal-o, allia-se com a Inglaterra contra Cas- 
tella, ao passo que se ailiâva com Castella contra 
o Aragão. 

D. Leonor Telles, o génio mau d'este reinado, 
sopra ã imaginação ardente de D. Fernando como 
ás labaredas de um incêndio, e, mancenilhà da 
GÓrte, derrama em de redor de si uma sombra 
mortifera, que nem sua própria irmã D. Maria 
poupou. 

Não obstante ter D. Fernando combinado que 
sua fliba D. Beatriz casaria com o primogénito 
castelhano, fez uma nova alliança com o duque 
de Liancastre contra Castella, e com o duque de 
Anjon contra o Aragão. 

Em virtude doesta alliança, uma nova guerra 
rebenta entre Portugal e Castella. Os castelhanos, 
como qnerendo castigar a volubilidade de D. Fer- 
nando, romperam as hostilidades. N'esta deplo- 
rável guerra realisa-se a iniciação militar de D. 
Nuno Alvares Pereira. Auxiliado pelos inglezes, 
que nos foram quasi tão nocivos como os pró- 
prios inimigos, D. Fernando lança-se na guerra 
cx)ntra os castelhanos, e quando tudo fazia espe- 
rar uma grande batalha decisiva, fez as pazes 
com Castella, contratando o casamento da infanta 
D. Beatriz com o filho segundo do rei castelhano, 
casamento que não conviria a D. Leonor Telles 
porque, pela morte de D. Fernando, sua filha 
subiria ao throno de Portugal, o que, pelo me- 
nos, a collocaria a ella n'um segundo plano. 

A influencia nefasta de D. Leonor Telles deve 
procurar*se em tudo. As suas victimas são nu- 
merosas, sobretudo desde que, correspondendo 
ao amor de João Fernandes Andeiro, quer con- 
quistar pelo terror a subserviência de toda a 
gente a esse novo escândalo. Por influencia d'esta 
mulher fatal foi, pelo menos a nosso ver, que 
tendo fallecido a rainha de Castella, a mão da 
infanta portugueza foi traspassada do filho para 
o pae, porque, sendo D. Beatriz rainha de Cas- 
tella, sua mãe poderia ficar governando o reino 
de Portugal, logo que D. Fernando morresse^ na 



qualidade de regente. Com effeito, a infanta 
de Portugal casa com o viuvo castelhano, e D. 
Fernando, profundamente minado pela doença, 
pouco tempo sobrevive a estas bodas. 

Durante todo este reinado, tão abundante em 
calamidades de toda a espécie, um fado verda- 
deiramente notável occorre. Ê a importância 
recrescente do povo na gestação dos negócios 
públicos; é o despertar da consciência popular 
pelo espirito de justiça e de moralidade que fal- 
tava ao rei. A aurora da democracia portugueia 
debuxava*se no ceu com tintas indecisas, que o 
reinado seguinte, gerado para assim dizer do 
seio do povo, vem accentuar profundamente. 

Tendo fallecijlo D. Fernando em outubro de 
1383, ficou D. Leonor Telles investida na regên- 
cia do reino, sob a obediência dos reis de Cas- 
tella, que tratavam de se fazer acclamar como 
herdeiros de D. Fernando. Mas o espirito popu- 
lar protesta energicamente contra a alienado 
da independência da pátria, e as suas vistas fi- 
xam-se no mestre de Aviz, que foi aoclamado 
regente do reino. D. Nuno Alvares Pereira corre a 
ali3tar-se no partido do caudilho popular, e é 
justamente agora que o seu nome se vae assi- 
gnalar definitivamente por feitos de armas doestes 
que não só fazem a gloria de um homem mas 
de um po^o inteiro. 

Julgando-se lesado nos seus direitos, em face 
dos tratados, o rei de Castella invade Portugal. 
Da ambição de D. João i de Castella e da de sua 
sogra D. Leonor Telles, postas em contacto, de- 
via brotar a discórdia sob qualquer pretexto. Foi 
o que aconteceu, mandando o rei de Castella en- 
clausurar D. Leonor Telles no convento de Tor- 
desillas, junto' a Valladolid. 

D. Nuno Alvares Pereira combatia com oa cas- 
telhanos no Alemtejo, ganhando a celebre bata- 
lha dos Atoleiros, ao passo que dentro dos muros 
de Lisboa o mestre de Aviz se preparava para 
resistir ao cerco que o próprio rei de Castella 
vinha pòr-lhe. 

Mais de três mezea durou esse apertado cerco 
em que 06 heróicos defensores de Lisboa foram 
aliás grandemente auxiliados pela peste que se 
desenvolvera no exercito inimigo, e que, tendo 
atacado a família real de Castella, fez com que o 
cer<^ fosse levantado, retirando os castelhanos 
com grandes perdas. 



Historia de Portugal 



385 



Sabido da onda da revoluç&o popular, faltava 
comtudo ao mestre de Aviz para ser rei a sagra- 
ção legal resultante do voto dos três estados. 
Nas cortes de Coimbra, graças á palavra persua- 
siva e dominadora de João das Regras, o candi- 
dato do povo é acclamado rei de Portugal. 

O leão de Castella, não obstante estar abatido 
por tão graves revezes, não inclinaria facilmente 
a cerviz deante da coroa real doeste novo Messias 
do povo, como por ironia dizia o partido de Cas- 
tella. 

Assim aconteceu, de feito. Nova invasão cas- 
telbanhja yeio encontrar na famosa batalba de 
Aljubarrota o mais desolador revez. Animado o 
sentimento patriótico dos portuguezes por in- 
fluencia doesta memorável batalba, os triumpbos 
posteriores são como consequeúcias doesse grande 
tríumpbo. Valverde é uma cbamma que rebenta 
das cinzas de Aljubarrota. A obra da paz, deter- 
minada pelos factos, só muitos annos depois de- 



via ser diplomaticamente confirmada. Não cica- 
triza facilmente uma ferida de tantos annos. 

D. João I parece haver sido um homem fadado 
para refazer tudo quanto D. Fernando desfizera. 
Um procura despedaçar a nacionalidade portu- 
gueza, atirando-a ás garras do leão de Castella; 
o outro disputa-lh'a palmo a palmo e consegue 
supplantar dois inimigos terríveis: a obra de D. 
Fernando e a ambição de Castella. Entre estes 
dois homens, tão oppostos nos seus destinos, um 
elemento poderoso cresce e se avigora: o povo. 

Para ser completo o prestigio da coroa de D. 
João I dois factos contribuíram ainda: a victoria 
de Ceuta e a superioridade intellectual &d sua 
prole. As mesmas chaves de ouro que fecharam 
a Castella as portas de Portugal parece bavel-as 
entregado D. João i a seus filhos, ao expirar, 
para que elles ou a seu exemplo os que vies- 
sem depois, abrissem com ellas a Portugal as 
portai3 do Orieúle. 



FIM DO SECSUIVDO TOIiUME 



índice 



UVRO I 

I>. Diniz 

Gap. Pa6. 

I — O alvorecer d'uai grande reinado 7 

II— Primeiros actos do novo governo, casamento de 0. Dinis 11 

ni— Primeiras perturbações do irmão de D. Diniz, — relações de Portugal com Castella em 

tempo d'Affonso x , 16 

IV— Novas perturbações do irmão de D. Diniz. — Relações de Portugal com Castella no rei- 
nado de Sancho «o bravo» 22 

V — Das relações entre a egreja e o poder civil: primeira e segunda concordatas 28 

VI— Instrucção publica.— Fundação da Universiaade. 36 

Vn — Litteraiura 44 

VIII — Relações entre o estado e a egreja: — as duas ultimas concordatas— desamortisação . . . 51 

IX — Relações de Portugal.com Castella, durante a menoridade de Fernando iv 59 

X — Legitimação dos filhos do infante D. Affonso. — Tratado de Alcanises. — Relações com 

Gastelia e Aragão 67 

XI-T-A nobreza ". 80 

XII— A nobreza (continuação) 90 

XIII— As ordens de ca vallaria:— Templários, Christo, S. Thiago 102 

XIV — Admi nistração : — população— agricultura — minas — commercio — industria — marinha. . 1 ^ 

XV — Guerra civil.— Morte de D. Diniz 144 

Synthese 167 

LIVRO n 

r>. iáLfionso IV 

I— Acclamação de D. Affonso i^. — Os dois bastardos de D. Diniz: D. Pedro o da Ribeira e 
Affonso Sanches.— A casa dos Sousas.— Cortes d'Evora.— Condemnação de Affonao 
Sanches. — Tentativas de conciliação. — Affonso xi de Castella e seus tios. — Guerra en- 
tre Affonso IV e Affonso Sanches. — Negociações entre este ultimo e João Affonso. — 
Arronches.— Sentença condemnando João Affonso por traidor.— Paz 171 

11— Portugal, Castella e Aragão.— Ainda Affonso xi e os seus tutores. — D. Constança Ma- 
nuel. — D. João de Biscaia. — D. Branca. — Negociações para annnlar o casamento jurado 
de D. Pedro de Portugal e D. Branca. — Assassínio dê D. João de Biscaia. — D. Affonso xi 
pede em casamento a infante D. Maria.— Opposição aragoneza.— Realisa-se o contracto 
de casamento.— Revolta de Valladolid.— Confederação de Portugal, Aragão e Castella. 
— D. Affonsoso iv, caçador. — As suas primeiras leis 181 

III— Amores de D. Affonso xi.— Um hábil diplomata portuguez.— Negociações para o divordo e 
novo casamento de D. Pedro de Portugal.— Perturbações em Castella. — Digno proce- 
dimento de Affonso iv. — Opposições do rei castelhano ao casamento de D. Pedro de 
Portugal.— Embaixada portugueza a D. João Manuel. — Revoltas de D. João Nunes 
de Lara e de D. João Manuel.— Portuguezes em Castella. — Continua D. Affonso xi a 
oppor-se ao casamento de D. Pedro de Portugal. — Insulto á armada portugueza. — 
Guerra entre Portugal e Castella. — Casamento de D. Pedro de Portugal 190 

IV — Actividade de Affonso xi. — Por intermédio da rainha D. Maria pede o auxílio de Portu- 
gal. —Resposta enérgica do rei portuguez. — Nova solicitação.— Forças navaes. — Â in- 
vasão mussulmana.— Cerco de Tarifa.— Vem D. Maria a Portugal.— Resolve-se o rd 
portuguez a soccorrer Castella.— Campanha do Salado. — A batalha.— A tragedia de 
Ignez de Castro i 212 

V — Desordens no Aragão. — Casamento da infante portugueza D. Leonor. — Campanhas d'Al- 
geciras e Gibraltar.— A peste.— Morte de Affonso xi.— Assassínio da Gusman. — Si- 
tuação da politica portugueza.- Politica interna. — Código dos judeus. — Commercio, 
navegação e primeiros ensaios de descobertas marítimas. — Morte d'Affonso iv. — Coo- 
siderações 219 



T — pr~*--f 



I 



í 



LIVRO m 



r>. Fedro I 

Cap. ^ . , Pag. 

I— Elevação ao throno, de D. Pedro.— Negociações com o rei castelhano.— Guerra eolre 
Castella e Araiçâo. — Casamentos reaes.— -Os assassinos de D. Ignez.— Revelação do 
casamento de D. Pedro com D. Igaez.— Cortes.— Politica externa 230 '^ 

II— Côrlea d'Eiva3.— Politica interna.— Reclamações dos Estados.- Justiça de D. Pedro 235 



) 



LIVRO IV 

D. Fernando I 

I— Caracter do novo rei. — Reconquista de Castella por D. Pedro.— D. Fernando faz com 
elle um tractado. — Nova invasão do Trastamara. — Morte de D. Pedro. — Guerra eolre 
Portugal e Castella 239 

II— O côrco de Lisboa.- Defeza heróica dos portuguezes.— Alguns episódios.— A paz;— Cri- 
tica da administração de D. Fernando 244 

III— Casamento da infante D. Isabel, bastarda de D. Fernando, com o conde D. Affònso, bas- 
tardo de D. Henrique. — O caso de D. Maria Telles, irmã da rainha D. Leonor 253 

IV — Politica europea. — Especialmente, acontecimentos políticos de Portugal com relação ao 

extrangeiro. — Guerra com Castella. — Iniciação militar de D. Nuno Alvares Pereira. . 266 

V — A guerra. — Os inglezes. — Devastações que fizeram. — Feitos heróicos de D. Nuno Alvares 
Pereira.— Os amores da rainha com João Fernandes Andeiro. — Intrigas que resultam 
d'estes amores 276 

VI — Paz com Castella. — Apreciação doeste acontecimento. — Desespero dos inglezp%. — Resul- 
tados políticos da paz com Castella. — Casamento definitivo da infanta D. Beatriz. — 

Morte de D. Fernando 287 

VII — Sobre o tumulo de D. Fernando. — Principal inQuencia do seu reinado no futuro do paiz. 

— Conquistas politicas do terceiro estado. — A democracia 295 

LIVRO V 

Desde sl niox*te de D* Fei*na.ndo até a. acelAma.çaLo 

de I>. JoSo I 

I— D. Leonor Telles investida na regência do reino.— Como o terceiro estado ganha terreno. 
— Exaltação do sentimento popular pelo espirito de independência nacional. — Episó- 
dios provenientes d'e88a exaltação. — Principio da grandiosa lucta emprehendida pela 
democracia 301 

11 — Influencia crescente do mestre de Aviz. — Como o mestre procura tornar definitivo o apoio 
das classes populares, provocando o fanatismo religioso, e como é acclamado regente 
e deffensor do reino.— Hábil iniciação politica e administrativa do regente.— O que 
D. Leonor Telles pensa 309 

III — Nuno Alvares segue o partido do mestie. — Propagação da revolução democrática. — Adhe- 
BÕes importantes. — ^Negociações diplomáticas com a Inglaterra. — Medidas financeiras 
adoptadas pelo mestre. — Entrada ao rei de Castella em Portugal. — Acontecimentos 
immediatos 315 

IV — Resistência de Coimbra. — Discórdia entre D. Leonor Telles e seugenro.— Plano e mallo* 
gro d'uma conspiração. — Ultimo acto da vida politica da viuva de D. Fernando. — O 
rei de Castella approxima-se de Lisboa.— Prosegue a illiada de Nuno Alvares Pereira. 
— Batalha dos Atoleiros. — Façanhas dos portuguezes 324 

V— Defeza heróica de Almada. — ^Morte de João Lourenço da Cunha. — Nuno Alvares Pereira. 
— Causas do levantamento do cerco de Lisboa.— Cortes de Coimbra.— Acclamaçào de 
D. João 1 de Portugal ^ 338 

LIVRO VI 

Reinado de X>. JoSo I 

I — Primeiros actos de D. João i. — Exigências das cortes. — Victori.as do condestavel e do rei. 

— Batalha de Trancoso. — Acontecimentos até á batalha decisiva de Aljubarrota 346 

II— Forças de um e outro exercito.— O lugar da batalha. — Movimentos dos castelhanos e 
. dos portttgueses.-^A batalha.— •Victoria dos portuguezes. — Despojos e perdas do ini- 
migo.— Considerações 353 



, l " ^v..--r^- 



Cap. Paô. 

III — Remuneração de serviços. — Valverde.— -Influencia d*esla batalha do sentimento patriótico. 
— O rei em Traz-os-Montes. — Rpnovam-se as pretenções do duque de Lancastre; sua 
TJnda a Portugal. —Casamento de D. João i.— Sua grave doença. — Administração in- 
terna e extenw. — Negociações para paz 362 

IV — A familia de D. João i. — E$>pirito cavalieirosodeseusfíihos. — Primeira idéa da expedição 
a Ceuta. — Reservas de D. João i a este respeito. — Doença e morte da rainha. — Expi- 
diçáo a Ceuta 371 

V — Ao descer do paono. — As ruinas da morte. — Últimos annos e faliecimeato de D. João I. . 378 

Appendice. — Resumo da Historia de Portugal desde D. Affonso iv até D. João i 381 



COLLOCAÇAO DAS ESTAMPAS 

Pag. 

D. Diniz e seu mestre Aymeric d'Ebrard 9 

Corte poética de D. Diniz 48 

Tratado d^Alcanizes ; 70 

Investidura do primeiro mestre da Ordem de Cbristo 118 

D. Diniz administrando justiça aos povos v. . 128 

Assassinato do bispo d'Evora 153 

A rainha D. Isabel, penetrando por entre as hostes do rei e do infante evita a batalha do 

campo de Alvalade r. 160 

D. Affonso IV na batalha do Salado ^. 215 

Assassinato de D. J^nez de Castro 217 

O infante D. Pedro levanta o pendão da revolta contra seu pae. 218 

D. Pedro i e o bispo do Porto 237 

Motins populares no reinado de D. Fernando i , 242 

Morte do conde Andeiro 305 

João das Regras nas cortes de Coimbra 343 

Aljubarrota.— Terminada a batalha, Antão Vasqucs d'Almada, apresenta a D. João i a ban- 
deira d'el-rei de Castella 359 

Os infantes em Ceuta 376 



A pag. 165, com referencia ao periodo allusivo ã morte de João Affonso, faltou imprimir a 
nota seguinte: 

António Caetano de Sousa, na Hist Geneàl. vol. r, pag. 281, diz, fatiando de João Affonso: — «Era 
tão pouco acceito a EUrei seu irmão, que o mandou degolar a 4 de Junho do anno de 1325, o primeiro do 
seu reinado,* 

Ha, em Lisboa, diversas copias da sentença condemoatoria. 

A mais antiga é a do códice manuscrípto Ordenações de D, Duarte, — comprado por el-rei, o sr. D. Luiz» 
ao íallecido conde de Farrobo, que o herdara de seu tio, procurador da Fazenda, Luiz Rebello Quintella, 
— K)nde a sentença está escripta em caracteres do século xv. 

Segue-se a do Lwro das Leis e posturas antigas do Archivo Nacional, livro completado, no século 
passado, por uma coHecção mais ampla, pertencente a José de Seabra da Silva. Feita a reconstrucção, 
tirou-se uma bella copia, que também se acha na Torre do fombo. 

No indicado Lwro das Leis e postura» antigas, lé-se a sentença de foi. 79 a 81 y. que pertencem, como 
claramente se vé do pergaminho e letra, ao preenchimento das lacunas effectuado no século xvm. 

As Ordenais de D. Duarte, quando as possuía o conde de Farrobo, foram trasladadas na Academia 
Real das Sciencias. N'es8e traslado, está a sentença a foi. 154 v. 

Ha também uma outra copia, a foi. 2 do tomo i da CoUecfõo de Sentenças, que a Biblíotheca 
Publica comprou á viuva de António Joaquim Moreira; está ligeu'amente annotada, e foi extrahida do 
traslado da Academia. 

Em todos os legares citados, tem a sentença a data de 4 de Julho da era de 1364, anno de 1326. Mas 
-eai nenhum, o fúnebre decreto apresenta verdadeiro caracter de authenticidade; consta apenas de copias, ex- 
ceptuando a do livro d' Ajuda, relativamente modemissimas e sem indicação do documento de que foram 
tiradas. . 

Pode duvidar-se por tanto da sua exactidão. 

Caetano de Sousa, imprimiu a Hist. GeneaL na primeira metade do século xvm, antes das destroi- 

Sões causadas pelo terramoto e incêndio de 1755; teve á sua disposição os archivos importantes, como o 
a casa de Bragança, que se perderam no grande sinistro; poude> talvez examinar o original da sen- 
tença, --e afirma, positivamente, que a morte foi decretada no primeiro anno do reinado de Affonso iv, 
em 1325. 

Tendo escripto no texto a data designada por Caetano de Sousa, — é porem um dever indicar igual« 
mente a que se lé nas alludidas copias da sentença, tanto mais que, attendendo á snccessão histórica dos 
factos, talvez se deva reputar por verdadeira a de 4 de julho de i326« BmuiAaooro Poranio* 



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deiro, com 16 gravuras, ÍA600 réis. O 5.<^ volume, original de'£daardo Vidal, com 14 gra- 
vuras, 1^400 réis. Preço avulso por volume, 2j&000 téis. Continua recebendo-se assigaaturas 
para esta importante obra. Cada fasciculo contendo três folhas d'impressão e uma gravura, custa 
em Lisboa 100 réis e na provincia, 110 réis. O assignante pôde receber em cada entrega os fns- 
ciculos que desejar, até estar em dia com a publicação. — ^Estáo no prelo o 3." e 4." volumes. 



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